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Título original: Mother Teresa — Come be my light Copyright © 2007 por The Mother Teresa Center Edição original por Doubleday. Todos os direitos reservados. Copyright da tradução © Thomas Nelson Brasil, 2008. Editor Responsável Nataniel dos Santos Gomes Supervisão Editorial Clarisse de Athayde Costa Cintra Produtora Editorial Bárbara Gomes Coutinho Tradução Maria José Figueiredo Capa Douglas Lucas Adaptação para o português do Brasil The Mother Teresa Center e Vania C. B. Vieira Revisão Margarida Seltmann / Magda Cascardo / Cristina Loureiro de Sá Projeto gráfico e diagramação Julio Fado Imprimi potest: Robert Conroy, M.C., Superior Geral Nihil Obstat: William B. Smith, S.D.T., Censor Librorum Imprimatur: Robert A. Brucato, D.D., Vigário Geral da Arquidiocese de Nova York O Nihil Obstat e o Imprimatur são declarações oficiais de que o livro ou panfleto não possui erro doutrinário ou moral. Não há implicações de que aqueles que deram permissão ao Nihil Obstat e ao Imprimatur concordam com o conteúdo, opiniões ou declarações expressas. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ T295m Tereza de Calcutá, Madre, 1910-1997 Madre Teresa: venha e seja a minha luz: a história e os escritos mais impressionantes da “Santa de Calcutá” / com comentários de Brian Kolodiejchuk ; [tradução de Maria José Figueiredo]. - Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008. Tradução de: Mother Teresa: come be my light: the private writings of the “Saint of Calcutta” ISBN 978-85-6030-394-6 1. Tereza de Calcutá, Madre, 1910-1997. 2. Espiritualidade - Igreja Católica. 3. Vida cristã. I. Kolodiejchuk, Brian. II. Título. 08-0044.

CDD: 271.97 CDU: 271-055.2

Todos os direitos reservados à Thomas Nelson Brasil Rua Nova Jerusalém, 345 – Bonsucesso Rio de Janeiro – RJ – CEP 21402-325 Tel.: (21) 3882-8200 – Fax: (21) 3882-8212 / 3882-8313 www.thomasnelson.com.br


Se eu alguma vez vier a ser Santa — serei certamente uma Santa da “escuridão”. Estarei continuamente ausente do Céu — para acender a luz daqueles que se encontram na escuridão na Terra. Madre Teresa de Calcutá


Para aqueles, especialmente os mais pobres dos pobres que se encontram em alguma forma de escuridĂŁo, que possam encontrar consolo e encorajamento na experiĂŞncia e na fĂŠ de Madre Teresa.


Sumário

Prefácio Introdução

11 13

Capítulo um “Segure a mão dele e caminhe sozinha com ele”

25

Capítulo dois Uma coisa muito bonita para Jesus

41

Capítulo três “Venha, seja minha luz”

53

Capítulo quatro “Para alegrar ao coração sofrido de Jesus”

67

Capítulo cinco “Não demore mais. Não me detenha”

93

Capítulo seis Rumo aos “buracos escuros”

115

Capítulo sete “A noite escura do nascimento da congregação”

133

Capítulo oito A sede de Jesus crucificado

159


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Ma d re Ter esa — Ven h a, sej a M i n h a luz

Capítulo nove “Meu Deus, quão dolorosa é esta dor desconhecida”

187

Capítulo dez “Cheguei a amar a escuridão”

215

Capítulo onze “À disposição Dele”

241

Capítulo doze “Deus usa o que é ‘nada’ para mostrar a sua grandeza”

273

Capítulo treze Irradiar Cristo

305

Conclusão Apêndice A: As Regras Apêndice B: Notas do retiro de Madre Teresa, 29 de março — 12 de abril de 1959 Agradecimentos Notas

337 343 351 367 373


Prefácio

Há décadas, Madre Teresa e sua obra têm despertado grande interesse público. Tendo em vista toda a atenção que Madre Teresa despertou em vida e, em particular, na hora de sua morte aos oitenta e sete anos, uma questão se coloca: Qual era a origem da força que atraía tanta gente para ela? Madre Teresa teria certamente preferido passar despercebida. Considerando-se apenas “um lápis nas mãos de Deus”,* estava convencida de que Ele usava o seu “nada” para mostrar Sua grandeza. Nunca se considerou a autora das coisas que realizava e sempre tentou desviar a atenção que recebia para Deus e para “a obra Dele” junto aos mais pobres dos pobres. Mas não estava nos planos da Providência que ela permanecesse desconhecida. Pessoas de todos os credos e de condições diversas reconheceram o amor altruísta e a compaixão que a Madre tinha pelos pobres; admiraram sua * “Muito freqüentemente me sinto como um pequeno lápis nas Mãos de Deus. Ele es-

creve, Ele pensa, Ele faz os movimentos. Eu só tenho que ser o lápis.” Discurso de Madre Teresa, Roma, 7 de março de 1979.


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simplicidade e autenticidade, sentiram-se atraídas pela alegria e pela paz que dela irradiavam. Ao mesmo tempo, todos que entravam em contato com ela, mesmo que apenas uma vez, ficavam com a impressão de que havia algo mais por trás daquele olhar penetrante. Madre Teresa não podia esconder a obra que fazia entre os pobres, mas conseguiu — e com espantoso êxito — manter ocultos os aspectos mais profundos da sua relação com Deus, decidida como estava a impedir que olhos mortais conhecessem esses segredos de amor. O Arcebispo Ferdinand Périer de Calcutá — já falecido — e alguns sacerdotes foram os únicos a ter uma noção da riqueza espiritual da vida interior dessa mulher, que, aliás, lhes suplicava constantemente que destruíssem todas as cartas relacionadas a esse assunto. O motivo para tal insistência era a profunda reverência que tinha por Deus e pela obra que Ele realizava nela e por meio dela. O silêncio de Madre Teresa mostra-se agora como um testemunho da sua humildade e da delicadeza do seu amor. Providencialmente, os diretores espirituais de Madre Teresa conservaram parte da sua correspondência. Assim, quando os testemunhos e os documentos para o processo de beatificação e canonização foram reunidos, veio à luz a impressionante história da relação íntima que mantivera com Jesus, da qual nem as suas colaboradoras mais próximas tinham conhecimento. Em contraste com a “normalidade” de Madre Teresa, suas confidências revelam profundezas desconhecidas de santidade que poderão, muito bem, levá-la a ser colocada entre os grandes místicos da Igreja. A vida e a mensagem de Madre Teresa continuam a fascinar as pessoas. Este livro é, portanto, uma resposta aos pedidos de muitos que a conheceram, a amaram e a admiraram, e que desejam conhecer a motivação dos atos, a origem das forças, as razões da alegria, e a intensidade do seu amor. As páginas que se seguem desvendam a sua vida interior, com toda a profundidade e todo o drama que a caracterizaram, juntando uma riqueza insuspeitada à herança espiritual que Madre Teresa deixou ao mundo. Pa dre B rian Ko lo d ie j chu k, M.C.

Postulador da Causa de Canonização da Bem-Aventurada Teresa de Calcutá Diretor do Mother Teresa Center


Introdução

“Se eu alguma vez vier a ser Santa — serei com certeza uma Santa da ‘escuridão’. Estarei continuamente ausente do Céu — para acender a luz daqueles que na Terra se encontram na escuridão.”1 Lidas como uma espécie de “declaração de missão”, essas palavras de Madre Teresa são uma chave para a compreensão da sua vida espiritual e, na verdade, de toda a sua vida. “Venha, seja Minha luz”, tinha-lhe pedido Jesus, e Madre Teresa esforçou-se para ser essa luz do amor de Deus na vida dos que se encontravam na escuridão. Para ela, porém, o preço paradoxal e totalmente inesperado de sua missão foi o fato de que ela própria viveria numa “terrível escuridão”. Como escreveu a um dos seus diretores espirituais: Agora Padre — desde 49 ou 50 esta terrível sensação de perda — esta escuridão indizível — esta solidão — esta ânsia permanente por Deus — que provoca esta dor no mais fundo do meu coração. — A escuridão é tal, que realmente não vejo nada — nem com a mente nem


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com a razão. — O lugar de Deus na minha alma é um espaço vazio. — Não há Deus em mim — Quando a dor da ânsia é tão grande — só anseio e anseio por Deus — e é então que sinto — que Ele não me quer — que Ele não está ali. — […] Deus não me quer. — Às vezes — apenas ouço o meu próprio coração gritar — “Meu Deus” e não sai mais nada. — A tortura e a dor [...] eu não sei explicar. — 2

O objetivo deste livro Este livro mergulha nas profundezas da vida interior de Madre Teresa, vista sob a perspectiva daquela “declaração de missão”. Mais do que um estudo teológico, esta obra é uma apresentação de aspectos até agora ignorados da sua vida interior, através dos quais passamos a ter uma percepção mais completa da fé resoluta e do amor intenso que a Madre tinha por Deus e pelo próximo. Três aspectos da vida interior de Madre Teresa revelados no contexto do processo de sua canonização são: o voto privado que fez quando ainda era freira em Loreto, as experiências místicas que rodearam a inspiração para a fundação das Missionárias da Caridade e o seu íntimo compartilhamento na Cruz de Cristo durante os longos anos de escuridão interior. Esses três elementos estão relacionados entre si: o voto privado estabeleceu as bases do chamado para servir aos mais pobres dos pobres; o novo chamado convidou-a a abraçar a realidade espiritual daqueles a quem servia; foi, também, o voto que sustentou a sua heróica vivência da dolorosa escuridão. O livro está dividido em três partes. Os capítulos 1 e 2 abrangem a vida interior de Madre Teresa antes do “chamado dentro do chamado”. O amor a Deus e ao próximo tinha sido plantado no seu coração desde a primeira infância. Sua generosa resposta a esse amor, ainda em Skopje, quando jovem, e em particular em Loreto, já como freira — uma freira dedicada e sacrificada — atingiu seu auge no voto privado que fez em 1942, voto esse que viria a ser, não apenas a força motriz de todos os seus atos, mas também uma preparação providencial para o que o futuro lhe reservara.


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Os capítulos 3 a 7 tratam da inspiração que recebeu em 10 de setembro de 1946 para fundar as Missionárias da Caridade, o drama da espera para dar início à nova missão e, por fim, sua saída da ordem de Loreto e o começo da obra nas favelas. Quer na resposta ao “chamado dentro do chamado”, quer no lento processo de discernimento que se seguiu, Madre Teresa enfrentou corajosamente os muitos sofrimentos pelos quais teve de passar, mantendo-se fiel à sua nova missão. Quando tudo parecia estar no lugar, começava então a mais difícil de todas as provações pela qual teve de passar. Desde o momento em que recebeu o chamado, Madre Teresa estava convencida de que sua missão consistia em levar a luz da fé àqueles que viviam na escuridão. Mal sabia ela que a “escuridão” viria a ser a maior provação de sua própria vida e uma parte fundamental de sua missão. A profundidade dessa experiência mística e o preço que teve de pagar por viver esse novo chamado e missão são os temas dos capítulos 8 a 13.

Seu legado Inicialmente, a experiência da escuridão a tomou de surpresa. Tendo conhecido um elevado grau de união com Deus, a mudança não foi apenas surpreendente, mas foi também agonizante: incapaz de sentir a Sua presença como anteriormente, Teresa de Calcutá sentiu-se perplexa e receosa. Estaria seguindo “o caminho errado”? Procurando possíveis motivos para a suposta ausência de Deus, quando a Sua presença tinha sempre sido tão real, a princípio atribuiu essa ausência à sua própria natureza fraca e pecadora, concluindo que a escuridão se destinava a purificar suas imperfeições. Com a ajuda dos diretores espirituais, começou progressivamente a compreender que sua dolorosa experiência interior era uma parte essencial da vivência da sua missão. Era um compartilhamento na Paixão de Cristo na Cruz, com particular ênfase na sede de Jesus, enquanto mistério de Sua ânsia pelo amor e a salvação de todo ser humano. Mais tarde, ela reconheceu que aquele misterioso sofrimento era uma marca da Paixão de Cristo em sua alma. Madre Teresa estava vivendo o mistério do Calvário — do Calvário de Jesus e do Calvário dos pobres.


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Sua vivência dessa experiência interior era um aspecto integral de sua vocação, a exigência mais desafiante de sua missão e a suprema expressão do seu amor a Deus e a Seus pobres. Além de reconfortar os abandonados e marginalizados da sociedade humana, Madre Teresa estava disposta a abraçar seu sofrimento material e espiritual, sua condição de “não serem queridos, não serem amados, não serem cuidados”, de não terem ninguém por eles. Embora essa intensa agonia pela qual estava passando pudesse têla abatido, a verdade é que Teresa de Calcutá irradiava uma alegria, um amor e um entusiasmo que impressionavam. Era realmente uma testemunha da esperança, um apóstolo do amor e da alegria, porque tinha construído o edifício da sua vida sobre pura fé. Irradiava dela uma espécie de “luminosidade”, como descreveu Malcolm Muggeridge3 — que fluía da sua relação com Deus. Neste livro, espero conseguir explorar e esclarecer a dinâmica oculta dessa relação.

Os documentos A própria Madre Teresa tinha perfeita consciência das circunstâncias incomuns do seu chamado e da forma extraordinária como fora desafiada a vivê-lo. Insistiu sempre para que todos os documentos reveladores da inspiração que estava por trás da fundação das Missionárias da Caridade fossem destruídos, por receio de que lhe fosse atribuída uma proeminência que sabia pertencer exclusivamente a Deus. O Padre [Van Exem] também tem muitas cartas que eu escrevi para ele sobre a obra — quando eu ainda era uma freira de Loreto. Agora que o plano que Jesus nos confiou está nas Constituições — essas cartas não são necessárias. Peço que as devolva, por favor — porque eram a exata expressão da minha alma naquele momento. Gostaria de queimar todos os papéis que revelem qualquer coisa sobre mim. — Peço-lhe, por favor, Excelência, suplico-lhe que me conceda este desejo — quero que o segredo que Deus me confiou continue sendo só nosso — o mundo não o conhece e eu quero que fique assim. —


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Qualquer coisa que diz respeito à Sociedade* — Vossa Excelência tem muito — Nunca falei — nem sequer em Confissão — sobre como se iniciou a Congregação — O senhor e o Padre [Van Exem] o sabem — é o suficiente. Eu fui um pequeno instrumento Dele — agora Sua vontade ficou conhecida através das Constituições — todas essas cartas são inúteis.4

Um ano depois, em 1957, quando o Arcebispo Périer ainda não tinha aceitado o pedido que Madre Teresa lhe fizera, ela aproveitou uma nova oportunidade para repetir o apelo. Também esse segundo pedido não foi aceito. À medida que o tempo ia passando e o interesse por sua obra ia aumentando, surgiu a possibilidade de que Teresa de Calcutá e a obra por ela fundada se tornassem tema de artigos e livros, o que viria a ser uma nova provação para ela. Madre Teresa voltou a recear que o Arcebispo Périer e o Padre Van Exem, seu diretor espiritual desde 1944, tornassem públicos os documentos: Fui esta manhã, mas o senhor não estava. Tenho um grande pedido a fazer ao senhor. — Nunca lhe pedi nada pessoalmente. — Fiquei sabendo, através do Monsenhor E. Barber, que o Cardeal Spellman deseja escrever sobre mim e sobre a obra. O Bispo Morrow irá lhe pedir todos os documentos. — Ao senhor e ao Pe. Van Exem confiei os meus pensamentos mais profundos — o meu amor a Jesus — e o Seu terno amor por mim — por favor, não lhe dê nada de 1946. Quero que a obra continue a ser inteiramente Dele. Quando o começo se tornar conhecido, as pessoas passarão a pensar mais em mim — e menos em Jesus. Por favor, por amor a Nossa Senhora, não conte nem dê coisa alguma. Sei que eles querem ajudar financeira[mente] a Congregação — não quero dinheiro — minha confiança em Deus é cega — sei que Ele nunca me abandonará. Nesses poucos anos, passaram pelas minhas mãos lakhs** de rúpias — não sei como foi que

* A Sociedade refere-se à Congregação das Missionárias da Caridade. ** Um lakh vale 100.000 rúpias. Nesta passagem, Madre Teresa reconhece que passou pelas suas mãos uma grande quantidade de dinheiro.


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aqui chegaram. Sou perfeitamente feliz e grata a Deus por aquilo que Ele dá — prefiro ser e permanecer pobre com Jesus e os Seus pobres. — Prefiro pedir esmola e lutar com pouco. — Ele que escreva sobre “a obra” e a nossa pobre gente sofredora. — Que me ajude a pagar os estudos das nossas crianças pobres e dar às mais inteligentes uma oportunidade na vida. O Rev. Pe. Martindale s.j. também quer escrever e mandou um recado pelo Capitão Cheshire — eu recusei. — Sou apenas um instrumento Dele — por que se interessam tanto por mim — quando a obra é toda Dele. Nada reclamo como meu. Me foi dado. […]5

Três anos mais tarde, teve uma nova oportunidade para solicitar que os documentos fossem destruídos. A fim de obter a aprovação pontifícia para as Missionárias da Caridade, o Arcebispo de Calcutá precisou apresentar um pedido formal ao Papa, descrevendo a história e a obra da congregação que tinha sob seu cuidado. Esse novo escrutínio preocupou Madre Teresa. Excelência Agora que está examinando o arquivo da nossa Congregação — peço que destrua quaisquer cartas que eu tenha escrito a Vossa Excelência — que não sejam relacionadas à Congregação. — “O Chamado” foi um delicado presente de Deus para mim — indigna — não sei por que Ele me escolheu — acho que tenha sido como as pessoas que nós apanhamos na rua — porque são as que ninguém quer. Desde o primeiro [dia] até hoje — esta minha nova vocação foi um prolongado “Sim” a Deus — sem me preocupar com o preço a pagar. — Minha convicção de que “a obra é Dele” — é mais do que a realidade. — Nunca duvidei. Só me magoa que as pessoas me tratem como fundadora, porque sei com certeza que Ele me pediu — “Fará isto por Mim?” Tudo foi Dele — eu apenas tive de me render ao Seu plano — à Sua vontade. — Hoje, a obra Dele cresceu porque é Ele, e não eu, que a faz através de mim. Estou de tal maneira convencida disto — que alegremente daria a minha vida para prová-lo. —6


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Embora fosse convicção do Arcebispo Périer e dos seus respectivos sucessores no cargo que os documentos não deveriam ser destruídos, Madre Teresa conseguiu destruir um bom número deles. Também o Padre Van Exem lutou durante anos contra a insistência de Madre Teresa em destruir os documentos, tentando persuadi-la dos benefícios que eles trariam para as futuras gerações de seus seguidores. Em 1981, ele escreveria: “Um último ponto foi um choque para mim: não sei o que aconteceu aos documentos que estavam em poder do Pe. Henry. Quando fui a Santa Teresa, no ano passado, já não consegui encontrar nada. Onde estão os documentos agora? Não quero, de maneira nenhuma, que isto aconteça no meu caso.” Finalmente, cedeu. Em 1993, pouco antes de morrer, o Padre Van Exem descreveu os pormenores do caso ao Arcebispo Henry D’Souza, que era, naquele momento, o Arcebispo de Calcutá: Excelência, Devolvo os documentos que me enviou antes de partir para Hong Kong, pelos quais agradeço. Com referência ao caderno de Madre Teresa, acrescento o seguinte: foi a própria Madre que o escreveu. Parece ser um diário, mas não é. Foi certamente escrito, em parte, algum tempo depois dos acontecimentos. Tinha a Madre algumas anotações? Eu não sei. É possível que sim, já que incluiu muitas datas. Em alguns lugares, eu mesmo acrescentei o mês e o ano. No começo da Congregação, depois de responder às cartas que recebia, a Madre costumava entregá-las a mim, para que eu as guardasse. Algum tempo depois — talvez tenha sido em Creek Lane — ela quis queimar todas as cartas que tinha me enviado. Naquela altura, eu tinha em meu poder dois baús de cartas dela, um baú de cartas de benfeitores e mais um baú com outras correspondências. Recusei-me a autorizar a destruição das cartas e disse-lhe que deveria pedi-la ao Arcebispo Périer, que era o superior geral das M.C.s [Missionárias da Caridade]. A Madre recorreu ao Arcebispo Périer, que lhe disse: “Madre, escreva a história da Congregação, e o Pe. Van Exem lhe dará todas as cartas.” A Madre começou a escrever este livro, com dados que vão desde 21 de dezembro de 1948 até 11 de julho de 1949. À noite, estava tão cansada, que não conseguia continuar a escrever a história por muito tempo.


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Quando o Arcebispo Dyer assumiu o cargo do Arcebispo Périer, a Madre o procurou com o mesmo pedido. Ele lhe perguntou o que tinha decidido o Arcebispo Périer e lhe disse para fazer a mesma coisa. Veio depois o Arcebispo Albert Vincent, que recusou, terminantemente, a lhe dar essa autorização. Em 1969, veio para Calcutá o Arcebispo Picachy e a Madre me pediu para eu não lhe falar nada sobre cartas. Ela sabia perfeitamente qual seria a resposta. Ao longo dos anos 70 e 80, continuou a insistir para que as cartas fossem destruídas. A Madre era, desde 1965, a Superiora Geral por eleição de uma Congregação Pontifícia, já não estando, portanto, sob a jurisdição de nenhum Arcebispo. Então enviei os baús de cartas à Madre, juntamente com uma longa carta na qual explicava que algumas daquelas cartas não pertenciam a ela, mas à Congregação. O caderno da Madre ficou comigo até enviá-lo a Vossa Excelência. Remeto-lhe, hoje, os documentos que recebi do senhor.7

Embora o conhecimento da inspiração recebida por Madre Teresa permanecera privilégio do Padre Van Exem e do Arcebispo Périer, foram, ao longo dos anos, vários os sacerdotes que ficaram sabendo sobre a sua escuridão espiritual. Ela apenas revelou seu estado interior porque sentia que Deus demandava que o fizesse. As suas preferências pessoais não tinham qualquer importância; não podia recusar nada a Ele. Esses sacerdotes foram, para ela, um auxílio valioso — verdadeiros “Simãos de Cirene” nessa “Via Sacra”. Os destinatários dessas cartas foram os primeiros a perceber que a escuridão era um elemento essencial da vocação de Madre Teresa, prevendo que, ao tornar-se conhecido, o fato ofereceria um precioso testemunho da santidade de Madre Teresa e ajudaria na continuação de sua missão após sua morte. O Padre Neuner explica, assim, o seu ponto de vista: Contra a explícita solicitação de Madre Teresa de queimar essas páginas depois de tê-las lido, achei que tinha a obrigação de preservá-las porque elas revelavam um aspecto da sua vida, a verdadeira profundidade da sua vocação, sobre o qual ninguém parecia ter conhecimento. Todos viram a corajosa batalha com que ela instituíra


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a sua obra, o amor que sentia pelos pobres e pelos que sofrem, a sua atenção às Irmãs; mas a escuridão espiritual permaneceu o seu segredo. Madre Teresa mostrava-se muito alegre na vida diária, incansável no seu trabalho. A agonia interior não diminuiria suas atividades. Com sua inspiradora liderança dirigia as Irmãs, abria novos centros, tornou-se famosa, mas, por dentro, estava em um total vazio. Estas páginas revelam o poder em que assentava a sua missão. Seria importante para as Irmãs, e para muitas outras pessoas, saber que a obra de Madre Teresa tinha as suas raízes no mistério da missão de Jesus, na união com Aquele que, morrendo na Cruz, Se sentiu abandonado pelo Pai.

Em algumas das cartas e notas referentes à sua escuridão interior, Madre Teresa tinha escrito “questão de consciência”. Para ela, cada palavra que escreveu sobre sua escuridão interior estava (assim indicada ou não) incluída nessa categoria. Um dos sacerdotes que estava a par da sua escuridão explica as razões para preservar e revelar esses documentos: Será que a Madre, agora que já não se encontra entre nós, ainda teria objeções a que essas cartas tivessem sido preservadas pelo Cardeal Picachy e fossem, agora, após a morte dos dois, tornadas públicas? É inquestionável que, agora, ela já tenha entendido que pertence à Igreja. Faz parte da tradição que os carismas místicos que Deus concede aos Seus íntimos não se destinam prioritariamente aos próprios, mas ao bem de toda a Igreja. Muitas pessoas que passam por provações semelhantes poderão ganhar coragem e esperança ao lerem essas cartas. É provável que haja mais pessoas nesse estado do que nós imaginamos — embora com graus variados de intensidade.

Quanto à expressão “Parte da minha Confissão” usada por Madre Teresa, deve-se entender que ela não se referia ao Sacramento da Reconciliação. Ninguém pode receber a confissão sacramental escrevendo os pecados num papel e enviando-o a um sacerdote. Os sacerdotes que receberam essas cartas compreendiam-no bem: a Madre tinha-lhes escrito aquilo que não fora capaz de lhes dizer oralmente quando recorrera à


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sua direção espiritual. Era a maneira que Madre Teresa tinha de lhes indicar que o assunto era confidencial; para ela era o mesmo que ‘questão de consciência’. Além das cartas, são igualmente citados aqui trechos de outros escritos de Madre Teresa, entre os quais o diário que escreveu no início da obra que realizou nas favelas, as instruções às Irmãs e discursos públicos. Foram ainda usadas outras fontes: trechos de cartas escritas durante o período em que procurava discernir se o “chamado dentro do chamado” era de origem divina, principalmente das cartas escritas ao Arcebispo Périer, ao Padre Van Exem e às superioras; testemunhos reunidos durante o processo de canonização de Madre Teresa, na maioria provenientes dos diretores espirituais ainda vivos e de membros das Missionárias da Caridade; e testemunhos sobre ela retirados de publicações.

Organização Os documentos foram organizados em ordem cronológica. Conseqüentemente, as mesmas expressões, ou semelhantes, aparecem regularmente, mas essas repetições, em especial nos escritos relativos ao seu estado interior, são justamente aquilo por meio do qual percebemos a progressão, a intensidade e a duração da sua escuridão. Tratam-se, portanto, de repetições extremamente valiosas. Por sua vez, Madre Teresa não podia falar senão do que se passava dentro dela mesma e as repetidas referências à dor e à escuridão, acompanhadas de pedidos de oração, revelam uma compreensível necessidade de apoio. As idéias que são repetidas nos escritos foram freqüentemente enriquecidas, com a passagem do tempo, com novos detalhes ou novos aspectos que indicam um aprofundamento da sua compreensão ou da sua vivência de uma faceta específica da sua espiritualidade e missão. Os escritos de Madre Teresa foram trabalhados o mínimo possível. Embora tenham sido quase todos escritos em inglês, convém lembrar que essa não era sua língua materna; esta era o albanês, sendo o servo-croata a língua que falava na escola e a que usava para a comunicação diária durante a infância e a adolescência, quando vivia em Skopje. As primeiras cartas que


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escreveu da Índia, a amigos e ao confessor, foram escritas em servo-croata; delas se procurou apresentar aqui uma tradução o mais literal possível. Já os textos escritos em inglês, mesmo que, por vezes, a gramática não seja a mais correta ou que pudesse ter sido melhorada, foram deixados como ela os escreveu. As palavras obviamente omitidas por engano foram acrescentadas entre chaves. A utilização de letras maiúsculas é um aspecto importante do estilo da escrita de Madre Teresa, que tinha o hábito de escrever com letras maiúsculas certas palavras que normalmente não seriam escritas assim. Naturalmente, escrevia sempre “Deus” com letra maiúscula, bem como os pronomes a Ele referidos. Contudo, também escrevia com letra maiúscula tudo que se referisse ao sagrado, assim como termos que tivessem importância para ela, como “Confissão”, “a nossa Jovem Congregação”, “os nossos Pobres”, “um grande Sorriso” etc. Tratava-se de uma forma de mostrar o respeito que tinha pelo sagrado e de enfatizar determinada realidade que a impressionasse. Mas nem sempre era consistente na utilização das letras maiúsculas e muitas delas foram alteradas de acordo com o uso corrente. Uma palavra sobre a pontuação: os escritos da Madre Teresa aqui apresentados são comunicações pessoais feitas a pessoas com quem tinha relações próximas e não se destinavam à publicação. Nesta “escrita informal”, o travessão é um sinal de pontuação que caracteriza o estilo dela. Às vezes, mesmo nas cartas, mas especialmente nos diários e nas notas, o travessão substitui todos os sinais de pontuação: representa o ponto final, a vírgula, os dois pontos, o ponto e vírgula, o ponto de exclamação ou de interrogação, e, finalmente, o travessão propriamente dito. Em suma, qualquer interrupção de pensamento é assinalada com um travessão. Esta particularidade do estilo de Madre Teresa é expressiva do dinamismo e da vivacidade da sua personalidade, de uma certa “pressa” em passar à tarefa seguinte, sem se deixar ocupar por coisas “não essenciais”. Embora possam criar distrações na leitura, os travessões permanecem, por razões de autenticidade, onde Madre Teresa os colocou. Em alguns casos em que alterava o sentido ou o fluxo do texto, o travessão foi substituído por sinais convencionais de pontuação.


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O uso freqüente de abreviações pouco comuns é outro aspecto típico da escrita de Madre Teresa, outra expressão da sua pressa característica. São exemplos disso: “Sagrada Com.” (Comunhão), “S. E.” (Sua Eminência), “Smo.” (Santíssimo) Sacramento, “Cal.” (Calcutá), “Nov.” (Noviças ou Noviciado) etc. As palavras correspondentes aparecem entre chaves ou parênteses depois das abreviações. Tenho a esperança de que muitos leitores se deixem inspirar pela maneira heróica como Madre Teresa viveu a sua missão de “[acender] a luz daqueles que se encontram na escuridão” e a continuem de acordo com a vocação e as possibilidades de cada um. Que nas áreas de nossos corações onde ainda haja escuridão incida uma luz intensa, irradiada pelo exemplo, pelo amor, e agora, também, pela intercessão de Madre Teresa, de lá do céu.


Madre Teresa  

A vida e obra da mulher que foi um exemplo de simplicidade e sabedoria

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