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saber viver Distribuição gratuita | n.º 11 Abril | Maio | Junho 2009 | Trimestral

Porto Amboim Um novo Condomínio Habitacional

Huambo Venha conhecê-lo

Breve apontamento sobre a arquitectura angolana no séc. XX

Mente sã e corpo são… para toda a família


Editorial

editorial NÃO DEVEMOS RECEAR AS MUDANÇAS NEM RECUAR PERANTE OS GRANDES DESAFIOS

A vida é feita de momentos. Há momentos altos, de grande inspiração, momentos baixos e de monotonia. Nesses altos e baixos há mudanças. Muda a realidade social, e assim o figurino político, a forma de governação, os modelos de gestão macro e micro económicos e as políticas das instituições financeiras. E como as organizações não constituem compartimentos estanques, elementos estranhos ao movimento e processo histórico, são fortemente afectadas por essas alterações, adaptando-se à nova realidade criada pelo universo de situações. Registamos nesse momento várias transformações nas políticas internas e externas, motivadas pelas actuais situações que se repercutem à escala mundial, cujos efeitos não podem ser ignorados sob pena de sermos derrubados pela galopante avalanche histórica, tragados pelo mar de inovações que pela natureza globalizada da economia mundial tem efeitos nefastos para as instituições mais frágeis. Não devemos recear as mudanças nem recuar perante os grandes desafios porquanto «é nas noites mais escuras que as estrelas brilham». É momento de agir. Urge a tomada de medidas à altura para evitar que sejamos uma instituição que, não se adaptando às mutações do mercado nem à dinâmica da vida, não soube interpretar os sinais dos tempos passando para o museu das organizações fracassadas. Às vezes até parece o reviver de momentos já exaustivamente relatados na História. Surgiram ao longo dos tempos teorias devidamente sustentadas durante séculos como verdades absolutas mas que são depois refutadas por uma nova visão da realidade, fundamentada pelas novas conquistas da humanidade. Surge então uma posição ecléctica que harmoniza os aspectos positivos das duas anteriores posições, enriquecendo assim o acervo ideológico da humanidade. Tal é a dialéctica da vida à qual devemos prestar a maior atenção pois doutro modo seríamos ultrapassados pela história. Saibamos pois viver o nosso tempo com as mudanças que nos impõe, aproveitando o que de bom nos foi legado, e a nossa consciência histórica nos obrigue a deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos. É momento de unirmos forças para juntos debelarmos os obstáculos que surjam na nossa caminhada, rumo a um novo estágio da sociedade angolana com um modelo de vida sadia enquadrado na defesa da Natureza e da humanidade.

Propriedade: Sociedade Cooperativa de Habitação Cajueiro Rua Samuel Bernardo n.º 8 | 10 R/C Ingombota Luanda – Angola Tel.: 244 226 440 001 /2/3/4 / 244 222 394 567 / / 244 222 396 789 Fax: 244 226 440 005 / 244 222 398 767

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Presidente: Carlos Gil da Cunha Secretária-Geral: Deolinda Canifa Departamentode Com unicação eM arketing: Lucinda Mangueira Produção Gráfica: Tiragem: 10 000 exemplares

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Editorial

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Informação Situação Actual dos Projectos

10 Informação Visita de trabalho ao Lobito 12 Condomínio Condomínio Habitacional em Porto Amboim

16 Vida na Cajueiro Viver no Condomínio do Cajueiro em Porto Amboim 20 Arquitectura Breve apontamento sobre arquitectura angolana no séc. XX 26 Decoração Decore o exterior da sua casa 30 Saúde Mente sã e corpo são… para toda a família

33 Culinária Sopa de Cogumelos Esparguete com Camarão Muffins de Maçã e Chocolate 36 Tecnologia 38 Turismo …Huambo, muito mais…


Arquitectura

Breve apontamento sobre a arquitectura

angolana no séc. XX

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Texto: Tiago Lança (arquitecto) Fotografia: Marta Lança, Ana Maurício


Assistimos hoje a um interessante processo de construção, não só físico mas também identitário, de um país. Angola constrói-se e reconstrói-se com energia, alimentando-se da sua profunda e legítima necessidade de se afirmar internacionalmente, e da vontade de materializar a importância das suas instituições, do seu ambiente construído e do seu povo. Exactamente por estar a decorrer, este processo pode tornar-se num exemplo. Neste momento, estão reunidas a capacidade financeira, o potencial humano e a criatividade essenciais à compreensão do papel que a arquitectura pode desempenhar na construção da sociedade angolana. Mas para assimilar este enorme campo de possibilidades, que se abre à nossa frente, é necessário medir os passos que foram dados, centrando-nos nos últimos cinquenta anos. Durante

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o século XX, África representou um espaço de liberdade para os arquitectos europeus. Muitos arquitectos portugueses, inspirados pela cartilha modernista, tornaram reais experiências impossíveis de concretizar em Portugal, nessa altura, um país fechado à imaginação e esteticamente previsível. Esses arquitectos, nascidos nas décadas de 10 e 20, vieram, por razões tanto políticas como profissionais, sobretudo para Angola e Moçambique ao longo dos anos 40, 50 e 60. Alguns, como Vasco Vieira da Costa (1911-1982), já viviam em África, tendo vindo a Portugal completar os seus estudos. Este arquitecto, que estudou e trabalhou com Le Corbusier (o grande impulsionador da arquitectura moderna), tem uma obra assinalável em Luanda. Destaque para o recentemente destruído mercado do Kinaxixi (de 1950-52)

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e para o bloco da Mutamba (de 1968-69) onde actualmente tem sede o Ministério do Urbanismo e Obras Públicas. Outros, como José Pinto da Cunha e Francisco Castro Rodrigues chegaram com os estudos concluídos. O primeiro foi autor de inúmeras moradias, mas sobretudo conhecido pelo complexo da Radiodifusão de Angola, em Luanda. O segundo ficou conhecido como o «arquitecto do Lobito» por ali se ter fixado, em 1953, desenvolvendo um notável trabalho enquanto planeador, urbanista e arquitecto. Entre outros equipamentos, é da sua autoria o cine esplanada Flamingo. O luandense Fernão Simões de Carvalho, outro que passou pelo atelier de Le Corbusier, foi co-autor do hospital do Lubango e do conhecido Bairro Prenda. Este arquitecto teve também uma forte intervenção no planeamento municipal de Luanda. Mas haveria outros nomes a referir: o de António Campino, que

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projectou o Hotel Presidente ou a Auto Avenida em Luanda; o dos irmãos Garcia de Castilho, autores do Cinema Restauração ou do edifício Mobil; e os de Fernando Batalha, Pereira da Costa, Luís Taquelim, só para assinalar os mais recorrentes e cuja actividade se foi cruzando durante estes anos. Foi esta geração, a «geração africana», a responsável pela última grande vanguarda da arquitectura no século XX. À distância dos anos, podemos avaliar que esta não terá sido, de todo, uma arquitectura impositiva. Muito pelo contrário, tratou-se de algo natural que se materializou por razões de ordem geográfica, económica e social. Por norma, no espaço das então «colónias» vivia-se numa maior abertura do que na «metrópole». As dimensões cultural e económica eram outras, muito menos asfixiantes que as portuguesas. A esses factores aliou-se o entusiasmo colectivo (e alguma ingenuidade) dos arquitectos perante

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um território vasto e por construir. Os condicionamentos específicos do contexto africano levaram à criação de soluções técnicas inovadoras e ao desenvolvimento de um léxico formal único. Ou seja, é por esta altura que começam a surgir palas de ensombramento, grelhas de ventilação e outros elementos que se inserem não apenas como decorativos mas estruturais. É também durante estes anos que se fazem os primeiros ensaios com cor, e em que se aplicam texturas e pinturas murais nas paredes. Tudo isso faz parte de um processo de hibridação e adequação que todo o paradigma arquitectónico vai sofrendo. Objectivamente, o que sobreveio foi o modelo corbusiano, só que despudorado e vestido de festa. É ele que encontramos nos cinemas, nos hotéis, em algumas moradias, nos cafés, nos mercados, etc. A isto se chamou, carinhosamente, de modernismo tropical.Vimos que o advento da arquitectura moderna teve em África o seu espaço de experimentação e, porque não dizê-lo, de fantasia. Não se pode negar presença, a esse passado tão recente, no património construído das nações pós-coloniais. A questão que se coloca é: o que fazer com ele? Não é possível preservar tudo. Até aí estamos todos de acordo. Mas apagar, sem critérios válidos, é um erro que se paga caro. Porque não se pode viver sem memória. Nem se pode contar a nossa história sem recorrer a exemplos tangíveis, sem compararmos uma imagem do que existe com uma imagem do que existiu. Os edifícios que restam deste período modernista devem, portanto, ser conservados. Mais que não seja porque se trata de objectos bem construídos, e cuja robustez tecnológica permitiu uma longa duração no tempo. Além disso,

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a maioria deles faz parte de uma rede de equipamentos que pode e deve estar ao serviço dos cidadãos. Da mesma forma como as estradas e infra-estruturas que, também elas, necessitam de conservação. A natureza dos edifícios modernistas tem justamente a ver com este lado funcional. Por si só, eles mais não fazem do que exprimir uma resposta a um problema concreto. São objectos para serem usufruídos, para lá de qualquer simbologia. Pertencem, não mais aos seus autores, mas àqueles que os utilizam. E, sobretudo, pertencem aos lugares para onde foram pensados. Fará então sentido destruir o que é nosso? O que nos pertence? Ainda está por fazer um reconhecimento e levantamento exaustivos da verdadeira dimensão deste património. Tarefa essa que caberá aos angolanos, arquitectos e não só. A todos aqueles que reconheçam o valor que ele tem enquanto parte essencial da histó-

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ria da arquitectura mundial, da cultura arquitectónica africana e da angolana em particular. Mas nem só de conservação vive a arquitectura angolana. Do outro lado da moeda está o potencial enorme da construção nova. As boas condições económicas têm feito com que muitas empresas se fixem em Angola. Além de quererem, obviamente, fazer negócio, precisam de ter publicidade e visibilidade. E isso faz-se através de grandes investimentos na arquitectura. Projectam-se e erguem-se, a um ritmo elevado, altos edifícios de escritórios, sedes de bancos e sucursais de multinacionais. Vai-se falando, aqui e ali, na construção de um hipotético Dubai africano. Ora, não tendo nada contra as mais loucas aventuras arquitectónicas arábicas, é preciso que esses grandes investimentos tragam contrapartidas para as pessoas. Além de mais emprego, é possível que as grandes companhias ou grupos económicos participem, mediados pelo Governo, na resolução de problemas

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como a habitação ou a infra-estruturação do território. O desenvolvimento tem que vir por inteiro e tocar a todos, não só a alguns. Neste aspecto particular, o sector da construção civil e a arquitectura podem ser preponderantes. Todo este frenesim trouxe também outro tipo de acontecimento, envolvendo especialmente a arquitectura. Falamos de casas unifamiliares, segundas casas e casas de férias. Diariamente são submetidas centenas de projectos de urbanizações direccionadas, sobretudo, para terrenos suburbanos das maiores cidades e para as zonas rurais ou semi-rurais das províncias. Por um lado, essa fatia de mercado é um renovado espaço de experimentação, tipológica e formal, para os arquitectos. Por outro, é imperativo fazer um planeamento consciente e saber organizar o território. Um bom planeamento evita a dispersão de urbanizações tipo «cogumelo» e permite a diferenciação daquilo que é solo urbanizável, reserva ecológica ou agrícola. Num pag território tão grande isso fará toda anuncio-1-2 final_v2.pdf 1 9/21/09 4:15 PM a diferença.

Até porque, dada a actual concentração excessiva em Luanda, as cidades médias estão a perder habitantes e importância. Sabemos que hoje a construção passa muito pelas ideias de equilíbrio e de sustentabilidade. Talvez em Angola, à semelhança de Portugal, o modelo esteja ainda próximo daquilo que é, ou poderá, ser rentável e não do sustentável. A grande diferença é que Angola cresce e Portugal estagna. Por isso, e voltando ao princípio, tratando-se de um processo em curso ele poderá ser exemplar. Basta que se queira. Aliás, tem tudo para correr de feição: um território rico em recursos naturais dos quais se pode tirar um proveito consciencioso, a presença do know-how necessário para gerar e gerir um melhor aproveitamento energético, pessoas e quadros qualificados que sabem da importância de pensar o futuro a longo prazo. Este é o momento para todos os intervenientes neste processo, e aqui especialmente para os colegas angolanos, alcançarem esse futuro desejado.

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