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Sobre si lêncios e resistências

HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

HERLENE SANTOS


Sobre si lêncios e resistências

HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

HERLENE SANTOS


Faculdade Cearense - FaC Curso de Comunicação Social - Jornalismo Projeto Experimental 2016 Livro-reportagem: Sobre silêncios e resistências: histórias de violência contra a mulher Acadêmica: Herlene Santos Professora Orientadora: Klycia Fontenele Projeto Gráfico e Diagramação: Thiago C. Bezerra (@thijoey) Capa: FULANA Correção ortográfica: FULANA


HERLENE SANTOS

Sobre si lêncios e resistências

HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


Dedicatória

À minha mãe, por acreditar por ela e por mim À minha sempre preciosa avó, por ter sido nossa luz À minha tia Lia, por me mostrar quão bela é a braveza de uma Bertulino À nossa eterna Rosilane, por tantos anos de cuidados À Dimunda, por ser a mãe de coração mais doce que eu poderia ter À tantas outras mulheres de luta GUERREIRAS!


“[...] É que as mulheres tenham a liberdade de experiência, possam divergir dos homens sem receio e expressar claramente suas diferenças [...] que todas as atividades mentais sejam incentivadas para que sempre exista um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem com a mesma liberdade dos homens e, como eles, não precisem recear o ridículo e a condescendência.” Virginia Woolf!1 1

Do livro Profissões para mulheres e outros artigos feministas, de 2013.


Sumário Dos tortuosos caminhos para se fazer livro........... 13 Sobre silêncios e resistências, prazer!.................... 17 Capitulo I – “Ele nunca bateu em mim, nunca chegou a bater em mim, porque minha mãe nunca deixou”............................................................... 25 Capítulo II – “Porque não era correto, entendeu? Então me pergunto por que eu deixava, entendeu?”............37 Ser mulher: ser uma em várias....................................45 Bibliografia Consultada....................................... 49 Anexo – A Lei Maria da Penha em cordel............ 51


SOBRE SILÊNCIOS E RESISTÊNCIAS: HISTÓRIAS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Dos tortuosos caminhos para se fazer livro

“Sobre silêncios e resistências: histórias de violência contra a mulher” nasceu de uma sentença maior do que qualquer outra coisa em mim: eu sempre quis ser livro. Não sei explicar este infinito e insaciável desejo de maneira, minimamente, racional e, tempos atrás, não fazia ideia de quando o primogênito viria forte e saudável ao mundo. Não existiam planejamentos. Mas então ele veio, me arrebatando e eu, sorrindo, como qualquer outra mãe orgulhosa da cria, observo o que gerei com tanto amor. Vivo. Meu. Nosso. O primeiro. Porque escrever é um parto – já diziam por aí vários também amantes dessa arte – e eu nunca nutri nenhuma dúvida sobre isso. Escrever é sentir dores agudas por longos meses. É ver, aos pouquinhos e vagarosamente, uma coisinha crescera partir de você e se encantar cada vez mais com tamanha evolução digna da mãe natureza, das ideias, do poder do conhecimento. Escrever é também sofrer por não conseguir pensar em outro assunto que não seja na sua gestação. É se dedicar. Se empenhar. É, acima de tudo, e em razão do rebuliço de emoções que a cria faz com você desde o princípio, ter a

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DOS TORTUOSOS CAMINHOS PARA SE FAZER LIVRO

chance de se transmutar em alguém melhor do que você era antes de todo esse processo começar. Como mulher que nasceu para parir livros, não há uma partícula sequer do meu estranho (excessivo) ser que não pulse para se fazer presente através da escrita. As palavras delineadas no papel são a expressão plena que encontrei para conversar com o mundo, dizer o que sinto, penso e acredito ou, simplesmente, para falar comigo mesma e jamais esquecer quem sou aqui dentro. Entretanto, não se trata de algo que inicia e se finda comigo. Escrever vai além do egocentrismo do próprio ato da escrita. Pode soar demasiadamente romantizado, mas cedo, eu aprendi que depois de pronto e lido por outras pessoas, o texto não é mais somente meu. Não dizem que a gente não cria os filhos para a gente, mas para o mundo? Pois então. Parir um livro não é fácil como parece. Não é “só escrever” e pronto. Ou seria “e ponto”? Até porque escrever nunca é “só”. Você chega a questionar se será capaz de ir até o fim. E eu sempre achei que era muito superestimada para tal. Há quem chame de talento. Eu não seria pretensiosa assim. Mas digo que escrever é o que sou e é o que me salva de todo esse caos de existir. É aquela válvula de escape tão necessária. Em especial, para o nascimento deste meu primeiro filho, não havia como separar “meu eu pessoal” do “meu eu acadêmico”. A Herlene Santos, sensível demais, cheia de opinião, aspirante à escritora e feminista petulante é exatamente a mesma Herlene Santos graduanda de Jornalismo. Logo, busquei unir tudo isso, mais alguns ingredientes e fazer um Trabalho de Conclusão de Curso que me trouxesse mais do que tão somente um diploma pendurado na parede. Mesmo sendo obrigada a lidar com o revirar de olhos de muita gente, eu segui com esse desafio de me fazer livro para também me fazer jornalista. Tanto no decorrer da minha vida escolar quanto na faculdade, a maioria dos meus professores sempre elogiou minha “facilidade” para escrita (chamarei assim na falta de uma denominação melhor).


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Não estou tomando para mim essa pretensão de escrever maravilhosamente bem, até porque meu nível de perfeccionismo é altíssimo. Quem me conhece de perto, sabe que muitas vezes até me cobro mais do que deveria e, consequentemente, sofro com minhas próprias cobranças sobre nunca conseguir conceber uma escrita boa o suficiente como eu acredito que poderia. Mas eu também nunca desisti. Acredito que até nisso o título deste meu primogênito é um reflexo: Escrever é silenciar e também resistir. O processo criativo demanda períodos em que a gente, por mais que se esforce que “se esprema”, tentando escrever qualquer palavrinha que seja, nada sai. E só o que me emerge é frustração e frustração. Mas sou daquele grupo de adeptos que deixam as coisas fluírem, como um rio e a correnteza natural de suas águas. É isso. Escrever é deixar fluir. Deixar correr. E acima de saber quando silenciar, praticar o ato de escrever também me ensinou a resistir. Cada indivíduo encontra a sua maneira de lutar e eu encontrei a minha. Não que isso represente viver em guerra. Mas lutar no sentindo de não se manter omisso diante das atrocidades que acontecem ao nosso redor. Assim, eu resisto, eu luto através da escrita. Alguns podem afirmar que isso não é nada. Problema deles. Mas conformismo é que não resolve coisa alguma e tanto as redes sociais, como as ruas, já estão repletas de conformados e eu não seria mais uma nesta multidão. A revolução também será através da escrita; ou não será?! Então chegado o dia. Sonho alcançado. Mesa de parto. Complicações. Hemorragias. Sangramentos incessantes. Horas e mais de horas de trabalho. Não teria conseguido sozinha. Equipe de apoio sempre à disposição. Sempre quis ser livro e agora me pari livro.

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Sobre silêncios e resistências, prazer!

Este livro-reportagem não tem a intenção de ser só mais um livro sobre violência contra a mulher. Livros assim já existem vários, jogados e esquecidos em prateleiras empoeiradas. Já este, em especial, pretende marcar você de alguma forma. Trata-se de um livro que clama para ser lido. Ele precisa, nós precisamos. Afinal de contas, trazer tamanha temática, não há como negar, é algo que envolve altos níveis de uma complexidade não tão simples quanto se apresenta. E também não podemos continuar banalizando a violência contra a mulher e concebendo esta como coisa natural e inerente à nossa condição humana. Letras de músicas, propagandas publicitárias, programas de TV, ditos populares...O senso comum reverbera que a violência contra a mulher em nossa sociedade é “normal”. Mas chega de aguentarmos caladas tamanha disseminação de ódio contra existência digna das mulheres. Gritemos! De tal maneira que o discurso do pessoal é político se faz tão necessário como um dos nortes que sigo fielmente nesta produção. A linha editorial deste produto voltou-se para a violência doméstica e familiar, visto que a violência contra as mulheres compõe um espaço

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bem mais amplo do que poderia ser tratado tão somente nestas páginas. Ainda sim, o assunto já foi discutido inúmeras e mais inúmeras vezes, e eu não queria fazer o mesmo: falar como já foi ruminado aos montes (apesar de muitas ainda não terem entendido coisa alguma). Priorizei certos pontos que fossem capazes de trazer o tom diferencial para esta obra. O principal deles é a perspectiva feminista em larga escala que este trabalho contém. Por minha parte, das personagens e demais entrevistadas, que também acabam entrando como personagens no engodo deste enredo. A decisão foi que todas as envolvidas neste processo de construção de conhecimento fossem mulheres. Aqui estamos. Não falo sozinha. Falamos juntas. O protagonismo é fundamental quando se busca defender uma causa, lutar por uma ideal. Como já explicitado, este livro-reportagem não é só um livro, mas uma ferramenta de batalha. Pois antes de qualquer coisa, precisamos, urgentemente, reunir vozes que ousem lutar, esbravejar, questionar a ordem vigente. Até porque a questão da violência contra a mulher no Brasil é norteada pelo senso comum que culpa as próprias mulheres pelas agressões por elas sofridas, como já foi identificado no estudo realizado em 2014 pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que den3.810 entrevistados, 65% afirmaram concordar com a frase de que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Logo, há de se questionar: o que tamanha constatação nos revela? Que o brasileiro segue perpetuando a ideia que a vítima de violência doméstica é quem detém a culpa do que ocorre com ela própria? Mas qual seria a razão para que isso seja assim transmitido no imaginário social? Estariam os indivíduos atuando como santos inquisidores uns dos outros? Mas lembremos que a violência, diferente do que se transmite no boca a boca, não significa apenas a agressão física. Violentar uma mulher está para muito além de deixar marcas físicas em seu corpo. O assassinato, infelizmente, como estágio maior e mais doloroso de tudo pelo qual aquela mulher passou não se fez da noite para o dia.


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A violência doméstica ocorre em níveis (física, sexual, psicológica, patrimonial e moral). Uns e outros em menor ou maior escala, mas todos igualmente alarmantes. Todas que passam por terrível experiência merecem amparo. O que se busca expor neste livro-reportagem é que a violência física contra a mulher não é a única possível, muito menos que o parceiro afetivo é o único agressor existe ou que apenas um tipo específico de mulher que pode passar por isso. Autoras e estudiosas – Teles, Melo e Saffioti, por exemplo – corroboram com a ideia de que a violência doméstica não escolhe classe social, faixa etária, religião nem nada parecido. Este mal se alastra por qualquer espaço. Com base nisto, explanamos que até mesmo mulheres que se autodenominam feministas podem sofrer com violência doméstica, pois estas são como qualquer outra mulher, não há escudo protetor, nenhuma de nós está a salvo. Este livro-reportagem é, majoritariamente, de depoimentos (primeiros e segundos capítulos), pois sua essência está ancorada nas histórias de vida de duas mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, que relatam suas experiências, reconstituindo fatos já ocorridos, sob a ótica no qual foram, infelizmente, as protagonistas. Mas ele é também um livro-reportagem-ensaio (primeiro capítulo), haja vista que por se colocar com uma dinâmica feminista, almeja evidenciar a visão desta repórter-escritora, buscando fazendo com que o leitor sinta-se instigado o suficiente para compartilhar de seus pensamentos e ideais, afim de, a partir deles, formular sua própria compreensão em torno da temática. Por fim, este livro de cunho jornalístico e literário configura-se como livro-reportagem-viagem. Não que ele trate de alguma região geográfica ou algo do tipo, mas, por numa concepção moderna, realizar uma verdadeira viagem pelos meandros da temática abordada, não com o objetivo de ser instrumento que resulte no fim das argumentações, afirmações, discussões e diálogos, mas que possa passear e mostrar ao leitor que nenhum assunto é superficial e rasteiro.

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É, por isso, um livro que se presta à abordagem em si do real – consome-se no seu próprio nível, é satisfatório naquela medida – e que ao mesmo tempo lança novas indagações. Funciona como uma espécie de introdução básica a certos temas ou de síntese de questões. (LIMA, 2009, p. 300).

Assim, “Sobre silêncios e resistências: histórias de violência contra a mulher” reúne conceitos básicos e cruciais para se compreender, minimamente, a problemática exposta. Não haveria como falar profundamente sobre cada detalhe, mas aqui se procura abarcar os tópicos mais gerais para que todos os interessados possam sentir que o assunto foi acolhido de forma honesta e condizente com a realidade brasileira e fortalezense que vivenciamos.


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“[...] A receita cultural Do marido, da família Cuida, cuida da rotina Só mesmo rejeita Bem conhecida receita Quem não sem dores Aceita que tudo deve mudar Que um homem não te define Sua casa não te define Sua carne não te define Você é seu próprio lar Que um homem não te define Sua casa não te define Sua carne não te define [...]” (Triste, louca ou má - Francisco, El hombre)

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“[...] A culpada, em todos os lugares, Violentada, por gestos, palavras, e olhares Alvo do mais puro preconceito Já que tá ruim, ela que não fez direito! Objeto de satisfação do prazer Desapropriada da opção do querer Agredida em sua própria residência Julgada sempre pela aparência Numa situação histórica e permanente, A sociedade que se faz indiferente Questão cultural, força corporal, Visão moral, pressão mental Levanta sua voz e me diz qualé que é É embassado ou não é... Ser mulher!? (Se eu sou mulher estou pronta pra lutar) (Se eu sou mulher eu vou sempre avançar) (Se eu sou mulher ninguém vai me parar, Ninguém vai me parar!) [...]” (Flor de Mulher - MC Luana Hansen)

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Capítulo I “Ele nunca bateu em mim, nunca chegou a bater em mim, porque minha mãe nunca deixou”

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Quem repara nela por aí, jura se tratar apenas de uma simples menina. Como aquelas que ainda estão dando seus primeiros passos em direção à vida adulta, mas ela é tão mais... Com apenas 18 aninhos, tem cabelos que balançam livres ao vento incontrolável da capital alencarina, um corpo esguio, num evidente misto de menina, adolescente e mulher, isso tudo em uma só, ao mesmo tempo e agora. Ela, que mesmo crescendo e evoluindo numa velocidade que não pode ser cronometrada por relógio, calendário ou signo astrológico, ainda não parece ter largado, por completo, o seu tão peculiar jeitinho de ser quem sempre foi. Mas poxa, por que largaria? Ela segue – como aquela maresia de fim de tarde, que lança seus cabelos sem destino certo pelas ruas da vida – e carregano peito os tão costumeiros e admiráveis sonhos de, enfim, ser em plenitude, fazer e ousar o que bem quiser. E olha, vamos combinar, não é? Já faz tempo que o físico, e mais tudo aquilo que é exterior, casca e descartável, deixou de ser pré-requisito para a gente ter alguma certeza sobre quem é ou não é o outro. Porque ela apenas é: Uma garota, jovem, mulher, sem reforço de

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CAPITULO I

estereótipos de gênero ou outra coisa qualquer. Quem para e escuta o que ela tem tanto para dizer, nem que só por alguns minutos, já reconhece nela uma imensidão que está para muito além do “ser menina”. Carrega em si um ar pueril ou até uma denominação que nem sei precisar qual. O que sei é o que descobri, observei e senti ao ouvi-la, tão aberta e sinceramente, falar sobre si, as relações com a família e a violência sofrida, desde a infância e entre as paredes de casa; pelo próprio pai. Ela é a única “filha mulher” por parte do pai. Provavelmente, por isso e por seu exacerbado conservadorismo religioso, que ela sempre sentiu as mais inflamadas violências. Ele até tem outros dois filhos, todos homens e frutos dos relacionamentos anteriores que ela tem conhecimento. Enquanto a mãe, tendo se relacionado desde sempre e exclusivamente com ele – são até primos – teve apenas ela. “Eu sou a única que ele tem como revoltada [abre um meio sorriso], porque eu não admito as coisas que ele faz.”. Diz para ressaltar a decisão de não permanecer naquele famigerado silêncio que perfura almas, como a dela. Nunca teve infância, é o que nossa garota me revela em tom de desconforto. O principal motivo para uma constatação tão alarmante como esta, ela deixa explícito: a presença sempre repressiva do pai e do eterno “pisar em ovos” dentro de casa, como afirma, com pesar, ser uma expressão dita com frequência pela mãe. “Por um tempo eu não tinha consciência disso. Era presa, vivia na caixinha. Da escola pra casa. Não saía, ele nunca permitia que eu saísse para lugares. Só a minha mãe que deixava eu ir pra casa de uma amiga que era vizinha, deixava eu brincar na rua. Mas era coisa muito presa, porque ele saía pra trabalhar, ela deixava eu ir brincar na rua e tal, por um tempo, mas ele sempre reprimia, fazia questão de reprimir.”. Vomita o desabafo até então entalado na garganta. Conta que começou a perceber e, a sofrer de fato, com o que o pai fazia, a partir da época da alfabetização, em que ele se colocou para ensiná-la a ler, o que sempre significava um fardo de tensão e choro – gerando, em longo prazo, uma ansiedade grande tanto nas provas


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e seminário se mesmo na faculdade. A rigidez e a postura, demasiadamente severa do pai, até contra os seus estudos perdura no decorrer de toda a sua vida escolar, sendo nítida nas “pequenas” coisas. Em 2014, por exemplo, enquanto ela fazia o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) – que acabou resultando em sua aprovação para a UFC (Universidade Federal do Ceará) no curso de Letras– ele a desestimulava constantemente, afirmando que não seria capaz de passar e que teria de pagar cursinho para ela. “Ele nunca quis que eu estudasse. E eu acho que essa forma de ensinar foi tudo proposital para que eu não me desse bem no estudo.”. Justifica as investidas conservadoras do pai, que acredita, fielmente, que lugar de mulher é somente em casa, cuidando do marido e dos filhos. Mas o fato que demarca, assustadoramente, a época da “não infância” veio com o falecimento da sua avó materna. Ela, ainda tão criança desprotegida, emergiu em um profundo oceano de tristeza, o que a fez ser levada ao médico e diagnosticada, em tão somente uma consulta, com um quadro depressivo. De pronto, a razão dada foi o luto recém-vivido. Mas ela tem consciência de que havia muito mais por trás de toda aquela situação: “... isto já decorreu das várias violências que eu sofri.”. Nossa garota sofria calada, um tanto quieta, mais na dela. Por fora, nada que, diante de olhos ligeiros, lhe diferenciasse de qualquer outra criança. Nada que causasse espanto ou uma, talvez até uma sincera, preocupação. Por dentro, ela permanecia como um vulcão prestes a explodir. Em um disparo – corta o ar que respira entre certezas e dúvidas – lembranças eclodem. Lembranças, que permaneciam mais encarceradas do que ela em casa, sem chance de sair para brincar com outras crianças, resumem, evidenciando o que mais passou ao longo dessas quase duas décadas de existência. “Era uma forma de repressão horrível. Uma violência verbal, muitas vezes, é até pior que a física, pra mim; porque era recorrente. Era direto aquilo.”.

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O ponto é que, por um terrível tempo, pode-se dizer que a situação enveredou por caminhos repugnantes e a violência verbal associou-se à sexual. Ela, como quem arranca uma estaca afundada no peito, em catarse, conta que foi estuprada pelo pai dos quatro aos 10 anos. Um bebê, uma criança, que guardou tais infelizes lembranças não dissipadas pelo tempo. Em sua postura, na forma de olhar... E, principalmente, quando as palavras desacorrentam-se de sua boca, fica explícito que verbalizar tamanha monstruosidade não foi fácil. Até pra ela, 18 anos hoje, mente tão aberta, guarda uma dor, tão escondida, mas que não parou de ferir. Sem muitos detalhes, com lacunas na memória, apenas recorda que a mãe soube e que o confrontou, mas que nada mudou. Imagina que a mãe acredita ainda que tudo tenha findado naquele exato momento em que descobriu o que estava acontecendo, mas que não foi assim. Não a culpa, de modo algum. Até insiste em preservar mais a mãe do que a si. Louvável, não dá para negar. E quanto mais dispara lembranças, pensamentos, tudo que ouviu, presenciou, viveu e sentiu de lágrimas se formarem (mas sem escorrer, sem demonstrar, sem gritar para ser ouvida aos quatro cantos), mais se despe de máscaras ofuscantes e, assim, se mostra. Tão crua e verdadeira em sua condição de alguém, que desde bem cedo, aprendeu a ser consciente, independente, além do que se poderia notar a olho nu. Um exemplo mais nítido de tal condição, é que foi logo aos 13 anos de idade, enquanto as outras meninas descobriram-se aos pouquinhos e cautelosamente, ela descobre o feminismo. Através do blog “Escreva, Lola, Escreva”1, nossa garota soube que não estava sozinha neste mundo que violenta nossas mulheres, infelizmente, do nascimento à morte. E foi como arregalar, pela primeira vez, os olhos e perceber que não caímos depois do horizonte do oceano, que há mais a se construir. Ela faz questão de ressaltar que desde esta escrevalolaescreva.blogspot.com

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época nutre forte admiração por aquela blogueira que lhe apresentou a um novo mundo tão gigantesco: Lola Aronovich, uma das militantes feministas mais reconhecidas do Brasil de uns anos pra cá.

Com o acréscimo que o aprendizado em torno do feminismo foi lhe trazendo, consequentemente, lhe possibilitou analisar com mais profundidade sua própria vivência e relação com o pai. “Eu consegui, depois de um tempo, já na adolescência, compreender que ele não era um pai, realmente, pra mim. Era alguém violento só, que estava em casa comigo... e continua aqui.”. Reconhecer o tamanho do peso daquela afirmação, para alguém tão jovem, seria como colocar o prosseguimento da vida em xeque. Entretanto, para essa menina-mulher, soava mais como uma árdua busca pela libertação de uma relação que não lembrava em nada o que se espera de uma relação harmoniosa entre pai e filha. Faltavam, aos montes, o afeto, o carinho, o amor, a compreensão, o respeito. Sobravam repressão, violências, dores engolidas, feridas não cicatrizadas. Para sobreviver, depositou na mãe a esperança... Com a minha mãe, a minha relação é, totalmente, diferente. Tento dar uma relação de apoio também pra ela, pra que ela não se submeta. É tanto que desde essa época que descobri o feminismo e outras vivências e tal, eu sempre tentei alertar ela de uma forma que ela não percebesse. Não era chamar para conversar, mas eu disse “mãe, por que tá levando café pra ele na rede?”; “por que tá cortando as unhas dele?”. Ele é do tipo que quer que sirva. Tá com uma semana, eu acho, que ele disse que ela era escrava dele.2

Revela-se que, mais do que uma constante feminista em construção, é uma filha, sofrendo por si e pela mãe, que é quem acaba recebendo mais, dura e fisicamente, todas as violências que o pai não desfere sobre ela. E sua preocupação com a mãe ainda é nítida. Ela a toma com uma pessoa já debilitada, de saúde frágil, como um arquétipo muito mais de cuidadora e passível à submissão. Não que a condene. Nem a ela, nem a outras que aqui possam se encaixar...

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Entrevista realizada em março de 2016.

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CAPITULO I

No perfil e histórico do pai, é notável certo padrão comportamental tão conhecido entre outros agressores. Nossa garota sabe que ele já era abusivo em seus relacionamentos anteriores e sempre foi de arrumar desculpas para “terceirizar” seus instintos mais violentos com tudo e todas, principalmente. Sobrava até para a sua própria mãe, ele jogava para ela, uma culpa muito além do que lhe cabia. Travavam uma eterna briga de gato e rato. Um morde e assopra sem fim. Havia ainda outra personagem, a avó paterna de nossa garota, que também detinha uma personalidade com pulso firme. Pensando na avó e no pai, ela não sabe, ao certo, até onde as declarações dele de que sofria agressões físicas, da avó, na infância, eram reais ou se não passavam de exageros e mentiras. Quanto ao seu avô paterno, o pouco que ela tem conhecimento é que ele era um “bêbado pacífico”, que não se tornava agressivo mediante a ingestão de álcool, diferentemente do seu pai. Venha de onde venha a origem do instinto violento do pai, o fato é que inúmeros episódios diários de agressão marcaram a personagem principal desta história. Ela, tão jovem mulher, conta um dos momentos que ficou cravado em sua memória igual estaca no peito: O mais marcante pra mim até hoje é a cena de ameaça de morte que minha mãe recebeu dele; nisso eu tive que ficar na frente dela pra defender e fui igualmente ameaçada. A frase que ele disse foi: “Vou matar as duas de porrada, pra que vocês aprendam a me respeitar.”... E existiram muitas outras que foram diretamente comigo, estupro, por exemplo...Pesadas demais pra que eu fale agora, já que é algo que não consigo falar tão facilmente.

O cotidiano desta verdadeira casa do terror é evidenciado com a descrição de uma das várias maneiras que o pai utilizava – e ainda utiliza – para impor seu poder de macho naquele território, atrelado diretamente ao seu conservadorismo religioso. A reza é um instrumento a mais de opressão que ele já produz por si só. É uma forma de impor poder. Ele reza compulsivamente o dia inteiro pra demarcar que é ele quem manda nesse espaço, portanto, se ele quer proibir uma TV ligada, por exemplo, ele proíbe. O dia a dia com essa compulsão dele é bem difícil. É como ter um rádio ligado 24 horas (ou quase) em uma


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programação que você odeia. Além disso, essa religiosidade fanática é um justificador para as violências dele. Pra ele, mulher precisa ser submissa e obedecer ao marido; as filhas idem. Por isso, se não tem comida feita na hora que ele deseja, é um escândalo.

Diante de tantos exemplos tenebrosos de violência doméstica e familiar por que esta garota e a mãe passam, nos questionamos: por que não denunciar o pai como agressor, sendo uma feminista bastante consciente da situação em que está inserida? Ela surpreende sendo bem direta: “Denunciar não ajudaria na minha realidade.”. E completa com um grande e nítido medo sobre um futuro meio que incerto para ela e a mãe: “Moro numa casa que é da mãe do meu agressor, minha avó; e ela sustenta a casa. Minha mãe não trabalha. Então, uma denúncia provavelmente provocaria uma agressão pior e/ou eu e minha mãe seríamos expulsas daqui. A solução menos pior parece ser resistir até onde der.”. Mas há limite para a resistência? Como resistir quando sua vida parece ser mais infinito emaranhado de dor? Como resistir quando se viveu apenas 18 anos e já sofreu tanto assim? Como resistir?! Resistir é um ato que se planeja ou são as dores que nos fazem resistência? Ela responde com o peso de uma alma que busca alento sem cessar. “Essa vontade de lutar veio de um acúmulo de violências durante toda a minha vida, mas essa mais específica veio num período de mais maturidade minha [...] e foi a gota d’água pra que eu percebesse que era inadmissível sofrer tudo aquilo sem resistir.”. Silencia.

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Crescer mulher, Num mundo tão homem, É crescer planta podada Sem chance nem de ser árvore. É crescer obrigada a ser flor, Querendo ser cacto Resistente a qualquer dor. Crescer mulher É crescer passarinho enjaulado Achando natural Ver da cozinha o sol quadrado Crescer mulher É crescer jurando que teu destino Gira em torno de cavalo branco, Casamento e filhos pra criar Quando o que mais te negam É o direito de com mais do que isso Poder sonhar. Crescer mulher É crescer já se julgando Fruto do pecado original, Da costela de Adão, Que nasceu o próprio mal. Herlene Santos

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Capítulo II “Porque não era correto, entendeu? Então me pergunto por que eu deixava, entendeu?”

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“Por que não era correto, entendeu? Então me pergunto por que eu deixava, entendeu? Porque a questão envolvia o prazer da coisa, envolvia o avô, envolvia a falta do afeto, que eu queria ter da minha família até aquele momento.” Foi como ela resumiu a tão trágica e terrível experiência que vivenciou ainda criança. Nenhuma menina deveria passar por isso, muito menos, entre paredes que deveriam ser sinônimo de segurança, proteção e acolhimento. Mas antes de chegar até aí, voltemos... Ela adora conversar, explorar novos lugares, tomar uma cervejinha estalando de gelada e, acima de tudo, conhecer pessoas, ampliar seu círculo de amigos (se forem somente mulheres, melhor ainda). Percebe-se de primeira, que a timidez, por ela, passa longe. Bastante comunicativa. Ela fala mesmo. Pergunta mesmo. Briga mesmo, se assim for preciso. “Não me rotularia como briguenta”. Ela rebate. Só questiona o que acredita estar errado e neste mundo, repleto de caos e injustiças, sem dúvida, muitas coisas estão erradas. Não há mais espaço para conformismo. Aos 23 anos de idade, se doando por inteira às pessoas e aos bichanos com quem divide as paredes da casa, ela, do interior cearen-

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CAPITULO II

se, veio para ser (mais) guerreira em Fortaleza, se jogando nessa selva, com unhas e dentes, para sonhar, acreditar e vencer. É uma mulher de grande coração, porque em suas veias não percorre apenas sangue, mas principalmente uma enxurrada de afeto e sensibilidade. Mas antes que alguém mencione ou sequer pense em sexo frágil, ela se coloca no total oposto deste estereótipo barato. “Ser sensível não faz o ser humano frágil. Muito menos, a mulher. Pelo contrário!” E ela se faz presente não só fisicamente, mas, acima de tudo, em alma. É daquelas amigas que você sempre quis ter. É um ombro confiável pra chorar e um dos abraços mais apertados que você vai experimentar. Apesar de estar cercada por tantos adjetivos positivos que tão bem lhe cabem, se esconde ainda uma criança, uma pequena criança indefesa que clama por carinho. Vez ou outra, ainda tenta pagar de auto-suficiente, mas se vê que o buraco cravado em seu peito é muito mais profundo. Ela também quer ser amada, na mesma medida (ou mais; por que não?) que tanto ama. Não que seja por interesse, mas amor é troca e intensidade e, no fundo, ela sabe que merece toda uma vida para receber bons sentimentos em altas doses. E de uma pessoa tão simpática e amável, o comum seria esperar que esta estivesse rodeada por uma família, pelo menos, parecida com ela, não é? Mas nem sempre o mesmo sangue é o que fala mais alto e une as pessoas em laços firmes. O que fica explícito é o quanto tem em sua mãe, a única noção de família que já conheceu. Ambas aparentam mais serem amigas – até confidentes – do que propriamente mãe e filha. Nunca existiu a presença de um pai no decorrer de seu crescimento. Ela conta que seus pais nunca namoraram, apenas ficavam e que a partir dessas “ficadas” é que ela foi gerada. Até o assunto pai em si não foi pautado profundamente, porque ela mesma confessa que ambos se tratam com indiferença. Logo, para seu avô materno – hoje um senhor por volta de 78/79 anos – a lógica da sua vinda ao mundo contrastava por completo com os valores conservadores tão nutridos por ele. Por conta disso, sua


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mãe foi rejeitada e só retornou após um ano, pois para as pessoas daquele lugar, ela havia se “perdido” em razão da gravidez fora dos moldes tradicionais esperados. “De certa forma, minhas tias gostavam de mim, minha avó... mas meu avô nunca gostou de mim [...] Ele sempre detestou todos os netos, mas a mim em especial, porque eu não tinha um pai.”. Relembra com tom de uma certeza de assustar qualquer um, pela figura física do pai ser considerada mais crucial do que uma neta para ser amada e tratada com o respeito que todo ser humano merece. Diante da rejeição que expõe, faz eclodir vários pontos de interrogação: como é ter que se contentar com verdadeiras migalhas de um suposto amor? De pessoas tão próximas do seu convívio? De parentes? A gente parece que teima em se enganar acreditando que sempre haverá amor incondicional dentro do próprio lar. Sem enrolações ou meias palavras, ela vai direto ao ponto: “Eu sentia uma carência afetiva da minha família. Então, o pouco que eles me davam de bom, eu tentava colher o máximo. Mas depois dos 13, 14 anos, eu entendi que aquilo não ia ser suficiente pra mim e que eu não ia ter nunca uma família.”. E assim, suas falas pesadas e cortantes vão desnudando uma simples jovem que foi obrigada a crescer sem a atenção que tanto precisava. Meu avô nunca gostou de mim [...] Sempre foi um impasse. Até hoje. A gente tem altas brigas. Com o decorrer que eu fui crescendo, as divergências foram aumentando e as minhas tias passaram a me odiar também, porque eu era a única que batia de frente com ele, por ele ser muito machista. Só que isso só aconteceu depois dos meus 13 anos mais nitidamente.

Esse “bater de frente” foi se tornando cada vez mais frequente na rotina da casa, e até as tias, que antes gostavam dela, foram mudando de atitude para com ela. Muito provavelmente através da força de influência exercida pelo avô/pai. Já no que diz respeito a avô, ela salienta a permanência de uma postura passiva e submissa perante ele. Sem contar que o poder ad-

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CAPITULO II

vindo da figura do avô em casa é o que mais se sobressaía neste ambiente familiar controverso e, ao mesmo tempo, tão corriqueiro nos lares brasileiros. Ainda assim, ela, indignada, repassa que a família insiste, a todo custo, em naturalizar as ações abusivas do avô essencialmente, agora, por sua idade já avançada. Tem coisas que não é por questão de idade. Por exemplo, ele não querer comprar comida pra dentro de casa. Eu não justificaria isso por causa da idade, porque ele é extremamente lúcido e sabe o que está fazendo. Então, pra mim, isso é forma de abuso de poder [...] Desde lavar as roupas dele. Desde colocar a comida no prato e ter que deixar nas mãos dele. Ele não vai buscar e ele também não vai deixar o prato na mesa.

Fica evidente que ela não cai nessa conversa sem pé nem cabeça e acaba ficando mais revoltada ainda pelo restante da família não conseguir perceber a realidade como ela. Mas hoje, meio que demonstra uma resignação, um conformismo quanto a isso. “Se for contar com família, família eu não tenho.” Mas o ápice de sua história, o cume da dor, ocorreu entre seus 10 e 11 anos, quando foi molestada pelo avô – “mais ou menos no período de um mês, não exatamente todos os dias” – e onde mesmo tomando “cuidados” para não ser pego, ele não se importava se tinha ou não outra pessoa em casa. “Até um tempo atrás1, eu achava que esse assunto não me incomodava [...] Até eu perceber que as imagens me incomodavam. Eu lembrar da situação me incomodava ainda, porém, eu não tenho problema nenhum em falar.”. Faz questão de destacar que não houve penetração, mas que ele passava a mãos em sua genitália. O retorno, o revirar de memórias tão dolorosas, fez com que ela se afogasse em reflexões e pontos de interrogações ainda não resolvidos. “Porque não era correto, entendeu? Então me pergunto porque eu deixava, entendeu? Porque a questão envolvia prazer da coisa, envolvia o avô, envolvia a falta do afeto, que eu queria ter da minha família até aquele momento.” Maior de idade, mas ainda uma menina do interior que conheceu uma atenção bastante distorcida do que deveria. Ainda uma menina sensível, sozinha, querendo ser muralha, mas sendo ilha. Entrevista realizada em setembro de 2016.

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Ela ainda pontua que ninguém de sua “família” sabe sobre o abuso sexual, muito menos, a sua mãe, que é a única que verdadeiramente considera por laços de afeto e amor. “Eu já chamei ele várias vezes de pedófilo na frente da minha mãe, mas a minha mãe, ela é do mato, ela não sabe o que significa pedófilo, entendeu?”. Chega a ironizar a situação. Mas o que não pode ser negado é o tamanho da indiferença que ela nutre principalmente em relação à pessoa do avô e declara, com segurança, que prefere continuar calada sobre o que aconteceu, do que falar agora e todos afirmarem que ela está inventando só para ser contra ele. “Eu só me arrependo de ser sido tão passiva naquele momento, de ter aceitado isso, mas eu não me sinto mais culpada [...] Eu me senti mais culpada quando eu comecei a refletir se eu aceitei toda aquela situação por causa que eu queria afeto familiar.”. Já quanto ao feminismo, nossa mulher de coração maior que o peito, destaca que o movimento foi e é importante para que ela se empondere – tem suas questões quanto ao seu físico que foge aos padrões aceitos e a sua luta diária contra a gordofobia – e obviamente para que adquira cada vez mais conhecimento sobre a condição da mulher na sociedade, mas quanto a esta vivência específica, ela afirma que não foi o feminismo que a libertou da culpa e de seu amargo gosto no céu da boca. “Foi ver o quanto ele é cruel, não foi o feminismo [...] Ver o que ele é capaz de fazer, me fez ver que a culpa não é minha. Eu só tinha 11 anos, ele que foi o escroto. Por que eu vou carregar uma culpa que não é minha?”. Grita.

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Ser mulher: ser uma em várias

O maior desafio enfrentado para que o sonho deste livro se tornasse uma realidade foi que eu pudesse me desvincular um pouco do meu “papel de mulher” e me colocasse bem mais como repórter-escritora. Sei que apontar isso agora parece bastante controverso, mas foi uma atitude extremamente necessária para que eu contasse as histórias de vida de outras mulheres da melhor e mais digna forma possível e para que o foco fosse sempre a outra, com seus machucados dos caminhos já percorridos. Mas também, evidenciando como sua força – expressa em sorrisos – é de quem não pensa em desistir, mesmo com todos os pesares da existência de uma mulher. Para contar as histórias das nossas duas personagens centrais, não bastava só o que os livros e toda a teoria poderiam me oferecer. No decorrer do processo de produção deste livro foram também realizadas algumas entrevistas com profissionais, todas mulheres; que lidam na prática, na correria do dia a dia, com as mais inúmeras questões que dizem respeito à “temática mulher”, indo além da violência; o que sempre foi também a direção maior que minha pesquisa deveria tomar. Comecei entrevistando Emmanuelle Alves, assistente social, fe-

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SER MULHER: SER UMA EM VÁRIAS

minista, pesquisadora de gênero e professora do curso de Serviço Social da Faculdade Cearense (FaC); no dia 9 de setembro de 2016. Emmanuelle contribuiu significativamente. Com ela, ampliei meus conhecimentos no que tange a minha pesquisa. Mostrou-me ainda uma visão bem diferenciada acerca do feminismo e da violência contra as mulheres. Revelando-me até pontos mais específicos de sua vida pessoal, mas que serviram para influenciar e acrescentar à sua trajetória como profissional. Seguindo uma linha de raciocínio e argumentação bastante semelhante, entrevistei (07 de novembro de 2017) a cientista social, também pesquisadora e feminista, Marcelle Silva. Nesse caso, no que diz respeito aos assuntos tratados na entrevista (que foram desde família tradicional, patriarcado, feminismo e outros), Marcelle possui ideias que se assemelham mais às minhas do que as de Emmanuelle. Ambas entrevistadas, porém, possuem visões bem próximas sobre as questões da mulher, feminismo e violência doméstica e familiar. Mesmo assim cada uma teve a total capacidade e oportunidade de contribuir para este trabalho de acordo com seus campos de atuação, com argumentos específicos e pertinentes. Por fim, resolvi que seria importante observar o lado jurídico da violência doméstica e familiar, visto que não se pode negar o papel importante da Lei Maria da Penha no combate à violência contra as mulheres. Para tal, fui ao Juizado da Mulher no dia 23 de novembro, quando na ocasião conversei com a Dra. Fátima Maria Rosa Mendonça, juíza de Direito titular da comarca de Fortaleza. Nesse sentido, apesar de não estarem diretamente citadas, as entrevistas com essas profissionais foram crucias para me proporcionar o acesso a visões únicas; de mulheres, que além de terem seus dramas pessoais – porque obviamente não estão excluídas de sua condição de mulher – trabalham e estudam para conhecer e amparar outras mulheres. Diante do que vivi, observo que o trabalho e a produção acadêmica/literária de mulheres falando de si e das outras – que vêm crescendo largamente – só nos auxilia quando decidimos enveredar por tamanha problemática de cunho social tão evidente.


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Por conseguinte, a escolha do título Sobre silêncios e resistências para este livro não poderia ter sido mais acertada do que de fato foi. Conhecemos o silêncio e a resistência... e tudo pela voz das protagonistas. Fica de aprendizado a percepção de que não importa quem sejamos, ou os abismos que nos separam, como indivíduos únicos e insubstituíveis; nós sempre seremos como uma só. Reunidas, entrelaçadas na condição do “ser mulher”. E como dói. Mas, não deixemos que a braveza da nossa luta se dissolva nem por um segundo sequer. Avante!

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Bibliografia consultada

BIROLI, Flávia. MIGUES, Luis Felipe. Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2014. LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo. São Paulo: Manole, 2009. MELO, Mônica de. TELES, Maria Amélia de Almeida. O que é violência contra a mulher. São Paulo: Brasiliense, 2012. ROCHA, Patrícia. Mulheres sob todas as luzes: a emancipação feminina e os últimos dias do patriarcado. Belo Horizonte: Editora Leitura, 2009. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero patriarcado violência. São Paulo: Expressão Popular: Fundação Perseu Abramo, 2015. VERZTMAN, Julio. Vergonha e honra na contemporaneidade. Disponível em: <http://www.nepecc.psicologia.ufrj.br/files/ vergonha_honra_e_contemporaneidade.pdf>Acesso em: 10 de agosto de 2016.


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Anexo

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A Lei Maria da Penha em cordel (Tião Simpatia) I A Lei Maria da Penha Está em pleno vigor Não veio pra prender homem Mas pra punir agressor Pois em “mulher não se bate Nem mesmo com uma flor”. II A Violência Doméstica Tem sido uma grande vilã E por ser contra a violência Desta Lei me tornei fã Pra que a mulher de hoje Não seja uma vítima amanhã. III Toda mulher tem direito A viver sem violência É verdade, está na Lei Que tem muita eficiência Pra punir o agressor E à vítima, dar assistência. IV Tá no artigo primeiro Que a Lei visa coibir; A Violência Doméstica Como também, prevenir; Com medidas protetivas E ao agressor, punir. V Já o artigo segundo Desta Lei Especial Independente de classe Nível educacional


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De raça, de etnia; E opção sexual... VI De cultura e de idade De renda e religião Todas gozam dos direitos Sim, todas! Sem exceção. Que estão assegurados Pela Constituição. VII E que direitos são esses? Eis aqui a relação: À vida, à segurança. Também à alimentação À cultura e à justiça À saúde e à educação. VIII Além da cidadania Também à dignidade Ainda tem moradia E o direito à liberdade. Só tem direitos nos “As”, E nos “Os”, não tem novidade? XIX Tem, direito ao esporte Ao trabalho e ao lazer E o acesso à política Pro Brasil desenvolver E tantos outros direitos Que não dá tempo dizer. X A Lei Maria da Penha Cobre todos esses planos? Ah, já estão assegurados Pelos Direitos Humanos. A Lei é mais um recurso

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Pra corrigir outros danos. XI Por exemplo: a mulher Antes da Lei existir, Apanhava, e a justiça. Não tinha como punir Ele voltava pra casa E tornava a agredir. (agredi-la). XII Com a Lei é diferente É crime inaceitável Se bater, vai pra cadeia Agressão é intolerável O Estado protege a vítima Depois pune o responsável. XIII Segundo o artigo sétimo Os tipos de Violência Doméstica e Familiar Têm na sua abrangência As cinco categorias Que descrevo na sequência. XIV A primeira é a Física Entendendo como tal: Qualquer conduta ofensiva De modo irracional Que fira a integridade E a saúde corporal... XV Tapas, socos, empurrões; Beliscões e pontapés Arranhões, puxões de orelha; Seja um, ou sejam dez Tudo é Violência Física E causam dores cruéis.


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XVI Vamos ao segundo tipo Que é a Psicológica Esta, merece atenção Mais didática e pedagógica Com a auto estima baixa Toda a vida perde a lógica... XVII Chantagem, humilhação; Insultos; constrangimento; São danos que interferem No seu desenvolvimento Baixando a autoestima Aumentando o sofrimento. XVIII Violência Sexual: Dá-se pela coação Ou uso da Força Física Causando intimidação E obrigando a mulher Ao ato da relação... XIX Qualquer ação que impeça Esta mulher de usar Método contraceptivo Ou para engravidar Seu direito está na Lei Basta só reivindicar. XX A quarta categoria É a Patrimonial: Retenção, subtração, Destruição parcial Ou total de seus pertences Culmina em ação penal... XXI

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Instrumentos de trabalho Documentos pessoais Ou recursos econômicos Além de outras coisas mais Tudo isso configura Em danos materiais. XXII A quinta categoria É Violência Moral São os crimes contra a honra Está no Código Penal Injúria, difamação; Calúnia, etc. e tal. XXIII Segundo o artigo quinto Esses tipos de violência Dão-se em diversos âmbitos Porém é na residência Que a Violência Doméstica Tem sua maior incidência. XXIV Quem pode ser enquadrado Como agente/agressor? Marido ou companheiro Namorado ou ex-amor No caso de uma doméstica Pode ser o empregador. XXV Se por acaso o irmão Agredir a sua irmã O filho, agredir a mãe; Seja nova ou anciã É Violência Doméstica São membros do mesmo clã. XVI E se acaso for o homem


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Que da mulher apanhar? É Violência Doméstica? Você pode me explicar? Tudo pode acontecer No âmbito familiar. XXVII Nesse caso é diferente; A lei é bastante clara! Por ser uma questão de gênero Somente à mulher ampara Se a mulher for valente O homem que livre a cara. XXVIII E procure seus direitos Da forma que lhe convenha Se o sujeito aprontou E a mulher desceu-lhe a lenha Recorra ao Código Penal Não à Lei Maria da Penha. XXIX Agora, num caso lésbico; Se no qual a companheira Oferecer qualquer risco À vida de sua parceira A agressora é punida; Pois a Lei não dá bobeira. XXX Para que os seus direitos Estejam assegurados A Lei Maria da Penha Também cria os Juizados De Violência Doméstica Para todos os estados. XXXI Aí, cabe aos governantes De cada federação

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Destinarem os recursos Para implementação Da Lei Maria da Penha Em prol da população. XXXII Espero ter sido útil Neste cordel que criei Para informar o povo Sobre a importância da Lei Pois quem agride uma Rainha Não merece ser um Rei. XXXIII Dizia o velho ditado Que “ninguém mete a colher”. Em briga de namorado Ou de “marido e mulher” Não metia... Agora, mete! Pois isso agora reflete No mundo que a gente quer.


“Sobre silêncios e resistências: histórias de violência contra a mulher”contra nasceu de uma sentença maiorde do que A violência a mulher faz parte qualquer outra coisa em mim: eu sempre quis ser livro.

uma cultura patriarcal construída a partir papéis este sociais impostos ao homem Nãodos sei explicar infinito e insaciável desejo dee maneira, racional e, tempos não fazia à minimamente, mulher. A desigualdade entre atrás, os gêneideiaros de muitas quandovezes o primogênito viria forte e saudável é a causadora da violência ao mundo. Não existiam praticada contraplanejamentos. a mulher. Mas então ele veio, me arrebatando e eu, sorrindo, como qualquer outra mãe orgulhosa da cria, observo o que gerei com tanto amor.

O livro apresenta a rede de atendimento à Vivo.mulher Meu. Nosso. O primeiro. escrever um parto em situação dePorque violência eméFor– já taleza, diziam por aí vários também amantes dessa arte – e o seu funcionamento, serviços e areu nunca nutri nenhuma dúvida sobre isso. ticulações. A obra traz ainda histórias de mulheres que foram vítimas de violência e a assistência que elas receberam dos órgãos.


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