Issuu on Google+

Tiago Carvalho


bodyspace.net

Angelo Badalamenti Music From Twin Peaks 1989 Warner Bros Todos temos uma Twin Peaks dentro de nós. Não uma Twin Peaks-cidade, não uma Twin Peakssérie, mas uma Twin Peaks-atmosfera. Todos temos esconderijos, mistérios, fetiches ocultos, máscaras, segredos. Fingimos desde a alvorada do dia até ao momento em que caímos no sono, debaixo dos cobertores no Inverno ou em cima dos lençóis no Verão. Provavelmente, durante o sono, somos puros. Existe um podre debaixo de cada corpo são. Pelo menos, é esta a visão do Homem que David Lynch e Mark Frost pareceram querer passar para o ecrã de televisão, na transição da década de 80 para a de 90, quando se propuseram a escrever o argumento da soap opera que revolucionou esse pequeno aparelho que, já na altura como hoje, oferecia aos espectadores mais do mesmo. Essa Twin Peaks que passa agora, de novo, no pequeno ecrã numa terça à noite ou mesmo a que vive desde e para sempre na nossa mente parece não se querer calar. Nem o sistema de silenciamento no correr das cortinas desenhado por Nadine resultaria neste contexto. «Há sempre música no ar», diz o Dream Man a Dale Cooper, o agente destinado a resolver o caso Laura Palmer, durante o sonho em que uma sósia (ou não) da falecida lhe segreda o nome do seu assassino. Há sempre um grito de desespero, uma respiração, um suspiro, uma cena de amor, uma dança, passos suspeitos, uma exaltação. Há sempre som, ruído, música. Quer na série, quer na mente do Homem. Na série, desde o genérico inicial – com imagens de uma cidade nebulada e sombria a fazerem-se acompanhar do tão memorável quanto sempre misterioso «Twin Peaks Theme» - aos créditos finais – com a imagem de uma Laura Palmer aparentemente feliz e inocente e o «Love Theme From Twin Peaks» em fundo a fazer crescer a vontade de regressar a este mundo – há música em todo o lado. Os momentos de suspense, a cena da descoberta do corpo de Laura Palmer, a dança de Audrey ou até mesmo as cenas de amor entre Donna e James não teriam o mesmo impacto sem a música criada por Angelo Badalamenti – colaborador de Lynch desde Blue Velvet (1986) - para cada um dos momentos. Música, diálogos e imagens confluem numa unidade, a tal atmosfera. É neste sentido que poder-se-á conceber a ideia de que o humor, a tensão, o sarcasmo e a ambiguidade vividos por cada uma das personagens que habita Twin Peaks ganham uma nova dimensão quando a música vem socorrer as palavras e as imagens que não têm força suficiente para viverem por si. Angelo Badalamenti – acompanhado de Kinny Landrum, Eddie Dixon, Al Regni, Julee Cruise, entre outros - imprime a esta banda sonora um grandioso trabalho de ambientes, mesmo que por meio de instrumentos convencionais como o piano, o sintetizador, as guitarras eléctricas, as percussões, o clarinete ou o saxofone. Torna o estranho mais estranho, torna o cool mais cool, tendendo umas vezes para os devaneios jazz («Dance Of The Dream Man», «Freshly Squeezed» ou «Audrey’s Dance»), outras para os sons graves e medonhos de um pesadelo («The Bookhouse Boys» ou «Night Life In Twin Peaks»), ou ainda outras para as epopeias orquestradas em crescendo constante («Laura Palmer’s Theme» e «Twin Peaks Theme»). Restam ainda as três grandes «canções» interpretadas pela voz etérea e dreamy de Julee Cruise (com a soberba «Nightingale» a sobrepôr-se às também boas canções que são «Falling» e «Into The Night»). É notório que Badalamenti – senhor com formação clássica e discípulo de Ennio Morricone – é mestre na arte do «tragicamente belo» que se conjuga na perfeição com as histórias repletas de surrealidade e


de paixão de Lynch. Também é patente que a fórmula para os seus trabalhos posteriores se encontra por aqui: as bandas sonoras de Mulholland Drive e Lost Highway respondem por si, mas sendo Music From Twin Peaks a fórmula inicial, há que lhe dar todo o mérito: porque é viciante, mesmo que as variações de um mesmo tema não sejam de todo uma grande alegria para o ouvinte; porque é envolvente e faz-nos sonhar e acreditar que ainda existe dignidade na Terra mesmo que Twin Peaks o negue. Peçam algo bonito e escuro, que cresca até um climax poderoso. Muito facilmente Angelo Badalamenti levantará a mão e dar-vos-á em minutos um «Laura Palmer’s Theme» a piano. Com sorte, verão Laura Palmer, de vestido rasgado, sorrateiramente a abandonar a floresta (onde escondemos os nossos segredos), a dizer-vos olá. E com mais sorte ainda, não desaparecerá. Com as corujas... ou talvez não. A cantar «our hearts will fly with the nightingale» ou não... Tiago Carvalho Publicado em 29 Dez 2003 Link - http://bodyspace.net/album.php?album_id=256

 


bodyspace.net

Angelo Badalamenti Mulholland Drive OST 2001 «Blue Velvet», 1986. Primeiro cruzamento entre o mundo cinematográfico de David Lynch e a música de Angelo Badalamenti. Desde então, os ambientes ambíguos e surrealistas criados para os filmes e para as séries de televisão da autoria de David Lynch passaram a viver, lado a lado, com a música majestosa de Badalamenti. Desde então, a música passou a tomar um lugar crucial na cinematografia de Lynch, não como mero fundo às imagens, mas tornando-se, antes, parte integrante dessas mesmas imagens. Foi assim com «Twin Peaks’ Theme», que ainda hoje ecoa na cabeça de milhares de aficcionados pelo fenómeno que constituiu a série, em plena alvorada dos anos 90. E foi ainda assim em 2002, quando saímos da sala de cinema com o tema principal de «Mulholland Drive» na cabeça, caldeado com as ideias indefinidas que o filme nos provocou. Entrando, calmamente, no universo da banda sonora de «Mulholland Drive» deparamo-nos (como é, aliás, hábito e familiar para quem conhece os trabalhos anteriores de Badalamenti para bandas sonoras) com múltiplas variações do tema principal da longa-metragem, servido aqui de arranjos orquestrais de luxo (como também já é regra) da responsabilidade da City of Prague Philharmonic, e com alguns temas inspirados na escola jazz, de teor ora esquizofrénico, ora cool. Seguindo esta descrição, pensarão os leitores que Badalamenti anda a repetir-se há mais de quinze anos. E, de certo modo, não estarão muito longe da Senhora Toda Poderosa, A Verdade. Se a banda sonora de «The Straight Story» trouxe-nos, como novidade, a predominância da intercepção triste e nostálgica entre a guitarra acústica e o violino, «Mulholland Drive» surge-nos como o retorno às sonoridades exploradas em bandas sonoras como as de «Twin Peaks» ou de «Lost Highway». Porém, existe, como não existia em «Lost Highway», o culto do belo. A maioria das composições assinadas por Badalamenti para esta banda sonora compreendem momentos de uma rara beleza que, por si, quase que desculpam uma qualquer repetição das fórmulas vencedoras no passado. Badalamenti é o mestre contemporâneo do classicismo simultaneamente trágico, negro e belo. Ponto final. Badalamenti é inovador. Muitos pontos de interrogação e alguns pontos de preocupação relativamente ao futuro da sua obra. Da sua autoria, nesta banda sonora, há pérolas absurdamente belas como a exaltação depois de um silêncio medonho em «Mr. Roque/ Betty's Theme», o soberbo hino ao amor omnipresente em todo o filme, «Mulholland Drive/ Love Theme» ou o épico [mais um] «Diane & Camilla». Do lado do jazz, há o fantástico swing-minuto-e-meio intitulado «Jitterbug», o não menos cool «Dinner Party Pool Music» e ainda o jazz de saxofone esquizofrénico e surreal sob o nome «Silencio», para nos assustar por momentos. Por concretizar só mesmo a novidade. Um facto é certo: Badalamenti continua a fazer a música ideal para o universo de Lynch e estranharíamos se algum dia víssemos um filme seu, despido destes sons, porque, de facto, simultaneamente, funcionam na plenitude. A questão primordial é se, na realidade, o produto, isolado de um contexto cinematográfico, sobrevive, sem que pensemos que existe alguma saturação e repetição, apesar da sua inegável beleza. Além dos dez temas compostos por Badalamenti, a banda sonora presenteia-nos sete temas de uma diversidade tremenda. Três deles são da responsabilidade do próprio Lynch, (em parceria com John Neff) e bebem, ora de águas do rock progressivo em versão distorcida e hipnótica ( conferir «


Mountains Falling»), ora da melancolia das melodias saídas da guitarra de Adrian Utley (Portishead) em «Pretty 50’s», tema ideal para acompanhar uma cena de ciúmes e de humilhação pública, da qual uma das mulheres de «Mulholland Dr.» é vítima. De resto, há uma fantástica interpretação solo, em castelhano, de «Cryin’» (de Roy Robinson) por Rebekah Del Rio, que nos aparece na famosa e surreal cena do Clube Silêncio. Há, ainda, blues em «Bring It On Home» e jazz em «The Beast» e, ainda, uma pequena incursão pela cançoneta dos anos 50 em «I’ve Told Every Little Star», interpretada por Linda Scott. Num todo, «Mulholland Drive», a banda sonora, é uma peça contrastante e ambígua. Traz-nos, assim, por um lado, o tragicamente belo mas sem novidade de Badalamenti e, a contrapor, o ecléctico e o surpreendente, assinados aqui por gente tão diferente como Rebekah Del Rio, David Lynch, John Neff ou Willy Dixon. No entanto, a acompanhar o filme, é quase perfeita.

  Publicado em 02 Mai 2003 Link - http://bodyspace.net/album.php?album_id=172 


bodyspace.net

V/A 007 2003 Bor Land Após o lançamento dos EP’s de gente como os Norton e The Neon Road e do álbum de Old Jerusalem, a incipiente editora nortenha Bor Land voltou às compilações. O regresso dá pelo nome de 007 e corresponde ao quarto tomo neste formato, depois de Looking For Something, Your Imagination e Looking For The Stars. O propósito, esse, mantém-se intacto – o de divulgar novos projectos de origem nacional, de diferentes esferas estilísticas, com paixão. 007 apresenta-se-nos, deste modo, como uma pequena história de catorze capítulos. De catorze promissores capítulos que traduzem na perfeição o passo significativo que a própria Bor Land tem dado nos últimos meses. A fórmula comum do passeio que se inicia acelerado e com término calmo, nesta compilação, não é correspondida. É, pelo contrário, invertida. Como, aliás, a ideologia da Bor Land. «Sight», dos In Her Space, – o tema que abre a história - é precisamente um calmante para adormecer, de tanta delicadeza e calma que emana. No lado extremo, «Outta’yer», dos Bildmeister, - o tema que fecha a história - é um poço de energia. No início são os ambientes relaxantes com um toque de Matmos que nos chegam, delicadamente, aos ouvidos. No final ouvimos uma espécie de Sonic Youth sob uma injecção de energia adolescente. Pelo meio, doze capítulos. Todos eles agradáveis, a maior parte interessante. Partindo desta pressuposição, facilmente desvendamos em 007 uma hora de música e músicos com vontade de crescer e saber mais. Numa era em que a inovação é uma espécie em vias de extinção, resta-nos pedir criatividade e interesse às reciclagens que se vão fazendo do passado. E neste campo, o objecto-história cumpre as exigências e, mais importante, consegue surpreender. 007 exala frescura e vida, seja na candura em formato acústico de «Is This April» de Old Jerusalem, seja na elegância da pop açucarada de «Amour Le Coquin!» dos Simpletone ou nos sons kid-a-nos de «We Love Our Guns» dos Stowaways. Reciclagens criativas q.b., diria eu. Em 007 as guitarras assumem um especial protagonismo, apesar de, contudo, não ser de rock convencional de que aqui se fala. Elas sobressaem no breve lamento arrastado de «Autumnal» dos Mindelo e no limão ácido de «O Mundo A Dormir» dos Tenaz. Elas explodem em «Am I Welcome Here» do projecto The Neon Road e flutuam, embaladas por um violino e um teclado de órgão, em «Blue Song» dos Norton. «Brightned Star», dos Alla Pollaca em versão da Stealing Orchestra, a par com o tema dos In Her Space, será um dos temas mais suaves da compilação que parece nos querer transportar às nuvens. Música de embalar - entre guitarras, pianos mágicos e ecos electrónicos de Boards Of Canada – servida por um soporífico canto feminino. Para corroborar a diversidade de ambientes da qual a história 007 é construída, damo-nos de ouvidos com o experimentalismo de «Sky Mistik» do projecto Kubik, aka Victor Afonso. É notável o eclectismo do qual é revestido este capítulo. Em apenas 4 minutos e 19 segundos temos a possibilidade única de escutar, em combinação íntegra ou não, um coro gregoriano, uma jam session de percursão, uma guitarra de flamengo, um contrabaixo, um jazz a piano, um saxofone, uma batida hip hop ou uma voz feminina hipnótica. Por vezes, pareço ouvir Dead Can Dance, outras vezes algo mais. Para o final, a frescura e a adolescência das guitarras acústicas fica a cargo dos Morangus que em «Blunder» realizam o melhor momento pop descomprometido da compilação. Segue-se o diabólico momento assinado pelo projecto Wave Simulator, uma espécie de uns Trail Of Dead mais aborrecidos


e negros, a roçar o metal. Chegados ao fim do passeio, uma constatação. A Bor Land está a traçar um dos trajectos mais estimulantes do reino editorial nacional. Os projectos são interessantes. O culto já se instalou. Só nos resta aguardar mais frescura e vontade para os próximos meses da editora. Tiago Carvalho

  Publicado em 19 Jul 2003

Link ‐  http://bodyspace.net/album.php?album_id=202 


Body