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Tiago Monteiro Dias – A escravidão dos tempos presentes.

A escravidão dos tempos presentes.

A Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, falando dos motivos que levaram à tirania na Grécia antiga diz: «ao agricultor reduzido à miséria só restava a solução de se entregar como escravo, para saldar as suas dívidas. E, sendo assim, os homens livres já tinham mais dificuldade em encontrar quem os assalariasse»1. Ora, esta passagem que descreve acontecimentos históricos que remontam a sete séculos antes da era de Jesus Cristo, pode, com as devidas adaptações ou se a quisermos tomar como uma linguagem mais poética e figurativa, ser aplicada à vida dos homens de hoje. Não é preciso, contudo, fazer muito esforço para perceber quem são hoje os “agricultores reduzidos à miséria”, nem quais sejam as escravaturas a que eles hoje se entreguem, nem ainda quais as dívidas que tenham de pagar. Infelizmente, tampouco nos custa perceber da dificuldade que, por causa da escravatura, os homens que querem ser livres têm em arranjar emprego. Ainda que a nossa democracia seja mais perfeita do que a dos nossos ancestrais gregos, não somos melhores do que eles foram! Continuamos a ter escravatura remunerada, como era a deles2! A necessidade de saldar dívidas e de ter pão para a boca obriganos a aceitar a humilhação de trabalhar por uns míseros 534 euros, subtraídos os impostos e as contribuições, que nem sequer chegam para vivermos. A necessidade empurra-nos a trabalhar horas gratuitas para subir nos escalões de vendas, a viver em constante concorrência com colegas, tornando a nossa vida numa consagração ao trabalho por conta de outrem, aniquilado a vida própria de cada um, os trabalhos nas nossas próprias casas e quintais, passatempos em família e com amigos e deveres religiosos, iludidos pela promessa de aumentar o pouco salário ao fim do mês, com as comissões de vendas de produtos. Há muitos portugueses que pura e simplesmente deixaram de ter vida própria por causa dum trabalho duro que nem chega para lhes pagar as despesas! Esta democracia – nascida da revolução de 1789 – no século XIX, condenou e interditou a consagração livre dos cidadãos à vida religiosa, roubou-lhes as propriedades, e forçou-os a uma vida não desejada em nome do ideal liberal político de liberdade: assim também hoje somos forçados a um ideal de vida de consagração quase exclusiva ao trabalho escravo, mal remunerado e com horários asfixiantes da 1

Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de história da cultura clássica, I vol. – Cultura grega, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, [1997], p. 178. 2 Conf. Idem, Ibidem, nota 27, p. 185.

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vida privada e em família, somos reclusos nos novos mosteiros e conventos da democracia: deixámos de adorar a Deus, para adorar o comércio, a industria, os patrões e a técnica! Liberdade religiosa existe??? Qual é o patrão que permite, por exemplo, ao seus funcionários católicos o cumprimento do dever que têm da Missa aos Domingos e dias santos de guarda?! Onde está essa dita liberdade religiosa que este Estado diz consagrar e defender na nossa Constituição? Pode alguém ser livre de dizer na entrevista de trabalho que é católico e que, portanto, aos Domingos e dias santos, tem de ir à Missa? Algum patrão lhe daria emprego?? Basta lermos os anúncios de trabalho para percebermos que não: “disponibilidade total” é o que nos pedem. Ora aqui temos nós a consagração, aqui temos a escravidão! Quem é que nos paga este encarceramento?! Que salário nos pode pagar convenientemente esta total disponibilidade de horários?! Como na Grécia antiga, “os homens livres já tinham mais dificuldade em encontrar quem os assalariasse” porque há sempre um miserável que, por força das dívidas e das necessidades, tem de se escravizar ao salário injusto (ainda que legal), ao sistema de comissões que o lança para a inexistência de horários (ainda que no contrato estejam consagradas as 40 horas semanais da ordenança). E por isto tudo, quando o homem livre se apresenta nas entrevistas de trabalho, é recusado, porque o “esclavagista” sabe bem que tem uma multidão de miseráveis à porta, implorando aquela vaga, sem restrições de carácter religioso, sem reivindicações dum salário digno em vês dum salário legal, sem se importar de ser apenas assídua na hora de entrar, mas não na hora de sair, sem espírito crítico e sem boca! Amordaçado e agrilhoado pelo sistema livre, republicano, e democrático no qual vive e que lhe deixa na bolsa 534 euros para se governar durante um mês, não resta ao homem livre outra solução senão a de se escravizar também, com “disponibilidade total”, sem vida privada, sem família, sem casa de sua propriedade (tem de viver em casa dos pais), sem transporte pessoal (pois que tem de andar de transporte público ou a pé, porque temos de ser ecológicos), sem crenças nem práticas religiosas, sem passatempos nem associativismo, sem acesso à cultura, a férias e a lazer, sendo assíduo no horário de entrar, mas sem regra no de sair. Dizei-me se isto não é um sistema esclavagista, sem fuga possível!? Todos nós vemos e vivemos isto no nosso quotidiano! A miséria de uns leva ao aumento da miséria de todos, leva à revolta das consciências, que conduz aos totalitarismos tirânicos! Os homens livres não! Os homens livres compram casa própria, têm o sábado e o Domingo livres e se não têm, recebem um pagamento justo por essa redução da sua qualidade de vida e da sua liberdade, podem ter uma família e os filhos que quiserem, se não têm é porque não querem, têm transporte e casa de sua propriedade (não andam a pé nem de

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transportes públicos, porque isso é para os pobres), participam do culto da sua religião, e se não participam, é porque não querem, vão aos hospitais e clínicas que mais lhes aprazem, Podem comprar medicamentos e pagar tratamentos e operações a tempo de se salvarem, passam férias onde querem, reúnem-se com os amigos, jantam fora e vão ao cinema e a museus, compram livros e assinam jornais, etc... O trabalho dos homens livres é pago com um salário digno que lhes permite serem livres, permite-lhes optar! O trabalho dos homens escravos é pago com um salário que nem chega para poderem fazer face às despesas básicas da comum existência dum mortal nos dias de hoje. Ora, aqui está o sistema em que vivemos, o sistema da nova escravidão deste século: uma sociedade que continua a fazer acepção de funções, como se algum dos trabalhos de que ela necessita fosse condenável a uma categoria inferior ao da dignidade mínima dum homem livre, à dignidade da vida livre, num sistema político que se afana de ser igual, justo, democrático e o melhor dos sistemas que, até hoje, a história teve! Este sistema, porém, não resolveu, nem conseguiu tirar o escravo da sua condição indigna, injusta, miserável, de total disponibilidade para o trabalho, sem que possa daí tirar um proveito digno para se alforriar, para poder optar, para se manter no patamar mínimo da dignidade dos homens livres, da dignidade dos homens. Só livres é que somos homens por completo. Mas então, qual é a solução, é abaixar os homens livres e com uma vida digna à condição dos escravos? Não, o nivelamento nunca pode ser por baixo, o nivelamento mínimo para que um homem seja livre pelo salário do seu trabalho é a fruição duma vida digna, com as condições de qualidade que a sociedade do seu tempo considere para uma vida boa, justa, com qualidade e salubridade e com acesso às comodidades a que todos os homens têm direito pelo facto de serem livres, não apenas codificadas nas leis, mas de facto! Podemos tomar o exemplo dos parlamentares desta Nação, já que são eles que exercem por nós o direito de cidadania, de legislar: sejam eles também o paradigma da vida digna e justa para os demais cidadãos. Não estou a defender um igualitarismo, nem pensar! Defendo um acesso contextualizado, de facto e não apenas consignado como direito nas leis, como disse, segundo a condição de cada trabalhador singular 3 , às comodidades que um parlamentar deste país pode ter: casa e transporte próprios, acesso a um serviço digno de saúde e de escolaridade, possibilidade de constituir família e de a sustentar dignamente, acesso à cultura e ao lazer, a passar férias e a viajar (sim, porque a cultura não se obtém sem que se seja uma pessoa viajada) a ter tempo para a família e para os amigos, para a prática duma religião e de associativismo. Enquanto não for 3

Com isto quero dizer que o salário de um trabalhador que viva sozinho e sem dependentes lhe permita ter todas as condições de dignidade livre sem se amparar na família ou noutras instituições. Sem se ver forçado a uma união por matrimónio ou não, com laços amorosos ou de amizade, para poder sobreviver (que é diferente de viver).

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dada esta dignidade aos cidadãos todos e singularmente, continuaremos a viver numa democracia esclavagista, que, como a grega, até pagava um salário os seus escravos. Continuaremos a ter cidadãos que nascem para viver e outros que nascem para sobreviver...

Coimbra, 17 de Março de 2019. Tiago Monteiro Dias.

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A escravidão dos tempos presentes  

Análise da situação degradante dos trabalhadores e do trabalho em Portugal na actualidade. Propostas de futuro. A liberdade limitada pelos b...

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