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O último desenhista de humor

Prefácio

DaCosta

A origem desse perfil é uma homenagem prestada a DaCosta em O Pasquim 21. Na edição de agosto de 2002, o texto editado por Zélio e assinado por Ziraldo afirma ser ele “o último desenhista de humor”. Fazer humor não é fácil. Desenhar humor então é só para quem sabe se equilibrar perfeitamente no arame. Se Ziraldo e os demais entrevistados por Camilla Mayra para a construção deste perfil não expressam dúvida de que Osvaldo é, de fato, um dos últimos remanescentes de uma estirpe representada por André François, Jean-Jacques Sempé, Ralph Steadman, Saul Steinberg e o próprio Ziraldo, só nos resta celebrarmos a amizade com o artista raro que, nessa época de egos exagerados, se mantém, a meu ver, irritantemente modesto. Antes de ser engraçado, Osvaldo é trágico. Qualquer situação perversa à sua volta o deixa prostrado e o paralisa. Às vezes, são longos os períodos nesse estado de espírito. De 9


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alguns anos para cá, porém, os bons momentos têm permanecido. Ainda bem. As conversas com ele são desenhos no ar. “Olha aqui.” “O quê?”, pergunto. “O meu olho... Não está caído?” “É...” “Tô ficando parecido com uma pintura do Picasso.” Na rua, ele observa os tipos como se ilustrasse um

sketchbook: “Essa mulher aí não parece que foi desenhada pelo Crumb?” “É mesmo!” “Lá vem o Chuck Berry...” “Cacete!” Paramos na papelaria. Ele faz a moça do caixa rir um pouco às minhas custas: “Olha bem: ele não poderia estar na fila das gestantes ou na da terceira idade?” Na Universidade, em visita ao laboratório de jornalismo, Osvaldo observa o aluno ao lado. O cara é alto, 10


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meio gordo, forte. Usa cavanhaque e óculos estilosos. Então, ele diz: “Esse aí é o gladiador Demetrius, mas o Demetrius interpretado pelo Victor Mature!” Ao perfil escrito pela Camilla só tenho a acrescentar que conheço DaCosta desde 1982. Tive a rara oportunidade de acompanhar a evolução da sua arte e, como jornalista, a função de editá-lo nas redações pelas quais passamos. É preciso dizer: trata-se de um trabalhador que deita e acorda cedo; de um profissional que não para de estudar. Trata-se também de um grande humorista. Trata-se, enfim, de um verdadeiro artista. Este perfil serve como introdução à sua obra.

Márcio Calafiori

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O Ăşltimo desenhista de humor

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Na feira e no quarto-estúdio

Todas às terças, Osvaldo da Silva Costa, o DaCosta, faz as compras da semana na feira da rua Oswaldo Cruz, no Boqueirão, a cinquenta metros de sua casa. À medida que vai percorrendo as bancas, DaCosta pega, olha e examina com cuidado frutas e legumes. Mesmo sabendo do que precisa, fica na dúvida sobre quanto levar. Sem se dar conta da confusão, ergue as sobrancelhas e pergunta a Miriam, dona da barraca. “Meia ou uma dúzia? A banana é para a minha mãe, ela é quem gosta.” Meia hora atrás, antes de sair de casa, ele escolheu na área de serviço uma camiseta verde, estendida no varal. Na indecisão, pergunta a dona Anália se a opção é a correta. Ela examina e diz: “Tá bom, Dô! Tá bem vestido.” Da cozinha, Anália caminha com dificuldade até a sala em busca da bolsa, em cima do sofá. DaCosta está prestes a sair, já com a porta aberta. Está com pressa, afinal já passam das dez da manhã. Dona Anália o chama. Ele volta para saber 14


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o que a mãe quer. Ela acaba de tirar da bolsa uma nota de cinquenta reais. DaCosta recusa o dinheiro e pergunta: “Dona Anália, vai querer linguiça de frango para o almoço?” “O quê? Vai comprar frangooooo?” “N-ã-a-o-o-o. Linguiça de frango!” Anália, de oitenta anos, custa a entender e arrisca mais uma vez: “Frangooooo?” DaCosta enrijece um pouco o rosto e passa a mão no carrinho de feira. “Ela tem dificuldade de ouvir”, resmunga. Os vendedores tentam atrair no grito a freguesia que vai e vem pelos corredores movimentados e turbulentos da feira. Vê-se de tudo — bicicleta com sinos no guidom, cachorros acompanhados dos donos, até minicarros de som. É uma mistura de ruídos. Não há quem não se divirta com tanta confusão. Hoje, vinte quatro de agosto, o sol resolve aparecer e dar folga à chuva. Santos é uma das cidades mais quentes da

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região. Até os que gostam de calor não se arriscam e procuram a sombra das barracas. DaCosta é um deles: “Vem aqui para a sombra. Que calor”, reclama. Ele consegue o melhor local da feira, uma barraca com muita sombra. Ali, de jeito nenhum o sol o incomoda. Fenômeno inesperado, já que no dia anterior a temperatura estava por volta dos onze graus. Os vendedores aproveitam o dia ensolarado para soltar os gritos que irão até o começo da tarde. A competição é acirrada. Vale até ofertas relâmpago, tudo para atrair o maior número de clientes. Os feirantes formam um verdadeiro palco de humoristas. Eles tentam arrancar a atenção de quem passa na frente das barracas. Algumas piadas são manjadas: “Moça bonita não paga, mas também não leva!” Esse ambiente diverte DaCosta, que ri de tudo. De repente, uma movimentação diferente atrai a sua atenção. Ele larga o carrinho e sai, sem mais nem menos, para ver o motivo da agitação. Aos poucos, os ruídos tomam a forma de um grupo de pessoas travestidas de palhaços, e o som começa a fazer sentido.

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“Hahahaha.

Eu

conheço

isso.

Estão

fazendo

publicidade. Muito legal, porque esse tipo de publicidade existe há séculos”, comenta. O grupo de palhaços faz propaganda de um restaurante. DaCosta agora está escolhendo laranjas. Enrola o saco plástico e o entrega ao barraqueiro para que o pese. Seis laranjas, essa é a quantidade exata que tem na sacola. Percebendo o meu jeito discreto, mas irônico, ele imediatamente tira a sacola das mãos do feirante e acrescenta mais meia dúzia de laranjas. “Agora tá bom?”, pergunta, solicitando a minha opinião sobre a quantidade de laranjas que deve levar para casa. Como um ritual, ele passeia por todas as barracas, comprando um pouco em cada uma. Atrapalhado quanto às ofertas, verifica se o alface condiz de fato com o preço. Para o bom observador nada passa despercebido. DaCosta admira as cores do fruteiro, de enorme variedade e contrastes. Banana, laranja, maçã, melancia. “Olha que imagem linda, essas cores são demais”, diz. 17


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Até que se lembra de algo inexistente na lista que fez em casa: “A batata. Preciso comprar a batata!” Não demora a ouvir o feirante de cabelos grisalhos da banca vizinha o chamar: “Ei, corintiano, tem batata aqui também.” DaCosta faz feira desde os catorze anos. Hoje, aos cinquenta e quatro, continua fazendo. Responde ao chamado do vendedor, com um sorriso de orelha a orelha. O fiel cliente se dirige ao feirante também como corintiano. Quem não o conhece, pensa que DaCosta é tímido e de poucas palavras, mas não é assim. “E o Corinthians, hein? Você viu o jogo domingo?”, pergunta empolgado. Entusiasmado, o homem passa a falar sobre a partida de domingo quando o Corinthians ganhou de três a zero do São Paulo pelo campeonato brasileiro. A loira da barraca ao lado não resiste e interrompe a conversa: “Ô, corintiano, vai querer manga hoje?” DaCosta então olha a montanha de mangas verdes e rosadas. E brinca: 18


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“Você é corintiana?” Ela balança a cabeça, o gesto indicando não. O vendedor ao lado a cutuca: “Ei, o cliente sempre tem razão!” DaCosta vai para a barraca da loira. Agora, presta atenção às frutas. Os dedos vão apontando as melhores. “Essa aqui... Não, não, essa aqui... Acho que essa está mais bonita...” E diz para mim: “A dona Anália gosta de fazer musse de manga.” Os ponteiros do relógio indicam cinco para o meiodia. Agora, os vendedores não gritam mais. DaCosta se apressa em direção ao fim da feira, para comprar a linguiça de frango, na barraca de frutos do mar. Pensa até em trocar o frango pelo peixe fresco, só que dona Anália não gosta muito de peixe. Paga quase dez reais pela linguiça. A barraca é a última do corredor, próxima a sua casa. Ele enfia a mão no bolso das bermudas. Felizmente para ele, o dinheiro rendeu. Dos trinta reais que levou, fica ainda com dez.

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Em casa, a televisão está sintonizada no jornal A

Tribuna, com o volume mais alto que o normal. DaCosta anuncia a sua chegada: “Dona Anália!” A mãe está na pia da cozinha lavando o arroz. Ao ouvi-lo, ela se agarra às paredes para chegar à sala, com a intenção de ajudá-lo com as sacolas e o carrinho de feira. “Mãe, não precisa, pode deixar que eu faço.” Ela teima: “N-ã-a-o-o. Eu ajudo! O Dô não gosta que eu faça as coisas.” A mesa e a geladeira vão sendo ocupadas aos poucos pelas frutas e demais produtos. Mesmo com dificuldade para andar, dona Anália não costuma pedir ajuda. Uma empregada a ajuda nas tarefas de casa três vezes por semana. “Não, mãe, não precisa ajudar. Eu guardo as frutas!”, diz DaCosta. Mesmo tendo dificuldade de se locomover, dona Anália é teimosa e não dá ouvidos ao que o filho pede. “A banana vai para o fruteiro. E manga para a geladeira”, diz ela. 20


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Dona Anália anda inclinada. Apoia os braços sobre as paredes estreitas da sala e anda com dificuldade. Ao ensaboar as escadas do prédio onde morava, na Pompeia, em Santos, Anália perdeu o equilíbrio e caiu. Esse não foi o primeiro tombo, embora o mais grave. Teve de passar por uma cirurgia delicada. Depois disso, nunca mais voltou a andar normal, sempre se apoiando a um andador, ou até mesmo nas paredes. Na residência atual, a sala é colada à cozinha. O ambiente abriga os mais variados momentos da vida de Anália. Sentada sobre o sofá, estende os braços na direção dos álbuns de fotografia. “Esse aqui é um dos meus netos, filho do Dô.” DaCosta tem dois filhos homens, Arthur, de 20 anos, e Gustavo, de 18.. Enquanto Anália da Silva Costa apresenta a família, os dedos acariciam os netos na imagem. São muitos álbuns e ela faz questão de mostrar um por um. Parece sentir falta de algo. “Sinto saudades dele”, desabafa em voz baixa, referindo-se a um dos retratos. A sala acomoda duas mesas. Uma pequena e estreita, onde geralmente as refeições são feitas, e a outra de vidro, 21


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que mais parece um porta-objeto do que propriamente uma mesa. O sofá é forrado por um lençol branco e almofadas floridas de tons alaranjados. Para chegar ao quarto, DaCosta passa primeiro por um corredor, que dá passagem ao dormitório da mãe e ao banheiro. “O Dô mesmo arruma a cama dele. Não gosta que mexam nas suas coisas”, diz Anália da sala. O quarto está do jeito que deixou antes de sair para a feira, com roupas jogadas ao chão, juntas ao canto da porta. Só a cama está arrumada. Desde criança, DaCosta tem o hábito de fazer a cama. A janela fechada que dá para o quintal do prédio impõe um tom sombreado ao ambiente. Nas paredes, quadros e cartuns dos mais variados tamanhos. Na prateleira perpendicular à janela, livros de arte, literatura e de ensaios. O móvel tem três divisórias, duas delas repletas de autores como Charles Baudelaire, Edmund Wilson, Gay Talese, Gustave Flaubert, Herman Lima, Jacob Burchardt, Jack London, Jacques Legoff, Jared Diamond, Joe Colleman, Manuel Bandeira, Marshall Berman, Marshall McLuhan, Peter Gay, Philip Roth, Sérgio Buarque de Holanda; e estudos sobre Aldemir Martins, Degas, Edward Hopper, Goya, John 22


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Constable,

John

Singer

Sargent,

Renoir,

Robert

Rauschenberg, Van Gogh, Toulouse-Lautrec, Wesley Duke Lee, William Turner; ensaios de arte de Ernest Fischer e Rudolph Arnheim. Os livros estão misturados a vinis de rock (Body

Count,

Grand

Funk)

e de Jimi Hendrix

e,

principalmente, CDs e vinis de jazz: Charles Mingus, Chet Baker, Doug Raney, Duke Ellington, Grant Green, Miles Davis, Phil Upchurch, Wes Montgomery. Se alguém lhe pede um livro emprestado, DaCosta tem o hábito de encapá-lo com uma folha de papel sulfite. O cuidado se deve à vergonha que passou aos dezesseis anos, quando pegou emprestado de uma professora um livro sobre arte. Ao devolvê-lo, a capa estava amassada. Ele jamais se esquece da expressão descontente dela ao receber o livro de volta. Foi então que fez a si mesmo a promessa de nunca mais emprestar ou pegar um livro emprestado de alguém sem antes protegê-lo com uma capa provisória. A estante abriga também troféus ganhos em salões de humor. Entre o computador e a estante, num vão de trinta centímetros, fica um dos instrumentos mais queridos de sua vida — uma guitarra Giannini Stratocaster, modelo 23


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Stratosonic, similar a Fender Stratocaster, usada por Jimi Hendrix. DaCosta se dedica ao instrumento por influência do seu maior ídolo, cuja admiração cultiva desde os doze anos de idade. Conheceu Jimi Hendrix por intermédio do irmão mais velho, José Luis Costa, que é engenheiro de som. Na época, este trabalhava em um estúdio de gravação na Galeria Califórnia, no Centro de São Paulo, o ImageSom. Pelo menos duas vezes por semana levava o almoço para o irmão. Nessas ocasiões, usava a linha de ônibus Cidade Vargas — Anhangabaú. “O ônibus levava uma hora e meia até o Anhangabaú, passando pelo Ibirapuera. Aquilo era uma verdadeira diversão para mim, pois eu me distraia muito durante o trajeto, ia observando os tipos e a cidade. Naquela época, São Paulo ainda não tinha metrô”, relembra DaCosta. Assim que chegava ao estúdio, ouvia o irmão pondo os discos importados de Hendrix — “Are You Experience”; “Axis: Bold as Love” e “Eletric Ladyland”. O irmão José Luiz ajudou-o no interesse pela música. Sempre que dava, levava fitas de rock do estúdio para casa porque sabia que DaCosta iria se ligar naquilo. 24


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Enquanto as irmãs Joselita e Maria da Penha assistiam na TV aos programas da Jovem Guarda comandados por Roberto Carlos, DaCosta ficava ligado no som das guitarras. Quando soube que o adorado Jimi morrera sufocado com o próprio vômito, em setembro de 1970, ele estava na Rua Barão de Itapetininga, esquina com a Rua Dom José de Barros, no Centro de São Paulo. Leu a notícia no Jornal da Tarde. O jornal estava aberto, exposto numa banca, com uma foto e o título: “Morreu o gênio da guitarra, Jimi Hendrix”. Ele ficou semanas inteiras ouvindo Hendrix, muito triste. Na parte de baixo da estante, mais discos e CDs voltam a se entrosar. Um canto da estante dá espaço à televisão de vinte polegadas, dificilmente ligada. Sentado sobre a cadeira de rodinhas, DaCosta centraliza as ideias e puxa o papel em cima da prancheta, que é fixada à mesa. Por dia, são horas e horas dedicadas à arte, principalmente ilustrações e aquarelas. As mãos leves imprimem à atividade um tom de hobby mais do que trabalho. Mas é trabalho. Os pincéis finos e grossos se perdem na variedade de tintas à sua frente. 25


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DaCosta não consegue ficar mais que sete horas na cama. Geralmente, dorme e acorda cedo. Nesta manhã de terça-feira, ele levantou às seis e meia e fez exercícios na academia da Universidade Santa Cecília. Costuma ficar em casa mais tempo do que o normal, já que o quarto serve também como estúdio. Muitas vezes a decisão para um desenho vem de algum sonho. Ou então de uma notícia. As paredes

brancas

dão

ao

quarto-estúdio

leveza

e

tranquilidade, sensação aprimorada pelos desenhos de humor e personagens que ele próprio criou e mandou enquadrar. Como o quadro que fica ao lado da cama: um homem de traços largos, com a cabeça pequena, subindo uma longa escada que dá a lugar nenhum. Assim que chega da feira, DaCosta puxa a cadeira e pega o papel em cima dos cadernos gráficos. Aos poucos, o rabisco no meio da folha dá vida a um jogador de dez pernas. E suas pernas de lacraia conduzem a bola ao gol. Parece o Pelé. Ele molha o pincel na aquarela preta e faz pontinhos numa área amarela. Em um segundo os pontos se transformam em pequenos rostos, uma multidão de torcedores. 26


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“Recebi o convite para fazer uma homenagem ao Pelé. Fiz sem saber o que fazer, a inspiração vem assim, sem mais nem menos”, diz. A tarde passou rápido. Grudado nos cadernos gráficos, DaCosta nem percebe a chegada do entardecer. Às dezessete horas do dia vinte e quatro de agosto ele está apressado, olha o relógio, puxa a gaveta da cômoda e tira uma camisa branca. A pressa é para chegar a tempo à Pinacoteca Benedicto Calixto, que fica a quatro quadras de sua casa. Quinze minutos depois está lá. A massa de ar quente dá lugar à frente fria. O tempo começa a virar e o vento começa. A pinacoteca ainda está vazia, só os funcionários organizam os detalhes que ainda faltam para a exposição “Professores Artistas”, do curso de Artes da Universidade Santa Cecília. DaCosta entra ansioso procurando pelos cinco trabalhos que preparou especialmente para o evento. As obras são calcadas em Robert Rauschenberg. A trilha sonora que imaginou para a leitura das telas estão nos discos “Pithecanthropus Erectus” e “Ah Um”, ambos de Charles Mingus. Assim que chega ao salão principal, uma repórter 27


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está entrevistando um professor que fará parte da exposição. Impaciente, DaCosta anda de um lado para o outro, esperando pelo término da entrevista. Ele pergunta as horas de um em um minuto. Enquanto isso, para tentar se distrair, olha um álbum de fotos. Mesmo assim, não consegue se concentrar. Já passam das dezoito horas e a gravação está ocorrendo bem em frente aos seus quadros e ele quer vê-los de perto. DaCosta precisa estar na Unisanta às dezenove horas, a fim de assinar o ponto. Ele dá aulas de produção digital e representação gráfica — tipografia e criatividade — nos cursos de Artes, Publicidade e Propaganda e Produção Multimídia. Ele volta ao salão, mas a entrevista ainda rola. Assim que esta termina, ele não se controla e imediatamente passa por baixo da fita amarela que indica que é proibido entrar naquele espaço. Põe as mãos sobre os quadros e os muda de posição. Para, analisa e muda tudo de novo. “Pronto. Tá bom? Agora tá bom, não é?”, pergunta. Dá outra olhada e pede outra opinião. Agora, ele está mais tranquilo. Já consegue ser espontâneo e conversar. O salão da Pinacoteca Benedicto Calixto está iluminado. A 28


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exposição será aberta no dia seguinte. DaCosta consulta o relógio. São dezoito e trinta. Está na hora de voltar para casa. Antes, porém, precisa ir à padaria. Faz isso todos os dias. Para me fazer companhia, ele desce pela Rua Osvaldo Cruz. Na esquina seguinte para e se despede: “Vou ao Carrefour comprar pão. Vá lá em casa tomar café. A dona Anália e a minha irmã estão lá, te esperando.” A mãe e a irmã me recebem. Elas perguntam pelo Dô, apelido de infância. A irmã Penha é exatamente um ano mais nova que ele: “E o Dô, Adriana?”, pergunta. Ela me chama de Adriana desde a primeira vez que me viu. No início, tentei corrigi-la, mas depois me dispus a aceitar ser chamada de Adriana mesmo, já que não adiantava eu dizer que me chamava Camilla. “Ele foi comprar pão...”, respondi. Penha ironiza: “No Carrefour...?” “Sim”, respondo. Ela então diz:

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“O Dô vai sempre ao Carrefour em busca do menor preço. Se a gente gosta de Nescau, ele compra achocolatado Carrefour, que é mais barato. Esses dias a minha mãe pediu que ele fosse à padaria aqui perto comprar um quilo de açúcar. Ele preferiu ir comprar no Carrefour, para economizar quantos centavos mesmo?” Penha é a irmã do meio, das três mulheres. É a mais ligada a DaCosta: “De jeito nenhum ele foi comprar o açúcar na padaria. Eu falei: ‘Menino, mas o açúcar é um real e pouco. Sabe qual vai ser a diferença do supermercado? Trinta ou cinquenta centavos’. Não adiantou. Ele foi ao Carrefour comprar um quilo de açúcar, é incrível.” Dona Anália não dá ouvidos à crítica. Ela defende o filho: “Penha, ele comprou dois quilos de açúcar, e não um... Ele está gastando com o mestrado. Precisa economizar.” Na casa de DaCosta as despesas são divididas com a mãe. Ele foi morar com ela desde que se divorciou da primeira mulher, em 2003. Anália é encarregada de pagar o aluguel de setecentos reais pelo apartamento de três quartos 30


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e ele cobre os outros gastos da casa, como as contas de luz, água, telefone e as compras do mês. Vinte e cinco de agosto. É o dia da abertura da exposição. Às dezenove e trinta, a Pinacoteca Benedicto Calixto começa a encher. Todos se cumprimentam. O garçom, um homem de cabelos escorridos penteados para trás e de colete preto, circula por todo o salão. Carrega bandejas repletas de taças de refrigerantes, sucos e champanhe. Do lado direito, a garçonete desfila com os salgados. Parada no meio do salão, Penha estende as mãos toda a vez que cruza com alguma bandeja. O mesmo faz a prima dela, Ana, que em vez de champanhe prefere sucos. No final do corredor, DaCosta e a namorada Natália tiram fotos com os amigos e professores Alexandre Barbosa, o Bar, e Márcia Okida. Ele acaba de chegar da Universidade São Caetano do Sul, onde faz mestrado. Hoje, DaCosta está mais agitado que o comum. Faz algumas piadas, mas está impaciente. Poucos conseguem notar essa agitação. A tensão no rosto revela rugas abertas em leques. É o mais assediado da exposição. Todos estão surpresos com os trabalhos apresentados por ele. 31


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“Está de parabéns”, cumprimenta-o uma artista plástica, ao tapear de leve suas costas. Sem palavras, DaCosta acena com a cabeça indicando agradecimento. Ao mesmo tempo em que conversa com os colegas, segura firme as mãos da namorada e desce o corredor encolhendo-se para não esbarrar em alguém. O corredor da pinacoteca é o único que dá acesso ao salão que abriga as obras dele. No tumulto é difícil passar despercebido pelos convidados, fotógrafos e emissoras de TVs. De frente para o que queria ver, ele olha, chega mais perto, olha de novo. Agora com o semblante menos armado cruza os braços e fala baixinho, com um ligeiro tremor na voz: “Tá bom”, certifica-se pela centésima vez. Não

demora

muito

para

uma

ex-aluna

da

Universidade Santa Cecília, formada em jornalismo, se aproximar e cutucá-lo para se juntar na foto a dois professores que estão expondo, Luiz Nascimento e Beatriz Rota-Rossi. Quando visualiza a presença do irmão, Penha corre em meio os convidados para cumprimentá-lo:

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“Dô, os desenhos estão muito bonitos. É diferente esse jeito de desenhar.” Por trás, Natália se aproxima. DaCosta a vê e pergunta: “Quer ir embora?” Os convidados não param de cumprimentá-lo pela exposição. Ao contrário do que esperavam, DaCosta não expôs desenhos ou cartuns. Preferiu inspirar-se na obra de Rauschenberg. Uma verdadeira surpresa.

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O exército e o desenho

A televisão está ligada, mas ele não presta atenção à programação. A tarde passa devagar no contorno do lápis no papel. Os traços ainda não estão definidos, não passam ainda de rabiscos no caderno. Tímido e de poucas palavras na escola, Osvaldo conseguia chamar a atenção dos professores por causa da facilidade em desenhar. No intervalo das aulas, enquanto os garotos da sua idade brincavam, ele trocava as atividades físicas por um lápis e um pedaço de papel. Quando estava em casa, o pai, Luiz da Silva Costa, sentava no sofá ao seu lado. Seu olhar ficava vidrado nos desenhos do filho. Quando pequenos, Penha e Osvaldo assistiam seriados à tarde na TV. Ele pegava o caderno e corria para a sala, a fim de desenhar as suas séries prediletas, principalmente “Combate”, que hoje é reapresentada no canal da TV a cabo, TCM. O caderno mais parecia um gibi, todo desenhado. Nascido em vinte e cinco de agosto de 1917, Luiz da Silva Costa era rígido, talvez porque o pai sempre fora sério 34


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e introspectivo. Seu nome foi uma homenagem a Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias. Ele incentivava os filhos homens a seguirem a sua carreira de militar. Nascido em dezenove de julho de 1956, Osvaldo da Silva Costa foi o único que chegou a se interessar pelo assunto. Os irmãos José Luiz e Aylton não levavam aquilo a sério. Luiz acreditava que Osvaldo seria o seu exemplo na família. Aproveitava os poucos momentos com o filho para levá-lo ao quartel. Como toda criança, em que a figura paterna representa a imagem de herói, Osvaldo adorava ver o pai de farda. Luiz da Silva Costa reformou-se na década de 1970 como primeiro-tenente do Corpo de Bombeiros. Pressionado pela profissão, ficava pouco tempo em casa. Rígido, impunha respeito, principalmente quando se dirigia a um dos filhos. De vez em quando, deixava escapar um elogio: “Osvaldo, venha aqui!” O menino se aproximava, meio amedrontado. “Você lembra muito o meu pai, seu avô”, dizia Luiz. Anésio Costa, o avô, era artesão no Piauí. Segundo a família, era muito habilidoso na manipulação do couro, principalmente na criação de chapéus e cintos. 35


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“Você parece com o meu pai...”, repetia em voz baixa. Osvaldo e o avô só se viram três vezes na vida, até ele falecer aos 94 anos, no início dos anos setenta. Por vinte anos, a família Costa morou na Cidade Vargas, no Jabaquara, em São Paulo. Incluindo DaCosta, uma família de seis irmãos, hoje ainda unida: Joselita Costa Ricci, José Luiz Costa, Aylton da Silva Costa, Maria da Penha Costa e Maria Lúcia Pinheiro Costa. Aos oito anos, Osvaldo já expressava traços do seu talento. Por passar boa parte do tempo desenhando, os amigos pouco o procuravam. Ele preferia ficar em casa desenhando, em vez de jogar bola. O relacionamento com os irmãos era um pouco distante, até porque eles eram bem mais velhos que Osvaldo. Desde criança, ele sempre foi mais apegado às irmãs Maria da Penha e Maria Lúcia. Penha e Osvaldo têm quase a mesma idade, por isso passavam mais tempo juntos. Maria Lúcia ainda era de colo. Tinha dificuldade de pronunciar Osvaldo: “Dô!”, ela dizia. O apelido ficou. 36


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DaCosta conta que a família Costa é grande. A descendência pode ser a Espanha. No Brasil, se espalha por Ourinhos,

São

Manoel, São

Paulo,

Rio

de

Janeiro,

Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Por incentivo de um primo, Luiz da Silva Costa acabou servindo o exército, em São Paulo. Depois, voltou à cidade natal, São Raimundo, no Piauí. Lá conheceu e se casou com Anália. Não demorou muito para o casal retornar a São Paulo. Quando terminou o colegial, Osvaldo ficou três anos sem estudar. Estava indeciso sobre o que fazer. Dedicava-se a cursos livres de ateliê, aquarela e guache. Luiz acreditava que a habilidade e o talento em desenhar poderiam render ao filho a carreira de engenheiro. Afinal, ainda morando em São Paulo, Osvaldo trabalhava no escritório do arquiteto Umberto DeVuona: desenhava, fazia logotipos, marcas,

layouts, maquetes. Mas ele não tinha certeza de nada. Só sabia que a área escolhida teria de ter relação com o seu gosto pelo desenho. Deitado no quarto ou sentado no sofá da sala essa foi uma fase

de reflexão.

Isso

porque

suas habilidades se

aprimoravam. Aos poucos, a família reconhecia que aquilo 37


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

não era coisa apenas de um garoto habilidoso. A adolescência foi marcada pelos quadrinhos de Joe Kubert, o

criador do Sgt. Rock e fundador da Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art. Sgt. Rock inspirou a criação da série “Combate”, de que Osvaldo tanto gostava. Mas perto dos dezoito anos, o pai ainda insistia para que ele optasse pela carreira militar: “Osvaldo, você já pode se alistar para servir o exército.” Na mesa, a família jantava. “Não quero servir o exercito”, disse Osvaldo. “Como? Não vai se alistar mais? De repente, você pode ser um engenheiro lá dentro”, retrucou o pai. Osvaldo fixou o olhar na mesa. Teve como resposta o olhar duro do pai. Ele não sabia definir aquele olhar. Nada o deixava mais inseguro do que a reprovação dele. Antes que o pai pudesse reagir, Osvaldo disse: “Ah, não! Eu quero estudar desenho, quadrinho, desenho mecânico.” O pai enrijeceu o rosto, mas não o criticou. Ficou calado durante todo o almoço. Depois, não se intrometeu 38


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mais. Seu Luiz morreu com problemas no pulmão em abril de 1989. Quando não estava desenhando, Osvaldo ajudava José Luiz nas arrumações do som para o baile no bairro. O irmão gostava de organizar bailes nas garagens, quintais e clubes. O repertório, rock dos anos 1960 e 1970. Todo mundo dançando ao som de Rolling Stones, Stooges, Mc5, Deep Purple, Led Zeppelin. Num desses bailes Osvaldo conheceu o vizinho, Marcus Castrioto. Depois de meia hora de conversa, descobrem que ambos gostam de Jimi Hendrix. Ficam amigos. Em 1975, Osvaldo e Marcus entram na onda hippie. Decidem improvisar e se aventurar no litoral de São Paulo. Montam uma barraca e começam a pedir dinheiro para a viagem. Sem rumo certo, os jovens pegam carona na estrada e acabam em Santos. Os mochileiros temporários, numa tática de ficar na cidade, montam uma barraca na praia. Não demorou muito para que policiais aparecessem e mandassem que a barraca fosse armada em outra freguesia. Os aventureiros levaram um minuto para pegar os objetos e seguir rumo a mais uma 39


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aventura. Dessa vez, o destino era o Rio de Janeiro. Antes, porém, uma parada no Festival de Iacanga, interior de São Paulo. Aderiram de vez ao estilo hippie. Esse período foi de muitas ideias. Primeiro, Osvaldo, por influência de uma tia, começou a tingir roupas, a desenhar bordas de calças com contorno de cores. Em 1974, teve outra ideia. Vender os desenhos que produzia em formato de cartões natalinos. Com amigos, instalou-se na Rua Augusta. Ele não tinha muito jeito com as vendas, mas mesmo assim conseguiu comercializar os cartões. Até que um cliente se mostrou especialmente interessado e perguntou se havia mais cartões para vender. Empolgado, Osvaldo tirou tudo o que estava na bolsa. No instante em que os mostrou, o homem se declarou fiscal da prefeitura e apreendeu a mercadoria. Decepcionado, Osvaldo desistiu do plano. O período era de mudanças. Adolescentes com predisposição para a música, Osvaldo e Marcus iniciam depois do Festival de Iacanga a montagem da banda de rock Estrela Cadente, montada também por Rogério, filho do falecido

Rubinho,

músico

falecido

que

integrou

posteriormente o sexteto Onze e Meia, de Jô Soares. O grupo 40


O último desenhista de humor

se reunia aos sábados e domingos. Mas perto de completar um ano o grupo chegou ao fim. Mas isso não foi o fim para Osvaldo. Em casa, ele ousava tocar canções na guitarra, inspirado por Jimi Hendrix. Na adolescência, o pintor Salvador Dali foi também um dos seus grandes ídolos. Os traços do surrealista chamavam a sua atenção pela combinação de imagens bizarras e oníricas. Em 1977, os pais de Osvaldo se mudaram para Santos. O cigarro já o fazia mal a Luiz da Silva Costa. A fim de melhorar o funcionamento dos pulmões, os médicos sugeriram que trocasse São Paulo por uma cidade praiana, porque o clima seria melhor para a sua recuperação. A família se instalou na Rua Paraíba, no bairro Pompeia. Vieram também Osvaldo, Maria da Penha e Maria Lúcia. Em Santos, o rapaz de vinte e um anos chegou decidido a cursar arquitetura. Logo se matriculou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos. No início, a indecisão sobre o que fazer não o influenciava tanto. O importante era desenhar.

Isso

incluía os desenhos

mecânicos. Na família, todos tiveram rumos diferentes. José Luiz apostava no interesse por música. Por anos, trabalhou 41


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

num estúdio, até que acabou por ser formar engenheiro de som. Aylton é técnico de impressão e trabalha na Empresa Folha da Manhã. Maria da Penha, assim que chegou a Santos, se tornou microempresária. Depois, acabou comprando uma banca de revista na qual trabalha até hoje. Já Joselita, a mais velha dos irmãos, e Maria Lúcia, a caçula, optaram por ser donas de casa. Osvaldo fala rápido, às vezes engole palavras. No entanto, o raciocínio vem límpido e probo quando o assunto é desenho, cartum, pintura. Com os ouvidos ligados nas guitarras de Jimi Hendrix, John McLaughlin, Grant Green e Wes Montgmery, ele arrisca até compor. Guarda um caderno de composição, enfiado numa das gavetas do quarto-estúdio. Ao final do primeiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, ainda se empolgava. Já no segundo, o interesse se dilui no decorrer do processo. Por mais que desenhasse com frequência, ele sabia que faltava alguma coisa e, por isso, precisaria mudar de rumo. A Faculdade de Publicidade e Propaganda, também na Universidade Católica de Santos, não preencheu o vazio. Até que se decidiu pela Faculdade de Belas Artes, em São Paulo. Para lá estudar, alugou com o 42


O último desenhista de humor

irmão Aylton da Silva Costa um apartamento na Rua Domingos de Morais, na Vila Mariana. Acabou morando sozinho, pois no último instante o irmão desistiu. Com a ajuda do pai e o trabalho de freela nas revistas Leia Livros,

Dados e Idéias, e nos jornais Folha de S.Paulo e O Metalúrgico, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, ia conseguindo levar. Todos os dias, por volta das vinte e três horas, deitava-se sobre o colchão. Não tinha cama. O apartamento na Vila Mariana, de quarto e sala, abrigava ainda um fogão, uma geladeira e um arquivo de aço, que comprou para guardar os desenhos. Adquiria livros de arte, mas não comprava roupas. Comprou uma prancheta enorme, comprou discos. Investia em cultura. Nunca se preocupava com o que vestir. Quando não está em São Paulo, ele tenta dar um jeito de ir a Santos visitar os pais. Agora, já sabe o que quer. Passa mais tempo dentro das redações. Já conseguiu freelas para atuar também no Jornal da Tarde. Já completara um ano no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

Prestes a tirar férias, Maria da Penha o aconselhou a fazer uma viagem: Bahia. Foi nessa viagem que conheceu a mulher com quem viria a se casar, aos trinta e quatro anos. Ao se casar, continuou morando no pequeno apartamento da Vila Mariana. Anos mais tarde, a pedido da esposa, foram morar em Campinas, na casa dos sogros. Na cidade, Osvaldo trabalhou como ilustrador e cartunista no jornal Diário do

Povo, ao lado do mais novo amigo, Dálcio Machado, caricaturista da revista Veja, vencedor constante do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. DaCosta acaba de chegar em casa. Encontra Arthur e Gustavo vendo televisão. Fica feliz de vê-los. Leva-os até o quarto. Enquanto faz os últimos ajustes na guitarra, os meninos se sentam sobre a cama e não tiram os olhos do instrumento. Quando Osvaldo descobriu a aptidão pela música, com o salário dos freelas fez aulas de guitarra e de violão clássico. Eles gostam de ver o pai manusear a guitarra. Quando ele tocava, os olhos dos dois brilham. Ao ver o encanto dos filhos, se emociona. É notória a identidade dos meninos pelo mesmo estilo de som e guitarra, exatamente na

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O último desenhista de humor

mesma idade em que ainda era um garoto. Eles o admiram. DaCosta incentivou mais tarde a banda de rock dos filhos. Em Campinas havia mais de três anos, o casal já não estava bem. Mesmo assim, o casal decidiu morar em Santos. Não demorou muito e Osvaldo já estava empregado no jornal A Tribuna. O casamento chegou ao fim em 2003. Natália Silva Cunha entrou no curso de Artes da Unisanta já conhecendo o nome do artista DaCosta. Quando fazia estágio na galeria de arte da Universidade, teve curiosidade

de

conhecê-lo

pessoalmente.

As

visitas

passaram a ser constantes na galeria. Toda a vez que Osvaldo entrava na galeria procurava a moça de cabelos encaracolados curtos. Então, ela tirou do bolso uma caneta azul e uma folha cortada ao meio com o seu e-mail e MSN. Ela, com vinte e um anos. Ele, com cinquenta e dois. DaCosta criou coragem e a convidou para sair, ir ao cinema. Hoje, eles se identificam perfeitamente: “Natália, lembra daquele filme de 1980?” Ela não entende o que diz o namorado. Afinal, em 1980, ela nem tinha nascido. O contraste de idades não é

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

problema. De mãos dadas na rua, as pessoas às vezes olham. Natália lembra de quando foi apresentada aos amigos dele: “É sua filha, Osvaldo?”

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O último desenhista de humor

O último desenhista de humor

O auditório da Biblioteca de São Paulo está repleto. DaCosta está sentado numa poltrona ao lado do artista gráfico e pintor Geandré. Os dois não param de conversar um só minuto. O primeiro pega um envelope, retira com delicadeza o papel que está ali dentro e repassa-o a Geandré. Este, aprovando, balança a cabeça e faz um sinal com os dedos apontando para o papel. Num minuto, a atenção é suspensa pelos assobios que anunciam a chegada tão esperada de Ziraldo. De acordo com DaCosta, o “pai de todos nós”. Espiando, Osvaldo ergue o olhar e eleva a cabeça ainda mais em direção à entrada. Ziraldo passa pelo corredor e as pessoas sorriem para ele. Ele retribui e para quando vê DaCosta: “Oi, DaCosta. Como é que você tá?” Este imediatamente levanta e abraça o homem alto, de cabelo branco. Geandré também o cumprimenta, mas permanece sentado. Os fãs da última fileira não se contêm e gritam ao vê-lo. Muitos se emocionam ao encontrar pela

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

primeira vez o criador do Menino Maluquinho, um dos mais importantes artistas gráficos brasileiros. “Ziraldo, Ziraldo”, grita a morena de cabelos encaracolados até os ombros. O encontro estava marcado para as duas da tarde, mas já eram duas e trinta. Para as crianças, foi montado um espaço repleto de livros do Menino Maluquinho. São pilhas e pilhas de histórias de autoria do consagrado cartunista brasileiro. Nas primeiras abordagens, em pé, Ziraldo Alves Pinto se congratula com os amigos e fãs, agradece a participação no projeto “Sábados da Memória das Artes Gráficas”, promovido pelo governo de São Paulo. É uma homenagem aos artistas gráficos. Eles passam pela biblioteca e falam sobre a sua trajetória. Todo sábado um é homenageado. Hoje é o dia de Ziraldo. Não faltou ninguém. O irmão, Zélio Alves Pinto, também artista gráfico, foi o primeiro homenageado no projeto. Lá no fundo, sentada, uma mulher comenta com a amiga ao lado: “Esse foi o meu ídolo e agora é o dela”, aponta para a filha de seis anos, sentada em seu colo. 48


O último desenhista de humor

A menina está com o livro de Ziraldo nas mãos e pede à mãe autorização para cumprimentá-lo. “Calma”, a mãe assopra nos ouvidos da menina. “Ainda não?”, a menina pergunta. “Depois a gente vai lá e tira uma foto”, diz a mãe. Ziraldo já tinha começado a falar. No discurso, mais uma vez agradece a participação dos convidados e arrisca uma piada: “Achei que não ia ter ninguém.” Na plateia, o público é variado: crianças, jovens e adultos.

Tem

até

gente

sentada

sobre

banquinhos

improvisados pela assessoria da Biblioteca de São Paulo. Meia hora depois, o apresentador anuncia a presença de Geandré, DaCosta e de outros artistas. Depois, faz uma pausa de quinze minutos para que Ziraldo se recomponha e beba água. Os flashes das máquinas fotográficas não dão descanso. Alguns se levantam e seguem na direção de Ziraldo, em busca de fotografias e autógrafos. Vendo a movimentação frenética, o apresentador pega o microfone e faz um apelo:

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

“Pessoal, pessoal, o Ziraldo dará autógrafos e tirará fotos com todos, mas depois da entrevista. Agora é um intervalinho de quinze minutos. Rápido, rápido.” A mãe e filha que estão de pé logo voltam aos seus assentos. DaCosta vai ao encontro de Ziraldo. Carrega num envelope a réplica de duas páginas do jornal O Pasquim 21, editadas por Zélio e assinadas pelo próprio Ziraldo. Nessas páginas, publicadas em 2002, os irmãos fizeram uma homenagem a DaCosta chamando-o de “o último desenhista de humor”. Nos bastidores, do lado de fora da pequena sala, Ziraldo e Zélio cumprimentam amigos e colegas de profissão. Osvaldo se aproxima por trás dos cartunistas com o envelope nas mãos. O primeiro a perceber a sua presença é Zélio: “Oi, DaCosta!”, diz. Imediatamente, Osvaldo puxa do envelope a réplica das duas páginas e a entrega a Zélio. Este dá um tapinha nas costas do amigo e faz elogios. À sua frente, Ziraldo conversa com outros cartunistas, mas vira-se após ouvir o que diz Zélio. 50


O último desenhista de humor

“Venha ver”, pede o irmão, ao acenar com as mãos. Ao ver DaCosta, os dois se abraçam. Este fica feliz em rever o ídolo. Antes que algo seja dito, Zélio puxa Ziraldo: “Ziraldo! Já viu?”, pergunta, mostrando o material que está nas mãos de DaCosta, com as duas páginas inteiras com os seus melhores desenhos publicados em O Pasquim 21. São quinze obras premiadas. Numa delas, um homem alto, de cabeça minúscula, está encostado num portão que dá a lugar nenhum. Esse mesmo homem está em mais nove desenhos, com conotações diferentes. Ele aparece com um taco de baisebol na intenção de acertar uma bola, só que a bola é o planeta terra. O mesmo homem, multiplicado por seis, marchando para um só caminho. Todos acorrentados nos braços e pescoços. Lá no final de uma das páginas, no fundo azul, estão uma bailarina e um elefante. Os dois em cima do palco de um circo. A bailarina faz as unhas do elefante, que está sentado, lendo um jornal. Os desenhos são acompanhados de um texto, escrito pelo próprio Ziraldo, que diz o seguinte:

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

Nós eramos quatro rapazes cheios de talento: Jaguar, Claudius, Fortuna e eu. E gravitávamos em volta do Millôr, que era nosso modelo. Éramos todos humoristas e desenhávamos “pracará”. E achávamos que este negócio de fazer piada sem um grande desenho (digno de ir pra um quadro), era besteira. Nós não gostávamos de ser chamados de caricaturistas e, muito menos, de cartunista (palavra que, grafada assim, nem existia). Nós éramos desenhistas de humor!!! Queríamos todos ser como Steingberg, o André François ou o Ronald Searle. Aquele engraçadíssimo cartunista do MAD, Não-sei-o-quê Martin ou mesmo Sérgio Aragonez, para nós, eram artistas menores. Eu saía pelo mundo a comprar álbuns daqueles gênios. Depois veio o Folon, mais novo do que nós, e falou pro Zélio que éramos graphistes. Achei chiquíssimo. Depois tudo acabou. Já não há mais desenhista de humor no mundo. Só o Ralph Steadman, um inglês, o desenhista mais obsessivo e mais talentoso de todos os tempos que, de vez em quando, lança um álbum fantástico no mercado. Na imprensa, cadê eles? Onde um desenhista de humor no Brasil, como nos velhos tempos? Aqui está ele. Chama-se DaCosta, ou, para os íntimos, Osvaldo da Costa. Nasceu em São Paulo no final da década de 1950 e hoje mora em Santos. Já passou por vários veículos como chargista, caricaturista e ilustrador, mas o que gosta mesmo é de fazer o velho e bom desenho de humor. Embora afirme que continua aprendendo, confessa também que sua influência — e admiração —, no ínício da carreira, foram Millôr, Jaguar, Zélio e Miran. Fez, porém, um percurso extenso e variado. Foi do gravador brasileiro Grillo a Egon Schiele; de Aldemir 52


O último desenhista de humor

Martins a Edward Hopper. Hoje, ele cumpre o desígnio do velho Manzi, o maior desenhista de humor que passou pela Itália. Que dizia: “Um bom desenho salva qualquer piada”. Era uma lei para nós. (Ziraldo, 2002) “É O Pasquim 21?”, pergunta Ziraldo. “Nossa, mas você está ficando melhor a cada dia!” Sem graça quanto os elogios, DaCosta ri. Tenta argumentar, mas as palavras parecem se perder. “Ah, é!”, responde desajeitado. Antes que Ziraldo pudesse dizer alguma coisa, um fã interrompe a conversa e o tira dali para bater uma foto. Ainda assim, Osvaldo permanece parado. Não demora e Ziraldo está de volta. Dá mais dois passos para trás e retoma o assunto com DaCosta: “Você está cada dia melhor. Me manda as suas obras, manda para mim. Tenho um lugar para publicar. Me manda por e-mail. Sabe o meu e-mail?” Os dois seguem de volta para a sala, local onde ocorre a entrevista. Eles se despedem. Antes de sentar na sua cadeira, duas fileiras antes de Zélio, Ziraldo faz o último aviso: “DaCosta! Não esquece de me mandar os desenhos.” 53


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

“Tá bom”. Oito horas da noite, o evento está perto de chegar ao fim. Foram tantas perguntas e respostas que Ziraldo não concluiu o que queria dizer sobre a sua carreira: “Faltou mais”, diz o apresentador. “Vai precisar vir mais uma vez e contar o que falta.” Ziraldo está cansado, o semblante já o entrega, afinal, foram cinco horas de bate-papo. Falou do tempo quando era jovem, das prisões que sofreu no tempo da ditadura militar. Bem-humorado, Ziraldo consegue fazer de momentos difíceis piadas engraçadas.

Não há quem não ria das

histórias do maior cartunista brasileiro. Os assentos continuaram cheios. Ninguém saiu do lugar. Ao final, Ziraldo agradece e pede que os fãs façam uma fila única para tirar fotos e pegar autógrafos. A fila se forma rápida. São homens, mulheres e crianças. Todos querem uma foto com o criador do Menino Maluquinho. DaCosta e Geandré esperam a muvuca passar. Zélio levanta e vai até eles. Agora todos de pé, a conversa rende. A única que parece não prestar atenção é Natália. Sua distração é com a máquina fotográfica. A fila está perto de acabar e eu sou a última. Quero saber do 54


O último desenhista de humor

Ziraldo porque DaCosta é o último desenhista de humor. Afinal, ele continua sendo o último desenhista de humor? “Falta o principal”, diz uma garota de mais ou menos quinze ou dezesseis anos ao lado de Ziraldo. No mesmo instante, ela mesma lembra: “Ah, foto. Tira aqui, mãe.” Eu sou a próxima. “Vai tirar uma foto?”, pergunta Ziraldo. “Claro que vou. Mas primeiro tenho uma pergunta.” Com as mãos, ele faz sinal para eu me aproximar mais. Ele indica a mesinha ao seu lado onde abriga os livros. Sento-me. Então ele diz: “Agora pode falar.” Pergunto: “No Pasquim 21 o senhor disse que o DaCosta é o último desenhista de humor. O que quis dizer com isso?” Ele pede para que eu chegue mais perto. Então, repito a pergunta: “No Pasquim 21 o senhor disse que o DaCosta é o último desenhista de humor. O que quis dizer com isso?”

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

Entrosando os dedos entre a caneta, Ziraldo pensa e logo já tem a resposta na ponta da língua: “Aqui no Brasil quem fazia cartum passou a fazer ou tira ou charge. De repente, sem mais explicações, sem a gente saber de onde ele veio e porque estava fazendo isso, recebemos no Pasquim 21 um monte de cartuns de um cara maduro, de um verdadeiro cartunista do nosso tempo. ‘Que história é essa? Quem é esse cara fazendo esse tipo de coisa, quando ninguém mais está fazendo isso?’, questionei. Era o DaCosta! Depois de conhecer os seus trabalhos por intermédio do meu irmão Zélio, pedi ao DaCosta que me mandasse as suas obras, pois eram dignas de uma homenagem. Aí eu falei para o Zélio: ‘Publica aí: DaCosta — O último desenhista de humor.’” Ziraldo estabelece uma opinião firme e incisiva. De minha parte, eis a pergunta que não queria calar: “E desde a homenagem, em 2002, ele continua sendo o último desenhista de humor?”. Ziraldo para e pensa. E com um “ah”, ele responde: “Não apareceu nenhum cartunista no Brasil depois dele. Ele é o último cartunista que apareceu.” 56


O último desenhista de humor

Aponta para a escada, na direção em que se encontram DaCosta, Geandré e Zélio. Não resiste e faz o comentário: “Achei que ele fosse mais jovem, mas estou olhando para ele e sei que é mais velho. Seria muito difícil se ele fosse um homem de vinte anos fazer isso. Só um cara mais velho pode fazer um cartum.” De frente para mim, e com as mãos na minha direção, é ele agora quem me indaga: “E eu pergunto, onde é que ele estava? Fazendo o quê? Por que não procurou a gente antes. Ele podia ser da turma d´O Pasquim. O Chico e o Paulo Caruso, todo mundo foi da turma d´O Pasquim. Onde é que ele estava? Aliás, eu gostaria de saber dele: onde é que ele estava que demorou tanto a mandar os desenhos dele para serem publicados no nosso Pasquim?” Descendo a escada do auditório, na direção de Ziraldo, DaCosta vira-se e pede que Natália o acompanhe. As mãos postas na câmera fotográfica. Geandré adere aos óculos escuros, arruma o cabelo assim que ouve o barulho do flash. 57


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

“Agora, sim”, diz Geandré. Todos estão a postos, para mais uma foto. “Natália, tira uma foto minha e do Geandré com o Ziraldo?”, pede DaCosta. Depois de tirar, Natália solicita a dela. Ziraldo, que não a conhece, pergunta quem é a jovem moça. Imediatamente, Osvaldo responde: “É a minha namorada.” “Suuuaaaa

namoraaaaada?

Pegou

para

criar?

Pedofilia é crime”, brinca Ziraldo. Turbilhões de vozes e risos. Osvaldo se despede dos amigos cartunistas. DaCosta, não esquece de me mandar os desenhos”, pede Ziraldo.

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O último desenhista de humor

De Osvaldo a DaCosta

Na esquina das ruas Piauí e Euclides da Cunha, no bairro Pompeia, em Santos, ele está com o semblante cabisbaixo e o aspecto cansado. Encostado no poste que dá de frente para o bar Dez e Dez, ao lado da antiga Faculdade de Comunicação (recentemente demolida), de camisa social amarela e com mala preta, aparentemente pesada sobre os ombros, Helder Marques acabara de chegar de São Bernardo, depois de um dia exaustivo. Helder e DaCosta se conheceram em 1980, três anos depois que a família de Osvaldo se mudou para Santos. Vizinhos, e apreciadores da mesma modalidade, os desenhos, se identificaram e, consequentemente, criaram laços de amizade. Helder também desenhava, mas optou pelo jornalismo, no jornal Cidade de Santos. Hoje, é professor universitário. Ele dá aula no curso de jornalismo na Universidade Santa Cecília e faz assessoria de imprensa da Prefeitura de São Bernardo. Na esquina ele me espera, boceja algumas vezes. São quinze para as oito, a noite está serena, mas fria. Ao me ver, 59


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

segue em minha direção e me conduz a uma lanchonete próxima. Ao entrarmos, Helder logo se aproxima de uma mesa, a mais perto da parede, no canto, de frente para a televisão. Em 1980, quando Osvaldo tinha vinte e quatro anos, um frequentava a casa do outro. “Na época, o Osvaldo esbanjava talento, mas o seu traço não era tão definido quanto o de hoje”, diz Helder. Na época, Helder trabalhava na Cooperativa dos Jornalistas de Santos como vice-presidente e assessor de imprensa. Na cooperativa, Helder fundou também uma editora, a GHM, e criou o Jornal de Mesa. Era uma publicação semanal, na verdade uma toalha de mesa distribuída em restaurantes, com textos, humor, cultura e entretenimento. A equipe editava, diagramava, escrevia matérias e vendia anúncios. A publicação abriu espaço aos ilustradores. É aí que Osvaldo entra em ação. Foi convidado a fazer parte do elenco do Jornal de Mesa. “Se este jornal não foi a primeira publicação que trouxe uma ilustração dele, foi uma das primeiras. Na época, ele assinava Osvaldo ”, relembra Helder.

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O último desenhista de humor

Em primeiro de janeiro de 1984, o jornal teve a sua última edição. Não havia mais como mantê-lo. “Houve um declínio natural no mercado, num momento em que a equipe não tinha mais fôlego para segurar a barra”, conta Helder. A garçonete interrompe a conversa: “Vão querer o quê?” “Um cappuccino”, diz Helder. “Um suco de laranja”, digo. Antes de sermos interrompidos, Helder contava-me como era diferente o traço de Osvaldo com o DaCosta de hoje. “Os traços dele não eram tão leves, eram muito duros”, gesticula. Faz uma pausa e continua: Ele era um desenhista em busca de espaço. Alguém que tinha talento para o humor, para o grafismo. Mas ele só foi evoluindo de lá para cá. O traço dele melhorou muito, está muito melhor. Ele adquiriu uma personalidade artística”.

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

O humor de DaCosta é fino, de reflexão. O mundo do cartum possui vários tipos de humor. Uma das suas principais características atuais é a cor. Antes, trabalhava muito o preto e branco. Hoje, a cor é uma presença forte na sua arte. Meses atrás, Helder estava andando de bicicleta e encontrou DaCosta na rua. Para a sua surpresa, o amigo levava nas mãos um caderno, uma espécie de diário gráfico, o skeetbook. Ao verificar o caderno, Helder achou-o interessante. Mais do que isso: achou importante o progresso. “Muito legal. O Osvaldo e o seu diário gráfico!”, diz Helder. À tarde, quando tem tempo, DaCosta passeia pela orla da praia em busca de personagens e tipos, de situações e ideias para novos desenhos e aquarelas. “Nas obras do Osvaldo existe o humor. Este é só o início para uma grande reflexão. Existem artistas de humor que não se preocupam muito com a estética, têm o traço rápido, só uma sugestão de linha já é o suficiente para passar a mensagem. O Osvaldo faz as duas coisas, se preocupa, e 62


O último desenhista de humor

muito, com o lado estético. Nele, o traço está igualado à mensagem, são entrelaçados. Trata-se ainda de um desenho elegante, em que a cor tem um papel muito importante. É tudo suave, tem beleza, é agradável de ver”, observa Helder. Quando era convidado a fazer alguma ilustração diziam-lhe que simplesmente assinar Osvaldo poderia lhe render confusões mais adiante. No jornal Folha de S.Paulo já havia um Osvaldo, o Osvaldo Pavanelli. Em 1986, Osvaldo foi convidado a ilustrar a revista de informática Dados e Idéias, da Editora Três. Semanas depois, ainda não havia sido pago. Um dia, na redação de O Pasquim, em São Paulo, o bemhumorado Pavanelli o encontra. Os dois se cumprimentam e Pavanelli inicia a conversa: “Porra, bicho um dia desses me ligaram lá em casa para

eu

receber

um

dinheiro

de

uma

ilustração.

Perguntaram-me se eu era o Osvaldo da Costa.” Osvaldo recebeu, enfim, da Dados e Idéias, mas ficou com aquilo na cabeça. Um dia, decidiu ir ao ateliê de Zélio Alves Pinto. Folheando alguns livros espalhados pelo ateliê, Osvaldo está inquieto, com uma ideia fixa na cabeça. Então, decide desabafar: 63


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

“Tão fazendo confusão com o meu nome. Um dia desses deixei de receber um trabalho na data certa porque acharam que o Pavanelli era eu.” Zélio, que havia levantado para repor um livro no lugar, faz a sugestão: “Então, vamos criar um nome artístico para você. Você tem algum apelido de criança?” “Na minha casa, a minha família me chama de Dô.” Zélio o olha incisivamente. Osvaldo retribui com uma risada. Por segundos o silêncio permeia o ateliê. Zélio já tem uma nova ideia e revolve expô-la: “A maior parte dos cartunistas tem os nomes abreviados com o sobrenome. O que você acha de DaCosta? Osvaldo da Silva Costa: DaCosta?” “Pô, legal, Zélio. Mas já não existe o pintor?”, questiona. “Sim, mas ele é o Milton da Costa. Você é apenas DaCosta.” Feliz com a nova assinatura, Osvaldo já começa a treinar ali mesmo, no ateliê do amigo, a sua nova marca. Nos

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O Ăşltimo desenhista de humor

primeiros seis meses, alterna as duas assinaturas, Osvaldo e DaCosta. Mas DaCosta, enfim, toma o lugar de Osvaldo.

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

A biblioteca do Zélio

A decisão de Osvaldo em seguir desenhando teve forte influência das revistas de contracultura que passou a comprar no período em que trabalhou numa gráfica, em Santos, em 1980. Grilo, Patota e Rolling Stone eram as suas favoritas. Foi nessas revistas que passou a conhecer mais a fundo os cartunistas e os desenhistas de humor e de quadrinhos e também a música. No Brasil, o início da sua carreira foi marcado também pelos trabalhos de Jaguar, Millôr e Ziraldo. Osvaldo desenha, mas ainda não tem experiência em salões de humor. Foi no curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Santos que Sérgio Ribeiro, o Seri, lhe apresentou um folheto sobre o I Salão Regional de Goiânia, em 1981. “Manda um desenho, Osvaldo. Participa”, insiste Seri. Osvaldo faz dois trabalhos a lápis e os envia. Surpresa: são selecionados entre as melhores do evento. Certa tarde, em 1981, ele está em casa trabalhando. O rádio

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O último desenhista de humor

está ligado: ora quer saber o que ocorre no Brasil e no mundo, ora quer ouvir música. O telefone toca. “Alô!” “Osvaldo?” “É ele. Quem fala?” “É o Seri. Tudo bem?” “Tudo. O que conta?” “Vamos para o Salão de Humor de Piracicaba?”, convida Seri O convite é aceito na hora. Ao desligar o telefone, Osvaldo vai à cozinha contar à mãe: “Vou para Piracicaba, dona Anália, para o Salão de Humor.” “Vai, Dô?” Semanas antes da viagem, Osvaldo já começa a produzir os desenhos que pretende levar. Alguns já estão guardados, outros precisam ser acabados. Essa é a sua oportunidade de mostrá-los aos cartunistas experientes. Ele quer fazer novas amizades e conhecer um dos ídolos que o inspiraram. Quando jovem, Osvaldo era fissurado nos 67


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

desenhos de Ziraldo. Passou a admirá-lo ainda mais quando o viu pela primeira vez na TV. Vê-lo na televisão foi o que o fez decidir-se de vez pelo cartum, pelo desenho de humor. Na abertura do 8º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o mais tradicional evento de humor gráfico do mundo, estavam presentes Angeli, Glauco, Laerte, Zélio, Ziraldo. Surpreso, Osvaldo pergunta a Seri: “O salão é assim sempre cheio de cartunistas?” “É, sim”, diz Seri ao cumprimentar os colegas que iam se aproximando. Osvaldo

está

emocionado,

apreensivo.

A

face

enrijecida não nega a tensão. Seu olhar é concentrado. As mãos suadas e frias seguram a pasta com os desenhos. As últimas palavras da noite de abertura do evento cabem a Ziraldo. Emoção pura vê-lo falar ao vivo. Na primeira oportunidade, ele tira os desenhos do envelope. Osvaldo está munido de cartuns e pede que eles sejam autografados pelos cartunistas. O primeiro a assinar é Glauco; Angeli em seguida; Laerte, o terceiro. Zélio também entra no clima e autografa. Alguns hesitavam em escrever o

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O último desenhista de humor

nome, para não estragar os cartuns que Osvaldo fizera. Ele diz: “Não tem problema. É uma honra. Podem assinar, sim.” Osvaldo retira mais cartuns do envelope e os mostra a Zélio. Impressionado com o que vê, este o convida para ir a sua Escola Brasileira de Artes. “Os teus desenhos são muito legais. Vá visitar a Ebrart, faço questão. Aparece lá quando quiser”, convida Zélio. “Apareço, sim.” O convite de Zélio não sai da cabeça. Semanas depois, Osvaldo decide juntar todos os seus desenhos e, finalmente, levá-los à Escola Brasileira de Artes. O pensamento é determinante: quer conhecer o famoso acervo de livro de artes de Zélio. Finalmente, este o recebe. Osvaldo retira os cartuns da bolsa e os entrega a ele. Zélio diz: “Vai lá naquela sala.” Osvaldo depara então a enorme biblioteca. Já desconfiava de algo do tipo, mas não imaginava que fosse tão grande e completa. Nas prateleiras, fuça os livros um a um. 69


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

São horas intensas em contato com publicações de arte e álbuns de quadrinhos, charges, cartuns e desenhos de humor. Ao longo do dia, vive as emoções de novas descobertas, com estilos e modos diferentes de criar. Conhece grandes desenhistas de humor como André François, Ralph Steadman e Ronald Searle, caras que tiveram influência decisiva para a geração de cartunistas de O

Pasquim, representada por Jaguar, Millôr e Ziraldo. Antes de ir embora, Zélio o puxa de canto: “Olha esse aqui.” E então apresenta a Osvaldo o cartunista Saul Steinberg, um cara de uma técnica inovadora, que muito o viria a influenciá-lo. “O Steinberg é um ícone do cartum. Aqui no Brasil, ele inspirou a turma do Pasquim. Sua técnica tem inacabável variedade de formas de expressão — aquarelas, pastel, caryon, colagens de sacolas de papel, lápis-tinta, madeiras ou qualquer combinação desses materiais. Seus desenhos refletem o artista, o viajante, o romântico e até humorista”, diz DaCosta.

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O último desenhista de humor

Na biblioteca de Zélio, as aquarelas são também a grande descoberta do dia. O domínio das cores, a sincronia nos finos traços o envolve tanto que os lápis em casa perderam espaço para o copo de água misturado às mais leves combinações. Assim, Osvaldo passou a desenvolver uma linguagem própria, mais elaborada e independente. As investidas e pesquisas nas técnicas de Saul Steinberg, que também é aquarelista, o ajudaram a criar novas fórmulas de criatividade.

Com

DaCosta,

as

aquarelas

expressam

passivamente paisagens nas cores transparentes sobre o papel branco. Embora sutil, existe uma mensagem por trás do homem cortando a árvore com uma motosserra. A árvore está tombando de um lado, o homem também tomba do outro, em direção ao solo. O desenho lhe rendeu o terceiro lugar no Salão Carioca de Humor, entre três mil e duzentos inscritos. “Depois que conheci as técnicas de Saul Steinberg, passei a usar materiais como lápis de cor, aquarela e tinta acrílica.” Recentemente, DaCosta comentou com um amigo que está sem dinheiro para investir mais nas aquarelas. Manter 71


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

essa técnica não é barato. A cada ida à Casa do Artista, em São Paulo, gasta em torno de quatrocentos reais, o que abala o seu orçamento apertado de professor. As compras podem ocorrer a cada três ou quatro meses. Em casa, Osvaldo não para de estudar. Testa técnicas, desenhos e novas linguagens, aprimorando o traço, imprimindo-lhe leveza. O estudo da técnica fornece ao desenho de humor a sofisticação de que este precisa.

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O último desenhista de humor

Um vinho e uma taça

“DaCosta, preciso que você me mande alguns de seus desenhos. Vou publicá-lo no Pasquim 21 por iniciativa minha e do Ziraldo.” “Ah, é? Mando, mando sim.” Desliga o telefone e comemora o pedido. Empolgado, já sabe quais vai mandar. Semanas depois, compra o jornal e está lá: “DaCosta, o último desenhista de humor” “Que baita homenagem dos meus ídolos. Demais!”, comemora. “Alô, Zélio, é o DaCosta.” “Oi, DaCosta, gostou?” “Se eu gostei? Não sei o que dizer.” Silêncio: “Adorei. Muito legal”, diz DaCosta. Zélio Alves Pinto nasceu em Caratinga (MG), em vinte de fevereiro de 1938. Também é pintor e escritor. É um dos fundadores de O Pasquim e do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. A sua carreira se entrelaça com a do 73


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

irmão Ziraldo em alguns momentos: na primeira versão de

O Pasquim, no fim dos anos 1960, e nas revistas A Palavra, Bundas e, mais recentemente, em O Pasquim 21. A família sempre cultivou o gosto pela arte: eram músicos, escultores, pintores, atores. Segundo Zélio, um dos motivos que levaram ele e o irmão Ziraldo a criar O Pasquim 21 foi exatamente para dar sequência

ao

trabalho

que

desenvolviam

no

Salão

Internacional de Humor de Piracicaba. O jornal foi criado em 2002, numa época difícil, em que nem a charge, o cartum e o desenho de humor tinham espaço na mídia. O bairro é Higienópolis, em São Paulo. O visitante que entra no ateliê de Zélio logo vê um quadro com o retrato de Maria Lúcia Ramos, a Ciça, sua mulher pintada em verde musgo, à qual ele faz várias referências durante a entrevista. Antes de subir as escadas, Zélio me conduz e aponta para o retrato: “Esse foi um quadro dado por Ziraldo. Esta é a minha esposa.” Ali subo até o ateliê. Zélio não me acompanha, diz que tem de terminar o café, mas não demora. Caso precise de 74


O último desenhista de humor

algo, o filho Fernando, que está no quintal, pode ser acionado. Na escadaria que dá acesso ao ateliê tem uma caricatura do irmão Ziraldo, de braços abertos, em sinal de saudação, com a frase: “Zélio, meu irmãozinho, seja bemvindo ao clube”. Ao subir são vistas prateleiras e quadros semiacabados. Pendurados, se misturam aos mais de três mil livros. São tantas as cores no ateliê. As recentes pinturas abrem a entrada do estúdio. O quadro de um metro de altura ainda tem cheiro de tinta fresca, pois acaba de ser pintado. Meia hora depois, Zélio está à minha frente, pronto para responder a qualquer pergunta. Antes de iniciarmos, ele prepara a cadeira que tem ponto fixo ao lado da janela. “Fique à vontade”, diz ele. Ao lado da janela fica a mesa com o computador, uma velha impressora e uma TV pequena, que aparenta não ser usada com frequência. Hoje o dia está ensolarado e o céu mais azul do que nunca. O sol ofuscante reflete-se sobre a mesa encostada à parede. Muitos livros e páginas de jornal espalhados pelo local. Um livro em especial chama a atenção. É de Otto Dix, estendido sobre a cômoda, aberto na página dezoito. Um homem na cor vermelha dá veemência ao 75


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

desenho. Zélio está estudando o livro, um pedaço de jornal tira o molde da figura do livro. Recados, lembretes, fotos e um telefone ilustram as prateleiras. Há mais obras de artes plásticas do que gráficas. “O senhor abandonou o cartum?” “Não, de jeito nenhum, esse foi um processo natural. Fui lidando com as artes visuais ao longo desses anos. E, de repente, fui sentido que o espaço para artista gráfico se esgotava. Aos poucos, para mim, o cartum foi perdendo o segredo, o mistério. Então, agora o artista gráfico dá asas às artes plásticas”, diz. Antes que eu fizesse a segunda pergunta, e a mais importante, ele me interrompe e pega sobre a mesa o maço de cigarros. “Espera”, corta. O cinzeiro fica ao lado direito, parece estar ali há anos. Ele acende o cigarro e, ao baixar as mãos, pede que eu continue o que ia perguntar. Interrompe mais uma vez e proclama: “É sobre o DaCosta, não é?” “É, sim”, respondo. 76


O último desenhista de humor

Ele levanta a cabeça em tom de aprovação. Pergunto: “Por que o último desenhista de humor?” Zélio para e mantém os olhos fixos em mim. Pensando sobre como responder, ele gesticula com as mãos, que flutuam no ar: “Porque, infelizmente, o desenho de humor perdeu nos últimos anos a embocadura que tinha quando nós iniciamos na atividade, entendeu? O desenho de humor é mais refinado do que um simples cartum. O desenho de humor não tem necessariamente o objetivo de provocar o riso hilário. Ele provoca a surpresa, é sempre um achado, com a inclinação para o humor. Quase que uma atitude filosófica. Neste aspecto, o DaCosta é um genuíno desenhista de humor.” No meio de tantos acessórios, num canto quase que imperceptível, um vinho e uma taça tentam se esconder entre as cores e a bandeja. Zélio não abre mão do ritual do vinho que lhe acompanha há anos. Mais uma vez ele se levanta. E antes que percebesse a sua saída, ele já está de volta, vidrado nas perguntas, posicionado na cadeira que parece moldar o seu corpo. Elegante, veste calça jeans azul e 77


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

camisa social rosa, por cima um colete bege. Retomo a entrevista: “Como interpreta hoje o trabalho de DaCosta?” Zélio não economiza as palavras e o releva por que Osvaldo foi homenageado na edição de treze de agosto de 2002 de O Pasquim 21: “Ele continua a fazer um belo trabalho. Ele é um sujeito criativo, não só na imagem, mas na forma e no conteúdo. O conteúdo dele é ousado, busca os aspectos comportamentais mais sutis. Ele não é chulo nem vulgar em momento algum. Sempre vai um pouco além.” Com modos elegantes, Zélio acende mais um cigarro e se acomoda na cadeira. Agora, a conversa mais parece um bate-papo do que uma entrevista formal: “Mesmo depois de oito anos, o DaCosta é ainda o último desenhista de humor?” “Eu ainda não vi algum desenhista novo depois dele. É possível que pela atividade que exerce como professor, como profissional atuante, acabe inspirando novos desenhistas de humor, mas não sei.”

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O último desenhista de humor

Junto ao comentário veio uma sequência de respostas sobre diferentes definições do cartum e do desenho de humor. Que em sua concepção são trabalhos distintos. Podem até ser confundidos, mas na realidade, segundo Zélio, existe uma importante característica que os distinguem: “O cartum tem a especifica intenção de provocar o riso. Ele quase sempre é uma crítica ou comportamental ou circunstancial, mas é uma crítica. O desenho de humor é o comentário

sobre

o

comportamento

de

alguma

circunstância, sobre a vida. Existem poucos desenhistas de humor, muito poucos.”

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Bicho 36º Salão de Humor Internacional de Piracicaba (2009)

Bonsai 36º Salão Internacional de Humor de Piracicaba (2009)


Capa da revista Exame (2002)

Garrafa Humor at the Falls Festival Internacional de Humor Grรกfico das Cataratas do Iguaรงu (2003)


Lona 33ยบ Salรฃo Internacional de Humor de Piracicaba (2006)


Céu 18º Salão Universitário de Humor de Piracicaba (2010)


Corda 15º Salão Internacional de Humor (2004)

Darwin 3ª Mostra de Humor Gráfico de Valência, Espenha


Capa do livro Pequena história da música (de Henrique Autran Dourado, Editora Vitale,1999)

Nuvem Cartum premiado no 18º Salão Universitário de Humor de Piracicaba (2010)


Ossos 10º Porto Cartoon World Festival, Portugal

Oss

Perpétuo 9º Porto Cartoon World Festival, Portugal (2007)

, Portugal)

Internacional

Poderes Cartum premiado no 33º Salão Internacional de Humor de Piracicaba (2006)


Sangu uessugas Cartum premiado no 33º Salão Internacional de Humor de Piracicaba (2006)

Span 2ª Mostra de Humor Gráfico de Valência, Espanha (2007)

Stick Salão de Humor Montes Claros (2002)


War The First Cartoon Web Contest Iran Cartoons, Irã (2002)

Pedicuro Grande Prêmio do 4º Concurso Nacional de Charge da Baixada Santista (1998)

Violência 2º Mostra de Humor de Valencia, Espanha (2010)

Violência 4ª Mostra de Humor Gráfico de Valencia, Espanha (2010)


Série Mingus Obras que integraram a exposição "Professores Artistas", na Pinacoteca Benedicto Calixto, Santos (2010)


DaCosta [ao centro] com os filhos pequenos e com os amigos Medina, Seri [de camisa listada] e Alexandre Barbosa, o Bar, ao receber o Grande Prêmio em 1998 no 4º concurso Nacional de Charges da Baixada Santista

DaCosta é o garoto da direita. Ele está com a irmã Maria da Penha, o primo Roberto, o irmão Aylton e o primo Marcos [na frente]

Com a irmã Maria da Penha e a mãe, Anália, em Santos


Na Universidade de São Paulo, em 1991: ele colaborava com o Jornal da USP

Uma sequência do múltiplo DaCosta


Osvaldo faz feira desde os 14 anos. Aqui, ele está na feira da Rua Oswaldo Cruz, no Boqueirão, a cinquenta metros de sua casa

DaCosta utiliza o quarto como ateliê: trabalho árduo e constante


Uma pausa no trabalho para Osvaldo

tocar adora

guitarra: o

Jimi

Hendrix até hoje

Sketchcrawl: evento mundial dedicado ao desenho e à pintura. DaCosta reúne os amigos no Museu de Pesca de Santos e põe mãos à obra. Mais tarde, o cartunista Geandré foi prestigiar o grande encontro da arte


O cartunista e artista plástico, Geandré: o jornal Ovelha Negra, que ele fundou nos anos setenta, é tema do mestrado do amigo DaCosta. Em seu ateliê, no Ibirapuera, quadros [incluindo um da mulher] e a árvore seca que acompanha muitos de seus cartuns


Zélio Alves Pinto em seu ateliê, em São Paulo: importante influência na carreira de DaCosta


DaCosta com os amigos e a namorada Natália na exposição DzProfessores Artistasdz, na Pinacoteca Benedicto Calixto


Grande encontro de DaCosta com os irmãos Zélio e Ziraldo na Biblioteca São Paulo: para ambos, Osvaldo é o último desenhista de humor


Seri, o criador da Cacilda: ele incentivou o amigo Osvaldo a participar dos sal천es de humor


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

A holandesa

Antes da entrevista, conversei por telefone algumas vezes com a doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações da USP, Sonia Luyten. Pesquisadora da área de quadrinhos há mais de quarenta anos, fundadora na década de setenta do primeiro núcleo de estudos de mangá na USP, ela integra também os júris dos principais salões nacionais de humor e de quadrinhos. Ao telefone, me disse: “Osvaldo é um grande desenhista, um grande artista.” Numa segunda-feira de julho, de temperatura amena, ela me aguarda em seu arejado apartamento de paredes de vidro, na Avenida Padre Manoel da Nóbrega, em São Vicente. Parece um local invisível, sem paredes. De frente para praia, o som do mar funciona como terapia. A forte corrente de ar é refrescante. Toco a campainha. Dou de cara com uma mulher de pele clara, quase translúcida, cabelos loiros e o rosto marcado pela simpatia. Ela abre os braços e me convida a entrar: “Você é a Camilla!”, diz ao mesmo tempo em que me conduz à sala. 80


O último desenhista de humor

“A entrevista vai ser aqui mesmo. Pode ser?” “Sim, claro.” Sentada com as pernas cruzadas em um sofá bege, Sonia veste uma blusa do mesmo tom que o sofá. O visual é esplêndido, ao fundo o mar calmo e imenso. O espaço é bastante iluminado. Quadros, fotos, cartuns e charges ilustram o ambiente. A sala de jantar é ao lado da sala de estar. Próximo à mesa central, há um raque que acomoda um

notebook. Dando continuidade ao que perguntei, Sonia Luyten faz uma pausa para um comentário. E levanta para fechar o computador: “Não consigo conectar a internet. Às vezes funciona, às vezes não.” Antes que a entrevista recomece, ela procura o maço de cigarros que está a sua frente, sobre a mesa de mármore, com o cinzeiro do lado direito. Formada em jornalismo, trabalhou na Agência Estado. No fim dos anos sessenta, uma colega que traduzia quadrinhos, e ia se casar, pediu para que Sonia traduzisse os quadrinhos no seu lugar.

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

“Foi assim que comecei. Fui para o Jornal da Tarde, que tinha aquela seção que existe até hoje de tirinhas. Então, passei a me interessar e a estudar o assunto.” Anos mais tarde ingressaria na Universidade de São Paulo num curso de editoração, na cadeira de quadrinhos. Em 1972, a atividade praticamente inaugurou o primeiro curso regular no Brasil. Depois disso, Sonia engatou na publicação de livros, ministrou cursos de graduação e de pós-graduação. Seu primeiro livro foi editado pela Paulinas: Leitura Crítica das

Histórias em Quadrinho; depois publicou O que é história em quadrinhos, para a Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, e O que é filosofia, para a mesma coleção. Sonia levanta do sofá e vai à cozinha. Retorna perguntando se bebo suco de pêssego. Num instante volta com o copo. “Tá geladinho”, diz. Ainda de pé, me pergunta se aceito biscoitos para acompanhar a bebida. “Não. Obrigada.”

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O último desenhista de humor

“Sim, o DaCosta...”, começa antes que eu faça a pergunta. “Conheci o trabalho dele antes de conhecê-lo. A gente se encontrou pela primeira vez acho que no Sesc/Santos. O DaCosta sempre se refere a mim como ‘a holandesa que mora em São Vicente.’” Sonia tem origem italiana e sobrenome holandês devido ao casamento com o jornalista, professor e pesquisador de cultura popular, Joseph Luyten, já falecido. Foi como membro de júri do Salão Internacional de Humor de Piracicaba que conheceu o trabalho de DaCosta. “O que chama a sua atenção nos trabalhos dele?”, pergunto. “Em primeiro lugar, é um trabalho limpo, é um trabalho inteligente e que tem uma mensagem. Não adianta você fazer um bom desenho. É preciso ter uma mensagem, de conteúdo profundo. O DaCosta é desenhista premiado no exterior. Isso quer dizer o quê?”, indaga e responde: “Que ele é capaz de passar uma mensagem. É nesse sentido que aprecio o trabalho dele.” “O que seria um desenho limpo?”

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

“Um desenho limpo é quando um artista com poucos traços consegue expressar aquilo o que quer dizer. Vou te dar um exemplo: vamos supor que você quer fazer um quadro mostrando Santos. Não é preciso desenhar a cidade inteira. Se você puser na tela um elemento representativo da cidade de forma clara e limpa, então Santos estará representada

no

quadro.

Alguém

o

quadro

e

imediatamente sabe que é Santos. O DaCosta tem essa limpeza no traço, diz muito com pouco!” Na visão de Sonia Luyten, Osvaldo é daqueles que anda de bicicleta na rua e se ela não o conhecesse jamais imaginaria que fosse um artista, tal a sua simplicidade e modéstia. “Quando me encontra, o Osvaldo tem aquele jeito de falar que é um barato. Sempre que me vê pergunta: ‘Como vai a terra de Martim Afonso, holandesa?’” No corredor do apartamento, deparei um extenso armário de onde brotavam jornais. São centenas de caixas com milhares de recortes classificados por gênero. Isso não é tudo. De frente para as bancadas e as prateleiras há uma

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O último desenhista de humor

verdadeira biblioteca de arte. Voltamos agora para a sala em que iniciamos a entrevista. Então, Sonia revela: “Nunca tive coragem de pedir a ele, morro de vergonha...” Põe as mãos no rosto: “Meu sonho é que o DaCosta faça um desenho meu.”

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

O homem da cabeça pequena

De 1993 a 1996, DaCosta atuou em Campinas como ilustrador do jornal Diário do Povo a convite do diretor de redação, João Paulo Soares. O jornal vivia uma fase importante de mudanças e ele foi chamado para participar do novo projeto editorial e gráfico. Além de DaCosta, a editoria de arte contava com o caricaturista Dálcio Machado — que hoje é um dos principais colaboradores da revista

Veja — e com os ilustradores Dellova e Bira. O responsável pela implantação do novo projeto gráfico do Diário do Povo foi o professor e artista gráfico, Camilo Riani. “Como o Brasil priorizou nas últimas décadas a charge e a caricatura na imprensa, o cartum acabou sumindo das publicações. O DaCosta é um dos raros artistas que ainda se debruçam sobre a linguagem tão sutil e bela do desenho de humor, com resultados muito bons mesmo”, avalia Camilo, hoje coordenador do Salão Universitário de Humor da Universidade Metodista de Piracicaba. Depois de uma temporada de três anos em Campinas, onde teve a oportunidade de testar novas linguagens como 86


O último desenhista de humor

ilustrador, em 1996 DaCosta retorna com a família para Santos. Logo fica sabendo que o jornal A Tribuna está selecionando currículos de artistas gráficos. É contratado então para trabalhar na editoria de arte com Alexandre Barbosa, o Bar, e Sérgio Ribeiro, o Seri.

A Tribuna impulsionou-o a novos enredos. Lendo um texto do jornalista econômico Joelmir Beting, em que este dizia que “algumas pessoas têm a cabeça pequena para pensar”, DaCosta imediatamente elabora o desenho de um homem com uma cabeça muito pequena e um corpo imenso. O resultado foi impressionante. Todos na redação aprovam. Em casa, ele passa horas e horas desenhando o mesmo homem em contextos diferentes. Ora ele está subindo uma escada para um ponto que dá a lugar nenhum. Agora está com um tambor nos braços, pisando sobre prédios e casas. Em versão colorida, senta-se em uma cadeira no topo de um morro. Com o personagem, Osvaldo extrai situações corriqueiras do cotidiano, entremeando-as com uma aura surrealista, pois a vida não tem sentido. De repente, o homem é um serralheiro no meio da floresta...

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

São oito e meia da manhã de um sábado, o dia está frio e chuvoso. Uma sala na Universidade Santa Cecília está repleta de alunos do curso de Publicidade e Propaganda. Estou ali para entrevistar Alexandre Barbosa, o Bar, que dá aula com DaCosta. Ambos são criadores e curadores do Salão Dino de Humor do Litoral Paulista. O pseudônimo Bar remete a 1988, quando ingressou em A Tribuna. Pergunto: “O que o Ziraldo quis dizer quando denominou DaCosta de ‘o último desenhista de humor?’” “A resposta é simples: porque ele é muito bom nisso.” Bar conta que num primeiro momento em A Tribuna, DaCosta moderou um pouco o humor nos cartuns, receoso de receber um segundo processo. Ele se refere ao processo que DaCosta sofreu em Campinas, quando atuava no jornal

Diário do Povo, por ter feito um desenho considerado ofensivo por um leitor. Depois, segundo Bar, DaCosta foi se soltando e readquiriu a confiança no seu trabalho: “Ele tem um modo muito característico de ver as coisas”, define. A técnica de DaCosta não combina com a rapidez que um jornal diário exige. Em A Tribuna, as ilustrações tinham 88


O último desenhista de humor

de correr contra o tempo e a produção de Osvaldo era mais aprimorada, quase não se adaptava à correria. “Cheguei até discutir algumas vezes porque, às vezes, ele era muito lento. Mas o DaCosta é tão profissional que mergulha inteiramente no trabalho. Fica chateado por ter que fazer as coisas com pressa. Ele não gosta disso, gosta de elaborar”, conta Bar. Alexandre Barbosa salienta a formação de Osvaldo na escola de Belas Artes, em São Paulo: “Por exemplo: o Seri é formado em jornalismo e aprendeu a desenhar por causa disso. Quando me formei em publicidade, eu já gostava de desenhar. Desenhava antes de entrar em publicidade porque a minha paixão sempre foi o quadrinho. Mas a paixão do DaCosta sempre foi a pintura. Então, diferentemente de mim e do Seri, o trabalho dele está diretamente ligado à pintura. Se você perguntar quais são as suas influências ele vai citar os aquarelistas.” “O senhor acha que estão faltando desenhistas de humor hoje?” “Se você pegar as novas gerações que estão surgindo nos salões de humor vai perceber muito mais cartunistas do 89


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

que desenhistas de humor. De certo modo, isso reflete a falta de criatividade. Como faz parte de outra geração, o DaCosta sabe analisar o comportamento social e traz para o desenho essa analogia. Os novos artistas gráficos não sabem fazer isso. O Osvaldo é um marco na questão do desenho de humor porque ele reelabora a crítica feita quando o país estava sob a tutela militar. Do pessoal da época dele, acho que ele é o remanescente. Os outros já estão ultrapassados e os que estão surgindo não têm essa pegada.” “Depois da homenagem do Ziraldo, os artistas gráficos passaram a olhar o trabalho do DaCosta de outro jeito?” “A verdade é que com o tempo os artistas gráficos aprenderam a respeitá-lo. O Ziraldo só enfatizou que o trabalho dele merece respeito. Digamos: você pode até não admirar o trabalho do DaCosta, mas você tem de respeitá-lo porque ele é sincero naquilo que faz. Acho que essa é uma das principais características do trabalho dele. O que ele faz é o que sempre fez. Existe uma evolução, mas não existe descaracterização no trabalho dele.”

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O Ăşltimo desenhista de humor

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

Palhaços azuis

Antes de conhecer DaCosta pessoalmente, o pintor Juracy Silveira descobriu primeiro a sua obra caminhando pelos corredores do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Em 2005, ele estava no evento acompanhado dos amigos Argemiro Antunes — o artista gráfico Miro — e do escultor espanhol radicado em Santos, Luis Garcia Jorge. Foi quando viu algo diferente. Era o desenho de um circo, repleto de palhaços pulando de um trampolim. Juracy para, olha a cena mais uma vez e chama Miro: “Miro, venha cá ver esse cartum. Olha que coisa linda.” Miro reconhece imediatamente o autor do desenho. Vira-se para o amigo e diz: “É o DaCosta. Ele é de Santos” O que atraiu a sua atenção para o trabalho de Osvaldo foi a sutileza na mistura de cores, uns azuis bonitos nas roupas dos palhaços. Nascido em 1937, em São Paulo, Juracy da Silveira e Silva foi morar em Santos ainda criança. Desde cedo, manifestou interesse pela pintura. Começou a pintar 92


O último desenhista de humor

no ateliê de Nelson Penteado de Andrade, um dos fundadores, ao lado de Mario Gruber, do Clube da Gravura de Santos e um dos pintores mais importantes de Santos, falecido precocemente. Como artista, Juracy participou de diversos salões de arte por todo o país. A sua técnica envolve pincéis com tintas acrílicas sobre tela e outros materiais. A mensagem sobre a tela tenta traduzir a alma humana em meio aos desequilíbrios sociais, como ele mesmo define. Por intermédio do professor de jornalismo da Universidade Santa Cecília, Márcio Calafiori, Juracy Silveira veio a conhecer o autor dos desenhos que tanto o impressionara em Piracicaba. Ele relembra: “Conversando com o Calafiori, falei do que eu tinha visto e ele me perguntou se eu queria conhecer o DaCosta. Respondi que fazia questão de conhecê-lo.” Marcaram a data e no dia combinado seguiram no fusca de Juracy para a Rua Bento de Abreu, no Boqueirão. Na ocasião, julho de 2007, DaCosta havia acabado de receber um prêmio em Portugal. Estava com um estojo nas mãos,

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

com vinho e outros objetos trazidos de lá a título de homenagem. Juracy não resistiu e fez a piada: “Corre por aí que os portugueses deram espelhinhos aos indígenas quando aportaram aqui.” Osvaldo volta a olhar atentamente o estojo e diz: “Eles continuam dando espelhinhos.” Um dia depois da inauguração da exposição “Professores Artistas”, do curso de Artes da Universidade Santa Cecília, na Pinacoteca Benedicto Calixto, Juracy retorna. Hoje, o local está tranquilo e o pintor aproveita para apreciar com calma as obras expostas, principalmente as de DaCosta: “Sou apaixonado pela cor. O que me chama a atenção na obra dele é isso. Se me perguntarem se ele é parecido com outro cartunista, vou dizer que não. Eu o acho mais parecido com o Marc Chagall, pela leveza das cores.” Juracy olha os trabalhos mais uma vez e repete: O desenho dele é tão fino! O colorido dele me lembra muito o Marc Chagall, um dos grandes pintores do século vinte. O Chagall é extremamente delicado no tratamento da

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O último desenhista de humor

cor. Não sei a relação que o DaCosta tem com ele, nem conversamos sobre isso.” Falando ainda sobre Osvaldo, Juracy se recorda do último desenho de sua autoria que viu no Sesc/Santos, em homenagem à Copa do Mundo de 2010: “Quando vi o trabalho ri muito. O Sesc ampliou o cartum que ele fez, de um cara vendo televisão com uma antena que ficava em cima de uma árvore. O desenho foi transformado em banner. E como ficou grande, as pessoas tinham de levantar a cabeça para perceber a piada. Ficou curioso, com aquela árvore com azuis bonitos no céu.”

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

Traços duros e geométricos

Sérgio Ribeiro, o Seri, desenhava, mas nunca achou que partiria para a vida profissional como cartunista. Gostava apenas de ver as tirinhas nos jornais. As coisas só comeram a ficar séria aos quinze anos de idade, quando passou a desenhar na classe assuntos referentes à aula. Uma professora de inglês o indicou para prestar serviços à Cooperativa dos Jornalistas de Santos. Na entidade, Seri trabalhou no jornal Preto no Branco. Em 1980, foi convidado também para o Jornal de Mesa. A cooperativa foi o empurrão que faltava para o ingresso de Seri nos salões de humor. No mesmo ano, Seri foi convidado a trabalhar no jornal A Tribuna, a princípio como

freela. Quando ficaram amigos, Osvaldo e Seri viviam se encontrando nos salões. Em 1984, Seri entrou na faculdade de jornalismo e no mesmo ano começou no extinto jornal

Cidade de Santos. Passou lá um ano como desenhista publicitário e depois subiu para a redação. Na época, o jornal não possuía um cartunista fixo e Seri foi o primeiro. Ingressou em A Tribuna em 1987 e saiu em 2001. Criador da 96


O último desenhista de humor

personagem Cacilda, atualmente trabalha no jornal Diário do

Grande ABC, em Santo André. Seri é brincalhão, os desenhos já mostram por si só. Quanto pergunto sobre um de seus favoritos, ele tira da manga um desenho. É uma mulher mais gordinha, ela está de biquíni e deitada. O que chama a atenção são as linhas fortes, meio alaranjadas. Sobre a técnica de DaCosta, Seri é incisivo: “Antes, o desenho do Osvaldo era completamente diferente. Era diferente porque ele trabalhava com edificações, trabalhava com um arquiteto. Naquela época, como não havia computador, ele trabalhava muito com gabaritos, que são aquelas coisas de círculo, fazer elipse, canto arredondado. Era uma régua. Você pegava uma canetinha de nanquim e seguia uma guia.” Para Seri, Osvaldo tinha traços duros, geométricos. Mas isso, segundo ele, influenciou o trabalho artístico dele. “Quando vi de novo o DaCosta, em 1996, eu estava na

Tribuna. Vi o trabalho dele e disse: ‘Não, não, esse aqui não pode ser o DaCosta’. Eu fiquei muito feliz, o trabalho tinha evoluído muito. Ficou leve, mais sutil. Antes, ele tinha um 97


UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

traço pesado, até pela contingência de trabalhar com arquitetura. Mas depois a cabeça dele se soltou. Foi uma surpresa.” Na redação, ele trabalhava quieto. Bom em caricatura, sempre desenhava o pessoal da redação. “A gente ria muito com as caricaturas do DaCosta”, diz Seri. “O desenho dele é caprichado. O ritmo do Osvaldo é de artista, tanto que ele não se deu muito bem em redação. Se você perguntar se prefere trabalhar em redação ou trabalhar em casa, ele vai responder que prefere trabalhar em casa. Ele é meticuloso. Você pode reparar pelas aguadas que faz. Ele está longe daquele cartum que se fazia na década de oitenta, cuja importância estava mais na mensagem do que na forma. A gente se preocupava mais com a piada, de criticar o sistema, do que com o aspecto plástico. E o DaCosta hoje é mais um artista plástico em termos de acabamento do que um cartunista. As sacadas deles são ótimas, sutis. Não vejo nada parecido no Brasil com o DaCosta, em termos de cartum para salão de humor. É muito próprio, é singular o trabalho dele”. 98


O último desenhista de humor

DaCosta passou pelo jornal Folha de S.Paulo de 1987 a 1989. Depois, foi para a Folha da Tarde, onde ficou até 1991, como freela. A empresa Folha da Manhã, foi um período de descobertas. Conheceu cartunistas como Angeli, Alex Argozino, Glauco, Fernando Gonsales, Mário Kano, Orlando. E também os ídolos Paulo Francis e Tarso de Castro, jornalistas da pesada. Também teve trabalhos publicados nas revistas Exame (2000) e Bundas (2002), esta a pedido do próprio Ziraldo, que era o editor da publicação.

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

Árvores secas O jornal Ovelha Negra foi criado pelo artista gráfico Geandré em 1976. Hoje, não há muitos registros sobre a existência da publicação

que

divulgava

caricaturistas,

chargistas,

cartunistas e ilustradores, entre os quais Angeli e Laerte. Basicamente a sua linguagem era de humor. De acordo com a Associação Brasileira de Imprensa, é um dos maiores registros que tem na imprensa nacional de um jornal do gênero. Como não poderia deixar de ser, o Ovelha Negra também sofreu com a censura militar. Geandré tinha uma influencia muito forte do humor espanhol e o aplicou na publicação. O jornal sofria também com a censura econômica.

Constantemente

seus

exemplares

eram

impedidos de chegar às bancas. Por muitas vezes, Geandré teve de se esconder na gráfica por causa das censuras, para garantir que o jornal fosse impresso mensalmente. No total, eram rodados vinte mil exemplares e quinze mil eram de vendas garantidas. Um ano e meio depois de sua fundação, o jornal não resistiu à pressão política e econômica e fechou. 100


O último desenhista de humor

Ainda não conheço Geandré, só por telefone. O mês é julho. Combinamos às dez da manhã, em São Paulo, no bairro Ibirapuera, onde ele mora. Mas cheguei meia hora mais cedo. O porteiro interfona para ter certeza sobre a visita. Não demora e uma loira de olhos azuis se aproxima: “Sou a esposa do Geandré. É que ele disse que você viria às dez horas e por isso ainda não está pronto. Quer esperá-lo lá dentro?” Subimos o elevador. Simpática, a mulher me dá atenção até chegarmos à sala. Ao entrar no grande espaço, ela me acomoda em um dos sofás. “Fique à vontade. Vou sair, mas se precisar chame a empregada.” Os quadros nas paredes atraem a minha atenção, de cores fortes, os traços são finos e alinhados. Tem um desenho: uma árvore sem folhas, em frente a um portão estreito. As cores são quentes e frias. Ao lado, outro desenho chama atenção. Dessa vez, são várias árvores depenadas em uma praça que abriga uma multidão de pessoas. Todos em preto e branco.

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UM PERFIL DO CARTUNISTA DACOSTA

Na mesinha, no centro da sala, tem catálogos de fotos, cartuns e revistas. Todas organizadas em fileira. Geandré começou a desenhar precocemente, aos sete anos de idade, em Santos. Desenhista nato, sua primeira experiência foi em

A Tribuninha, o primeiro suplemento infantil da imprensa brasileira, encartado no jornal A Tribuna. Quando começou a colaborar com o suplemento, Geandré tinha doze anos. Ele passou rapidamente pela imprensa de Santos e foi para São Paulo. No entanto, decidido a se estabelecer fora do país logo se instalou em Barcelona, na Espanha, em 1972. A partir daí, Geandré construiu uma carreira sólida e itinerante, com obras espalhadas, além de Barcelona, por Madri, Milão e Paris. Uma temporada de dois anos em cada uma dessas cidades europeias. No tempo em que esteve fora, colaborou com o Diário de Barcelona e as revistas Paris

Match e Filipachi. Suas obras passaram por Paris, Barcelona, Madri, Zurique, Agência Tusquet-Oslo, Copenhagen, Berlim. Realizou exposições em São Paulo, Ribeirão Preto, Curitiba, Tóquio, Barcelona, Montreal e Paris. Geandré conhece DaCosta há pouco mais de um ano. Mas já conhecia o seu trabalho desde o início da revista Pau Brasil, em 1982. 102


O último desenhista de humor

Depois, Geandré viu novamente o seu trabalho no jornal A

Tribuna. De olho no relógio, os ponteiros apontam dez horas. Como combinado surge no corredor um homem de altura mediana, cabelos brancos escorridos até os ombros, de cinquenta e nove anos. Calças jeans e camiseta vermelha. É o Geandré. Ele estende as mãos. Imediatamente levanto-me do sofá e retribuo: “Olá, Camilla! Ainda não tomei café. Podemos conversar na varanda?” Logo pergunto sobre DaCosta e ele responde: “Trata-se de um trabalho interessante porque o conteúdo do humor dele tem uma tendência para o lado mais gráfico. O humor dele é tanto metafísico quanto surreal. É um trabalho contemporâneo, com uma visão particular para o cartum, para o desenho de humor. Seus desenhos podem ter sido produzidos há anos, mas continuam sempre atuais. Ele é atemporal. É um artista múltiplo, sempre vai ser um cara inovador.” Olhando de rabo de olho, percebo que a empregada se aproxima. Ela interrompe a conversa: 103


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“Mais um suco?” Geandré parece não prestar a atenção no que ela diz e fica em silêncio. O silêncio dura menos de um minuto. Ela nos serve suco de maracujá. “Onde paramos?”, pergunta Geandré. “Falávamos do Osvaldo...” “Ah, é!... Antes eu não era tão abrangente quanto deveria ser em relação ao seu trabalho, mas tenho tido muito contato com ele ultimamente. Tem sido uma companhia muito agradável. É um artista de um caráter, de um profissionalismo extremo. Vejo também no Da Costa um agente muito importante no relacionamento com os cartunistas. Ele faz essa intermediação, essa interação, dá apoio, tem ideias. É muito importante o que ele está fazendo agora com o Salão Dino de Humor do Litoral Paulista, resgatando a memória do Dino, um dos maiores chargistas que o Brasil já teve e de que Santos deveria se orgulhar.” “Será que o Osvaldo não deveria voltar a trabalhar em redação?” “Sinto falta do DaCosta no jornal diário, porque ele é um bom chargista também. Na verdade, os dois mil 104


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cartunistas que existem atualmente no país não são tão cartunistas quanto ele.” Pergunto a Geandré onde estão os seus desenhos. Imediatamente, ele se levanta e aponta o final do corredor: “É por aqui.” Indica-me

um

escritório.

Na

bancada

fica

o

computador. Do lado direto da porta tem uma estante repleta de livros, dos mais diversos tamanhos e cores. Também ao lado da porta tem um desenho de uma mulher. Ele diz: “É a minha mulher. É um retrato que ela fez em Roma.” Em cima do sofá, tem uma grande pasta. Ele a mostra cuidadosamente. Abrindo a primeira página há um desenho com um fundo azul escuro, com um lápis gigante nas cores amarela e vermelha, pintando letras e riscos. Sobre o lápis, um pequeno homem o conduz. De novo, Geandré folheia a pasta. Faz questão de mostrar um a um. Diferentemente do anterior, o desenho agora é o de uma mulher deitada de lado sobre um sofá vermelho, vestida de azul, na mesma entonação do céu, só que mais claro. Noutro desenho, a 105


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mesma mulher está apoiada a uma mesa, com um livro aberto. Parece retratar a imagem de uma só pessoa, em diferentes ângulos. Virando mais ainda a pasta, agora o cartum mostra uma rua. Prédios altos e homens pequenos. E em primeiro plano, mais uma vez ela aparece — a árvore. Noutro desenho, o plano grande de um prédio, minuciosamente detalhado. Há a proclamação de cada detalhe, até a bandeira pendurada sobre uma das janelas, que possui traços finos. Quase todos os desenhos são preenchidos no branco da folha contrastando com o preto do lápis. Há só uma placa vermelha, a de um sorriso proibido. No desenho, quase que subliminarmente, Geandré não abre mão da pequena árvore. Ele parece ter uma forte identificação com o outono. As árvores secas aparecem em primeiro plano, às vezes ao fundo. Mas sempre então lá. Em 2009, DaCosta convidou Geandré para abrir o Salão Dino de Humor. Agora, na dissertação de mestrado Osvaldo está resgatando a obra do amigo e a vida breve do jornal Ovelha Negra, outra de suas maiores influências como artista gráfico. Geandré diz: 106


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“Foi uma surpresa e tanto quando ele me procurou e disse: ‘Geandré, o seu trabalho foi uma das maiores referências para mim.’”

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Sketchcrawl

O sketchcrawl é um evento mundial em que todos saem de casa no mesmo dia e horário para desenhar. É uma socialização que ressalta a criatividade e a espontaneidade, retratando desde situações corriqueiras a um detalhamento da paisagem. Foi criado por Enrico Casarosa, que depois de tomar proporções continentais nos Estados Unidos e Canadá espalhou-se pelo mundo. Em Santos, o evento completará dois anos em janeiro de 2011. Organizado pelo próprio DaCosta, os desenhistas santistas já passaram pelo Museu de Pesca, Emissário Submarino, Praça Mauá, Praça da Bandeira e Boqueirão. Às catorze horas, o sol parece se perpetuar sobre as nossas cabeças. Trinta e um de julho. Sábado, muito calor. Muito mais do que a meteorologia previra. Em frente ao Museu de Pesca de Santos, já consigo visualizar o casal entrando. Ele está de regata azul e ela de camiseta branca e bermudas.

Mais

dois

casais

atravessam

a

avenida

movimentada da orla. E seguem na mesma direção. Aos poucos os participantes vão se identificando com cada 108


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espaço do local. Uns preferem o gramado verdinho, outros se acomodam no banco próximo ao palacete. Natália está do outro lado, se junta ao casal no banco. Já Osvaldo se isola no canto do gramado. Encosta-se na parede e tira da mochila uma garrafa e um copo descartável. As mãos já seguram um pincel e uma tigela de tinta. Nas pernas, já deixa na posição correta o caderno gráfico. Pega o lápis e começa a produzir. Riscos repetidos e finos dão forma ao desenho talentosamente discreto. Ele olha para a frente e confere. Olha mais uma vez lá adiante. Confere de novo se os traços estão coerentes com o que vê. Do outro lado, Natália tira da bolsa o seu caderno. Ela também desenha. Aqui cada um reproduz o que acha mais interessante, não existe uma regra a seguir. Apenas o que o instinto manda. “E aeeee, professor”, cumprimenta um aluno. “Oi, tudo bem?”, seus olhos se concentram no desenho. O garoto permanece parado à sua frente: “Pode escolher onde quer sentar”, diz DaCosta.

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O garoto segue em direção ao gramado e faz igual ao professor, prefere sentar-se sobre o chão fresco. Para um desenhista parece que vale mais ficar à vontade num lugar tranquilo e isolado, do que se acomodar num local mais confortável. Mais à frente, Natália começa a desenhar. Ela abre o caderno e de um outro ângulo faz os desenhos. Ela ri bastante com a moça de traços orientais ao seu lado. Ambas parecem se dar muito bem. Enquanto isso, DaCosta já começa a misturar as tintas na paleta. Ele conversa comigo, mas parece não prestar muita atenção no que digo. As respostas são meio aleatórias. Como: “Ah, é, sim.” Às vezes, me proponho a perguntar mais de uma vez e exigir respostas afirmativas: “Você era hippie?”. “Tive uma fase de contracultura. Eu gostava do movimento.” Osvaldo tira da mochila um estojo de aquarelas, as mais diferentes cores. Ele as mistura na tigela com muita água. A água estimula a leveza da cor. 110


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“Vai pintar, Osvaldo?” “É, vou”. O formato está completo. O desenho já pode ser claramente visto. É o Museu de Pesca, que se assemelha a um palácio. Repleto de janelas. “Lindo, hein, DaCosta?” “Ah, é? Gostou?” “Osvaldo, vai fazer o que agora?” “Vou fazer o acabamento.” “É? E como?” Ao conversar, percebo que ele faz um mistura de marrom ao amarelo, em contato direto com a água. “Assim”, mostra ao pincelar no caderno gráfico. E depois, retomando o assunto da contracultura e dos hippies: “Uma tia por parte de mãe, a Conceição, frequentava muita a minha casa quando eu era novo. Lembro que quando ela apareceu em casa, em 1970, com aquele cabelo, parecia a Janis Joplin. O cabelo dela era grandão e colorido. Eu tinha catorze anos.” “Então,

você

passou

a

conhecer

melhor

o

movimento?” 111


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“Foi porque ela apareceu lá em casa com aquele cabelão. Quando a gente é adolescente começa a ser influenciado e a grande influência que tive foi dessa prima. Então, essa fase marca muito a gente.” “Qual a influência que ela teve sobre você?” “A de ser mais libertário e criativo, né? Naquela época era tudo novidade. O legal da minha tia era essa cultura hippie, ela se produzia. Fazia roupas e vendia. Ela

me

ensinou a manchar uma camiseta. Aí eu manchava, tinha algumas que eu até desenhava. Eu fazia desenhos malucos. Era um barato... Ela aparecia em casa com aquele baita cabelão.” Aí, de repente, ele muda de assunto, uma de suas principais características, emendar um assunto no outro, dar uma volta inteira e então retomar o tema que gerou a conversa, um circuito tonto e elétrico. “Sabia?... Segunda-feira agora vou à Associação dos Ilustradores do Brasil?” DaCosta disse associação, mas na verdade é Sociedade dos Ilustradores do Brasil. Os desenhistas se filiam, pagam uma taxa anual e têm apoio jurídico, caso 112


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tenham algum problema com as ilustrações. É uma entidade sem fins lucrativos, concebida inicialmente a partir do encontro de ilustradores, realizado em agosto de 2001. A Sibi promove interação entre os desenhistas. Agencia

workshops, palestras, exposição, concursos anuais com premiação. Osvaldo usa o pincel e desenha as cores verdadeiras do museu. Ele as espalha minuciosamente. Contorna com a canetinha os traços que agora estão cobertos pela tinta. Ele diz: “O Geandré disse que vai vir.” Às dezesseis horas, o sol começa a dar trégua. A luz não ofusca mais os olhos de quem ousa olhar para o alto. Não demora muito para o cartunista Geandré entrar, olhando para os lados. “E o DaCosta?” Osvaldo levanta rapidamente e o cumprimenta, com as mãos ainda sobre o desenho úmido. E ele mostra a Geandré. “Sketchcrawl”, aponta. Natália o vê e corre para cumprimentá-lo: 113


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“Oi, Geandré.” “Oi, Natália.” Os três se reúnem e o papo começa. Minutos antes, tive de sair para tomar uma água. A voltar vejo-os conversando. Agora de mãos vazias DaCosta gesticula entoando um assunto que parece interessar bastante Geandré. Natália retorna ao banco, onde estava com os colegas. Ela aproveita para bater fotos. Na varanda do Museu de Pesca tem gente espalhada por todos os cantos. “Como vai a terra de Benedicto Calixto?”, me pergunta Geandré. “Vai bem”, respondo. “Como é em Itanhaém?” “Como assim?” “A terra de Calixto.... Tem lá alguma casa de exposição?” “Tem sim, a Casa do Olhar.” “E de homenagem a Calixto?” “Tem lá uma escola estadual leva o nome do pintor.” A voz de Natália se acentua ao chamar os participantes do sketchcrawl para a última foto do evento: 114


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“Pessoal, vamos tirar uma foto?” Natália sai recolhendo os participantes: “Vamos?”, diz ela. “Vamos”, pede mais uma vez. O professor do curso de jornalismo da Unisanta, Marcus Vinícius Batista, chega acompanhado da filha, a tempo para se juntar ao grupo e sair na foto. Todos se encolhem no banco, metade em pé e outra sentada. “Mais uma”, pede Natália. “Essa vai para o site do

sketchcrawl.”

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O professor e as palavras

Após sair do jornal A Tribuna, Osvaldo recebeu em 1998 o convite para ingressar como professor na Universidade Santa Cecília. O pedido veio do amigo e colega de profissão, Alexandre Barbosa. Ele aceitou de imediato. Afinal, seria uma experiência nova, trabalhar como professor. São dezenove horas. Aos poucos, os alunos chegam um a um. Na mesa do professor, Osvaldo apoia o material. Hoje, a aula é de capa. Os alunos vão aprender a costurar o caderno gráfico. Os alunos parecem gostar de DaCosta e ele gosta do que faz. Passa de mesa em mesa: “Professor!”, chama a aluna de cabelo e vestido góticos. Ele explica: “Os papéis da semana passada serão colados no caderno. Hoje vamos costurar e pintar o que falta.” Ele tira da sacola a aquarela branca: “Professor”, a aluna continua. “Quem está me chamando?” 116


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Ele olha para frente e a garota o chama com a mão. Com os óculos apoiados numa cordinha sobre o pescoço, Osvaldo olha fixo para a menina. “Aqui, aqui”, ela diz. Como professor, Osvaldo não costuma usar roteiro, a programação das aulas é espontânea. “Vamos continuar o que não terminamos na última aula.” “Professor, professor”, outro chamado. Imediatamente vira-se. “Quem me chamou?”. Um aluno magro, de olhos arredondados, o encara do outro lado: “Eu?”, estende o braço. Ao pegar o caderno gráfico do garoto, Osvaldo o incentiva: “Você tem talento.” A sala está cheia. Todos proclamam pelo professor DaCosta. “É assim”, ele vai explicando.

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Osvaldo é fácil de se atrapalhar, não consegue se concentrar em duas coisas. Ou desenha ou fala. Na aula, procura passar nas mesas de todos os alunos, tentando sempre ajudar. No fim da aula, ele repete: “Semana que vem tem skatchcrawl no Museu de Pesca!” Atualmente a preocupação de DaCosta é com o mestrado: “Tenho que fazer uma resenha desse livro aqui”, me mostra. Ele lê e rele um texto estampado na tela do computador. As páginas estão sublinhadas: “Uhhh”, resmunga. “Tenho que fazer isso.” Não é a primeira nem a última vez que ouço essa frase. Sempre que tem algo importante, DaCosta não consegue se concentrar e repete a mesma coisa várias vezes ao dia. “Caramba, tenho de fazer a resenha” Sentado na cadeira do computador, ele tira da gaveta um caderno. Folheia as páginas. Uma, duas, três. Ele diz: 118


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“A Natália me ajudou a fazer isso aqui. É difícil...aahhh... A Natália é uma garota muito inteligente. Tá me ajudando no mestrado.” Vira-se para o computador e checa os e-mails: Renato Alarcão... Você precisa falar com ele. Ele é um artista muito legal.” Osvaldo tenta fazer tudo ao mesmo tempo. Deixa aberto a caixa do e-mail e volta a ver os desenhos. O caderno gráfico em cima da mesa está semiaberto. Ele acabara de pintar uma página em branco e espera secar. Perto de mim, ele pega de volta o caderno e o folheia novamente. Depois de olhar por cinco minutos o caderno em silêncio, mais uma vez faz sinal com a boca: “Ihhhhh.... É complicado. É difícil fazer isso aqui. Falei para o Geandré que esse ano é mais sossegado, mas no ano que vem não vou sair do pé dele”. Ele continua o assunto: Olha isso. Vê o que acha?” Ele não é bom com as palavras. Faz confusões quanto a datas e não consegue se concentrar num só assunto. Para tirar dele uma resposta exata é preciso perguntar mais de 119


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uma vez. Entre uma conversa e outra, o assunto toma outros rumos. Apontando para quadros e gráficos coloridos na parede, DaCosta se distrai: “Olha os quadros da Pinacoteca”, aponta. “Esse aqui vai para o Márcio”. “Sábado agora vou à Gibiteca. Vou levar a exposição Dino para lá”. Osvaldo fala bastante do tempo em que trabalhou na imprensa, mas se perguntado sobre uma possível volta à redação, se desvencilha: “Não. Eu gosto de ser professor”. Nas mãos, as ideias surgem do nada. Osvaldo aponta para o desenho que fica acima do computador. O retrato mostra várias pessoas tomando sol de frente a muitos aquários no espaço, como se estivessem numa praia, só que o mar está preso dentro de uma caixa de vidro, a galeria da água. “Esse desenho foi o seguinte. Sonhei que estava numa sala e nela havia vários aquários e as pessoas usavam trajes de praia”.

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Ele agora se esforça, quer aprender a escrever, pois a vida toda só se dedicou ao desenho. O mestrado é a sua grande oportunidade. Aos poucos, Osvaldo da Silva Costa começa a pegar o jeito com as palavras.

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O Ăşltimo desenhista de humor

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Livro teste  

teste, teste

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