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NÚMERO 2 4 . 6 8 9 ● 142 PÁGI NAS ● FECHA MENTO DA EDIÇÃO: 21H ●

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Um rastro de dor, morte e impunidade marca o drama de brasileiros vítimas da máfia que inunda o país com remédios, próteses e equipamentos médicos piratas

ALANA RIZZO, MARIA CLARA PRATES, RENATO ALVES E THIAGO HERDY

ARTE SOBRE FOTO DE RONALDO DE OLIVEIRA/EM/D.A PRESS

Durante dois meses, equipes do Estado de Minas e do Correio Braziliense percorreram mais de 13 mil quilômetros em vários estados do Brasil, chegando ao Paraguai, Uruguai e Bolívia, para mostrar, em série de reportagens esta semana, o submundo da produção e venda de artigos de saúde falsos. O crime macabro, cada vez mais associado ao narcotráfico e ao roubo de cargas, avança na falta de um combate mais eficaz. A perigosa mercadoria é comprada até por agentes públicos ligados ao SUS, com dinheiro do contribuinte. E rouba a vida e a esperança de milhares de pessoas.

Denise Borges de Medeiros (foto) sofre com parafusos de péssima qualidade implantados na coluna, que estão quebrados ou tortos.

Não há dados oficiais sobre o número de vítimas, mas em apenas três casos investigados foram registradas 40 mortes no país.

Até julho deste ano, foram apreendidas 313 toneladas de remédios e equipamentos falsificados. Em 2008, foram 45 toneladas.

P Á G I N A S 8 A 1 1 E L E I A O E D I TO R I A L ‘ R E M É D I O S DA M O RT E ’, N A 6

BETO NOVAES/EM/D.A PRESS

PAC DO PATRIMÔNIO

CRUZEIRO TENTA FUGIR DA CRISE EM CURITIBA

Renovação das cidades históricas Governo federal lança mês que vem, em Ouro Preto, o PAC do Patrimônio, que destinará R$ 150 milhões por ano para obras de revitalização e preservação de núcleos históricos em 124 municípios brasileiros.

BH DE CARA LIMPA COMUNIDADE QUER FIM DA FARRA DOS OUTDOORS

PÁGINAS 28 E 29

PÁGINAS 25 E 26

GRIPE SUÍNA EM MG SOBE PARA 16 O NÚMERO DE MORTES SOB SUSPEITA

EMENDAS

Desvio chega a R$ 850 mi em 3 anos

PÁGINA 27

Cálculo da Polícia Federal leva em conta apenas quatro operaçõesdesencadeadasdesde2006 em que foram desmantelados esquemasdefraudeparaabocanharrecursosdoOrçamentoda União destinados a prefeituras. PÁGINA 3

GENTE

QUE FAZ

Veja o exemplo de pessoas que, em vez de esperar por providências do governo, se unem em grupos, sociedades ou cooperativas para criar emprego e renda, conseguir a casa própria ou driblar a falta de crédito. Ivana Bahia, Valéria Pedreira, Rosalina Figueiredo, Lau Oliveira e Nádia Perini criaram a Mercadoras da Arte, para se reinserir no mercado de trabalho produzindo e vendendo artesanato. PÁGINA 16

STEFANO RELLANDINI/REUTERS

MARCELO SANT’ANNA/EM/D.A PRESS

& MASCULINO

FEM ININO

ARMANI BEM BRASILEIRO

EM ★

BEM VIVER

● Verão de Giorgio Armani é

● A partir deste domingo, a página Arte Final, assinada

● Depois da febre dos anos 80,

● Bom aproveitamento dos alimentos,

totalmente brasileiro, com muita bermuda, jaqueta e belos suéteres.

por Édison Zenóbio, sobre o mundo da publicidade, passa a fazer parte das atrações do caderno.

universo pop começa agora a reciclar as referências da década de 1990.

como faz Saraildes Araújo, é receita contra o desperdício e a fome.

ISSN 1809-9874

Endereço na internet: www.uai.com.br/em.htm Assinatura Uai: 0800 031 5000 Assinaturas e serviço de atendimento: Belo Horizonte: (31) 3263-5800 - Outras localidades: 0800 031 5005

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EDITOR: Baptista Chagas de Almeida EDITOR-ASSISTENTE: Renato Scapolatempore E-MAIL: politica.em@uai.com.br TELEFONE: (31) 3263-5293

Histórias de quem comprou medicamentos e aparelhos pirateados e encontrou sofrimento e morte ALANA RIZZO, THIAGO HERDY E MARIA CLARA PRATES

parafusos no pescoço, solução para O comprimido azul era a promessa de sobrevida na luta próstata. Os quatro ras entre trilhas, mares e montanhas. E o contra uma doença pulmonar grave. A prótese nas pernas retomar aventu — tomado para um exame — era só adiaria, por muitos anos, o último baile. O pino acabaria contraste de raio-x a gastrite, adquirida em anos de trabalho com as dores na coluna, martírio de quem passava incon- para conferir se ou na rotina exaustiva da manutenção táveis horas em pé, na sala de aula. As seis pílulas brancas com adolescentes ter melhorado. de todo dia eram a esperança para vencer o câncer de de máquinas, poderia

Entrada do Parque Industrial de Taiwan, próximo a Ciudad del Este: montagem de equipamentos piratas

Equipamento usado em fábrica clandestina de medicamentos piratas. Máquina foi apreendida pela Polícia Federal e Anvisa durante operação em Caucaia, no Ceará, no mês passado

MARCELO SANT’ANNA/EM/D.A PRESS

gelo” mite que “enxuga A própria Anvisa ad o nã é dipressão. A situação com as ações de re nsegue Receita, que não co à o çã la re em e nt fere rabando 5% de todo o cont interceptar mais de Foz do em nte da Amizade, que passa pela Po , prinai nteira com o Paragu Iguaçu (PR), na fro do merpelo abastecimento l ve sá on sp re al cip proasil. Trata-se de um Br no s ta ra pi de cado dos medie pelo menos 20% blema que envolv nforme lam pelo mundo, co camentos que circu S). dial de Saúde (OM a Organização Mun ado l de Taiwan, instal O Parque Industria enas 20 Minga Guazú, a ap no município de ontado ap udad del Este, é quilômetros de Ci onde são o um dos locais pela Anvisa com , como mentos médicos montados equipa entrada são. O letreiro na es pr de s ho el ar ap esa aliata de uma empr informa que se tr m 500 co local, um terreno mentícia, mas no ex de tene um quilômetro metros de frente inés, nelpões, sem cham ga m te is ex só o, sã ria de alimentos. cessárias à indúst

bmundo do crise frequentou o su en ili az Br io re da pirataria de são de brasileiros ostrar os bastidores m ra pa e s histórias acima m reportagem visira, encontraram e equipamentos. A s io éd m que, no lugar da cu re , a Boasil com o Paraguai s casos, a própria Br to do ui s m ra ei em nt e, fro r as do a tou ar a facilidade com o produz estatísUruguai para flagr o e ia morte. O Brasil nã lív spe orre. Acompacio clandestino oc o número total de ér em m tr co o os e m e qu qu ima desse ticas nada ou foram enga cada vez mais próx vi ão a aç am lig a er rd ou pe nh e emas de soas qu rcotráfico e os esqu rança de recupera na pe o es m m co ha do tin ca er do m as ordas quan mente no Rio stigou como atuam so ve e, In . qu as rg se ca ade o tim roub ção. Mas es am a se infiltrar asse os 7 criminosas que cheg se número ultrap es es çõ l, za Su ni do ga de an Gr utos a todos os ção de s para levar os prod casos de adultera ês ico tr éd m as en tre ap en Em turas que amil. foi atrás das prefei ada pelas autorid E ic tif ís. pa en id do s os to nt en ca nos medicam entos falsificados tados brasileiros, am ic es ed os tr m ou s am ar no s pr m co des sanitária as em que foram volume trônicos e de cirurgi nas de mortos. E o ele s õe eg pr iforam quatro deze ima qualidade e s sete pr pamentos de péss ui s falsificações no eq da os es ad sõ us en re ap de vepúblico. gos com dinheiro o contribui para re pa an , e ro st st gi de re es m es se m s meiro il quilos problema: 313 m ro aterlar a dimensão do diante desse quad colhidos de norte o re m es m M ra fo OS s OS to IN en CRIM de medicam 4 pessoas foram municíquenos e grandes 18 meses, apenas 10 pe em em r, ís, do ra pa do l su o a que ento com os criadas de envolvim sete vezes maior do o us er ac m as nú es pr um É . terditados. 45 pios de venda foram in o passado, quando os an nt o po do 80 to e em es m do os de falregistra teados acabaram depois dos episódi ra os pi s an io is se éd m de s re ai de m E, s do país, mil quilos l de Vigiios mais chocante Agência Naciona sificação de reméd Ce incinerados pela ur e lobar, a isa). as marcas Androc nv do (A en lv ria tá vo ni en Sa ia lânc pade Minas/ icamentos e de equi reinou. O Estado ed m de da de ni ão pu aç fic im lsi A fa criminosos transformou-se em se apurou que os ís en pa ili az no Br os o ic ei rr éd m Co ados e, mentos ente responsabiliz com status de cri, m ica da bl vi pú de e m úd ra sa fo não problema de da de luxo. Às fada nas escasos, levam uma vi da vez mais infiltra ca ns e gu do al za em ni ga or e é m a compra dos m, at entes iludidos com . Grupos consegue do s do ta do Es as íli do m as ur trut úde as a saudade stema Único de Sa ficados, restou apen Si lsi o fa r s ce io te éd as m ab re o, mesm da mormpre. e os equipamentos e partiram para se qu s do (SUS) com as drogas or /C as as, o Estado de Min te. Ao longo de 68 di

ARTE: ANDERSON ARAÚJO/CB/D.A PRESS

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Medicamentos piratas são produzidos em fábricas distantes, mas entram no Brasil sem dificuldades ALANA RIZZO, THIAGO HERDY, MARIA CLARA PRATES E RENATO ALVES

ARTE: ANDERSON ARAÚJO/CB/D.A PRESS

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té chegar às mãos do consumidor brasileiro, remédios e equipamentos falsificados percorrem longo caminho, que começa do outro lado do globo. A fabricação é realizada em países onde a fiscalização é nula, nas regiões do Sudeste Asiático e Leste Europeu, República Popular da China, Índia, Afeganistão e Paquistão. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nesses países os produtores recebem encomendas e as despacham para mercados consumidores. O perfeccionismo é tanto que medicamentos e próteses falsificados já seguem com as embalagens adequadas ao idioma do destino. Criada há pouco mais de dois anos, a Assessoria de Segurança Institucional da agência garante que, até então, não havia sido encontrada no território brasileiro estrutura mais sofisticada para a montagem de equipamento médico ou adulteração de remédios em larga escala. Mas há sinais de que a origem da pirataria não está mais tão distante. A Anvisa recebeu a informação de que um navio de bandeira chinesa, localizado a 200 milhas da costa brasileira, produz materiais como seringas e agulhas descartáveis sem controle. A fábrica flutuante funciona 24 horas e

aproveita a mão de obra barata para inundar o mercado brasileiro com produtos falsificados. Para evitar rastreamento e repressão, os criminosos movimentam a embarcação de tempos em tempos. A Anvisa diz estar de mãos e pés atados para agir.

200 milhas

é a distância que um navio de bandeira chinesa — onde produzem medicamentos pirateados — estaria da costa brasileira. A fábrica flutuante da morte abasteceria o território nacional a partir de contatos com distribuidores brasileiros

As organizações criminosas especializadas na pirataria da saúde usam as mesmas rotas desbravadas por outros grupos que trazem para o Brasil armas, drogas e produtos eletrônicos. Os produtos chegam pelos portos legais e ilegais, para depois serem levados às fronteiras, quase sempre sem condições adequadas de fiscalização. A rota inclui tanto as mais movimentadas, exemplo de

Paraguai e Uruguai, como as mais remotas, caso da Bolívia. Estado mais populoso e mais desenvolvido do país, São Paulo é líder da preferência dos grupos criminosos na hora de despejar os produtos em território brasileiro. Centenas de atravessadores cruzam a Ponte da Amizade, que separa Foz do Iguaçu, no Paraná, e Ciudad del Este, no Paraguai, para buscar mercadorias que abastecerão o estado considerado polo distribuidor dos remédios e equipamentos da morte. A tarefa não é difícil. Cerca de 80 mil carros e motos realizam a travessia diariamente. Pela fronteira com o Uruguai, criminosos abastecem Rio Grande do Sul e Paraná. Na esquecida fronteira com a Bolívia, uma nova rota se estabelece por Cáceres, no Mato Grosso, a partir de San Mathias, cidade do país vizinho. Nos dois casos, produtos são despejados também em outros estados ao longo do caminho até São Paulo. É de lá que atravessadores, distribuidores de fachada e farmácias criminosas se encarregam de repassar produtos a outras empresas, principalmente de Minas e do Rio. O mapa das apreensões da Anvisa mostra que, depois disso, os produtos chegam rapidamente aos consumidores. Apenas nos últimos 18 meses, a agência foi solicitada a agir em 73 municípios de norte a sul do país.

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Os medicamentos sonalizadas, ou seja ao país em embalagens per o do Pramil erciantes brasileiros e chegam em território nacional. No cas s rica fáb as rad ont enc m fora ca pro ntal nas ximidades tuguês. A Anvisa diz que nun fabriquetas de fundos de qui em ido duz pro é ele ), gra Via (versão paraguaia do ai de Ciudad del Este, no Paragu

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Leste Europeu

Afeganistão Total de fronteira seca

15.735 km

Colômbia

A cidade de San Mathias, na Bolívia, funcionou como entreposto, em razão da total falta de fiscalização. De lá o material é levado até Cáceres, seguindo para São Paulo.

Paquistão

China

Índia

Oceano Atlântico

7.367 km

Paraguai

Porto de Manaus

Região Norte

A principal porta de entrada pelo Paraguai é Ciudad del Este. Produtos são transportados pela Ponte Peru da Amizade, Lago de Itaipu e Rio Paraná. De Foz do Iguaçu seguem, via terrestre, para São Paulo, de onde são redistribuídos para todo o país.

Região Nordeste

BASTIDOR

Estado de Minas/ Quatro equipes de reportagem do quilômetros de mil Correio Braziliense percorreram 8,8 o para investicarr de tros avião e outros 4,7 mil quilôme entos méipam equ e s ento icam gar a falsificação de med gua via, Uru i e Paradicos em quatro países (Brasil, Bolí repórteres estiveram guai). Afim de contar essa história, os Sul, Mato Grosso, do de em Minas Gerais, Goiás, Rio Gran lo. Rio de Janeiro e São Pau

Bolívia Mato Grosso do Sul

Sacoleiros levam da Argentina e do Uruguai produtos para abastecer cidades do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, além da capital paulista.

Porto de Vitória

São Paulo Porto de Santos Porto de Paranaguá

Paraguai

Rio de Janeiro

San Matias

Cuiabá Cáceres

Curvelo Belo Horizonte São Paulo

Foz do Iguaçu Ciudad del Este

Rio Grande do Sul

Argentina Uruguai

Carazinho Torres Santana do Livramento Porto Riviera Alegre

Timóteo Visconde do Rio Branco Rio de Janeiro


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Integrantes do esquema de fabricação e venda das próteses ortopédicas atuam impunes há 10 anos no país

ALANA RIZZO Enviada especial

Porto Alegre (RS) — O rastro de dor deixado pelas próteses de mentira não tem fim. Nem mesmo os processos movidos pelas vítimas e denúncias do Ministério Público Estadual (MPE-RS) foram capazes de parar um esquema que começou há quase 10 anos. O empresário Alberto Fernandes Silva e os três filhos — Diego, Douglas e Deives — continuam fabricando e vendendo próteses ortopédicas. Eles foram acusados, juntamente com o médico Ernani Abreu Vianna, de cometer crimes contra a saúde pública, fabricando e vendendo produtos sem registro. Três novas empresas ligadas à família, a Bioteck, a RDC e a Brasilmed, estão sendo investigadas. Todas funcionam no mesmo terreno em Porto Alegre. A última foi negociada para dois empresários de Brasília. As novas empresas, desta vez, não contam, pelo menos oficialmente, com a participação do médico Ernani. No portão, apenas a placa da Bioteck. A RDC foi fundada em novembro de 2006,

logo após as denúncias, mas não tem autorização de funcionamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Brasilmed, agora Fusão Sul Soluções para Medicina, foi fundada em 2005. A autorização prevê o armazenamento, distribuição, importação e transporte de produtos médicos. Agora está nas mãos dos empresários Carlos Augusto Montandon Borges e Vittorio Alberto Beltran Gomes. Os irmãos são donos ainda da VC Medical Material Hospitalar, na Asa Norte, em Brasília. A empresa comprava material da Equimed em 2004. Também não há registros de autorização. Os dois têm ainda outras cinco empresas em São Paulo, Rio, Goiânia e na capital federal. Além destas empresas, Alberto estaria por trás da GI Metalúrgica e Usinagem Ltda. A empresa está em nome de laranjas e produz instrumentos para a Bioteck. É para burlar as regras da Anvisa e dos setores de compras dos hospitais que Alberto trabalha com três empresas. Foi a forma encontrada para oferecer concorrência na hora da escolha do produto para médicos, hospitais e até

mesmo o poder público, que pagou algumas das cirurgias com dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS). Antigas empresas como a Equimed, Techymed e Titanium foram abandonadas depois das denúncias de crime contra a saúde pública. Os empresários acabaram, em 2006, acusados de fabricar e vender próteses sem controle de qualidade. O titânio medicinal era mesclado ao industrial. Restos de sucata e metais compunham o produto, que foi vendido para hospitais em todo o estado. O grupo também clonava produtos originais e conseguia atingir uma margem de lucro alta, chegando a mais de 1.000%. Mas o resultado era o aumento das dores nos pacientes, o que levava a uma nova cirurgia, e a metalose, que é a reação causada no organismo pelas partículas de titânio liberadas pela prótese. O processo inflamatório pode provocar o desprendimento do implante do osso. A estimativa é que só no Rio Grande do Sul 7 mil pessoas foram lesadas pelos produtos. O número deve ser ainda maior, já que as empresa eram líderes de mercado e vendiam para o Brasil todo.

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Parafusos quebrados na coluna

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RONALDO DE OLIVEIRA/CB/D.A PRESS

Denise Borges de Medeiros, 46 anos, Port o Alegre (RS)

“Namastê.” Com as palmas mudan ças na rotina resultadas mãos coladas e os dedos ram em isolamento. Dirigir apontando para o alto, na altura viro u sofrimento. Agora, o do peito, o cumprimento é uma ato de assumir o volante é saudação a Deus, segundo a cul- pre cedido por períodos de tura indiana. Os cabelos longos desc anso na horizontal, pae encaracolados escondem um ra poupar a coluna. pouco o rosto e as olheiras de “Não consigo acompaquem dormiu mal. Podia ser nha r o ritmo de uma pessoa efeito dos remédios, da tensão, nor mal. Não posso dançar, ou um pouco dos dois. Pela pri- colo car um salto alto, ficar meira vez estava disposta a falar sen tada muito tempo.” Os publicamente sobre o assunto. rem édios a fazem adormecer “Nem todo mundo sabe.” antes da madrugada, por isso Os hábitos zens ajudam a li- acorda cedo no dia seguinte. dar com o mal que se esconde Mas não tem muito o que fadentro do corpo. Uma cirurgia zer. Escolheu o computador na coluna para corrigir um pro- com o principal arma de coblema nas vértebras transfor- mu nicação com o mundo e, mou-se em pesadelo no dia em na frente da tela, passa horas que começou a sentir fortes do- mer gulhada no mundo méres de cabeça. Os médicos lhe in- dico . Está sempre atrás de soformaram: os parafusos coloca- luçõ es para viver em paz. dos anteriormente estavam Em uma das pesquisas, quebrados e tortos. Havia indí- con heceu um cirurgião alecios de que tinham sido produ- mão , que se disse disposto a zidos a partir de restos de mate- ope rá-la. “Ninguém no Brasil rial industrial. O custo de cada que r fazer. Sei que há um risco. um, R$ 16 mil, não batia com a Mas também tem outro, ainda notícia. Entrou com um proces- mai or, se eu ficar com os paraso na Justiça estadual. fusos.” O custo da intervenção Passaram-se quatro anos e é alto : R$ 150 mil. A expectativa Denise ainda aguarda a no- é con seguir na Justiça o valor. A meação de um perito. “Procu- apo sentadoria do INSS de pourei o melhor médico, o melhor co mais de R$ 1 mil é insuficienhospital. Nunca imaginei que te até mesmo para manter o fiisso poderia acontecer.” As lho mais novo, de 13 anos. ARTE: ANDERSON ARAÚJO/CB/D.A PRESS

Nesse isolamento, precisou encontrar outro tipo de força. Não aquela que já tinha feito escalar picos, desvendar geleiras, pilotar barcos e aviões. “Tudo tem solução. Eu sigo em busca da minha”, diz ela, que encontrou refúgio em uma pequena casa, na serra gaúcha, para meditar e rezar. Com ela, duas gatas e um pit bull. “O valor do

tempo mudou, não posso mais ter pressa. Vejo a vida passar com paciência e cada dia se torna mais valioso.” A casa antiga, de Porto Alegre, está à venda. Guarda histórias e lembranças de outra vida, materializadas em quadros trazidos da Espanha, pratos da Austrália e da Nova Zelândia, uma imagem de Tumo, o deus

da medicina, que veio na bagagem de uma viagem ao Peru. “Ainda quero voltar a Machu Picchu e fazer a trilha inca”, diz. Sobre a mesa e nas paredes, os budas de cerâmica, feitos por ela mesma, são imagens da viagem que ainda não fez. Ver a Índia e a Cordilheira do Himalaia é um sonho que Denise ainda não sabe se conseguirá realizar.


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FOTOS: RONALDO OLIVEIRA/CB/D.A PRESS

Complexo industrial em Porto Alegre, onde funcionam as novas empresas do grupo denunciado pelo Ministério Público por comercializar próteses falsificadas

Chefes da quadrilha de piratas na área da saúde são frequentadores da alta sociedade gaúcha Enviada especial

Vianna, sócio da Equimed e da Titanium. Ele ajudou a incluir os produtos das empresas na lista de compras dos principais hospitais do estado e era responsável pelo lobby com os colegas. Ressaltava a qualidade e a eficiência das próteses, além dos lucros que poderiam ser obtidos. Influente, frequentador das altas rodas da sociedade gaúcha, mora em apartamento de luxo Bairro Moinho de Ventos. Hoje tem em seu nome a Abreu e Simões Médicos Associados e a Fisioforma Clínica Fisioterápica. Sua mulher também figura como dona desta última, além da Andraz Serviços e Alimentação e a Emporio Carlos Gomes Serviços e Alimentação.

MARIA CLARA PRATES

METALOSE A estratégia desenvolvida pelo

ALANA RIZZO

Porto Alegre (RS) — Duas linhas de produção. Uma era regular e com autorização de funcionamento. A outra, clandestina. A estratégia, usada no passado, ajudava a mascarar os negócios da família e garantir a distância dos fiscais da vigilância sanitária. A suspeita é que o mesmo esteja acontecendo novamente. A Equimed só obteve autorização para funcionamento na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em dezembro de 2000, enquanto a Titanium e a Techymed conseguiram em 2005. Antes disso, eram clandestinas, apesar de comercializarem centenas de produtos para hospitais de todo o país. "A intenção não poderia ser outra: obtenção do lucro fácil à custa de pacientes desinformados e desprotegidos, alheios ao processo de compra e venda de produtos de saúde que nele seriam implantados", aponta denúncia do Ministério Público Estadual. A Titanium e a Techymed funcionavam como distribuidoras, para que o grupo pudesse comercializar os produtos sem registros e fabricados pela Equimed. Os empresários queriam afastar a possibilidade de a principal empresa ser interditada ou punida. O raciocínio foi o mesmo na hora em que Alberto Fernandes Silva colocou laranjas — a mulher e o cunhado — no quadro social das duas empresas sem registro. Alberto é considerado por pessoas próximas um homem esperto e com uma lábia capaz de convencer qualquer um "a comprar uma geladeira no Polo Norte". Começou como propagandista de remédios e prosperou rápido. Em menos de uma década se transformou em um poderoso e milionário empresário. Ostenta luxos como carros e barcos. Os três filhos, que desde o início acompanharam os negócios do pai na área médica, alegaram que não participavam das decisões da empresa. Deives, Douglas e Diego tinham a tarefa de gerenciar legal e comercialmente as firmas. Entretanto, o esquema não prosperaria sem a conivência de médicos: 154 profissionais foram denunciados no Rio Grande do Sul. Alberto sabia como agradar-lhes. Fazia churrascos, pagava viagens, entre outros mimos. Na lista de empresas da família, consta também uma agência de turismo. O elo entre os negócios e o mundo dos hospitais coube ao médico Ernani Abreu

grupo de Alberto de criar duas linhas de produção em muito se assemelha à investigada pela Polícia Federal na Operação Metalose, em julho de 2007, que investigou fraudadores de próteses ortopédicas. Cinco pessoas acabaram presas sob a acusação de envolvimento com o esquema. Foram cumpridos na época mandados de busca e apreensão em 12 cidades dos estados de São Paulo, Paraná, Pernambuco e Maranhão. A repercussão do caso teve como consequência a decretação de segredo de Justiça nas investigações. Advogados de grandes empresários, entre eles Ruy Salvari Baumer, com assento na poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), requereram a medida e foram atendidos pelo Judiciário. Devido à extensão da rede de envolvidos com a fraude da prótese, a PF adotou também uma medida que tornou mais difícil o acompanhamento do escândalo. As investigações, antes concentradas em Marília com o delegado José Navas Jr, foram fracionadas. Ou seja, ficou a cargo das superintendências estaduais da PF a conclusão dos inquéritos referentes aos suspeitos que moravam fora de São Paulo. Além disso, em alguns casos, o Judiciário entendeu que a competência era da Justiça estadual e os casos foram repassados às promotorias locais. Uma dispersão que praticamente inviabiliza o acompanhamento dos processos desencadeados a partir da Metalose, que também beneficia os suspeitos, em razão da burocracia na remessa dos autos.

DEFESA Em resposta, por e-mail, ao Estado

de Minas, Diego Schmitz informou que as empresas EBS (antiga Equimed), Titanium e Equimed ingressaram com uma ação judicial. A sentença ainda não foi dada. A nota diz ainda que a matéria-prima utilizada era compatível com uso humano e importada dos EUA e a fábrica possuía registros de vários itens. As ações das vítimas estão sendo contestadas caso a caso, à medida, segunda anota, que fatores deixaram de ser considerados. O EM deixou recados no consultório do médico Ernani Abreu, que não retornou as ligações. A empresa VC Medical não foi localizada no endereço que constava na Asa Norte e nenhum dos dois empresários de Brasília foi localizado para comentar a relação com as empresas denunciadas pelo MPE.

O último baile foi o da saudade Jaime Cardoso, 79 anos, Torres (RS) Era festa de São João. 24 de junho de… "Me falha a memória. Não me faz lembrar. Faz tempo, muito tempo." Naquele dia, as barraquinhas estavam montadas na avenida paralela à Igreja Santa Luzia. O frio, muito mais intenso naquela época do ano, desaparecia em meio aos passos marcados do típico vanerão e outros ritmos gaúchos. O copo cheio de quentão também ajudava. Olhou-a como quem já sabia que ela gostavadedançar.Combinouumxotecomoprimo, tocador de gaita da banda. "Nos mandamos para o asfalto." O par não mais se desfez. "Foram 10 anos. Não foram 10 dias." Se haviaumbailenacidade,osdoisestavamlá. "Foi lindo", lembra Jaime. Alvina Teixeira Clezar era uma mulher adorável, que gostava de servir e ajudar. Começou no ofício de preparar e servir merendaemumaescoladacidade.Empoucotempo, ocupou as salas de aula. "A gurizada era fã dela." Devota de Nossa Senhora Aparecida, não passava um domingo sem visitar a Gruta da Santinha, na beira da praia. Assim como os bailes, as procissões tornaram-se um sacrifício por conta de uma dorzinha na coluna, que teimava em não passar. Procuraram um médico em Porto Alegre. Dr. Ernani Abreu, um profissional com referências. Era especialista em coluna e trabalhava em um dos melhores hospitais da

cidade, o Ernesto Dornelles. Abreu indicou um colega, dr. Walter Schumacher, para operar Alvina em outubro de 2000. Implantariam oito parafusos na sua coluna e, depois de quarenta dias de internação no hospital, o corpo estaria novamente preparado para bailar um tango. Quarenta dias depois da primeira cirurgia, Alvina não conseguia mais caminhar. Tentaram mais duas operações, que de nada adiantaram. "A coitadinha sofreu demais." Jaime passou a dormir no chãoparaestaraoladodamulherenãomovimentar a cama durante a noite. "Queria que ficasse boa, que vivesse." O sacrifício durou dois anos. Os invernos pareceram mais rigorosos naquela época. A dor era tão grande que ela, mulher que só desejava o bem, chegava a pedir que o dr. Ernani sentisse o que sentia, para entender seu sofrimento. "Ele errou. Colocaram parafusos nela, mas desses iguais aos de furadeira." Ficou comprovado por perícia que nenhum dos parafusos implantados em Alvina seguiam as normas técnicas — todos tinham procedência ignorada. Jaime acompanhou o sofrimento da mulher por seis anos. No fim, já sabia que não haveria um último baile. Alvina morreu em casa. Em um dia difícil, quando não conseguia nem mesmo respirar. "E pensar que tudo começou com uma dorzinha."

LEIA AMANHÃ:

A VENDA LIVRE DE REMÉDIOS E EQUIPAMENTOS FALSIFICADOS EM CIUDAD DEL LESTE ARTE: ANDERSON ARAÚJO/CB/D.A PRESS


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MARIA TEREZA CORREIA/EM/D.A PRESS

MARCELO SANT’ANNA/EM/D.A PRESS

Criminosos buscam no país vizinho grande parte dos medicamentos, próteses e equipamentos médicos piratas que transformam em dor a esperança de cura de milhares de brasileiros

FOGO DESTRÓI MATA NO JAMBREIRO Na segunda reportagem da série sobre os artigos de saúde falsificados, Estado de Minas e Correio Braziliense revelam a conexão paraguaia da mercadoria macabra. Produzidos em fabriquetas de fundo de quintal ou até num complexo sob fachada de indústria de alimentos, medicamentos e aparelhos ilegais são oferecidos abertamente nas ruas de locais como Ciudad del Este (foto). E chegam ao Brasil atravessando os 1 mil quilômetros de fronteira seca ou por portos clandestinos no Rio Paraguai e Lago de Itaipu, às vezes dentro de computadores ou brinquedos, ante a incapacidade das autoridades brasileiras de fiscalizar melhor.

Um incêndio que começou sábado e só foi controlado na tarde de ontem consumiu mais de 20 hectares da reserva do Jambreiro, em Nova Lima. Bombeiros, com apoio de um helicóptero (foto), tiveram dificuldade para apagar as chamas, que chegaram a três metros de altura. PÁGINA 21

Este uma drogaria em Ciudad del Diálogo com funcionário de os são feitos aqui? Repórter: Esses medicament Vendedor: Sim. sil? Repórter: Mas entrega no Bra do… soa que leva. Mas cobra separa Vendedor: Eu tenho uma pes Repórter: Cobra quanto? mercadoria. Vendedor: 50% do valor da pedido de quanto? Repórter: Eu teria de fazer um 1 mil. Vendedor: O mínimo é US$

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VOLTA ÀS AULAS HOJE É DESAFIO NO COMBATE À GRIPE SUÍNA

ANTONIO COSTA/GAZETA DO POVO

EMENDAS

CGU VÊ FALHAS GRAVES EM 20% DOS CONVÊNIOS

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Dinheiro do Orçamento da União destinado a prefeituras por emendas parlamentares é desviado em um de cada cinco municípios fiscalizados. PÁGINA 3

BETO NOVAES/EM/D.A PRESS

CIÊNCIA MINEIRO CRIA APARELHO PARA CEGO ‘ENXERGAR’ Equipamento com sensores, já em teste, que será apresentado em congresso este mês, detecta obstáculos e emite sinais, orientando o deficiente visual. PÁGINA 16

MENTE SADIA

Novo jeito de encarar a loucura

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O Brasil integrará grupo consultor de programada OMS para humanizar o tratamento de transtorno mental. O convite ocorreu graças a experiências com residências terapêuticas e centros de convivência. Na oficina de arte de um deles, Sérvio Sadi (foto) achou sua profissão.

O MELHOR DA ARTE NA CAPITAL

Depois de dormir na zona do rebaixamento, time do técnico Adílson Batista se recupera das más apresentações e, sem ter nenhum jogador expulso, vence o Coritiba, no Sul, por 3 a 1. Wellington Paulista (2) e Thiago Ribeiro (foto) marcaram os gols celestes. Marcelinho Paraíba descontou para o Coxa. Com o resultado, o Cruzeiro sobe para o 14º lugar.

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PRODUÇÃO INVESTIMENTOS SINALIZAM QUE PAÍS JÁ SUPERA CRISE PÁGINA 10

CONSUMIDOR COMO RECORRER DE CADASTRO ILEGAL COMO MAU PAGADOR

AGROPECUÁRIO FIVB/DIVULGAÇÃO

ELEIÇÕES EM BH METADE DOS VEREADORES QUEREM VIRAR DEPUTADOS

Exposição O mundo mágico de Marc Chagall, na Casa Fiat de Cultura, tem público recorde. Visitantes esperam novas mostras de grandes artistas.

NA TRILHA DO OCTA Seleção Feminina de Vôlei bate a China por 3 a 2, na sexta vitória consecutiva no Grand Prix, e segue firme em busca do oitavo título na competição. Destaque para as mineiras Sheilla (E), que marcou 24 pontos, e Fabiana.

DIFÍCIL BUSCA DE MERCADO DIREITO &JUSTIÇA

SOB O MANTO DO SIGILO

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ISSN 1809-9874

Endereço na internet: www.uai.com.br/em.htm Assinatura Uai: 0800 031 5000 Assinaturas e serviço de atendimento: Belo Horizonte: (31) 3263-5800 - Outras localidades: 0800 031 5005

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EDITOR: Baptista Chagas de Almeida EDITOR-ASSISTENTE: Renato Scapolatempore E-MAIL: politica.em@uai.com.br TELEFONE: (31) 3263-5293

FOTOS: MARCELO SANT’ANNA/EM/D.A PRESS

MARIA CLARA PRATES Enviada especial

Os remédios e produtos médicos ilegais estão circulando cada vez mais pelo Brasil. Apenas nos sete primeiros meses do ano, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu durante operações de rotina 551.400 medicamentos contrabandeados. O volume é maior que o confiscado nos 12 meses de 2008 e vem crescendo ano a ano. Na segunda matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que as portas do país estão escancaradas para a entrada de falsificados em sua fronteira mais movimentada. No Paraguai, é possível encomendar não apenas grandes quantidades de comprimidos e ampolas de remédios sem efeito, mas também termômetros, medidores de pressão e até estetoscópios. Somente em uma ação de repressão na região, realizada pela assessoria de segurança institucional da Anvisa em abril, foram apreendidos 21 mil comprimidos de diversos medicamentos, além de equipamentos.

Do outro lado da fronteira com o Brasil, Ciudad del Este tornou-se um paraíso para criminosos e contraventores, como ambulantes que agem livremente nas ruas

Cidade paraguaia é a maior fornecedora de remédios falsificados e equipamentos clandestinos para o Brasil, através de 1 mil quilômetros de fronteira, diante da impotência das autoridades

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i u d a d del Este e Foz do Iguaçu – O vaivém de turistas pelas ruas apertadas e cobertas de camelôs de Ciudad del Este – município paraguaio fronteiriço com o Brasil –, esconde uma face mais cruel do que a apresentada àqueles que a conhecem em busca apenas de bugigangas. Responsável por 80% dos produtos pirateados que invadem o comércio brasileiro, de acordo com a Associação Brasileira de Combate à Pirataria, Ciudad del Este é também a grande fornecedora de medicamentos falsificados e equipamentos médicos sem registro. Um negócio que encontra em 1 mil quilômetros de fronteiras – seca e de portos clandestinos no Lago ItaipueRioParaná–,todasasfacilidades necessárias para prosperar, segundo as próprias autoridades brasileiras, que se sentem incapazes de fechar essa extensa porta. Diferentemente de organizações criminosas especializadas no tráfico de drogas e no contrabando de mercadorias importadas, o comércio ilegal de medicamentos e equipamentos médicos não tem uma estrutura formal. Pior. É usado o esquema de transportedeoutrosgruposcriminosos para fazer prosperar o seu cruel negócio,comcustozero.Essafatiade comércio não tem um grande controlador e pode ser abocanhada por qualquer um, de acordo com o chefe da Delegacia de Polícia Federal, José AlbertoIegas.Medicamentoscomoo Pramil – o famoso Viagra paraguaio –, são produzidos em fabriquetas de fundo de quintal nas proximidades de Ciudad del Este, que podem desaparecer num piscar de olhos e serem reabertas em outro local.

MONTAGEM Asfacilidades,noentanto, não param por aí. A apenas 20 quilômetrosdeCiudaddelEste–terceira maior zona franca do mundo, atrás apenas de Miami e Hong Kong –, no municípiodeMingaGuazú,estálocalizadooimponenteParqueIndustrial de Taiwan (PIT). Todo em estilo oriental,numterrenoimensocom500metros de frente e mais de um quilômetro de profundidade, o complexo industrial é apontado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – responsável pelo controle da venda de medicamentos e aparelhos médicos no país – como um centro de montagemdeequipamentosimpor-

tados,entreelesoaparelhodepressão, que inunda as ruas da cidade paraguaia."Aspeçasvêmdailhachinesae os equipamentos são montados ali", afirmaumtécnicodaagência,quepede para não ser identificado. Apesar de chamar a atenção pela imponência e forte segurança, garantidaporcarrosdescaracterizados,com quatrohomensemseuinterior,aplacadoPTIindicaqueolocalédestinado apenas à produção de alimentos. Entretanto,umolharatentomostraque no interior do terreno estão erguidos apenas galpões, sem chaminés, indispensáveis a este tipo de fabricação. O Estado de Minas/Correio Braziliense estevenolocalepôdeconstatarqueo centroestáemplenaexpansão.Às8h, operários já trabalhavam para erguer novos galpões, que vão se somar a mais de um dezenas deles já em funcionamento. Para a Anvisa, uma dor decabeçaamais.Afacilidadedeabastecimento de Ciudad del Este tem comoreflexotambémafacilidadedefazer chegarem os produtos pirateados ao território nacional. Para entender melhor a falta de interesse na repressão a esse crime no país vizinho, é preciso entender a estreita relação entre o Paraguai e Taiwan.Ailhasetornouaolongodos anos o maior credor daquele país, o único da América Latina e um dos 23 nomundoquenãoreconheceaexistência da República da China. A im-

ACESSE NO PORTAL UAI O HOTSITE SOBRE FALSIFICAÇÕES www.uai.com.br

portância do Paraguai para Taiwan fica clara também com a visita, em agosto do ano passado, do presidente taiwanês, Ma Ying-Jeou, que ofereceu mais ajuda ao país ao então eleito bispo Fernando Lugo. Lugo disse durante sua campanha à presidência que pretendia rever suas relações com a China,o que poderiasignificar o fim de uma aliança de mais de 51 anos com Taiwan.

MARINHA A partir da análise do ter-

reno fértil em que se prolifera a pirataria, fica fácil entender também por que as operações policiais na região da fronteira de Brasil e Paraguai são tão inócuas quanto os remédios falsos comercializados. Com representantesdeorganizaçõescriminosasinfiltradas nas estruturas do Estado, o vazamento de informação impede o sucesso.Deacordocomochefesubstituto da Polícia Federal em Foz do Iguaçu (PR), Ricardo Schneider, os contrabandistas operam na mesma frequência dos rádios da polícia e integrantes da própria Marinha do Paraguaiseencarregamdefazeraescolta de embarcações dos criminosos queatravessamolagocomosprodutos ilegais. “Em 2007, foi montada uma operação com cerca de 30 policiais brasileiros para repressão ao crime no Lago de Itaipu, durante à noite,horáriopreferidodasorganizações criminosas, em razão da dificuldade

Um mototáxi faz 20 deslocamentos por dia na Ponte da Amizade, que une Brasil e Paraguai deacesso.Paranossasurpresa,fomos atacadosatirosdefuzisquepartiram do território da Marinha paraguaia. Revidamos e nos vimos em meio a um tiroteio", conta Schneider. Nãobastasseagrandeextensãoda fronteiraeaescoltaoficial,cercade80 mil veículos cruzam a Ponte da Amizade por dia, sendo que apenas um mototáxi pode fazer até 20 deslocamentospordia,segundoaPolíciaRodoviária Federal. É um transporte baratoeágil.Parafazeratravessia,ocusto é de R$ 2 numa moto e para transportarremédiosfalsificadososmotoqueiros não cobram mais de R$ 200 pelomesmopercurso.Asautoridades paraguaias não informam o tamanho da frota de motos naquela cidade, a segunda mais populosa do país.

FISCO Levantamento da Agência NacionaldeVigilânciaSanitáriarevela ainda que a capacidade de fiscalização da Receita Federal na Ponte da Amizade não ultrapassa 5% do número de veículos que passam pelo

local.Ali,aAnvisanãofazvistorianos veículos, só atua na análise de mercadorias já apreendidas pelo fisco. Para tentar tornar mais eficaz a repressão, por meio da Assessoria de Inteligência Institucional da Anvisa, em Brasília, são montadas operações especiais periódicas, nas quais foi apreendido o maior número de remédios e equipamentos falsificados ou sem registro. Para ter ideia da facilidade de invasão do território nacional pelos ilegais,apesardeaAnvisacontabilizara comercialização de mais de 300 toneladas de remédios falsificados e sem registro, nos dois últimos anos, em operações de rotina da PRF, em Foz do Iguaçu, foram apreendidos apenas 74 mil unidades de Viagra, Reumazin, Pramil, Citotec, em 18 ocorrências, no ano passado. Esse ano, até julho, foram sete ocorrências com apreensão de outros 43,1 mil unidades dos mesmos medicamentos, os preferidos do comércio clandestino. A maior delas, este ano, aconteceu no dia 19, quando vários medicamentos estavam sendo transportados para Maringá (PR), dentro de computadores e brinquedos.Apenasomotoristafoipreso.Ele receberia R$ 500 pelo transporte.


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O Estado de Minas/Correio Braziliense simularou a compra de equipamentos médicos e remédios falsos ou sem registro em Ciudad del Este para comprovar a facilidade de abastecer o mercado brasileiro com produtos ilegais. FOTOS: MARCELO SANT’ANNA/EM/D.A PRESS

LOJA: MEDICAL CENTER INSTRUMENTOS LOCAL: CIUDAD DEL LESTE ENDEREÇO: REGIMENTO PIRIBEBUY, 899

Medicamentos como Viagra e Tamiflu são vendidos nas ruas de Ciudad del Este por camelôs, que também disputam os clientes brasileiros para levá-los, por US$ 1, a lojas que vendem produtos falsos MARIA CLARA PRATES Enviada especial

RONALDO OLIVEIRA/CB/D.A PRESS

Ciudad del Este – Os anúncios de venda de medicamentos falsificados ou sem registro nas ruas de Ciudad delEste,noParaguai,saltamaosolhos, mesmodosmaisdesavisadosvisitantes. E pior. Mesmo que ele não enxergue, os camelôs que lotam as ruas se encarregam de avisá-los que têm a mercadoria em pequenas e grandes quantidades,aogostodofreguês.Isso tudoàluzdodiaeemplenoCentroda cidade.Nãoexisteconstrangimentoe uminofensivovendedordecapaspara máquinas digital, como Eugênio, um homem de pouco mais de um metro e meio e cara de índio, garante que pode entregar, no hotel em que está o cliente em Foz do Iguaçu, um carregamento de estimulantes sexuais, como Viagra e Ciallis, além do genéricodobadaladoTamiflu,contra a gripe suína, mediante um pequeno acréscimo."Tenhoumtaxistaquepode fazer isso sem problemas", diz tentando fechar a compra. Na verdade, os camelôs não passam de braços do comércio legal, farmácias e lojas de venda de equipamentos médicos, incrustados em galerias empoeiradas e escuras, ou em pontos estratégicos do comércio lo-

cal.Paralevarumcompradoratéum destespontosdevenda,oscamelôs,a maioriadeorigemindígena,ganham apenas US$ 1, mas lutam por ele de unhas e dentes. A simples presença de um brasileiro é capaz de atrair meiadezenadeles.Elesouvemapropostadoconcorrentepara,emseguida, oferecer ao comprador preço melhor ou alguma facilidade. Foi assim com Eugênio. O Estado de Minas/ Correio Braziliense simulou negociação com outro camelô que oferecia um aparelho de pressão por R$ 35. Comjeitomanso,oconcorrentedisse que fazia por R$ 25 um número maiordeunidadesepoderiaaindafacilitar a compra de medicamentos. . CARTAZ No meio do burburinho das ruas de Ciudad del Leste, saltam aos olhos os anúncios de venda de medicamentos da Farmaútil. Em cartazes amarelos com letras vermelhos, eles oferecemViagra,Ciallis,Reumix,ogenérico do Tamiflu, entre outros, sem qualquer cerimônia. Mas não dá para dizer que se compra enganado remédios pirateados. O preço deixa, no mínimo,apulgaatrásdaorelha.Uma carteladosestimulantessexuais,vendidos no Brasil por cerca de R$ 100, são oferecidos por apenas US$ 6. E se a opção for pelo similar paraguaio, o

Pramil, paga-se apenas US$ 4 por 20 comprimidos. Com a oferta vem logo as facilidades que podem ser oferecidas, como transporte do carregamento criminoso até São Paulo, com o acréscimo de 50% do valor total da compra."Tenhoumamigoquedeixa em São Paulo, mas cobra 50% do valor da nota fiscal", informa. Os equipamentos médicos, além de expostos pelos camelôs nas ruas, estão em estandes, como no recémconstruído Shopping Del Leste, logo na entrada da cidade. A loja é a MedicalCenterInstrumentospertenceaos mesmosdonosdeumalojadedepartamento a La Petisqueira. Nela, são oferecidosdesdeperfumes,isqueiros e óculos de leitura até os mais sofisticados aparelhos eletrônicos. A Medical Center tem um filial bem mais modesta em uma galeria mal iluminada.Ali,avendedorasorridenteoferece um aparelho de pressão – além deestetoscópioeoutrosequipamentosmédicos-,semnomedofabricante e sem o lote de produção. Garante que o produto não tem qualidade inferior, e a única diferença é "a tecnologia de produção". Novamente, simulando uma compra maior, a repórterouveaproposta:"Nãosepreocupe, coloco o carregamento em seu hotel em Foz (do Iguaçu)". A venda dos ilegais funciona como uma rede bem trançada: o camelô leva até a loja, que oferece o transporte para evitar a fiscalização na Ponte da Amizade. Os comerciantes, por sua vez,têmsempreotransportadorpara atendê-lo.Ostiposdetransportemais comuns são os taxistas ou mototáxisa paraguaios. Medicamentos e equipamentos são transportados no interior da lataria dos velhos carros. Já os mototáxissearriscamcolandoaocorpo cartelas de remédio ou escondendosobcapasquecobremotanquede combustível. A opção pelas motos é mais barata e não ultrapassa R$ 200 para driblar as autoridades.

“Mas como você quebrou a prótese?” Petry Sá, 81 anos - Porto Alegre (RS) Nunca tinha processado alguém. Homem de postura mansa e espírito sereno, passou ao largo de todas as revoluções em seus 81 anos. Trabalhou boa parte da vida em farmácia, mas sonhava, quando criança, virar pedreiro. “Queria comer pão com banana”. No entanto, logo no primeiro emprego, veio Getúlio Vargas e a lei proibindo menores de 18 anos de trabalhar. Chegou a Porto Alegre ainda jovem, com a mulher. Mora na mesma casa há quase 30 anos, por isso, conhece cada rua do bairro como se fosse a sua. Sempre gostou de caminhar por lá. Até que a perna direita começou a dar sinais de fraqueza. “Doía tanto, a ponto de ter que me agarrar na parede”. O médico avisou: a solução era uma cirurgia simples, para colocação de uma prótese de quadril. Problema resolvido, os dois anos seguintes foram uma beleza, entrou até para a academia. Mas, pouco a pouco, as dores voltaram. Um dia estava no trabalho, situado em frente ao prédio onde mora, e sentiu uma fisgada. Pensou ser culpa do sapato. Ligou para

casa e pediu à mulher que atravessasse a rua e lhe entregasse um novo calçado. Não resolveu, correu para o hospital. “Mas como você quebrou a prótese?”, espantou-se o médico. O susto foi recíproco. Tentou puxar na memória, que sempre foi boa, alguma explicação para o problema. Lembrou-se de um tombo. “Mas não tinha como quebrar a prótese, senão teria quebrado a perna também”, explicou. Foi preciso se submeter a outra operação. E procurar a Justiça para entender o que havia ocorrido. A resposta veio nos laudos da universidade: “a prótese rompeu por fadiga, sendo encontrados pontos de nucleação de trincas”. Os materiais usados – carbeto e ferrita delta – não poderiam estar ali, porque são proibidos. A nova cirurgia o obrigou a passar dois meses deitado com a perna estendida. Hoje, três braçadeiras seguram os ossos. Aos poucos, a vida vai voltando ao normal. A Justiça determinou que recebesse R$ 84 mil de indenização, mais uma pensão vitalícia. “Meu projeto é chegar até os 100 anos. O resto é brinde, né?”

FARMÁCIA: FARMAÚTIL LOCAL: CIUDAD DEL ESTE ENDEREÇO: PASEO PERIBEBUY Repórter – Tem máscara? Vendedora – Tem R – Você me dá uma? R –Só tem azul? Não tem branca? Quanto é? V – R$ 1 R – Vou levar para o meu amigo também. Estou numa gripe ,como eu ponho? Assim? Esse medicamento para gripe suína, qual é? V –É Oseltamivir R – Mas o nome não é Tamiflu? V – Tamiflu é o nome comercial e a formula é o Oseltamivir R – Quanto está? V – Está a US$ 30 R – São 10 cápsulas? V – 10 cápsulas, Oseltamivir R – Como eu tomo? V – Tem que tomar … (lendo a bula), uma cápsula duas vezes ao dia, durante cinco dias. O tratamento deve ser iniciado nos dois primeiros dias do sintoma gripal R – Ah! Então já passei. Eu comecei minha gripe na quinta-feira. Melhor não tomar né? Mas vocês vendem grande quantidade desse medicamento? V – Vendo… R – Mas entrega no Brasil? V – Não R – Não entrega? Porque não tem… É produzido aqui, esse? Então, eu não posso vender lá, né? V – Para farmácia, não sei… Já foi ao médico? R – Nada. Sou comerciante e já estava com passagem marcada, mas eu não estou tendo febre. Diz que dá febre, né? V – Acho que sim R – E esses outros medicamentos, vocês vendem aqui? São feitos aqui? V – Sim R – Mas… V – Eu tenho uma pessoa que leva, mas cobra separado … R – Cobra quanto para levar uma quantidade maior…? Se eu fosse levar era uma quantidade maior V – 50% do valor da mercadoria R – Quais são esses outros medicamentos? É Pramil V – Pramil… é Reumazim …….. R – Aí, eu teria de fazer um pedido grande de quanto mais ou menos? V – O mínimo é US$ 1 mil? Para São Paulo? R – Não, Minas… V – Minas R – É só me entregar do outro lado da ponte… V – Ah… ………

Reporter – Olá, bom dia? Vendedora – Olá! R – Eu queria ver uns equipamentos seus? (aponta para estetoscópio) V – Agora, agora, no momento… Eu só estou tendo o pediátrico e o cardiológico R – E está quanto? V – O pediátrico está US$ 170 e o cardiológico da Littmann está US$ 270. E este é o Master, sai por US$ 300. R – Ih, agora não sei qual meu amigo quer… V – Ele é pediatra? R – Não … ele é clínico V – Deixe eu te mostrar… …. R – Qual a diferença? V – Os cardiologistas preferem o master porque auscutam melhor R – Posso anotar… V – Sim, vou fazer isso para você… R – Aqui tem aparelho de pressão também, né? V – Sim…. R – Esse é mais simples, não? V – Esse aparelho de pressão é uma promoção… US$ 130 o aparelho e o estetoscópio … R – Eu posso comercializar isso no Brasil? V – No Brasil… sim. A senhora quer vender para estudante? R – Não… Foi uma ideia que me ocorreu… V – Essa é uma marca muita conhecida, inclusive que os professores recomendam … R – E tem aquele ali que é mais simples V – Esse não é mais simples, mas um tecnologia diferente. Um é de uma marca mais conhecida e esse aqui é de outra fábrica R – Eu passo com isso aqui na fronteira? Na ponte? V – Facilmente… R – Mesmo se for uma quantidade maior? Porque eu estouro a cota e tenho que declarar. ………. Outro vendedor intervém na conversa: Se for quantidade maior entrego em seu hotel sem custo adicional. A gente tem um esquema e entrega para a senhora …........ R – E em quanto tempo vocês em entregam? V – Em uma hora, duas horas… R – E eu pago tudo aqui ou lá na hora V – Paga aqui R – Está bem, vou trazer o dinheiro…

R – Aí, qual a quantidade que eu tenho que levar? Ou qualquer quantidade eu pago 50%? V – Sim R – Posso levar só 10 caixas e pago 50% de qualquer medicamento? É Pramil, Viagra Ciallis V – Pramil, Viagra… R – Qual o preço da cartela do Pramil? V – US$ 4 a cartela R – E do Viagra? V – US$ 6 R – Com dois? V – Com quatro R – Com quatro? Pensava que eram dois… E o Ciallis? V – US$ 6 R – US$ 6 também

LEIA AMANHÃ CONEXÃO BOLÍVIA: PORTAS ESCANCARADAS PARA FALSIFICAÇÃO NA FRONTEIRA DESERTA


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SANGUESSUGA TERÁ DE PAGAR

Próxima ao Brasil, a cidade boliviana de San Mathias (foto) virou entreposto de medicamentos falsificados. Eles são vendidos livremente, a preços bem baixos, atravessam sem dificuldade a fronteira e são distribuídos no país, como mostra a terceira reportagem sobre os remédios da morte. PÁGINAS 10 E 11

R$ 575 MIL SIDNEY LOPES/EM/D.A PRESS - 4/11/08

O vereador por BH e ex-deputado federal Cabo Júlio (PMDB) é o primeiro parlamentar condenado no país por envolvimento com a máfia das ambulâncias. A Justiça Federal determinou que ele devolva R$ 134,8 mil recebidos como propina e o multou em R$ 431,6 mil por enriquecimento ilícito, além de suspender seus direitos políticos por 10 anos. Cabo Júlio informou que vai apelar da decisão. PÁGINA 6

OPOSIÇÃO RECORRE AO CONSELHO DE ÉTICA PARA MANTER AÇÕES CONTRA JOSÉ SARNEY ● PÁGINAS 3 E 4

CRUZADA PARA DETER A GRIPE

VESTIBULAR UFMG abre inscrições amanhã Prazo para concorrer a uma das 6,6 mil vagas distribuídas em 75 cursos vai até 8 de setembro. A inscrição custa R$ 130 e deve ser feita exclusivamente pela internet. Há 10 novas opções de graduação.

Minas começa a produzir xarope contra a doença na segunda-feira. Foram confirmadas as três primeiras mortes pelo vírus H1N1 no estado

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Remédio será fabricado pela Fundação Ezequiel Dias. Primeiro lote dará para 14 mil pessoas. Já estão disponíveis 24 mil tratamentos, enviados pelo Ministério da Saúde. Mas a secretaria estadual havia pedido 500 mil. Nível de alerta subiu. Óbitos constatados ocorreram em Betim, Ipatinga e Pouso Alegre.

Vida boa no

FREDERICO BOTTREL/EM/D.A PRESS

Mar Morto

NA VOLTA ÀS AULAS, LIÇÕES DE PREVENÇÃO

TUR ISMO Um roteiro com atrações de Israel. Belezas como o Mar Morto (foto) e a Fortaleza de Massada encantam turistas.

Os cuidados com a nova gripe foram o primeiro assunto a ser debatido na reabertura dos colégios, como no Dom Silvério (foto). Houve alunos que, com medo da doença, preferiram ficar em casa.

BETO NOVAES/EM/D.A PRESS

ESTUDO ALERTA QUE TAMIFLU PODE SER NOCIVO A CRIANÇA PÁGINAS 19 A 21

ARQUIVO PESSOAL

TRANSPORTES

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O mundo

no veleiro Livro do catarinense Vilfredo Schürmann (foto) conta as lições das viagens dele e da família ao redor do planeta.

Quando voar é mais barato que ir de ônibus

Aposentados resistem a reajuste de 7%

A guerra de tarifas entre as companhias aéreas – ontem mais uma começou a operar em Confins (foto) – faz com que passem a concorrer até com o transporte rodoviário. Em alguns trechos, o bilhete é mais barato do que o leito nos coletivos.

Proposta da União que concede aumento, mas engaveta possibilidade de atrelar benefício ao salário mínimo, é criticada por aposentados durante audiência na Assembleia Legislativa, em BH (foto). Decisão deve sair amanhã.

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PENSÕES SUA CHANCE

CONCURSOS ABREM 3.048 VAGAS. SALÁRIOS CHEGAM A R$ 4,3 MIL PÁGINA 15

CIÊNCIA

ALIMENTAR BACTÉRIAS DO SOLO PODE CONTER EROSÃO PÁGINA 18

ROUBO DE CARRO

CAI ÍNDICE DE AUTOMÓVEIS RECUPERADOS NA CAPITAL PÁGINA 24

PÁGINA 13 PAULO FILGUEIRAS/EM/D.A PRESS

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Pequena cidade da Bolívia vira entreposto de remédios falsificados vendidos livremente nas farmácias locais e que passam sem qualquer problema na fronteira brasileira

Divisa entre Cáceres (MT) e San Mathias, na Bolívia, tornou-se uma das principais rotas de contrabando e tráfico de remédios falsificados ou piratas para o Brasil

RENATO ALVES Enviado especial

A entrada de remédios e equipamentos médicos falsificados no Brasil ocorre não apenas pelos trechos mais movimentados. Na terceira matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que os produtos sem efeito chegam também pelas fronteiras desertas, caso do limite entre Bolívia e Mato Grosso. A falta de fiscalização no trecho entre San Mathias, no lado boliviano, e Cáceres (MT) transforma a região em verdadeira “terra de ninguém”. Nem mesmo a apreensão pela Anvisa de 59 mil quilos de remédios falsificados na região, nos últimos 18 meses, estancou o problema. A fiscalização também é falha na divisa entre Brasil e Uruguai. A venda de remédios ocorre em uma grande praça localizada entre os dois países.

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an Mathias (Bolívia) — ConhecendooslimitesentresascidadesdeCáceres, no Mato Grosso, e San Mathias,naBolívia,entende-seporquea região se tornou uma das principais rotas docontrabandoetráficoderemédiosfalsificados ou proibidos no Brasil. Entre os dois países, são quase 1 mil quilômetros defronteiraseca,cominúmerastrilhase estradas clandestinas. No lado boliviano, farmáciasvendemcaixasdetodotipode medicamento a qualquer pessoa, mesmoaquelesrestritosaprescriçãomédica pelo Ministério da Saúde da Bolívia. São substâncias encontradas facilmente na cidade brasileira próxima. O Estado de Minas /Correio Braziliense passou três dias na fronteira Brasil-Bolívia apurando o esquema de venda e distribuição de remédios ilegais. Em San Mathias, município de 10 mil habitantes, o repórter sofreuextorsãodesoldadosdoExército boliviano, ameaça de roubo por parte de pedestres e recebeu propostas de taxistas e ciclistas para transportarmercadoriasparaooutroladoda fronteira. Encontrou desmanche de carros roubados e muita miséria. Também foi alvo de oferta de cocaína, constatou como é simples e barato comprar remédios vetados no Brasil e testemunhou a escassez de fiscalização. DeCáceresatéSanMathiassão80 quilômetros pela BR-070. Nesse trecho da rodovia, predomina a paisagempantaneira—planíciesalagadas, árvores apinhadas por pássaros, pastos com centenas de cabeças de gado. Não há povoados, posto de combustível ou qualquer loja ao longo da rodovia. Apenas na saída da cidade mato-gros-

sense,aindaantesdotrevodeacessoàestrada que leva a San Mathias, existe um posto fixo da Polícia Rodoviária Federal. Nasseisvezesquecruzouoposto,orepórternãofoiparadopelospatrulheirosnem presenciou a abordagem a um veículo. Além do pantanal e dos rebanhos de gado de corte, a BR-070 é marcada pelos buracos. Caminhões carregados com madeiraextraídanaBolívia,caminhonetes, carros de passeios com placas brasileiras e táxis com placas bolivianas cortamaestradaregularmente.Aumquilômetro da fronteira, fica o destacamento do Corixa, do Exército brasileiro, onde acaba a BR-070 e o asfalto. Os soldados não fazem a guarda nos postos de controle de migração. Esse serviço cabe aos policiaismilitaresecivisdoMatoGrosso, integrantes do Grupo Especial de Segurança de Fronteira (Gefron).

COBERTURA DE PALHA Em um posto

feito de madeira e coberto de palha, montado numa estrada de terra batida a 800 metros do quartel do Exército, um PM e um agente da Polícia Civil pedem documentos a quem entra e sai do país. Os poucos homens da força especial não dispõemdeveículosmodernos,helicópteros,armaspesadas,cãesfarejadoresou equipamentos para vistoriar bagagens e carros,comoraiosX. Aoladodopostodo Gefron, fica uma unidade abandonada daReceitaFederaleumtrailerdaAnvisa, com dois agentes de saúde preocupados com a gripe suína. Seguindo conselhos de policiais federais especializados no combate ao narcotráfico em Mato Grosso, o repórter não atravessou a fronteira com o carro alugado. Se o fizesse, seria alvo certo de roubo ou latrocínio (assalto com morte), segundo os federais. Com isso, ele deixou o veí-

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culo ao lado do posto do Gefron, perto de outro barraco de madeira, onde há umcômodocomumpanonaentrada eaplaca“Banheiro50centavos”,outro cômodo com balcão e uma geladeira, ocupada por refrigerante, cerveja e água. É o terminal de ônibus do lugar. A dona do imóvel improvisado cobra R$ 1 pela vaga embaixo de um pé demanga.Elatambémajudaaorganizarasviagensdetáxi.Emmédia,acorrida de ida a San Mathias, em sete quilômetrosporumaestradaesburacada num carro aos pedaços, custa R$ 10.

OFERTA DE DROGAS Em San Mathias,

uma miniatura do Cristo Redentor dá as boas-vindas.Naseca,aestátuadecimento pintada de branco fica encoberta pela poeira da terra vermelha. A imagem é o símbolo do município. Dá nome ao clube de futebol local, o Cristo Rei, que joga em um campo gramado, sem arquibancada ou iluminação. Há ainda a praça central, com a bandeira do país, bancos demadeira,imagensdeanjosquebradas, fonte luminosa sem energia e água. Ali, as pessoas se encontram, os mais velhosdescansam,ascriançasbrincame criminosos oferecem remédios ilegais e cocaína aos brasileiros. Tudo em frente ao batalhão da Polícia Militar, de onde saem os soldados atrás dos estrangeiros. Obrasileiroqueseatreveadescerdocarroepararnapraçacentraloualgumarua está sujeito à abordagem dos militares. Jovens de corpos mirrados, pouco maiores do que o fuzil que carregam, pedem os documentos do forasteiro e, sem cerimônia, propinas como se fossem gorjetas, para evitar a revista. Os militares ganham, em média, o equivalente a R$ 200 mensais. Com isso, se dão por satisfeitos com uma propina de R$ 5.

egados ou com No Centro de San Mathias, desempr os se oferecem vian baixíssimos salários, cidadãos boli lojas formais As ria. cado mer r para transportar qualque tes. Não há clien de falta por , adas fech estão quase todas ecidos por ofer sequer padaria. Salgados e bebidas são o de compost um s, ambulantes. Restam três farmácia quinquie as roup com eira bustível e as bancas de mad teiriças, fron des cida as outr de nte lharias. Diferenteme eledem ven se como Cuidad del Este, no Paraguai, não por s leiro saco há não trônicos em San Mathias. Por isso sturi a ja este eiro ang estr um lá. É difícil acreditar que el. eráv mis mo num lugar tão nse esteve nas O Estado de Minas/Correio Brazilie s funciona no dela a drogarias da cidade boliviana. Um rter enconrepó o s, toda Em . que seria a sala de uma casa destinados mas il, Bras no s bido proi s trou medicamento m no país nde principalmente a brasileiros que os reve ácias. Os farm das a um de origem, segundo a dona de ilares sim os são os ileir bras os campeões de venda para a 0. A caix vem do Viagra. O mais popular é o Procop-5 sai ao equivalente com 10 pílulas azuis de 50mg cada e por R$ 10 cada der ven a R$ 17. “Lá no Brasil, você pode se apresentou que her mul a u (comprimido)”, comento outro lado da do tes clien s” “bon ter e como Maria e diss as mostracaix fronteira. Detalhe: a pintura de uma das da unha e ar pass o com das pela vendedora descascava a. ress imp ca mar o comprimido não tinha balcão ofereceu Numa outra farmácia, a mulher do mesmo tamanho o La Santes e o Rigix, com cápsulas do entanto, ela desNo 5. do Procop-50. A unidade saía a R$ or quantidamai r leva esse tacou que, se o cliente quis La Sierra, a 600 de, mandaria trazer de Santa Cruz de a semana. O sequilômetros de distância. “Demora um Se for muito, car. bus do nhor deixa o nome que eu man u a solícita lico exp la”, pílu a 2 fica mais barato. Até R$ abriu e suela ida, segu Em ol. unh vendedora, em port ra usaúlce para geriu uma caixa de Cytotec, remédio Brasil, no e crim rado do como abortivo, o que é conside pital e hos em do ntra enco ser e onde tal remédio só pod ido o comprim de a venda é proibida. Em San Mathias, Cytotec saía a R$ 5.


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Número de policiais é pequeno em Cáceres (MT), na divisa com a Bolívia, para barrar medicamentos falsos. Farmácias fechadas pela Anvisa por venda de estimulantes sexuais já estão reabertas Ambulantes montam barracas Enviado especial

Cáceres (MT)—Ônibus,caminhonetes,táxis, motos e bicicletas cruzam livremente o único posto de controle do Exército boliviano em San Mathias, na direção do Mato Grosso. Doladobrasileiro,épífioonúmerodepoliciais para fiscalizar tudo e todos. Sem contingente suficiente e equipamentos adequados, integrantes do Grupo Especial de Segurança de Fronteira (Gefron) mato-grossense contam com a sorte para barrar criminosos e mercadorias ilegais. Equipes móveis fazem campanas em trilhas que cortam fazendas para flagrartransportadoresdedrogasemedicamentos,chamadosdemulas.Nospostosfixos,tentam detectar, apenas por alterações no comportamento, quem carrega droga ou quem viaja a turismo, trabalho ou estudo. Percorrendo estradas clandestinas, o Gefron vai atrás da passagem das mulas humanas,quedeixamrastrosnopercurso,comosacos plásticos, latas de refrigerantes e cercas de aramecortadas.AviagemapédeSanMathias aalgumacidadebrasileiradafronteirapodelevar até três dias. Os traficantes atravessam as fazendasseguindoemdireçãoaoRioJaru,pois asmargenssempreestãolimpas,facilitandoo acesso à água. Cáceres, o município brasileiro mais próximo de San Mathias, fica a 80 quilômetros. As duas cidades são ligadas pela BR070, cercada por pantanal. As constantes prisões na fronteira de traficantesdecocaína,tambémcomgrandequantidade de remédios na bagagem, carro ou corpo, levaram o Ministério Público Federal em Mato Grosso a dar início a uma investigação emCáceres.ElaresultounaOperaçãoSalus.Desencadeadaem29desetembrode2008,aação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Polícia Federal culminou no fechamentodesetefarmácias,naprisãodecinco donos dos estabelecimentos e apreensão de maisde500quilosdemedicamentosadulterados ou sem registro, como o Procop-50, para disfunção erétil, de fabricação boliviana. Nasdrogarias,osfiscaisencontraramainda medicamentos fitoterápicos, chás para emagrecimento e pomadas sem o registro na Anvisa, mel embalado em garrafas de bebida alcoólica, além de dois tipos de remédios falsificados, o Cialis, fabricado no Brasil pelo laboratório Eli Lilly, e o Viagra, do Pfizer. Os comerciantespresosobtiveramhabeascorpus,mesmo sob acusação de crime contra a saúde pública (vender ou estocar medicamentos adulteradosoufalsificados),queéconsideradohediondo,nãopermitindoopagamentodefiança para responder ao processo em liberdade. As farmácias deles voltaram a funcionar.

FEIRA DA BOLÍVIA A 210 quilômetros de Cuiabá, Cáceres tem 28 drogarias e sete farmácias de manipulação. Há duas semanas, o Estado de Minas/Correio Braziliense visitou metade das farmácias, inclusive as que haviam sido fechadas há quase um ano. Desconfiados, os balconistas garantiram não ter unidades nem caixas dos remédios apreendidos. Muito menos alguns dos 16 similares

LEIA AMANHÃ

fabricados na Bolívia. No entanto, tais medicamentos são vendidos livremente no Centro da cidade, em um conjunto de barracas de madeira de ambulantes conhecido como Feira da Bolívia. Montadas no entorno da rodoviária do município, a maioria das barracas pertence a bolivianos e vende produtos contrabandeados. Além de perfumes e quinquilharias, expostas nas bancas, alguns ambulantes escondem remédios, principalmente o Procop-50 e o Cytotec, usado ilegalmente como abortivo. Se não tem no local, pedem para o cliente aguardar e, em no máximo cinco minutos, aparecemcomascartelasencomendadas.Em geral, a pílula custa R$ 20. A procuradora da República Vanessa Zago, que comandou a Operação Salus, diz que Cáceres se tornou porta para medicamentos ilegais por causa da grande extensão de fronteira seca, falta de fiscalização e de consciência da população. “Na região, falta a presença do Estado, falta posto da Receita Federal, delegacia da PF, e o Exército faz papel de polícia. A população, por sua vez, não vê o medicamen-

to ilegal como algo maléfico”, comenta. As mesmas observações tem o chefe de fiscalização da Vigilância Sanitária do Mato Grosso, Fábio Silva, que participou de uma segunda operação organizada pelo MPF batizada de Drágea, em 19 de maio. Dessa vez, PF, Vigilância Sanitária e MPF agiram em Cuiabá e Várzea Grande. Sete pessoas foram presas, com apreensão de 10 toneladas de remédios, como Desobesi, Inibex e Sibutramina. Os agentes estiveram ainda em cinco drogarias, onde encontraram Cytotec, Pramil, anabolizantes, Viagra e Cialis piratas. Entre os presos estavam proprietários, gerentes de distribuidoras e farmacêuticos. Nenhum presos ficou atrás das grades. As farmáciasedistribuidorasinterditadasreabriram graças a liminares da Justiça. O secretário deSegurançadeMatoGrosso,DiógenesCurado, reconhece a vulnerabilidade da fronteira e ressalta que, em cinco anos de atuação, o Gefron levou ao aumento de 1.000% no volume deveículosrecuperados,3.300%novolumede drogas apreendidas e 400% no número de armas recolhidas.

para vender produtos contrabandeados e medicamentos abortivos, no Centro de Cáceres

ALANA RIZZO

“Tinha certeza de alguma coisa errada” Paulo Roberto Vianna, 47 anos - Porto Alegre (RS) Aquele dia não lhe sai da memória. Acordoucedo,às6h30jáestavanohospital.Semprefoiumhomemprudente.Por isso, quando o médico lhe disse que era preciso operar de hérnia de disco, contrariou a opinião da mulher, reorganizou sua agenda de palestras e marcou para o iníciodedezembrode2001acirurgia.Numa escala de zero a 10, avaliaria sua dor em grau três. Precisava acabar com ela. “Só pensava na qualidade de vida que teria”. A rotina como especialista em segurança de trabalho exigia 1 mil quilômetros semanais em deslocamentos pelo Sul do Brasil. A operação durou duas horas e meia. Na cirugia, recebeu implantes ortopédicosmetálicos,maisconhecidosporpróteses. Na UTI, para onde foi levado depois da operação, sentia calafrios. “É efeito da anestesia”, explicou alguém. Foram seis dias de internação. O médico Ernani Abreu não apareceu nenhuma vez. Mas as dores não passavam e as doses de remédio eram aumentadas. Formaram-se coágulosemalgunsdeseusvasossanguíneos, entre outras complicações. NavésperadeNatal,procurounovamente o médico, que lhe pediu paciência. “Minha vida voltaria ao normal em breve, ele prometeu.”Jásabiadoriscodeamusculatura das pernas sofrer atrofiamento, mas as sessõesdefisioterapiaregularestinhamjustamenteafunçãodeevitá-lo.Emvão.“Tinha certeza de que alguma coisa estava errada, porqueseguitodasasorientaçõesmédicas.” Começou a investigar por conta própria. Percorreu órgãos oficiais, ministérios públicos Estadual e Federal. Telefonava para a Anvisa e secretarias de saúde. Na internet, seguia as pistas de seu problema. Deparou-se com uma máfia de próteses. No

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lugar do alívio, a obtenção de respostas resultou em um quadro de depressão. Processou o médico. Oito anos depois, ainda convive com a dor. Ainda não se submeteu a retirada das próteses, mas avaliações médicas atestam que o material usado é de má qualidade. Avalia-a em grau sete. Recebe todo mês R$ 939 do INSS, mas gasta R$ 600 com remédios. A mulher começou a trabalhar, seu papel agora é cuidar da casa. Os filhos saíram da escola particular; vendeu carro e apartamento. “Estava numa curva crescente. Hoje não espero qualquer coisa do futuro”, desabafa.

CRIMINOSOS DESPEJAM PRODUTOS FALSIFICADOS NO SISTEMA DE SAÚDE POR MEIO DE LICITAÇÕES

Santana do Livramento (RS) e Rivera (Uruguai) – Não é preciso apresentar passaporte ou qualquer outro documento para atravessar a chamada “fronteira da paz”. O aglomerado binacional, a cerca de 500 quilômetros de Porto Alegre, é dividido por uma praça. De um lado, free shops com produtos importados. Do lado brasileiro, uma cidade sustenta o consumismo da vizinha. O português se mistura ao espanhol. Real, peso e dólares também. A circulação de mercadorias é intensa. Todo fim de semana, as duas cidades lotam. Gente de todas as regiões do estado e de fora em busca do bom preço. O contrabando e a livre circulação de produtos fazem parte da rotina das duas cidades. Com medicamentos não é diferente. Nas ruas, brasileiros aproveitam o preço baixo das farmácias uruguaias. O comerciante Renato Ribeiro, de Porto Alegre, costuma vir uma vez por mês a Livramento e sempre compra remédios. “Da última vez, minha mãe me pediu um para arritmia cardíaca. No Brasil, custa mais de R$ 100. Paguei R$ 30”. Vendedores estão acostumados com o movimento de consumidores. O “kit”para combater a influenza A (gripe suína), está em alta. Álcool em gel e Tamiflu são vendidos em todas as farmácias sem receita. A Sibutramina, por exemplo, só vendida com prescrição e retenção da receita médica no Brasil, está disponível em qualquer farmácia uruguaia. Os vendedores insistem no produto local – o Perfil. Numa farmácia, o vendedor até sugere que o produto seja vendido no Brasil para as amigas. Apesar de a Polícia Federal ter intensificado ações na fronteira, ainda falta fiscalização. À noite,o movimento de caminhões e ônibus nas estradas é intenso, mas sem policiamento. Durante o dia, na rodovia que liga a cidade a Porto Alegre, a situação é a mesma. O posto da Guarda Caminera fica em Manuel Diaz, a 70 quilômetros. Barreiras móveis são montadas esporadicamente, mas a ilegalidade já tem seus esquemas para evitar a fiscalização. Segundo a PF, criminosos redistribuem pacotes, tentam subornar policiais ou cruzam a fronteira seca a pé ou em carroças.


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A partir de pregões eletrônicos, governos estaduais e prefeituras compram produtos médicos falsificados

THIAGO HERDY E ALANA RIZZO Enviados especiais

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urvelo (MG) e Carazinho (RS) — O poder público está comprando produtos piratas. O maioracessodosmunicípiosàs ferramentas de pregão eletrônico tem levado prefeituras e órgãos estaduais a obter remédios e equipamentos médicos das mãos de fornecedores com CNPJemdia,maslocalizadosacentenasde quilômetrosdedistânciaeincapazesdegarantir a origem dos produtos. Na quarta matériadasérieFalsificaçãodacura,oEstado de Minas/Correio Braziliense mostra queadisseminaçãodeitensfalsificadospelopaísdeixaosistemapúblicodesaúdedo Brasil cada vez mais vulnerável. Em cena, governos desempenham papéis distintos. Na maioria das vezes, alegamseremvítimasdosdistribuidoreseda lógica do menor preço estabelecido pela LeideLicitações.Masnemsempredesconfiam dos valores muitos baixos ou verificam indícios de fraude. Obrigada pela Justiça a fornecer 23 caixasmensaisdeViagraaumamoradora vítimadehipertensãoarterial(leia ao lado),a prefeitura de Curvelo, na Região Central de Minas,abriulicitaçãoparaaquisiçãodomedicamentopormeiodoportalCidadeCompras, da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Localizada a 1.700km de distância e com a proposta de oferecer cada caixa com quatro comprimidos a R$ 89,99 (valor29,5%menorqueopreçodetabela),a DentisfarComérciodeProdutosFarmacêuticos Ltda., sediada em Carazinho, no Rio Grande do Sul, ficou à frente de outras cinco concorrentes e venceu a disputa. O contrato com a prefeitura mineira é de julho de 2007, mas, cinco meses depois, a usuária do medicamento denunciou que os comprimidos eram falsos. A polícia apreendeu os lotes armazenados na prefeitura e notas fiscais fornecidas pela Dentisfar. Exames realizados pela Fundação Ezequiel Dias e consultas ao laboratório comprovam a fraude. Notasfiscaisemitidasemnovembrode 2007emarçode2008citamavendadoslotes604883004Ae5048012D.Oslaudosatestaramqueamarcad’águadessascaixasera falsa. A Pfizer informou ainda que as datas de fabricação e validade não conferiam com os registros originais. Os remédios falsificados não haviam sido entregues por uma distribuidora qualquer. Pesquisa nos portais de compras do poder público em

todo o Brasil mostra que a Dentisfar já participou de licitações da Câmara dos Deputados, Ministério Público do Distrito Federal, governo de Goiás, além de dezenas de prefeituras dos três estados da Região Sul, Minas, Bahia e até Rio Grande do Norte. De 2005atéosprimeirosmesesdesteano,apenas o governo federal pagou à empresa R$ 1,7milhãoporinsumosmédicos,principalmente para as Forças Armadas. A Prefeitura de Curvelo rompeu o contrato com a empresa. A Polícia Civil de Minas instaurou inquérito e enviou, em setembro do ano passado, carta precatória à Delegacia de Carazinho. O documento determinava a tomada de depoimento dos sóciosdaDentisfaràépoca:NeusaCarmen Becker, Milton Jorge Rabuske Xavier, Cristiano Rosseto da Silva, João Carlos Ortiz da SilvaeJulianoPorto.Quaseumanodepois, o resultado não havia chegado a Minas. Em Carazinho, a 280 quilômetros de Porto Alegre, quase ninguém sabe que os donosdarededefarmáciasBrasil,comtrês unidades,sãoproprietáriosdeumadasdistribuidoras de maior porte da região.O novo prédio foi construído com recursos do Fundo do Amparo ao Trabalhador (FAT). Cincofuncionáriosprotegemoportão,que passa a maior parte do tempo fechado. A reportagem tentou ouvir o dono da empresa, que funcionários disseram ser, atualmente, João Carlos Rabuske Xavier. Eles afirmaram que ele estava viajando e ninguém mais poderia falar. Ao lado do sede, está instalada a nova farmácia do grupo. Um banner garante medicamentos com até 60% de desconto. Em consulta ao site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a reportagem não encontrou autorização de funcionamento. Além das drogarias, Rabuske é conhecido pela fabricação de remédios manipulados. Oempresárioésóciodeoutraempresa, aJ.C.XaviereCia,quetem147protestosem cartório,alémde17pendênciasfinanceiras. OempresárioMárcioSchneider,ésóciominoritário da empresa. Os dois também são donos da Schneider e Xavier Ltda. A reportagem deixou recado com os funcionáriosdaempresa,porém,ninguém retornou.OEstado de Minas/Correio Braziliense procurou também os sócios na época em que o inquérito foi aberto. Nem todos foram encontrados. O advogado CristianoRossetonegouqualquerenvolvimento. “Eu e meu pai vendemos há muitotempo.Nanossaépoca,aempresaerasó uma sala e tinha poucos clientes.”

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Empresa Dentisfar, com sede em Carazinho (RS), ganhou licitação da Prefeitura de Curvelo, na Região Central de Minas, e forneceu Viagra falsificado

Tratamento de mentira Alexandra S. Silva, de 31 anos, Curvelo, MG Um dia acordou tossindo e com olençolencharcadodesangue.Não tinha cortado o dedo ou machucadoaboca.Oproblemaeraoutroesó seria descoberto no início da juventude: hipertensão pulmonar. As artérias que chegam até o pulmão estãoestreitas,apressãosanguínease eleva, por isso eles ficam cheios de sangue. "Durante uma crise, você tem certeza de que vai morrer." Na adolescência, o jeito "meio mole"semprefoialvodepreconceito. Conseguiu ir à faculdade e formar em letras, mas não concluiu a pós-graduação porque a doença não deixou. Virou professora de escola pública, dá aulas da 5ª série ao 3ºanodoensinofundamental.Ainda hoje é obrigada a lidar com a falta de ar e a dor forte no tórax, que ocorremaomenoresforço.Subirescadas,trocarderoupaseatémesmo falar são difíceis em períodos de crise. "É como um trator passando por cima de mim". Para não correr o risco de morte súbita, o cardiologista receitou-lhe 150mgdecitratosildenafilapordia. É a substância principal do Viagra, remédio mais conhecido por combater a disfunção erétil do que hipertensão pulmonar. A fama dos comprimidos azuis faz Alexandra ter vergonha de aparecer no jornal comousuáriadeles.Massãoaspílulas que lhe garantem força para levantar todos os dias. Atravessar a

rua e conversar com o vizinho. Cuidar da única filha, de 12 anos. Sem o remédio, não teria mais que três anos de vida, avisou-lhe o médico. A compra na farmácia resultaria em um gasto extra mensal de R$ 2,9 mil. Obteve na Justiça o direitoderecebê-logratuitamente.No ano passado, observou que a caixa entregue pela prefeitura não tinha selo de segurança. O número do laboratórioeraestranho,assimcomo o tom de azul do comprimido. Quando o partiu com os dedos, ele se desmanchou. Para cortar o original, era preciso usar faca. Fez uma denúncia ao laboratório e à polícia. "SeaquiemCurvelorecebiremédiofalsificadodaprópriaprefeitura, imagina nesse ‘mundão’ afora?", pergunta.Suadoençanãotemcura. Sem um transplante de pulmão, única solução desenhada em um horizonte distante, resta-lhe conviver com as limitações. O consolo é acreditarqueodestinoreservaalgumacoisaàspessoas.Esempreépossível aprender algo com isso. Nunca ouviu falar de Carazinho (RS),cidadezinhadeondepartiuoremédio de mentira que lhe entregaram. Quando é provocada a falar sobreaspessoasqueproduziramedistribuíram o medicamento que ameaçouseutratamento,aresposta é um longo silêncio. Depois, vem o lamento: "Quem ganha dinheiro à custadavidadooutroédignodedó".


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A farmácia foi reaberta dois dias depois de ter sido interditada pela Anvisa

Funcionários públicos fraudaram licitações para favorecer organização criminosa que abasteceu hospitais com equipamentos sem qualidade e causou prejuízo de R$ 80 milhões THIAGO HERDY Enviado especial

São Paulo – A participação de funcionários públicos paulistas em fraudes para aquisição de produtos de má qualidade por hospitais paulistas mostra uma das faces mais cruéis da falsificação de remédios e equipamentos médicos. Escutas telefônicas realizadas com autorização da Justiça e obtidas pelo Estado de Minas /Correio Braziliense revelam funcionários públicos usando justamente as ferramentas de controle da procedência de produtos para manipular as licitações. Os servidores favoreceram criminosos que despejaram nas unidades de saúde toneladas de itens fabricados em países como China e Índia, sem controle de qualidade, colocando em risco a saúde de milhares de pacientes. De acordo com o Ministério Público (MP) de São Paulo, os produtos foram vendidos entre 2004 e 2008 por um grupo de cinco empresas que agiam de forma combinada em pelo menos três hospitais de São Paulo: dois estaduais (Ipiranga e Pérola Byington) e um municipal (Cármino Caricchio, mais conhecido como Tatuapé). “Os governos pagavam por insumos médicos de boa qualidade, mas recebiam toneladas de produtos inferiores e de procedência duvidosa”,

disse o promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, à frente do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na época das investigações. Entre os itens inferiores estão seringas descartáveis, sondas, soluções para diálise, bisturis descartáveis e até mesmo cateteres. Além de entregar produtos de má qualidade aos hospitais, as empresas Home Care Medical, Healthserv, Velox, Biodinâmica e Vidas Med são acusadas de superfaturar os itens e, muitas vezes, nem mesmo entregá-los. O prejuízo foi estimado em R$ 80 milhões. Quando a Operação Parasitas foi desencadeada pelo Gaeco, em outubro do ano passado, o governo informou que as licitações fraudulentas haviam sido acompanhadas, por isso todos os itens de má qualidade teriam sido recolhidos. Mas, quando apresentou a denúncia contra os envolvidos, dois meses depois, o MP revelou que a quadrilha agia nos hospitais desde 2004, período anterior às investigações. A descoberta tardia da ação criminosa impediu a identificação de pacientes que teriam sido vítimas dos itens sem controle de qualidade. O processo corre em segredo de Justiça.

GRAMPO Em interceptação telefô-

nica em abril do ano passado, o MP flagrou um diálogo em que a repre-

Marcos Agostinho Paioli Cardoso

sentante comercial da Vida’s Med Representações, Vanessa Favero, combina com a diretora técnica da divisão de enfermagem do Hospital Pérola Byington, Márcia Maneghello, o resultado da licitação de equipos (mangueira usada para passagem de soro). Em determinado momento da conversa, Vanessa promete “entrar com recurso pedindo para solicitar amostra”, caso um concorrente ganhasse a disputa. A prerrogativa é usada justamente para que, em alguns casos, a comissão de licitação ou o pregoeiro verifiquem se o objeto a ser entregue está de acordo com o solicitado no edital. No entanto, neste caso, o recurso seria usado para “dar uma ajudada”, como diz a própria Vanessa, e garantir o resultado de interesse da quadrilha. Funcionário público estadual também, João de Oliveira Filho foi acusado de trabalhar para a quadrilha no mesmo hospital. A mesma denúncia pesou sobre Ziran Maria de Melo Moreira, chefe do setor de compras do Hospital Ipiranga. Em vez de afastados, os três foram apenas transferidos para outras unidades de saúde. De acordo com o processo, Vanessa Favero dividia com Carlos Alberto do Amaral, conhecido como Papito, a função de cooptar os funcionários de hospitais públicos para interferirem no andamento das licitações. A diferença entre os produtos oficialmente vendidos e os efetivamente entregues (sempre de segunda linha e sem controle de qualidade) gerava lucros que eram remetidos ao exterior, por meio de empresas off-shores.

Dirceu Gonçalves Ferreira Junior

Renato Pereira Junior

Visconde do Rio Branco – “Fatores éticos relacionados com a intercambialidade(troca)demedicamentos em receituários médicos”. O título do trabalho de conclusão de curso do farmacêutico Humberto Tacitti da Silva, de 34 anos, encerrado no fim do ano passado, parece uma brincadeira de mau gosto quando confrontado com o que ele fez poucos meses depois. Ele foi preso em flagrante pela Polícia Federal (PF), acusado de vender medicamentos proibidos no Brasil e ainda entregar à Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), 96 comprimidos de Viagra falsificados. Os policiais foram convocados a ir até Visconde de Rio Branco, na Zona da Mata mineira, para descobrir o endereço da Drogaria Nascimento & Silva Ltda, empresa vencedora da licitação para fornecimento do medicamentoàprefeiturapaulista.Assim como ocorreu em Curvelo, a prefeitura havia sido obrigada pela Justiça a fornecer o medicamento a uma vítimadehipertensãopulmonardacidade. A administração abriu, então, concorrência para fornecimento pelo portal CidadeCompras. A Nascimento & Silva ofereceu o menor preço pela caixa com quatro comprimidos, R$ 68, valor 46,7% menor do que o preço de tabela. A primeira remessa foi enviada ainda no primeiro semestre deste ano. Mas farmacêuticos desconfiaram quando observaram que os comprimidos tinham cores diferentes daqueles que já estavam em estoque. “Estava claro que havia algum problema. Ou aqueles que tínhamos armazenados eram falsos, ou os enviados”, contou a farmacêutica paulista Giuliene Magno Trajano. A resposta veio da Vigilância Sanitária Municipal: quase metade dos 272 comprimidos fornecidos pela empresa mineira eram de mentira. A drogaria responsável pela frau-

de é uma empresa familiar, que traz na fachada o nome Drogaservice. O dono, Ayrton Tacitti da Silva, de 70 anos, divide a administração da loja com os filhos Humberto e Liliane Silva, de 44. Humberto estava no local quando a PF chegou, em junho, e foi preso ao se apresentar como responsável pela empresa. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a interdição do estabelecimento porque lá foram encontrados 200 comprimidos de remédios com venda proibida no Brasil. Havia também outras 200 pílulas de medicamentos controlados que estavam irregularmente expostas à venda. Mas o flagrante teve efeito nulo. Em dois dias, os donos da empresa obtiveramnaJustiçaautorizaçãopara reabrir a drogaria. Em três dias, Humberto foi solto e voltou a trabalhar na farmácia da família. Procurado pelo Estado de Minas/Correio Braziliense, ele admitiu ter começadoaparticipardepregõeseletrônicos havia pouco tempo, mas se recusou a passar qualquer outra informação sobre o caso, por orientação de seus advogados. O pai de Humberto, Ayrton Tacitti, é o responsável legal pela empresa, de acordo com a Anvisa. A atividade de farmácia foi tão próspera para a família que o patriarca construiu até um prédio para morar com os filhos. É um dos melhores edifícios do município. Procurado, informou por intermédio da filha que também não daria entrevista sobre o problema com a polícia. Aos comerciantes de lojas vizinhas, que se espantaram com o fechamento repentino da loja e a reabertura, logo em seguida, disse ter tido problemas com notas fiscais. Os advogados da família argumentaram que aguardam a conclusão do inquérito da PF para se pronunciarem sobre o assunto. (TH)

i

Líderes

i

sóocio

Administradores de fato

Contábil Paioli Ltda. (responsável pela parte contábil das outras empresas do esquema)

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sócio

Healthserv Serviços de Análises Clínicas Ltda.

Home Care Medical Ltda.

Velox Produtos de Saúde e Gestão Hospitalar Ltda.

mesmo endereço

Empresas O�-shore (sediadas no Panamá)

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Intrepid Overseas Inc.

Vida’ s Med Representações Ltda.

Velox Overseas S.A.

Empresas envolvidas

gerente

Eduardo Campos Ferraz

Biodinâmica Comercial Ltda.

representante e supervisora

Vanessa Fáavero

representante comercial

Carlos Alberto do Amaral (”Papito”)

Diretora de hospital paulista usa ferramenta de controle da qualidade para favorecer quadrilha 29 de abril de 2008 Márcia Maneghello, diretora técnica da divisão de enfermagem do Hospital Pérola Byington : Oi, meu amor. Tudo bom? Vanessa Favero, representante comercial da quadrilha: Tudo bom! E você, meu amor? Márcia: Tudo bem, tudo caminhando. Vanessa: Querida, é hoje o nosso pregão de equipos. Márcia: Daqui um pouquinho, né? (…) Vanessa: Ah, então tá bom. Eu já deixei o pessoal lá do escritório avisado, que se ganhar aquelas tranqueiras que a gente já conhece, eles vão entrar com recurso pedindo pra solicitar amostra. Márcia: Tá bom. Vanessa: Que assim dá uma ajudada, né? Márcia: Tá bom. Vanessa: Tipo assim, dividir e tal. Que aí dá pra gente analisar aquela questão do filtro. Márcia: Isso mesmo, isso mesmo. Vanessa: Então eles já “tão” tudo avisado que quem entrar, eles vão entrar com um recursinho. Tá bom? Márcia: Tá bom então.

Cooptação de funcionários públicos

funcionários publicos Cooptados

CONFIRA NO HOTSITE SOBRE FALSIFICAÇÕES Ziran Maria de Melo Moreira

chefe de seçcao do setor de compras

Hospital Ipiranga

Márcia Meneghello

João de Oliveira Filho

diretora tecnica de divisãao de enfermagem

Hospital Perola Byington

funcionario

Milva Lúcia de Melo

(WWW.UAI.COM.BR/FALSIFICACAO) A ÍNTEGRA DE TRÊS DIÁLOGOS DA MÁFIA DOS PARASITAS.

diretora de farmacia

Hospital Tatuapé

LEIA AMANHÃ A CONEXÃO ENTRE FALSIFICADORES E QUADRILHAS ESPECIALIZADAS EM ROUBO DE CARGA


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Empresas de fachada, laranjas e ladrões de carga formam rede criminosa que abastece mercado com medicamentos roubados ou falsificados, como o Glivec, para leucemia, uma doença fatal BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS

THIAGO HERDY Enviado especial

Rio de Janeiro (RJ) – A vertente informal do milionário mercado da saúde une falsificadores, ladrões de carga de medicamentos e corruptores de funcionários de hospitais públicos em torno de um objetivo comum: obter lucro fácil a qualquer custo. Para garantir o sucesso, fraudadores montam uma intrincada rede de empresas, a maioria de fachada e em nomes de laranjas, para dificultar as ações de repressão e facilitar a lavagem de dinheiro do negócio sujo. Na quinta matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que, antes de chegar às mãos do consumidor, caixas de remédios caros percorrem um longo caminho até ganhar uma aparência legal, tanto os falsificados os quanto os roubados. Só nos últimos 18 meses, a Anvisa notificou o roubo de 80,3 toneladas de medicamentos.

Q

uem observa o comerciante Jorge Otto Quaresma entre lâmpadas, acessórios para pipas, baldes e cestas em sua loja no segundo andar do Mercadão de Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro, dificilmente imagina que do outro lado do balcão está um homem que vende, além de bugigangas, remédio para tratamento de leucemia (doença que se caracteriza pela proliferação cancerosa de células precursoras dos glóbulos brancos na medula óssea e no sangue). Mas os produtos que oferece na área de saúde não podem ser postos na vitrine, por um motivo simples: são falsificados. O esquema de Otto, que já tem em sua ficha criminal um indiciamento por receptação de cargas de remédio roubadas, foi descoberto depois que farmacêuticos do Hospital São Lucas, da PUC do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, desconfiaram das 10 caixas de Glivec 400mg vendidas ao hospital universitário pela distribuidora gaúcha Multifarma, há cerca de um ano e meio. As embalagens não tinham lacre de segurança, e os comprimidos apresentavam tonalidade diferente da usual. O dono da Multifarma, o gaúcho Cláudio Vieira da Silva, de 34 anos, que também já foi preso por receptação de remédios roubados, apressou-se em explicar a origem do medicamento: as caixas haviam sido compradas do carioca Jorge Otto, a quem conhecia como “o cara que trabalhava com Glivec”. No mercado da morte, este é um posto “respeitável”, afinal, duas caixinhas simples, com 30 comprimidos do medicamento, cada, custam o mesmo que um carro popular (R$ 22,8 mil). Para comprovar a origem do remédio, Cláudio telefonou para Otto diante dos representantes do hospital. A ligação foi colocada no viva voz, e Otto jurou ter adquirido o produto do próprio fabricante, o laboratório Novartis. Mas, chamado a depor na Superintendência Regional da Polícia Federal (PF) no Rio de Janeiro, Otto admitiu a farsa. Disse ter comprado as caixas, alguns meses antes, das mãos de um representante da Armazém Central de Medicamentos Ltda., empresa de Santos (SP). O comerciante contou ainda que, antes de serem enviados ao Sul, os remédios foram repassados ao empresário carioca Miguel Ângelo dos Santos Jacob, dono da distribuidora Nova Vitória. Ele teria repassado os produtos à distribuidora gaúcha, por R$ 4 mil, cada caixa. O valor é equivalente a apenas 34% do preço de tabela do remédio (R$ 11,4 mil). A situação de Otto e Jacob se

complicou quando a polícia descobriu que, além do Hospital São Lucas, a distribuidora carioca Onconeo recebeu da dupla caixas de Glivec falsificado. O laboratório Novartis denunciou que a Onconeo encaminhou os remédios sem efeito a uma distribuidora de medicamentos do Espírito Santo e a um paciente de Eunápolis (BA). Chamado a depor, o dono da empresa, Carlos Fernando Ferreira de Oliveira, disse que comprou os remédios da Nova Vitória. Até 2008, um dos sócios da Onconeo era ninguém menos que Miguel Jacob.

■ PF DESCOBRE TESTA DE FERRO A Polícia Federal (PF) acredita que Jorge Otto, na verdade, seja testa de ferro de Jacob, que atua no ramo de distribuição de medicamentos há quase 20 anos. O dono da loja no Mercadão de Madureira admitiu ter forjado a venda de remédios à empresa do “amigo”, por meio da emissão de notas fiscais frias, “para que o mesmo acertasse sua contabilidade”, conforme disse em depoimento. Para este fim, ele usava o nome da empresa de distribuidora de medicamentos que mantinha em seu nome, a Ciblay-Rio Distribuidora de Produtos Hospitalares. As notas são datadas de 2006 e 2007, mas Otto jura que a firma foi fechada em 2005. Outra prova da cumplicidade entre a dupla seria o depósito de R$ 10 mil feito por Jacob na conta bancária do “amigo”, em fevereiro de 2007. A explicação de Otto para a transferência é, no mínimo, curiosa: segundo ele, trata-se de um empréstimo para a compra de linha de pipa. O envolvimento da dupla com a venda de Glivec é antigo, segundo documentos apreendidos pela polícia. Uma nota fiscal da Ciblay-Rio redigida por Jorge Otto em 2006 registra a venda de seis caixas do medicamento à Nova Vitória Comércio de Produtos Hospitalares, empresa de Jacob, mais de um ano antes das vendas ao hospital do Rio Grande do Sul e à distribuidora carioca. Perguntada sobre a ocorrência de possíveis vítimas do uso do remédio falsificado, a assessoria do hospital gaúcho informou que não comentaria o episódio. Em depoimento à polícia, Miguel Jacob admitiu ter vendido o medicamento a outras distribuidoras em outras ocasiões, mas negou que fossem falsificados. No fim do ano passado, o procurador Eduardo André Lopes Pinto, do Ministério Público Federal (MPF), informou em ofício estar convencido do envolvimento de

ACESSE NO PORTAL UAI O HOTSITE SOBRE FALSIFICAÇÕES www.uai.com.br/falsificacoes

Jorge Otto, que mantém lojas de lâmpadas e bugigangas no Mercadão de Madureira, no subúrbio do Rio, é acusado de vender remédios roubados e falsificados

Jacob e Otto com o crime, mas pediu declínio da competência do MPF no processo, por entender que o episódio deveria correr na Justiça estadual, pelo fato de o estado do Rio de Janeiro ter sido lesado pela quadrilha. A juíza federal Rosália Monteiro Figueira, da Primeira Vara Federal Criminal, atendeu à solicitação e determinou o envio dos autos ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O processo corre em segredo de Justiça.

primeira vez em Jorge Otto Quaresma foi indiciado pela tes, realizada ócra Hip meados de 2007, durante a Operação m presas, fora oas pess 40 pela PF no Rio de Janeiro. Quase de s eita susp s, tare mili entre elas quatro policiais s com a ajuda de interceptarem cargas de medicamento s dos próprios informações fornecida por funcionário ciado por receber indi foi laboratórios farmacêuticos. Otto iam sido roubadas hav que l oda Tem caixas do quimioterápico é usado para o e enviá-las a São Paulo. O medicamento Glivec. Uma caixa com tratamento de câncer, assim como o a R$ 7,6 mil na farmácia. cust g apenas cinco cápsulas de 250m io Braziliense no Procurado pelo Estado de Minas/Corre e não ter qualquer Mercadão de Madureira, Jorge Otto diss medicamentos, nem de envolvimento com o roubo de cargas Ele repetiu a dos. fica falsi com a distribuição de produtos não funciona io, ay-R Cibl a , resa emp informação de que sua da a cuidar loja no mais e que sua vida agora se resume ver com a venda de mercadão. Ele garante não ter nada a poderia ter sido que mo Glivec falsificado e disse até mes que faz isso cara “O . ento icam vítima desse tipo de med rer. Ele mesmo mor ia dev er) cânc para édio (falsifica um rem rer” mor , atacou. injetar o remédio no próprio corpo e


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NACIONAL Empresa carioca investigada pela Polícia Federal e fechada pela Anvisa por vender remédio falsificado para câncer conseguiu reabrir portas com autorização judicial

Remédio ineficaz agravou doença L. R., 55 anos - Belo Horizonte

de Quando descobriu que tinha um tipo tes doença rara, causadora de constan u muitas inflamações no intestino, L. entende modo incô O . vida sua de passagens difíceis o em heir ban ao idas as ssiv suce as e constante a. dian coti a dias de crise causavam-lhe angústi ico méd o da, casa Muito tempo depois de Crohn, diagnosticou que tinha a Doença de . “Ela cura sem e il difíc e nom de e enfermidad em vez fica adormecida e reaparece de quando”, explica. itouPara evitar o retorno, o médico rece o com tem que ento icam lhe um med ina. princípio ativo a substância mesalaz traz lhe “Controlada, a doença não eçou a problemas”. No entanto, quando com L. rio, rató labo o nov um de s sula ingerir cáp de lida qua A . percebeu que as crises voltaram a, ison cort ar tom a de vida caiu e ela voltou r de anti-inflamatório potente e causado is. tera cola tos efei diversos os Procurou outros pacientes e ouviu nov ento icam med relatos da ineficácia do cidos produzido pelo novo laboratório, pare der à pren se eria dev to pos com O com o seu. por os elid exp parede do intestino, mas eram A ão. oluç diss de l inteiro, sem o menor sina Anvisa foi acionada e determinou a Mas não suspensão temporária da fabricação. de L., uízo era mais possível recuperar o prej foto ou e que não quer ver seu nom nça. estampados no jornal, associados à doe foi ês ingl de ra esso prof o com A carreira . O uso deixada de lado, agora é dona de casa olhos. A nos s rata cata do cortisona causou-lhe icos méd s “bon dia um que é única esperança com ta Con . nça” doe a para cura a m descubra a ajuda dos filhos para continuar o mais tratamento com a mesalazina. Não tem do rina aspi mo mes nem prar coragem de com rio. rató outro labo

THIAGO HERDY Enviado especial

Rio de Janeiro (RJ) – Quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi informada sobre a venda de caixas falsificadas de Glivec (medicamento para leucemia)pordistribuidorasderemédiodoRiodeJaneiro,montouuma operaçãoemparceriacomaPolíciaFederal(PF)queresultouno fechamentodaNovaVitória Comércio de Produtos Hospitalares, no fim de 2007. As investigações confirmaram as relações suspeitas entre Miguel Ângelo dos Santos Jacob, Jorge Otto Quaresma e distribuidoras, mas não foram suficientes para manter a empresa fechada, pelo contrário. Apenas em 2008 e nos primeirosmesesdesteano, aNovaVitóriavendeuquase R$ 1,3 milhão em remédiosaórgãosfederais,principalmente ministérios da Saúde e da Defesa. Decisão do juiz substituto da 9ª Vara Federal do DF, Alaôr Piacini,derrubouainterdiçãofeitapelaAnvisaedeterminouareaberturadaempresa,soboargumentode que “medicamento é um bem essencial à vida”. O Estado de Minas/Correio Braziliense apurou que Jacob abriu outra empresa no mesmoendereçofechadopelaAnvisa, no 10º andar do principal edifíciodoLargoSãoFranciscodePaula, nº 42, no Centro do Rio. O novo nomeéImperialmedComérciode Produtos Hospitalares. Agora, o endereço oficial da Nova Vitória é uma sala vazia no segundo andar de um pequeno prédionaRuaPedroÁlvaresCabral,nº 184,emNilópolis,municípionadivisa com a capital fluminense. “Eles aparecem de vez em quando sóparapegaracorrespondência.A salinha é vazia, só tem um telefone. Acho que eles ainda vão trazer alguma coisa para cá”, afirma a aposentada Maria do Carmo que, além de consertar roupas, aluga o imóvel à Nova Vitória. Entretanto, oendereçomodestonãorepresentou mudanças nos negócios de Jacob. Quando entregadores de produtoshospitalaresaparecemnolocal,MariadoCarmoosorientaafazeraentregaemoutrodestino:10º andardoedifíciodenº42,noLargo São Francisco de Paula, no Rio. Em março do ano passado Miguel Jacob deixou o quadro societáriodaNovaVitóriaepassou99% das ações da empresa para Daniel Corrêa, segundo certidão da Junta Comercial do Estado Rio de Janeiro. O endereço de cadastro do novo sócio é o Bairro Bento Ribeiro,

Nota fiscal fria, escrita pelo próprio punho de Jorge Otto Quaresma, para tentar justificar a origem do medicamento Glivec vendido pela distribuidora Nova Vitória, administrada por Miguel Jacob

FOTOS: BETO MAGALH’AES/EM/D.A PRESS

no subúrbio do Rio, o mesmo ondeJacobcomeçouavidacomobalconista de farmácia. Em abril do ano passado, o empresário deixou também o quadro societário da empresa da sua outra empresa, a Imperialmed. Os novos donos são dois irmãos do empresário. Contatado pelo telefone celular, Jacob se recusou a receber a reportagem. Disse que estava com problemas de saúde e que não tinha maisqualquerrelaçãocomasduas empresas. No entanto, três funcionários do edifício no Centro do Rio confirmaram que Jacob é o dono da firma situada no 10º andar. Eles disseramaindaqueeleaparecepara trabalhar ali todos os dias, inclusivenaocasiãoemqueaequipedo Estado de Minas/Correio Brazilienseestevenolocal.Porintermédiodoadvogado,oempresárionegouasacusaçõesdeenvolvimento com remédios falsificados.

Desde o fim do ano passado, a sede da Nova Vitória é uma sala vazia no segundo andar de um predinho da Rua Pedro Álvares Cabral, nº 184, em Nilópolis (RJ). O aluguel de R$ 500 é pago à dona Maria do Carmo, que também conserta roupas.

LAVAGEM DE DINHEIRO Antes

dosproblemascomoGlivecfalsificado,JacobeaNovaVitóriajáeram alvo de investigação da PF por suspeita de lavagem de dinheiro, conforme inquérito em curso na Delegacia de Nova Iguaçu. O empresário ainda deve à Receita Federal R$ 631,3 mil referentes ao não pagamento de imposto de renda, mais multa. A União briga na Justiça para tentar receber a dívida. Os problemas com a polícia e o fisconãooimpediramdeenriquecer. Por motivos pessoais, ele pôs à venda a mansão onde vivia até há pouco tempo com a família, no Condomínio Novo Leblon, na Barra da Tijuca. O imóvel com 1,5 mil metros quadrados construídos ocupa três lotes e é considerado o maior da região. O terreno tem quadra de tênis, piscina, salão de festas,umacasacomquatrosuítes e,outra,comtrêsquartos.Estáavaliado em R$ 5,8 milhões.

LEIA AMANHÃ A FALTA DE PUNIÇÃO NOS CASOS CELOBAR E ANDROCUR

A distribuidora continua funcionando no 10º andar do principal edifício do Largo de São Francisco de Paula, no Centro do Rio de Janeiro (RJ), agora com o nome Imperialmed Comércio de Produtos Hospitalares O homem por trás das duas empresas, Miguel Ângelo dos Santos Jacob, começou a vida como balconista de farmácia em Bento Ribeiro, no subúrbio do Rio, e cresceu de forma meteórica. Por motivos pessoais, ele colocou à venda a casa onde morava até pouco tempo, na Barra da Tijuca, avaliada em R$ 5,8 milhões


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Rio de Janeiro (RJ) – Nos episódios que chocaram o Brasil e serviram como primeiro alerta para o risco da falsificação de remédios e equipamentos médicos, envolvendo as marcas Celobar e Androcur, a sensação de impunidade foi o que restou às famílias das vítimas, além da saudade. Na sexta e última matéria da série Cura falsificada, o Estado de Minas/Correio Braziliense mostra que a venda feita pelo laboratório do Celobar a uma empresa off-shore uruguaia, poucos meses antes do escândalo, pode ter facilitado a ocultação de bens do dono, o empresário carioca Márcio D’Icarahy. Condenado à prisão, ele não ficou preso porque recorre da decisão em liberdade. Mesmo caso do empresário José Celso Machado de Melo, responsável pela distribuição do Androcur falso. Ele abriu uma empresa de cosméticos, que também são tratados pela Anvisa como produtos de saúde. José Celso anda em carro de R$ 90 mil e divide os fins de semana entre o sítio e a gruta que comprou perto de Belo Horizonte.

Sensação de impunidade angustia parentes de 22 pessoas que morreram depois de ingerir contraste para fazer um simples raio X. Laboratório fechou as portas e donos foram condenados à prisão, mas continuam em liberdade FOTOS: BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS

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falsificação do contraste para radiografias da marca Celobar completa seis anossemqueasfamíliasdas22vítimas da substância tenham qualquer perspectiva de receber reparações pelo episódio. Isso porque poucos meses antes do escândalo envolvendo o laboratório carioca Enila, responsável pelafabricaçãodomedicamento,umaempresa off-shore uruguaia, a Medvac Med Y VacunasInteramericanas,adquiriunadamenosdo que 62% do laboratório. Em 2003, a adulteração do contraste matou duas dezenas de pessoas e deixou 250 com sequelas. O registro da empresa no Uruguai, obtido pelo Estado de Minas/Correio Braziliense, mostra que todos os atos de administração, apropriação e disposição do patrimônio da Medvac no país vizinho foram delegados, na época, a Paulo Henrique Oliveira Rocha Lins. Trata-se do advogado do empresário Márcio D’IcarahyCâmaraLima,odonodolaboratório Enila.Eletambémdetinhaprocuraçãoparadefender os interesses da Medvac Brasil. O sigilo comercialgarantidopelogovernouruguaioàs companhiasaliinstaladasimpossibilitouàJustiçabrasileirasaberquemeramosreaisdonos daMedvaceopatrimôniodequedispunham. ComoafalênciadoLaboratórioEnilafoidecretadapoucotempodepoisdoescândaloenvolvendooCelobar,restouaosantigosfuncionários e vítimas do medicamento lutar pela apropriação dos bens imóveis que não foram vendidos,masqueaindavãoaleilão.Esseprocesso tornou-se ainda mais lento depois que Joelson Reis, antigo funcionário da empresa, decidiusemudarparaaantigafábricadelíquidoparacontrastecomopai,oirmãoemaisde 100 cães vira-latas que recolheu pela rua. “Só saio daqui quando me pagarem R$ 350 mil de indenização”, garante. Advogado de duas das 22 vítimas do Celobar, Ricardo Dezzani aposta em nova estratégia para garantir o pagamento a seus clientes: cobrar a conta da multinacional de medicamentosGlaxoSmithkline,sobalegaçãodeque a empresa e o Laboratório Enila faziam parte domesmogrupoeconômiconaépocadoepisódioenvolvendooCelobar.Aligaçãoentreas duasfirmasteriasidofeitapelaprópriaGlaxo, emprocessoquetramitouna27ªVaraFederal do Rio de Janeiro, em razão de o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) ter declarado a perda dos direitos sobre uma marca queambasusavam.AJustiçadoTrabalhotambém proferiu decisões que consideravam as duas empresas parte de um mesmo grupo. “Aúltimapossibilidadedeosfamiliaresdas vítimas receberem alguma indenização depende dessa conexão. Mas o processo anda muitolentonaJustiça”,afirmaDezzani.AGlaxo Smithline Brasil contesta a alegação do advogado e afirma que nada tem a ver com a conduta praticada pelo Laboratório Enila, por isso não poderia ser responsabilizada pelo ocorrido,tampoucopagarindenizaçãopeloerro cometido por outra empresa. Em janeiro deste ano, o diretor-presidente doLaboratórioEnila,Márciod’Icarahy,foicondenado pela 38ª Vara Criminal do Rio a 20 anos de reclusão em regime fechado. Na mesma sentença, o químico da empresa, Antônio Carlos da Fonseca Silva, responsável pela fabricação da substância, foi condenado a 22 anos.Masosdoisrecorreramdasentençaeestão em liberdade, o que revolta parentes e amigos das vítimas. D’Icarahy não mora mais no luxuoso prédio na Barra da Tijuca. O Tribunal de Justiça do Rio tem dificuldades para encontrá-lo. Ele foge de oficiais de Justiça, por issoécitadoapenasporeditalnosprocessosem que figura como réu.

Sede do Laboratório Enila, que faliu, no Bairro Jacarezinho, no Rio de Janeiro, é hoje ocupada pelo ex-funcionário Joelson e a família, que exige indenização

O fim em poucas horas Ricardo Diomedes, 57 anos – Rio de Janeiro (RJ)

Entenda o caso ● Em fevereiro de 2002, o

laboratório carioca Enila, fabricante do Celobar, recebeu seis toneladas de sulfato de bário do laboratório alemão Sachtleben Cheme, um dos quatro no mundo com autorização para fabricação. Não pagou a encomenda e a companhia cortou o fornecimento. ● No ano seguinte, o laboratório

carioca resolveu produzir a substância no próprio quintal, mesmo sem competência técnica. A partir de reações químicas do bário, técnicos do laboratório produziram carbonato, em vez de sulfato. A substância é venenosa e usada para matar rato.

● O insucesso do experimento não impediu a empresa de vender 4.500 unidades de Celobar a clínicas e hospitais de todo o país, principalmente Goiás. ● Dias depois, o laboratório Enila

divulgou comunicado informando o recolhimento do lote 3040068 do produto, “por estar impróprio ao uso”. Naquele momento, pelo menos 135 pessoas já estavam contaminadas e cinco haviam morrido. ● A Vigilância Sanitária interditou

a empresa e recolheu o lote. O Enila foi impedido de fabricar 30 produtos e teve a falência decretada pela Justiça.

Maria do Amparo Diomedes tinha 18 anos quando trabalhava em casa de família e se apaixonou por Ricardo, um rapaz que pintava apartamentos do outro lado da rua, em Copacabana, na década de 1960. Compraram um terreno em Anchieta, o mais distante bairro da capital. O primeiro filho tinha três meses quando o casal se mudou para o barracão de madeira montado ali. Construíram uma casa juntos. “Tudo o que eu fazia era para ajudar meu marido.” Ela o viu pela última vez bem, com saúde, às 7h de uma sextafeira de 2003, quando ele saiu para fazer uma radiografia e voltou vomitando e evacuando sem parar. Deu-lhe leite e chá de folha de goiabeira, mas a dor só aumentou. Foi levado para o hospital. À noite, já não conseguia falar, tampouco se mexer. Amparo ainda chora muito quando se lembra do filho dizendo a ela, no dia seguinte, que o pai não tinha aguentado: “Foi embora”. O médico atestou morte em decorrência de diabetes. Mas a polícia pediu a exumação do corpo, porque Ricardo havia ingerido contraste para radiografia adulterado. A verdadeira causa da morte foi, assim, descoberta. Amparo perdeu o “esteio da casa”. “No Natal, eu assava frango e fazia aquele arroz gostoso, uma farofa. A gente comia na beirada da rua, em Copacabana”, lembra ela. Antigamente, não se usava pote para levar comida, mas as próprias panelas. A rotina da família era acordar cedo nos fins de semana, entrar no ônibus e partir para passeios no Aterro do Flamengo ou na Quinta da Boa Vista. “Ele comprava aquelas bolas grandes e coloridas para mim”, conta a filha Alessandra. Seu pai morreu seis dias depois

do nascimento da segunda neta. “Pai, essa menina só dorme”, lamentou Alessandra, na época. “Preocupa, não, minha filha, ainda vou ter muito tempo para ver a cor dos olhinhos dela”, ele disse. Naquele ano, ela conheceu o prazer de gerar uma vida e a tristeza de ter outra arrancada. Alessandra trabalhava em um quiosque de shopping quando, na véspera de Natal, viu Márcio D’Icarahy, o responsável pelo laboratório fabricante do líquido que matou Ricardo, passeando pelos corredores. Ela o reconheceu por causa das fotos de jornal. Apresentou-se como a filha de uma das vítimas do contraste que o empresário produziu, que não tinha mais a quem chamar de pai. Ele se assustou. Respondeu que o ocorrido havia sido uma fatalidade. E sentia muito. Alguns anos depois, ela o viu de novo na fila de uma supermercado, beijando uma mulher mais nova. “Ele matou meu pai e outras tantas pessoas, como a vida dele pode estar normal?”, pensou. Naquele dia, ela se lembrou do pai beijando a mãe.


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Empresário condenado a 16 anos de prisão por distribuir 27 mil caixas de Androcur falsificado para câncer de próstata, que matou dezenas de pessoas, abriu outra empresa e tem vida privilegiada enquanto recorre na Justiça

FOTOS: BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS

Onze anos depois de vender Androcur falsificado, José Celso Machado de Castro passa fins de semana em seu sítio, Pedacinho do céu, em Pedro Leopoldo

THIAGO HERDY

A

cusado pela Justiça de distribuir centenas de caixas de de Androcur, remédio falsificado para combate ao câncer de próstata, em 1998, o empresário José Celso Machado de Castro não pagou indenizações às vítimas, recorre em liberdade à sentença da Justiça de São Paulo que o condenou a 16 anos de prisão e leva uma vida de luxo em Belo Horizonte e na região metropolitana. Na mesma rua do Bairro Floresta, na capital mineira, onde funcionava a Dinâmica Medicamentos – empresa de onde os falsificados saíram para ser distribuídos a pacientes de todo país – ele abriu a Look Distribuidora de Cosméticos e Equipamentos Ltda. A empresa é representante em Minas da marca de cosméticos alemã Schwarkopf, mas não tem autorização para distribuição de produtos de beleza por parte da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), conformedeterminaaLei9.782/99.Ainformação foi confirmada pelo próprio órgão de vigi-

lância. Alvo de dezenas de processos de indenização por danos morais e materiais, José Celso tomou o cuidado de colocar 99% das ações da nova empresa no nome da sogra, Ireni Nunes Rosa, de 67 anos, que vive em Anápolis, em Goiás. A Look foi registrada em 2007, conforme documentos da Junta Comercial do Estado de Minas Gerais. O empresário se locomove em uma caminhonete de luxo importada, modelo Hyundai SantaFé,ano2008,registradaemnomedaempresa. O veículo custa R$ 90,8 mil, valor 45 vezes maior do que a pensão paga mensalmente pelo INSS à viúva do ex-prefeito de Timóteo, no Vale do Aço, Antônio Dias Martins, de 62 anos. Dias morreu depois de consumir Androcur falsificado na farmácia mantida pelo empresário, e a família nunca recebeu indenização do distribuidor do medicamento. Na sede da Look, na Rua Mucuri, 255, a distribuidora de cosméticos funciona ao lado de salas onde são ministrados cursos de aperfeiçoamento para cabeleireiros. À frente da nova empresa, José Celso mantém o mesmo estilo desinibido da época em que comandava a Dinâmica Medicamentos e patrocinava eventos

para os funcionários nos principais teatros de Belo Horizonte. Em junho deste ano, fretou uma aeronave para levar seus clientes a um evento de beleza promovido por ele no Grande Hotel Araxá, a 367 quilômetros da capital, no Alto Paranaíba. O empresário divide a gestão da empresa com a mulher, Maria Hely Rosa de Castro, de 48 anos, que no passado também foi citada como réu em algumas das ações envolvendo a distribuição do Androcur, porque tinha bens emseunome.OcasalmoranumprédionaZona Sul de BH e passa os fins de semana na luxuosa propriedade que mantém em Quinta do Sumidouro, distrito de Pedro Leopoldo, na RegiãoMetropolitanadeBeloHorizonte.Oterreno, de 5,9 mil metros quadrados, deixou de ser um modesto sítio quando recebeu benfeitoriascomojardins,cascatasemestilojaponês, piscina e minicampo de futebol. José Celso também é dono de outra propriedade da região, que abriga cavernas e formaçõesrochosas,entreelasaGrutadoBaú.Segundo o Cartório de Registro de Imóveis de Pedro Leopoldo, as propriedades do casal na região não podem ser vendidas porque estão

Serestas ficaram na saudade

ENTENDA O CASO

Antônio Dias Martins, de 62 anos – Timóteo (MG) Naquela noite de 1998, ele assistiu à notícia da própria morte na televisão. Ouviu com a mulher e a filha a chamada para uma reportagem sobre a falsificação de um lote de remédio usado contra câncer de próstata. Escutou a referência ao lote 351. Conferiu se era o mesmo que tomava há dois meses e estava guardado no armário. “Ele não falou nada. Olhou para mim e balançou a cabeça. Como quem diz: ‘é o remédio’”, lembra a filha, a cabeleireira Élida Dias, de 42 anos. Aos 20 e poucos anos, Antônio saiu de Açucena, no Vale do Aço, para trabalhar na barbearia da Acesita, em Timóteo, na mesma região. Ganhou dinheiro suficiente para tirar o pai e os irmãos da roça. Fez a 5ª série quase aos 30 anos e formou-se em matemática. Virou professor e diretor da principal escola da cidade. Ganhou uns trocados como corretor de imóveis, teve casa de seresta, foi vereador e até prefeito, período em que determinou a construção da rodoviária da cidade. A casa onde morava com a mulher e os sete filhos estava sempre lotada para partidas de baralho, churrascos ou serestas. Mas, duas vezes na vida, reuniu a família para reuniões sérias: na primeira, contou que estava com câncer; na segunda, que o tratamento não surtiria efeito porque o remédio que comprara na Distribuidora Ação Dinâmica, em Belo Horizonte, era falsificado. Buscou o medicamento na capital porque não queria que as pessoas da cidade soubessem da doença do cidadão ilustre. Na reunião, disse que não queria ver ninguém triste.

bloqueadas pela Justiça. Mas, enquanto conseguiremprotelarasdecisõesjudiciaisenvolvendo o Androcur, nada o impede de continuar frequentando as propriedades. A reportagem deixou sete recados com a secretária da administração da Look, desde o início da tarde de ontem, pedindo esclarecimentos sobre a falta de autorização da Anvisa, mas ninguém da empresa retornou. No início dasemana,MariaHelydisse,pelotelefone,que seria muito desgastante falar sobre assuntos relacionados ao Androcur. “Se tivesse coisas boas para dizer, teria prazer em falar. Mas este é um assunto difícil, os processos renascem todos dias. A gente vive com muito trabalho e falta de dinheiro”, disse. Em abril deste ano, José Celso foi entrevistado por uma revista especializada em cosméticos e beleza, ocasião em que foi apresentado como um empresário visionário e vencedor do prêmio de distribuidor do ano da marca Schwarkopf. Perguntado sobre o segredo para fazer sucesso como distribuidor de produtos de beleza, respondeu: “Em primeiro lugar, é necessário ter muito respeito pelo cliente”.

Veafarm, de 1 – A Botica ao Veado D'Ouro e laboratório m fosse se o com bos São Paulo, produziram place se 1 Qua tata. prós de er cânc para Androcur, remédio s. cado fabri foram ha farin de idos prim com milhão de ora Ação 2 – O medicamento foi enviado à distribuid de Melo, ado Mach Celso José io resár emp do , Dinâmica os preç por de Belo Horizonte, que os comprou cante. Os menores aos praticados pelo verdadeiro fabri as de clínic e itais hosp a os ndid produtos foram reve s. ileira bras es diversas cidad a Anvisa 3- Quando a polícia descobriu a falsificação, Ação A . ento icam med do 351 lote o interditou u Medicamentos ignorou a proibição e continuo o. ituos comercializando o lote defe 10 4- Em 2003, a Justiça de São Paulo condenou m de varia que s pena a dio pessoas envolvidas no episó em rrem reco s toda mas o, prisã cinco a 16 anos de utores dos liberdade. Foram condenados desde os prod pela veis comprimidos de mentira aos responsá embalagem e distribuição.

Élida mostra a foto do pai, que foi vítima do falso Androcur Morreu em 18 de maio de 1998, data que o filho Marcelo Dias, de 38, não esquece, afinal, seu casamento estava marcado para cinco dias depois. O velório lotou o ginásio da cidade. A mãe teve que aprender a cumprir tarefas como ir ao banco e pagar contas no lugar das serestas e viagens com o marido. A casa, antes cheia, permanece vazia, porque ninguém consegue chegar até o portão e não chorar de saudade. Os filhos desistiram de acompanhar o andamento das ações na Justiça contra os responsáveis pela falsificação. “Eles mataram dezenas de pessoas e usam recursos para se safar. Será que ainda vai dar tempo? Vão estar vivos para pagar?” , desabafa Marcelo.

Ana Carla de Souza Nascimento, 9 meses, antibiótico falsificado Ricardo Diomedes, de 57 anos, contraste para raio X ● Júlio Gonçalves Corrêa Filho, 79 anos, remédio para câncer ● Enéas Faria Souto, de 84 anos, remédio para câncer ● Alvina Teixeira Clezar, prótese falsificada ● Geraldo Ferreira, de 70 anos, remédio para câncer ● Belarmino Moura, 73 anos, remédio para câncer ● Theodoro de Lima, 77 anos, remédio para câncer ● Cyro Amâncio dos Santos, 77 anos, remédio para câncer ● Almir Lopes Filho, de 60 anos, remédio para câncer

Antônio Dias Martins, de 62 anos, remédio para câncer Agenor Gomes do Nascimento, 58 anos, remédio para câncer ● José Guimarães Horta, de 61 anos, remédio para câncer ● Antônio Augusto de Paula, de 80 anos, remédio para câncer ● Otávio Assis Martins, de 83 anos, remédio para câncer ● Raimundo Nonato de Souza, de 63 anos, remédio para câncer ● Rejane Lapolli Azevedo, de 51 anos, contraste para raio X ● Aldenora Isaías da Silva, de 56 anos, contraste para raio X ● Maria Rufino de Oliveira, de 75 anos, contraste para raio X ● Otávio Gonçalves de Lima, de 63 anos, constraste para raio X

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José Pedro Mateus, 38 anos, contraste para raio X Edmar Nascimento, 56 anos, contraste para raio X ● Antônio de Oliveira Silva, de 67 anos, contraste para raio X ● José Ferreira Rodrigues, de 66 anos, contraste para raio X ● Aldenora da Silva, de 56 anos, contraste para raio X ● Nivaldo Francisco Belchior, de 64 anos, contraste para raio X ● Maria Percídia Gomes de Morais, contraste para raio X ● Adélia Gonçalves Queiroz, contraste para raio X

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