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2ª EDIÇÃO ●

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SONHO Faz cinco anos que a polícia britânica, em caçada a suposto terrorista, fuzilou um inocente: Jean Charles de Menezes. Durante 40 dias, repórter do Estado de Minas refez em Londres os passos do jovem mineiro. Também visitou Gonzaga (MG), onde familiares de Jean ainda tentam superar a dor da perda. A jornada será contada em série de reportagens que começa hoje. THIAGO HERDY Enviado especial

Londres e Gonzaga (MG) – “Mãe, um dia, a nossa vida vai mudar”. Oito anos depois de ter ouvido a profecia, Maria Otoni de Menezes, de 65 anos, continua morando na casinha de três quartos, lá para os lados do Jorge dos Neca, ou Córrego dos Ratos, na zona rural de Gonzaga, no Vale do Rio Doce, a

306 quilômetros de Belo Horizonte. Ainda hoje ela faz tudo igual, tudo como antes. Cuida da plantação de palmito e cana, logo cedo ordenha a vaca, faz o queijo, reza de dia, reza de noite, em indiferente sossego. O filho Jean Charles errou. Menino que não resiste ao apelo do desconhecido e deixa sua terra rumo ao estrangeiro não tem opção: paga sempre o mesmo preço – a saudade que leva, a saudade que deixa. Dona Maria já havia se acostumado com a situa-

ção. Mas, há cinco anos, quando seu garoto voltou, chegaram com ele câmeras de TV de diferentes partes do mundo. Milhares de pessoas surgiram sabe-se lá de onde. O prefeito, dois ministros, um secretário de Estado, um senador... Daí em diante, tristeza maior tomou conta de dona Maria, e quase tudo virou “motivo de trabulação” (aborrecimento). O filho Jean Charles acertou a profecia. A vida mudou muito. Mas teria sido melhor se ele tivesse errado.

INF ORMÁTICA Ameaça ao netbook iPad impulsiona vendas e tablets ganham espaço

EM ★

Com dupla missão

Férias diferentes

Chico César se dedica ao palco e ao gabinete

A bola da vez são os esportes com prancha

CASO BRUNO

Investigador foi quem filmou o goleiro em avião OAB não vê motivos legais para a polícia ter feito gravação do vídeo. PÁGINA 30

Galo de novo na ZONA DA DEGOLA Diego Souza abre placar, mas Alecsandro (E) faz dois e garante vitória do Internacional por 2 a 1 em Sete Lagoas. CRUZEIRO E FLU PROMETEM UM JOGO CHEIO DE EMOÇÕES

JORGE GONTIJO/EM/D.A PRESS

CONTINUA NAS PÁGINAS 29, 32 E 33

MELISSA BALSA/DIVULGAÇÃO

ARTE: JANEY COSTA

O ASSASSINATO DE UM

TCU suspende maior obra viária da Copa em BH

PREFEITOS NA MIRA MP VAI INVESTIGAR O USO DE CARRO OFICIAL EM CAMPANHA

PÁGINA 31

Filho de Hélio Costa abre crise de ciúme na base aliada PÁGINA 8

ISSN 1809-9874

Endereço na internet: www.uai.com.br/em.htm Assinatura Uai: 0800 031 5000 Assinaturas e serviço de atendimento: Belo Horizonte: (31) 3263-5800 - Outras localidades: 0800 031 5005

99 771809 987052

PÁGINA 11


ESTADO DE MINAS ● Q U I N T A - F E I R A ,

GERAIS

OBRA PARA COPA SOB AMEAÇA TCU acusa gastos desnecessários superiores a R$ 300 milhões em projeto de revitalização do Anel Rodoviário e manda parar licitação. PÁGINA 31

BEN STANSALL/AFP - 29/11/08

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2 2 D E J U L H O D E 2 0 1 0 ● E D I TO R : A r n a l d o Vi a n a ● E - M A I L : ge ra i s . e m @ u a i . co m . b r ● T E L E F O N E S : ( 3 1 ) 3 2 6 3 - 5 2 4 4 / 3 2 6 3 - 5 1 0 5 ● FA X : ( 3 1 ) 3 2 6 3 - 5 0 2 4

ESPERANÇA DESFEITA

A BALA SONHO

MARILENE RIBEIRO/ESP.EM

THIAGO HERDY

Enviado especial

CONTINUAÇÃO DA CAPA

Londres e Gonzaga (MG) - Ao embarcar pela primeira vez em um avião para seguir rumo a Londres, em março de 2002, o menino de dona Maria Otoni tinha 24 anos e levava na mochila um projeto grandioso: trabalhar e juntar, na capital da Inglaterra, dinheiro que não imaginava ser capaz de ganhar no Brasil, para ajudar a família. O plano deu tão certo que ele voltou e buscou os primos que só esperavam o apoio de alguém para pôr a mesma ideia em prática. Mas, três anos depois, seu sonho se transformou em um pesadelo que ainda assombra a Polícia Metropolitana de Londres e a opinião pública inglesa. O mineiro Jean Charles de Menezes foi assassinado por policiaisbritânicoscomoitotirosdisparadosàqueima-roupaemumvagãodometrôlondrino,em22dejulhode2005, aos27anos.ElefoiconfundidocomoterroristaetíopeOmar Hussein, naquela que ficou conhecida como uma das mais desastrosasoperaçõespoliciaisdahistóriadapolíciainglesa, atéentãocelebradacomoamaiseficientedomundo.Cinco anos depois do incidente, completados hoje, nenhum policial foi afastado ou sofreu punição pela morte do rapaz. Nas semanas seguintes ao ocorrido, brasileiros que moramemLondresforamàsruasprotestarcontraoassassinato do conterrâneo. A indignação se manteve nos anos seguintes,comojulgamentodocasoeaabsolviçãodosenvolvidos. Mas, pouco a pouco, a vida foi voltando ao normal. A interrupção abrupta da caminhada de Jean pouco ou nada atrapalhou os sonhos de outros tantos brasileiros que escolheram a capital da Inglaterra, cidade mais cosmopolita e eclética do planeta, para fazer dinheiro, melhorar a vida, co-

nhecerooutro,ou,simplesmente,sesentirpartedomundo. Mineiros, gaúchos, goianos, baianos, paulistas e brasileiros de outras regiões. Já são 200 mil nas projeções do DepartamentodeGeografiadaQueenMaryUniversity.Épossível encontrá-los, principalmente trabalhando em bares, construções, restaurantes, salões de beleza. Eles estão em lojas de comida brasileira, tocadas por mão de obra tupiniquim. Na últimadécada,brasileirosapontaramo caminhoe construíram praticamente um país paralelo. Um Brasil para sonhadores, que pulsa em meio a uma gama de outros povos, culturas e religiões de todos os cantos do mundo, reunidos na cidade mais populosa da Europa. O Estado de Minas foi a Londres refazer a trajetória do imigrante que busca esse outro Brasil – com tudo de bom e ruim que pode haver nele –, assim como fez Jean Charles em 13 de março de 2002, dia em que atravessou o Atlântico pela primeira vez dentro de um avião. Durante quase 40 dias, o EM vivenciou os riscos de uma vida na ilegalidade. Sentiu na pele as agruras da busca pelo primeiro emprego e a adaptação à cidade mais globalizada da Terra e recorreu às manobras de quem não quer correr o risco de ser posto em um avião de volta para o Brasil. “Se você for esforçado, Londres abre oportunidade. Não é mais possível formar fortuna. Mas ainda dá para fazer muita coisa por aqui”, avisou-me a brasileira Patrícia Armani, que morava com o primo Jean Charles quando ele foi assassinado e ainda batalha por dias melhores, logo quando cheguei à cidade. O EM conheceu de perto casos de sucesso, colheu relatos de decepção. Histórias e impressões que serão contadas em uma série de reportagens que começa a ser publicada hoje.

LEIA MAIS SOBRE O CASO JEAN CHARLES – PÁGINAS 32 E 33

ASSIM COMO FEZ JEAN CHARLES QUANDO CHEGOU À INGLATERRA, REPÓRTER TRABALHA COMO FAXINEIRO EM LOJA NO SUL DE LONDRES


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NOS PASSOS DE JEAN PARA ENCOBRIR O CRIME BÁRBARO, RESULTADO DE UMA OPERAÇÃO MAL CONDUZIDA, A POLÍCIA LONDRINA TENTA TRANSFORMAR O JOVEM EM CULPADO DE SUA PRÓPRIA MORTE

TRAGÉDIA FANTASIADA THIAGO HERDY Enviado especial

CAOS Mesmo com a polícia no seu

2005

CRONOLOGIA DO CASO

encalço, Jean Charles não foi abordado. Posteriormente, as investigações mostrariam que, naquele momento, oficiais e comandados tinha dificuldade de comunicação e não conseguiam confirmar a identidade do suspeito, elementos que tornavam a operação caótica e desorganizada, na avaliação dos investigadores. Em uma sala de controle na sede da Scotland Yard, a policial Cressida Dick comandava a operação e era a única autorizada a determinar a detenção de Jean ou sua execução. Quando Jean estava a poucos minutos de Stockwell, um agente da equipe de vigilância, que chegou antes ao local, informou estar apto a deter o suspeito. Mas, a ordem para abordá-lo não veio. Jean entrou calmamente na estação. Pegou um jornal gratuito na entrada, passou seu cartão de transporte na catraca, desceu as escadas e sentou-se no segundo vagão de um trem da linha Northern. Por quase dois minutos, Cressida ainda pensava no que fazer. Determinou aos agentes que parassem o suspeito apenas quando representantes da elite arma-

da da polícia inglesa chegassem ao local. Na cabeça dos policiais armados, que não participavam da operação desde o início, o suspeito já teria sido identificado como o terrorista. Eles desceram a estação correndo e chegaram a tempo de achar Jean dentro do vagão. Nas mãos, armas com munições especiais, apelidadas “dum dum” – feitas para explodir dentro do alvo e causar dano máximo, por isso proibidas por convenções internacionais de guerra. Jean foi morto ali mesmo, sem chance de esboçar reação. As primeiras notícias divulgadas pela polícia apontavam o suspeito baleado como culpado pelo ocorrido. “Agentes da Scotland Yard mataram a tiros, ontem, um homem que agia de modo suspeito na estação de Stockwell. Testemunhas disseram que houve pânico quando o suspeito, de aparência asiática, saltou sobre as barreiras ao ser perseguido por oito ou nove policiais armados, que, em seguida, o cercaram e o balearam”, diziam as primeiras notícias do episódio. Em coletiva de imprensa, cerca de quatro horas depois da execução, o comissário de polícia, sir Ian Blair, disse que “o homem desobedeceu à ordem de parar e às instruções dadas pela polícia”. Comunicado oficial divulgado na mesma tarde informava que “as roupas e o comportamento dele, na estação, eram suspeitos”. Em entrevista à BBC, uma testemunha que estava no vagão, Mark Whitby, de 47 anos, jurou ter visto o rosto do suspeito na hora em que ele entrou no trem, olhando de um lado para o outro. “Ele parecia um coelho ou uma raposa encurralada, com olhar petrificado”, descreveu.

AS FALHAS MAIS GRAVES DA SCOTLAND YARD

FIOS Outra testemunha, o assistente

social Anthony Larkin, disse que o homem parecia “ter um cinto de explosivos com fios à mostra”. No dia seguinte, quando veio à tona a identidade do suspeito, a versão não se alterou. Jean teria sido assassinado por supostamente ter se recusado à ordem da polícia de parar. Fontes do governo davam declarações em off à imprensa, insinuando que o brasileiro vivia ilegalmente no país e, por isso, teria corrido dos agentes. Mas, a suposta ilegalidade não existia. Jean havia entrado novamente no país havia apenas três meses, prazo de permanência permitido a quem visita o Reino Unido. O então primeiro-ministro Tony Blair lamentou a morte do brasileiro, mas disse, também, ser preciso compreender que “a polícia estava trabalhando em circunstâncias complexas”. O prefeito de Londres, Ken Livingstone, afirmou que Jean era “vítima da ameaça do terrorismo à capital”. O ministro do Interior, Charles Clarke, chegou a fazer um elogio à força: “A polícia está atuando sob impressionantes condições para fazer julgamentos difíceis. Por isso, a parabenizo”. A farsa policial e a verdadeira dimensão do erro da ação só veio à tona 26 dias depois, quando a funcionária da Comissão de Queixas contra a Polícia (IPCC, na sigla em inglês), Lana Vanderberghe, de 48 anos, teve acesso às imagens do metrô que mostram o brasileiro entrando calmamente na estação. Indignada, ela passou as imagens ao namorado de uma amiga, que era jornalista, e ele divulgou o material. Para a opinião pública, o episódio ganhava outra dimensão. Mas, o estrago produzido pela polícia para justificar a ação desastrada já estava feito. A versão pública se sobrepôs ao fato.

● 22/7 – Agentes da Scotland Yard atiram em um homem na estação Stockwell do metrô londrino. O comissário Ian Blair afirma que o tiroteio está "diretamente relacionado" à operação para deter terroristas que tentaram, um dia antes, detonar bombas na capital. ● 23/7 – A polícia admite que o ho-

mem baleado era inocente e o identifica como Jean Charles de Menezes, um brasileiro, de 27 anos, eletricista. ● 24/7 – Ian Blair pede desculpas e admite sua total responsabilidade pelo ocorrido, mas defende a tática de "atirar para matar" nos casos de terroristas suicidas. ● 16/8 – ATV britânica divulga docu-

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FOTOS DO VERDADEIRO TERRORISTA NÃO CHEGARAM. A polícia obteve outras imagens do verdadeiro terrorista, o etíope Osman Hussein, mas elas não chegaram às mãos dos agentes nas ruas. As imagens chegaram a ser entregues na sede da Scotland Yard, mas ficaram esquecidas.

JEAN NÃO FOI PARADO ANTES DE ENTRAR NO ÖNIBUS PARA BRIXTON. O policial responsável por gravar a entrada e a saída de pessoas do prédio suspeito urinava no momento em que Jean saiu, por isso não foi capaz de identificá-lo. Os policiais tiveram várias oportunidades para abordá-lo, mas apenas o seguiram, inclusive entrando com o suposto alvo dentro do ônibus. A equipe de vigilância esperava uma ordem da sala de comando, que não veio.

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mentos informando que Jean Charles não teve conduta suspeita. O brasileiro entrou andando, validou seu bilhete e até pegou um exemplar de um jornal gratuito antes de subir ao vagão. ● 21/9 – A ex-funcionária da Comissão de Queixas contra a Polícia (IPCC), Lana Vanderberghe, é presa sob a acusação de vazamento de in-

CONFUSÃO NA COMUNICAÇÃO E NA IDENTIFICAÇÃO DO SUSPEITO. A força-tarefa criada para combater a nova ameaça que se instalou na Inglaterra contava com agentes que, aparentemente, não falavam a mesma língua. Agentes da equipe de vigilância e da Policia Metropolitana usavam códigos diferentes para se referir às características do suspeito. Em vez de rádios comunicadores capazes de funcionar dentro da estação do metrô, os agentes usavam telefones celulares.

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COMANDO LENTO. A comandante da operação, Cressida Dick, demorou para tomar uma última decisão na porta do metrô. Em depoimento, os policiais da vigilância disseram estarem aptos a parar Jean sem uso de violência ou risco à população. Mas, a ordem de Cressida para detêlo veio tarde demais, quando Jean já estava nas escadas do metrô.

formações sigilosas à imprensa. Ela foi liberada depois de pagar fiança. ● 28/11 – A IPCC anuncia que investigará também Ian Blair em resposta à queixa oficial apresentada pela família do jovem, que acusa o comissário de "enganar" na sua versão do fato. Blair é inocentado no ano seguinte.

2006

Londres e Gonzaga (MG) - Os algozes de Jean Charles de Menezes não foram apenas policiais que deram oito tiros à queima-roupa dentro da estação de metrô de Stockwell, no sul de Londres, quando pensavam estar mirando um terrorista prestes a explodir tudo. O brasileiro foi vítima também de uma fantasiosa versão divulgada pela polícia e mantida por quase um mês depois do incidente, segundo a qual ele próprio teria sido culpado. Naquela manhã de 22 de julho de 2005, Jean saiu de casa sem imaginar que, do outro lado da rua, policiais em uma van filmavam todos que entravam e saíam do prédio onde vivia em Scotia Road, pacata rua de Tulse Hill, no Sul de Londres. O motivo: no início daquele mês, atentados em três estações de metrô e em um ônibus resultaram na morte de 56 pessoas. Terroristas tentaram repetir o feito duas semanas depois, mas os artefatos deixados em outros quatro pontos da cidade não explodiram. Dentro de uma mochila com uma bomba desativada, a polícia achou documentos do etíope Omar Hussein, verdadeiro alvo da operação policial posta em curso poucas horas depois dos ataques frustrados. Ele morava no mesmo prédio de Jean. Quando o mineiro deixava o prédio naquela manhã de sexta-feira, passou a ser tratado como suspeito por causa de uma banalidade: o agente escalado para observá-lo simplesmente resolveu urinar no momento em que ele saía. Por isso, não foi capaz de dizer se Jean era o homem procurado, de acordo com as informações do inquérito que investigou o episódio. Nos 33 minutos seguintes, a polícia cometeu uma série de erros que culminaram no trágico assassinato. Jean estava atrasado para um trabalho que havia combinado com um amigo: instalação de um sistema de alarme em um edifício do outro lado da cidade, no Norte de Londres. Saiu de casa apressado em direção ao ônibus que o levaria à estação de metrô de Brixton. Seguido por agentes da Scotland Yard, o brasileiro embarcou no coletivo, mas achou a estação fechada. Ele retornou ao ônibus e continuou a viagem até o outro ponto de metrô mais próximo: a estação de Stockwell.

ALESSANDRO ABBONIZO/AFP - 17/8/05

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POLICIAIS NÃO DERAM ORDEM PARA O BRASILEIRO PARAR. As 17 testemunhas que estavam dentro do vagão onde Jean Charles foi assassinado disseram não ter ouvido qualquer alerta dos policiais à paisana à vitima, antes dos disparos. Os policiais tiveram tempo suficiente para observar o comportamento do brasileiro e avaliar se ele apresentava risco ou não.

● 19/1 – A IPCC remete à Procuradoria seu relatório sobre a morte do brasileiro. A comissão recomenda acusar de homicídio dois agentes e uma oficial pela execução de Jean Charles. ● 17/7 – A Procuradoria anuncia sua decisão de processar a polícia de Londres, em virtude da cha-

mada lei de segurança e higiene no trabalho, mas não apresenta acusações contra os agentes. ● 5/12 – Parentes do jovem pedem a revisão da decisão da Procuradoria e alegam que não processar agentes é uma violação aos direitos humanos. O pedido é rejeitado pela Justiça britânica.


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NOS PASSOS DE JEAN A BARREIRA INICIAL PARA QUEM DESEJA ENTRAR NA INGLATERRA EM BUSCA DE TRABALHO É UM SISUDO OFICIAL. PARA COMEÇAR A VIAGEM NA TRILHA DO MINEIRO, É PRECISO ULTRAPASSÁ-LO FOTOS THIAGO HERDY/EM/D.A PRESS

NA FILA DA IMIGRAÇÃO, DÚVIDAS ATORMENTAM QUEM DESEMBARCA NA CAPITAL INGLESA, COMO A PAULISTA DAVINA CARAN, POR CAUSA DO RIGOR DO OFICIAL. ELE TEM UM VASTO QUESTIONÁRIO RECHEADO DE PERGUNTAS QUE SÃO UMA VERDADEIRA ARMADILHA

O PRIMEIRO OBSTÁCULO JACKSON ROMANELLI/EM/D.A PRESS

PERGUNTAS INDISCRETAS Oficial: Gostaria de saber qual o propósito da visita de vocês a Londres... Davina: Turismo, meu filho vive aqui... Oficial: Por quanto tempo a senhora vai ficar aqui? Davina: 40 ou 50 dias. Oficial: Por que vai ficar tanto tempo? Davina: Meu filho mora aqui.. Oficial: Há quanto tempo seu filho vive aqui, o que ele faz? Davina: Não sei falar, tá escrito em inglês aqui (nervosa, aponta para o carta do filho e o oficial ignora o papel). Oficial: É importante que a senhora responda às perguntas. Davina: Ele trabalha aqui, tem passaporte português.. (...) Oficial: O que você faz no Brasil? Davina: Sou empresária. Oficial: Como você vai se sustentar ficando 50 dias afastada do seu trabalho? Davina: Tenho dinheiro e o cartão de crédito (ela mostra ao oficial). Oficial: Você pretende trabalhar ou estudar aqui no Reino Unido? Davina: Não. (...) Oficial: Você conhece alguém mais no Reino Unido? Davina: Não. Oficial: O que o seu filho está estudando aqui? Davina: Inglês. Oficial: Como aprender inglês vai ajudar no futuro dele e na carreira dele? Davina: Muito.. ele faz hotelaria e turismo. (...) Oficial: Quantas horas por semana ele trabalha? Davina acena a cabeça, sinalizando que não sabe.

● 1º/11 – O júri do tribunal londrino declara a Scotland Yard culpada por violar a lei de segurança e higiene no trabalho no episódio. O juiz aplica à polícia uma multa equivalente a US$ 364 mil. Na prática, foi a única punição imposta aos acusados.

PORTA FECHADA PARA O PRIMO Gonzaga (MG) – A aparência franzina de Alex Pereira, de 33 anos, primo de Jean Charles de Menezes, esconde um verdadeiro leão ainda indignado com o assassinato daquele que considerava seu melhor amigo. Nos últimos cinco anos, ele foi o principal portavoz da família perante a imprensa e a Justiça, na luta pela punição dos autores do crime. Mas, seu grito foi abafado em abril deste ano, quando foi impedido de entrar na Inglaterra: teve o visto recusado e, sem opção, pegou o primeiro voo de volta ao Brasil. “Eu tô, tipo, expulso, né? Na última vez que fui lá, eles me voltaram. Fui repatriado”, diz o brasileiro, meio sem graça, sem querer dizer que ficou chateado, repetindo várias que voltou para casa “rindo à toa” e que ser repatriado é rotina na vida dos jovens do Rio Doce que sonham em construir outra vida fora do país. Mas, depois de 20 minutos de conversa, a mágoa transparece. “Quer saber, eu acho isso um desaforo, depois de tudo o que aconteceu”, diz o mineiro, que

tinha visto especial para acompanhar o caso do primo e, com a conclusão do processo, passou a ser considerado mais um potencial imigrante ilegal em Londres. Alex reclama dos primos que ficaram na Inglaterra e não o ajudam a conseguir alguma intervenção para obter o visto. Ele queria que eles procurassem o recémeleito vice-primeiro-ministro britânico, o liberal Nick Clegg, que se solidarizou com a luta da família Menezes e teria prometido intervir em favor dos parentes de Jean, em caso de dificuldade com a imigração. Hoje, Alex trabalha na construção de um prédio, às margens da BR-259, em Virginópolis, a 29 quilômetros de Gonzaga. A obra é um pouco diferente daquelas em que o empregavam em Londres, porque, no final, o imóvel será seu. Ainda assim, a proibição da sua entrada em Londres não significa o fim do sonho de viver na Inglaterra. “Se precisar juntar dinheiro, até ilegal, eu vou. Mas, por vontade minha, vou lá mais nunTH) ca”. (T

LEIA AMANHÃ: A DIFICULDADE NA BUSCA DO PRIMEIRO EMPREGO

● 22/9 – Começa uma investigação pública sobre a morte de Jean Charles, a pedido da família do brasileiro. ● 2/10 – Sob pressão, o então comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair, pede demissão. ● 2/12 – O juiz da investigação pública do caso, Michael Wright, afirma que o júri não poderá emitir veredicto de homicídio

injustificado; deverá se pronunciar entre homicídio legal ou veredicto aberto. A família de Jean Charles protesta. ● 12/12 – O júri da investigação pública emite "veredicto aberto", uma das duas opções dada pelo juiz Michael Wright. Com a sentença, o júri deixou claro que a morte do jovem não foi homicídio justificado.

2009 / 2010

● 19/2 – Comandante da operação desastrada, a policial Cressida Dick é promovida ao quarto posto mais alto da Policia Metropolitana. ● 11/5 – A IPCC anuncia que 11 envolvidos na morte do mineiro Jean Charles não serão punidos.

Em média, sete brasileiros são mandados de volta para casa diariamente apenas em Heathrow, de acordo com o levantamento do Home Office, departamento responsável pela política de imigração inglesa. O governo britânico informa que a recusa de autorização para entrada no país atinge em torno de 8% dos pedidos feitos por imigrantes provenientes das Américas. Encerrada a entrevista à mulher, é a minha vez de passar pela sabatina. Dou sorte, o oficial ficou agradecido pela ajuda nos minutos anteriores e, por isso, não entro na estatística de repatriados. Quatro perguntas simples sobre meu emprego e 32 segundos depois eu pego minhas malas, pronto para começar uma nova vida na capital inglesa. (TH)

2008

2007

Londres - São 16h de uma quarta-feira no Aeroporto de Heathrow. Acabo de desembarcar para iniciar minha trajetória pelos caminhos percorridos por Jean Charles na capital inglesa. Surge meu primeiro desafio: um frio e intransigente oficial de imigração pela frente. O que será que ele vai perguntar? A dúvida martela a cabeça enquanto espero na fila o momento da entrevista que definirá minha entrada ou não em Londres. Dez entre 10 brasileiros que chegam à cidade para fazer a vida, e não turismo, sentem a mesma insegurança. Quem está disposto a ficar mais de seis meses é obrigado a pedir o visto antes de sair do Brasil, para não correr o risco de perder a viagem. É preciso enviar informações, como endereço de estada, propósito da viagem e, mais importante, comprovar ter em sua conta pessoal dinheiro suficiente para pagar as contas no período que permanecer na Inglaterra. Eu não precisava me arriscar a pedir o visto no Brasil. Viajei disposto a receber a autorização de permanência de seis meses no país. Em tese, sem direito a trabalhar ou estudar, assim como fazem os brasileiros que chegam pela primeira vez à Inglaterra. As dúvidas sobre o que dizer ainda pairam sobre minha cabeça quando um oficial de imigração pergunta, à fila, se há algum voluntário disposto a ajudá-lo como tradutor na entrevista com duas brasileiras que não falam inglês. Para aproveitar a chance de registrar uma abordagem, topo o convite. Dona de restaurante, a paulista Davina Caran viajava a Londres com a sobrinha para ver o filho de 27 anos, há cinco morador do Velho Continente. Nas mãos ela traz uma carta escrita pelo rapaz, em inglês, com informações como endereço de estada e propósito da viagem da mãe. O oficial ignora o documento. E, em interrogatório que dura seis minutos, submete a mulher a nada menos que 21 perguntas a respeito de sua vida pessoal e financeira. O conjunto de questões é como armadilha, que, diante do menor vacilo, pode fechar os portões da capital inglesa (veja o quadro). O que você faz em seu país? Quanto tempo vão ficar? Como vão se sustentar ficando 50 dias longe do seu país? Pretende trabalhar aqui? Tem o bilhete de volta para mostrar? Ao final, quando é informado que o filho de Davina trabalha em Londres, o oficial ainda aconselha a mulher a conversar com o rapaz e avisá-lo: “Se ele trabalhar mais horas que o permitido pelo visto, estará extrapolando suas condições. Estará sujeito a multa de 10 mil libras (R$ 28,6 mil) e prisão de dois anos”, afirma, em tom grave, antes de completar: “Responsabilidade de trabalho não se restringe aos empregadores, serve também para os empregados”. O oficial autoriza a entrada das duas no país.

● 26/6 – Estreia o filme Jean Charles, com Selton Melo no papel do brasileiro. ● 23/11 – Jornais ingleses noticiam que a família de Jean Charles de Menezes fechou acordo para receber 100 mil libras (R$ 286 mil) de indenização da Polícia Metropolitana de Londres.

● 20/12 – A policial Cressida Dick é condecorada pela rainha Elizabeth II por seu trabalho "de distinção" na Polícia Metropolitana.

● 28/5 – O ex-comissário Ian Blair é indicado para a Câmara dos Lordes britânica.


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ARQUIVO PESSOAL

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NOS PASSOS DE JEAN

A dura vida de clandestino em Londres Repórter vive e relata a saga de brasileiros na busca do primeiro emprego THIAGO HERDY Enviado especial

Londres – Quando o mineiro Jean Charles de Menezes desembarcou em Londres, em março de 2002, o inverno estava perto do fim e, com ele, ia embora o desalento que toma conta da maioria dos ingleses quando estão submetidos a apenas oito horas diárias de claridade, entre as 8h e as 16h. O brasileirotinhadinheiroparapagarapenasummêsdealuguelebuscava,a

qualquer custo, uma forma de sustento. “O primeiro ano foi difícil, ele nem dominava a língua. Lavou prato em restaurante, fez cleaning (limpeza), lavou carros”, lembrou a prima Patrícia Armani. A oferta de trabalho na cidadeeraboa,tantoquenosmesesseguintesJeanconvenceriaPatríciaeosprimos a seguirem o seu caminho. Hoje, oito anos depois, arranjar trabalho em Londres não é mais uma questão de estalar os dedos. A crise econômica ainda assombra os ingleses e, quando isso acontece, o excesso de mão de obra estrangeira volta a ser tratado como problema de Estado.

Lavando pratos, o primeiro bico

WALLACE TEIXEIRA/PHOTOCAMERA

CONTINUA NA PÁGINA 26

Cruzeiro perde jogo e chance de ir ao G4 Time celeste joga melhor o primeiro tempo, mas não marca. Resultado: perdeu a partida em cabeçada de Leandro Euzébio, depois de escanteio batido por Conca (foto). O Fluminense é o novo líder do Brasileiro. O Cruzeiro caiu para a sétima posição.

GIGANTESTENTAM BARRAR AÇO BARATO PARA CONSTRUÇÃO As grandes siderúrgicas instaladas no país recorreram à Justiça para impedir a importação de vergalhões (barras de aço para a construção) da Espanha. O Tribunal de Justiça do Espírito Santo acatou ação do Instituto Aço Brasil e suspendeu por 10 dias a venda do produto espanhol, que chega ao país com preço de 10% a 15% mais baixo do que o dos grupos Gerdau, ArcelorMittal e Votorantim. Condenadas por formação de cartel em 2005,elescontrolamaproduçãodevergalhõesnopaís.Distribuidoresameaçamdenunciarusinasaosórgãosdedefesadaconcorrência.PÁGINA15

VALDIR FRIOLIN/AG. RBS/FOLHAPRESS

JACKSON ROMANELLI/EM/D.A PRESS

PEDRO MOTTA/ESP. EM

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Tornado arrasa Serra Gaúcha

De peito aberto

Temporal com ventania deixa 13 pessoas feridas e danifica mais de 600 casas. Em Canela (foto), ventos chegaram a 124km/h. Meteorologista diz que fenômeno pode ser classificado como tornado. PÁGINA 12

Cia de Dança Palácio das Artes revela segredos femininos e masculinos em espetáculos hoje e amanhã.

E MAIS... Novo filme de Woody Allen estreia nos cinemas ● Roberta Sá canta em Itabira ● O que rola nos bares e restaurantes

ELEIÇÕES

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Dilma terá mais palanques que PSDB e PV juntos

Fresno contra os rótulos Em novo disco, banda gaúcha busca maturidade. “Estou com 27, não mais 17”, diz o vocalista Lucas Silveira.

CARL COURT/AFP

Na briga por alianças nos estados, petista larga na frente e consegue apoio de 42 candidatos a governador, contra 26 de Serra e 11 de Marina. PÁGINA 3

Depois do silêncio, o riso O TESOURO

MORA AO LADO Arqueólogos descobrem a 900 metros de Stonehenge (foto) uma versão em madeira do monumento pré-histórico britânico. PÁGINA 20

Certo de que a polícia não conseguirá provas para incriminá-lo pelo assassinato de Eliza Samudio, o goleiro Bruno deixou sorrindo o Juizado da Infância e da Juventude de Contagem, na Grande BH. Na prisão, gravação o flagrou dizendo que vai processar o Estado. O promotor responsável pelo processo contra J., o rapaz de 17 anos também investigado pelo sumiço da ex-amante do atleta, afirmou que processará o adolescente por sequestro e cárcere privado, mas não confirmou a acusação de homicídio.

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ANEL RODOVIÁRIO

PBH quer laudo para retomar a licitação da obra Vice-prefeito de BH considera infundada denúncia que levou o TCU a suspender concorrência e espera estudo da Fiemg para retomar a escolha da empresa que tocará obra. PÁGINA 24

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NOS PASSOS DE JEAN NOS PRIMEIROS DIAS EM LONDRES DEU PARA PERCEBER COMO FOI DIFÍCIL PARA O MINEIRO DO VALE DO RIO DOCE, ASSASSINADO PELA POLÍCIA INGLESA, INICIAR A VIDA NO EXTERIOR

VIA-SACRA EM BUSCA DE TRABALHO THIAGO HERDY/EM/D.A PRESS

CONTINUAÇÃO DA CAPA THIAGO HERDY Enviado especial

Londres – O texto carimbado pelo oficial de imigração no passaporte é bem claro: estou proibido de trabalhar durante meu período de permanência. A fiscalização do governo e a multa aplicada em quem emprega ilegalmente estrangeiros assustam comerciantes e donos de empresas. Vejo nos sites de busca de trabalho que mostrar o passaporte é pré-requisito para qualquer entrevista. A solução foi apelar para o jeitinho brasileiro que levo na bagagem, junto com a camisa da seleção, um saco de feijão e minha cachaça. “O cara que faz sanduíches para mim tá precisando de gente. Todos os funcionários dele deram no pé ontem porque rolouumboatodequeoHomeOffice(departamento de fiscalização da imigração) ia baixar por lá”, me contou um amigo brasileiro,quevendesanduíchesemescritórios. “O cara é português, aparece na loja dele”, completou. Comprei um telefone pré-pago e escrevi meu número num currículo de mentira, que fiz às pressas. Adeus, jornalismo. No papel, que entreguei ao português, adicionei novos tópicos ao meu histórico de registro profissional: auxiliar de cozinha, vendedor em lojas e barman. Nem uma linha sobre a condição do meu visto no país. Minha estratégia era enrolar o assunto até onde fosse possível. O português pegou o currículo e prometeu uma resposta, que nunca veio. Em uma gráfica, a dois quarteirões da casa na qual aluguei um quarto, em Islington, no Norte de Londres, imprimi 30 cópias do currículo. Preenchi 12 cadastros de agências de emprego na internet. Durante sete dias, percorri restaurantes, bares e lojas no entorno, para não precisar comprar passe do metrô. A estratégia não deu certo e foi preciso aumentar o raio da busca. Num sábado, 13 dias depois de minha chegada, recebi a ligação de Steve, chefe de cozinha do pub Marquess of Anglesey, em Covent Garden, uma das regiões mais turísticas (e, por isso, sempre cheia) de Londres. Ele precisava de um kitchen porter, cargo de quem lava pratos e limpa cozinhas de restaurantes e bares, uma espécie de faz-tudo. Tinha visto meu currículo na internet e me chamou para uma conversa, no início da tarde de domingo. “O trabalho é pesado, preciso de alguém com agilidade”, avisou. O salário prometido era de 8 libras (R$ 24) por hora. Steve me emprestou uma camisa, um avental listrado e me mandou começar. Enquanto coordenava a cozinha, pediu a um auxiliar que me explicasse o serviço. “Você não precisa esfregar os pratos, limpar demais. Tira o grosso da sujeira, põe o prato no lavador de louça, seca e guarda”, resumiu o rapaz. Apenas cinco pessoas trabalhavam na cozinha, número reduzido para um pub que também é restaurante e funciona nos dois andares de um prédio de esquina. “Quando está muito cheio, a coisa fica apertada”, sinalizou. Comecei a lavar a louça limpando a sujeira com cuidado, como, em geral, fazemos no Brasil. A cada 10 pratos que lavava, 20 apareciam em minha bancada. “Se você continuar assim, não vai dar conta nos dias cheios”, observou o auxiliar. Na bancada, acumulavam-se vasi-

O RITMO É FRENÉTICO NA COZINHA DE UM DOS RESTAURANTES MAIS MOVIMENTADOS DE COVENT GARDEN, BAIRRO TURÍSTICO DO CENTRO DA CAPITAL DA INGLATERRA MARILENE RIBEIRO/ESP.EM/D.A PRESS

SABOR BRASILEIRO Na prateleira tem guaraná, farinha, chocolate, refrigerante, biscoito, revista, chinelo, goiabada, doce de leite, rapadura, livros e CDs. No cardápio, pão de queijo, mandioca frita, frango a passarinho, pastel frito, feijão de tropeiro, moqueca de peixe e feijoada. Os restaurantes e bares tupiniquins em Londres amenizam a saudade gastronômica dos milhares que escolheram o Reino Unido para ganhar a vida. Vez ou outra, aparecem grupos de estrangeiros, levados por amigos brasileiros. Mas, a nacionalidade da maioria absoluta é tupiniquim. Na Lanchonete Brasil, no Norte de Londres, é possível se sentir um pouco mais perto de casa, pelo menos por alguns instantes, depois do trabalho. A novela brasileira na TV deterTH) mina o horário de fechamento da casa de lanches. (T

lhas, panelas, facas, potes de molho de sanduíche, tabuleiros incrustados de sujeira. Não havia trégua. As garçonetes entravam cheirosas e sorridentes na cozinha para despejar dezenas de copos e pratos ao meu lado. Quando não havia espaço, punham até no chão. Optei pelo método de limpeza a jato, torcendo para que, nas horas seguintes, nenhum cliente reclamasse que seu prato de carne com batatas estava com gosto de peixe. A proporção de 10 para 20 virou 10 para

12. O auxiliar me explicou que, além de inverter essa proporção, também era minha função recolher o lixo, varrer a cozinha e passar um pano de 30 em 30 minutos. Quando sai quente das pias, a água na Inglaterra parece corroer as mãos. Mas não dava tempo nem de sentir dor.

PANELÃO Perdi quase 10 minutos ten-

tando limpar a gordura de uma panela em que acredito ter sido preparada comida para 100 pessoas. Fiquei assustado

quando percebi que havia cumprido sete horas de trabalho. Pouco antes de ir embora, fiz ao cozinheiro com sotaque do Leste europeu o estranho pedido de tirar uma foto minha trabalhando.“Essa vai estar amanhã na capa do The Sun”, ele brincou, referindo-se ao tablóide inglês. Ao fim, perguntei ao chefe da cozinha como fui. “It's not so bad (nem tão mal)”, respondeu, prometendo ligar para combinar o horário de trabalho do dia seguinte. Meu telefone não tocou.

LEIA AMANHÃ: HAMBÚRGUER EM WEMBLEY

ENTENDA A SÉRIE O Estado de Minas refez, em Londres, o caminho do mineiro Jean Charles, executado pela polícia inglesa há cinco anos, e desde ontem publica uma série com a experiência do repórter durante 40 dias na cidade europeia. Ele vivenciou os riscos de uma vida na ilegalidade, sentiu o drama na busca por emprego, colheu histórias de sucesso e relatos de decepção. A cada dia, um capítulo da saga será publicado.


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Muricy diz não, e CBF apela para Mano

Menor que disse ter visto ex-amante do goleiro ser morta é acusado de sequestro e homicídio por promotor. Delegado diz que vai indiciar Bruno como mandante do crime. E Fernanda Gomes, namorada do jogador, como cúmplice. PÁGINA 26

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Daniel Carvalho estreia no Galo

Virtual substituto de Dunga, Mano Menezes foi técnico do Grêmio entre 2005 e 2007. O título mais importante de sua carreira foi a Copa do Brasil de 2009, com o Corinthians. QUINHO

ADOLESCENTE DE 17 ANOS VAI RESPONDER PELA MORTE DE ELIZA

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VEM AÍ MAIS UM GAÚCHO

Ricardo Teixeira anuncia pela manhã que Muricy Ramalho assumiria a Seleção, mas é surpreendido com decisão do técnico de ficar no Fluminense. Contrariado, dirigente convidou o treinador do Corinthians para o cargo no início da noite. Mano responde hoje se aceita.

CASO BRUNO

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Atacante é esperança do Atlético para vencer o Avaí hoje, em Florianópolis, e tentar sair da zona de rebaixamento. Pela Série B, o América venceu o Icasa por 2 a 0 e o Ipatinga empatou com a Ponte Preta: 1 a 1. JORGE GONTIJO/EM/D.A PRESS

BH SERÁ 1ª CAPITAL A TER ESTACIONAMENTO PAGO PELO CELULAR COMO VAI FUNCIONAR

BHTrans planeja implantar até o fim do ano serviço de pagamento do estacionamento rotativo pelo celular. O sistema, mais ágil, também permite a fiscais conferir pelo telefone se carros estão autorizados a estacionar (veja quadro) e até gerar multa por meio de impressora portátil.

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Com o telefone, o motorista compra créditos e envia placa do carro a uma central de dados.

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A central registra a compra do faixa azul, válido pelo tempo indicado na sinalização.

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Também com celular, fiscais conferem pela placa se o carro está autorizado a estacionar.

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Agentes podem imprimir multa na hora em caso de falta de créditos ou estouro de tempo.

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CONFIRA A LISTA DOS APROVADOS NO VESTIBULAR DA UFOP NOS PASSOS DE JEAN

CHAPA QUENTE/ Bico para ganhar R$ 126 fritando hambúrguer em Wembley lembra fila do INSS no Brasil

CASAS VALEM OURO NA ZONA SUL DE BH

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Falta de terrenos em bairros nobres de BH leva construtoras a pagar até R$ 7,2 milhões por casarão em lote de 1.200 metros quadrados, em Lourdes. Valorização faz casas cederem lugar a prédios em áreas tradicionais, como no Funcionários (foto). PÁGINA 13

A festa é no parque Hellen e Gabriel se divertem no Parque Lagoa do Nado, um dos que têm programa especial de férias.

“PARA CONFIRMAR, RESPONDA A ESTA MENSAGEM” Duas semanas em Londres, e nada dá certo. Um aviso no celular reacende a esperança do repórter THIAGO HERDY Enviado especial

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Documentário mostra como a web mudou a produção musical

VEÍ CULOS Testamos o Ford Fusion, primeiro modelo híbrido vendido no Brasil

Mostra aborda a relação de Guignard com a arte oriental

Londres – Ao refazer o caminho de Jean Charles, tento me colocar na pele de brasileiros que se aventuram em busca de uma vida melhor. Quase sempre, os primeiros dias são os mais difíceis. Desem-

pregados, desenturmados, sem falar a língua direito. Nesse momento, penso, que importa a opulência e a riqueza de detalhes do Big Ben, a elegância da London Eye, o vigor do Tâmisa, rio que cruza de leste a oeste a cidade onde museus, parques e pubs parecem brotar em ca-

da esquina? Para esses compatriotas que precisam pagar as contas e ainda poupar algum trocado para enviar à família no Brasil, cada hora de descanso é uma hora perdida. No meu caso particular, o trabalho de lava-pratos não vingou. Ao completar duas semanas

sem perspectiva, sinto que, no lugar deles, estaria realmente desesperado. O alento chega numa quarta-feira, em forma de texto, ao meu celular: “Trabalho disponível em Wembley, no sábado, às 16h. Para confirmar, responda a esta mensagem”.

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PSDB

PMDB

TENSÃO

LIQUIDAÇÃO

Anastasia promete metrô até Confins

Hélio Costa diz que fará reforma fiscal

Brasil busca paz entre Venezuela e Colômbia

Lojas de BH dão até 70% de desconto

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NOS PASSOS DE JEAN NA TRILHA DO MINEIRO EXECUTADO PELA POLÍCIA LONDRINA, UM BICO DE R$ 126 PARA FRITAR HAMBÚRGUER DURANTE SETE HORAS EM UM DOS MAIORES TEMPLOS DO FUTEBOL MUNDIAL FOTOS: THIAGO HERDY/EM/D.A PRESS

TORCEDORES INGLESES FAZEM FILA PARA COMPRAR SANDUÍCHES E CERVEJA NO INTERVALO DO AMISTOSO ENTRE MÉXICO E INGLATERRA. O RITMO DE TRABALHO NA LANCHONETE DO ESTÁDIO LONDRINO É AGITADO

CHAPA QUENTE

EM WEMBLEY

CONTINUAÇÃO DA CAPA THIAGO HERDY Enviado especial

Londres – Na procura por emprego nas semanas anteriores, cadastrei meu currículo em 12 agências e apenas em uma deu resultado. Naquela quarta-feira, 16 dias depois da minha chegada à capital inglesa, a mensagem de texto que chegou ao celular era da Berkeley Scott, que se apresenta como uma das maiores empresas de terceirização de serviços da Inglaterra. O trabalho em Wembley, durante o amistoso entre as seleções da Inglaterra e do México, era animador. Além da expectativa de garantir uns trocados, pensava que teria chance de conhecer um dos templos do futebol mundial sem pagar um tostão. O ingresso mais barato para a partida custava 40 libras (R$ 120), quase o mesmo valor que eu receberia por sete horas de trabalho no estádio. A expectativa era conseguir assistir a pelo menos um pedaço do jogo. Um amigo brasileiro que havia trabalhado lá me explicou: “Leve uma carteira de identidade com foto e apareça por lá de calça e sapato pretos. Depois de descer do metrô, siga as placas”. Era bom saber que não precisaria apresentar passaporte. Saí para comprar uma calça preta na Primark, rede de lojas onde roupas básicas são vendidas a espantosos preços baixos. A calça custou quatro libras (R$ 12), três quartos de uma hora trabalhada. Almoço apenas um sanduíche no metrô que segue em direção ao estádio. Quatro horas antes do jogo, poucos torcedores estão na estação de chegada. Um

senhor de barba branca sobe a rampa de acesso aos portões de mãos dadas com uma criança com o uniforme da Inglaterra, em meio a uma multidão de homens que vestem calça e camisa social e levam o paletó no braço. A proporção é de nove negros para cada branco. Eles vão trabalhar como seguranças na partida. Será que ganham mais do que quem fica na lanchonete? Resolvo seguir as pessoas apenas de calça preta, como eu, porque não acho as tais placas de sinalização. Na fila da agência para registrar a chegada ao estádio, encontro africanos, indianos, paquistaneses, americanos e coreanos, entre tantos outros com a origem traçada no rosto. Os mexicanos estavam animados. Afinal, quando teriam uma chance igual de assistir a um jogo da sua seleção em Londres, ainda mais de graça? Os que vieram em grupos conversam animadamente, o tamanho da fila não os assusta. Chega minha vez de ser atendido. O funcionário da agência pega minha carteira de motorista brasileira e apenas anota o nome na ficha. Ganho duas pulseiras de papel para entrar no estádio. “Enjoy it (aproveite)”, ele balbucia, com cara de enfado. Outra fila surge no caminho, novo cadastro para pegar a chave do armário do vestiário. Lá está meu uniforme: camiseta e boné azuis, com o símbolo do estádio grafado no peito e na aba. Todos os pertences pessoais devem ser mantidos em uma sacola de plástico lacrada. Não sei para onde ir, nem o que fazer. Um boliviano me explica que meu lugar de trabalho está escrito em uma das pulseiras no braço: “Box 502”. Subo ao quinto andar e acho meu

REGINA FARIA ACHA GRAÇA NOS SOTAQUES DA COZINHA DE WEMBLEY posto: uma das dezenas de lanchonetes nos corredores de acesso às arquibancadas. Daqui, nem eu nem qualquer mexicano conseguiremos assistir ao jogo. Inevitável sentimento de frustração. Dois indianos que também vestem o uniforme azul explicam minha função: manter os copos de cerveja na boca da máquina sempre cheios e pôr as tortas de carne, de frango e vegetarianas no forno. Uma cartilha explica a temperatura em que devem estar as tortas na hora de tirar a embalagem plástica e dá outras orientações. Se a máquina de refrigerante não completar o copo, deve-se tirar outra bebida e comunicar o ocorrido ao chefe. A temperatura dos salgados deve ser observada de 23 em 23 minutos, não é permitido servir cerveja a menores de 18 anos, nem a pessoas aparentemente alcoolizadas. Pergunto à loira de cabelos ca-

cheados, que está em um dos caixas, de onde ela veio. “Brasil”, ela responde. Luciana desembarcou em Londres pela primeira vez em 2002, mesmo ano em que chegou o mineiro Jean Charles de Menezes. Ficou dois anos. “Com o dinheiro que juntei, paguei um curso de relações internacionais, mas nunca consegui emprego no Brasil”, reclama. Para levantar uma nova quantia, ela voltou no ano passado a Londres. “Tenho cara de nova, mas sou mais velha, ninguém acredita. Fico aqui fazendo trabalho de menininha”, resmunga.

■ BRASILEIRA ENTEDIADA E UMA NUVEM DE GORDURA A uma hora da abertura dos portões do estádio, meus colegas de posto abastecem o forno com minipizzas e salgadinhos. Experimentam alguns, mas param

quando chega o gerente. Ele decide que eu e o ugandense Steven, estudante de engenharia aeroespacial que trabalha ao meu lado, devemos reforçar o time da cozinha de outra lanchonete, no mesmo andar. “Ai, meu Deus, obrigada!”, grita, em bom português, a chefe de cozinha, a brasileira Regina Faria, de 50 anos. Aflita, porque precisava de ajuda para preparar hambúrgueres e o clássico fish and chips inglês (peixe com batatas), ela fica feliz quando digo que sou brasileiro e pergunta meu nome. Ao ouvir a resposta, dispara: “Thiago era o nome do meu sobrinho, mas ele morreu! Mas isso não tem importância, vem cá, você põe oito carnes na chapa, fecha com a tampa, deixa que a máquina se abre sozinha; tire o hambúrguer, guarde nesta vasilha. As meninas fazem o resto”. A garota indiana e a menina da Mongólia cuidam do queijo e do pão. Descendente de italianos, Regina diz que nasceu no lugar errado, ao se referir ao Brasil. Falando em português e, por isso, entendida apenas por mim, ela faz troça com o sotaque dos estrangeiros. “Olhe que coisa estranha esse povo falando inglês”, diz, apontando para a menina que, minutos depois, seria repreendida por ela. “É uma anta mesmo, acabou o pão e ela não me avisa”, murmura. Em três horas, preparo 347 hambúrgueres. No fim do jogo somos obrigados a limpar a cozinha com água quente. Como devo receber desde o momento em que cheguei ao estádio, sete horas de trabalho rendem 42 libras (R$ 126). Depois do serviço, todas as partes do meu corpo fedem a gordura. Ao chegar em casa, entro no chuveiro e ali fico até os dedos das mãos se enrugarem.

L E I A A M A N H Ã : M A N O B R A PA R A N Ã O S E R R E PAT R I A D O

DOIS LADOS O acaso põe sob o mesmo teto brasileiros de diferentes classes sociais e expectativas em relação à vida em Londres. Se uma legião ainda atravessa o Atlântico para trabalhar e juntar dinheiro a todo custo, como fez Jean Charles, há outra que, sob o pretexto de estudar inglês, percorre o mesmo caminho apenas para aproveitar a liberdade longe dos olhos da família. Em uma casa na região deSevenSisters,noNortede Londres, alguns acordam às 6h e trabalham até o fim da tarde, dividindo-se entre dois ou três empregos. Para aoutraparte,dejovensentre 18 e 22 anos, quem manda é o prazer. “A maioria do pessoal acorda às 11h, porque trabalha em pub à noite, mais pra curtir e juntar dinheiro pra dar rolé na Europa”, conta o jovem T., enquanto mexe no laptop no sofádacozinha,deóculosescuros, dentro de casa. É manhã de terça-feira, ele ainda estáderessacadanoiteanterior.“NoBrasil,chegaremcasaàs5h30nãoéfácilquando você mora com os pais”, brinca o rapaz. Perto do meio-dia, um amigo gaúcho acorda, vai paraacozinha.“Bah,quehoras vocês chegaram?”, ele pergunta. T. dá um sorriso maroto e pede para o amigo fazer silêncio, porque acha que a moradora do quarto aoladoaindaestádormindo com um cara que conheceu na noite anterior. “Foi só o cara oferecer uma cervejinha. Quando vi, já estava voltando com a gente para casa”,conta.T.estátristeporque volta em agosto para o Brasil. “Aqui não tem aquela históriadoBrasildevocêpegar uma menina de uma turma de 10 e depois não conseguir pegar mais ninguém da turma”. (TH) ENTENDA A SÉRIE O Estado de Minas refez, em Londres, o caminho do mineiro Jean Charles, executado pela polícia inglesa há cinco anos, e desde ontem publica uma série com a experiência do repórter durante 40 dias na cidade europeia. Ele vivenciou os riscos de uma vida na ilegalidade, sentiu o drama na busca por emprego, colheu histórias de sucesso e relatos de decepção. A cada dia, um capítulo da saga será publicado.


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NOS PASSOS DE JEAN

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O fabricante de identidade THIAGO HERDY

Comer bem sem perder a saúde

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Londres – Três semanas depois da chegada a Londres para refazer o caminho de Jean Charles, ainda não consegui emprego fixo. Sou barrado nas entrevistas por causa do visto de turista. Peço ajuda a um amigo brasileiro e ele sugere: “Ligue para o Flávio, ele resolve isso. Transforma você em italiano ou português, é só escolher”. PÁGINA 32

Alimentos e bebidas com excesso de açúcar, gordura saturada ou trans e sódio viram inimigos públicos em resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

A poucos metros de um policial, brasileiro vende documento português por R$ 150

PAÍS CORRE RISCO DE FICAR SEM CALÇADO E SEM ROUPA Fornecedores de vestuários e calçados começam a enfrentar um problema que pode deixar o consumidor sem variedade desses produtos no mercado, considerados vedetes nas vendas de fim de ano. Diferentemente do ocorrido em 2009, quando a falta de insumos e maquinário enfraqueceu a produção, desta vez, o dilema dos empresários é achar mão de obra qualificada. Só no setor de confecções de Minas, a carência de profissionais é de 20 mil, 10% do contingente empregado no segmento, e há fábricas com entregas atrasadas em até 30 dias.

FEM ININO

& MASCULINO

FRANÇOIS GUILLOT/AFP

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Requinte para gostos distintos Na semana da alta-costura de Paris, coleções para diferentes perfis: da mulher clássica à perua. Mas não falta luxo, como nas criações de John Galliano para Christian Dior (foto).

O OUTRO LADO DO

Olhos fixos e imaginação são os únicos requisitos para uma viagem ao fundo do Rio São Francisco sem sair de BH. Para admirar o poderoso surubim ou o elegante dourado, basta uma visita ao

AQUÁRIO

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Arte de mestre pede socorro Obras de Manoel da Costa Ataíde, gênio do período colonial, como a pintura da capela mor da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Mariana, estão ameaçadas.

Polícia aposta em acareação Delegado quer pôr frente a frente o menor J., de 17 anos, e Sérgio Rosa Sales, o Camelo, primos do goleiro, para reforçar provas do assassinato de Eliza Samudio, num inquérito que pode ter custo alto. PÁGINAS 25 E 27

CRIME BÁRBARO ESPECIALISTAS SUGEREM PUNIÇÃO MAIS RIGOROSA PÁGINAS 28 E 29

intenso trabalho, como a meticulosa limpeza feita pelo mergulhador. PÁGINA 26

ANTONIO CARLOS MAFALDA/MAFALDA PRESS/FUTURA PRESS

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CASO BRUNO

aquário da Fundação Zoobotânica, na Pampulha. Mas, para não perder o encanto, a atração exige

ELEIÇÕES 2010

GALO NÃO AVANÇA E CRUZEIRO BUSCA G-4 Nem com a estreia de Daniel Carvalho (foto), expulso no 2º tempo, o Atlético conseguiu superar o Avaí, ontem, em Florianópolis. Empatou por 0 a 0 e continua na zona de rebaixamento. Já o time celeste promete derrotar o Grêmio hoje, às 16h, na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, para voltar ao pelotão dos quatro melhores.

MANO QUER SELEÇÃO CASEIRA

Presidenciáveis fora dos rincões José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV), os três principais candidatos à sucessão de Lula, privilegiam os grandes centros nas viagens de campanha. PÁGINA 3

CALOTE DÍVIDA DE PETISTA FECHA AGÊNCIA DOS CORREIOS

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NOS PASSOS DE JEAN EM 30 MINUTOS E POR R$ 150, BRASILEIRO QUE VIVE EM LONDRES E JÁ FOI DEPORTADO TRÊS VEZES FABRICA E VENDE IDENTIDADE FALSA PARA TURISTA QUE QUER TRABALHAR NO PAÍS FOTOS: MARILENE RIBEIRO/ESP.EM/D.A PRESS

Estação de Gloucester Road, em Kensington e Chelsea, uma das regiões mais caras de Londres: repórter encontra-se com Flávio na lanchonete da esquina para comprar documento com cidadania portuguesa

NACIONALIDADE FORJADA CONTINUAÇÃO DA CAPA

Diálogos proibidos

THIAGO HERDY

Repórter: Olha, eu preciso de documento só para poder trabalhar. Flávio: Você já sabe o que você precisa já, se é identidade, passaporte, o que você vai precisar? Repórter: Eu acho que a identidade resolve.

Enviado especial

Londres – Depois dos atentados terroristas e da pressão da opinião pública, as políticas de imigração inglesas ficaram mais restritivas e os critérios de concessão de visto foram reformulados. Como não há mais carimbo capaz de garantir a permanência no país por tanto tempo, os trabalhadores ilegais vêm adotando uma outra estratégia: forjar uma nova nacionalidade. Para um cidadão europeu, basta mostrar a carteira de identidade ao empregador para ser contratado. Como preciso de um trabalho fixo, resolvo ligar para o Flávio, como havia sugerido meu amigo. Com evidente sotaque paulista e muita simpatia, ele atende me chamando de mano e pergunta de que documento eu preciso: “Identidade ou passaporte?” “Acho que a identidade já resolve”, respondo, sem muita segurança. Flávio combina um encontro para o dia seguinte. “Vou te mandar uma mensagem com a estação onde a gente se encontra, na Picadilly Line. Traz uma foto, os dados eu pego com você na hora, certo? Você espera meia hora, eu te entrego ela pronta.” A facilidade com a qual a encomenda é oferecida me espanta. Pergunto qual seria a nacionalidade do documento. “Português, italiano, qualquer um”, ele responde. “Qual o preço?”, quero saber. “Cinquenta libras (R$ 150).” Por um valor equivalente ao salário de um dia de trabalho, em média, eu poderia comprar um documento que me permitiria trabalhar no Reino Unido por quanto tempo quisesse. Pergunto a ele sobre a possibilidade de comprar um passaporte. Flávio responde que precisaria de mais tempo para entregá-lo – duas horas – e que custaria 250 libras (R$ 750). “É coisa sensível à luz ultravioleta, com folha de impressão de alta qualidade. Não imprimo com jato de tinta, imprimo a laser. Porque jato de tinta

Documento com foto e dados pessoais fica pronto em pouco tempo você mete no bolso, ele mancha”, explica. Falo com ele sobre meu temor de ter problemas com a fiscalização. Não queria correr o risco de ficar um ano preso na Inglaterra e depois ser deportado para o Brasil. Sou orientado a não andar com o documento no bolso e mostrá-lo apenas uma vez ao empregador. “Depois você guarda”, explica Flávio. Quando desligo o telefone, chega uma mensagem de texto com a estação e o horário do nosso encontro do dia seguinte: Gloucester Road, às 13h. Saio de casa mais cedo para tirar uma foto 3 x 4 e chego 20 minutos antes à estação. Ligo para dizer que o aguardo em uma lanchonete em frente. “Tava dormindo, aguenta só um pouquinho que chego em cinco minutos”, ele responde. Se estará aqui tão rápido, certamente ele mora por perto. A estação de Gloucester Road fica em Kensington e Chelsea, uma das regiões mais caras e sofisticadas de Londres. Ele não demora para aparecer. Usando óculos escuros, reclama do calor quando o verão se anuncia. Pega minha foto, pergunta o meu nome, data de nascimento, nome dos meus pais e altura. “Altura?”, estranho. “Sim, documento português tem altura”, ele explica, rindo. Flávio pede para eu esperar “30 minutinhos”, eu digo que o aguardo na lanchonete. Em pouco tempo ele volta com meu documento impresso,

plastificado e com um carimbo em alto-relevo. “Não olha muito agora, porque tem polícia do outro lado da rua”, ele me alerta, apontando para o outro lado da vitrine. Quando os policiais saem, ele me mostra os detalhes da carteira. “É igualzinha à minha, tenho cidadania portuguesa”, ele conta. Pergunto há quanto tempo ele está em Londres. “Sete anos, mas já fui deportado três vezes. Vou e volto”. “Mas como?”, quero saber. “Ah, fazia uns esquemas, né? Pegava documento de outra pessoa, trocava a foto, e vinha. Da última vez encheu o saco, eu tinha direito à cidadania, corri atrás e tirei.” Hoje ele vive em uma zona luxuosa, pagando um aluguel semanal de 400 libras (R$ 1,2 mil). Trocou o carro na semana passada, mas desconversou quando perguntei qual o modelo. Desde quando desembarcou em Londres pela primeira vez, há sete anos, trabalha com falsificação de documentos. “Fui conhecendo, caí na malandragem, né?”, explica. Indagado sobre quantas carteiras ele produz diariamente, o brasileiro responde genericamente: “ Muitas”. Ele diz atender apenas pessoas com indicação, mas esquece que não citei o nome de qualquer pessoa quando telefonei. Depois que eu pago as 50 libras, nos despedimos e ele vai embora andando, tranquilamente. Volto para casa pensando em como fazer para incorporar um sotaque português à fala.

LEIA AMANHÃ:

Flávio: Então você tem como encontrar comigo amanhã? Repórter: Pode ser amanhã, como a gente se encontra? Flávio: Olha, você faz o seguinte, a linha é a Picadilly Line, você sabe qual que é? Repórter: Tô ligado... Flávio: Então você vai pegar essa linha e vai vir até a estação de Gloucester Road. (…) Aí você traz uma foto, os dados eu pego com você na hora. Você espera meia hora, eu te entrego pronta. Repórter: Meia hora, só? Flávio: É rapidinho. (…) Repórter: E quanto que é? Flávio: 50 (libras, R$ 150). Repórter: Pago na hora? Flávio: Paga na hora. Repórter: Passaporte é mais complicado? Flávio: Não, passaporte demora duas horas para te entregar. Repórter: E quanto que custa? Flávio: 250 (libras, o equivalente a R$750)

CONFIRA NO UAI Ouça o diálogo com o falsificador

Casamento civil garante livre acesso à Inglaterra

UNIÃO DE MENTIRA No casamento de L. e F. sobram padrinhos, troca de alianças e champanhe. Mas falta sinceridade. Para aposentar o passaporte falso e ganhar livre acesso à Inglaterra, L., gay, pagou R$ 20 mil a F., heterossexual, para ser seu marido no papel. A união de mentira foi oficializada no último mês, em um cartório na Grande Londres. “Por ser gay, o casamento aqui é mais fácil, porque eles temem ser acusados de preconceito”, conta L. Ele manterá em sua casa fotos, objetos e roupas do suposto marido, para provar que estão juntos caso alguém os denuncie ao governo. L. pagou pela cidadania europeia para não viver mais o pesadelo dos últimos meses. No início do ano ele teve um desentendimento com um vizinho e recebeu e-mails em que ele ameaçava denunciá-lo. Foi obrigado a mudar de endereço. O problema se repetiu logo depois, quando se tornou sócio de uma pessoa que também sabia de sua condição irregular. “Ela queria me manter naquelas condições, ‘você trabalha para mim barato, senão...’”, conta L. Até amigo dele já foi deportado, em caso semelhante, por causa de outra pessoa que sabia de sua condição ilegal e queria roubar o emprego alheio. Ele lamenta constatar que, muitas vezes, problemas do tipo ocorrem entre compatriotas. “Uma coisa que eu aprendi foi a tomar cuidado com os próprios brasileiros. Às vezes, são eles que atrapalham você e não era para ser assim. A gente tinha que se juntar aqui, para tentar vencer.” Depois do casamento de business (negócio) – forma como os brasileiros nomeiam a união forjada – L. espera ter paz para voltar a ganhar dinheiro e viver a vida na cidade que ele tanto gosta.

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HENRIQUE EVITA DERROTA

Com gols do volante (na foto, o primeiro), o Cruzeiro, que esteve duas vezes em desvantagem no placar, empatou por 2 a 2 com o Grêmio, ontem, na Arena do Jacaré, e se mantém em sexto lugar no Campeonato Brasileiro, com 16 pontos. Domingo, encara o Atlético, penúltimo colocado, com 10, também em Sete Lagoas. Os comandados do técnico Cuca reclamaram do gramado e a diretoria decidiu mudar de estádio quando a equipe tiver o mando de campo. CHRISTOF STACHE/AFP

MARMELADA O feliz Fernando Alonso, vencedor do GP da Alemanha de F-1, e o constrangido Felipe Massa ladeiam Stefano Domenicali, o chefe da equipe da Ferrari, que, na 48ª volta, deu ao brasileiro, até então líder, a indicação para abrir caminho ao espanhol. Escuderia foi multada pela FIA em US$ 100 mil.

MANO MENEZES FAZ A PRIMEIRA CONVOCAÇÃO

TURISTA DÁ CARTÃO AMARELO PARA COPA’2014 EM BH

MARILENE RIBEIRO/ESP.EM

NOS PASSOS DE JEAN

Cidadãos de outras nacionalidades, a passeio ou moradores da capital, apontam deficiências que precisam ser corrigidas para a cidade sediar jogos do próximo Mundial de Futebol. O sistema de transporte, que, de acordo com a prefeitura, receberá investimentos, lidera a lista dos itens reprovados, que inclui telefones públicos e atendimento em bares. Mas a segurança e a hospitalidade do belo-horizontino são bem avaliadas pelos estrangeiros.

Trabalho árduo em loja de móveis

Falso português busca emprego Londres – Quatro semanas depois de desembarcar para refazer o caminho de Jean Charles, a vida engata de verdade. Com identidade de português em mãos, aviso a cada pessoa que encontro pelo caminho que procuro emprego fixo.

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UM BASTA À MATANÇA Familiares de nove pessoas que perderam a vida em um acidente, há um mês, perto do trevo de Caeté, na Grande BH, fecharam ontem a BR-381, a chamada Rodovia da Morte, em protesto contra as péssimas condições de segurança das pistas. PÁGINA 22

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Clássica lembrança Festival que começa hoje na Fundação de Educação Artística, em BH, lembra os 200 anos de nascimento dos gênios Chopin e Schumann.

AGROPECUÁRIO

Doce invasão da melancia Fruta colhida por mineiros começa a desbancar, na Ceasa, concorrente produzida no Nordeste.

ELEIÇÕES’2010

EXPORTAÇÃO

Mensalão não impede candidatura

Comércio muito pobre com a China

Cinco políticos citados como réus em ações que tramitam no STF e na Justiça Federal por suposta participação no esquema concorrem, pela segunda vez, a cargos legislativos sem medo da Lei Ficha Limpa. São eles: José Genoino (PT-SP), Pedro Henry (PP-MT), Valdemar da Costa Neto (PR-SP), Paulo Rocha (PT-PA) e Romeu Queiroz (PTB-MG). PÁGINA 3

O país asiático é o maior importador de produtos mineiros e também o responsável pela parcela mais pobre da receita com vendas externas do estado. Enquanto pagou, no ano passado, US$ 66,75 por tonelada, os argentinos desembolsaram US$ 1,3 mil, ou seja, quase 20 vezes a mais, e a remuneração obtida na Europa Oriental passou de US$ 1,1 mil, em média. PÁGINA 12

REGENERAÇÃO DE TECIDO ÓSSEO Composto descoberto por pesquisadores da UFMG vai facilitar implante dentário e cicatrização em diabéticos. PÁGINA 18

DIREITO &JUSTIÇA ● TRT-MG lança projeto que

vai facilitar o trabalho de advogados.

PASÁRGADA TCE APROVA CONTAS DE PREFEITURAS INCRIMINADAS

CASO BRUNO ACABA HOJE PRAZO PARA POLÍCIA FECHAR INQUÉRITO

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Endereço na internet: www.uai.com.br/em.htm Assinatura Uai: 0800 031 5000 Assinaturas e serviço de atendimento: Belo Horizonte: (31) 3263-5800 - Outras localidades: 0800 031 5005

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GERAIS

NOS PASSOS DE JEAN UMA ROTINA DE TIRAR O FÔLEGO EM UMA LUXUOSA LOJA ITALIANA, ALÉM DE UM BICO MUITO BEM PAGO DE CARREGAR E DESCARREGAR MÓVEIS DE UM CAMINHÃO

TRABALHO PESADO FOTOS: MARILENE RIBEIRO/ESP.EM/D.A PRESS

CONTINUAÇÃO DA CAPA THIAGO HERDY Enviado especial

Londres – Meu lugar favorito no supermercado é o corredor central entre as prateleiras. Lá estão expostos os produtos que vencem nos próximos dias e, por isso, são vendidos por até um quarto do preço original. Naquela terça-feira, eu pegava três pacotes de pão pelo preço de um, quando meu celular tocou. “Você é o mineirinho que tá querendo emprego? Então vem pra cá, mas tem que ser agora”, me disse Glaisson Pinheiro, também mineiro, há 10 anos ganhando a vida em Londres. Saí do supermercado e voltei para casa. Não em um ônibus de dois andares, mas naqueles articulados estendidos, que estão sempre cheios porque as pessoas entram pela porta de trás e conseguem viajar sem pagar. Tomei um banho a jato e peguei o metrô até South Kensington, ao sul de Londres. Pela explicação do caminho, já podia imaginar a categoria do lugar. “Vire à esquerda, caminhe até a loja da Channel. Você vai me encontrar quatro lojas à frente”, disse Glaisson. Ele me esperava na porta da Boffi, uma luxuosa loja italiana especializada em móveis de cozinha e banheiro. “Você fala inglês?”, foi a primeira pergunta. “Sim”, eu respondi. “Menos mal.” Em seguida, ele disparou uma frase depois da outra, como se estivesse atrasado para um compromisso. “Tô te dando isso aqui de mão beijada, tá tudo limpinho. Você tem quatro horas para cuidar, são cinco libras (R$ 15) por hora, mais transporte. Vinte e cinco (R$ 75) por dia, topa?” “É claro.” Recebi as instruções do trabalho em apenas 15 minutos: recolher o lixo, separar os reciclados, aspirar o tapete, colocar copos, talheres e pratos na máquina, guardá-los no armário, limpar vidros, espelhos e passar um pano na privada, escovão na loja toda, usar o mop (espécie de pano molhado) no chão. Esta seria minha rotina pelos próximos 10 dias. “Isso aqui é a Prada dos banheiros e cozinhas. Tá vendo aquela ali?”, ele disse, apontando para uma bancada de pedra com fogão e exaustor, cercada por armários com eletrodomésticos embutidos. “Custa 200 mil libras (R$ 600 mil).” Num ato de confiança que me deixou espantado, Glaisson me entregou as chaves da loja e foi embora. Enquanto eu passava o pano nos espelhos, observava que sujava mais do que limpava. Passei a lavar os panos várias vezes ao dia. Problema resolvido. O espaço era tão grande que resolvi dividi-lo em setores. Além de uma faxina geral, cada dia eu dava atenção especial a uma parte. Meu horário de entrada no serviço era às 18h, quando a loja fechava para o público, e ia até as 22h. Com o tempo fui ganhando agilidade e voltava mais cedo para casa. Muitas vezes, a única companhia era a do arquiteto Francesco, que andava pela loja com um telefone sem fio nas mãos, falando em italiano até altas horas. “Para cuidar de uma loja destas, tenho que trabalhar muito”, ele justificava. Que nada. Logo saquei que Francesco esperava todos saírem para colocar a conversa em dia com sua mu-

lher, que tinha acabado de ter um filho e vivia na Itália. Aparentemente, ele se esquecia que o italiano e o português são línguas, às vezes, muito parecidas. Numa sexta-feira, o encontrei tomando um café expresso na cozinha, logo quando cheguei. “Busy day (dia movimentado)”, ele puxou conversa. “Parece que as pessoas estão cuidando mais do seu dinheiro, não foi um dia fácil para vender. Para gastar 100 mil libras (R$ 300 mil) em uma cozinha, tem que ter muita certeza, não é?”, ele comentou. Pela quantidade de marcas de dedos gordurosos nas pias, espelhos e bancadas, comprovei que, de fato, tinha sido um dia agitado na loja. Não conheci direito os outros funcionários do escritório. Mas sentia-me próximo de quase todos pelos rastros deixados. Como era bonitinha a pequena Giulia, filha do Steven. Gerente da Boffi, ele trabalhava cercado por suas fotos e desenhos feitos com lápis de cor. Queria ter tido a chance de dizer obrigado a uma das duas recepcionistas, mexicana, que colocava todo o seu lixo em um saco plástico, facilitando (e muito) o meu trabalho. Só eu sabia que todos os dias, antes de ir embora, a mesma mulher de lábios carnudos retocava a maquiagem e deixava-me um beijo de batom. Era o primeiro guardanapo no topo da lixeira do banheiro feminino, no fim da tarde, sempre.

Espécie de faxineiro, repórter consegue emprego e tem de recolher o lixo, separar os reciclados, aspirar o tapete e passar escovão ARQUIVO PESSOAL

DINHEIRO VIRA PÓ

MÓVEIS O trabalho na loja me

garantia o aluguel e boa parte das despesas com alimentação em Londres. Mas, para conseguir juntar dinheiro, precisava de mais. Um dia, ao fim do expediente, Glaisson perguntou se eu podia trabalhar no dia seguinte. Sheldon, um inglês que ele conhecia, precisava de uma pessoa para ajudá-lo a descarregar um caminhão de móveis em um shopping de design de interiores. “É trabalho bom, paga 10 libras (R$ 30) a hora. Duvido que você consiga coisa melhor”, ele me disse. Liguei para o Sheldon e combinei de encontrá-lo no shopping. Quando cheguei, ele já descarregava os móveis com três ajudantes. Típico inglês de classe média baixa, ele havia pedido demissão do emprego de motorista e alugado um caminhão para fazer entregas por conta própria. “É sempre bom ter mais alguém por perto”, disse-me Sheldon, que por mais dois dias me convidaria para ajudálo a descarregar e carregar o caminhão com móveis. Ele pagava o dobro de Glaisson, mas o trabalho era bem mais pesado. “Are you ok, buddy (está tudo bem, meu camarada)?”, ele me perguntava, de quando em quando. A bruteza do trabalho era inversamente proporcional à sua educação. Para transportar caixas e móveis, usávamos skates, que tornavam a tarefa bem mais fácil. Naquela semana de sorte, somados o trabalho diário na loja e os três dias carregando móveis, eu tinha ganhado 340 libras (R$ 1.020). Em minha cabeça, Londres começava a se tornar a cidade mais incrível do planeta.

Para complementar a renda, ele transporta caixas e móveis para um shopping de design de interiores

ENTENDA A SÉRIE

CONFIRA NO UAI Assista a vídeo sobre o trabalho em Londres

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LEIA AMANHÃ:

O resultado de anos de trabalho de dezenas de brasileiros em Londres virou pó, no início deste ano. Eles foram vítimas de um golpe aplicado por Rogéria Neves, natural de Santa Vitória, no Triângulo Mineiro, que desapareceu com cerca de 300 mil libras (R$ 900 mil) de imigrantes brasileiros. Em Londres há três anos, Rogéria mantinha um negócio de transferência de dinheiro para o Brasil. “Ela tinha o perfil de uma pessoa que você nunca imaginava ser capaz de aplicar um golpe: pouco mais de 40 anos, mãe de três filhos, divorciada, ia à igreja duas vezes por semana”, conta o empresário mineiro Giovanni Ferreira, de 33 anos. Sozinho, ele perdeu 70 mil libras (R$ 210 mil). Era a entrada de um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, que ele juntara nos últimos 10 anos graças à renda da casa de carnes que montou em Londres. “Eu entrei em parafuso. Não era dinheiro que estava sobrando, era um investimento. Não é fácil guardar 600 libras (R$ 1,8 mil) todos os meses e ver tudo ir pelo ralo”, conta o empresário, que antes de ganhar dinheiro na Inglaterra vivia com os 10 irmãos na Favela da Ventosa, em Belo Horizonte. A polícia informou que investigaria o caso, mas poucos brasileiros registraram queixa, por estarem em situação irregular no país. Rogéria enviou um e-mail a uma lista de amigos, pedindo desculpas. As vítimas suspeitam que ela tenha fugido para Minas Gerais. O EM enviou mensagens para Rogéria, mas ela não respondeu.

Depois do horário comercial, começa a labuta que vai das 18h às 22h, a cinco libras (R$ 15) por hora

C H E G A A H O R A D E V O LTA R

O Estado de Minas refez, em Londres, o caminho do mineiro Jean Charles, executado pela polícia inglesa há cinco anos, e desde quinta-feira publica uma série com a experiência do repórter durante 40 dias na cidade europeia. Ele vivenciou os riscos de uma vida na ilegalidade, sentiu o drama na busca por emprego, colheu histórias de sucesso e relatos de decepção. A cada dia, um capítulo da saga será publicado.


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FICHA SUJA, NÃO TRE de Minas é o primeiro no país a aplicar nova lei para barrar uma candidatura a deputado federal. O impugnado, o ex-prefeito Athos Avelino, de Montes Claros, vai recorrer ao Supremo PÁGINA 3

NOS PASSOS DE JEAN

FERNANDA LUZ / JORNAL A TRIBUNA DE SANTOS

FERNANDA LUZ / JORNAL A TRIBUNA DE SANTOS

DANIELA MINEIRO/PORTAL UAI/D A. PRESS

FLAVIO NEVES/DIARIO CATARINENSE

HÉLIO RECEBE

APOIO DE CLÉSIO ANDRADE MARILENE RIBEIRO/ESP.EM

Dissidente no PR de Minas, empresário fecha com candidato do PMDB, que canta vitória nas urnas. PÁGINA 4

ANASTASIA UNE GALO DOIDO E RAPOSÃO

■ Ganso, 20 anos Meio-campo (Santos)

■ Neymar, 18 anos Atacante (Santos)

■ Réver, 25 anos Zagueiro (Atlético)

■ Renan, 19 anos Goleiro (Avaí)

Tucano recebe apoio de torcida dos dois times e de dirigentes e ex-craques do futebol mineiro. PÁGINA 5

A NOVA CARA

Primas de Jean, Vivian e Patrícia tentam refazer a vida em Londres

DA SELEÇÃO

Após a tragédia,

a resistência THIAGO HERDY Enviado especial

Renovação. Essa é a marca da Seleção Brasileira de Futebol convocada ontem pela primeira vez pelo técnico Mano Menezes. Pensando nas Olimpíadas de 2012, ele escalou 10 novatos e apenas quatro que disputaram a Copa do Mundo, na África. Entre as caras novas estão Ganso, Neymar e André, do Santos, Jucilei, do Corinthinas, e o goleiro Renan, do Avaí. Réver e Diego Tardelli, do Atlético, também figuram entre os 24 chamados para a partida amistosa contra os Estados Unidos, em 10 de agosto. Com média de idade de 23,08 anos, grupo é mais jovem do que o time que foi à Copa.

Londres – Cinco anos depois da morte de Jean, a saudade que Vivian Figueiredo e Patrícia Armani sentem do primo com o qual viviam ainda é forte. “Houve uma época em que eu pensava nele todo dia”, conta Patrícia. “Agora já foi. Estamos vivendo a nossa vida.”

WAGNER MEIER/FOTO ARENA/AE

CASO BRUNO

ACUSADOS

FRENTE A FRENTE Justiça autoriza acareação entre adolescente de 17 anos e todos os outros investigados pelo sequestro e suposto assassinato de Eliza Samudio, a ex-amante do goleiro Bruno. Advogado do menor vai recorrer da decisão.

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EDÉSIO FERREIRA/EM/D.A PRESS

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RE/DIVULGAÇÃO SOM LIV

Música sensual em DVD

EXEMPLO DE SUPERAÇÃO

TUR ISMO

Portador de doença congênita que enfraquece os músculos, Melchior Júnior, de 14 anos (foto), deixou o Hospital Regional de Betim, onde viveu internado dos 10 meses de idade até ontem. PÁGINA 23

Noruega oferece dias longos nas férias de verão na Europa WERTHER SANTANA/AGENCIA ESTADO/AE

GUERRA AO TERROR VAZAMENTO DE DOCUMENTOS SOBRE AFEGÃOS ABALA OS EUA PÁGINA 17

OS DONOS DA RUA PROIBIÇÃO NÃO VAI IMPEDIR ACHAQUE POR FLANELINHAS PÁGINA 21

FILHO DE CISSA GPS DE CARRO DA PM CONFIRMA VERSÃO DE PAI DO ATROPELADOR PÁGINA 8

A lição que vem

JOSEP LAGO/AFP

ALEXANDRE BUTÃO/CB/D.A PRESS

História sexual da MPB vai ganhar vídeo e pode chegar aos palcos com musical.

DO VÔLEI

Com equipe renovada e mesclando experiência e juventude, Seleção Brasileira de Vôlei retorna ao país, horas depois de conquistar, pela nona vez, a Liga Mundial, na Argentina. O time de Bernardinho venceu a Rússia por 3 a 1 na final. Com Murilo (foto), o melhor da Liga, time vai agora em busca do tricampeonato no Mundial em setembro na Itália.

VOLTA PARA CASA COM FACE RENOVADA Rapaz que recebeu primeiro transplante facial total na história médica deixa hospital em Barcelona (foto) e inicia recuperação para retomar fala. PÁGINA 20

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NOS PASSOS DE JEAN ENFRENTARTRABALHO DURO NO EXTERIOR A FIM DE JUNTAR DINHEIRO SUFICIENTE PARA A REALIZAÇÃO DE PEQUENOS SONHOS EXIGE CORAGEM E RESISTÊNCIA À SAUDADE DE CASA

VIDA QUE SEGUE FOTOS: MARILENE RIBEIRO/ESP.EM/D.A PRESS

CONTINUAÇÃO DA CAPA THIAGO HERDY Enviado Especial

Londres – Brasileiros fazem com mais frequência o caminho de volta do que outros imigrantes, acostumados a escolher Londres como lugar para viver e morrer. “Eles ficam de dois a cinco anos no país, muitas vezes por causa do status de ilegalidade. Alguns se movem para Espanha, outros para Portugal. Mas é bastante considerável a parte que volta para o Brasil”, explica a pesquisadora mineira Ana Paula Figueiredo, integrante do Grupo de Estudos Brasileiros no Reino Unido, com sede na Universidade de Londres. Nas leituras de seu mestrado e preparação de doutorado sobre o tema, ela observa que, em geral, a experiência de vida na cidade é encarada como ponte para a ascensão social no Brasil, para o dia de voltar. Cinco anos depois do revés que mudou completamente a trajetória que haviam planejado para a vida em Londres, Vivian Figueiredo e Patrícia Armani, primas de Jean Charles de Menezes, tentam voltar ao estágio em que estavam quando o mineiro foi assassinado pela polícia londrina. O primeiro passo, dado já há algum tempo, foi sair da casa onde moravam com Jean, em Tulse Hill, área residencial no Sul de Londres. “Ainda converso com a dona do flat, uma angolana muito simpática, que sempre convida a gente para aparecer e tomar um café. Mas voltar lá é algo traumatizante. Não dá mais”, conta Patrícia. Hoje, ela mora com o namorado em Croydon, bem distante do Centro, ao sul da Grande Londres. É um flat pequeno, com espaço apenas para um chuveiro, uma cama e uma cozinha. Ela vive da prestação de serviços, como passar roupas e fazer faxina em casas da região. Por isso, poucas vezes precisa pegar o metrô para ir ao Centro. Vivian também vive no Sul, onde trabalha como babá e zeladora de casas. Nos últimos dias, recebeu uma proposta para morar com uma

Vivian Figueiredo e Patrícia Armani, primas de Jean Charles de Menezes, tentam superar o passado trabalhando na capital inglesa. “Agora, já foi. Estamos vivendo a nossa vida” família. Ficou tentada a aceitá-la. Seu projeto para o ano que vem é fazer um curso de graduação a distância, na área de turismo. As duas não querem voltar agora para o Brasil. Mas, com o encerramento do processo envolvendo a morte do primo Jean, elas deixaram de contar com o visto especial de permanência na Inglaterra. Elas dependem da boa vontade do Home Office (departamento de imigração inglesa) para ficar em Londres pelos próximos anos. Vivian espera a resposta de um pedido de permanência especial. Patrícia está prestes a se naturalizar italiana. As duas temem viajar ao Brasil

até para visitar parentes, porque não querem correr o risco de repatriação, como ocorreu como o primo Alex Pereira. Ele foi mandado de volta em abril, depois de tentar entrar na capital inglesa. Cinco anos depois do assassinato de Jean, a saudade continua presente. “A gente consegue olhar a dor no olho do outro, mesmo depois desse tempo. Houve uma época que eu pensava nele todos os dias. Agora, já foi. Estamos vivendo a nossa vida”, diz Patrícia. Nos dias seguintes ao assassinato do mineiro, centenas de velas e buquês de flores foram deixados ao lado da entrada principal

da estação de Stockwell, onde ocorreu o assassinato. Criou-se, espontaneamente, um memorial em homenagem a Jean, que era visitado diariamente por gente do mundo todo. No início deste ano, as primas de Jean Charles e uma artista plástica sul-africana montaram um mosaico com o rosto do mineiro, desenhado em meio a flores e pombas brancas, como forma de criar um memorial definitivo. A instalação foi autorizada pela empresa que gerencia o metrô de Londres. A palavra “inocente” está escrita em letras garrafais sobre o nome do brasileiro e a frase: “Baleado e morto

aqui, 22 de julho de 2005”. “Queríamos escrever ‘baleado e morto pela polícia’, mas disseram que o metrô não ia autorizar”, conta Patrícia. Ela fica tranquila, porque o protesto não passou em branco. Outra placa homenageia Jean, na entrada de Gonzaga, pequeno município do Vale do Rio Doce, no interior de Minas Gerais. Nela está escrito: “Terra de Jean Charles, vítima do terrorismo em Londres. Aqui, priorizamos a vida”. No meu caso, chegou a hora de voltar. Não sei se por culpa do tempo longe de casa ou por sentimento pontual, causado pelo nacionalismo que ronda os

jogos da Copa do Mundo, principalmente depois que ouvi o Hino do Brasil em um pub. Mas essa saudade se tornou providencial. Era preciso voltar. Não foi fácil ligar para meus empregadores e avisar que estava com viagem marcada. Principalmente, depois de ter ganhado 340 libras (R$ 1.020) em menos de uma semana fazendo faxina e carregando móveis na capital inglesa. No fim das contas, não precisei usar a falsa identidade portuguesa, porque enrolei os patrões até o dia de ir embora. Com ela em mãos, poderia ter conseguido outros empregos e faturado mais.

ESTÁVEL, MAS NUMA SOLIDÃO… Até o fim do ano, o capixaba Denisar Paulo Greco, ou Denny, como é conhecido em Londres, termina de pagar o investimento de sua vida: um apartamento de dois quartos, a uma quadra do mar, em Praia Grande, no litoral paulista. O imóvel é resultado de meia década de trabalho na capital inglesa, na limpeza de parques, jardins e poda. O serviço lhe rendeu também dinheiro suficiente para comprar dois carros para as irmãs que moram no Brasil, viajar por boa parte da Europa e assistir a shows dos ídolos de sua adolescência, como U2, AC/DC e Bon Jovi. “Em cinco anos, obtive financeiramente o que não teria em 30 no Brasil”, resume o jardineiro. Mas, para ter tudo isso, Denny pagou um preço que, nos últimos tempos, vem achando alto demais. “A solidão bate forte. Você passa a sentir falta das coisas mais simples, como estar

com a família e com as pessoas que cresceram com você. Amigos com quem jogou bola. Coisas que a gente sempre teve, mas não percebeu como eram importantes”, desabafa ele, que pondera: “Obviamente, viajar para fora e conhecer outro país é muito bom. Mas você ter um lugar onde possa chamar de lar, se sentir seguro, com pessoas ao seu redor, é mais importante”. Denny dorme, há cinco anos, em um quarto no terceiro andar de uma casa em Manor House, no Norte de Londres, rodeado por quatrobandeiras:umadaAustrália, doada por um amigo, uma da Itália, país onde obteve cidadania europeia, do Brasil, a terra natal, e da Inglaterra, que o acolheu. A chegada à capital inglesa ocorreu seis dias depois do assassinato de Jean Charles, o que deixou sua mãe apavorada. “Argumentei que o que tivesse que acontecer, aconteceria”, lembra ele. Ele

aprendeu inglês na marra. Trabalhou como faxineiro, entregador de jornais e estabilizou-se como jardineiro quando compreendeu o jeito londrino de se viver. “Funciona da seguinte forma: se estiver disposto, consegue trabalho rápido. Mas ninguém quer saber o que você é, de onde veio, o que faz. Você está sozinho na capital do mundo”, descreve. O jeito é se reunir com pessoas que sentem a mesma falta, o mesmo tipo de saudade. Brasileiros, é claro. “É a única maneira de se sentir um pouco mais acolhido, um pouco mais em casa.” Atualmente, três jovens e um casal do Rio Grande do Sul alugam quartos no mesmo imóvel. Se o domingo amanhece sem chuva, é comum haver churrasco no quintal. Mas, depois de algumas cervejas e com a aproximação do fim da festa, uma vaga mas doce tristeza chega sem avisar. Cada um vai para

LEIA AMANHÃ:

o seu quarto conversar com o pai, com a mãe, namorada (o) ou irmãos pelo computador. Perto de completar 40 anos, Denny tem uma ideia fixa: voltar para o Brasil no que vem e abrir uma empresa especializada em manutenção e limpeza de estádios. “Tive uma experiência muito boa aqui quando trabalhei no campo do Arsenal. É um conhecimento específico, que poderá ser demandado para a próxima Copa e Olimpíada no Brasil”, afirma. Tentar uma vida acadêmica e virar funcionário público são os planos B e C, respectivamente. “Aprendi muito, fiz o que pude aqui. Tive bons resultados em tudo que procurei, acho que tá bom.” (TH)

Denny, há cinco anos em Londres, sente falta das coisas simples ENTENDA A SÉRIE

CONFIRA NO UAI Patrícia Armani fala do primo assassinado w w w. u a i . co m . b r

O Estado de Minas refez, em Londres, o caminho do mineiro Jean Charles, executado pela polícia inglesa há cinco anos, e desde quinta-feira publica uma série com a experiência do repórter durante 40 dias na cidade europeia. Ele vivenciou os riscos de uma vida na ilegalidade, sentiu o drama na busca por emprego, colheu histórias de sucesso e relatos de decepção.

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SERRA SOME DA PROPAGANDA DE ALIADOS Material de campanha de candidatos a governo em pelo menos 12 estados não inclui o nome ou a foto do presidenciável tucano. José Serra não aparece ao lado de aliados nem mesmo em palanques fortes como Paraná, Mato Grosso e São Paulo. Coordenação da campanha minimiza falta de empenho dos tucanos em fazer propaganda casada e promete campanha em todas as regiões. PÁGINA 3

A OBRA QUE NÃO QUER ACABAR

LELIS

NOS PASSOS DE JEAN

A esperada inauguração do elevado para substituir o Viaduto das Almas, na BR-040, ficou para 2011. Depois de adiar por seis vezes a conclusão da obra, o Dnit anunciou contratação de empresa para resolver problemas nos acessos (foto abaixo). As intervenções começam em outubro e vão demorar sete meses, o que obrigará motoristas a se arriscar no antigo viaduto pelo menos até maio.

última reportagem da série que refez a saga de Jean Charles de Menezes em Londres traz declarações inéditas da mãe do jovem assassinado pela polícia britânica no metrô e se inspira em um clássico dos Beatles, In my life, para contar em quadrinhos o último dia de vida do mineiro a partir da letra da música.

PÁGINA 25 GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS

JACKSON ROMANELLI/EM/D.A PRESS

Diante de dona Maria, o assassino se ajoelhou e chorou THIAGO HERDY Enviado Especial

Gonzaga (MG) – Cara a cara com o homem que matou seu filho pensando que ele era um terrorista, dona Maria Otoni de Menezes, de 65, assistiu a um choro aflito e um pedido de desculpas. “Sou educada, falei: ‘tudo bem, vou desculpar’. Mas pensava comigo: a voz do meu filho, cês não deram mais”.

CONTINUA NAS PÁGINAS 27 E 28

PF PRENDE 21 PESSOAS POR PEDOFILIA EM 9 ESTADOS

EM ★

UM ESPETÁCULO no museu em BH

JORGE GONTIJO/EM/D.A PRESS

Diretor de teatro, José Celso Martinez vai encenar peça O banquete, dentro da programação do FIT.

Mais de 400 agentes participaram da operação, que terminou com número recorde de presos em ações do gênero. Não houve detenções em Minas, mas policiais apreenderam material no Sul do estado. PÁGINAS 21 E 23

Embalados pela convocação para a Seleção, atacantes do Santos encaram hoje à noite o Vitória, na primeira partida da final da Copa do Brasil. Inter e São Paulo iniciam duelo nas semifinais da Libertadores.

MAIS FORÇA NA DEFESA Galo e Cruzeiro reforçam setor defensivo para o clássico de domingo, em Sete Lagoas, pelo Campeonato Brasileiro. O Atlético aposta em Réver. A Raposa, em Elicarlos.

Briga de sedãs IMPORTADOS Comparação entre Ford Fusion, do México, e o Chevrolet Malibu, dos EUA, revela o melhor.

ARRUACEIROS NA CADEIA O presidente Lula sanciona mudanças no Estatuto do Torcedor. Violência nos estádios agora é crime, com prisão de um a dois anos. Organizadas têm de cadastrar membros e vão responder judicialmente.

VÔLEI

de bandeja

O ponteiro Edinho (foto) e jogadores do Minas treinam para desafio em que vão trocar por um dia o vôlei pelo basquete.

NEGÓCIOS

MARIA TEREZA CORREIA/EM/D.A PRESS

VEÍ CULOS

FOTOS: MARLOS NEY VIDAL/EM/D.A PRESS

Meninos da Vila buscam título inédito

Imitações de produtos famosos turbinam indústria da Índia

CASO BRUNO

ADVOGADO TENTA IMPEDIR ACAREAÇÃO Representante de J., de 17 anos, diz que decisão da pôr frente a frente o menor com Sérgio Sales, primo de Bruno, não foi publicada no Diário Oficial do Município (DOM) de Contagem. Ele ameaça entrar com pedido de nulidade do interrogatório.

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CASA PRÓPRIA

Para empreiteiras, lei de uso do solo vai encarecer imóveis

Nasa e Microsoft lançam passeio interativo por Marte

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ISSN 1809-9874

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GERAIS

NOS PASSOS DE JEAN FIM DOISANOSDEPOISDEOUVIROPEDIDODEUMDOSMATADORESDOSEUFILHO,MARIAOTONISE RECUSAA ABSOLVÊ-LO.ELAEOMARIDODESCONVERSAMQUANDOOASSUNTOÉINDENIZAÇÃO JACKSON ROMANELLI/EM/D.A PRESS

Sob o quadro com cartaz feito em homenagem a Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia de Londres há cinco anos, Maria Otoni e Matozinho Silva ainda se emocionam ao lembrar do “menino”

‘ACABO COM VOCÊ E PEÇO PERDÃO?’ CONTINUAÇÃO DA CAPA THIAGO HERDY Enviado Especial

Gonzaga (MG) – O encontro de dona Maria Otoni de Menezes com os dois homens que atiraram em Jean Charles de Menezes ocorreu durante o julgamento público do crime, pedido pela família e realizado no segundo semestre de 2008, três anos depois do assassinato. Escondidos dos curiosos e da imprensa por uma cortina, os atiradores prestaram depoimento sob os olhos da mãe do mineiro, do irmão dele e dos primos, únicos autorizados a acompanhar o rito ao lado dos jurados. Os policiais eram identificados pelos codinomes Charlie 1 e Charlie 2, porque seus nomes não podiam ser divulgados. “Um deles foi arrogante, disse algo do tipo ‘estou cumprindo ordens, não devo satisfação a ninguém’. O outro chorou. Falou que a culpa era toda dele, que ia levar isso para o resto da vida e pediu perdão à mãe do Jean”, conta Patrícia Armani, prima do jovem assassinado. Ela diz que ficou com pena. Outro primo, Alex Pereira, pensa que as lágrimas não foram sinceras, mas estratégicas. Emocionada com o pedido, Maria Otoni também chorou e foi retirada da sala. “Imagine se eu vou e acabo com ‘ocê’, ‘ranco’ seu sangue, arrebento seu chão fora. Depois, vou lá, te abraço e peço perdão? É difícil, não é assim que funciona. O erro deles não tem perdão”, diz a mulher, cinco anos depois do assassinato do filho. Para ela, tão traumático quanto a morte do rapaz foi ter que assistir várias vezes aos vídeos que mostravam Jean andando “libertamente”, sem saber que era perseguido pela polícia. Ver um manequim ser vestido na sua fren-

te, no tribunal, com a jaqueta que o filho usava no dia do crime, ainda suja de sangue, também não foi fácil. “Aquilo me deixou com muito transtorno, pensei que minha memória não ia voltar mais. Fiquei sem nem saber fazer comida, aquele troço na cabeça”, conta. Mesmo decepcionada pela falta de punição para aquela que avalia como a maior responsável pela ação desastrada – Cressida Dick, a comandante da operação policial –, Maria Otoni ainda se sente grata pelo apoio que recebeu de cidadãos ingleses quando esteve em Londres. Ela não se esquece do fim de semana que passou na casa de campo de um dos advogados do caso, em uma cidade perto da capital. “A casa da mulher era chique, meu filho. Embaixo nem era muita coisa, mas, em cima, tudo glapete (carpete) branco. Para subir naquele trem tinha que deixar o sapato cá embaixo, o pé tinha que tá muito limpo. Mandaram eu escolher a cama onde ia deitar. Eu tive escolha! Ninguém nunca fez isso comigo. Pensei, tô importante aqui, meu Deus do Céu.” Na última semana, em sua casa, na zona rural de Gonzaga, no Vale do Rio Doce, Maria contou que, na passagem por Londres, não ficou fã da comida inglesa. “Vai fazer frango, eles tacam doce”, lembrou, incrédula. Mas, na casa de campo dos amigos ingleses, a história foi diferente. “Tinha até peito de pato assado, cortado em rodela, assim, ó, tipo uma mortadela. Eles punham as comidas tudo no seu prato; pegam um negócio gostoso demais e põem por cima, não sei o que que é. Depois veio sobremesa, bolo, acho que eles queriam matar a gente de tanto comer”. No dia seguinte, ela foi convidada para fazer uma caminhada na mata ao redor da casa de campo. “Tive até medo de bicho, cê acredita? Me-

do de leão, tinha uns rastro lá, gigantão...” - Aquilo era cachorro com pata grande - interrompeu o marido, Matozinho Otoni da Silva, que não viajou com a mulher. - Nada, Tozinho, era mata que vai daqui pra Valadares – comparou –. Num é tiquinho de mata não, menino, pode ter bicho ali, né? Nós ainda perguntamo pro rapaz, ‘aqui tem bicho feroz?’ Ele disse, assim, ‘às vezes passa um por aí’. Ave Maria santíssima! – riu. Antes de ir embora, os donos da casa disseram que gostariam de visitar a mãe de Jean Charles durante uma viagem ao Brasil, em breve. “Eu falei, vixi meu Deus do Céu, vem que ocê vai achar uma cama igual a (que) ocê me deu, praga!”, lembrou, dando gargalhada. “Pensei, né? Não pude falar. Esse povo tudo do estrangeiro é muito diferente de nós.” Maria não tem vontade de voltar à Inglaterra. “Lá eu tive que escolher minha cama. Mas a cama da gente é a melhor, bobo. Por muito inferior que ela seja, é a que ocê gosta”, resumiu.

DINHEIRO O casal desconversa quando perguntado sobre a indenização de 100 mil libras (cerca de R$ 300 mil), que a polícia inglesa teria pago à família pelo assassinato do filho. “A gente não recebeu não, meu filho. Falaram tanto sobre o dinheiro que nós ia ganhar, que eu tive medo de morrer fora da hora. Sabe esse morrer sem ver nada?”, perguntou, referindo-se à especulação sobre o valor da indenização, avaliada entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, logo depois do episódio. “Imagine se uma pessoa agride ocê pra pegar um dinheiro que ocê nunca pensou em ter em vida? Era trem que Deus me livre; eu não quero isso”, disse. Matozinho conta que comprou uma casa em

Gonzaga. “Com o tempo, é capaz de a gente ir pra lá, porque tamo acabando de ficar velho, né?” Mas, o pai de Jean ainda espera o acerto dos advogados com a polícia de Londres, para receber todo o dinheiro prometido e comprar mais umas terras no vale. “É pouquinha coisa, não é nada”. O pagamento da indenização é motivo de confusão na família. “Gente quando arruma dinheiro não lembra de ninguém que tá precisando, esquece de tudo”, reclama a sobrinha de Matozinho, Lúcia Alves Pereira, de 53 anos. Ela diz ter pedido ao tio dinheiro emprestado para pagar uma conta de luz e ele teria recusado. Matozinho e Maria negam haver discórdia. Na sala da casa onde moram há um quadro com a imagem de Jean feita pelos organizadores de um movimento que lutou pela punição dos acusados do assassinato. O pai conta que a saudade não passa. “Nem gosto de ‘alembrar’ muito dele mais, não. Tem dia que vou lá pra cima olhar uma criaçãozinha que tenho, sento no lugar que ele passava, me ajudando a fazer as coisas. A gente recorda e dá vontade até de chorar.” Maria sente algo parecido: “Tem noite que não durmo, fico pensando que o menino tá chegando, que tá vindo tomar uma bença, que tá conversando comigo. E aquilo ali, eu não tenho sono. Aquilo ali me mata”.

ENTENDA A SÉRIE O Estado de Minas refez, em Londres, o caminho do mineiro Jean Charles, executado pela polícia inglesa há cinco anos, e desde quinta-feira publicou uma série com a experiência do repórter durante 40 dias na cidade europeia. Ele vivenciou os riscos de uma vida na ilegalidade, sentiu o drama na busca por emprego, colheu histórias de sucesso e relatos de decepção.

LEIA NA PÁGINA 28, EM QUADRINHOS, A HISTÓRIA DO ÚLTIMO DIA DE JEAN CHARLES

Nos passos de Jean  
Nos passos de Jean  

O Estado de Minas refez o caminho do brasileiro Jean Charles de Menezes em Londres.

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