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IBIZA IBIZA É ILHA E U Q E D M U Z N U Z M U CORRE

DE FARRA,

os, e um viajante fama e proveito justíssim famosos e finito. Pois anónimo que corre o risco de ganhar má fama – de boémio, indigen te cedido… lhe der para contar o su ou coisa pior – quando

TEXTO DE TIAGO SALAZAR | FOTOS DE MANUEL GOMES D A COSTA | PRODUÇÃO DE R AQUEL PEDROSA MARQUES


IBIZA IBIZA É ILHA E U Q E D M U Z N U Z M U CORRE

DE FARRA,

os, e um viajante fama e proveito justíssim famosos e finito. Pois anónimo que corre o risco de ganhar má fama – de boémio, indigen te cedido… lhe der para contar o su ou coisa pior – quando

TEXTO DE TIAGO SALAZAR | FOTOS DE MANUEL GOMES D A COSTA | PRODUÇÃO DE R AQUEL PEDROSA MARQUES


IBIZA IBIZA É ILHA E U Q E D M U Z N U Z M U CORRE

DE FARRA,

os, e um viajante fama e proveito justíssim famosos e finito. Pois anónimo que corre o risco de ganhar má fama – de boémio, indigen te cedido… lhe der para contar o su ou coisa pior – quando

TEXTO DE TIAGO SALAZAR | FOTOS DE MANUEL GOMES D A COSTA | PRODUÇÃO DE R AQUEL PEDROSA MARQUES


IBIZA CORRE UM ZUNZUM DE

QUE IBIZA É ILHA DE FARRA…

A Dom Camilo e ao seu vagabundo ao serviço de Espanha...

“D

om Vicente fez uma bonita obra”, pensa o viajante, enquanto passeia o olhar de alto a baixo e de lés a viés como uma borboleta desajeitada. Quando a beleza é grande há um certo desgoverno. Por esta altura, o viajante está sentado à beira do caminho de Sant Carles de Peralta debaixo de um sol acariciador e faz desenhos da casa de Dom Vicente num caderninho. É uma casa muito arranjada, coberta de flores e cercada por árvores de fruta, hortas cuidadas e um olival corpulento. Para onde quer que se olhe, a paisagem é alegre e feliz. No desenho do viajante a casa está desfavorecida, embora o burro sentado sobre o rabo e a lavadeira vesga debruçada no tanque estejam menos mal. Em 1522, o tetravô de Dom Vicente, de seu nome completo Andrés Cardamomo Linares y Marín, também conhecido por El Momo, comprou o outeiro de Can Curreu, acrescido de um olival selvagem, três gatos monteses, uma raposa perneta, um porco-espinho, duas onças, um boi pardo e uns poucos de choupos, castanheiros e ciprestes, para ali construir um posto dos correios.

Na ponta mais alta de um monte pelado, El Momo propunha-se levantar um posto de vigia de mouros e outros animais indesejados e não especificáveis. Durante quatro séculos, a família Linares e Marín acartou sacas de cartas e encomendas do porto de Eivissa até ao outeiro de San Rafael e deu caça grossa ao infiel. A chegada do “mais indesejado dos animais: o construtor civil”, segundo a expressão de Dom Vicente, foi a última e a mais dura batalha dos Marín. Enquanto os caciques de Eivissa se dedicavam a plantar monos de cimento sobre a praia e a desfigurar antigas estalagens e aldeias graciosas, o herdeiro de El Momo decidiu vingar a memória dos seus antepassados e criar uma obra de referência. “Hoje todos os donos de turismos rurais me copiam”, diz Dom Vicente e não precisa de modéstias nesta matéria, pois é a mais pura das verdades. A finca de Can Curreu, que servirá de hospedaria ao viajante, não tem rival entre as dezenas de propostas que semeiam a ilha de Ibiza, excepto o Can Domo, de Bárbara e Lorence, nas cercanias de Santa Eulària des Riu, que vale por ser um dos turismos rurais mais genuínos e aprazíveis. Das muitas arribações a Ibiza de Bárbara, uma belga viajada e de gosto finíssimo, acabou por nascer o Can Domo, um turismo rural menos sofisticado do que o >>>

CAN DOMO Pertence a Bárbara, uma belga trota-mundos que importou para uma paisagem de finca e olival a decoração balinesa. Materiais simples em antigos currais

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A Dom Camilo e ao seu vagabundo ao serviço de Espanha...

“D

om Vicente fez uma bonita obra”, pensa o viajante, enquanto passeia o olhar de alto a baixo e de lés a viés como uma borboleta desajeitada. Quando a beleza é grande há um certo desgoverno. Por esta altura, o viajante está sentado à beira do caminho de Sant Carles de Peralta debaixo de um sol acariciador e faz desenhos da casa de Dom Vicente num caderninho. É uma casa muito arranjada, coberta de flores e cercada por árvores de fruta, hortas cuidadas e um olival corpulento. Para onde quer que se olhe, a paisagem é alegre e feliz. No desenho do viajante a casa está desfavorecida, embora o burro sentado sobre o rabo e a lavadeira vesga debruçada no tanque estejam menos mal. Em 1522, o tetravô de Dom Vicente, de seu nome completo Andrés Cardamomo Linares y Marín, também conhecido por El Momo, comprou o outeiro de Can Curreu, acrescido de um olival selvagem, três gatos monteses, uma raposa perneta, um porco-espinho, duas onças, um boi pardo e uns poucos de choupos, castanheiros e ciprestes, para ali construir um posto dos correios.

Na ponta mais alta de um monte pelado, El Momo propunha-se levantar um posto de vigia de mouros e outros animais indesejados e não especificáveis. Durante quatro séculos, a família Linares e Marín acartou sacas de cartas e encomendas do porto de Eivissa até ao outeiro de San Rafael e deu caça grossa ao infiel. A chegada do “mais indesejado dos animais: o construtor civil”, segundo a expressão de Dom Vicente, foi a última e a mais dura batalha dos Marín. Enquanto os caciques de Eivissa se dedicavam a plantar monos de cimento sobre a praia e a desfigurar antigas estalagens e aldeias graciosas, o herdeiro de El Momo decidiu vingar a memória dos seus antepassados e criar uma obra de referência. “Hoje todos os donos de turismos rurais me copiam”, diz Dom Vicente e não precisa de modéstias nesta matéria, pois é a mais pura das verdades. A finca de Can Curreu, que servirá de hospedaria ao viajante, não tem rival entre as dezenas de propostas que semeiam a ilha de Ibiza, excepto o Can Domo, de Bárbara e Lorence, nas cercanias de Santa Eulària des Riu, que vale por ser um dos turismos rurais mais genuínos e aprazíveis. Das muitas arribações a Ibiza de Bárbara, uma belga viajada e de gosto finíssimo, acabou por nascer o Can Domo, um turismo rural menos sofisticado do que o >>>

CAN DOMO Pertence a Bárbara, uma belga trota-mundos que importou para uma paisagem de finca e olival a decoração balinesa. Materiais simples em antigos currais

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IBIZA

QUE IBIZA É ILHA DE FARRA…

CORRE UM ZUNZUM DE

QUE IBIZA É ILHA DE FARRA…

CANTALAIAS

HOTEL CANTALAIAS

Cushan, o proprietário deste agro-turismo perto de San Carlos, segura uma fotografia do pai, o célebre actor Terry Thomas

Uma das suites à disposição dos hóspedes, precisamente aquela que era habitualmente usada pelo actor

ILHA DE FAMOSOS E FANTASMAS, Ibiza é um lugar único na moldura SOLARENGA DO MEDITERRÂNEO Can Curreu, mas acima de qualquer reparo. São menos de uma dezena de quartos rústicos e soalheiros (todos diferentes uns dos outros) divididos pela antiga casa (datada do século XVII), os currais e o celeiro. A propriedade encontra-se na costa este da ilha e onde estão as melhores praias (caso de Aigues Blanques). Fica num promontório semidescampado, com apenas meia dúzia de casinhas, videiras e laranjais no enfiamento da paisagem (coisa rara na ilha), que lhe dá um belíssimo arejamento. A decoração mistura influências orientais e marroquinas. Se puder, escolha o Espacio Domo. Ora, falávamos nós de Dom Vicente e do seu Can Curreu. Pois este não poupou nas pesetas e onde havia um pardieiro de currais e uma várzea coberta de mato de nobre traçado (poeticamente falando) nasceu a quinta que embevece o viajante. Prosaicamente falando, são 6o mil metros de finca, colorida de laranjais, limoeiros, olivais, hortaliças, flores, alazões e 12 suites magníficas que antes eram currais. Longe o suficiente da colónia de betão da cidade de Eivissa e defendida por “coelhos de caçadeira pagos para abater construtores civis”, como garante Dom Vicente.

ESPACIO DOMO Um terraço privado com vista sobre um olival milenário. A melhor suite do Can Domo…

A LEI DA GULA. O dia vai longo e o viajante já comia qualquer coisa. O viajante é do tipo imaginativo. Por exemplo, dá-lhe para imaginar o papudo melro que assobia a Marcha Real no ulmeiro por cima da sua cabeça dentro de um pãozinho torrado acompanhado de um pires de azeitonas e um pichel de tinto Rioja (Reserva de 87, se não for pedir muito). Os desejos do viajante são satisfeitos por Doña Ana, a cozinheira de Dom Vicente, uma bela moça de cabelos vermelhos atiçados como labaredas e polvilhada de sardas que lhe vão da ponta da testa até aos tornozelos – conforme assegura inchada de orgulho e sem que o viajante o possa testemunhar. O cuco desafinado canta as duas da tarde quando chegam ao oleado da mesa, fumegantes e poderosos, uma travessa de pargos de cebolada, um púcaro

AIGUES BLANQUES A eleita das praias de Ibiza. Há que ir de barco e passar o dia ao sabor do vento e dos copos de Cinzano e Martini

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HOTEL CANTALAIAS

Cushan, o proprietário deste agro-turismo perto de San Carlos, segura uma fotografia do pai, o célebre actor Terry Thomas

Uma das suites à disposição dos hóspedes, precisamente aquela que era habitualmente usada pelo actor

ILHA DE FAMOSOS E FANTASMAS, Ibiza é um lugar único na moldura SOLARENGA DO MEDITERRÂNEO Can Curreu, mas acima de qualquer reparo. São menos de uma dezena de quartos rústicos e soalheiros (todos diferentes uns dos outros) divididos pela antiga casa (datada do século XVII), os currais e o celeiro. A propriedade encontra-se na costa este da ilha e onde estão as melhores praias (caso de Aigues Blanques). Fica num promontório semidescampado, com apenas meia dúzia de casinhas, videiras e laranjais no enfiamento da paisagem (coisa rara na ilha), que lhe dá um belíssimo arejamento. A decoração mistura influências orientais e marroquinas. Se puder, escolha o Espacio Domo. Ora, falávamos nós de Dom Vicente e do seu Can Curreu. Pois este não poupou nas pesetas e onde havia um pardieiro de currais e uma várzea coberta de mato de nobre traçado (poeticamente falando) nasceu a quinta que embevece o viajante. Prosaicamente falando, são 6o mil metros de finca, colorida de laranjais, limoeiros, olivais, hortaliças, flores, alazões e 12 suites magníficas que antes eram currais. Longe o suficiente da colónia de betão da cidade de Eivissa e defendida por “coelhos de caçadeira pagos para abater construtores civis”, como garante Dom Vicente.

ESPACIO DOMO Um terraço privado com vista sobre um olival milenário. A melhor suite do Can Domo…

A LEI DA GULA. O dia vai longo e o viajante já comia qualquer coisa. O viajante é do tipo imaginativo. Por exemplo, dá-lhe para imaginar o papudo melro que assobia a Marcha Real no ulmeiro por cima da sua cabeça dentro de um pãozinho torrado acompanhado de um pires de azeitonas e um pichel de tinto Rioja (Reserva de 87, se não for pedir muito). Os desejos do viajante são satisfeitos por Doña Ana, a cozinheira de Dom Vicente, uma bela moça de cabelos vermelhos atiçados como labaredas e polvilhada de sardas que lhe vão da ponta da testa até aos tornozelos – conforme assegura inchada de orgulho e sem que o viajante o possa testemunhar. O cuco desafinado canta as duas da tarde quando chegam ao oleado da mesa, fumegantes e poderosos, uma travessa de pargos de cebolada, um púcaro

AIGUES BLANQUES A eleita das praias de Ibiza. Há que ir de barco e passar o dia ao sabor do vento e dos copos de Cinzano e Martini

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CAN CURREO A sofisticação máxima num turismo rural que não tem rival em Ibiza. O restaurante é certamente imperdível.


CAN CURREO A sofisticação máxima num turismo rural que não tem rival em Ibiza. O restaurante é certamente imperdível.


IBIZA CORRE UM ZUNZUM DE

ES XARCU

QUE IBIZA É ILHA DE FARRA…

O refúgio do restaurante de Dom Mariano e uma das praias mais sossegadas da ilha

JOCKEY CLUB O melhor bar para ir a tapas e copas ao fim da tarde. Fica na praia hip de Ses Salines

COMER BEM, BEBER MELHOR, podia ser a senha numa ilha de prazeres, EXTRAVAGÂNCIAS E GLAMOUR

PIMENTOS... ... Padrón ou salteados, são um dos melhores petiscos no Es Xarcu

de chouriços em brasa e uma malga de pimentos picantes. FINDO O REPASTO, com uma pipa de doce de ovos e um folhado de gengibre a rematar, as delicadas glândulas do paladar do viajante queixam-se apenas da falta de companhia para tão memorável receita. Zaranzo como um peru de consoada, vai deitar-se num canapé de palhinha (almofadado) à sombra da corpulenta videira de dois mil anos que Dom Vicente tem plantada no jardim em lugar providencial (a 3,27m da cozinha). Um charutinho Farias e uma sesta solene é tudo o que precisa. Isto é, e em abono da mais rigorosa das verdades, não se faria rogado com uma companhia de olhos verdes e cabelos loiros e corpo sideral a quem chama de Dulcineia de Toboso (quando está inspirado). A sobremesa do violento vício da gula, na lei antiga, era o calmante do vício da luxúria. O viajante é, por convicção, um fora da lei mas nem à lei da bala o verão passar manteiga no que não se presta para isso. Pois, se há coisa que deve ser dita ela aqui vai: na casa de Dom Vicente a comida e a bebida são exercícios de estilo e o viajante de bom grado se oferece para cobaia. Dom Vicente, que é homem na medida grande e autoridade fidedigna, honra a concorrência e o bem comer, e sem que ninguém lhe peça (ou vendo o viajante com cara de esfomeado), faz uma listinha das tabernas, bares e restaurantes de Ibiza onde é imperativo testar as glândulas. Pelo seu pé – e sem cambalear –, o viajante mete-se à estrada, e ao deus-dará e ao calhas, que é como tem que ser nisto de viajar, confiando na listinha de bonita caligrafia de Dom Vicente que, conforme se verá, não admite qualquer dúvida. Para começar em grande estilo, e vestido de poncho andaluz e botas de couro feitas por medida no mercado de Las Dálias de Sant Carles, vai jantar à

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O refúgio do restaurante de Dom Mariano e uma das praias mais sossegadas da ilha

JOCKEY CLUB O melhor bar para ir a tapas e copas ao fim da tarde. Fica na praia hip de Ses Salines

COMER BEM, BEBER MELHOR, podia ser a senha numa ilha de prazeres, EXTRAVAGÂNCIAS E GLAMOUR

PIMENTOS... ... Padrón ou salteados, são um dos melhores petiscos no Es Xarcu

de chouriços em brasa e uma malga de pimentos picantes. FINDO O REPASTO, com uma pipa de doce de ovos e um folhado de gengibre a rematar, as delicadas glândulas do paladar do viajante queixam-se apenas da falta de companhia para tão memorável receita. Zaranzo como um peru de consoada, vai deitar-se num canapé de palhinha (almofadado) à sombra da corpulenta videira de dois mil anos que Dom Vicente tem plantada no jardim em lugar providencial (a 3,27m da cozinha). Um charutinho Farias e uma sesta solene é tudo o que precisa. Isto é, e em abono da mais rigorosa das verdades, não se faria rogado com uma companhia de olhos verdes e cabelos loiros e corpo sideral a quem chama de Dulcineia de Toboso (quando está inspirado). A sobremesa do violento vício da gula, na lei antiga, era o calmante do vício da luxúria. O viajante é, por convicção, um fora da lei mas nem à lei da bala o verão passar manteiga no que não se presta para isso. Pois, se há coisa que deve ser dita ela aqui vai: na casa de Dom Vicente a comida e a bebida são exercícios de estilo e o viajante de bom grado se oferece para cobaia. Dom Vicente, que é homem na medida grande e autoridade fidedigna, honra a concorrência e o bem comer, e sem que ninguém lhe peça (ou vendo o viajante com cara de esfomeado), faz uma listinha das tabernas, bares e restaurantes de Ibiza onde é imperativo testar as glândulas. Pelo seu pé – e sem cambalear –, o viajante mete-se à estrada, e ao deus-dará e ao calhas, que é como tem que ser nisto de viajar, confiando na listinha de bonita caligrafia de Dom Vicente que, conforme se verá, não admite qualquer dúvida. Para começar em grande estilo, e vestido de poncho andaluz e botas de couro feitas por medida no mercado de Las Dálias de Sant Carles, vai jantar à

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PRATOS COM SABOR A MAR

que se saboreiam

na companhia de amigos

EM AMBIENTES DESCONTRAÍDOS

taverna do françiú Denis, em San Rafael. A TAVERNA DO FRANÇIÚ, O EL CLODENIS, é uma versão rústica (chique) da antiga celebridade parisiense, o Clodenis, onde tinham lugar à mesa monsieur Mitterrand ou o belga Brel. O que antes fora um misto de taberna bulhenta e cabeleireiro de lavadeiras é agora o santuário da gastronomia provençal de Ibiza. Fica junto a uma igrejinha de pedra e cal e todos os santos abençoam a cozinha do françiú e os seus afamados pimentos padrón e chuletón de buey.

EL CLODENIS Uma taberna de cardápio francês na bonita aldeia de San Rafael. O chuletón de buey e as saladas têm ferrenhos

O viajante volta ao curral de Dom Vicente convencido de que se outros prazeres não houvesse por estas bandas, o das glândulas do paladar daria conta e agrado da visita. Encher mais a barriga do que os olhos não é prazer que se desdenhe. Para o dia seguinte, começará o sacrifício pelo bullit de peixe do chef Juan Ferrer, no El Bigotes, em Cala Mastella, seguindo-se a expiação nas clássicas ginjinhas e no pão com chouriço do Sa Punta, na praia de Talamanca e o último suspiro nas anchovas em vinagre do Macao, no porto de Eivissa. Ainda a viagem vai na alba e o viajante já começa a ganhar o ar saudável dos camponeses.

EL BIGOTES Há mais de 20 anos que este homem celebra o acto de bem comer…

CENAS NA ALDEIA. Na manhã do quinto dia de campanha, o viajante acorda com o sino da igreja de Sant Carles e o badalo do chibo de Dom Vicente (não o próprio, claro está) deliciado no canteiro de hortênsias. Como a manhã é de brisa fresca e o estômago queixa-se da tortura de véspera, vai de sapatinhos novos e bigode tosquiado, esmoer (e esmoer-se) pela povoação. Os pés não lhe hão-de doer, pois da porta do curral até ao centro da aldeia não demora nem 15 minutos, e a passo estugado para melhorar da azia. Na aldeia, preparam-se as festas da terra e um casal de flausinos ensaia um pasodoble no tablado do coreto. No adro da igreja, uma composta turma de acólitos de bibe (disposta por alturas) ensaia a pastoral da Quaresma (“Ave Maria” de Schubert) às mãos de um maestro em estado de anabiose. Um grupo de meninas salta à corda e os rapazes, de pedras na mão, entretêm-se a quebrar nozes, a catar pinhões e a lançar o olho às raparigas. No largo, junto à taberna, dois camponeses de facções opostas discutem o futebol de

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taverna do françiú Denis, em San Rafael. A TAVERNA DO FRANÇIÚ, O EL CLODENIS, é uma versão rústica (chique) da antiga celebridade parisiense, o Clodenis, onde tinham lugar à mesa monsieur Mitterrand ou o belga Brel. O que antes fora um misto de taberna bulhenta e cabeleireiro de lavadeiras é agora o santuário da gastronomia provençal de Ibiza. Fica junto a uma igrejinha de pedra e cal e todos os santos abençoam a cozinha do françiú e os seus afamados pimentos padrón e chuletón de buey.

EL CLODENIS Uma taberna de cardápio francês na bonita aldeia de San Rafael. O chuletón de buey e as saladas têm ferrenhos

O viajante volta ao curral de Dom Vicente convencido de que se outros prazeres não houvesse por estas bandas, o das glândulas do paladar daria conta e agrado da visita. Encher mais a barriga do que os olhos não é prazer que se desdenhe. Para o dia seguinte, começará o sacrifício pelo bullit de peixe do chef Juan Ferrer, no El Bigotes, em Cala Mastella, seguindo-se a expiação nas clássicas ginjinhas e no pão com chouriço do Sa Punta, na praia de Talamanca e o último suspiro nas anchovas em vinagre do Macao, no porto de Eivissa. Ainda a viagem vai na alba e o viajante já começa a ganhar o ar saudável dos camponeses.

EL BIGOTES Há mais de 20 anos que este homem celebra o acto de bem comer…

CENAS NA ALDEIA. Na manhã do quinto dia de campanha, o viajante acorda com o sino da igreja de Sant Carles e o badalo do chibo de Dom Vicente (não o próprio, claro está) deliciado no canteiro de hortênsias. Como a manhã é de brisa fresca e o estômago queixa-se da tortura de véspera, vai de sapatinhos novos e bigode tosquiado, esmoer (e esmoer-se) pela povoação. Os pés não lhe hão-de doer, pois da porta do curral até ao centro da aldeia não demora nem 15 minutos, e a passo estugado para melhorar da azia. Na aldeia, preparam-se as festas da terra e um casal de flausinos ensaia um pasodoble no tablado do coreto. No adro da igreja, uma composta turma de acólitos de bibe (disposta por alturas) ensaia a pastoral da Quaresma (“Ave Maria” de Schubert) às mãos de um maestro em estado de anabiose. Um grupo de meninas salta à corda e os rapazes, de pedras na mão, entretêm-se a quebrar nozes, a catar pinhões e a lançar o olho às raparigas. No largo, junto à taberna, dois camponeses de facções opostas discutem o futebol de

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QUE IBIZA É ILHA DE FARRA…

MERCADO DE LAS DALIAS Outra paragem obrigatória para compras hippie, perto de San Carlos, onde tocou Mick Jagger – entre outros – nos anos 60. Aos sábados de manhã

BUDDHA BAZAR É nesta loja que se podem comprar os “pantalones del amor”, umas calças que prometem incendiar paixões

véspera vigiados de perto por um bêbado que perdeu a tramontana. PODIA SER UMA ALDEIA MEDIEVAL não fora um cartaz de grandes proporções a indigitar ao voto no presidente Contreras, um homem forte, de careca polidíssima com dois vistosos quistos e bigodes de sindicalista. Conforme rezam as crónicas, Sant Carles de Peralta é uma terra de abstinentes (embora não de abstémios) e o viajante desconfia que foi ali que o escritor Saramago encontrou inspiração para o seu último livro. Senta-se no jardim de buganvílias e deixa o pensamento vaguear entre mil coisas banais e a lucidez de Saramago enquanto um gato lhe ronda as pernas. O viajante ganha a vida com o ofício de andarilho a que ninguém reconhece seriedade como ao vagabundo de Cela. Por exemplo, interessará a alguém que ao viajante ocorra pensar o dó que dá aquela casa ali, a casa do senhor alcaide, um mastronço que nem é carne nem é peixe nem se parece com nada de azulejos a imitar o morabitino tardio plantado contra o PDM (ou o Pensamento da Maioria) no centro de uma aldeia tão catita onde há meninas que saltam à corda e bêbedos a cair de bêbados (como deve ser) e padres cerosos como nos filmes do Cantinflas. Um rapaz de pé boto e gorro de lã enfiado pelo nariz aproxima-se do viajante, que tem a cara carrancuda, e oferece-lhe um miolo de noz que logo lhe melhora a disposição. – Às suas ordens, Filipe de Ávila, 15 anos quase feitos e futuro domador de leões. – Muito prazer, Adolfo Robaina, agente de viagens de Tegucigalpa em comissão de serviço – a que acrescentou com uma ligeira contracção das narinas – e sem vocação pedófila. O viajante é um homem de conversar discreto e algumas reservas, mas o rapaz puxa por ele e não tarda a galgarem caminho até ao topo da colina, de onde se vê a costa do Malabar. O rapaz sobe a um banco de jardim, empina-se no pé boto como um fuso e aponta o indicador a oeste. – Ali fica a praia de S’Estanyol, a melhor de toda a ilha, mas só se chega lá de barco. Se quiser, o meu tio Camilo dá-lhe uma boleia quando for à conquilha e ao mexilhão.

TERRA DE FAMOSOS E DE MODAS, Ibiza não fica atrás de Paris com padrões e TENDÊNCIAS DESCONCERTANTES 110

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EIVISSA OU IBIZA É no centro histórico de Eivissa, a capital, que ainda sobrevivem vestígios de antes do “turistar”. Os mercados de rua são a grande perdição


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MERCADO DE LAS DALIAS Outra paragem obrigatória para compras hippie, perto de San Carlos, onde tocou Mick Jagger – entre outros – nos anos 60. Aos sábados de manhã

BUDDHA BAZAR É nesta loja que se podem comprar os “pantalones del amor”, umas calças que prometem incendiar paixões

véspera vigiados de perto por um bêbado que perdeu a tramontana. PODIA SER UMA ALDEIA MEDIEVAL não fora um cartaz de grandes proporções a indigitar ao voto no presidente Contreras, um homem forte, de careca polidíssima com dois vistosos quistos e bigodes de sindicalista. Conforme rezam as crónicas, Sant Carles de Peralta é uma terra de abstinentes (embora não de abstémios) e o viajante desconfia que foi ali que o escritor Saramago encontrou inspiração para o seu último livro. Senta-se no jardim de buganvílias e deixa o pensamento vaguear entre mil coisas banais e a lucidez de Saramago enquanto um gato lhe ronda as pernas. O viajante ganha a vida com o ofício de andarilho a que ninguém reconhece seriedade como ao vagabundo de Cela. Por exemplo, interessará a alguém que ao viajante ocorra pensar o dó que dá aquela casa ali, a casa do senhor alcaide, um mastronço que nem é carne nem é peixe nem se parece com nada de azulejos a imitar o morabitino tardio plantado contra o PDM (ou o Pensamento da Maioria) no centro de uma aldeia tão catita onde há meninas que saltam à corda e bêbedos a cair de bêbados (como deve ser) e padres cerosos como nos filmes do Cantinflas. Um rapaz de pé boto e gorro de lã enfiado pelo nariz aproxima-se do viajante, que tem a cara carrancuda, e oferece-lhe um miolo de noz que logo lhe melhora a disposição. – Às suas ordens, Filipe de Ávila, 15 anos quase feitos e futuro domador de leões. – Muito prazer, Adolfo Robaina, agente de viagens de Tegucigalpa em comissão de serviço – a que acrescentou com uma ligeira contracção das narinas – e sem vocação pedófila. O viajante é um homem de conversar discreto e algumas reservas, mas o rapaz puxa por ele e não tarda a galgarem caminho até ao topo da colina, de onde se vê a costa do Malabar. O rapaz sobe a um banco de jardim, empina-se no pé boto como um fuso e aponta o indicador a oeste. – Ali fica a praia de S’Estanyol, a melhor de toda a ilha, mas só se chega lá de barco. Se quiser, o meu tio Camilo dá-lhe uma boleia quando for à conquilha e ao mexilhão.

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EIVISSA OU IBIZA É no centro histórico de Eivissa, a capital, que ainda sobrevivem vestígios de antes do “turistar”. Os mercados de rua são a grande perdição


BLISS CAFÉ Na Plaça des Parc, em Eivissa, o mais reputado do chill out e drum and bass

ÀS COMPRAS É uma cidade onde se encontra de tudo, Ibiza, ideal para fazer o gosto à carteira…


BLISS CAFÉ Na Plaça des Parc, em Eivissa, o mais reputado do chill out e drum and bass

ÀS COMPRAS É uma cidade onde se encontra de tudo, Ibiza, ideal para fazer o gosto à carteira…


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EIVISSA TEM ALMA DE ARTISTA, alma romântica e sonhadora e isso é algo que transparece EM ESPAÇOS COM PERSONALIDADE

AS MARGENS DA COSTA SÃO IMPRECISAS e ora têm rochas afiadas ora são calvas como o presidente Contreras (sem os quistos). Há praias a toda a volta da ilha, a maioria de pedra e sargaço e do tipo civilizado, com vasta clientela da “Hola” (e aspirantes). As de S’Estanyol, de Aigues Blancas e de Es Xarco, onde Dom Mariano, o rei do lagostim e do camarão tigre, tem o seu comedor infernal, ganham os lugares do pódio.

FILLET-MIGNON A alcunha carinhosa do dono da croissanteria “Croissant Show”, um lugar obrigatório em Eivissa

O viajante sabe ao que vem e não espera as praias de cartão-postal das Caraíbas. Não que não as haja (as já faladas exclusivamente, e o resto é para ir ao pôr do Sol ou ao petisco), sobretudo em matéria de limpeza e caldo das águas, mas nestas, aparecem na paisagem dócil e como complemento directo umas meninas de rabos frondosos e maminhas ao léu – sem que o viajante se rale muito com isso.

TEATRO PEREYRA É a sala de espectáculos histórica de Eivissa e leva mais de 20 anos a animar a ilha. Aesplanada é a antecâmara de concertos de jazz ou “stand up comedies”

INTERNET CAFÉ Em cima, a zona do café, e nesta imagem, a zona de estar desta loja de roupa e bar onde encontra uma selecção de chás verdes, computadores para aceder à Internet, e um canto de leitura com livros que também se podem comprar

A ILHA DAS TENTAÇÕES. “É uma ilha desinibida”, escreve o viajante no seu caderninho. Já andou por onde havia de andar, por bosques e sendeiros, atalhos de pedras, praças de touros, praias, bares e restaurantes, pensões, pousadas e hotéis, até no barco de tio Camilo, e não encontrou gente com rodeios, tirando o presidente Contreras e o padre Ludovico, que não representam a nação. As coisas estão sempre melhor assim, sem preconceito, humanas e naturais. Na Plaça des Parc, uma praça quadrada e bem arejada no centro de Eivissa que faz as vezes de Plaza Mayor, os bares parecem competir pelo título da loucura. O Bliss e o Madagáscar Café levam vantagem aberta e reclamam o domínio do chill out, do drum & bass e dos cigarrinhos para rir. O viajante instala-se num caixote almofadado do Sun Set, na ponta mais afastada da praça, e entre goladas de vermute e daiquiris, vê que o Sol quando nasce (ou a noite quando se põe) é para todos. Eivissa é uma cidade de histriões e folias e ainda a época não aqueceu. Em Agosto, nem o bote de tio Camilo estará a salvo das labaredas. Os filhos dos hippies que vieram nos anos 7o e foram ficando para fazer a festa são os novos reis do Sabá. Uma geração de sonhadores, lunáticos e fantasistas e rapazes com olho para o negócio como El Buddha, ou Luigi Trifiletti, um napolitano de 32 anos dono da loja El Buddha Bazar que inventou os “pantalones del amor”. O invento de El Buddha, umas calças de estilo pescador unidas do cós às bainhas (mas descartáveis no momento certo), têm

ALMA ESPANHOLA Tanto a mais tradicional como a mais contemporânea. Dois estados de espírito que também coabitam por aqui…

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IBIZA CORRE UM ZUNZUM DE

QUE IBIZA É ILHA DE FARRA…

EIVISSA TEM ALMA DE ARTISTA, alma romântica e sonhadora e isso é algo que transparece EM ESPAÇOS COM PERSONALIDADE

AS MARGENS DA COSTA SÃO IMPRECISAS e ora têm rochas afiadas ora são calvas como o presidente Contreras (sem os quistos). Há praias a toda a volta da ilha, a maioria de pedra e sargaço e do tipo civilizado, com vasta clientela da “Hola” (e aspirantes). As de S’Estanyol, de Aigues Blancas e de Es Xarco, onde Dom Mariano, o rei do lagostim e do camarão tigre, tem o seu comedor infernal, ganham os lugares do pódio.

FILLET-MIGNON A alcunha carinhosa do dono da croissanteria “Croissant Show”, um lugar obrigatório em Eivissa

O viajante sabe ao que vem e não espera as praias de cartão-postal das Caraíbas. Não que não as haja (as já faladas exclusivamente, e o resto é para ir ao pôr do Sol ou ao petisco), sobretudo em matéria de limpeza e caldo das águas, mas nestas, aparecem na paisagem dócil e como complemento directo umas meninas de rabos frondosos e maminhas ao léu – sem que o viajante se rale muito com isso.

TEATRO PEREYRA É a sala de espectáculos histórica de Eivissa e leva mais de 20 anos a animar a ilha. Aesplanada é a antecâmara de concertos de jazz ou “stand up comedies”

INTERNET CAFÉ Em cima, a zona do café, e nesta imagem, a zona de estar desta loja de roupa e bar onde encontra uma selecção de chás verdes, computadores para aceder à Internet, e um canto de leitura com livros que também se podem comprar

A ILHA DAS TENTAÇÕES. “É uma ilha desinibida”, escreve o viajante no seu caderninho. Já andou por onde havia de andar, por bosques e sendeiros, atalhos de pedras, praças de touros, praias, bares e restaurantes, pensões, pousadas e hotéis, até no barco de tio Camilo, e não encontrou gente com rodeios, tirando o presidente Contreras e o padre Ludovico, que não representam a nação. As coisas estão sempre melhor assim, sem preconceito, humanas e naturais. Na Plaça des Parc, uma praça quadrada e bem arejada no centro de Eivissa que faz as vezes de Plaza Mayor, os bares parecem competir pelo título da loucura. O Bliss e o Madagáscar Café levam vantagem aberta e reclamam o domínio do chill out, do drum & bass e dos cigarrinhos para rir. O viajante instala-se num caixote almofadado do Sun Set, na ponta mais afastada da praça, e entre goladas de vermute e daiquiris, vê que o Sol quando nasce (ou a noite quando se põe) é para todos. Eivissa é uma cidade de histriões e folias e ainda a época não aqueceu. Em Agosto, nem o bote de tio Camilo estará a salvo das labaredas. Os filhos dos hippies que vieram nos anos 7o e foram ficando para fazer a festa são os novos reis do Sabá. Uma geração de sonhadores, lunáticos e fantasistas e rapazes com olho para o negócio como El Buddha, ou Luigi Trifiletti, um napolitano de 32 anos dono da loja El Buddha Bazar que inventou os “pantalones del amor”. O invento de El Buddha, umas calças de estilo pescador unidas do cós às bainhas (mas descartáveis no momento certo), têm

ALMA ESPANHOLA Tanto a mais tradicional como a mais contemporânea. Dois estados de espírito que também coabitam por aqui…

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IBIZA CORRE UM ZUNZUM DE

QUE IBIZA É ILHA DE FARRA…

NOITES LONGAS Vem de longe, do tempo das cruzadas, a flama boémia de Ibiza. Será uma falha passar-lhe ao largo

encomendas de Paris a Pequim. Destas coisas sabe pouco o viajante, que é comprador comedido e na bagagem leva apenas três mudas de cuecas, umas ceroulas de flanela para as noites frias, uma camisola de pastor serrano e umas calças verdes de bombazina herdadas do pai. As calças de El Buddha, porém, o poncho andaluz e as botas de couro feitas por medida, operam uma revolução indumentária. De raminho fresco na botoeira do novo blaser de veludo côtelé (comprado a Veronique no mercado hippie de sábado em Eivissa) e perfumado a nardos e lavanda, o viajante sente-se um Porfírio Rubirosa. ESTAS COISAS DA VAIDADE SÃO INEXPLICÁVEIS e quando se agarram à pele é o cabo dos trabalhos para as pôr a andar. Ainda há pouco o viajante se contentava com umas calças de bombazina, uma samarra alentejana e uns tamancos cardados e agora é cliente regular do bairro de Ganesha, em Eivissa, e das caxemiras de Gisella em San Juan. Ele e Jade Jagger, a filha estilista do Rolling Stone da língua comprida e da cara de mau, com quem rivaliza por um top de lantejoulas, um vestido de Vivienne Westwood, um sarong de açafrão e um biquini da Rosa Chá. O viajante é, contudo, porém e todavia, homem educado e cede a mercadoria dando-se por contente por ter estrela tão cintilante e ebúrnea a dois palmos do nariz.

SUN SET Um bar de caixotes de cargueiro almofadados na praça central de Eivissa. O sol quando se põe não é para todos

“Onde é que isto já vai”, pensa para consigo, e faz as contas às celebridades que já constam do seu diário de viagem, isto numa semana de baixa-mar e sem ter posto ainda os pés nas afamadas praias des Salines, Es Torrent ou Cala d’Hort, ou no Space, no Pacha, no Manumission at Privilege, no Underground ou no DC1o, os clubes da febre de segunda a domingo (e de manhã à noite). Depois de comer uns lagostins com arroz, uma dorada al sal e uma tarta de queso no Sa Capella, em Santa Agnés, e de beber um derradeiro copo de Penedés à saúde de Carlos, Pepe e Manolo, o viajante retira-se para o seu aposento, tão anónimo e imaculado como veio ao mundo. E VENHA CONNOSCO NA PÁG. 128

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NOITES LONGAS Vem de longe, do tempo das cruzadas, a flama boémia de Ibiza. Será uma falha passar-lhe ao largo

encomendas de Paris a Pequim. Destas coisas sabe pouco o viajante, que é comprador comedido e na bagagem leva apenas três mudas de cuecas, umas ceroulas de flanela para as noites frias, uma camisola de pastor serrano e umas calças verdes de bombazina herdadas do pai. As calças de El Buddha, porém, o poncho andaluz e as botas de couro feitas por medida, operam uma revolução indumentária. De raminho fresco na botoeira do novo blaser de veludo côtelé (comprado a Veronique no mercado hippie de sábado em Eivissa) e perfumado a nardos e lavanda, o viajante sente-se um Porfírio Rubirosa. ESTAS COISAS DA VAIDADE SÃO INEXPLICÁVEIS e quando se agarram à pele é o cabo dos trabalhos para as pôr a andar. Ainda há pouco o viajante se contentava com umas calças de bombazina, uma samarra alentejana e uns tamancos cardados e agora é cliente regular do bairro de Ganesha, em Eivissa, e das caxemiras de Gisella em San Juan. Ele e Jade Jagger, a filha estilista do Rolling Stone da língua comprida e da cara de mau, com quem rivaliza por um top de lantejoulas, um vestido de Vivienne Westwood, um sarong de açafrão e um biquini da Rosa Chá. O viajante é, contudo, porém e todavia, homem educado e cede a mercadoria dando-se por contente por ter estrela tão cintilante e ebúrnea a dois palmos do nariz.

SUN SET Um bar de caixotes de cargueiro almofadados na praça central de Eivissa. O sol quando se põe não é para todos

“Onde é que isto já vai”, pensa para consigo, e faz as contas às celebridades que já constam do seu diário de viagem, isto numa semana de baixa-mar e sem ter posto ainda os pés nas afamadas praias des Salines, Es Torrent ou Cala d’Hort, ou no Space, no Pacha, no Manumission at Privilege, no Underground ou no DC1o, os clubes da febre de segunda a domingo (e de manhã à noite). Depois de comer uns lagostins com arroz, uma dorada al sal e uma tarta de queso no Sa Capella, em Santa Agnés, e de beber um derradeiro copo de Penedés à saúde de Carlos, Pepe e Manolo, o viajante retira-se para o seu aposento, tão anónimo e imaculado como veio ao mundo. E VENHA CONNOSCO NA PÁG. 128

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