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A música que vem do inusitado Tiago Kern Música. É provável que, após ler essa palavra, o leitor tenha instaneamente construído uma imagem mental de algum instrumento musical, como um piano ou um violão. Outros poderiam imaginar um microfone empunhado por algum artista famoso ou então um set completo de bateria, pronto para estourar em ritmos envolventes que fornecem o compasso da dança. Os de ouvido mais erudito podem até mesmo projetar a imagem de um maestro conduzindo uma grande orquestra agraciada com os agudos de um violino choroso, com as notas graves e aveludadas de um contrabaixo, a sensualidade expansiva de um saxofone e as enérgicas e efêmeras batidas da campana. Mas ninguém iria, ao ler a palavra “música”, pensar em uma roda de bicicleta. Ainda assim, foi com uma roda de bicicleta que a banda porto-alegrense Apanhador Só construiu não apenas toda a imagética em volta do conjunto, mas também boa parte das composições que lançaram no cenário cultural brasileiro. Um pedaço de metal se choca com os aros que convergem para o centro metálico do anel enquanto a roda é girada, produzindo uma seqüência de estraladas. A tangente de metal do arco, onde se encaixaria a borracha de pneu, é utilizada para gerar um som de raspagem que confere ritmo ao repertório acústico do conjunto. A roda de bicicleta fica suspensa do encaixe da parte onde estaria o guidão da mini bicicleta, transformando o já incomum instrumento-símbolo da banda em um simpático mascote, meio obra de arte, meio apetrecho circense. Além do criativo objeto, o conjunto utiliza diversos itens incomuns na produção de canções – em sua maior parte, itens de sucata, como ralador de queijo, latas e garrafas. A incorporação desses instrumentos no rock alternativo salpicado de folk da Apanhador Só ocorreu quando uma ex-integrante do conjunto, Carina Levitan, sugeriu que usassem os objetos sucateados, acumulados aos montes na garagem utilizada para ensaios de Alexandre Kumpinski (vocalista e guitarrista), como instrumentos de percussão. A ideia foi bem aceita. “Batucávamos até num colchão velho”, confessa Kumpinski.


O arsenal inusitado de percussão da Apanhador Só foi priorizado de maneira marcante no segundo lançamento do conjunto, o álbum intitulado Acústico Sucateiro, com versões desplugadas, mais cruas e rudimentares das músicas do conjunto, em que a roda de bicicleta, a sucata e o experimentalismo da banda ficam evidentes. Outro mecanismo interessante utilizado nas composições é um walkie-talkie modificado com uma técnica chamada “circuit-bending”, que permite pegar um equipamento eletrônico que produza sons e causar um curto-circuito no aparelho para que se possa, de certa forma, moldar os sons produzidos, transformando a engenhoca numa espécie de instrumento musical. Os membros da banda não são os únicos que adaptam objetos para criar música. Guenther Andréas, há 23 anos percussionista da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), desenvolveu ele mesmo seu próprio instrumento musical. Apaixonado por música desde criança, descobriu enquanto assistia a vídeos da banda inglesa King Crimson o Stick, um aparato de cordas pouco usual. O objeto é tocado com a técnica de tapping, que consiste de pressionar os dedos com rapidez e força contra as cordas do instrumento para fazer com que a linha vibre, extraindo do impacto a vibração que gera a nota musical. Interessado, o percussionista mandou importar o Stick. Com ele em mãos, percebeu, enquanto tocava obra de Bach, limitações estruturais no desenho do instrumento. Esse obstáculo musical motivou-o a desenvolver sua própria versão do utensílio musical. Assim nasceu a Cravina. Construída com base no Stick, ela adiciona cordas agudas e busca suprir as limitações do braço de madeira invertendo a disposição das cordas de forma a permitir que os dedos do músico percorram livremente a extensão da haste, sem que o movimento de um mão interfira no desempenho da outra. Com nove cordas (as mesmas de baixo e guitarra), a Cravina pode produzir um vasto leque de notas conjuntas devido à atuação simultânea das duas mãos do músico. O método de tocar lembra um guitarrista apertando as cordas como se fossem teclas de um piano. O corpo da Cravina remete às formas do violão e do alaúde. Duas versões do instrumento foram construída, uma com madeira escura, de tom mais aveludado, mas que acabou por provar-se fraca, envergando com as mudanças climáticas e umidade; e outra com madeira


marfim, com um timbre mais enérgico, mas sem problemas de afinação. Devido à sua predileção por realizar performances sentado, Guenther desenvolveu também uma espécie de base de madeira para o banco, na qual a Cravina pode ser encaixada. Assim, o instrumento segue o movimento do corpo do músico. A Cravina não foi a primeira das invenções de Guenther. Quando tocava com Arthur de Faria, o percussionista aproveitou a coleção de latas (o latofone) do amigo músico Fábio Mentz e resolveu “organizar” a sucata. A partir de um conjunto de 24 latas de leite em pó afinadas de acordo com a convexidade, nasceu o “latofone cromático”. Guenther lançou um CD intitulado Cravina, com composições próprias tocadas com o instrumento e acompanhadas por outros mais comumente utilizados. O repertório contém composições escritas para peças de teatro e filmes. A Cravina é considerada o primeiro instrumento de tapping brasileiro. Guenther seguirá produzindo música a partir do fruto de sua concepção com gravações e apresentações, demonstrando, assim, a natureza criativa e musical da humanidade. A música surge de onde se consegue extraí-la, seja a partir de um projeto para modificar um instrumento existente, seja da utilização de sucata como tambor. Então da próxima vez em que o leitor subir em sua bicicleta, é interessante lembrar, enquanto os barulhos do trânsito, o canto dos pássaros e o restolhar das folhas são escutados, que a música também pode valer-se de rodas para nos transportar.


A música que vem do inusitado