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Diversidade lingüística Os diversos sotaques brasileiros ainda causam polêmica Quem já não ouviu uma pessoa falar e achou aquilo totalmente estranho ou mesmo  engraçado? Aquela maneira diferente de falar que dá nó no pensamento a cada  movimento da boca e precisa ser interpretada calmamente para não causar mal  entendidos, já te pegou? Pois é, esta é uma das variações da língua portuguesa em nosso  país: o sotaque. No Brasil existem diversas etnias que ao longo do processo de povoamento de  distribuíram por todo o território. O resultado desta diversidade e a rica cultura presente  em nosso país e alem das diferentes crenças e costumes, o povo brasileiro apresenta  outra característica singular a sua identidade regional: dependendo da região visitada  você poderá ouvir uma fala cantada, uma fala pausada ou uma um pouco enrolada. O  que muito se discute é: por que alguns sotaques são discriminados e outros copiados?  Assimilar as maneiras de falar a classe ou posição na sociedade e um erro grave muito  cometido e que discrimina grupos socias que ao longo do tempo tornaram­se vitimas do  modo como pronunciam as palavras como acontece com a população do Norte do país,  por exemplo. A história da língua portuguesa no Brasil data de 1532 quando a colonização portuguesa  se instalava no país através das capitanias hereditárias; mas foi somente no ano de 1758  que o português se tornou a língua oficial. Foi durante esse período que as expedições  bandeirantes se lançaram para o interior do país atrás de lucros para a metrópole e,  inevitavelmente, carregaram consigo as particularidades da língua oral, contribuindo  assim para a origem dos sotaques característicos de cada região brasileira.  Na região Sudeste, a fala do estado de São Paulo foi influenciada tanto pelos  portugueses, quanto por outros imigrantes, que chegaram ao estado após a colonização.  Se dividirmos o estado em dois grandes blocos, dois sotaques irão caracterizar a região:  o da capital e o sotaque do interior. A capital sofreu forte influência dos imigrantes  italianos e a fala dos paulistanos caracteriza­se pelo erre vibrante. No interior do estado,  a tentativa dos bandeirantes portugueses em se adaptar a língua dos índios é uma das  explicações para o misterioso erre retroflexo. Esta característica oral é ibuída aos  falantes do interior, conhecidos como caipiras. Segundo a lingüista e professora da  Unicamp, Anna Bentes, apesar desta marca oral característica do interior ser muito  estudada, não existem dados que comprovem a origem real deste sotaque que ficou  conhecido como sotaque caipira. Existem ainda outros estados em que este erre puxado,  de caipirrra, está presente: Goiás, Mato Grosso e, segundo estudiosos, através do Rio  São Francisco quase chegou até o Nordeste. O sul de Minas Gerais sofreu a mesma  influência do interior de São Paulo e o erre retroflexo também é uma característica  daquela região; porém, a região norte e central de Minas foi influenciada pelos  portugueses que habitavam o Rio de Janeiro e o sotaque característico é próximo ao 


falado no próprio Rio, com os erres arrastados, confundindo­se bastante com os  cariocas. O sotaque presente no Rio de Janeiro é forte herança portuguesa. Com a  chegada da corte ao estado em 1808, a adaptação social transformou a região em que a  corte se instalou e a língua foi logo incorporada. O famoso S chiado (por exemplo –  depoishhh) e o erre arrastado, como em irrrmão, são as principais características de  grande parte do estado e principalmente da capital, a cidade do Rio de Janeiro. Ângela  Marina Bravin dos Santos, lingüista formada pela Faculdade Estadual do Rio de  Janeiro, em seu artigo, a suposta supremacia do sotaque carioca: uma questão de norma,  fala sobre a polêmica entorno do sotaque carioca e sua relação com a padronização do  português a luz deste sotaque. Em seu artigo a lingüista cita que a escolha feita para se  adotar o falar carioca levou mais em conta questões sócio­históricas do que  propriamente lingüísticas e que a esta decisão permeia “uma sociedade carioca moldada  pela relação senhor e escravo”. A distante região Sul, na qual a principal característica do sotaque é o falar cantado,  ficou de fora da influência dos portugueses que se instalaram no Sudeste do país.  Conforme afirma o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Luís  Augusto Fischer, a influência dos portugueses açorianos fez com que o falante desta  região tivesse um sotaque tão diferenciado. A lingüista Anna Bentes explica que durante a relação em sociedade aquela reação  descontraída de se ouvir uma fala incomum em seu meio de convívio ao longo do tempo  se tornou a principal responsável por estigmatizar alguns sotaques: “o falante é capaz de  interpretar sua fala e atribuir valor a ela, mas o prestígio de outros sotaques acaba  minimizando­a na escala nacional”. Ela afirma que somente o fato de ouvirmos um  sotaque e achá­lo engraçado já é um preconceito lingüístico, mas que esta prática é  pouco ou quase nada reconhecida como um tipo de preconceito. A também lingüista e  professora da Unicamp, Vandersi Sann’t Ana Castro, atribui este preconceito a outros  fatores. Segundo ela, o preconceito lingüístico se exterioriza como uma crítica a  pronúncia, mas na verdade o que está sendo criticado não é a língua e sim o falante. Ela  explica que a esfera da linguagem oral é deixada de lado quando o falante, mesmo  apresentando sotaque, é identificado como integrante de uma classe social elevada e que  esta operação não funciona na mão oposta, ou seja, se um falante de classe baixa  apresentar as mesmas marcações orais será discriminado por sua posição social e não  pelo seu sotaque. “Esta é a base de qualquer preconceito lingüístico, o preconceito  social”, conta Vandersi. É sobre esta relação que a lingüista Ângela Bravin trata em seu  artigo, mas Ângela enxerga este processo extralingüístico como algo positivo. Vandersi  afirma não exprimir preconceito em relação à fala e diz ser difícil julgar um sotaque  mais prestigioso do que outro e que dizer que “um sotaque sobrepõe outro é cair no  preconceito novamente.”  No entanto, é possível enxergar o descrédito atribuído a alguns sotaques e o termômetro  para está análise está dentro de nossas casas. A mídia transmitida em escala nacional é 


prova deste fenômeno de exclusão social através da linguagem oral. Os grandes âncoras  e repórteres dos jornais televisivos nacionais fazem o uso de uma espécie de “linguagem  neutra” de qualquer sotaque ou característica marcante que possa acusá­lo. Para isso, os  profissionais passam por fonoaudiólogas que buscam suavizar o sotaque e suas marcas  mais perceptíveis. A televisão serve como um mapa dos sotaques que predominam sobre aqueles que  foram e ainda são estigmatizados e é certamente espelho para milhões de  telespectadores. É comum nos programas humorísticos e nas telenovelas empregadas,  motoristas ou aquele personagem que nunca entende as piadas e só da fora falar com um  sotaque caipira, nordestino, baiano. Já a pronúncia carioca, sulista e da capital paulista  está sempre na boca de médicos e empresários bem sucedidos. O que seria isso senão  um preconceito social e linguistico? Estudos revelam que desde o início do telejornalismo brasileiro, no ano de 1966, já se  procurava romper com a linguagem tradicional dos telejornais e imprimir um tom  coloquial aos noticiários. A fonoaudióloga da EPTV, Cláudia Cotes, explica que a  suavização do sotaque é feita para que o telespectador não se prenda as marcas orais do  profissional e a notícia seja o foco de sua atenção. Segundo ela esta mudança foi feita  para adequar os telejornais ao gosto das classes médias e altas: “este padrão foi copiado  dos telejornais internacionais que ao longo do tempo foi incorporando o profissional e  criou este estilo de fala padronizado.” Em 1983, a Rede Globo já empregava mais de  mil funcionários em cinco capitais do país e implementava o “padrão Globo de  qualidade”. Na Inglaterra, um estudo revela que os britânicos estão cada vez mais evitando os  sotaques regionais e reproduzindo o sotaque padrão que também é usado pela mídia  para impressionar os chefes e melhorar suas perspectivas profissionais. O baiano Breno  Dias de Oliveira, professor de inglês na cidade de Barreiras, concorda que o sotaque  pode desviar a atenção na hora de receber a mensagem e diz não se incomodar com as  adaptações necessárias: “Olhi rapaiz, eu num veju problema não em mudá minha fala  duranti as reuniões, na sala de aula. Nu meu caso, ensiná uma língua estrangera cum  sutaque pode prejudica os alunos, mas istu não quér dizer que eu me envergonhu du  meu sutaque”. Estudiosos revelam que uma pronúncia equivocada adotada pela mídia pode tornar­se  um estereotipo de fala ideal pelos semi e mal alfabetizados. Estes estudos concluem que  este padrão pode também ser incorporado pelos mais bem letrados e que desta maneira,  justamente os falares que não levam em conta questões lingüísticas, a pronúncia padrão  seja alvo de interesses econômicos e não sociais.


Por que discriminamos alguns sotaques?