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Cidades Satélites da ordem ao caos

Geórgia Caroline de Albuquerque Araújo Jullianno Lopes da Silva Vicente


Resumo As cidades-satélites são regiões sem autonomia política, localizadas no entorno de Brasília, que contam com serviços básicos de educação, saúde e lazer. Surgiram juntamente com a construção da capital do Brasil para abrigar os operários que trabalhavam na mesma, dessa forma, são também chamadas de cidades-dormitório, mas ao longo do tempo foram também sendo ocupadas por imigrantes que iam para Brasília na tentativa de construir seus sonhos e se deparavam com a realidade de não terem condições de morar no plano piloto e nem serem aceitos na capital. Ao todo, são 18 cidades-satélites e entre as principais estão Taguatinga, Ceilândia e Sobradinho. Eram cidades que, assim como Brasília, deveriam ter sido projetadas, mas o crescimento delas foi rápido e desordenado, por isso, enquanto Brasília conserva a ordem e a beleza, restou para as cidades-satélites a frustração e o caos. Palavras-chave: cidades-satélites, exclusão, crescimento, caos. Abstract The satellite-towns are regions without political autonomy, located in the surroundings of Brasília, which count with basic services of education, health and leisure. They emerged along with the construction of Brazil’s capital to provide housing for laborers working on it, thus are also called dormitory-towns, but over time they have also been occupied by immigrants who came to Brasília to try to build their dreams and were faced with the reality of not having conditions to live in the pilot plan and not being accepted in the capital. Altogether, there are 18 satellite-towns and among the main are Taguatinga, Ceilândia e Sobradinho. They were cities that just like Brasília should have been projected, but their development was fast and disorderly, so while Brasília preserves the order and beauty, was left to the satellite-towns the frustration and chaos. Keywords: satellite-towns, exclusion, development, chaos.


Introdução Nesse ano, que marca cinqüenta anos de concretização do sonho de JK, voltam-se os olhares para as maravilhas que Brasília nos oferece e, como estudantes do primeiro período de arquitetura da UFPB, esse olhar é para nós ainda mais encantador. Brasília completou 50 anos no dia 21 de abril de 2010 e essa foi a motivação para a elaboração deste trabalho. A escolha do tema reflete o interesse de mostrar que a construção de Brasília também resultou em aspectos negativos, algo que não pode ser esquecido ou encoberto pelas monumentalidades da capital. O fato é que todos os defeitos que Brasília conseguiu evitar através de seu projeto, foram deixados para as cidadessatélites. Portanto, o trabalho retrata o surgimento e o desenvolvimento desenfreado dessas cidades no entorno de Brasília, com o objetivo de esclarecer como, do crescimento ordenado da capital, passou-se ao caos presente nessas cidades. Para isso foram realizadas pesquisas busca de artigos, históricos, relatos, trabalhos e imagens que pudessem contribuir para a consecução deste trabalho, bem como foram elaborados fichamentos para reunir citações importantes que o enriquecessem. O que são? Segundo Neio Campos, do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília, as cidades-satélites são regiões administrativas localizadas no entorno de Brasília que formam uma complexa periferia. Ao todo, são 19, criadas por lei no DF e Brasília é uma delas, sendo as maiores, Taguatinga, seguida de Ceilândia e Sobradinho. Elas não são politicamente autônomas do DF e são dirigidas por administradores nomeados pelo governador local, por isso, não são municípios. Originalmente, foram planejadas para serem núcleos urbanos e para funcionar como cidade-dormitório. Sendo assim, as cidades-satélites geralmente não têm indústrias e contam somente com serviços básicos de Educação, saúde e lazer.


Histórico Para que houvesse um conhecimento quantitativo da população presente nessa região, coletamos dados presentes no site do IBGE, referentes ao Censo Demográfico de 2000, onde a população de Brasília é de 198,422 mil habitantes e a do DF é de 2,05 milhões de habitantes. Esses números já refletem o quadro presente no local, onde menos de 10% da população vive em Brasília e os outros 90% se aglomeram nas cidades-satélites. Essa distribuição populacional pode ser entendida através de um estudo feito por pesquisadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) sobre a ocupação territorial do DF, o processo de periferização, que em outras grandes cidades se deu por pressões do mercado imobiliário, no DF foi instituído pelo próprio governo. "O processo de implantação dos núcleos urbanos foi extremamente segregacionista desde a sua origem", afirma Frederico de Holanda, um dos responsáveis pela pesquisa. O estudo revelou que, segundo estatísticas da Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central (Codeplan), desde a construção da capital, a população do DF é maior nas cidades-satélites do que no Plano Piloto. Milhares de migrantes que foram para a região trabalhar na construção da capital, se alojaram, na época, nas imediações da Cidade Livre, atual Núcleo Bandeirante. “As cidades-satélites eram formadas a partir da pressão exercida pela população migrante dos trabalhadores menos qualificados (ligados, sobretudo, à construção civil), que possuíam como perspectiva de moradia apenas as proximidades dos canteiros das obras, seja nos seus alojamentos ou nas denominadas „invasões‟.” (CAMPOS, 1998, p. 100)

Em 1958, uma parte dos operários foi convencida por assistentes sociais a se mudar para os loteamentos da primeira cidade-satélite que surgia: Taguatinga, a 20 km do Plano Piloto. Pouco mais de uma década depois, com a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI) criada pela administração de Brasília, surgia Ceilândia. "A remoção dos moradores de várias favelas deu origem a essa cidade", conta Holanda. Existem relatos sobre essas remoções: “Não foi fácil a remoção dos cinco mil homens. Ernesto Silva, subindo num caixote, falou a multidão. Mostrou-lhes a planta do que seria a nova cidade-satélite, expondo-lhes a vantagem de já se instalarem em seus próprios lotes, onde, mais tarde, poderiam construir a casa definitiva. Prometeu que a Novacap se encarregaria de dar transporte a todos e que construiria os barracões provisórios, onde iriam alojar-se.” (OLIVEIRA, 1975, p. 175)


O caos A verdade é que, assim como Brasília, essas cidades-satélites também estavam programadas para serem projetadas, mas o crescimento desenfreado fez com a ordem se transformasse em caos, situação que hoje domina o cenário das cidadessatélites. Como exposto por Adriano Martins Pinheiro “ver Brasília pela televisão é muito mais confortável e bonito, pois quase sempre vemos o Palácio do Planalto a Explanada dos Ministérios e grandes construções com as características de Oscar Niemeyer. No entanto, ao passar pelas cidades-satélites e observarmos as dificuldades que aqueles moradores têm em seu dia-dia é simplesmente frustrante. O lugar é seco por sua natureza, não possui asfalto na maioria das regiões, não tem ônibus por perto, não tem infra-estrutura, postos de saúde e hospitais são precários, não há policiamento, não há indústria, enfim, não há condições de se ter qualidade de vida digna”. Devemos confessar que em outro estado encontra-se Taguatinga, Plano Piloto e outras localidades, pois onde há moradores de alto poder aquisitivo, há qualidade de vida diferenciada. Lá, estes não têm tantas dificuldades e estão alheios aos problemas da periferia.

Considerações finais Diante disso, fica clara a gravidade em que se encontram as cidadessatélites, totalmente ofuscadas pelas monumentalidades e destaques da capital. Enquanto Brasília conserva a ordem, para essas regiões restou o caos, e é através do estudo do processo histórico de surgimento e ocupação dessas cidades, como foi elaborado neste trabalho, que se torna possível entender como se chegou a essa situação, recurso que pode ser aplicado não só para essa problemática, mas como para problemáticas semelhantes. Então, resta a espera por ações que visem o melhoramento dessas cidades, afinal, elas também estão entrelaçadas aos cinqüenta anos de história de Brasília e não merecem o descaso que recebem.


Referências GONCALVES, Paula, As cidades-satélites de Brasília: registro histórico. Brasília: PIP, 2002. MONTI, Estevão, As veredas do grande sertão-Brasília: ocupação, urbanização e resistência cultural. Brasília: UnB, 2007. http://www.comciencia.br/reportagens/cidades/cid16.htm Data de acesso: 17/05/2010 http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/default_censo_2000.shtm Data de acesso: 17/05/2010 http://revistaescola.abril.com.br/geografia/fundamentos/cidade-satelite-427079.shtml Data de acesso: 13/04/2010 www.webartigos.com/articles/4783/1/Apartheid-Das-Cidades-satelites-Em-Brasilia/pagina1.html Data de acesso: 11/04/2010


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