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richard serra em louisiana

the gate in the george faculdade de arquitetura e urbanismo da universidade de s찾o paulo

julho/2013 auh 325 aspectos da linguagem contempor창nea prof dr agnaldo a c farias

ana cristina niessner 5640358


sumário 04

introdução

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richard serra

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louisiana

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o visível

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o invisível

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conclusão

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bibliografia

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introdução

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O objeto central desta análise é a escultura “The Gate in the George”, 1988, do norte americano Richard Serra, 1939. A obra site specific encontra-se em Louisiana Museum of Modern Art, nas proximidades de Copenhagen, Dinamarca. Como levantado em aula, a arte produz espaços de infinitas maneiras. Compreender a escultura, especialmente, trata-se de lidar com a problematização deste espaço e a reação que provoca no espectador como experiência sensorial. Passando por Les Bourgeois de Calais (188489), de Rodin, e a relação criada através da escala próxima de 1:1, por exemplo; ou na fotografia de La Muse Endormie (1910), de Brancusi, e os artifícios e esforços do fotógrafo para disfarçar os reflexos do entorno – característica inerente de sua materialidade; assim como o Light-Space M o d u l a t o r ( 1 9 3 0 ) , d e M o h o l y N a g y, q u e o n o m e r e f l e t e p r a g m a t i c a m e n t e e s s e a s p e c t o ; o u n a s i n c l u s õ e s m a t e r i a i s e a r q u i t e t ô n i c a s d e Ta t l i n e m Counter Relief (1914-15); abordou-se, introdutoriamente, a dimensão de um conjunto de obras que remetem a atenção do espectador a sua fisicalidade. The Gate in the George não foge desta condição. Encontra-se no parque de esculturas de um museu atípico, que vem se desenvolvendo como programa arquitetônico e artístico nas últimas décadas. A relação entre arte, arquitetura e paisagem é íntegra nos dois casos, de obra e local, como será abordada adiante. Em suma, Louisiana caminha ao longo do tempo junto a ideia de arte - inicia seu acervo com obras do pós-guerra e encara as mudanças do campo artístico, desde então, como um novo

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aprendizado para a própria construção, assimilando gradativamente o c o n t e m p o r â n e o e c a t a l i s a n d o o i n t e r m e i o e n t r e o b r a e e s p e c t a d o r. O t í t u l o T h e G a t e i n t h e G e o r g e s e r e f e r e a o b r a d e G e o r g e Tr a k a s , S e l f p a s s a g e ( ? ) , q u e s e i n s e r e , a l í , p r ó x i m a a i n s t a l a ç ã o d e S e r r a . Tr a k a s , 1944, é um artista canadense e, assim como Serra, suas obras tem relação integral com a paisagem. Self passage é um caminho a beira do desfiladeiro. Para percorre-lo é necessário um estado de individualidade e atenção: é um caminho estreito em meio as declividades e vegetação do museu, promove uma relação distinta com o espaço, um jogo de pisadas curtas e degraus desconfortáveis – característica que remete também ao acesso do Sonic Pavillion (2009), de Aitken, no Inhotim.

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Nas formas minimalistas, Serra agrega o processo de criação como parte do produto final- apesar de não existir de fato, um produto final, já que as placas de aço sofrem com intempéries, mudam de cor e textura ao longo do tempo, assim como seu entorno, tornando a obra um objeto transformativo.

S e lf p a s s a g e . v i a f l i c k r. c o m/ photos/ leablum/

Considerando, assim, os questionamentos colocados em aulas e as experiências oferecidas pela disciplina, este ensaio se faz a partir de leituras contextuais em diferentes escalas, que envolvem o ambiente da arte contemporânea em que foi produzida a obra, a localidade onde se insere, os aspectos de produção ao se tratar de uma construção da process art e as qualidades visíveis e invisíveis do conjunto.


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richard serra

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Serra (1939) é um artista norte-americano que iniciou seu percurso na década de 1960. Ligado ao grupo nova-iorquino dos minimalistas, desde criança teve contato com técnicas da siderurgia. O pai fora encanador nos estaleiros da marinha norte-americana e durante sua formação, na universidade da Califórnia, trabalhou na área para manter os estudos. Inovou no uso de materiais industriais, usuais na construção civil – como em pontes, silos e arranha-céus - adotando-os nas artes plásticas. Esclarece que essa convivência desde a infância o permitiu não ter medo de manusear o aço. 9

Seu foco principal é na proximidade com o processo de produção e materialidades, acima do produto final. Serve-se das formas de grande e s c a l a p a r a c r i a r e x p e r i ê n c i a s d e i n t e r a ç ã o c o m o e s p e c t a d o r, c o n f r o n t a n d o o b j e t o e e s p a ç o , e s t e m u i t a s v e z e s p ú b l i c o . N e s t e p o n t o , a o b r a Ti l t e d A r c (1987) causou polemica ao subverter o esperado por uma escultura ao lado de uma fonte. A imensa parede negra, de aço, é antagônica a paisagem, cortante não só no desenho do piso, mas também na verticalidade dos e d i f í c i o s u r b a n o s a o r e d o r. A o b r a f o i c o n d e n a d a o f e n s i v a e r e t i r a d a d o local após mobilização de moradores da área nobre de Nova Iorque. Em suas instalações de aço não há pregos, amarras ao chão, fundações ou outros meios para manterem-se estáveis. Apenas a gravidade aplicada à massa do aço somados a cálculos precisos fazem tais estruturas manterem-se em pé, muitas vezes sendo curvadas e inclinadas em ângulos surpreendentes.

Ti l ted Arc, 1987. vi a http: //w w w. artsc e n e c a l . c o m


As formas e curvas imprevisíveis tornam um desenho propriamente arquitetônico inviável, remetendo a imagens cinematografias e a necessidade de vistas sucessivas para compreender a obra. A exemplo, as seções cônicas de Clara-Clara (2008), em Paris, ou a extensa linha que Shift (1970), em Ontario. Desta forma, a escultura entrelaça o corpo, com c u r i o s i d a d e q u e q u a s e s e d e s m o n t a n o p e r c u r s o a o s e u r e d o r, q u e f o g e m de uma interpretação instantânea, mantendo a permanente dinâmica de reconhecimento. Este tipo de exercício de relacionamento estrutural, temporal e corporal é genuinamente encontrado na arquitetura. A evidente importância deste contato na formação acadêmica do arquiteto pode ser vista na disciplina d o p r i m e i r o s e m e s t r e d o c u r s o d a FA U U S P. E m F u n d a m e n t o s d o P r o j e t o exercita-se a construção e intervenção no espaço com composições de caixas de papelão que remetem a intenção de Serra, criando percursos e induzindo caminhos.

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f u n d a m e n t o s d e p r o j e t o , 2 0 10. arquivo pessoal

Neste âmbito da ação, ainda, Serra lança em 1968 uma compilação de verbos transitivos que ilustra o fenômeno de interação. E como Gibson ilustra em seu texto para The New Criterion, ao falar da recente exposição de desenhos de Serra no MOMA, em São Francisco, existem o s “ d e s e n h o s ” e “ d e s e n h o s d e e s c u l t o r ” , a o p e n s a r- s e n o p r i m e i r o , remete-se a uma imagem de duas dimensões, enquanto o segundo, tende mais a um croqui, um estudo para uma instalação – aí, Gibson define que as técnicas de Serra estão ofuscadas entre esses dois termos, o


que pode ser bem claro nas obras Pacific Judson Murphy (1978) e Blank (1978), que consistem em quadros de tecido preto expostos na parede, conformando um diálogo de pressão e encurralamento do espaço, sendo apenas compreendido pela experiência de reconhecimento, não bastando um olhar corrido para uma tela, depois a outra, a obra é de fato a ação que ocorre com o espectador presente.

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Ve r b L is t ( 1 9 6 7 - 6 8 ) . v i a h t t p : / / www.moma.org


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louisiana

9 8

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mar

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lago

redesenho de estudo do museu *. The Gate in the George 1. estacionamento 2. entrada e saída 3. old villa 4. auditório 5. café 6. parque das esculturas 7. quest house 8. guest studio 9. utility building 10. banheiros

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E m a n á l i s e p a r a l e l a , n a d i s c i p l i n a d e H i s t ó r i a e Te o r i a s d a A r q u i t e t u r a I V, r e a l i z o u - s e u m l e v a n t a m e n t o c o m p a r a t i v o d e L o u i s i a n a c o m o i n s t i t u t o brasileiro Inhotim, tendo em vista seus programas influentes na museologia c o n t e m p o r â n e a . To m o u - s e o s a s p e c t o s d e d e s l o c a m e n t o d o s e i x o s c e n t r a i s urbanos, as novas práticas de mediação artística, a integração de obras num determinado cenário e conceitos volumétricos, por exemplo. 15

Deste modo, é claro notar a inserção de The Gate in the George num ambiente como Louisiana, que cria um diálogo íntegro com as intenções arquitetônicas e muitas vezes se misturam em indefinições e conversas. To m a - s e , p o r i s s o , c o m o v á l i d a u m a b r e v e r e t o m a d a d e s t e c o n t e x t o d e inserção e as analogias das diferentes escalas entre obra e arquitetura.

Loui si ana, 2012. arqui vo pessoal

Louisiana é um museu de arte contemporânea localizado em Humlebæk, 35km ao norte de Copenhagen, na margem de Øresund, estreito entre Dinamarca e Suécia. Possui em seu acervo permanente mais de 3000 obras pós Segunda Guerra Mundial, sendo um dos maiores da Escandinávia. Em sua extensão de aproximadamente 7000m2 encontram-se peças de artistas como Picasso, G i a c o m e t t i , D u b u f f e t , Yv e s K l e i n , A n d y Wa r h o l , R a u s c h e n b e r g , H e n r y Moore, Louise Bourgeois, Philip Guston, Morris Louis, Jorn, Baselitz, P o l k e , K i e f e r e P e r K i r k e b y. Gi acom etti sal on, 2013. arqui vo pesso a l


Ta m b é m é r e c o n h e c i d o c o m o u m m a r c o n a a r q u i t e t u r a m o d e r n i s t a dinamarquesa, em que o principal ponto de seu partido é sua concepção integrada com arte, arquitetura e paisagem, princípios que conversam com as obras de Serra e, como se observa, o museu contempla um percurso de adaptação as tendências contemporâneas da arte.

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F u n d a d o e m 1 9 5 8 , p o r K n u d W. J e n s e n , o n o m e L o u i s i a n a r e m e t e a o p r i m e i r o proprietário, Alexander Brun, que nomeou a vila em homenagem a suas três esposas, todas chamadas Louise. No museu acontecem exposições temporárias - bimestral ou trimestralmente - e, com a premissa de trazer artistas reconhecidos internacionalmente, procura atrair visibilidade. C o m o n a s ú l t i m a s a t r a ç õ e s : P o p A r t D e s i g n e Yo k o O n o H a l f - A - W i n d S h o w. Despretensiosamente, o museu recebe seus visitantes numa entrada principal de uma vila histórica patrícia. Ali o edifício se desmembra em diferentes extensões num único plano, térreo, rodeando um parque de esculturas interno que chega ao mar de Øresund. Estas extensões foram acrescentadas ao edifício principal em diferentes períodos, adaptando-se a paisagem natural e novas necessidades programáticas. Na dimensão de Humlebæk, antiga aldeia de pescadores, o museu coloca a cidade no mapa. Quase que escondido neste povoado, Louisiana não se destoa na paisagem, integra-se como que uma das casas vizinhas, incorporando uma qualidade de expedição até adentra-lo. Percebe-se o fluxo maior de carros e pessoas numa entrada que partilha o ritmo do


entorno – esta escala humana permeia todo o projeto. Assim como a obra de Serra, chegar a Louisiana trata-se de uma busca investigativa e se inicia com reconhecimento da localidade. É um caso de museu em que se p l a n e j a u m d i a i n t e i r o p a r a v i s i t a r, c o m u m r i t u a l q u e s e i n i c i a n o p e r c u r s o . Vê - s e q u e , a r e n o v a ç ã o n a s p r á t i c a s d e m e d i a ç ã o a r t í s t i c a s e r e f l e t e m , por exemplo, no fato de que o maior impacto visual nos visitantes não são as obras em si, mas a relação entre elas, a arquitetura e os jardins que compõem essa vertente de museu.

Scul pture’s Park, 2013. arqui vo pessoa l

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Segundo Castro, as obras de arte são o ponto de partida para a formação deste novo museu – museu que abandona a função de lugar de chegada, antes desempenhada – e as politicas de curadoria implicam em alterações significativas nas estratégias de instalações, subvertendo a lógica entre obra de arte e museu. Os curadores assumem, então, o papel de fundadores do museu. Louisiana surge em 1958 e suas transformações pós 1990 refletem esta nova estratégia de abordagem, com a construção de novas alas e o parque de esculturas, que remetem integralmente a lógica de site specific – como c o m a s i n s t a l a ç õ e s p e r m a n e n t e s d e R i c h a r d S e r r a e G e o r g e Tr a k a s q u e foram pensadas especialmente para o local e criam uma particularidade no terreno, compondo o jardim como extensão das galerias e induzindo olhares e experiências particulares do local.


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Embora com implantações inusitadas diante do padrão industrial de museus e as novas abordagens peculiares garantidas ali, nota-se a presença de elementos pragmáticos (salas preparadas tecnicamente) mesclados com a nova dinâmica de exposições (instalações que requerem influencias de intempéries para dar continuidade ao processo de sua criação, como o caso de Serra).

vi a fl i ckr. com /photos/donatoroma

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vi a j oost. com


o visĂ­vel

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Ultrapassando as ordens de representação e concepção do espaço, a tendência minimalista em que Serra também se enquadra, abrange sobretudo a materialidade. Suas esculturas não são pictóricas, não representam objetos do mundo, mas confrontam o espaço e o corpo, solicitando a interação do espectador e a observação das características próprias de cada material. Como em outras esculturas, em The Gate in the George, Serra adota o aço C o r- Te n , o u a ç o p a t i n á v e l , d e s e n v o l v i d o o r i g i n a l m e n t e p a r a a i n d ú s t r i a ferroviária. Suas qualidades permitem construção mais leve que do aço tradicional, resiste mais a corrosão em virtude da composição de cobre e fósforo, e explicita o potencial da construção lidando fundamentalmente com a estática dos corpos. Eero Saarinen, arquiteto norte-americano, utilizou o aço em 1958 na c o n s t r u ç ã o d o e d i f í c i o d a D e e r e & C o m p a n y, d e i x a n d o - o a p a r e n t e e reconhecendo, ineditamente, a ferrugem que se formava como um aspecto positivo e atraente. S o b c e r t a s c o n d i ç õ e s a m b i e n t a i s d e e x p o s i ç ã o , o C o r- Te n d e s e n v o l v e u m a película de óxidos aderentes e protetores, a pátina, que reduz a velocidade do ataque de agentes corrosivos. A atmosfera marinha, como ocorre em Louisiana, torna tais características ainda mais potencializadas com íons de cloreto.

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Para produção dos componentes de aço, há uma pessoa em sua equipe que faz o cálculo para as imensas placas não caírem, e, no estaleiro, engenheiros fazem as dobras de metal. Ele trabalha com estaleiros onde são feitos navios e possui uma equipe para o processamento de informação. A e s p e c i f i c i d a d e é i n e r e n t e à q u i l o q u e o a r t i s t a q u e r f a z e r. C o m o m u i t o s artistas, a equipe vai ser sempre específica à sua prática e especialidade.

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Assim, o uso do aço e os procedimentos naturais de oxidação procuram superar a banalização característica da cultura de consumo da vida contemporânea. E revela, essencialmente, a ação do tempo - questionando a obra como produto final, pois nunca adquirirá uma forma definitiva. As duas placas encontram-se no parque de esculturas de Louisiana e tem estimadamente 4cm de espessura e 4m de altura. Para experimenta-las é necessário descer uma escada, simples, encaixada no relevo natural, o que pode passar despercebido se não adentrar o parque. Alí se forma um vale, provavelmente onde já fora um eixo de escoamento de água para o m a r. Encontram-se fincadas na terra, encaminhando o olhar e caminhar do e s p e c t a d o r p a r a o m a r. O r a d i r e c i o n a - o p a r a a p r ó p r i a e s c u l t u r a , o r a p a r a a paisagem. Como o próprio nome diz, trata-se de um portão, ou portal. Como que com portas entreabertas, suscetível a espiar o outro lado.


As placas cortam bruscamente a natureza. A forma e o material criam essa i n t e r c e p ç ã o q u e p o d e i n c o m o d a r o o l h a r c o r r i q u e i r o . Ta m b é m a s c o r e s sépias, enferrujadas, parecem colocar num lugar tão tranquilo como o parque, um objeto velho, desgastado e desconexo. Serra, pessoalmente, não coloca intenções nos seus trabalhos. Mesmo que as tenha, esclarece em entrevista que o significado da obra está no e s f o r ç o d e e n t e n d e - l a , o u e x p e r i m e n t a - l a . Tu d o d e p e n d e d a e x p e r i ê n c i a p r ó p r i a d o e s p e c t a d o r. vi a fl i ckr. com/photos/ergonom i k

vi a fl i ckr. com/photos/ergonom i k

ferrugem. arqui vo pessoal

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o invisível Segundo Florio, arquitetura e escultura compartilham a matéria que deve ser configurada segundo as leis da gravidade. Enquanto função utilitária, a arquitetura não é puramente artística. Já a escultura, tem liberdade para f a z e r- s e e m f o r m a s s o b l e i s o r g â n i c a s . N o e n t a n t o , e s s e p a n o r a m a s e a l t e r a no século XX, quando ambas passam a assumir funções de qualificação do espaço.

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Ao tirar a escultura do pedestal, Serra integra-a ao meio e reduz a distancia d o o b s e r v a d o r, c o l o c a n d o - o n o m e s m o e s p a ç o , s e m d i s t i n ç ã o . D e s t a f o r m a t a m b é m , n ã o é m a i s u m v a z i o q u e a o b r a o c u p a , e l a c r i a u m l u g a r, u m e l e m e n t o a t i v o – c o m o f o r a b e m c o l o c a d o p o r Wa l t é r c i o C a l d a s e c o r r o b o r a d o n a experiência que teve-se na disciplina. Assim, a física é notória em obras como The Gate in the George. O peso, o balanço, a pressão e a gravidade tornam-se elementos fundamentais, tanto quanto a topografia, as características do entorno, os limites espaciais e os acessos. Em entrevista a Eisenman, Serra esclaresce a necessidade que sentiu de criar espaços quando criou peças ainda no plano pictórico, as primeiras prop pieces, ao liberta-las veio inerentemente a análise de princípios de apoio de pressão e compressão. Ao encontrar o equilíbrio de forças, em peças tão pesadas, desprovea-as do peso. Como ao aprender física básica que as forças de ação e reação se anulam, risca-as no papel como se não mais existissem e não interferissem em cálculos.


A espacialidade criada por esse jogo de forças que se anulam, determinam espaços e sensações. A ordem e desordem dos materiais geram efeitos de d i r e c i o n a m e n t o d o o l h a r q u e d i a l o g a m c o m o m o v i m e n t o d o e s p e c t a d o r, tratando-se de uma performance temporal. Através da linguagem escultural adotada, o espaço torna-se temporal e o tempo, espacial. Conecta-se memória e antecipação, ao encorajar a circulação entre os corpos fixos: busca-se decifrar o que há por trás do portal, compreendendo as diferentes texturas e dimensões, os ângulos e c u r v a t u r a s – o q u e f i c a q u a s e i m p o s s í v e l r e t r a t a r, c o m o S e r r a p r e t e n d e . A memória é agente restaurador da unidade formal solida que os olhos não tangem por si só, trata-se do resgate do que fora visto. Esta intenção de explorar obras ativas se repercutem além das esculturas, Doug Aitken também cria situações maiores que o que os olhos alcançam i n s t a n t a n e a m e n t e . E m 3 6 0 D e g r e e , A LT E R E D E A R T H , I n t o t h e S u n , e n t r e outras projeções de vídeo, Aitken cria situações em que o espectador não tem a visão do todo, está sempre perdendo algo de vista para descobrir outra cena.

Spi ral Jetty de Robert Sm i thson. vi a com m ons. w i ki m edi a. org

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Ascott Ci rcl e de Ri chard Long. vi a fl i ckr. com/photos/stanbury

O ato de caminhar como intermeio de compreensão também não é exclusivo de Serra, Robert Smithson, Richard Long e Andy Goldsworthy extrapolam novamente os limites das galerias na busca por uma experiência nômade.

Stone Ri ver de Andy Gol dsw orthy. vi a fl i ckr. com/photos/ godutchbaby


conclusão Depois das prop pieces da década de 1960, Serra equaciona as dimensões d a s p e ç a s p a r a u m a p e r c e p ç ã o d i n â m i c a d o e s p e c t a d o r, c o m o e m S i g h t P o i n t (1971-75), Clara-Clara (1983) em espaços urbanos - ou mesmo The Gate in the George, num ambiente bucólico. Ao invés de ancorarem-se em paredes, as peças passam a definir o espaço em função de sua estrutura. E como coloca Farias em sua tese: que espaço é este que foi esculpido pela escultura?

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A escultura de Serra promove um espaço esculpido para a renovação de e x p e r i ê n c i a s – e x p l í c i t o e i n t e n s o e m Ti l t e d A r c ( 1 9 8 1 ) e s u a r e p e r c u s s ã o . Como abordou-se, não há como categorizar as obras que provocam a surpresa n o o l h a r, e x i s t e m e m f u n ç ã o d a r e l a ç ã o t e m p o - e s p a ç o , t a n t o q u e n ã o f a z sentido um projeto arquitetônico que as retratem. The Gate in the George insere-se delicadamente em Louisiana, conversam no diálogo claro entre arte, arquitetura e paisagem, confirmando a contemporaneidade de ambos e as novas relações estabelecidas, de modo d i f u s o , e n t r e e s p a ç o e e s p e c t a d o r. N a e s c u l t u r a e n a a r q u i t e t u r a , d e f o r m a mimética, sinérgica e sublime, construção e percepção se integram a natureza, investigando a relação da escala humana com o cenário imponente d e Ø r e s u n d . A b o r d a m a a p r o x i m a ç ã o e n t r e i n t e r i o r e e x t e r i o r, r e l a t i v i z a m a tradição museológica e criam espaços singulares.


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v ia f lic k r. c o m / p h o t o s / j a m i p s ymptom


bibliografia CASTRO, Laura. Os museus dos curadores. Actas do I seminário de investigação em museologia dos países de língua portuguesa e espanhola, volume 2, pp300-309. Porto, 2010. C H A R N E Y, N o a h . I n s i d e t h e M a s t e r p i e c e : S e r r a ’s “ M a t t e r o f Ti m e ” . I n h t t p : / / blogs.artinfo.com. Março, 2011.

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FA R I A S , A g n a l d o A C . E s c u l p i n d o o e s p a ç o : a e s c u l t u r a c o n t e m p o r â n e a e a b u s c a d e n o v o s m o d o s d e r e l a ç ã o c o m o e s p a ç o . Te s e d e d o u r a d o : f a c u l d a d e d e a r q u i t e t u r a e u r b a n i s m o d a U S P, S ã o P a u l o , 1 9 9 7 . FLORIO, Wilson. Richard Serra e Frank Ghery no espaço público da cidade. IV E n c o n t r o d e H i s t ó r i a d a A r t e – U N I C A M P. C a m p i n a s , 2 0 1 0 . GALINDO, Dolores. A arte transgênica: Entrevista com Eduardo Kak. Art and Te c h n o l o g y D e p a r t m e n t T h e S c h o o l o f t h e A r t I n s t i t u t e o f C h i c a g o , 2 0 0 5 . G I B S O N , E r i c . R i c h a r d S e r r a ’s i l l u s i o n s . I n T h e N e w C r i t e r i o n p p 6 7 - 7 0 . Março/2012. NEIL, Jonathan T D. Richard Serra: Heavy Metal. In Art Review pp 92-96, Junho/2007. PA N N O N I , F a b i o D o m i n g o s . H i s t ó r i a , c o m p o r t a m e n t o e u s o s d o s a ç o s patináveis na engenharia estrutural brasileira. 59o Congresso Anual da ABM-Internacional, 2004.


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richard serra em louisiana  

monografia para disciplina aspectos das linguagem contemporânea, junho/2013

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