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NÚMERO 24.269 ● FECHAMENTO DA EDIÇÃO: 22H30

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EXEMPL AR DE ASSI NANTE - VEN DA PROI B I DA ● w w w.uai.com.br

NÚMERO DE ASSASSINATOS EM ÁREAS DA PERIFERIA É 70 VEZES MAIOR DO QUE EM BAIRROS DE CLASSE MÉDIA DA CAPITAL

OS EXTREMOS DA VIOLÊNCIA EM BH CRUZAMENTO DE DADOS DA DIVISÃO DE CRIMES CONTRA A VIDA, DA POLÍCIA CIVIL, MOSTRA QUE, APESAR DOS AVANÇOS SOCIAIS E DA CONTENÇÃO DO AUMENTO DOS HOMICÍDIOS NA CAPITAL, AS DIFERENÇAS ENTRE A PERIFERIA E AS ÁREAS NOBRES PERMANECEM E CONTRIBUEM PARA AUMENTAR OS CONTRASTES NO MAPA DA VIOLÊNCIA.

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PAULO WHITAKER/REUTERS

¬ JABOTICABUBAS

¬ SUCESSÃO EM BH

Apreendidas 3,2 toneladas de maconha

Quintão será o candidato do PMDB

Droga estava guardada numa casa simples que escondia luxuosa área de lazer, cercada por muros de 5m de altura, com piscina, sinuca e churrasqueira. Nove pessoas foram presas, suspeitas de atuar no tráfico.

O deputado federal Leonardo Quintão venceu, ontem, por 54 a 19 votos, a disputa com o deputado estadual Sávio Souza Cruz na convenção do PMDB. Ele será o candidatodopartidonaseleições para prefeito da capital.

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REMÉDIOS DE TARJA PRETA SÃO OS MAIS VISADOS PELOS LADRÕES DE CARGA PÁGINA 15 CRISTINA HORTA/EM/D.A PRESS

MAIS UM

PROFISSIONAIS

VEXAME

PEDRO ARMESTRE/AFP

COM FUTEBOL DEFENSIVO, O BRASIL PERDEU POR 2 A 0 PARA O PARAGUAI, EM ASSUNÇÃO, GOLS DE SANTA CRUZ E CABAÑAS (foto), E CAIU PARA O QUARTO LUGAR NAS ELIMINATÓRIAS. NA RODADA DO MEIO DE SEMANA, PODE DESPENCAR AINDA MAIS. QUARTA-FEIRA, NO MINEIRÃO, PEGARÁ A ARGENTINA, QUE TROPEÇOU EM BUENOS AIRES: SÓ CONSEGUIU EMPATAR POR 1 A 1 COM O EQUADOR, COM UM GOL NO ÚLTIMO LANCE DO JOGO.

EM ALTA Além de salários elevados, empresas pagam até curso de pós-graduação para conquistar funcionários raros, como o engenheiro Erick Santos (foto), da Vale. PÁGINA 14

CONSUMIDOR GOVERNO PREPARA NOVAS REGRAS PARA CALL CENTERS

ERRO MÉDICO POLÍCIA AGUARDA LAUDO DA NECROPSIA PARA INVESTIGAR

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BASQUETE VAI A PEQUIM Mesmo envolvida em forte crise, a Seleção Feminina de Basquete, da armadora Claudinha (foto), conquistou a última vaga nos Jogos Olímpicos de Pequim, ao vencer Cuba por 72 a 67, em Madri. A equipe masculina buscará classificação em julho, na Grécia.

DIREITO &JUSTIÇA

ÍNDICE

PRIMEIRO CADERNO Ciência 20 Economia 13 a 17 Indicadores 15 Internacional 18 e 19 Nacional 12 Opinião 6e7 Política 2 a 5 e 8 a 11

CADERNOS Agropecuário Classificados Direito & Justiça EM Cultura Esportes Gerais Hora Livre 76 PÁGINAS

ISSN 1809-9874

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AGRO PECUÁRIO

CRIME ORGANIZADO NO PAÍS TEM TRAJETÓRIA DE VITÓRIAS

CABAÇA DE LUCROS Produção de cabaças no Vale do Jequitinhonha ajuda agricultor a financiar lavouras nobres

EM ★

99 771809 987021

DOCUMENTÁRIO CONTA PRISÃO DE ARTISTAS EM OURO PRETO

FÁTIMA DIAS/DIVULGAÇÃO - 1/5/07

Endereço na internet: www.uai.com.br/em.htm Assinatura Uai: 0800 31 5000 Assinaturas e serviço de atendimento: BELO HORIZONTE: (31) 3263-5800 Outras localidades: 0800 31 5005


ESTADO DE MINAS ● S E G U N D A - F E I R A ,

GERAIS

Violência

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1 6 D E J U N H O D E 2 0 0 8 ● E D I TO R : A r n a l d o Vi a n a ● E - M A I L : ge ra i s . e m @ u a i . co m . b r ● T E L E F O N E S : ( 3 1 ) 3 2 6 3 - 5 2 4 4 / 3 2 6 3 - 5 1 0 5 ● FA X : ( 3 1 ) 3 2 6 3 - 5 0 2 4

ARRAIAL DE BELÔ ANIMA O CENTRO Milhares de pessoas participaram da final do concurso de quadrilhas, na Praça da Estação. PÁGINA 23 EULER JUNIOR/EM/D.A PRESS

desigual Dados da Divisão de Crimes contra a Vida mostram que número de mortes é até 70 vezes maior nos bairros da periferia de Belo Horizonte

Gestao S ontemporanea INFORME ESPECIAL

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C I C L O D E PA L E S T R A S

A Prefeitura de Betim e o jornal Estado de Minas estão promovendo o “Gestão Contemporânea: ciclo de palestras”, com personalidades de renome nacional que exploram temas como liderança, empreendedorismo, inovação e gestão. O próximo encontro acontece amanhã, dia 17, para convidados, e traz como palestrante Marcos Cobra, que vai falar sobre o tema “Marketing – Magia e Sedução”. Marcos Cobra é pós-doutorado pela University of Texas System, mestre e doutor em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Professor titular e chefe do departamento de Marketing da Escola de Administração de

eparadas por 16 quilômetros, a pouco mais de 30 minutos de carro, duas regiões revelam os extremos da violência em Belo Horizonte. Nos últimos três anos e cinco meses, enquanto uma pessoa foi assassinada no Gutierrez, na Região Oeste, outras 70 foram mortas no Jardim Vitória, na Região Nordeste. No Bairro Cruzeiro, na Região CentroSul, houve um assassinato, enquanto o Bairro Jardim Leblon, na Região de Venda Nova, contabilizou 63. Os dados são da Divisão de Crimes contra a Vida (DCcV) de BH, da Polícia Civil – fonte mais confiável sobre ocorrências dessa natureza. O cruzamento dos números com informações do Atlas do Desenvolvimento Humano, da Fundação João Pinheiro, revela que o medo de morrer faz parte do cotidiano de quem ganha menos, está longe dos bens de consumo, de oportunidades de estudo e sob o risco de doenças. A despeito da tendência de estabilidade nos índices de morte violenta na capital e dos avanços sociais dos últimos anos, os contrastes entre periferia e áreas nobres não se alteram. No Jardim Vitória, bairro onde quase 70% das vítimas assassinadas tinham menos de 30 anos, apenas 0,37% dos moradores entre 18 e 24 anos freqüentam curso superior. É o segundo pior índice de Belo Horizonte. No Bairro Cruzeiro, na Região Centro-Sul, onde ocorreu um homicídio em pouco mais de três anos, mais de 60% dos jovens estão na universidade. A informalidade impera no Jardim Leblon, segundo mais violento (63 mortes), onde 46% das pessoas trabalham sem carteira assinada. A maior taxa de mortalidade até os cinco anos da cidade é registrada no Taquaril (54 por mil), quarto lugar no ranking de homicídios (58 mortes). Para o sociólogo Luiz Flávio Sapori, carência e más condições de vida não determinam onde haverá crimes contra a vida em Belo Horizonte. No entanto, são elementos que favorecem a consolidação de valores implantados pelo trá-

Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. Essa é mais uma ação diferenciada da Prefeitura de Betim, que trabalha para que a cidade cresça em sintonia com as tendências mundiais e contemporâneas.

Realização

THIAGO HERDY

fico de drogas. “Não são propriamente adultos que estão se matando intensivamente. Uma faixa etária específica (jovens) se tornou mais violenta e trouxe para o cotidiano das pessoas o uso da arma de fogo, o que implica disseminação do medo e insegurança”, explica Sapori.

CARÊNCIA Muitas vezes a vida é o preço pago por quem buscou nos grupos armados resposta a outras carências – de auto-estima, sentimento de participação no grupo, prazer e poder de compra. Mas disputas por causa do comércio de drogas não são as únicas causas de homicídios nos bairros. Pesquisa recente do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG analisou 265 denúncias do Tribunal do Júri e descobriu que quase metade dos episódios teve como pano de fundo brigas e discussões fúteis (28,1%) ou foram motivados por vingança (18,6%). Desde criança morador de um bairro onde menos de 0,5% das pessoas entre 18 e 22 anos freqüentam o curso superior, Robson Marques, de 20 anos, diz não saber quem seriam os universitários da região. “Não são meus irmãos, que pararam de estudar na oitava série, igual eu. Vizinho, também não tem”, afirma o rapaz, que, no meio da tarde da última quinta-feira, jogava bola de gude na rua de casa. Perguntado sobre o futuro, ele disse que a idéia era voltar a estudar e trabalhar ainda nesta semana. Mas o desvio dos olhos para o chão e a inquietude expressa em movimentos bruscos das mãos evidenciam o contrário. A perda de amigos e conhecidos nos últimos anos pesa na hora de responder qual seria o maior problema do bairro: “A matação que está aqui. É um atrás do outro”, diz. No Jardim Vitória, a média de anos de estudo de pessoas de 25 anos ou mais é igual a 5,4 anos, menos da metade do registrado no Sion (13,1 anos), Belvedere (13 anos) e Funcionários (12,7 anos).

LEIA MAIS SOBRE VIOLÊNCIA PÁGINA 22

RENATO WEIL/EM/D.A PRESS

Pichação expressa o clima de medo no Jardim Vitória, na Região Nordeste. Com 70 homicídios, nos últimos três anos, bairro registra também baixo índice de escolaridade


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MATÉRIA DE CAPA

Criação de núcleos de policiamento em áreas de risco e investimentos em programas sociais são iniciativas para reduzir a disparidade nos índices de homicídios na capital

Aposta na prevenção ao crime EULER JUNIOR/EM/D.A PRESS

THIAGO HERDY Para o chefe do Comando do Policiamento da Capital (CPC), o coronel Nilo Sérgio da Silva, a mancha que aponta ocorrência de homicídios nos bairros da periferia é influenciada por uma série de fatores integrados – não apenas pobreza, mas também acesso à educação, saúde e disponibilidade de mão-de-obra barata para o tráfico de drogas. O comandante diz ficar assustado ao saber da proporção de 70 homicídios na periferia para cada ocorrência em um bairro da área nobre, mas garante que um conjunto de ações da polícia já resulta em diminuição da criminalidade nas regiões. Prova disso seria uma queda constatada de aproximadamente 30% nos homicídios da capital nos cinco primeiros meses de 2008, de acordo com a base de dados estatísticos da PM. Entre as ações tomadas pela Secretaria de Defesa Social está a criação de núcleos de prevenção, com ações de mediação de conflito nas áreas mais violentas, a formação do Grupo Especializado de Policiamento em Áreas de Risco (Gepar), nas favelas e periferias da capital, e a aposta em programas sociais, como o Fica Vivo. No grupo dos 10 bairros com maiores índices de homicídios, destaca-se o Centro de Belo Horizonte, onde ocorreram 60 homicídios entre janeiro de 2005 e maio de 2008. Segundo o banco

de dados da Divisão de Crimes contra a Vida, 19 foram registrados em 2005, 12 no ano seguinte, 20 no ano passado e nove nos primeiros meses de 2008. Os indicadores socioeconômicos da região destoam dos números dos bairros com maior índice de violência. A maior parte das vítimas dos crimes ocorridos na área, uma das mais vigiadas da capital, não moram por lá. “É uma região por onde circulam dois milhões de pessoas todos os dias. Os assassinatos fogem um pouco do tráfico, ocorrem por questões que envolvem prostituição, crimes passionais e discussões”, afirma o coronel Nilo da Silva. A renda média dos responsáveis pelo domicílio na área é igual a R$ 1,8 mil, oito vezes maior que a registrada no Aglomerado Vila São José (R$ 231), onde morreram 55 pessoas no mesmo período analisado. O índice de mortalidade de crianças com até cinco anos de idade é de 13,9 por mil, mesmo valor encontrado no Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul.

INFORMALIDADE As mortes de

63 pessoas em pouco mais de três anos colocaram o Jardim Leblon, na Região de Venda Nova, no segundo lugar do ranking de homicídios de Belo Horizonte. O bairro ocupa o primeiro lugar em índice de informalidade de Belo Horizonte: 46% das pessoas trabalham sem carteira assinada. É quase o dobro do regis-

Osmar Dias, de 51 anos, vive na Vila Apolônia, no Jardim Leblon, e garante não ter medo da violência, mas evita correr riscos desnecessários trado no Gutierrez (25,8%), na Região Oeste de BH. Há pelo menos 30 anos morador da Vila Apolônia, localizada no Jardim Leblon, Osmar Dias, de 51 anos, se define como quem é resultado “do puxado da enxada, de machado e cabo de foice”. Ele passa os dias transformando portas, janelas e outros pedaços de madeira abandonados em carrinhos de ferro-velho, vendi-

dos entre R$ 50 e R$ 60, cada um. Fã de trocadilhos e irônico a todo momento, afirma não ter medo da violência, embora reconheça que o “corre-corre do dia-a-dia é imprevisível para todos”, por isso não dá sopa para o azar e para os riscos à sua volta. Osmar não se lembra da última vez que trabalhou fichado na vida. Não é o caso de Auni Francisca do Amaral, de 43, que já traba-

lhou como empregada doméstica, mas hoje mantém uma loja nos fundos de casa, onde vende roupas novas e usadas. Auni já viu gente ser morta na esquina de casa. “Quem mora pareado com favela sabe o que acontece”, diz a mulher, que tem medo de um dia ser vítima de bala perdida. A morte de alguns traficantes e a prisão de outros, nos últimos anos, são fatores que teriam di-

minuído a sensação de insegurança na região. Mas, uma vez, quase foi assaltada. (TH) CONFIRA NO UAI O mapa interativo com os índices sociais e de homicídios dos bairros de BH w w w. u a i . co m . b r

FOTOS: RENATO WEIL/EM/D.A PRESS

A ESPERANÇA Estudante do segundo ano do ensino médio, Pétala Costa Ribeiro, de 17 anos, quer ser exceção no bairro onde apenas 0,37% dos jovens freqüentam o curso superior. “Quero algo na área de medicina, sei que por isso precisarei estudar um bocado”, afirma a menina, que trabalha em uma loja de roupas da família, no Jardim Vitória, na Região Nordeste. O bairro registrou 70 homicídios desde 2005 e Pétala viu muita gente morrer. Antes, ela tinha pesadelos. “Agora virou coisa normal, não tem mais aquela surpresa”, afirma. Há alguns meses, um homem foi baleado na cabeça, na esquina da rua de sua casa. Ela e várias pessoas correram até o local e perceberam que a vítima ainda respirava. “Ele ficou lá sozinho, muito tempo, até o amanhecer”, conta. Depois do episódio, a irmã de 15 anos passou a ter medo de sair de casa.

VIDA NOVA Daiane Ferreira da Silva, de 19 anos, garante não sair de perto da filha Grace Kelly, de 1 ano. Ela é moradora do Bairro Taquaril, na Região Leste, onde foram registradas 58 mortes entre janeiro de 2005 e maio de 2008. O bairro tem o pior índice de mortalidade até os 5 anos de BH: 54 crianças por mil. O número é dez vezes maior que o do Sion, na Região Centro-Sul (5,5 por mil). Moradora do bairro há 10 anos, ela teve uma grande amiga assassinada nos últimos anos. “Quando tem tiro, fico quieta dentro de casa, mas a polícia só passa aqui na porta depois que acontece”, reclama. Ela parou de estudar na oitava série e, embora já tenha sonhado em estudar direito, não se imagina de volta à sala de aula. Ela cuida dos três irmãos mais novos, durante o dia, enquanto a mãe trabalha como empregada doméstica no Região Centro-Sul.

Violência desigual  

Reportagem do Estado de Minas com base em dados da Divisão de Crimes contra a Vida, da Polícia Civil, mostra que apesar dos avanços sociais...