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lado.c. lado.c. música.artes.cultura música.artes.cultura nº1 - junho/11 nº1 - R$8,00 - junho/11 - R$8,00

PATO FU PATO FU LANÇALANÇA ÁLBUM FEITO FEITO ÁLBUM COM BRINQUEDOS COM BRINQUEDOS

e ainda: e ainda:

documentário sobre Pinasobre Bausch, documentário Pina Bausch, entrevistaentrevista com Móveis Coloniais de Acajú com Móveis Coloniais de Acajú


.foto.

Fotos de Thiago Dragoni veja mais sobre o autor nas últimas páginas desta edição.


.editorial.

A arte que invadiu a vida

A arte contemporânea brasileira tem mais de 40 anos e ainda causa estranhamento. É comum ouvir frasesde espanto, como O que é isso? ou Isso é arte?, quando se visita uma mostra ou um museu atualmente. A Lado C procurou entender a razão desse entimento. Pistas foram dadas em reportagens, nas falas de críticos, historiadores e artistas. O curador Paulo Sergio Duarte, em entrevista especial, acredita que a dificuldade das pessoas venha da falta de experiência: “Quem vai a uma exposição uma vez por ano não entende de arte. A repetição é fundamental”. Outro curador, Tadeu Chiarelli, em resenha, pontua: “Muito daquilo que se observa não possui conexão com o que foi ensinado como arte”. Com mais páginas e novo visual, a revista se reformula e passa a ter periodicidade bimestral. Foram criadas seções fixas como Arena, com abordagens antagônicas para a mesma questão: o professor Norval Baitello Júnior e a crítica Angélica de Moraes debatem a morte da arte. Uma Fotorreportagem também integra as seções permanentes - a fotógrafa Luana Fischer mostra o estranhamento de várias pessoas ao ter sua casa invadida por obras contemporâneas. Ficção trará sempre textos inovadores na forma ou no conteúdo, como o conto do escritor gaúcho Paulo Scott sobre uma artista inexistente. A cena latina passa a ter atenção constante, com a seção Mirada, que apresenta artigo do crítico chileno Justo Pastor.

Lado C

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08 Editora Eixo Revista Lado C Julho de 2011 Número 1 Ano 1 Expediente Jornalista Responsável: Celso Tokusato Direção de Arte: Joelma Tokusato Diagramação: Joelma Tokusato Fotografia: Cláudia Oseki Albion Solucions Recheio Studio Estevam Romera Jornalistas: Djenane Arraes Nara Virada Ana Carolina Colaboração: Thiago Navarro Dragoni Adriana Kubota Bruno Arruda Fanzine Elebu

4 - .Lado.C.

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11 12

.índice.

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02/19 .mural. Sensível olhar sobre a Europa, com toque de alegria e melancolia 03 .editorial. A arte invade a vida 04 .lado.novo. Bijörk, Paralamas e Pixinguinha 05 .infográfico. A internet a serviço da música 08 .lado.música. Mistura inusitada na Virada Cultural 09 .lado.arte. Comunismo em foco e foto 10 .lado.cinema. Filme conta Pina 11 .lado.livro. Romance de Sara Gruen 12 .capa. Pato Fu brincando e musicando 16 .entrevista. A internet, mãe da música 18 .opinião. O MIS pede socorro

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Maestro israelense rege concerto histórico na Faixa de Gaza Israel proíbe seus cidadãos civis de viajar para Gaza, então Barenboim entrou no território, acompanhado por 25 músicos, pelo posto de fronteira de Rafah, na divisa com o Egito. Há anos, ele vem usando a música para tentar promover a paz entre Israel e os palestinos. Como parte desse projeto, criou a WestEastern Divan Orchestra, integrada por jovens árabes e israelenses. A orquestra tocou na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, em 2005. O concerto na cidade de Gaza, no entanto, foi uma das iniciativas mais ambiciosas do músico, diz o correspondente da BBC Jon Donnison, em Ramallah.

Em crise, Orquestra Sinfônica Brasileira faz testes com novos músicos Depois de uma crise que resultou no afastamento de 36 músicos, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) começou nesta segunda-feira a promover audições com instrumentistas em Londres para completar seus quadros. O processo de seleção para contratar 33 músicos vai até quarta-feira na capital britânica, seguindo depois para Nova York, na sexta-feira, e terminando no Rio de Janeiro, no fim do mês. Na semana passada, o Sindicato dos Músicos do Reino Unido (MU, na sigla em inglês) anunciou seu apoio ao boicote, assim como a Orquestra Filarmônica Real de Liverpool, que teve três concertos regidos por Minzcuk nos últimos dias.

6 - .Lado.C.

Uma exposição das tradicionais bonecas russas vem atraindo crianças e adultos a um shopping center de Moscou. As matrioshkas, como elas são chamadas, são bonecas de madeira tradicionalmente apresentadas em uma série, de tamanhos diferentes, que se encaixam uma exatamente dentro da outra, de modo que apenas a maior possa ficar exposta, contendo todas as outras em seu interior. Elas vêm repetindo o sucesso que fizeram e m Paris, há um ano. O que chama atenção nesta exposição é o tamanho exagerado das bonecas, que vai de seis a treze metros de altura. Cada uma das bonecas gigantes representa um estilo diferente da arte tradicional russa. “Gostei muito da mostra. Cheguei aqui por acaso, depois de ter visto de longe uma enorme matrioshka”, afirmou uma visitante. Ela também diz ter ficado impressionada pela variedade de estilos. Todas as bonecas foram feitas a mão pelo ateliê do artista russo Boris Krasnov, um conhecido cenógrafo do país.


Esta semana radiografamos as boas bandas que surgiram na internet.

.infogrรกfico.

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Orquestra Experimental de Repertório e Sepultura tocam juntos na Virada Cultural pela defesa do pau-brasil

Foto da apresentação e ensaio da Orquestra

8 - .Lado.C.

Por Nara Virada

P

ela primeira vez, a Virada Cultural recebe um encontro inusitado para a defesa da causa da preservação do meio ambiente. O encontro entre a música erudita e o rock ‘n roll, que será protagonizado pela banda Sepultura e a Orquestra Experimental de Repertório, corpo artístico do Teatro Municipal de São Paulo, dia 16, no Palco Estação da Luz, à 0h, tem como principal bandeira a preservação do pau-brasil, material usado para a fabricação dos arcos dos violinos. A árvore é apontada como em extinção pelo Ibama e o encontro busca sublinhar o fato de que o futuro da música depende da preservação do pau-brasil. Como forma de dar visibilidade ao tema, 1.000 mudas de pau-brasil foram doadas pelo Instituto Verde Brasil especialmente para o concerto na Virada Cultural e serão replantadas em áreas de preservação ambiental. O engajamento do Sepultura para a preservação da árvore típica do Brasil aconteceu porque a Interface Filmes e North Produções encarregada de fazer o documentário sobre a banda é a mesma que produziu o premiado documentário A Árvore da Música.


O Mundo Mágico de Escher

A

mostra “O mundo mágico de Escher” chega ao CCBB do Rio de Janeiro, e fica em cartaz de 18 de janeiro a 27 de março, depois de ter passado por Brasília, e antes de chegar em São Paulo, durante o mês de abril. O melhor de Escher está na reunião de 95 obras, incluindo todas as mais importantes produzidas pelo mestre da ilusão de ótica e dos paradoxos. A mostra reunirá gravuras originais, desenhos e fac-símiles, incluindo todos os trabalhos mais conhecidos do artista, suas obras mais enigmáticas. O acervo vem da coleção do Haags Gemeentemuseum, que mantém o Museu Escher, na cidade de Den Haag, na Holanda. A exposição permitirá que o público passe por uma série de experiências que desvendam os efeitos óticos e de espelhamento que o Escher utilizava em seus trabalhos: como olhar por uma janela de uma casa e ver tudo em ordem e, em seguida, ver tudo flutuando por outra janela, ou ainda assistir um filme em 3D que possibilitará um divertido passeio por dentro das obras do artista gráfico. A expografia apresentará animações de algumas de suas gravuras.Reunir tantos trabalhos do artista não foi fácil e, provavelmente, essa será a única oportunidade de apreciar tantas obras reunidas fora do museu. “As obras do Escher são muito raras e muito procuradas para exposições. Só existem três coleções no mundo. As gravuras são muito frágeis e o Haags Gemeentemuseum, que emprestou as obras originais, depois desta exposição, não poderá exibi-las por mais de quatro anos”, Pieter Tjab-

bes, curador da mostra. Escher ficou mundialmente famoso por representar construções impossíveis, preenchimento regular do plano, explorações do infinito e as metamorfoses – padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes. Sua capacidade de gerar imagens com impressionantes efeitos de ilusões de óptica, com notável qualidade técnica e estética, respeitando as regras geométricas do desenho e da perspectiva, é uma de suas principais contribuições para as artes.

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Preservar o legado de Bausch

Preservar o legado de Bausch Por Eva Usi

Documentário de Wim Wenders sobre Pina Bausch chegará aos cinemas em 2011

Quatro meses após a morte de Pina Bausch, o cineasta Wim Wenders iniciou as gravações do documentário Pina sobre o trabalho da coreógrafa alemã. O filme será gravado com a tecnologia tridimensional utilizada em filmes de animação de Hollywood, como Toy Story e Idade do Gelo 3, com efeitos especiais que fazem com que o espectador se sinta dentro do filme. De acordo com o cineasta, a nova tecnologia permite transportar o público diretamente ao palco, retratando o movimento humano nas coreografias de Bausch de uma maneira totalmente nova. Em Wuppertal, cidade que sedia a companhia que a coreógrafa dirigiu por 35 anos, até sua morte em junho passado, Wenders apresentou o projeto do documentário. “O telespectador terá a oportunidade de ver a coreografia e a dança de Pina Bausch como se estivesse sentado na primeira fila no teatro”, disse o cineasta.

10 - .Lado.C.

Os bailarinos da companhia de Pina Bausch disseram estar satisfeitos com o trabalho do cineasta, uma vez que a tecnologia 3D irá preservar a coreografia desta que é uma das precursoras do teatro-dança. “Sou muito grato pela produção do documentário”, disse o francês Dominique Mercy, que dirige a companhia juntamente com o alemão Robert Sturm, que foi assistente artístico de Pina Bausch durante dez anos. “É uma tarefa difícil levar às telas o trabalho de Pina, mas estamos contentes por um cineasta como Wim Wenders ter se encarregado disso”, disse Sturm. Bausch revolucionou a linguagem da dança moderna e foi aclamada internacionalmente. Sua morte causou consternação em vários países do mundo. “Ela sempre me inspirou, nossa amizade era muito intensa, era uma mulher muito feminina e sensual”, comentou o cineasta espanhol Pedro Almodóvar após sua morte. A coreógrafa aparece em uma cena de Fale com ela, dirigido pelo cineasta espanhol. Pina Bausch faleceu aos 68 anos, cinco dias após ser diagnosticada com câncer no dia 30 junho de 2009.


Água para Elefantes

Crítica e público classificam como romance de pouca profundidade

Capa da edição brasileira Por Ana Carolina

O

livro conta a história de Jacob Jankowski, sendo que em capítulos ora ele tem 93 ou será 90 anos, ora 23 anos. Jacob cursava a universidade de Veterinária até o dia que recebe uma notícia que mudaria a sua vida. Arrasado, larga a faculdade e entra no trem do circo dos Irmãos Benzini , O maior espetáculo da Terra. E nesse momento ele conhece August, Marlena e o Tio Al, dono do circo. Jacob é contratado como o veterinário do circo, mesmo não ter completado a faculdade e se apaixona pelo circo e pelos animais. Quando comecei a ler o livro já sabia que ele era bom pois, só ouvia comentários positivos sobre ele. Mas ter o prazer de lê-lo foi muito melhor. Sara Gruen tem uma escrita que me transportou para dentro do circo. Muitas vezes achava que estava lá e as emoções ao ler esse livro eram muito fortes, ainda bem que me segurei para não chorar. Sara intercalou a vida do passado e do presente de Jacob. A maioria dos capítulos são quando ele tem 23 anos e quando tem 90 anos, ou 93 porque ele nunca se lembra direito, ele conta a sua história para a Rosemary, a enfermeira da casa de repouso que ele vive, que eu achei super gentil e fofa. O livro é repleto de animais e tem uma que faz Jacob se apaixonar. A Rose, a elefanta que entende polonês. Sim, você leu direito. :) Como você já percebeu, Rose é bem diferente dos outros animais e ela apronta muito no livro e eu me diverti bastante com ela. Uma coisa que eu quase quis fazer é desistir do livro pois, o livro demonstra a

crueldade que o ser humano faz e isso me tocou e muito. É um livro maravilhoso, com uma capa linda e uma história apaixonante e chocante. Tenho certeza que você vai se apaixonar ao lê-lo. Eu não adorei o livro, e sim amei. Se entregue a esse livro e com certeza não irá se arrepender. Parabéns, Sara Gruen por esse maravilhoso livro. E uma curiosidade a escritora se inspirou em umas famosas elefantas, a Topsy e a Old Mom, em que dedica o livro para elas. Se fosse para dar uma nova ao livro, eu daria 10! Magnífico e espetacuclar!

“A idade é um ladrão terrível. Justamente quando se começa a entender melhor a vida, a idade nocauteia suas pernas e arqueia suas costas. Ela traz dores, lhe confunde a cabeça...” Trecho do livro


.capa.

É tudo de brinquedo!

Divulgação


“Os Muppets”. Por mais curioso que possa parecer, o programa de fantoches com Caco e Miss Piggy foi o muso inspirador do mais novo álbum do Pato Fu. Lançado nesta semana, “Música de brinquedo”, como o nome já sugere, traz o grupo mineiro recriando canções clássicas do repertório nacional e internacional apenas com o uso de instrumentos infantis.

Por Djenane Arraes

“É importante considerar o que é um instrumento ‘de brinquedo’, ou ‘miniatura’. No caso, o cavaquinho não é nem uma miniatura e nem um instrumento de brinquedo”, explicou a professora doutora da Universidade de Brasília (UnB) Maria Cristina Azevedo, ao falar sobre o uso objeto dentro da proposta do disco Música de Brinquedo, o décimo da carreira do Pato Fu. Longe da crítica pela crítica, o que a acadêmica e musicista fez foi apontar uma das várias questões provocadas por um trabalho comercial que fugiu dos padrões do mercado. No caso, um CD de regravações de canções populares tocado com pianinhos, apitos, pandeirinhos, bichos que fazem ruídos e tudo mais.

O Música de Brinquedo

Gravar o Música de Brinquedo foi uma idéia “simples, singela e simpática”, nas palavras de Fernanda Takai, que a banda teve para registrar o décimo disco em 18 anos de carreira: um trabalho de covers onde os instrumentos usados foram de brinquedo, miniaturas e outros relacionados com a musicalização infantil. Não foi a primeira vez que o Pato Fu gravou com “brinquedinhos”. No anterior Daqui Pro Futuro há diversas intervenções desses objetos. Fizeram, em 2007, um

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O Música de Brinquedo

Gravar o Música de Brinquedo foi uma idéia “simples, singela e simpática”, nas palavras de Fernanda Takai, que a banda teve para registrar o décimo disco em 18 anos de carreira: um trabalho de covers onde os instrumentos usados foram de brinquedo, miniaturas e outros relacionados com a musicalização infantil. Não foi a primeira vez que o Pato Fu gravou com “brinquedinhos”. No anterior Daqui Pro Futuro há diversas intervenções desses objetos. Fizeram, em 2007, um clipe de Mamã Papá para o projeto Música de Bolso, quando gravaram uma versão ao vivo com violão, porquinho tremelique, tecladinho, xilofone e... um cachorro colorido? Pode-se dizer também que a banda utiliza objetos ruidosos desde o início da carreira, eletrônicos e caros ou não. De qualquer forma, não é uma obra que surgiu do acaso. O histórico é amplo.

A questão dos Brinquedos

Música de Brinquedo tem 12 clássicos do pop nacional e internacional. A canção que deu o impulso inicial para o projeto foi Primavera (Vai Chuva), de Cassiano e Silvio Rochael. E seguem hits de Rita Lee (Ovelha Negra), Paralamas do Sucesso (SKA), Zé Ramalho (Frevo Mulher), Paul e Linda McCartney (Live and Let Die), Roberto e Erasmo Carlos (Todos Estão Surdos), entre outros. Alguns dos compositores atenderam à reportagem do Elefante Bu (eu, no caso), a recepção foi muito positiva. Barry Mann e Cynthia Weil, de Rock and Roll Lullaby, deixaram o recado: “What a fun listen”. João Barone disse em nome dos Paralamas: “Ouvimos e adoramos, somos patofãs”. Sérgio Britto elaborou melhor: “Este disco – e especificamente a regravação de Sonífera Ilha – é divertido acima de tudo e no melhor sentido que a palavra pode ter. É um raro prazer poder ouvir versões de músicas conhecidíssimas (e ir identificando, uma um, todos os detalhes do arranjo original) ao mesmo tempo em que se tem a sensação de novidade e frescor”. Britto considerou que a reprodução quase que literal dos arranjos nos brinquedos foi a grande sacada, mas que por si


“Este disco (e especificamente a regravação de Sonífera Ilha) é divertido acima de tudo e no melhor sentido que a palavra pode ter. É um raro prazer poder ouvir versões de músicas conhecidíssimas (e ir identificando, um a um, todos os detalhes do arranjo original) ao mesmo tempo em que se tem a sensação de novidade e frescor” Sérgio Brito, Titãs

só não bastaria para ter um bom resultado. “Há, como de costume, a interpretação da Fernanda Takai sempre na medida exata. Mas o que realmente salta aos olhos é o trabalho meticuloso de adequação de timbres e execução desses ‘brinquedos’ que, assim como as crianças, ao menor descuido costumam fugir ao controle dos pais. É justamente nesses ‘vacilos’ que re-

side boa parte da graça da sonoridade do disco”.

O que vai ficar?

As questões sobre o décimo trabalho do Pato Fu continuaram a correr soltas ao longo das entrevistas: a validade da participação das crianças, importância iniciação musical infantil e como esse disco poderia contribuir, preferências quanto ao repertório. A posteridade da obra também foi levada em consideração. Sobre este último tópico, Beth Ernest Dias foi particularmente mais crítica ao dizer que, tal como aconteceu com Os Tribalistas – projeto de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes – o Música de Brinquedo pode enfraquecer depois do impacto inicial. “Claro que estou falando como músico, é uma apreciação bem profissional”, justificou, “porque há discos que ficam como referência, como por exemplo Samambaia do Hélio Delmiro e do César Camargo Mariano. Foi só um LP, mas que ficou para toda vida e será sempre um manancial de música. Mas esse não. Inclusive os arranjos reproduzidos já eram famosos, eles não mudaram. Então nada foi acrescentado, musicalmente falando. Eles estão brincando de fazer música com instrumento de brinquedo. Claro que tem seu lado interessante ao mostrar que é possível fazer e soar legal”.

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.entrevista.

Móveis Coloniais de Acajú

Depois de uma sessão de ensaio intensa, na qual os integrantes choraram de emoção e discutiram fortemente, eu segui com três dos integrantes, - Esdras Nogueira (saxofonista), Beto Mejía (flautista) e Fábio Pedroza (baixista) - para uma lanchonete. Foi lá, entre sanduíches, que os três falaram para o Lado C sobre o processo de composição, gravação e divulgação do “C_MPL_TE”.

Por Matheus Vinhal

Lado C: Eu me lembro da primeira vez que vi o nome do disco e achei muito interessante, diferente. E como com qualquer coisa diferente, a gente acaba tentando entender o que vocês estão querendo dizer com isso

Beto Mejía: E o que você pensou na primeira vez que você viu a grafia do nome [“C_MPL_TE”]?

Lado C: Ah, a primeira coisa que você vê é que

tem algo a completar. Como se os Móveis tivessem convidando o público deles a completar o trabalho.

Esdras Nogueira: Bacana, porque eu não sei se

as pessoas vão sacar quando o disco sair e verem o encarte.

Beto: A primeira coisa que escreveram sobre o

nome, foi até aquela socialite: “Ah, o Móveis vai lançar o segundo disco com o nome meio im-

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pronunciável”. Ela não sacou a vibe (risos). Mas é isso que você falou, mesmo. É justamente isso.

Esdras: Acabou a entrevista, agora vamos

tomar uma cerveja! (risos) É, na realidade, essa parada partiu da nossa relação com o público e com a nossa relação com a gente, que tem que ser a mesma. Existe uma relação de troca, tanto com o público quanto com os dez [integrantes]. Hoje [no ensaio] a gente teve essa relação de amor e ódio, várias vezes. Na hora em que tava ensaiando, neguinho chorando, e, quando acabou o ensaio, neguinho quebrando o pau. É uma relação muito louca, intensa. Mas, assim, a relação é tudo, não é só um pedaço, tem que aceitar tanto a parte boa quanto a parte ruim e tem que saber lidar com isso. E a gente tinha sentido isso muito intenso, cara. E nesse disco, conceitualmente, antes da gente saber o que iria gravar, a gente já sabia que esse era o conceito.

Beto: Acho que a partir dessa nossa relação,


a gente percebe o quanto a banda precisa do público, também. O processo de composição mudou bastante do primeiro disco [“Idem”, lançado em 2005] para o segundo. Cada um agora completava o outro, trazia novas ideias. O processo era um pouco mais diversificado, mais aberto para todo mundo dar palpite e até ter mais intimidade. Dentro do processo a gente via que quando todo mundo colocava um pouquinho, esse pouquinho ia fluindo de uma maneira que, no outro dia, a pessoa ia colocando mais um pouco. E na hora de fazer o disco a gente fez uma análise do que aconteceu com o Móveis até agora, o que levava o Móveis a tocar em festivais, o que acompanhava o Móveis desde cedo e que tinha uma recepção boa. E a gente percebeu que era o público, porque a gente se entrega. A gente tem essa troca, como o Esdras falou. E nada mais justo e gratificante do que chegar lá e falar: “Olha, vamos compartilhar isso com vocês, completa a gente também. Vem participar do processo, também”.

Esdras: A gente tem essa identidade em qualquer

lugar, sabe? Basicamente do mesmo modo que Macaco Bong fala, “Artista Igual Pedreiro“. Não é ser pop star, não tem porque ser, sabe? É você

ainda estavam numa transição. Mas acho que mais do que isso, foi uma opção da banda, mesmo. Uma opção de mudança de trabalho. Foi levar às últimas consequências o que a gente meio que já fazia antes, mas que ainda não tinha coragem de assumir, que é um trabalho em grupo. No “Idem”, as músicas vinham completamente prontas de alguém e a gente fazia os arranjos, ou a gente fazia [a música] juntos e continuava chamando de arranjo. A gente foi incorporando tanto essa relação de “O que vem é modificado pelo grupo” que foi algo que foi acontecendo. Foi indo aos poucos…

Lado C: E isso saía mais dos ensaios? Esdras: De tudo, cara. O título do disco, nada mais ganhar seu dinheirinho, trabalhar, ser feliz e ter essa relação de troca. É isso que faz a música fluir. Não é ter uma luz foda, não é ter um som foda, não é ter uma música foda, é ter essa identidade que vai levar as outras coisas a outras etapas. É uma relação, mesmo.

Lado C: Vocês podem falar mais do processo de

composição? Porque parece que foi bem diferente [do processo do Idem]. Até porque é o segundo disco, as músicas geralmente são feitas pensando em compor para o disco…

Fábio Pedroza: Mais do que isso, na verdade. Porque

o disco começou tem mais de dois anos, desde 2005 ou 2006. E a gente tinha várias músicas que

é do que isso: “C_MPL_TE” poderia ser o título do nosso Big Brother. Hoje nós estávamos juntos desde as seis horas da manhã, trabalhando. E com isso o disco, musicalmente, se tornou possível. Porque a gente já tinha isso na nossa relação. Foi uma forma musicada de passar isso, não sei se vai ficar claro para a galera, mas para a gente… Fábio: E a gente comprou isso, mesmo. Por exemplo, as letras sempre foram uma coisa muito pessoal, então era uma coisa que a gente nem tocava. Mas aí a gente chegou e viu: “Pô, não faz sentido”. Esdras: É lógico que alguém, por exemplo, que entrega uma letra… O cara, sei lá, acabou o namoro e fez uma letra e o outro cara chega e fala: “Muda isso, e isso, e isso”, ou fala: “Cara, isso tá muito bom”. Isso foi legal. Claro, tem discussão… Beto: Estamos aprendendo. É uma fase instrumental, é um resultado muito diferente do “Idem”, mesmo. Mas é uma fase instrumental…

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.opinião. de Lucia Santaella

Crise no MIS

O destaque

endômico na cultura e na educação deste país parece ser para sempre irrecuperável. Uma das razões para isso encontra-se no fato de que, cada vez mais, está se tornando difícil, senão impossível, às pessoas diferenciarem a qualidade da quantidade. Sim, de quantidade estamos empanturrados: projetos culturais como nunca se viram tantos, novas universidades que se abrem, programas de pós-graduação lato e estrito senso sem fim, MBAs em cada esquina. Artistas brasileiros, há anos radicados na Europa, começam a voltar ao país para participar da grande feira borbulhante das quantidades. Estatísticas e gráficos eufóricos colocam o Brasil nos píncaros dos grandes números. De que valem os números quando faltam pessoas capazes de separar o joio do trigo? Pior ainda, quando não se pode totalmente confiar nesses números? A matéria publicada na Folha -- alegando uma crise no MIS e no Paço das Artes em São Paulo e que, sem contar com qualquer pesquisa mais séria e cuidadosa, demoniza a diretoria dessas instituições-- não passa de um sintoma cabal de uma outra crise bem mais profunda: a crise do julgamento de qualidade na cultura e na educação no Brasil, aliás, campos em que a qualidade é quase tudo, pois é ela que tem o pulso e que dá o norte. Sem o valor da qualidade, tudo fica errático e se dispersa em festividades levianas, episódicas e desenraizadas. O trabalho que vem sendo realizado por Daniela Bousso à frente dessas instituições é admirável pelo teor de qualidade que tem nele imprimido. Projetos sintonizados com os ventos vivos da arte e da cultura, incentivo a novos artistas, curadorias de renomados artistas internacionais, cursos inovadores, laboratórios de pesquisa e criação nas linguagens da arte, tudo isso coloca essas duas instituições no mesmo nível de instituições de países avançados. As críticas a que injustamente uma diretoria tão acima da média está sendo submetida não passa de um sinal evidente de que a cultura deste país incorrigivelmente não passa de uma cultura do Carnaval, do oba oba, da leviandade, da ação entre amigos e da corrupção cognitiva.

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Thiago Dragoni

Ele tem 23 anos e estuda Publicidade e Propaganda na USP. Já trabalha como fotógrafo, produzindo na área de moda e publicidade, porém a maioria de seus experimentos foram feitos em uma grande viagem pela Europa e Ásia neste último ano. O rapaz chamou a atenção pelas fotos singulares, com belo olhar, luzes e composição. Tem ótimas paisagens, mas os retratos são os mais encantadores. Confira mais fotos : http://thiagodragoni.carbonmade.com/ http://flickr.com/navadragon

.foto.



Lado C