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O Diรกrio De Um Desajustado

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Josué Viana – Thiago Echer

O Diário De Um Desajustado

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O Diário De Um Desajustado

Copyright © 2013 by Josué Viana, Thiago Echer Todos os direitos reservados, incluindo o direito de reprodução no todo ou em parte em quaisquer meios. Autores: Josué Viana, Thiago Echer Editores: Josué Viana, Thiago Echer Revisão e diagramação: Thiago Echer Prefácio: Carlos Nascimento

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Josué Viana – Thiago Echer

A todo jovem revolucionário.

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O Diário De Um Desajustado

Prefácio: Me chamo Carlos Nascimento, formado em técnico de radiologia médica e bacharel em teologia, tive sempre que ler muito pra alcançar minhas formações, como tenho que ler para me atualizar até hoje. Conheci Thiago Echer há uns seis meses, depois de um tempo ele me contou a ideia de escrever um livro com seu amigo Josué e me dispus a ler os manuscritos. Nossa, o livro, em forma de um diário, me mostrou através de uma linguagem simples, a realidade da vida de um adolescente. Lembrei muito da minha adolescência, dos meus erros e dos meus acertos, me emocionei, ri e me envolvi com a história. Espero que esse livro tenha impacto sobre a sua vida e que, de forma simples, te leve a pensar nas suas decisões, pois elas vão te acompanhar por uma vida inteira. Boa leitura.

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Josué Viana – Thiago Echer

Introdução: Ola, meu nome é João Roberto e... Bom, eu não sei muito bem o que devo escrever num diário, confesso que é a primeira vez que faço isto, mas acredito que o melhor para começar é me apresentar. Tenho dezesseis anos, estou no segundo ano do ensino médio e faz uma semana que eu me mudei para o Rio de Janeiro. Eu morava em Minas Gerais, numa pequena cidade chamada Vila dos Vales, aonde nasci e cresci, porém a situação lá não era das melhores, minha família estava passando por maus bocados e foi por isso que me mudei. Falando em família, eu tenho dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova, eles se chamam Fábio, Gabriel e Jessica. Meus pais se chamam Joaquim e Maria. Acho que se tem alguma coisa que eu não posso reclamar é a minha família, nós sempre nos demos bem, estamos sempre unidos. Bom, preciso ir dormir, tenho que acordar cedo, porque amanhã é o primeiro dia de aula, vou poder fazer novos amigos, ter novas aventuras e acredito que aqui o meu sonho se realizara mais facilmente.

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 1: A escola da vida – Acorde, menino. Desse jeito vai chegar atrasado! – berrou minha mãe. – Apenas mais cinco minutos... – respondi, após um longo bocejo. – Nem pensar, é o primeiro dia de aula. Vamos, levanta. Olhei o relógio no meu criado-mudo, ainda eram 05h30min, mas eu tenho que pegar dois ônibus até a minha escola. Existe um colégio aqui perto de casa, mas meus pais disseram que era melhor eu estudar no Centro. Então lá vou eu para o meu primeiro dia de aula. Eu sempre fui alguém com poucos amigos, era tímido e um pouco introvertido. Não que achasse isso um problema, não, para mim era apenas a minha personalidade, mas sempre tinha algum parente que reclamava: “você tem que ser mais isso, mais aquilo, etc.”. E isso sempre me irritava, eu era assim e ponto final. Mas eu não esperava que o meu dia pudesse ser tão... Como posso dizer? Desastroso. Cheguei em cima da hora, os alunos tinham acabado de entrar pra sala. Bati na porta, abri, pedi licença. – Bem-vindo. Você deve ser o João Roberto. O meu nome é Solange e eu sou a professora de português. – Sim e obrigado, professora – Reparei na sala e tinha cerca de uns trinta alunos. – Classe, esse é o João, ele acabou de se mudar. Então, sejam legais com ele.

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Josué Viana – Thiago Echer Fui me sentar, pude ver uma cadeira vazia na quarta fileira, não estava indo mal para a primeira impressão, até que... Alguém colocou o pé na minha frente e eu me esborrachei no chão. Todos riram e para o meu azar quando levantei estava de frente para um anjo... Não literalmente, mas a garota que estava em minha frente era a mais bela que já vi. Percebi que a estava encarando, tentei disfarçar olhando para quem me fez cair e a Prof.ª Solange disse: – Vanderlei, peça desculpa ao João por telo feito cair. Vanderlei me olhou com uma cara de deboche e disse entre os dentes: – Foi mal. – Peça direito – disse a professora em um tom mais rígido. – Me desculpe – Ele se virou pra frente. Acho que não foi um bom começo. A aula correu de maneira normal, uma hora ou outra vinha uma bolinha de papel em minha direção, mas acho que isto é normal numa sala de aula, mesmo estando no segundo ano. Porém, ainda assim, elas irritavam bastante. Mesmo sempre estudando num colégio pequeno, não achei a matéria tão complicada. Acho que me esqueci de mencionar, mas eu tenho uma ótima média, sempre fui um aluno exemplar. Depois da professora de português tive aula com um professor de história, ele me pareceu uma pessoa muito legal, mas quis manter um pouco de distância. Um aluno novo ficar puxando o saco do professor no seu primeiro dia de aula não ia pegar bem, apesar de que, a turma já parecia me odiar...

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O Diário De Um Desajustado O sinal tocou, hora do intervalo. O pátio e o refeitório eram a mesma coisa, um lugar coberto cheio de mesas e cadeiras. Decidi ficar num canto mais isolado, como disse antes, fazer amigos não é algo tão fácil para mim. E então eu vi o Vanderlei vindo em direção a mim junto com dois amigos. Provavelmente aquilo não era algo bom. Ele chegou perto de mim colocou a mão no meu ombro. – Quero te mostrar uma coisa, venha com a gente – disse com um sorrisinho de arrepiar. Agora eu tinha certeza de que não era algo bom, eles estavam me levando para os fundos do colégio, eu tentei escapar, mas os dois garotos que estavam com o Vanderlei eram mais fortes. Então minha única saída era ser guiado por eles. – O que vocês querem de mim? – indaguei quando chegamos aos fundos do colégio, aonde ninguém poderia me ver. Os dois valentões seguraram os meus braços e eu fiquei de frente para o Vanderlei que sorria com um olhar de superioridade. – Eu só quero lhe dar as boas-vindas, João – Então ele deu dois socos no meu estomago. – Espero que não entre mais no meu caminho e se você contar para alguém que nós estivemos aqui... Bom, você desejara nunca ter saído da roça, seu caipira – Ele me deu mais um soco que me fez cair ajoelhado no chão. Então eles foram embora. Fiquei no chão por algum tempo, aquele parecia o pior dia da minha vida e ainda estava na metade. Levantei-me, escutei o sinal novamente, fim do intervalo, hora de voltar à sala de aula.

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Josué Viana – Thiago Echer O resto da aula nem foi tão ruim, fiquei quieto no meu canto e ninguém ficou me chateando. No fim da aula sai correndo pra pegar o ônibus, não queria estar naquele lugar nem por mais um segundo. Quando cheguei em casa não contei nada para os meus pais, fiquei com medo. Eles iriam brigar comigo, iriam à escola reclamar. Vanderlei iria, no máximo, levar uma suspensão e quando voltasse iria acabar com a minha raça. Fiquei o resto da tarde fazendo o dever de casa, até que era bem fácil, talvez o meu colégio não fosse tão bom assim. Mas, mesmo que eu terminasse o dever rápido, não posso aproveitar muito o lugar, aqui é um pouco perigoso, aqui é de casa pra escola e da escola pra casa. Atrasei-me, me esborrachei, fui caçoado, me apaixonei, me irritei, apanhei e agora tenho vontade de nunca ter vindo para este lugar. Mas eu tenho que voltar amanhã para aquela prisão chamada escola, não tenho escolha, tenho que seguir em frente. Vou fazer de tudo para realizar o meu sonho.

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Capítulo 2: Amizade em meio à solidão – Acorde, João – berrou minha mãe pelo segundo dia. Dessa vez eu nem reclamei, não gostaria de chegar atrasado novamente, correndo o risco de a professora brigar comigo e, quem sabe, podendo até levar um segundo tombo por causa do Vanderlei. Na sala de aula, procurei prestar atenção somente no professor e tentei não dar muita bola para os que me estavam zoando. Então, inevitavelmente, passei a prestar mais atenção ao meu redor, tinham algumas cadeiras que estavam em péssimo estado, provavelmente um delinquente as quebrara e a direção não se preocupou em removê-las da sala. Mas o pior era o material didático, os livros estavam rabiscados e com varias páginas faltando, provavelmente arrancadas para virarem munição em uma guerra de bolinha de papel. Ao pensar nisso senti um tremendo desgosto pelas pessoas que estavam ao meu redor, provavelmente nem deveriam saber o porquê de estarem ali e com isso, dificilmente irão aprender algo para suas vidas. Mas, logo em seguida, pensei: e se elas fazem isso por não terem nenhuma orientação pelos professores ou pelos pais? Eu tive sorte de encontrar boas pessoas ao longo da minha vida que me ensinaram o valor de estudar. Mas e se eu não tivesse encontrado essas pessoas? Será que seria como eles? Por fim, apenas senti pena dos que estavam jogando a sua vida fora sem saber... O sinal tocou, hora do intervalo. Me sentei e fiquei num canto como ontem, porém menos afastado para não correr o risco de ser humilhado novamente. O meu irmão Fábio estuda no mesmo colégio que eu, mas o intervalo dele é em um 12


Josué Viana – Thiago Echer horário diferente, infelizmente. Então, para minha surpresa vi um garoto forte e alto vindo em minha direção, por um segundo pensei que estava encrencado de novo, mas ele parecia diferente dos outros. – Ola, você é o João, né? – Perguntou, sentando-se do meu lado. – Sim, sou eu. E você, quem é? – respondi com um tom duvidoso, me perguntando o que ele queria. – Meu nome é André. A gente estuda na mesma sala, lembra? – Acho que sim... – Olha, não se preocupa, o Vanderlei e os outros adoram chatear os novatos. Mas daqui a pouco eles param e vocês viram amigos! – Você acha mesmo? – Não, só estava brincando. Ele vai pegar no seu pé pra sempre, assim como ele fazia comigo. – E o que você fez para fazê-lo parar? – Eu o enfrentei, no fundo ele é um medroso. É fácil acabar com o problema, só chamá-lo para uma briga mano a mano, que ele vai se borrar de medo. – Fácil para você que é forte e alto e eu? – respondi com um pouco de ironia na voz. – Não tem problema, eu te defendo dele. Então amigos? –... Amigos – disse meio duvidoso, ele não seria a primeira pessoa que vinha na minha cabeça quando me lembro da palavra amigo, mas do 13


O Diário De Um Desajustado jeito que estou, não tenho condições de achar algo melhor, além do mais, ele poderia servir como guarda-costas. Na saída nós fomos juntos pro ponto de ônibus. Conversa vai, conversa vem, descobri algo inacreditável! Ele era uma mistura de músculos com cérebro. Não se vê uma pessoa dessas todo dia. Ele pegou um ônibus enquanto eu esperava o meu chegar. Então percebi, aquele André podia ser muito mais do que um guarda-costas, nós poderíamos ser verdadeiros amigos. Nos dias seguintes sentamos perto um do outro, fazíamos trabalhos juntos e cessaram as brincadeiras de mau gosto comigo, por isso nunca ficava longe do André, um segundo de descuido e o Vanderlei podia me pegar desprevenido. Estávamos fazendo uma ótima dupla, às vezes nós entravamos eu uma fria, pois o André costuma ser briguento, mas nada que a gente não desse um jeito. Enfim a escola não parecia mais um lugar tão ruim, estava feliz por ter um amigo, mesmo sendo um só, era alguém pra o que der e vier. Mas faltava uma coisa, faltava ela, eu tinha que achar um jeito de falar com aquele anjo em forma de garota comum.

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 3: Loucuras & amizade Sabe aquelas pessoas que você se sente tão bem junto? Não são namorados (e nunca serão), mas são, na verdade, irmãos. Não de sangue, mas escolhidos por nós mesmos. Está certa que esse não foi bem uma escolha, mas sim uma consequência. André me surpreendeu muito ao passar desses dias. Mesmo não parecendo fisicamente comigo, ele se parece de mais com o meu jeito. Espere que não me interpretem mal, mas ele me completa. Gosto de meninas, é claro! Mas um dia na escola eu e André conversando no pátio: – Viu o golaço do Flamengo ontem no estádio, João? – André falando com aquela empolgação pelo jogo, como sempre ele era um verdadeiro fanático pelo Flamengo, eu não era muito Fã de futebol, e desconversei-o: – Ah, pêra aí! Domingo de tarde, ao invés de sair com uma mulher, você vai ver homem de shortinho correndo atrás de bola, ainda na chuva ao relento? Que programa, ehn? – Demos umas boas risadas, e André fez questão de me lembrar da minha triste situação... Amigos são pra isso, não é? – Pelo menos eu não fiquei em casa a noite inteira, no sábado e no domingo, fazendo sei lá o que – disse André em tom irônico. Conversa vai e conversa vem, perdemos a hora da aula de física. Mas tínhamos que entrar na sala, não podia perder aquela aula: – Com licença, professor – digo meio tímido, e logo vem o bobão do Vanderlei e grita lá de trás:

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O Diário De Um Desajustado – Chegou o casal de noivos, acabaram de voltar do passeio na lagoa – A zoação começa, risadas para todos os lados, André como um doido pega o professor de física e começa a dançar e cantar: – Menina, eu sou é homem! – André consegue se safar, facilmente das zoações, citando um trecho de Ney Matogrosso. A aula é a mesma coisa de sempre, o professor daquele jeito meio louco dele fazia todos rirem, mesmo sem querer. Na saída da escola combinamos de sair apertando campainhas afora, confesso que era uma emoção nunca sentida antes. – Toca a campanhinha rápido, João! – Eu toco a campainha, André corre, eu também corro... Quer dizer: tento, mas tropeço em uma pedra e caio no chão, meu coração acelera a mil por hora quando aparece um homem robusto e nervoso no portão dizendo: – Vou pegar esses moleques, todo dia a mesma coisa! – Ele abre o portão, eu ainda tentando me levantar, mas ele agarra no meu pé dizendo: – Agora já era, vou dar uma lição em você, vem cá! – Foram os segundos mais longos da minha vida, ele me puxava não sei pra onde. Num momento de descuido dele, consegui me soltar, sai correndo e gritando: – Socorro, mãe! – não preciso nem dizer quem foi o centro das atenções na praça da cidade, não é? Pra minha surpresa, ou não, encontro André rindo e dizendo: – Você é muito besta mesmo – André cai no chão de tanto rir e eu com cara de bobo ali olhando. Digo: 16


Josué Viana – Thiago Echer – Que grande Amigo você é, ehn?... – André ainda tenta parar de rir e diz: – Se o cara começasse a te bater eu ia te ajudar, só tava observando, filinho da mamãe! Aquele dia foi ótimo, altas zoações que só podem ser feitas entre amigos, o dia foi perfeito e os próximos foram melhores, muito melhores ainda. Bombas de fedor, estalinho no banheiro das meninas, papel colado nas costas dos nerds escrito: “chute aqui”. Foram ótimos os dias com ele, é muito bom ter um amigo. Um conselho: procurem ter amigos! Mesmo que sejam malucos, mas que te faça feliz e você o faça feliz também, a amizade é muito importante, é sem dúvidas uma forma de amor. Até esqueci um pouco da Julia, mas não totalmente... Termino mais um dia feliz por ter um amigo. E a escola, mesmo com suas limitações, ficou até melhor de ir agora.

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Capítulo 4: A beleza em um só nome É difícil entender o que é o amor, ultimamente não consigo parar de pensar nela, engraçado que nunca senti nada por ninguém assim antes e acabei sabendo algumas coisas sobre ela, como o nome dela que é Julia. Gosto de ver como pode ser tão bela, o jeito que ela fala, seus olhos, afinal tudo que eu penso se resume a ela. Até meu amigo André notou isso e ficou meio enciumado comigo, eu acho que ele gosta dela também, espero que não... Não gostaria de por a minha amizade em risco. – Cara, essa menina é muito linda, perfeita, inteligente, é tudo que eu sonhei – disse, todo apaixonado, enquanto Julia tentava beber água no bebedouro, sem água como sempre. – João, para de falar nessa garota, cara. Você só fala nisso! – disse André e logo após dá um grito chamando a Julia. – Julia vem cá, você quer um pouco de água? Eu trouxe! – Julia veio em direção a André e pegou a água, passou por mim e não me viu, me senti triste e invisível como sempre. – Ai, obrigado André. Você é um amor de pessoa, mesmo! – disse Julia com aquela voz meiga dela e esbanjando a simpatia que ressalta muito mais sua beleza. – Você tem compromisso pra hoje, Julia? Que tal tomarmos um sorvete e depois irmos para uma discoteca? – disse André, galanteando minha paixão, fiquei meio nervoso ao ouvir isso, mas fiquei com vergonha de falar em frente à Julia. – Ah... Não posso ir André, tenho muitas obrigações em casa e tenho dever pra fazer! – estava sério por fora, mas vibrante por dentro, como 18


Josué Viana – Thiago Echer a torcida do Flamengo no maracanã comemorando um gol de Zico. Fazendo muito esforço consegui dizer: – Oi, Julia. Tudo bem? Tava pensando, que tal a gente fazer um grupo de estudos? Porque o vestibular está chegando e cada vez ta ficando mais difícil – Ela me olhando com cara de surpresa, acho que ela nunca me viu na sala, talvez pelas brincadeiras dos garotos ela me conheça. Enquanto isso André me olhava com cara de reprovação, pra minha surpresa Julia disse: – Pode ser. Como é seu nome mesmo? – diz Julia, eu triste por ela não saber meu nome. – É João Roberto – tive que falar três vezes, pois ela não me escutou. – Então, combinado. Passa na minha casa a tarde que a gente estuda junto! Até mais – do um aceno pra ela meio tímido enquanto ela se afasta. André nervoso diz: – Como é que é João, vai disputar ela comigo agora? – ficou nervoso, mas eu sempre disse pra ele que gostava dela. – André, eu que gosto dela! Você que quer tomar ela de mim, eu to te sacando, você quer ficar perto de mim só pra me caçoar, pois no fundo você me odeia – disse aquilo sem pensar e André já muito furioso disse: – Você sabe que sem mim você não é nada, não é? Não vai ter nem chance com a Julia e vai apanhar todo dia! – André disse, mostrando sua face ordinária, afinal, as máscaras sempre caem. Eu disse: – Não preciso de você pra nada, prefiro ficar só e apanhar ao estar com você! – estava muito decepcionado com André e ele, enfim disse: 19


O Diário De Um Desajustado – Vai ficar só mesmo, eu sou popular e você não. Viva a sua solidão, vou mandar Vanderlei te bater todo dia e a Julia vai ser minha, vai ver só – disse André e foi embora. Me deu vontade de chorar, mas me segurei, pois se alguém visse iriam ter mais um motivo para me zoar. A vida é complicada de mais pra mim, não aquento mais viver só. E pra piorar, no final da aula, Vanderlei e seus amigos voltaram a me perturbar: – Caipira, está sozinho agora? Cadê o segurança? Já se separaram? – Não consegui dizer nada, era um misto de tristeza e medo, tentei correr, mas eles me seguram, tomei uma surra terrível e roubaram o dinheiro que ia comprar pão pra casa. Em tom irônico disse Vanderlei: – Até amanhã caipira, amanhã tem mais! – Os outros que estavam com ele jogaram meus livros longe. André, que estava observando tudo de longe, os pegou, ele sabia que eu tinha várias folhas com poesias feitas para Julia, então ele disse: – Acho que isso vai ser perfeito pra conquistar a Julia! – disse André com um sorriso meio tosco. Esse era pra ser mais um dia ruim, na verdade, um dos piores. Mas foi o melhor, até certa parte, depois virou o pior mesmo. Estudei o final do dia todo na casa da Julia, na verdade, só conversávamos sobre as matérias, mas mesmo assim era ótimo estar com ela. No final estava com vontade nenhuma de ir, mas fazer o que, não é mesmo? – Julia, foi muito bom estudar contigo, além de linda você é inteligente – estava evoluindo consegui elogiar a Julia, que disse, aumentando muito mais o meu amor por ela:

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Josué Viana – Thiago Echer – Ah, que lindo. Pra mim foi ótimo, você é muito inteligente também, parabéns desse jeito você vai longe! – disse, me encantando com o seu sorriso. Era agora ou nunca, talvez eu não vá ter mais uma oportunidade como essa. – Julia, eu sei que isto é meio repentino, mas... Desde a primeira vez que te vi, eu te achei linda, a cada dia que passa parece que você fica mais linda... Eu te amo! Quer namorar comigo? – não acreditei no que tinha dito quando terminei a frase. E ela ficou me olhando por um instante com uma expressão indefinida. – Olha... Você é um garoto muito legal e eu gosto muito de você, mas é como amigo, ok? – naquele instante fiquei sem chão. – Ok. Me despedi e fui para minha casa. À noite, em casa, tive mais uma discussão feia, minha mãe reclamou por eu ter chegado tarde, também disse que eu não fazia nada e era um inútil, isso me deixou muito mal. Os dias seguintes foram praticamente os mesmos. A solidão no recreio, as brincadeiras bobas na sala, Julia faltava muito e não falava mais comigo. Será que ela se esqueceu de mim? Vanderlei e André se tornaram meus piores inimigos e Fábio, meu irmão, era a única pessoa que eu falava na escola. Algo tinha que ser feito!

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Capítulo 5: O doce amargo gosto do ódio Estava começando o último bimestre, o fim deste inferno parecia próximo. Julia continuava me evitando, Vanderlei e André viraram amigos e agora faziam minha vida ficar insuportável. A única pessoa com quem eu podia contar naquele hospício era o meu irmão: Fábio. Mas ele já estava no terceiro ano, no próximo ano eu vou estar sozinho... Hoje o Fábio e eu chegamos mais cedo no colégio, por sorte pegamos o ônibus mais cedo. Então, no pátio da escola, ouvimos aquela voz odiosa. – Olha lá! O Caipira e o Babão! – Vanderlei e seus comparsas implicando conosco de novo. –Olha só isso, um trabalho de Álgebra! Ele pegou o trabalho que estava em minhas mãos e eu tinha que pegar de volta, valia uma boa parte da média final. – Bem que eu estava precisando de um desses – disse Vanderlei com um sorriso malicioso. – Me devolva! – Nem pensar, agora ele é meu – Mas eu não deixaria, dessa vez eu tinha que fazer algo. Dei um chute no meio das pernas dele, peguei o meu trabalho e gritei: – Corre, Fábio! – Ele saiu correndo para a sala dele e eu para a minha, o professor já estava dentro de sala, eu estava a salvo, pelo menos por enquanto.

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Josué Viana – Thiago Echer Na hora do intervalo não sai de sala, seria o mesmo que suicídio. Ao invés, fiquei conversando com o professor de história que também quis permanecer em sala de aula. Conversa vai, conversa vem, consegui o que queria saber: – Por que você quer saber da vida do Vanderlei? Pensei que não se dessem bem – indagou o professor, desconfiado das minhas intenções. – E não nos damos, mas se eu souber um pouco dele, talvez possamos encontrar coisas em comum e sermos amigos – obviamente, menti. Eu apenas queria saber o que poderia fazê-lo ser tão agressivo comigo. – Não sei se existe algo em comum entre vocês dois. Quero dizer, você vem de uma ótima família, sempre soube se comportar, mas o Vanderlei... Bom, ele não teve tanta sorte. – Como assim, professor? – Digamos que ele não tem uma boa relação familiar. Já me disseram que o pai dele até foi preso uma vez por ter agredido sua mãe, também fiquei sabendo que eles batiam no Vanderlei quando ele era mais novo. Como o menino sempre estudou nesta escola eu pude conversar com os professores antigos dele e soube que ele sempre foi um pouco agressivo com os outros alunos, sempre arranjando confusões... Uma situação realmente complicada... – desabafou o professor, parecia que ele estava com aquilo entalado na garganta há tempos. – Não diga a ninguém o que vou dizer agora, mas eu acho que aquele moleque não tem mais solução. O sinal tocou, fim do intervalo. Finalmente sei o porquê de o Vanderlei ser do jeito que é. Quase tive pena, quase. Mas o que eu sabia não era o suficiente, eu precisava achar uma maneira de acabar com aquela humilhação diária, de um jeito ou de outro. 23


O Diário De Um Desajustado Na saída eu e meu irmão fomos o mais rápido possível para o ponto de ônibus e por sorte quando chegamos lá o nosso ônibus tinha acabado de parar para pegar um passageiro, quase parecia que estava nos esperando. No ônibus o meu irmão me disse algo que poderia ser sentido como uma facada... Entrando friamente dentro do meu peito: – Eu fiquei sabendo que o Vanderlei arranjou uma namorada – disse meu irmão de forma descontraída. – Pode ser que ele pare um pouco de pegar no nosso pé. –E você sabe com quem ele está namorando? – achei isto estranho. Afinal, nunca tinha visto o Vanderlei com nenhuma garota, até porque, que garota gostaria de estar com um troglodita como aquele? Mas o pior ainda estava por vir. – Me disseram que é com uma tal de Julia e também me disseram que ele arranjou a maior confusão com um cara chamado André por causa dela... – Senti um calafrio, será que poderia ser a Julia? Minha Julia? – Ela é da minha sala? – Acredito que sim – era inacreditável, como ela podia estar com ele? Senti meu corpo dominado pelo ódio. Até tinha pensado que poderíamos ter uma trégua, mas o que ele fez já era de mais, eu precisava me vingar, aquilo já tinha ido longe de mais. Então meu irmão percebeu o que estava acontecendo. – Você gostava dela, não é? – Não te interessa – mas acho que já estava mais do que na cara que estava apaixonado por aquela duas-caras.

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Josué Viana – Thiago Echer – Calma, João. Se você não conseguiu ficar com ela é porque não era pra acontecer! – disse Fábio, querendo parecer um psicólogo, mas era o mesmo bobo de sempre. – Não se meta na minha vida! – Eu já estava furioso e o Fábio só estava piorando as coisas tentando me acalmar. Depois disso não conversamos mais. Quando cheguei em casa fui me isolar no meu quarto, fazer o dever de casa, única coisa que sei fazer, amanhã o inferno continua, a não ser que eu faça algo...

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Capítulo 6: Os perigos da solidão Nunca pensei que as coisas iriam terminar assim... Tinha tantas coisas que eu ainda queria fazer... Queria montar uma família e virar um empresário, que sempre foi o meu maior sonho. Também quis me vingar daqueles que me fizeram tanto mal... Mas agora nada importa, não mais... Talvez se eu tivesse um psicólogo ou algo do tipo a minha disposição, ele poderia ter mudado meu ponto de vista, eu poderia estar feliz agora. Mas os meus pais mal têm dinheiro para colocar comida na mesa, nunca conseguiriam pagar um psicólogo. Agora só me resta esperar o pouco de vida que ainda sobrou dentro de mim escorra, enquanto isso, vamos recordar um pouco do que me fez chegar até aqui, afinal, sempre me disseram que é nesse momento que sua vida passa diante de seus olhos... Adoraria apenas me recordar dos bons momentos da minha infância e até de parte da minha adolescência em Vila dos Vales, mas o ódio e a tristeza pelo o que vivi nestes últimos meses me impediram. Só conseguia pensar na escola e em todos os alunos que me fizeram ter tanto ódio. Depois que briguei com o Fábio no ônibus, tentava falar com ele o menos possível em casa e não falava nada no colégio. Agora sim estava totalmente solitário. Exceto pelos que me odiavam, pois estavam sempre comigo: me zoando, me roubando, me entristecendo... Sobre a vingança? Não soube o que poderia fazer, não tinha ninguém para me ajudar e era fraco, não podia fazer nada contra o Vanderlei e nem contra os outros... Então fiz uma das poucas coisas que me restavam fazer: desisti... Simplesmente desisti desta vida. Quando cheguei do colégio hoje, 26


Josué Viana – Thiago Echer afanei uma faca da cozinha sem ninguém perceber, dei a desculpa de ir fazer o dever de casa no meu quarto como sempre e disse que era pra ninguém me interromper, pois a matéria estava realmente complicada. Me tranquei no meu quarto e cortei os pulsos, agora não tinha mais volta... Escutei alguém virar a maçaneta da minha porta. – Meu filho, eu já não disse que não quero que tranquem as portas dentro desta casa? – falou o meu pai num tom furioso. Mas eu não respondi, já não tinha forças. – Meu filho? O que aconteceu? Ele arrombou a porta, ficou paralisado por um instante, acho que a visão de um filho ensanguentado e semimorto na cama eram demais para aquele velho homem. Ele percebeu que eu ainda estava consciente e veio rapidamente até mim. – Maria, chame uma ambulância! O João está morrendo! Mas já era tarde de mais, tudo já estava começando a girar, estava desmaiando. Muitas imagens e vozes passaram rapidamente na minha cabeça: “Ola, meu nome é João Roberto”, “–Acorde, João. – berrou minha mãe”, “Classe, esse é o João, ele acabou de se mudar”, “Quero te mostrar uma coisa, venha com a gente – disse com um sorrisinho de arrepiar”, “Não tem problema, eu te defendo dele. Então amigos?”, “Anjo em forma de garota comum”, “Amanhã o inferno continua, a não ser que eu faça algo...”. E, de repente, tudo ficou escuro. Eu vi a morte, ela esteve ao meu lado, acordei após 15 dias. Vi meus pais perplexos ao meu lado quando abri os olhos. Não dei valor a minha vida, nada justifica o suicídio, mas antes de tudo precisamos do apoio familiar. Descobri hoje o meu valor, o 27


O Diário De Um Desajustado sentido da minha vida, minha família sempre esteve ao meu lado, nunca compreendi os motivos de tanta distância, mas hoje compreendo que parte da culpa é minha e sobre a solidão: tudo pode ser resolvido em um instante de tempo. Amanhã é outro dia e semana que vem é voltas às aulas, mesmo sem muita coordenação, mas eu vou me acostumando a viver assim. Os próximos dias de aula serão dias únicos, dias de superação.

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 7: Sonhos Após me recuperar dos ferimentos nos pulsos voltei ao colégio, mas tinha algo diferente no ar, tudo parecia mais bonito, parecia que a partir dali tudo daria certo. De algum jeito, a notícia da minha tentativa de suicídio parecia ter se espalhado, isso me deixou um pouco receoso, mas os outros apenas ficaram na troca de olhares e nos cochichos. No primeiro dia de aula tudo parecia normal, mas as coisas começaram a mudar a partir do intervalo. Quando o sinal tocou talvez devesse ter ficado em sala, como fazia muitas vezes, mas algo me chamou para o pátio, eu precisava estar lá! Quando cheguei logo veio o André na minha direção, não fazia ideia do que ele poderia querer comigo depois de tudo que aconteceu. – É verdade o que estão falando? – falou num tom sério que ele, normalmente, não usava. – Você tentou mesmo se matar? – E se for? – respondi como se não fosse nada. – Não acredito que você pode fazer uma coisa dessas, isso é algo muito sério. Olha... Se for por causa do Vanderlei, do resto do pessoal ou de mim, saiba que não vale à pena – apenas fiquei observando ele enquanto falava. – Eu sei que algumas coisas na vida são muito duras, mas isto não é motivo de desistir. Se parte do que fez foi por minha causa... Me desculpa, não achei que poderia te fazer tanto mal. Então ele me entrega algumas folhas. – O que é isso? – indaguei.

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O Diário De Um Desajustado – As suas poesias, estão todas aí – já tinha perdido as esperanças de ver aquelas folhas de novo, que nem as reconheci. – Obrigado e eu te desculpo, se você não me zoar mais. – Ok! Então... Amigos de novo? –Vou pensar... – Está bem... Bom, eu tenho que ir, a gente se fala. Aquela foi uma grande surpresa, mas não foi a última do dia. Agora eram Vanderlei e seus comparsas que vinham em minha direção, eles com certeza iriam me zoar. – Quero falar com você – disse Vanderlei, antes que pudesse recusar o convite, os dois amigos dele pegaram no meu braço e começaram me arrastar para os fundos da escola. Parecia um Déjà vu. Chegando lá os amigos dele me soltaram e Vanderlei me questionou: – É verdade? – Sim – respondi, sem saber o que ele pretendia. – Não achei que chegaria a esse ponto... – ainda não sabia o que ele queria, mas ele estava muito estranho. – Não conte isto para ninguém, mas eu vou tentar parar de pegar no seu pé, ok? – Ok... – disse a ele meio pasmo, será que estava falando a verdade? – Não espere que sejamos amiguinhos, é só você não entrar no meu caminho que eu não mexo mais contigo – Então ele e os amigos foram embora, me deixando sozinho e de queixo caído, as coisas estavam 30


Josué Viana – Thiago Echer tão boas assim de verdade? Parecia um sonho, um sonho que ainda não tinha acabado. Depois do intervalo a aula correu normalmente, quando terminou soube que meu irmão tinha saído mais cedo porque tinha faltado um professor. Então fui caminhando solitariamente até o ponto de ônibus. – João! – ouvi alguém gritar o meu nome, quando virei percebi que era ela, a Julia vinha correndo em minha direção. Depois de tanto tempo, será que ela veio saber como eu estava? – Me disser... –Sim, é verdade – já estava começando a ficar cansado de tantas vezes que me faziam a mesma pergunta. – Por quê? – Me desculpa, eu parei de falar contigo de repente, falei que éramos amigos, mas depois eu simplesmente deixei você de lado. Eu estava apaixonada pelo Vanderlei e ele vivia te zoando, então eu achei melhor parar de falar contigo para me aproximar dele – não sabia o que pensar e muito menos o que viria a seguir. –Mas eu percebi que ele é um péssimo tipo de pessoa... Então terminei com ele. – Demorou, não? – tentei sorrir com a minha própria piada, mas ainda estava um pouco magoado para conseguir. – Agora eu percebi que eu gosto é de você... João... Eu te amo – Então ela se aproximou um pouco de mim,me coração acelerou, fechei os olhos e avancei... – Acorde, menino. Desse jeito vai chegar atrasado ao primeiro dia de aula! – berrou minha mãe.

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O Diário De Um Desajustado Olhei o relógio no meu criado-mudo, eram 05h30min. Como eu pensei: apenas um sonho... E agora é acordar para a realidade: terceiro ano do ensino médio!

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 8: A revolução nerd É... Consegui sobreviver a um ano tumultuado, foram muitas coisas novas pra mim, demorei um pouco para me acostumar, descobri que nem todas as pessoas são de confiança e descobri o verdadeiro valor da família. Finalmente o 3º ano, último estágio da minha vida colegial, esse com um agravante: o temido vestibular. Espero que tenha novidades melhores para esse ano. E como de costume minha mãe me acorda às 05h30min da manhã: – Acorde, menino. Desse jeito vai chegar atrasado ao primeiro dia de aula! – berrou minha mãe. Precisava parar com essa mania de minha mãe me chamar, afinal já estou alcançando à maturidade, logo não vou depender mais dos meus pais. Levantei devagar da cama, um pouco receoso de ir, mas também ansioso. Receoso por medo de ser tudo igual de novo e ansioso para um novo ano. Fui para o ponto esperar o ônibus, como de costume demorou bastante, ao entrar percebi que estava em péssimo estado, um verdadeiro perigo pra quem depende dele. Mas falando um pouco sobre meu dia, a escola era a mesma de sempre. Com uma pequena diferença, ou melhor, duas: – Classe, esses são os dois novos alunos: Adolfo Castro e Eliel Stalin – disse a professora. Eles tinham cara de nerd, aqueles parecem ser meus companheiros pra esse ano. A classe não foi muito receptiva, Vanderlei e André, cada um em seus grupinhos inimigos, já inauguraram as primeiras zoações a eles:

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O Diário De Um Desajustado – Olha a cara de mal das meninas – diz Vanderlei e Adolfo olha com uma cara estranha pra eles, enquanto Eliel faz um sinal obsceno, já vi que era guerra declarada. Os dois sentaram ao meu lado, já fui puxando assunto, era uma forma de fazer novos amigos: – Prazer, sou João Roberto – Estendi as mãos para os dois, Adolfo apertou minha mão calorosamente e Eliel não quis me cumprimentar, talvez ele seja tímido, não é? Mas parece que não foi com a minha cara. Logo Adolfo me disse: – Todo dia é essa zoeira aqui na sala? – Olhou pra mim com uma cara séria e de revolucionário, mal sabe ele a divisão nessa sala e a pouca assistência da diretoria. Respondi: – É sim, ano passado era pior, hoje melhorou um pouco, mas quase nada. Continua os mesmos infantis na escola, cada vez me convenço mais que o governo não quer educação, afinal é uma arma contra eles – Adolfo se virou e disse pra mim: – Precisamos dar um jeito nisso: eu, você e o Eliel, vocês estão comigo? – Eliel de quieto vibrou como nunca, parece que revolução corre em suas veias, ele logo disse: – Mas é claro que to, agora é a hora. – até agora não tinha escutado a voz de Eliel, que não olhava nos meus olhos. Nunca tinha feito amizade com ninguém tão rápido, os dois pareciam meus amigos de infância. Eliel sempre evitava falar comigo, parece que tinha uma rivalidade comigo, nos três ficamos conversando na aula de português toda. Eram uma emoção os dois na minha sala, parecia ter chegado finalmente o meu lugar ao sol. Terminado as 34


Josué Viana – Thiago Echer aulas, combinamos nos candidatar ao grêmio estudantil, pouca chance nos tínhamos, mas também tínhamos um plano: queríamos mudar tudo naquela escola e também nos divertir um pouco com os “populares”. A escola vai ficar tumultuada nos próximos dias... Vários dias se passaram, era tempo de eleição, tinha apenas duas chapas que se candidataram: a de André e a de Vanderlei, a escola estava meio dividida. A maioria tinha medo de se candidatar, afinal contra os dois populares não tinha chances. Lançamos a nossa com objetivo de ganhar, agora eram três chapas, nosso plano era queimar a imagem deles e lançar nossa campanha, prometendo mudanças: – A mudança, às vezes, é boa, mas pra mim é solução. Uma chapa que escuta a todos os alunos. É isso que prometemos se ganharmos a eleição, nós somos novos e queremos mudança, prometemos ouvir a todos, lutar contra o bullying e a omissão – discursou Adolfo, nosso líder da chapa, a galera foi à loucura. Mas não era o suficiente, em pesquisa de corredor, Eliel deu a péssima notícia: – Só temos o voto dos nerds, somos os últimos colocados – a chapa não tinha um nome que agradava, era Revolução Nerd. Mas não mudaríamos isso, primeiro vamos abalar a imagem dos outros candidatos, vingança pelo mal que sempre fizeram. A primeira “vítima” era André, líder de sua chapa. Alguns dias depois, durante o intervalo: – Quem foi que pichou o banheiro masculino daqui da escola? – diz o diretor a todos os alunos, mas sem resposta, a diretoria teve que tomar medidas drásticas.

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O Diário De Um Desajustado Não fizemos nada mal planejado, demos um jeito de incriminar André, era a primeira forma de mostrar a nossa força. Os professores de cada sala ficaram responsáveis por revistar as mochilas dos alunos e ao longo da revista: – Que isso aqui, André? – o professor achou dois sprays de tinta dentro da mochila de André. – Não sei professor. Isso não é meu! André tentou se explicar, mas nada pode fazer. Ganhou apenas dois dias de suspensão e teve que ajudar a limpar o banheiro. Mas já não era de se esperar a pequena pena, vários incidentes ficaram impunes naquela escola, reflexos de um governo brasileiro, onde o crime parece que compensa. Porém o objetivo principal foi cumprido, André ficou com uma imagem manchada. A próxima vítima era Vanderlei: Ouvimos batidas na porta da sala de aula. – Com licença, professora – diz um policial mal encarado. –Sim, do que se trata senhor policial? – disse a professora. – Recebemos uma denúncia anônima que alguém dessa sala esta portando uma arma. Ele revista cada mochila, finalmente a tal arma é encontrada na mochila de Vanderlei (cortesia do Eliel), esse teve que dar explicação na polícia. A diretoria, para mostrar serviço, suspendeu Vanderlei por duas semanas e o fez trabalhar na escola durante esse tempo.

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Josué Viana – Thiago Echer A chapa Revolução Nerd finalmente ficou conhecida em toda a escola e a chapa de André e Vanderlei excluída da votação. Logo, por falta de candidatos, fomos eleitos. Comigo, Adolfo e Eliel, meu principal rival naquela escola, conseguimos diminuir as zoações e deixar nossa marca. A principal luta era a falta de professores e a prática do bullying. Aquele ano era diferente, em apenas dois meses fiz muitas coisas, sinto minha vida melhorar, nunca pensei estar no grêmio estudantil. Mas o ano continua, muita coisa vai acontecer...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 9: Você tem que passar no vestibular! Após seis meses no 3º ano, ressoa uma voz dentro de todos na escola: “você tem que passar no vestibular”. Mesmo quem não esta ligando pra nada fica com essa inquietação na cabeça. É incrível como temos que sofrer tanto estudando sendo que vamos alcançar algo que é do nosso direito, estudar e aprender uma profissão. E a disputa com as escolas particulares é desigual, eles têm uma larga vantagem, temos que nos desdobrar em dois, em três... Minha mãe já não me acordava mais tamanha era minha determinação em passar, às vezes, até dormia diante dos livros as noites afora. Mais um dia de escola, mas hoje era dia de gincana escolar, faziam isso para os alunos descontraírem um pouco e aliviar o stress. Era o soletrando, que foi pedido por nós do grêmio estudantil. – Bom dia, estudantes. Hoje estamos na semifinal da nossa gincana – diz a animada diretora, que hoje não esta gritando e reclamando, será porque temos um grêmio atuante agora? – E o próximo duelo vai ser entre Albert e João Roberto. Meu deus! Vou enfrentar o maior nerd da escola. Mas confio em mim, acredito que posso ganhar. Após várias palavras passadas, Albert errou: – P-a-r-a-d-o-c-h-o. Agora era a minha chance, era uma emoção tão grande que pensei que ia errar também: – H-i-p-e-r-m-e-t-r-o-p-i-a. 38


Josué Viana – Thiago Echer – Certa resposta! E João Roberto vai para a final! Foi muito bom, cheguei à final da competição e agora ia enfrentar o meu grande rival: Eliel Stalin. Na vez dele soletrar: – I-n-c-i-d-e-n-c-i-a. – Errado, o correto é incidência com acento circunflexo no e. Agora é a vez do João. E a palavra é consistência. – C-o-n-s-i-s-t-ê-n-c-i-a. – Certa resposta! João Roberto é o campeão! – Eliel ficou cabisbaixo ali no canto. Consegui vencê-lo na final, foi uma emoção única, nunca tinha ganhado nenhum troféu na minha vida e já era à hora. Porém, a partir dali foram disputas uma em cima da outra, hora eu ganhava, hora Eliel ganhava. A disputa era sadia e me fez melhorar muito nos estudos. Mas a rivalidade ficou acirrada em uma competição de xadrez: – Ganhei – diz Eliel com tamanha satisfação, mas eu, tomado pela raiva, usei o recurso dos perdedores: Você roubou, eu que mereço ganhar! – Peguei o tabuleiro de xadrez e joguei longe. Eliel bufando de raiva disse: – Por que você fez isso?!

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O Diário De Um Desajustado Após uma longa discussão trocamos uns socos no pátio, demorou muito tempo pra alguém tomar alguma decisão. Temos um coordenador de corredor, mas ele esta de férias e não tem substituto, ai fica uma verdadeira bagunça. Por fim, fomos levados à diretoria e a diretora fez uma ameaça: – Mas uma dessas e vocês estão fora do grêmio estudantil! – Fomos suspensos por uma semana, mais tempo para eu estudar e ficar quietinho, não podia perder o meu cargo no grêmio. A escola não era o suficiente pra estudar, eu fazia dois prévestibulares, um na escola e outro no final de semana, ou seja, era o dia todo estudando, não tinha vida social, é assim a dura vida de uma pessoa que quer entrar na faculdade. Mas saindo um pouco dos estudos, consegui minha primeira namorada, foi mais pela ajuda de Adolfo e também por ser do grêmio. O nome dela era Laura, esse som ressoava nos meus ouvidos, mas ainda não tinha se esquecido de Julia. A Laura era uma garota muito bonita, tinha olhos expressivos, era animada e um pouco bobinha. Namoramos apenas por três meses, pois eu estava muito concentrado no vestibular e ela era uma menina ainda infantil e não queria saber muito de estudar. – Olha, tem muita gente aqui da nossa escola que não presta atenção na aula e depois perde um dinheiro pra fazer esses cursinhos por ai para apenas aprender as mesmas coisas que eu ensino em minha aula – o professor de história falava sempre isso nas aulas, por isso pedi mais conselhos a ele de como estudar e como conciliar a vida social e estudos.

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Josué Viana – Thiago Echer – Bom, a melhor maneira de estudar é reservando um tempo pra você. Infelizmente o governo não investe o suficiente em educação, então, em sua maioria, apenas os ricos com suas escolas particulares conseguem passar no vestibular. Mas pessoas como você podem e devem mudar essa realidade, eu confio em você. Essas palavras e outros conselhos me animavam cada vez mais a estudar, a faculdade passou de um sonho para uma meta e agora era uma obsessão.

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 10: Finalmente férias Até que enfim terminou esta agonia a respeito do vestibular. Eu o fiz e acredito ter tirado uma excelente nota, mas o resultado oficial só sai daqui algumas semanas. Enquanto isso, vamos comemorar o final de uma fase em nossas vidas. E para isso nada melhor do que sair com os amigos e festejar! – Vamos lá, cara! Só um gole não vai fazer mal! – me dizia Adolfo. – Você precisa se soltar mais. – Mas sempre me falaram que cerveja é algo ruim... – estávamos em uma festa e Adolfo tentava me convencer a beber. – Se você não provar, nunca vai saber se te falaram a verdade – falou Eliel de formar desafiadora. – Está bem, me de esta latinha... Tomei um gole, o gosto era amargo e parecia que estava corroendo minha garganta quando engoli. – Cof, cof... Acho que falaram a verdade... – O gosto fica melhor depois de um tempo – disse Adolfo, ele já estava na segunda latinha. – Melhor parar, ele não vai nem aquentar metade desta latinha, quem dera beber como eu! – disse Eliel com uma cara de debochado. É claro que ele estava me desafiando, não queria continuar bebendo, mas eu não iria dar o braço a torcer. Então continuei bebendo... E depois disto só me lembro de um barulho ritmado que muitos gostam de chamar de música, de risos, um lindo sorriso estampado em um 42


Josué Viana – Thiago Echer rosto desconhecido, beijos, movimentos chamaremos de dançar, mais beijos...

desengonçados

que

Mas não me pergunte nada além disto. A única coisa que me lembro é de acordar com uma baita dor de cabeça num lugar que nunca estive. – Até que enfim acordou, dorminhoco – disse Adolfo, ele não parecia muito melhor que eu. – Aonde eu to? – Minha casa, ué! Não se lembra do que aconteceu ontem à noite? – Não... O que aconteceu? E cadê o Eliel? – Olhei o relógio na parede, era 10h30min. – O Eliel nem veio pra cá, da festa ele foi direto pra casa. E você pegou a Sandrinha, mano! – Quem? – É uma piriguete das redondezas. Ela é bonitinha, mas dá mole pra qualquer um... – Aff, acho que estou lembrando um pouco dela... Espera aí! A gente não fez o que eu to pensando não, né? – Fizeram sim, você a pegou de jeito, mas acho que ela não gostou muito não... Ela foi embora antes mesmo de eu acordar – ele falava aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Porém, para mim não era, minha primeira vez tinha sido com uma qualquer e a única coisa que sabia sobre ela era que seu apelido é Sandrinha. Pior, não sabia com que cara iria chegar em casa, não tinha 43


O Diário De Um Desajustado avisado que não ia dormir fora, na verdade, nem poderia dormir fora. Mas eu tinha que encarar as conseguências. Quando cheguei em casa, minha mãe chegou a mim desesperada. – O que aconteceu, meu filho? Você não veio pra casa, nós ficamos desesperados! Por onde você esteve? Aonde você dormiu? Não me diga que ficou na casa de uma dessas piriguetes que tem por aí! – Calma, mãe. Fiquei na casa de um amigo meu. A senhora sabe, aqui é um pouco perigoso, achei melhor ficar na casa deste amigo, pois ele mora no bairro onde a festa aconteceu. – Mas você poderia ter avisado! – ela parecia realmente brava, mas o pior ainda estava por vir: falar com o meu pai. Mas eu ainda tinha tempo, é sábado, ele só volta do trabalho as 19h00min. Enquanto isso eu tenho tempo pra dar um jeito nesta ressaca... – Sua mãe me contou o que aconteceu. Você, por acaso, percebeu como ela ficou abalada com o seu desaparecimento? – meu pai parecia furioso, mal tinha coragem de olhar nos olhos dele. – Me desculpe, eu não pensei que... – É claro que você não pensou! Você já é praticamente um homem e faz uma coisa infantil como esta? Fiquei em silêncio, não sabia o que responder. – Vamos fazer assim, vai ficar de castigo por uma semana sem sair de casa. E da próxima vez que pensar em dormir na casa de um “amigo”

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Josué Viana – Thiago Echer te expulsarei desta casa! Não vou ficar criando um filho vagabundo que só quer saber de brincar. – Esta bem... Com o intuito de me divertir acabei me ferrando, e muito! Agora é colocar a cabeça no lugar e esperar o resultado do vestibular...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 11: Os últimos serão os primeiros Hoje estou com muita expectativa, vai sair o resultado do vestibular e eu tenho que passar! É meu grande objetivo. E eu ainda tenho que compensar os meus pais que estão meio nervosos com toda a situação que eu aprontei chegando bêbado em casa depois de ter sumido. A situação não está nada boa. Tive que passar no colégio, a classificação estava disponível lá. Ao chegar, me deparei com uma surpresa, que eu nunca esperaria. – Chegou o gênio! Palmas para ele – disse a diretora do colégio, me abraçando. Ela me levou direto para a secretária, fiquei meio assustado, mas tinha uma boa sensação do que ia acontecer: – O que foi que ouve, foi algo que fiz? – fiz-me de desentendido. A diretora puxa a cadeira da mesa e me convida a sentar. – É uma excelente notícia, é a respeito de sua classificação no vestibular – a diretora fala com uma alegria no olhar, logo deduzi que poderia ser algo muito bom. – Eu passei? Que emoção, que felicidade – estava empolgado, por mais que estava confiante, não estava tanto assim, foi uma felicidade única. – Muito melhor que isso! Você passou em 1º Lugar! Estão querendo fazer uma reportagem aqui na escola com você – quando a diretora disse isso fui impulsionado pela emoção, nem percebi que ela queria

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Josué Viana – Thiago Echer mais é se aproveitar do meu resultado para melhorar a imagem do colégio e dela na mídia. Na mesma hora sai correndo dali gritando: – Eu passei no Vestibular! Vida nova! – Gritei, pulei e dancei, foi uma emoção inexplicável nunca antes sentida, o dia foi todo diferente. Veio uma equipe de jornal fazer uma entrevista comigo na escola e eu soltei o verbo: – Estamos aqui com João Roberto, o garoto que passou em 1º lugar no vestibular para administração – disse a repórter. Eu nunca tinha dado entrevista antes, era uma grande emoção. A repórter continua: – Você esperava passar em 1º lugar no vestibular? – a repórter estava com um olhar de admiração, assim como muitos na escola. Eu aproveitei a deixa e logo disse: – Não esperávamos, não é mesmo? Digo isso porque o nível de educação e interesse, tanto da escola quanto do governo, é muito baixo, mas com minha determinação e força de vontade eu consegui – o orgulho já estava me subindo à cabeça, estava me sentindo superior a todos. Até o final da entrevista fui levando muito bem e consegui dizer tudo o que tinha para dizer. A diretora me convidou para dar uma palestra na escola, falar com as pessoas que foram pegar as médias finais da escola. Eu aceitei, percebi que tinha muitas pessoas me bajulando agora, basta ganhar algo e eu mostrar meu potencial que aparece alguém para se aproveitar. Mas eles terão o que merecem, em especial: André, Vanderlei e Julia.

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O Diário De Um Desajustado O que mais me deu satisfação foi que Eliel não ficou entre os primeiros, passou, mas eu fiquei muito na frente dele. Eu, ele e Adolfo combinamos em sair para uma festa no final de semana. Antes disso tinha a minha palestra na escola. Estava ansioso, mas confiante. Afinal sou muito melhor que eles: – Boa noite a todos – Em meio a uma pigarreada e uma voz platônica, continuei. – Tudo o que sonhamos, podemos alcançar, mas nada pode ser alcançado sem determinação, sem coragem e garra, é preciso ter força de vontade, ter foco. Hoje eu passei no vestibular, muitos de vocês não passaram, não sei os motivos e nem interessa, pelo menos agora, mas amanhã pode ser vocês. Antes de tudo corra atrás, determine o que você quer e faça. Se você sonha, você realiza... Foram poucas palavras, mas arrancaram muitas palmas de todos ali. Apesar de ter acabado meu tempo naquela escola, fui tratado como um ídolo. Ganhei um quadro moldurado na escola, depois de tantos sofrimentos consegui dar a volta por cima, no final foi positiva minha participação naquela escola. Em casa consegui uma boa impressão da minha família, a imagem negativa que tinham de mim passou. No final de semana. Eu, Eliel e Adolfo saímos para uma festa: – Chocante essa festa, João! Não quer beber um pouquinho? – já veio Adolfo me oferecendo bebidas. – Melhor não... Acabei me ferrando da última vez – e não queria me ferrar de novo! – Mas nós temos que comemorar! Só um pouco não vai fazer mal. 48


Josué Viana – Thiago Echer – Não sei... Acabei bebendo depois de muita insistência, não pude evitar, a festa não seria tão boa se eu não bebesse. E logo veio Eliel com um cigarro meio estranho. – Toma ai, dá um tapinha pra você ir às estrelas – Recusei de primeira, mas, depois de várias tentativas de Eliel, fumei aquele cigarro estranho. Afinal, era só para experimentar, se eu não gostasse eu parava. – Cof, cof. – aquilo era muito forte, mas gostei. Fumei uns cinco naquela festa. Sabia que era errado, mas... Era bom, incrivelmente bom e eu não conseguia parar. Depois disso já da para adivinhar: Música, risos, um lindo sorriso num rosto estranho, beijos... Fui acordado as três da madrugada pelo Adolfo em sua casa, ele sabia que eu tinha que chegar em casa antes do amanhecer. A garota ainda estava dormindo ao meu lado, seminua, dessa vez não me incomodei em descobrir o nome dela. Chegando em casa, abri a porta mais silenciosamente possível, mas minha mãe já estava a minha espera. Ela estava sentada em uma cadeira na cozinha, que foi por onde eu entrei. – Como foi a festa filho? Chegou tarde, ehn?... – minha mãe me olhou com um tom de preocupação.

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O Diário De Um Desajustado – Nada, mãe. É que a festa tava muito boa... – minha voz estava meio embargada, nariz fungando, olhos vermelhos e estava cambaleando, minha mãe logo percebeu. – Você andou fumando, João?! – minha mãe me olhou com um olhar de nojo. –Amanhã eu e seu pai vamos ter uma conversinha muito séria com você, agora não vou falar nada porque seus irmãos estão dormindo e seu pai esta cansado. – Mas, mãe! Eu não fiz nada! – Tentei falar com ela, mas me deu de ombros e foi dormir. Aquela noite me senti culpado, mas muito cansado para pensar em algo que não fosse dormir. O mundo das drogas é um lugar muito difícil de sair, mas o incrível é a facilidade de chegar ao tal. O governo precisa olhar pelos jovens, dar apoio e evitar que entrem para esse mundo. Estou preocupado, amanhã será um dia tenso, vou ter que encarar meus pais. Mas é só por enquanto que me submeto assim a alguém...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 12: Fim de uma época, inicio de outra Hoje vou ter que enfrentar a fúria dos meus pais, e olha que as coisas estavam dando certo, daqui a dois meses começa a minha faculdade. Estou com medo do que possa acontecer, infelizmente tenho que me submeter a essas humilhações. Mas é só por enquanto, logo não precisarei mais. Minha mãe me acorda em tom ácido: – Vamos, garoto! Acorda logo. Eu e seu pai temos que conversar com você – Eu, meio sonso, ainda tentando abrir os olhos, digo: – São que horas? – estava com muita dor de cabeça, ainda me recuperando da ressaca. Minha mãe disse: – São 10 horas da manhã! Vai lá tomar seu café e toma um banho que eu e seu pai estamos te esperando na sala. Fui tomar meu café e logo após tomei o meu banho, estava apreensivo, meus pais são meio antiquados e eu fiz bastantes besteiras ultimamente. Mas é coisa de jovem, eles têm que entender. É inevitável o encontro com eles. Meio cabisbaixo, chego quieto no sofá, sento no meu canto e espero eles começarem, após um momento de silêncio que parecia não acabar, quem começa a falar é o meu pai. – O que está acontecendo com você? – diz meu pai com uma voz meio alterada. Eu não digo nada e ele continua: – João, você nunca foi assim. Você sempre foi um garoto comportado, inteligente, responsável e muito mais. Você era um filho genial! – diz

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O Diário De Um Desajustado meu pai com um tom muito triste, ele contém o choro, enquanto minha mãe se derrama em lágrimas. Meio soluçando ela diz: – João, nunca esperei isso de você. Se envolver com drogas, bebidas... – diz minha a mãe, que não consegue mais dizer nada, pois o choro não à deixa continuar. Logo tomo coragem e falo: – Eu entendo a decepção de vocês, mas é coisa de jovem mesmo, a gente sai com a galera e se diverte, bebe, canta... Será que eu não posso me divertir um pouco? – Meu pai nesse momento se levanta, parecia nervoso. – Coisa de jovem?! Então, quer dizer que coisa de jovem é beber até cair? É, João? Quer dizer então que se drogar é coisa de jovem? Coisa de jovem é sair pegando uma qualquer por aí? Eu aceito você sair pra se divertir, mas se divertir com atenção – enquanto ele gritava, meus irmãos se aproximaram para ver o que estava acontecendo. – Você não vê que essas coisas acabam com você?! Olha só no que você se tornou: um ser frio, avarento. Você se acha o todo poderoso! Melhor que todos! Olha só no que você se tornou, João – diz meu pai, bastante alterado. Senti-me domado pela fúria e disse gritando: – Vocês nunca se importaram comigo! Tiraram-me de Vila dos Vales, onde eu era feliz e agora me trouxeram pra esse inferno! Você e mamãe nunca quiseram conversar comigo, nunca deram a mínima, sempre fui o garoto estranho da família, a ovelha negra, não é mesmo? – Nesse mesmo momento meu pai senta no sofá, desolado, e chora junto a minha mãe. Meu pai me diz: 52


Josué Viana – Thiago Echer – Não diz isso, João! Sempre nos importamos com você, trabalhamos duro pra botar comida na mesa, pra dar o melhor que podemos a você! – Logo minha mãe completa: – Estou decepcionada com você, João! Nunca pensei que você pudesse nos tratar assim, sempre queremos o seu... – Em fúria extrema, eu digo: – Eu não preciso de nada que vem de vocês! Eu não quero saber do que vocês tentaram fazer, eu não me importo! Pra mim chega! Meu pai, sem pensar duas vezes, diz, olhando para meus irmãos: – Fabio, Gabriel e Jessica se despeçam do seu irmão, pois ele não mora mais aqui. Minha mãe tenta convencer meu pai a não fazer isso: – Não, Joaquim. Não faça isso, pelo amor de Deus! – Meu pai, decidido, diz: – Eu já tomei minha decisão, vai arrumar suas malas, João! – Fiquei sem chão, mas ao mesmo tempo com muito ódio. – Não preciso de vocês, eu vou ser rico e vocês vão continuar sendo os mesmos miseráveis de sempre! – Dei as costas para eles para arrumas as minhas malas, meu pai e minha mãe se abraçam soluçando. “Mala” era apenas um jeito mais simpático de dizer mochila, que era pequena e não cabia muita coisa, peguei apenas algumas roupas. Quando terminei, me despedi de meus irmãos.

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O Diário De Um Desajustado – Fabio, Gabriel e Jessica... Até qualquer dia – Gabriel, que era o mais velho dos três, segura meus irmãos e me olha com um olhar de reprovação. Coloco a mochila nas costas e saio de casa, desolado e ao mesmo tempo irado. Meu primeiro pensamento: não tinha para onde ir. Mas pensei de novo e percebi que tinha apenas a casa de Adolfo. Era um pouco longe, tive que roubar uma bicicleta para chegar antes do anoitecer. Toco a campainha e Adolfo, sem perceber o meu estado, me recebe de forma alegre. – Grande João! Ao que devo a honra? – Mesmo com muita vergonha, digo a Adolfo: – Adolfo, me ajuda. Meus pais me expulsaram de casa e não tenho pra onde ir! – Adolfo me olha com um olhar de pena e diz: – Cara, não posso te ajudar no momento – Eu engulo todo o meu orgulho e digo pra Adolfo: – Eu posso ficar no quarto do fundo, não importa e eu ajudo nas despesas da casa – Adolfo morava em uma casa, sozinho, que ficou de herança da sua avó. Após um momento pensando, ele finalmente cedeu e me deixou ficar. Nunca esperava ter sido expulso de casa, ainda mais se envolver com drogas. Vejo agora que não é nada bom se envolver com essas coisas: seja bebida, drogas ou qualquer coisa do tipo. Mas fazer o que? Não posso voltar no tempo. Porém, a amargura com que meus pais me trataram hoje, ficou guardada com uma pontinha de ódio no meu coração... No futuro eles terão o que merecem... 54


Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 13: Dependência ou independência? Já fazia duas semanas que eu estava na casa do Adolfo e estava a um mês e meio do inicio da faculdade. Não estava ajudando nas despesas de casa, como prometido. Era difícil arranjar um emprego quando se é jovem, sem experiência e sem algum curso ou algo do tipo. Mas, o pior de tudo, eu estava devendo uma grana preta para um cara chamado Pezão, que andou me vendendo uns daqueles “cigarros estranhos”. Mentira, o pior era que Adolfo estava a ponto de me expulsar da casa dele. – “Eu posso ficar no quarto do fundo, não importa e eu ajudo nas despesas da casa” – disse Adolfo tentando imitar a minha voz. – E, então? Quando vai começar a ajudar “nas despesas da casa”? – Não é culpa minha! Não consigo achar um trabalho, o que posso fazer? – Não me importa, tem até o anoitecer para arranjar o dinheiro que me deve por suas despesas. Saí da casa do Adolfo, ainda era meio dia, cabisbaixo e com apenas a minha mochila com um lanche dentro, não tinha dinheiro para comprar comida na rua. Iria procurar um emprego, mas e se eu não conseguisse? O que provavelmente vai acontecer... Não posso voltar para a minha casa, não sou amigo o suficiente do Eliel para pedir moradia a ele... Será que meu destino é morar nas ruas? Não pude terminar o meu pensamento, ouvi a sirene de um carro de polícia, estava se aproximando cada vez mais. Até que eu vi um carro preto com vidro fume virar a esquina, colado com ele vinha dois 55


O Diário De Um Desajustado carros de polícia. Pensei em me esconder caso houvesse troca de tiros, mas uma coisa me impediu. Quando o carro preto passou por mim, deixou um malote de dinheiro cair na minha frente, ele seguiu adiante e os carros de polícia também. Estava sozinho naquela rua, era a minha chance de pagar a minha dívida com o Adolfo e o Pezão... Mas seria o certo a ser feito? Eu deveria mesmo pegar aquele dinheiro? Fiz o que qualquer um faria, peguei todo o dinheiro que havia no malote e o coloquei na minha mochila, como o malote não estava totalmente cheio de dinheiro, ainda tinha mais espaço na minha mochila... E se eu andasse mais um pouco, será que poderia encontrar outro malote? Seria muita sorte, mas eu tinha que tentar. Andaria apenas alguns quarteirões e se não encontrasse nada, voltaria para a casa do Adolfo. Além do mais, os bandidos e os policiais já devem estar longe. Andei mais um pouco, era incrível como não tinha ninguém nas ruas, provavelmente, se esconderam quando ouviram a sirene da polícia com medo de haver troca de tiros. Normalmente, ali não era um lugar para se considerar seguro. Andei mais um pouco até o quarteirão onde eles viraram. Tomei um susto, vinha um carro de polícia em minha direção, tentei voltar sem levantar suspeitas, mas o carro parou do meu lado e de dentro dele veio uma voz nada amigável. – Ei, garoto! – olhei para ele, estava sozinho no carro. – Vem aqui. – Aconteceu algo, senhor policial? – tentei me manter firme, mas por dentro estava desmoronando no medo e no nervosismo.

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Josué Viana – Thiago Echer – Eu que lhe pergunto, por que está sozinho nessa rua deserta? – Estou indo para casa. – Hum... E, por acaso, você viu um malote de dinheiro jogado por aí? – O que eu faria agora? Poderia ser honesto, porém perder todo o dinheiro ou podia ficar calado e resolver todos os meus problemas. Mas e se ele tivesse me visto na perseguição? Se ele quisesse ver a minha mochila? Hesitei, não poderia demorar muito a responder, pareceria suspeito. Por fim disse: – Está tudo aqui – entreguei lhe a mochila. Parecia que eu tinha tirado um grande fardo das minhas costas. – Bom garoto... Por ter dito a verdade, por que não fazemos assim: você fica com uma parte e não diz a ninguém o que aconteceu aqui, que tal? – percebi o que ele queria, ele era mais um policial corrupto, de uma instituição que deveria nos proteger, mas é apenas mais um sanguessuga. – Ok, eu aceito – mas acho que eu não tinha muita escolha quanto isso. Ele pegou a maior parte do dinheiro e me devolveu a mochila quase vazia, mas ainda tinha dinheiro o suficiente para pagar as minhas dívidas. O policial foi embora e eu ia voltar para a casa do Adolfo. Mas no meio do caminho, eu encontro o Pezão. Ele não estava com uma cara muito boa, tentei virar a esquina sem ele perceber a minha presença, porém ele já tinha me visto e estava vindo em minha direção. 57


O Diário De Um Desajustado – Vejam só quem está aqui! – Nisso percebi que tinha dois caras atrás de mim, com certeza comparsas do Pezão. – João, cadê minha grana? – Calma, cara. Está aqui – Tirei a mochila das costas e a abri para tirar um pouco do dinheiro que estava nela, mas antes ele a pegou da minha mão. –Nossa, andou roubando um banco, garoto? – Devolva a minha mochila, aí tem muito mais do que lhe devo! – Mas e os juros, João? – Ele fechou a mochila e colocou em suas costas. – Isso não é justo. – A vida não é justa, criança. Com isso ele foi embora com seus comparsas, em meio à noite fria e escura. Continuei o caminho para a casa do Adolfo, cabisbaixo, como tinha saído. Talvez ele pudesse me dar mais um dia, ainda tinha esperanças, ele era o meu melhor amigo na escola. Quando cheguei na casa dele, fui recepcionado com amargura. – E então, arranjou o dinheiro ou um trabalho? – Teve um instante de silêncio. – Não, não consegui. Mas se você me der mais um... – Pegue as suas coisas e sai daqui. – Mas... 58


Josué Viana – Thiago Echer – Não queria que fosse assim, mas você não me deu outra escolha... Peguei as minhas coisas. Adolfo me deu uma mochila velha dele, depois de eu ter explicado que tinham roubado a minha, mas omiti a parte do dinheiro e do policial. Saí da casa dele como tinha saído da casa dos meus pais, com uma mistura de amargura e ódio. Não tinha para onde ir, será que o meu fim seria morar nas ruas? Depois de tudo o que eu passei, esse seria o final da minha história?

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 14: Eu aceitei Jesus A vida é uma grande caixinha de surpresas. Nunca esperei dormir na rua algum dia, como também nunca pensei em me envolver com drogas, ser expulso de casa... Esse ano é de tantas transformações, a faculdade chegando e eu não sei mais o que fazer da minha vida. Todas essas questões martelavam em minha cabeça. Estava na rua perambulando sem saber pra onde ir, quando de repente algo me acontece de muito inesperado: – Meu filho, você quer que Jesus salve a sua vida? – era mais um daqueles pastores fanáticos, estava conversando com alguns moradores de rua. Apesar de não acreditar muito achei bonito o trabalho, mas não queria papo. Fui passando direto, ao me desviar dele fui atropelado por uma moto, que acabou resvalando nele também. Nos dois caímos um sobre o outro. O pastor se levanta preocupado. – Tudo bem, irmão? – diz o pastor, olhando fixamente nos meus olhos. Eu me levanto. – Tudo bem, obrigado – Aperto a mão do Pastor e saio logo, não queria muito papo com ele. Mas para o meu azar (ou será sorte?) o acidente da moto o fez voltar à atenção para mim. – Meu filho, porque você anda tão triste? Você quer receber Cristo em sua vida? – não acreditava muito nesse papo de religião, mas ocorreu60


Josué Viana – Thiago Echer me uma ideia: eu poderia ganhar algo com ele, então resolvi fazer uma ceninha. – Pastor eu ando muito triste, estou perdido nas drogas e meus pais me odeiam a ponto de me expulsarem de casa! – O pastor me deu um abraço carinhoso. – Venha, você vai trabalhar na obra de Jesus – Concordei em ir com ele. O meu trabalho na igreja era ajudar a visitar casas de pessoas doentes, evangelizar em vários lugares, fazer louvor em trem e tal. Em troca disso podia dormir num pequeno quarto que havia na igreja. Confesso que me interessei por de mais pela igreja, me tornei o braço direito do pastor, tudo em menos de um mês. Já estava muito envolvido na igreja, o que me ajudou a me livrar das drogas, do álcool e do sexo desregrado em pouco tempo. Teve até um dia que dei o meu testemunho em um culto: – [...] A minha vida é um milagre de Deus. Fui salvo por esse homem santo, o pastor Simo Mace Faia, Glória a Deus. Ele é mais forte do que qualquer droga, do que qualquer sentimento de ódio que possa despertar em seus corações... – os cultos na Igreja das Mãos Purificadas, fundada pelo próprio pastor Simo, eram um sucesso. O Pastor Simo ficou conhecido em todo o Brasil pelos seus rituais de expulsão de demônios, as invocações do espírito santo, além de salvar muitos jovens do mundo do tráfico.

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O Diário De Um Desajustado Meus pais me acompanhavam de longe e gostaram muito da minha transformação. Em apenas um mês, minha vida mudou completamente, eu e pastor Simo nos tornamos grandes amigos. Cujo queria que eu conhecesse alguém, ele me apresentou uma linda menina: – João, essa é Isabela! – fiquei vidrado em seu olhar, estava encantado. – Prazer em te conhecer! – disse a ela. Fui conhecendo Isabela e me apaixonei por ela, não só pela sua beleza, mas também pela sua maturidade, sua inteligência e sua forma doce de falar. Quisera eu esquecer o que aconteceu entre nós em certa noite... A minha vida, em menos de um mês, mudou completamente. Eu e Isabela estávamos namorando, me tornei um grande pregador e evangelizador de Cristo, Pastor Simo se tornou um grande exemplo para mim. A única coisa que faltava era me reconciliar com meus pais e abandonar de vez amargura que eu sentia de algumas pessoas. Mas não durou muito esse meu sentimento de paz interior. Um dia Isabela, que sabia de muitas coisas do pastor, me contou uma história que me deixou perturbado. – João, eu descobri algumas coisas muito... Estranhas sobre o Pastor Simo – Isabela estava com uma face de preocupação, fiquei com medo do que podia ser. Se o Pastor tinha alguma doença, eu acho que não suportaria, pois ele é um grande amigo. 62


Josué Viana – Thiago Echer – O que ouve com o pastor, Isabela? – minha voz saiu em tom de medo. Isabela, como se tivesse tirando forças para dizer, olhou para mim e disse: – O pastor Simo não é quem pensamos. Tenho quase certeza que ele esta desviando dinheiro do dizimo, além de financiar o tráfico na comunidade, também tenha algumas irmãs que me disseram que ele alicia suas filhas – Fiquei chocado ao ouvir isso. De inicio duvidei, mas quem estava dizendo era Isabela. – Isabela, essa denuncia é muito séria! Antes de fazermos qualquer coisa, vamos investigar. Nunca poderia desconfiar de Pastor Simo, nunca pensei que ele seria capaz de fazer tamanhas monstruosidades, mas era necessário investigar afundo tudo isso. Como tinha livre acesso a sala do pastor, comecei a ver os papeis das finanças da igreja. Existia um grande erro, o dinheiro do dizimo depositado era muito menor do que o dinheiro efetivamente pago pelos fieis, mas poderia ser apenas um grande erro dele. Continuei olhando os papeis e descobri uma conta no exterior em nome dele, tinha uma quantia enorme de dinheiro lá depositado. Foi um baque, a primeira denuncia batia. Mas precisava de mais provas para incriminar o pastor. Descobri também que o pastor tinha uma empresa de fachada, que era, na verdade, um local de venda de drogas e jogo do bicho. E o pior, ele usou nomes dos garotos que pegou na rua como laranja. Já estava tudo explicado, o pastor queria é se aproveitar de todos nós, agora entendo

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O Diário De Um Desajustado porque sempre pedia meus documentos, sorte que nunca entreguei a ele. Ainda tinha a última denúncia: a aliciação de menores. Com mais essa prova poderia colocar o pastor na cadeia por anos. Com ajuda de um amigo, comprei uma pequena filmadora e a instalei na sala do pastor. Como esperado, consegui filmar cenas intimas dele com menores e várias fiéis. Já tinha todas as provas, agora era a hora de jogar tudo na cara de todos aqueles porcos, daquela igreja. Muitos sabiam que pastor era sujo, mas foram coniventes, isso fazia deles cúmplices. Para minha sorte, no final de semana alguns reportes iam até a igreja na hora do culto para fazer uma matéria. Aproveitei-me do culto, que estava lotado, para dizer a verdade. – Meus irmãos, glória a Deus! Vocês vão precisar desse tal de Deus, se é mesmo que ele existe, não é? Quero dizer: vocês todos são uns cretinos. E esse porco do pastor Simo é um pedófilo safado, um narcotraficante e ladrão. Tenho provas que não mentem... Pastor Simo ficou perplexo e tentou negar. Mas eu já tinha levado as provas à polícia, que chegou com um mandato de prisão, bem na hora, e o levou para a cadeia. Mas, antes de ser levado, pastor Simo se virou a mim e disse: – Você vai se arrepender de tudo o que fez, eu conheço muitas pessoas! – Não liguei muito para o que ele disse, o importante é que consegui me libertar de tamanha corrupção.

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Josué Viana – Thiago Echer A igreja Mão purificadas foi fechada e os fiéis se rebelaram contra mim, um bando de alienados. Tinha que fugir para outro lugar, pois ali corria risco de vida. Eu estava muito nervoso com a Isabela, ela também era cúmplice daquela corja. – Você me decepcionou muito, Isabela – Queria encurtar o mais rápido possível aquela conversa, não suportava olhar mais para ela. – Mas como? Eu também fui vitima dis... – Então, como pode viver tanto tempo na igreja sem saber nada? – cortei Isabela, não queria saber de explicações. – Pra mim está tudo acabado entre nós. Virei de costas para ela e fui embora, Isabela ficou chorando. Foi tão intenso e ao mesmo tempo tão rápido o meu amor por ela. Tinha a sensação que Isabela não era culpada por nada disso, mas a amargura me impediu de voltar atrás. Fiquei muito decepcionado nesse mês que morei na igreja do expastor Simo. E decidi não mais acreditar em Deus. Se ele existisse mesmo, não deixaria tanta coisa de ruim acontecer, não é? A única coisa boa foi largar as drogas, tudo foi muito rápido e intenso. Talvez, no final, foi uma boa experiência. Porém, agora precisava de um lugar para ficar, faltava apenas duas semanas para começar o semestre na faculdade. O único jeito era voltar para casa dos meus pais.

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O Diário De Um Desajustado Depois de toda essa história sobre Deus, que já me encheu o saco, o sentimento de ódio me voltou com muita intensidade... Lembrei-me de André, Julia e Vanderlei...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 15: Rumo ao sucesso Fiquei preso, iludido nessas minhas férias. Primeiro: as drogas, não aconselho ninguém a usar, as drogas é uma morte em vida, tenho pena dos que sofrem com isso. E segundo: fiquei preso em um falso pastor. Não tenho nada contra a religiosidade de cada um, mas no meio de tantas coisas boas existem maus caratês que só querem roubar dinheiro dos pobres fiéis. Cristo não cobra bênçãos, cristo é o amor, não é isso que dizem? Mas tudo isso me fez abrir os olhos. Hoje não quero saber de bebidas e nem drogas, também não quero saber de mais nenhuma igreja, não consigo mais acreditar em nenhum Deus. Bom, falta apenas uma semana pra começar a minha faculdade, preciso de um lugar pra ficar. Queria muito voltar para casa, mas tenho muito orgulho pra pedir pra voltar, foi aí que tive uma surpresa. Era noite, estava perambulando pela rua. Quando, de repente, escuto uma voz bem familiar atrás de mim. – Filho, finalmente te encontramos. Eu e seu pai estávamos te procurando – Minha mãe e meu pai vêm na minha direção, olho pra trás. – Vocês? Agora está me procurando? O que ouve? – falo com certa ignorância e rancor, ainda não tinha engolido a expulsão de casa. – Filho, perdão. Ontem vi a reportagem na TV, que perigo você correu, filho! – minha mãe me diz em tom de preocupação.

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O Diário De Um Desajustado – Gostei de ver você longe das drogas, meu filho. Mas fiquei preocupado com você perto daquele pastor bandido... Eu e sua mãe conversamos, nos te perdoamos, filho. Volta pra casa – Me surpreendi, logo meu pai falando assim comigo. Ele era um homem muito orgulhoso, acho que herdei isso dele. Olhei para o rosto deles, nos meus pensamentos ressoava uma voz dizendo não, mas o racional queria dizer sim. Afinal, faltava só uma semana para começar minha faculdade, precisava de um lugar pra morar, então disse: – Ok, eu volto para casa – falei desse jeito frio e dei um abraço bem frio também, me deu uma grande vontade de chorar mais queria mostrar firmeza. Ao voltar para casa dei um grande abraço nos meus irmãos. Inclusive em Fábio, antes andamos nos estranhando, mas já passou. O tempo que fiquei em casa foi bom, voltei a conversar com minha família e eles deram um grande apoio para a minha faculdade. Meus pais estavam orgulhosos de mim, mas eu ainda não tinha esquecido o que fizeram comigo, ainda tinha um ponto de rancor e amargura no meu coração. Passou os dias, finalmente chegou o dia mais esperado da minha vida: o dia do inicio da faculdade. Acordei cedo, tomei o café da manhã e parti para a faculdade, que já era bem mais perto do que a escola, menos mal. Chegando à faculdade encontrei um novo mundo, totalmente diferente da escola. Uma estrutura muito boa. Nas salas de aula, os alunos eram

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Josué Viana – Thiago Echer realmente interessados e maduros, totalmente diferentes do âmbito escolar. Conheci bastante gente interessante. Entre eles, cinco pessoas que me identifiquei, talvez por serem ambiciosas como eu: Renato, Natália, Fátima, Roberto e Samuel. Nossas conversas sempre eram recheadas de debates e opiniões. Com eles falei sobre os pontos que me intrigavam na faculdade: – Não me conformo com isso, tanta gente rica aqui na faculdade que é pública. Ela devia ser para o povo de classe baixa – disse para eles. Isso me intriga muito, pessoas que podem pagar uma faculdade particular tomam lugar de muitas pessoas que não podem pagar. Mas Natália tinha outra visão sobre o assunto. – A faculdade pública é muito superior a particular, logo, é justo apenas os melhores estarem aqui, independente da situação financeira. – disse Natália, talvez tivesse essa opinião por ser de uma família com uma boa “situação financeira”. Renato disse logo após de Natália, ele era um cara bem maduro pela idade e eu estava muito impressionado com ele. – É, infelizmente este é o triste fato do Brasil. Um nível de educação fundamental, média ruins e um superior excelente. Daí poucas oportunidades para as pessoas que estudam em uma escola pública, que não tem uma educação tão boa quanto à particular – diz Renato com muita segurança do que fala. Fátima logo diz:

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O Diário De Um Desajustado – Pra mim a educação não é de toda ruim, é muito do esforço do próprio aluno. Olha só, tem muitas pessoas aqui que são de escolas públicas e... – Roberto corta o pensamento de Fátima dizendo: – Mas a infra-estrutura pública é muito ruim, além disso, tem muitos professores que não estão nem ai para dar aulas e outros muito mal preparados – o debate estava interessante e Samuel concluiu: – O resultado é essa inversão de lados. Os pobres pagam a faculdade e ricos fazem de graça, pois muitos não conseguem entrar aqui, é fato que isso acontece: quem é pobre tem que se desdobrar para pagar uma faculdade que não é das melhores – Nossa! Esse debate foi muito interessante e é fato que o Brasil precisa de mudança, é inadmissível continuar assim, é preciso mudanças. A faculdade tem que ser direito de todos. Esses primeiros dias de faculdade foram únicos, encontrei aqui o meu lugar. Vou me dedicar ao máximo aqui e espero ser o melhor, pois a muito a ser feito...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 16: Um trabalho complicado Após duas semanas de faculdade, comecei a me interessar mais do que nunca por administração, antes um sonho de criança, agora começa a virar realidade. Mas hoje vou contar uma experiência que vivi. Que todo jovem, principalmente homem, gostaria de viver: dirigi pela primeira vez. Roberto era de uma família de classe média e emprestou a mim o carro de seu pai. – Toma aí, João. Mas cuidado, ehn? Porque esse carro é de papai... – O carro de Roberto não era dos melhores, era um carro popular, mas foi uma emoção única dirigir pela primeira vez um automóvel. Depois de mais algumas aulas e muita insistência, consegui convencêlo de ir dar uma volta sozinho. – Pode deixar vou tomar cuidado, eu volto antes de anoitecer – disse isso com pouca firmeza, acho que nem Roberto acreditou muito, mas deixou-me ir. Não tinha um lugar para ir, então resolvi apenas rodar pela cidade. Passei em um botequim e comprei uma latinha de cerveja, uma só não faz diferença. O problema é que me deu vontade de beber mais umas... No total foram três. No caminho de volta entrei com uma blitz. Eu já estava meio desatento pela bebida e ainda por cima estava dirigindo em alta velocidade, afinal era a primeira vez dirigindo sozinho, tinha que aproveitar o máximo. Acelerei achando que conseguiria passar correndo por ela, mas ao fazer isso, bati com o carro no poste.

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O Diário De Um Desajustado – Mas que droga! O carro do Roberto, o que vou falar com ele agora... – por sorte, a batida não foi tão grave e eu nem me machuquei. Mas um policial que estava na blitz se aproximou de mim. – Tudo bem com você? – diz o policial, tentando abrir a porta do carro. – Sim, estou bem! Só o carro que não... – Saio meio sonso do carro, o policial notou minha embriaguez. – Você está dirigindo alcoolizado? Documentos do carro! – Fiquei apavorado tentei explicar ao policial, mas nada resolveu. – Me acompanhe à delegacia – diz o policial, me deixando sem chances de explicar. Chegando lá, vi um lugar mal cuidado e policiais rindo a toa com dinheiro na mão, já sabemos do que seria esse dinheiro todo. O delegado me disse: – Pego em blitz dirigindo alcoolizado e em um carro sem documentos. O senhor sabe das consequências desse ato? – Nada respondi, queria voltar logo para casa e sair daquela situação. – Eu podia te mandar pra “gaiola”, pra você aprender. Mas como hoje to de bom humor: vou te liberar – Poderia ter matado alguém e fui liberado, é assim que é a justiça brasileira. Mas, naquele momento, não estava nem aí, fui beneficiado e isso que é importante, dei meia volta e o delegado disse:

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Josué Viana – Thiago Echer – Espera aí, não vai sair assim não! Você vai ter que fazer trabalho comunitário por dois dias – Que droga! Ficar em meio de pobres, mas fazer o que? Melhor do que ficar preso. Em dois dias, após sair da faculdade, tive que trabalhar na ONG Olhos Carentes, era uma ONG que pedia doações por telefone para moradores de rua. Vi que havia muita corrupção naquele lugar. Era impressionante como o ser humano pode ser tão sujo, a ponto de roubar de quem não tem nada! Aquilo só me trazia indignação. Mas não estava a fim de ir contra aquilo, não sou o herói de um conto de fadas, eu só queria logo acabar com aquilo. A pobreza estava estampada naquele lugar. Não só por dinheiro e comida, mas também de carinho e amor. Aquelas pessoas necessitavam disso, ninguém olhava para eles. Eles eram invisíveis aos olhos da população. Mesmo com a corrupção, a ONG fazia sua parte, mas era só alimentação. O povo não quer só comida, quer algo a mais. O governo precisa olhar para esse povo. Em uma conversa com um morador de rua, pude constatar o problema principal de estarem lá: – É, rapaz... A vida é complicada para a gente. Eu era um banqueiro, tinha bastantes posses, mas sentia muita falta de amigos verdadeiros e de minha família – ele estava num estado deplorável, era difícil acreditar que um dia já tivesse tido uma boa vida. – Acabei me envolvendo em drogas, perdi emprego e minha casa. Hoje estou aqui, padecendo para um prato de comida...

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O Diário De Um Desajustado A maior parte dos problemas dessas pessoas eram psicológicos, que as levavam as drogas e perder tudo o que tinham. As drogas são um grande problema social. Algo é preciso ser feito pelo governo para combater. Bom, ao final desse trabalho pude constatar vários problemas sociais, como: drogas; falta de amor, carinho, interesse pelo governo; entre outros. Finalmente acabei esse estágio. Não gostei muito, mas agora estou limpo da denuncia. Pelo menos Roberto me perdoou, mas tive que ouvir um sermão dele e dos meus pais. Porém, logo compro meu carro e não precisarei mais de ninguém...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 17: Um estágio especial Depois de uns probleminhas de direção, eu voltei normalmente as minhas atividades na faculdade. Que, por sinal, a cada dia ia ficando mais interessante, porém difícil. Minha família estava com sérios problemas econômicos e fora que tenho que comprar alguns materiais para a faculdade. Também tem aquele dinheirinho que eu queria para sair socialmente com os amigos. A solução? Tinha que conseguir um emprego, mas como nem tudo é perfeito, comecei em um estágio. A minha faculdade era de manhã, tinha tempo suficiente para um estágio. Tentei por várias vezes e em várias empresas. – Boa Tarde – chego a uma loja perto de casa. A loja era uma grande empresa de comercio, uma das maiores do Brasil. Uma atende se vira a mim. E o que tinha de beleza, tinha de má educação. – Pode falar o que você quer! – a voz dela tinha um tom de nervoso, porém podia ver que ela estava muito cansada e abatida, talvez pela escala tão pesada de horários do comércio. – Eu gostaria de entregar meu currículo... – Comecei a falar. Meio tenso, nervoso e gaguejando, mas continuei. – Estou cursando a faculdade de administração, posso ajudar bastante a empresa e... – A balconista me corta quando tento terminar a minha apresentação. – Não tem nenhuma vaga pra você, passa outro dia...

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O Diário De Um Desajustado Estava ficando complicado, todas as minhas tentativas estavam sendo fracassadas, é complicado um jovem conseguir emprego nos dias de hoje. Tentei até uma vaga em um banco, resultado mais uma tentativa fracassada e pior eles queriam que eu abrisse conta no banco ainda, mesmo sem dinheiro... Já estava bastante desanimado, já passavam duas semanas à procura de um emprego, pensei que seria mais fácil. – Alô – atendi ao telefone de casa, não tinha a expectativa de ser uma empresa me convocando, mas acabei me surpreendendo. – Boa tarde, meu nome é Aline. Sou da empresa Explo Eletronics, gostaria de falar com o senhor João Roberto Silva – quase cai duro. A empresa Explo Eletronics era a líder de vendas de eletroeletrônicos, logo disse meio gaguejando: – Sou eu, em que posso ajudar? – aquela resposta poderia mudar minha vida, estava ansioso pela resposta, esses milésimos de segundos entre a minha pergunta e a resposta pareciam intermináveis. – Senhor, recebemos o seu currículo. Ele foi aprovado, começaremos o processo seletivo para o estagio semana que vem. Se o senhor se interessar em ir, pode se dirigir ao endereço da empresa e se dirija ao RH da empresa – Foi uma emoção muito grande ao receber essa notícia, equiparada com minha aprovação na faculdade. Finalmente conquistarei meu primeiro emprego. Dirigi-me ao RH da Explo Eletronics. Tudo deu certo, fui muito bem à entrevista de emprego e fui aprovado no estágio. Já estava ansioso para começar. Estava indo bem na faculdade, provavelmente daria para conciliar os dois. 76


Josué Viana – Thiago Echer Meu primeiro dia na empresa foi mais para conhecer como tudo funciona. Mas ao fazer essa já vi que vou enfrentar sérios problemas. – Olá, o senhor é o Antônio? Me mandaram aqui para você me auxiliar – Antônio era um dos funcionários mais experientes da empresa, me surpreendi com a resposta dele. – Se vira, garoto! Você acha mesmo que eu vou te ensinar algo aqui? Sei muito bem qual é o seu objetivo. Todos vocês jovens e essa empresa... Tirar os antigos para rejuvenescer a empresa, afinal a gente não presta mais – seu Antônio parecia revoltado com a idéia de renovação, que é necessária em toda a empresa. Parece que meus dias vão ser complicados nesta empresa, tentei me explicar com seu Antônio, mas nada adiantou. – Mas, senhor Antônio. Eu não queria... – Não adiantou nada, ele foi logo me cortando: – Pensa que vai ser simples trabalhar aqui? Você não terá vida fácil garoto. Se prepare, eu não vou deixar você roubar meu emprego. Tenho influências aqui e eu sou seu superior, serei bem rígido, agora vai trabalhar – O trabalho era bom, mas vou ter um chefe neurótico e complicado de se lidar. Os dias de estágio eram muito interessantes. Aprendia muito a cada dia sobre atividades administrativas. O meu serviço na empresa era uma espécie de auxiliar do auxiliar administrativo. O serviço era corrido, mas muito produtivo para mim. De pontos negativos: pode se colocar o senhor Antônio, que continuava com as perseguições contra mim, e as constantes disputas

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O Diário De Um Desajustado de outros funcionários da empresa comigo, sentia a sensação de que todos queriam me derrubar. Mas a experiência esta sendo muito boa. Com esse estágio e a faculdade, posso ganhar muita experiência para futuros empregos e uma boa carreira profissional. Porém, o que eu quero de verdade mesmo é ter meu próprio negócio, sei que um dia conseguirei...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 18: Os dois lados da moeda O ano passou muito rápido e pude ter várias experiências que jamais pensaria em ter. A faculdade já estava apertando, tinha um trabalho marcado para o final do semestre que valia grande parte da média final. O trabalho tinha diferentes temas para cada grupo, o meu grupo ficou com As Diferenças do Capitalismo e Socialismo, para apresentar a turma. Se fosse em outra época eu teria uma imensa vergonha, mas agora falar em público se tornou fácil para mim. – Turma, não se esqueçam do trabalho para semana que vem! – era difícil isso acontecer: professor de faculdade lembrando trabalho. Mas agora essas pequenas surpresas do dia a dia não tinham importância, estou ansioso para esse trabalho. Como sempre o grupo era: eu, Renato, Natália, Fátima, Roberto e Samuel. Dedicamo-nos bem ao trabalho, todos os dias e noites, o trabalho teria que ser o melhor possível. Finalmente o grande dia chegou, a apresentação do trabalho. Ele seria com um debate dinâmico com a participação de todos da classe. – O nosso trabalho é sobre As Diferenças entre o Capitalismo e Socialismo – digo e logo é a vez de Roberto. – Socialismo é um sistema político onde todos os meios de produção pertencem à coletividade, onde não existe o direito à propriedade privada e as desigualdades sociais são pequenas, pois é um sistema de transição para o comunismo. Onde não existe mais Estado, nem desigualdade social, portanto o Estado socialista deveria diminuir gradualmente até desaparecer. Logo eu complemento o que Roberto começou a dizer: 79


O Diário De Um Desajustado – O socialismo não é uma sociedade beneficente, não é um regime utópico baseado na bondade do homem com o homem. O socialismo é um regime a que se chega historicamente e que tem por base a socialização dos bens fundamentais de produção e a distribuição equitativa de todas as riquezas da sociedade, numa situação de produção social. Fátima completa sobre o socialismo: – A idéia socialista é boa, porém muito imaginaria. É muito difícil uma sociedade socialista funcionar por causa seus problemas de corrupção e falta de liberdade de expressão. Natália começa o assunto sobre o capitalismo: – Capitalismo, por sua vez, é definido como um sistema econômico ou sócio-econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, no lucro, nas decisões quanto ao investimento de capital feitas pela iniciativa privada, distribuição e preços dos bens, serviços e mão-de-obra afetados pelas forças da oferta e da procura. Samuel continua sobre o capitalismo: – O capitalismo pode ser definido em si como consumo elevado de produtos, tanto alimentícios quanto materiais. O capitalismo visa o lucro acima de tudo, uma das suas principais frentes é a globalização. Mas o seu grande problema é desigualdade social. Renato termina, concluindo: – Este tema é de bastante debate: socialismo X capitalismo, mas na verdade nenhum dos dois é completamente perfeito e completamente

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Josué Viana – Thiago Echer péssimo. Existem grandes diferenças entre eles. O ideal seria juntar as duas formas de governo. O nosso trabalho foi um dos melhores da sala, ganhamos a nota máxima. Mas as surpresas estavam só começando, na verdade, as boas já tinham terminado. No caminho de casa, passei mal e fui parar no hospital. Chegando lá, demorei quase 3 horas para ser atendido. Eu vi filas intermináveis, pessoas que eram para estar internadas em uma sala especial, estavam em macas no corredor. Falta de condições mínimas para as pessoas, afinal tudo muito ruim. Uma péssima infra-estrutura tanto de atendimento, com a falta de médicos, quanto as condições estruturais do hospital (falta de leitos, de salas para atendimentos e etc.) Quando finalmente fui atendido, recebi uma noticia complicada. – Garoto, constatamos o seu caso e você esta com hepatite B. É uma doença inflamatória e infecciosa que acomete o fígado, transmitida por vírus, altamente contagiosa. Em geral, a doença permanece ativa por até seis meses. Se persistir depois desse período, a doença torna-se crônica – o médico parecia cansado, talvez pela alta jornada de trabalho. – O tratamento para hepatite B aguda consiste em repouso, hidratação, uma alimentação equilibrada, mas para diminuir o desconforto causado pelos enjôos e as dores musculares pode-se tomar medicamentos analgésicos e anti-eméticos, não sendo necessário tomar nenhum medicamento específico contra o vírus da hepatite B. Já estava em estado de choque. O Médico ainda continua:

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O Diário De Um Desajustado – Garoto, você deu sorte. Não se esqueça de se preservar ao fazer sexo: use sempre camisinha. Mas, acima de tudo, evite relações sexuais com muitas pessoas, pois você poderia contrair uma hepatite crônica ou pior: contrair HIV. Mantive a doença em segredo para os meus pais, eles praticamente já tinham esquecido o que fiz nas férias. Falar da minha doença só os faria brigarem comigo de novo e deixá-los-ia preocupados. Fica a dica para mim, não ter mais relações sem camisinha e, aliás, evitar o sexo desregrado. Tudo poderia ter sido evitado, agora é se tratar e tentar superar esses problemas...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 19: Não dá! Falta apenas três meses para o final do primeiro semestre do meu curso de administração, a coisa começa a ficar mais difícil. Enquanto isso, em meu estagio, tudo anda muito mal, é muita gente se aproveitando de mim porque sou novo, muitas competições e intrigas. Isso tudo me deixa muito estressado, além disso, preciso muito me dedicar à faculdade, as aulas estão ficando cada dia mais chatas. – A contabilidade pode ser dividida em contabilidade financeira e empresarial. A contabilidade financeira compreende todas as operações de pagamentos entre... – as aulas em certo ponto ficam muito entediantes. E olhe só! Ainda tem brincadeiras bobas, mesmo na faculdade: – Professora, o Luis me jogou uma bolinha! – inacreditável, parece que estou no primário! Tava ficando complicado. Escolhi a faculdade certa, mas conciliar com o estágio não dá! O estágio estava ficando quase insuportável em minha vida, tinha que dá um jeito de sair logo. – Senhor João Roberto, o que deseja? – estava no gabinete do meu chefe, estava decidido. – Senhor, não poderei mais continuar no estágio! – o homem não parecia surpreso com a minha decisão. – Está certo disso, senhor João? – Sim. O homem me deu um formulário e assinei, era minha carta de euforria. 83


O Diário De Um Desajustado A situação lá em casa estava bem melhor, não precisava trabalhar, era só me dedicar à faculdade. O final do ano estava chegando. E nas férias os meus amigos de faculdade organizaram uma viagem para um sítio num final de semana, uma festa regrada a bebidas e muitas drogas. Não queria ir, pois era meu ponto fraco. Mas não tive escolha, os meus amigos me obrigaram a ir. Tive que me segurar. E algo lá, nesse final de semana, seria inesperado: – Ei, João! – uma voz bem familiar me chama, quando olho, vejo Adolfo e Eliel. Saio andando sem quere olhar para eles, minha vida ficou muito desestabilizada perto deles. – João, espera a gente. Ainda está nervoso por aquilo? – me segurei para não me exaltar com Adolfo e ele continuou. – Perdão, João! Eu agi errado com você, mas aquilo foi necessário para você acordar... – Abri meus olhos para as verdadeiras amizades! – interrompi Adolfo, já estava com a voz alterada. Ficamos ali discutindo por bastante tempo, acabei perdoando ele, por pressão psicológica do cujo. Passamos aquele dia trocando experiências de faculdade, aquela velha amizade aos poucos ia voltando: – Eu estou gostando bastante do curso de advocacia, as aulas são boas e já fiz alguns estágios – disse Adolfo. 84


Josué Viana – Thiago Echer E Eliel interrompe com um ar esnobe: – Eu sou o primeiro aluno da minha faculdade, durante o primeiro semestre fiz alguns estágios, mas no segundo resolvi, junto com meu pai, abrir meu próprio negócio. Meio com inveja e nervoso do que Eliel disse, eu perguntei: – Negócio de quê? – Uma loja de informática. Vou buscar uma bebida, já volto – fiquei com muita inveja de Eliel que Adolfo até notou. – Liga não, João. Logo abriremos também a nossa... Aquele final de semana foi importante. Voltei a uma antiga amizade e uma antiga rivalidade, foi importante. Eu e Adolfo combinamos manter contato para conversar sobre a idéia de começar nosso próprio negocio. Agora é curtir minhas férias e só voltar a me preocupar com a vida o ano que vem. Muita coisa esta por vir...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 20: Fraternidade Sempre tive uma relação muito boa com meus irmãos. Mas desde a faculdade, estamos mais distantes, não é que estamos brigados, pelo contrário, exceto Fábio, eu nunca sequer fiquei sem conversar com nenhum deles. Mas o problema é o pouco tempo que tenho para estar com eles. Meu irmão mais velho, Gabriel, não mora mais em casa. Ele trabalha e paga aluguel em um lugar um pouco distante daqui, mas nem tanto. Eu e Gabriel estávamos conversando por telefone e resolvemos dar um basta nessa situação: – João, é complicado. Quer dizer, estamos muito distantes uns dos outros, temos que nos unir mais... – Depois de uns longos papos Gabriel toca no assunto, eu também pensava muito sobre isso, é complicado ficar tão distantes assim um do outro. – Verdade, Gabriel. Desde pequenos fomos unidos e isso não irá mudar tão cedo... – Então, que tal marcarmos um dia para nos encontrar? Apenas os três irmãos. – Parece perfeito! – respondi. Marcamos de sair para uma pizzaria no final de semana. Mas, primeiro, era necessário curar as magoas com Fábio. Coisa boba da época escolar e que nos tornou muito mais distantes um do outro. Tinha um canto de casa que Fábio sempre ficava pensativo, lendo, estudando e escrevendo. Ele estava fazendo faculdade de psicologia. Cheguei perto de Fábio e logo disse com muita empolgação: 86


Josué Viana – Thiago Echer – Fábio, como vai você? – Fábio me olha com uma cara de surpresa, quanto tempo eu não falava com meu irmão, tudo por causa de coisas bobas mal esclarecidas. – Eu estou bem, irmão. E você? Como vai a faculdade? – em um ano, essa foi a única vez que meu irmão pergunta sobre a faculdade. – Vai indo bem, irmão. Tenho certeza que fiz uma boa escolha – digo entusiasmando. Não espero Fábio falar e vou logo dizendo: – Irmão, eu preciso pedir desculpas por tudo que te fiz. Sei que é difícil, não é? Mas precisamos superar tudo isso, já não aguento mais essa nossa frieza. Irmãos devem estar juntos – finalmente consegui tomar uma decisão e voltar a amizade com meu irmão, a reação dele foi inesperada para mim: – Tudo bem, irmão. Eu te amo – esta aí, palavras que há muito tempo não ouvia alguém dizer para mim: “eu te amo”. Mas dessa vez foi mágico, com um abraço, ficamos ali por bastante tempo. Não pude conter a emoção e percebi que Fábio também não. Aos poucos fui conhecendo mais as qualidades do Fábio: um cara inteligente, um leitor nato, escritor. Ele tinha muitos talentos e dons, fiquei admirado com meu irmão. Falei de ir à pizzaria no final de semana e ele concordou, A próxima a ser convidada é minha irmã Jéssica. Ela já é quase adolescente, tem 11 anos. Fiquei admirando com ela brincando com as amigas, por um instante lembrei-me de minha infância, que coisa mágica. 87


O Diário De Um Desajustado – Dezoito, dezenove, vinte. Lá vou eu... – pique-esconde, uma das minhas brincadeiras favoritas. Claro, antes do futebol, nada se comparava. Senti uma paz enorme ao lembrar isso. Tomado por um impulso, entrei nas brincadeiras das meninas: – Ei! Do que vocês estão brincando? – Jéssica fica surpresa e ela e suas amigas quase em um coro falam: – Estamos brincando de pique-esconde! – nossa! Que brincadeira boa. Coisas que não podem faltar na infância: a inocência e a felicidade. Definitivamente fui tomado pela aquela energia. – Posso brincar também? – A resposta é imediata: – Pode. É tão bom voltar a ser criança, queria que a vida voltasse aos 11 anos. Invejo muito quem tem essa idade, tem mais é que aproveitar e ser criança. Aos poucos fui conversando com minha irmã, foi brincando com ela que vi a menina doce e pura, porém decidida que era. Ela tinha uma personalidade diferente de Fábio, era bem parecida com Gabriel. Tenho certeza que ela vai longe. No final da brincadeira, falei com ela sobre sairmos pra uma pizzaria. Ela, claro, adorou a ideia. Nunca pedi conselhos ao Gabriel, mas como estava meio perdido com o que faria com o meu tempo livre. Resolvi conversar com ele. O aguardado dia dos irmãos se encontrarem tinha chegado:

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Josué Viana – Thiago Echer – Mas fala mais de você Gabriel, como é esse seu trabalho? – não sabia muito sobre o trabalho dele, apenas que era mecânico. – Estou trabalhando numa oficina, como mecânico, perto da minha casa. Estou ganhando o suficiente para conseguir me sustentar. Mas a oficina está passando por alguns problemas financeiros, talvez seja uma má administração. Pior, ela pode ir à falência se continuar do jeito que esta... Mas sei que as coisas vão melhorar! – sempre admirei Gabriel, ele sempre se mantém otimista e de cabeça erguida. – Gabriel, eu estou meio perdido, quero fazer algo, não gosto de ficar parado. Quero fazer algo além da faculdade... – Gabriel colocou a mão em meus ombros e disse: –Espera! Eu tenho uma proposta pra você – conversamos ainda bastante. Gabriel não quis dizer sobre o que era a proposta, apenas disse que poderia matar dois coelhos com uma cajadada só. Confesso que fiquei muito ansioso. Gabriel se tornou um homem decidido, já era noivo e dividia o aluguel de uma casa com a noiva. Além disso, ele é um cara muito bondoso e gente boa. Isso tudo me fez refletir: minha família é boa demais! Será que eu mereço isso? Sim, ressoou uma resposta em mim. Perdi bastante tempo longe dos meus irmãos, finalmente conseguimos estreitar nossos laços de amizade. – Passa o catchup, João – gritou Jéssica. Enquanto Fábio faz uma piada no mínimo estranha:

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O Diário De Um Desajustado – O elefante pede pra formiga sair da piscina,quando ela sai, ele diz: ainda bem que você não esta com a minha sunga. Silêncio na pizzaria... Depois todos riram da cara de decepção do Fábio. Que dia excelente, foi muito bom estar com meus irmãos. Já estávamos saindo da pizzaria e nos despedindo, quando Gabriel fala: – Amanhã vai lá no meu serviço, quero te fazer uma proposta...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 21: Novos rumos Eram 08h00min, meus irmãos ainda estavam dormindo, ponto positivo das férias. Mas eu já tinha acordado e já saía de casa. Para onde? Para o lugar onde meu irmão trabalha, é claro. Eu já tinha ido na casa dele uma vez, então não foi difícil de chegar lá, o problema foi encontrar a oficina onde ele trabalhava. Porém, como o velho ditado diz, “quem tem boca vai a Roma”. O lugar onde Gabriel trabalhava parecia uma oficina comum, nem muito grande, nem muito pequena. Ele me viu antes que eu pudesse colocar os pés dentro da oficina. Ele falou com um homem gordo e sujo de graxa e veio até mim. – Aqui é melhor para conversar, longe dos nossos irmãos, por enquanto eles não podem saber nada... – já estava quase em ebulição de tanta curiosidade, Gabriel é um mestre em fazer “rodeios”. – Diga logo, Gabriel! Você enrola muito! – Gabriel em meio a uma risada tosca me perguntou: – Você cursa administração, não é? – mais uma vez enrolando. A resposta foi rápida e com muita ansiedade minha: – Sim, sim. – Gabriel olhou em meus olhos e começo a falar: – João, embora eu esteja bem aqui no meu serviço, meu sonho era ter minha própria oficina, sei que é meio utópico, mas é o que eu penso o que você acha? – Refleti sobre o que me disse. E, por fim, falei: – É... De primeira vai ser um pouco complicado, pois existem muitas concorrentes, mas você entende bastante do oficio poderia ser uma 91


O Diário De Um Desajustado boa alternativa – Gabriel colocou os dedos no queixo a modo de pensar sobre o assunto. – Um dos problemas é que eu não curto muito a parte administrativa, gosto mais da parte de consertar os carros e tudo mais sobre esses assuntos. Estou com essa idéia há bastante tempo, logo pensei em você, que faz faculdade de administração... – Pensei um pouco no que falar e disse: – É uma boa proposta, mas seria em longo prazo teria que ter um bom investimento em caixa – falei com pouca expectativa, não botei muita fé, mas é bom saber que Gabriel é decidido, e que se ele sonha, ele corre atrás. – Sim, eu conheço bastante sobre o investimento, sei bem o quanto preciso e o que preciso, preciso de você como meu sócio para me ajudar. João, aceita ou não a minha proposta? – acabei me contagiando com a empolgação de Gabriel e disse: – É claro, é o meu sonho ter minha própria empresa, no caso em sociedade com você, quanto tempo você acha que pode levar? – Gabriel mais uma vez refletiu e me disse: – Talvez um ano e meio ou dois anos. É até ter uma boa experiência aqui na oficina e dinheiro em caixa. – Sim, sim. Entendo... – Gabriel olhou para mim e me disse outra coisa: – Mas não é só isso, espera um pouco, João – Gabriel grita o nome “Leo”, o mesmo homem de antes olha, Gabriel dá um aceno e homem vem até nós. Parecia ter um homem de meia idade, com um rosto meio cansado, porém um homem de muita simpatia: 92


Josué Viana – Thiago Echer – Então esse é o famoso João Roberto de que Gabriel tanto fala! – em meio a um sorriso contagiante ele continua. – Prazer, eu sou Leônidas, dono desta oficina – O homem apertou minha mão e eu disse a ele: – Prazer em te conhecer também – O homem dá outro sorriso e diz: – Você já fez estágio em alguma empresa como assistente de administração, certo? – Eu respondo positivamente com a cabeça e o homem continua: – A minha oficina está precisando de alguém para administrá-la financeiramente e, como o seu irmão falou muito bem de você, pensei em te oferecer este emprego. Que tal? Você se interessaria em trabalhar conosco? – Eu aceitei a proposta do homem, afinal uni o útil ao agradável: trabalhar perto do meu irmão para madurecer a idéia sobre o projeto e, além disso, uma grande experiência para o meu currículo, já seria a segunda, teria um currículo excelente para começo de careira. – Muito bom. Você pode começar a partir do próximo mês – disse Leônidas. Mais uma experiência para o meu currículo, a minha vida profissional tende a muito acrescentar com esse emprego. Eu posso até ver a influencia do meu irmão na oficina, sem nem pedir referencias já fui chamado, meu irmão é um homem de fibra e importante. Logo começa uma batalha, a faculdade e o estágio, mais uma página em minha vida. Outros dias melhores virão...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 22: Transformações Estava tudo indo muito bem aqui, mas a nostalgia de um velho conhecido da infância por muitas vezes assombra: Vila dos Vales, bairro pequeno de Minas Gerais. Eu precisava ir lá mais uma vez, sentia bastante saudade dos meus avôs: Francisco e Teresa. Já eram dois anos longe deles! Sempre esteve nos planos ir lá visitar, mas nunca tivemos coragem de tirar do papel. Precisou, infelizmente, uma notícia desagradável para isso acontecer. – Mãe! – gritou Jéssica, mamãe vem correndo atender ao telefone. – Quem é? – pergunta mamãe, meio nervosa, estava lavando a louça. – É a Vovó, mamãe! – responde Jéssica. Mamãe logo fica muda, sua expressão de nervoso muda para felicidade, “Quem bom minha mãe me ligando adoro conversar com ela” provavelmente pensou mamãe. – Alô?! – mamãe muda o tom de voz quando ouve o que vovó diz a ela. – O que? Não acredito, não é possível. Meu deus! Por quê?! Pela reação de minha mãe, já dava para imaginar que algo de muito ruim aconteceu. Mamãe deixa o telefone cair, senta no sofá e começa a chorar. Fiquei estático, poucas vezes vi minha mãe chorar. Enquanto meus irmãos e meu pai a consolam, eu perguntei: – O que ouve Mãe? – Minha mãe enxuga as lágrimas. – Seu avô faleceu, ele teve uma parada cardíaca e não resistiu...

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Josué Viana – Thiago Echer – Precisamos ir agora para Vila dos Vales, o enterro dele vai ter que ser logo, precisamos ir o mais rápido possível – diz mamãe já se controlando um pouco. Ajeitamos as malas para ficarmos duas semanas, o tempo de estar um pouco com a vovó. Gabriel cuidou da passagem do ônibus no mesmo dia em que recebemos a noticia, ele pediu despensa do serviço, que lhe foi concedida. Ao total foi quase um dia de viajem para chegar a Belo Horizonte e de lá pegamos um carro com o tio Zé Luis para Vila dos Vales. Quando chegamos, todos ficaram impressionados, em apenas dois anos Villa dos Vales mudou completamente. Antes um lugar pacato, agora se tornou uma cidade infernal: cheia de lojas e fábricas, construções, barulhos para todos os lados. Era um exemplo de cidade mal planejada, o desenvolvimento caiu como uma bomba, se não estivéssemos com o tio Zé Luis não acharíamos onde era a casa da vovó. Ao chegar, pelo menos, a casa de vovó não tinha mudado. Mas, mesmo a casa estando igual ao que posso recordar, era diferente... Agora tinha um ar carregado de melancolia. Vovó estava sentada na cadeira de balanço na varanda, olhando o horizonte, deveria estar pensando no meu avô... – Mamãe! – Minha mãe corre ao encontro de vovó, era difícil ver as duas tão tristes. Principalmente vovó, que bombardeia mamãe de críticas. – Só agora que vocês vêm me visitar? Na hora da desgraça – Todos fizeram o máximo para dar apoio à vovó, mas estava complicado.

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O Diário De Um Desajustado Vovó ficou praticamente insuportável e, infelizmente, tinha seus motivos. No enterro de vovô, foi doloroso ver, é doloroso recordar e é, indiscutivelmente, difícil escrever. Ver aquele homem tão forte e tão sábio ali deitado era algo insuportável. Pude agora me colocar no lugar de minha avó, como uma idosa poderia aguentar tamanha dor de ver o maior amor da sua vida ali, desfalecido em um caixote? Era de mais para aquela mulher. Aproveitamos pouco da estadia em Vila dos Vales, a maior parte do tempo era consolar a vovó, que também estava tendo alucinações à noite. O estado de vovó se tornava preocupante. Tudo que já tinha vivido naquele lugar parecia ter morrido... As coisas estavam tão diferentes, não sabia dos meus melhores amigos, talvez tivessem se mudado de lá como fiz. Era tão triste ver que o lugar onde passei a minha infância existia apenas nas minhas lembranças. Pude ver que agora o meu lugar é no Rio de Janeiro e não mais em Vila dos Vales. Nada mais poderia alegrar aquela casa. Nem mesmo o bom emprego de Gabriel, ou então a minha faculdade. Algo nos puxava para baixo, algo nos deixava ao relento. Após as duas semanas passadas, mamãe toma uma decisão sensata, porém dolorosa: ela ficaria em Villa dos Vales, por tempo indeterminado: – Filhos, fiquem bem. Logo mamãe volta para casa – Mamãe com rosto triste e vovó ali com o rosto melancólico do que sobraram só as lembranças.

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Josué Viana – Thiago Echer Uma pena ter visitado Vila dos Vales em tamanhas circunstâncias. A perda é difícil, complicada e dolorosa. Mas é preciso superá-las, a vida é assim, agora é seguir em frente...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 23: Um romance até o fim da vida Já se passaram duas semanas que meu querido avô morreu, é sempre complicado vencer essa saudade, mas é preciso superar, a vida continua... E, durante o tempo que passou, a situação só piorou. Minha avó não melhorava. Do contrário, só piorava... Todos estavam achando que ela ficara louca, talvez tivessem razão. Minha mãe teve que tomar uma decisão drástica: internar minha avó em uma clinica aqui perto de casa. Finalmente ela voltou aqui para casa: A campainha toca. – Mãe! – gritou Jéssica ao abrir a porta e encontrar com nossa mãe, logo todos também foram cumprimentá-la e abraçá-la. – Filhos, tudo bem com vocês? – disse minha mãe com um ar meio triste, suas feições também estavam bastantes negativas. – É... Vamos levando, tentando superar a perda do meu avô – disse Fábio, nesse momento todos na sala ficam quietos, fica tudo meio melancólico, minha mãe corta o silencio dizendo: – Joaquim, não vai vir aqui falar comigo? – meu pai estava calado em um canto, mas se levantou e deu um beijo nela. – Demorou. Senti sua falta... – disse meu pai. Aquele dia foi meio complicado, minha avó internada em uma clinica... Sabia, lá no fundo, que ela não estava com problemas psicológicos, apenas era mal compreendida...

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Josué Viana – Thiago Echer À noite, quando estava a ler alguns livros, me deparei com uma carta. No começo não lembrava o que era, mas depois me lembrei de algo que aconteceu em Vila dos Vales: Hora do flashback! – João, tu és a única pessoa que me escuta, todos aqui pensam que estou ficando louca – disse minha avó com uma voz meio perdida no ar. – Sim, eu te entendo. Sei que muitas pessoas acham que você esta fora do normal, mas eu acho totalmente ao contrário – digo com firmeza. – João, fique com essa carta, é algo muito especial... E lá estava eu, com aquela carta nas mãos, a abri e vi que era uma carta de amor, um romance a moda antiga, onde os personagens eram meu avô e minha avó. Vila dos Vales - MG, 23 de Maio de 1976. Uma moça inocente morava um bairro pacato do Rio de Janeiro. Um dos seus maiores prazeres era escutar sua canção favorita nas rádios: Asa branca, de Luis Gonzaga. Um grande sucesso nacional escutado em vários lugares e por muitas pessoas. Inclusive um rapaz sonhador, fazendeiro morador de um bairro pequeno de Minas Gerais: Vila dos Vales, aquele rapaz queria algo melhor para sua vida. Era esperto e podia se ver que iria longe, se assim quisesse. Um dos seus grandes prazeres era, também, escutar Asa Branca nas rádios. Naquela mesma rádio, onde o ouvinte escuta e pedia suas músicas, um programa de muito sucesso unia corações de todo o Brasil. Certo dia, duas pessoas ligaram para esta tal rádio, justamente o rapaz 99


O Diário De Um Desajustado sonhador e a bela moça inocente, desajeitados sem saber muito que dizer, conversaram sobre suas vidas até terminar o programa da rádio. Logo começaram a se comunicar por cartas, à medida que as cartas eram trocadas, cada vez aumentava mais o amor, até que o rapaz decidiu deixar tudo e partir para o Rio de Janeiro. Pediu, com muito nervosismo, em namoro sua nova paixão. Namoraram por sete anos, casaram e foram morar em Vila dos Vales, lá tiveram os seus filhos. O rapaz sonhador trabalhava o dia inteiro e já não podia mais sonhar, agora com filhos e mulher para cuidar, na verdade, o seu sonho acabara de se realizar. E terminou com um poema a carta escrita com a letra do meu avô. Linda história, contada em poucas linhas. Pude entender a falta que meu avô esta fazendo para minha avó, além de uma grande história de amor, ele era uma grande pessoa. Depois desta carta fui dormir tranquilamente, sonhei com meu avô. Mas tive pouco tempo de tranquilidade, pois minha vida parece que vai ficar insuportável. Logo pela manhã meus pais estavam discutindo, minha mãe queria trazer minha avó para casa. – Você sai daqui de casa, deixa todo mundo abandonado pra cuidar daquela velha doida e agora quer trazer ela pra cá? – disse meu pai visivelmente alterado, não gritando, mas estava com uma voz imponente, minha mãe disse: – Essa casa também é minha, por isso vou trazer mamãe para minha casa! – Meu pai bate a porta e sai de casa...

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Josué Viana – Thiago Echer Era o começo de um grande conflito e as coisas ainda ficam piores. Todos em casa achavam minha avó impotente, como se os idosos já não tivessem mais utilidade. Meus pais praticamente todos os dias discutiam, estava ficando complicada a situação em casa...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 24: Fábio Eu sei que não costumo falar muito dos meus irmãos, talvez eu seja meio individualista. Mas o que está acontecendo merece ser dito, pois minha família parece que está desmoronando aos poucos... E é triste ver isto. – João, você já escondeu um sentimento dentro de ti e que gostaria muito de dizer para todos? – pergunta o meu irmão Fábio. Estávamos sozinhos vendo TV na sala. – Não que eu me lembre... – não tinha entendido o que ele queria. – Por quê? – Você acha que, se tivesse um segredo, deveria contar para os outros? – Você que é o aprendiz de psicólogo aqui... Mas, se o segredo estivesse-me incomodando, eu diria. – Obrigado... Então ele foi pro quarto dele sem dizer mais nenhuma palavra. Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, mas algo me dizia que logo saberia. E soube, no jantar daquela noite. Estávamos jantando: eu, Jéssica, Fábio, nossa mãe e nosso pai; quando Fábio se pronunciou. – Eu gostaria de aproveitar a oportunidade de todos estarem juntos para dizer algo – disse Fábio com um tom sério. – Tem muito tempo que gostaria de falar isto, porém... Não encontrava palavras. – Então fale, meu filho – disse nossa mãe, já preocupada. 102


Josué Viana – Thiago Echer – Eu... Eu sou gay – Por alguns segundos, tudo ficou silencioso, até o barulho dos talheres cessaram, apenas ouvíamos o barulho de cidade lá fora, como se fosse um mundo distante do qual estávamos agora. Mas o silencio não dourou muito. – Impossível, não tenho um filho gay – respondeu nosso pai. – Joaquim... – minha mãe tentou repreender meu pai, mas estava perplexa demais. – É isto mesmo, não vou criar um veado. Ou você toma jeito, moleque. Ou te expulso de casa! – disse meu pai apontando para o Fábio. Mas agora era vez da minha mãe falar: – Não vai expulsa-lo coisa nenhuma. A casa também é minha e o filho também é meu. Não vou deixar você expulsar mais um de nossos filhos! – Não tire minha autoridade, Maria – Nisso o Fábio saiu correndo para o quarto dele. Mas a discussão dos meus pais continuou, mesmo depois daquele jantar, mesmo depois daquela noite, mesmo depois daquela semana, os meus pais continuaram a brigar. Os temas das brigas normalmente eram sobre o Fábio, a vovó, arrependimento de vir para este lugar, algo banal, ou, simplesmente, por nada. E isto só nos deixava mais tristes. Era difícil ver aquilo e não poder fazer nada. Contudo, Fábio não disse mais nenhuma palavra sobre o que sentia, talvez não quisesse que nossos pais brigassem mais. Estava difícil...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 25: Problemas aumentam As discussões em casa continuam, infelizmente, meus pais não param de discutir. Além de continuarem nessas brigas, o meu irmão Fábio fica cada vez mais fechado, e ainda mais pela chegada da nossa avó. – Boa noite, meus filhos. Olha só quem vai morar conosco... – Minha mãe estava chegando em casa junto com vovó, que continuava ainda com suas faces tristes, mas parecia estar um pouco melhor. – Boa noite, meus netinhos. Como estão? Apesar de nem todos quererem minha presença aqui, eu estou muito feliz de estar perto de vocês – um dos defeitos de vovó era sua sinceridade e sua “sutileza”. Para as coisas piorarem, meu pai disse em bom tom: – Maria, eu disse que não era pra trazer esta senhora pra cá! – meu pai estava sozinho nesta briga, todos queriam a presença de vovó em casa, eu tive que intervir dizendo: – Pai, acalme-se. Vovó não fez mal para ninguém, deixe-a ficar aqui em casa... – Parece que após dizer estas palavras meu pai ficou mais irritado, se levantou do sofá e disse em alto e bom tom: – Garoto, você não pode falar nada aqui, ou esqueceu tudo o que você fez? – meu pai me fez lembrar uma época muito ruim, acabei ficando bastante contrariado e disse: – Pai, isso tudo foi superado. Agora, você que é o estorvo aqui – não medi as palavras e as consequências foram grandes. Meu pai partiu pra cima de mim e tentou me bater, por sorte, Gabriel lá estava e o separou de mim. Meu pai saiu de casa... E, naquela noite, todos ficaram calados e tristes.

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Josué Viana – Thiago Echer “Quando tudo está ruim, ainda pode ser pior”. Na manhã do dia seguinte minha mãe encontra meu pai no sofá, e para o seu desespero: – Joaquim! O que é isto na gola de sua camisa? – Meu pai se levantou rápido e disse: – Não é nada, me deixe em paz! Já basta a presença daquela senhora aqui em casa, um filho gay e outro drogado para me encher a paciência... – E começaram a discutir novamente. Até mesmo vovó, que sempre estava calada, intervém: – Vocês não vão parar mais de discutir? Terá que esperar a morte para valorizar? – e foi tudo aquilo que aconteceu, o clima ficou muito pesado, como nunca tinha visto antes. Como disse antes: “Quando tudo está ruim, ainda pode ser pior”. Depois de minha mãe ter encontrado uma marca de batom na gola de meu pai, começou a encontrar boletins no bolso da camisa de meu pai. A partir disso, minha mãe começou a investigar sobre a vida de meu pai, chegando até mesmo a segui-lo. De tanto acabar procurando, minha mãe acabou descobrindo que meu pai tinha uma relação fora do casamento com sua amiga. Foi a gota d’água para minha mãe... – Joaquim, que você é uma pessoa autoritária e rude eu já sabia, mas que é um sínico e traidor? Isto foi de mais... – disse minha mãe, que nem notou que estava na presença de todos em casa. Meu pai, ainda sem entender o que minha mãe disse (ou fingindo não entender), esbravejou: 105


O Diário De Um Desajustado – Não sei do que você esta falando, Maria. Já estou farto de tantas brigas! – Minha Mãe se virou e disse: – Simone é a sua amante! Você me decepcionou muito, Joaquim – Meu pai disse, tentando se redimir: – Maria, me desculpe. Não estava aguentando mais viver assim... – E a discussão continuou até minha mãe dizer: – Não dá mais. Ou você sai desta casa, ou saio eu! – Depois de um longo silencio meu pai disse: – Eu saio. Não fui eu que traí sua confiança?! Só Deixe-me despedir da minha filha – Deu um longo abraço em Jéssica, passou por nós com olhar de reprovação e saiu pela porta de casa, para nunca mais voltar aquela casa. Ou foi assim que desejei. Infelizmente, meus pais se separaram. Uma história que parecia ser muito bonita terminada assim. Meu pai se mostrou uma pessoa muito ruim, o meu sonho de família perfeita se desmoronou... Na verdade, a única família era os meus irmãos e minha avó, pois agora minha mãe não para mais de me perseguir, ela sempre diz que pareço muito com ele. Meu pai não mora mais com a gente e eu acho que o próximo a sair de casa sou eu...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 26: Começa um novo semestre Finalmente, volta às aulas! Pelo menos, algo para me distrair de tudo o que está acontecendo aqui em casa. Espera! Eu disse distrair? Este semestre vai ser muito mais que distração, isto eu posso te garantir. Tudo estava normal, exceto que tinha uma aluna nova na minha sala. Uma belíssima aluna, diga-se de passagem. A Natália disse que o nome dela é Ivete e isto foi a única coisa que sabia dela, até a hora do intervalo, é claro... – Oi, eu sou Roberto, João Roberto – disse, tentando imitar James Bond. – Ola – ela deu um meio sorriso, já era um bom começo. – Meu nome é Ivete. – Eu percebi que você é uma nova aluna... – Pois é, me transferi para cá após me mudar de Belo Horizonte. – BH, legal. Também já morei em Minas Gerais. – Já sinto saudades daquele friozinho de sempre. – Logo você se acostuma com o calor do Rio – Segundos de silêncio... Precisava dizer algo antes que ficasse aquele silêncio chato e a gente acabasse se despedindo. – Então, se você quiser alguma ajuda nas matérias ou um guia para conhecer melhor o Rio, é só falar comigo! – Ok, mas não pense que sou tão fácil! – Oi?

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O Diário De Um Desajustado – Você acha que eu não saquei todo esse seu teatrinho para me conquistar? – Não sabia o que responder, ela era incrível, apenas sorri. O sinal tocou e fomos juntos para a sala. O dia teria continuado ok, se não fosse por... Cara, você não vai acreditar! Quando eu estava saindo da faculdade, vem uma pessoa ao meu encontro, outro novo aluno, mas já conhecido: Eliel! – E aí? Pensei que não te acharia – disse Eliel. – O que esta fazendo aqui? – respondi. – Agora eu estudo aqui, vai ser como nos velhos tempos... Sem o Adolfo, é claro – E, logo após dizer isto, abre um sorriso. – Que ótimo – Também sorrio, mas com um pouco de sarcasmo. – Bom, eu tenho que ir. A gente se ver por aí. – Com certeza. Já deu pra perceber que as coisas estão esquentando, não é? Só quero ver no que vai dar... E, a propósito, amanhã, finalmente, começa o meu estágio. Este semestre vai ser interessante.

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 27: Começa o estágio Começa o meu segundo estágio, agora é na mecânica onde trabalha meu irmão, espero fazer boas amizades, e também ter uma boa experiência. Tomara que seja diferente do que vivi no outro estágio. O lugar não era lá grandes coisas, uma pequena mecânica, mas tinha um bom potencial. Chegando lá, vi o meu irmão trabalhando, junto com seus outros colegas consertando um carro. Quando me viu, parou e disse: – Grande João, tudo bem com você, maninho? – Afetuoso como sempre, me deu um abraço todo suado e fedendo a graxa, mas era um cara sonhador. – Fala, Gabriel. E agora, para onde que vou? – Gabriel me puxou pelos braços, e disse: – Vem, vou te mostrar! – Me levou para um pequeno escritório com algumas pessoas. Chegando, disse: – Esse é o João, será o novo funcionário da empresa – O patrão do Gabriel, um sujeito bem humorado, disse: – Poxa, Gabriel. Não me deixou fazer as honrarias da casa! Todos riram. Era um clima bem descontraído, bem diferente de meu outro estágio, onde todos queriam me derrubar. De repente, um sujeito meio estranho de óculos, e andando todo torto, disse:

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O Diário De Um Desajustado – Serei seu superior aqui na empresa, qualquer dúvida é só me consultar, que tentarei resolver para você – Apertei a mão dele, que sorriu para mim, era o mais sério de todos, mas também parecia ser uma boa pessoa. Acabou sumindo em uma sala escura no final do mini-escritório. O trabalho parecia ser muito interessante, pelo menos no primeiro dia. Ainda estava um pouco nervoso, algo normal para o primeiro dia, mas foi uma sensação bem diferente do meu primeiro emprego, aqui ninguém está tentando me derrubar, pelo menos não agora. O dia foi intenso e precisava dormir cedo, para mais um dia na faculdade, queria ver Ivete estava encantado pela aquela garota. Mas não posso dar bobeira, pois ela é muito bonita, deve ter muitos pretendentes. No outro dia, na faculdade, no intervalo, encontro Ivete, sentada sozinha, não titubeei e já parti para conversa: – Olá, Ivete. Como vai? – Com aquela pinta de galanteador, sentei ao lado dela, que estava lendo um livro, não pude ver sobre o que era. Logo ela me disse: – Olá, João. Eu vou bem, só estou um pouco perdida, é bem grande este lugar – enquanto dizia essas doces palavras, olhava por todo campus da faculdade. Para não perder o assunto, perguntei sobre o livro: – Reparei que está com um livro, qual é o nome dele? – Ela pega o livro na mão, faz uma breve pausa e diz: – Ah! Sim, o nome dele é “Em busca de algo que não se vê”, ele é de dois escritores muito famosos. Conta a história de um cientista que

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Josué Viana – Thiago Echer perde a memória... – nunca fui muito fã de livros, mas só de Ivete estar com um, comecei a me interessar. Conversa vai, conversa vem, consegui convidar Ivete para uma saída a noite, logo após o meu estágio. Por sinal, o estágio estava cada dia melhor, estava convivendo com pessoas muito interessantes e competentes, a cada dia aprendia mais sobre administração, além de dar alguns pitacos na mecânica, talvez um dia isso possa me ajudar. Enquanto estava nos conformes no estágio, também ia bem a minha paquera. Consegui ir a vários lugares com Ivete, e tínhamos uma grande afinidade, nunca me senti tão bem com uma garota como agora. Até mesmo as perseguições de minha mãe lá em casa e a raiva de tudo que meu pai fez, foram amenizadas pela doçura daquela garota...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 28: Grandes descobertas Talvez as coisas não estivessem perfeitas, mas estava bom para mim. Porém, como sempre, sou um imã para reviravoltas estonteantes. A primeira delas: Eliel está ficando popular, até mais do que eu, em pouquíssimo tempo. Mas se fosse apenas isso: Estava saindo da faculdade quando vi a Ivete, fui correndo para acompanhá-la até o ponto de ônibus, mas, tardiamente, percebi que ela estava com ninguém menos que Eliel: – Oi, João. Conhece o Eliel? – Ivete indagou. – Ah, sim. Nós já nos conhecemos – eu disse, mas me perguntava o que ele queria com ela. – Como eu ia dizendo Ivete: acho que nós dois deveríamos montar um grupo de estudos, assim poderemos nos ajudar – continuou Eliel, sem me dar atenção. Agora sabia o que queria. – É uma boa ideia... – disse Ivete e, disfarçadamente, olhou para mim e deu um meio sorriso. – Mas aonde nos reuniríamos? – Que tal na minha casa? – propôs Eliel. – É uma excelente ideia! Por que não estudamos nós três? Afinal, três cabeças pensam melhor do que uma – interrompi. Não ia deixar tão fácil pra ele. – Para mim parece ótimo, é só marcar o dia – falou Ivete, parecia que ela estava se divertindo com a disputa. – Ah, meu ônibus, tenho que ir. Tchau, rapazes.

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Josué Viana – Thiago Echer Ficamos apenas eu e Eliel no ponto de ônibus. – Eu a vi primeiro – exclamei. – Qual é? Já não gosta mais das nossas disputas como antigamente? – ironizou Eliel. Nós poderíamos ficar um bom tempo discutindo, mas não nos levaria a nada. Deixa pra lá, eu vou mostrar pra ele que sou o melhor, até mesmo em conquistar a Ivete. Na oficina, estava sem nada pra fazer. Existem alguns dias que são entediantes. Estava apenas o meu irmão e outros homens consertaram os carros que estavam lá, quando tive A Ideia: um gerador de energia a base de imãs!

Pensei se poderia ser fisicamente possível e parecia que era. Pensei como alguém nunca tivesse pensado naquilo antes, isto não sei, só sei que era uma ideia milionária. Quero só ver o que vai acontecer quando todos virem isto. Eu vou ficar rico, vou esfregar na cara do Eliel que sou o melhor, vou sair de casa, vou namorar a Ivete! Eu vou poder fazer o que bem entender.

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 29: Apresentação de algo novo Mais uma manhã raiou. Finalmente é o final de semana, tenho apenas uma palestra em minha faculdade, na qual irei mostrar a minha grande descoberta ao acaso. Antes disto ainda terei que ir à casa de Eliel, que seria um estorvo se não fosse por Ivete, pois marcamos um pequeno e curto grupo de estudos para revisar matérias em comum. A casa de Eliel não era muito longe da faculdade, então daria tempo para dar a minha palestra. Na casa do Eliel, ficamos debatendo e revisando vários assuntos em comum por algumas horas. Tudo ia bem, até que: – Eu não concordo com você, João. Não tem como aplicar este conceito que você está falando – exclama Eliel, com aquela mesma prepotência e arrogância de sempre. Reflito um pouco antes de falar, Ivete parecia estar prevendo um conflito a se seguir. Com a voz um pouco alterada, digo: – Mas é claro que dá. Estudei isto antes de vir aqui, não adianta discutir, está certo! – Incrível como as coisas sempre pioram para o meu lado, Ivete sai do silencio e concorda com Eliel, o que me deixa mais irado do que antes. – Estou certo e ponto, e vocês não sabem de nada... – continuei. Ivete me olha com reprovação, se levanta e diz: – João, você esta sendo infantil. Tem que aprender quando está errado – Eliel aproveitando se da ocasião logo me diz: – Larga de ser estúpido, João. Você não é dono do mundo! – Soco a mesa, me levanto e digo: 114


Josué Viana – Thiago Echer – Chega! Não vou mais discutir, irei demonstrar o que estou dizendo, e a propósito se quiserem assistir se encaminhem para a faculdade – Era a gota d’água. Saio da casa do Eliel sem nem me despedir. Quando cheguei à faculdade, percebi que estava adiantado. Tive tempo suficiente para revisar meus estudos e experimentos. A platéia estava começando a chegar, o público parecia bastante interessado em tal assunto. Um pouco antes de fazer a minha experiência, aparece Eliel sozinho, e depois chega Ivete para falar comigo: – João, me desculpa. Eliel é um nojento, tentou me agarrar quando você saiu de casa! – Ao dizer isso, uma motivação extra me ilumina para discursar sobre o meu experimento, para surpresa e curiosidade de Ivete, eu digo: – Tudo vai ser mudado Ivete, basta acreditar! – Ivete me dá um longo abraço, trago minha maquete e ponho perto do palco, ela me será útil para a demonstração. Após testar todos os sons e checar se tudo está em perfeito estado, ainda dou um tempo para todos se acomodarem em seus lugares. Para começo de discurso eu digo com muita motivação: – Amigos e colegas de faculdade, venho hoje mostrar para vocês algo que vai revolucionar o mundo. Cientistas do mundo inteiro buscam uma alternativa viável para a geração de energia, algo que seja limpo e eficiente. Não dá mais para poluir o nosso planeta. É a nossa vida que está em cheque, entretanto, ninguém ainda conseguiu algo que pudesse ser tão viável e potente quanto o petróleo. Mas hoje, meus 115


O Diário De Um Desajustado amigos, vocês serão os privilegiados para ver algo que vai mudar este cenário! – a introdução foi ótima. Melhorei muito minha oratória desde á época da escola, quando era muito tímido e tinha medo de falar em público. Hoje a situação é bem diferente. Mas Eliel, como sempre querendo me derrubar, se levantou e disse: – Será mesmo que isto que vai mostrar é confiável? E se for uma porcaria, vai correr como correu lá em casa, hoje? – A platéia toda caiu na gargalhada, Eliel já tinha bastante influencia na faculdade, competir com ele era difícil. Precisava mostrar algo grande e esse dia era minha grande oportunidade. Respondo olhando fixamente para Eliel: – Pode ter certeza que será algo que mudara os rumos da energia mundial – Foi uma bela resposta, continuei o meu projeto sem mais interrupções. Foi perfeito, tudo deu certo. Todos me olhavam como se fosse um gênio, um novo Einstein. Eliel não gostou nada do que viu, mas isso pouco me importa. Curti a noite em uma pizzaria com a Ivete e outros amigos...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 30: Conquista As coisas estavam bem melhores. Eu tinha virado o aluno mais influente em toda a faculdade, virei referência dos professores: “estudem e tenham empenho, que vão poder ser igual ao João Roberto.”, estava fazendo o Eliel morrer de inveja e, o melhor, estava a ponto de conquistar a Ivete. – Pode falar, eu sou demais! – estava me gabando, na saída da faculdade, junto a Ivete. – Não fique se achando tanto. Ainda nem sabe o que vai fazer com esse tal gerador de energia – era incrível estar com ela, não sei por que, mas era muito bom. – Que tal nós sairmos para comemorar? – disse a ela. – De novo? – Agora será especial, eu prometo. – Ta bem, me pega as 07h00min. – Ok. Eu podia fazer o que pretendia ali mesmo, mas eu queria fazer melhor. Ao invés de levá-la a pizzaria, como já fiz antes, optei por levá-la a um restaurante. Não era nada muito chique, afinal, eu não tinha tanta grana, mas era um lugar super romântico. Resolvi deixar a surpresa pro final, assim deixava um suspense. Quando saímos do restaurante, fomos caminhando até a praça. – Então, quando vai me dizer qual é a surpresa? – ela estava ansiosa. 117


O Diário De Um Desajustado – Não é bem uma surpresa, é mais um pedido... – estava um pouco nervoso. – talvez eu já devesse ter pedido antes ou sei lá, talvez você... – Sim, eu quero namorar com você – ela me interrompeu. – Podia ter esperado eu ter terminado! – Você estava enrolando muito, ia demorar a noite inteira desse jeito! – Então... Namorados, não é? – Sim... Ela se aproximou de mim, eu aproximei um pouco mais e... Nos beijamos. Acho que não preciso dizer que foi a melhor noite da minha vida, não é? Espere, espere. Tenho mais coisas a dizer, não que seja sobre mim e a Ivete, é sobre o Adolfo. Ele apareceu num dia em frente da faculdade, logo após a saída. Estava perguntando sobre o gerador, se era verdade. Disse que sim, ele não acreditou, tive que mostrar a ele. Ele ficou impressionado quando viu que funcionava, fez mil planos de como poderíamos usar aquilo. Mas eu não estava com cabeça pra aquilo. Só conseguia pensar na Ivete...

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 31: Proposta indecorosa Descobri pela primeira vez como é bom estar ao lado de quem gosta, na minha cabeça só se passa o nome dela, Ivete. Mas não é sobre isso que escrevo agora, queria ter escrito muito mais sobre ela... Porém as nossas vidas não se resumem apenas a vínculos amorosos... Quando cheguei à faculdade, logo me disseram que o diretor queria falar comigo o quanto antes. Bati na porta, a voz do diretor respondei com um “entre” e foi o que fiz. Me deparei com o diretor e um homem de meia idade, com aparência importante que tinha uma expressão meio soberba. – Bom dia, João Roberto – começou o diretor. – Este é Osvaldo. – Muito prazer – me disse aquele homem, num tom sério. – Sou representante das Organizações de Energias Elétricas Brasileiras, a OEEB. – Prazer, em que posso ajudá-lo? – respondi, mas já tinha uma ideia do que ele queria. Ele pediu para que falássemos a sós, o diretor saiu da sala, meio relutante. – Bom, soubemos que o senhor desenvolveu uma promissora fonte de energia renovável e limpa. Gostaria que me explicasse como ela realmente funciona – Expliquei a ele, achei que iria oferecer uma proposta de financiamento do gerador, ingenuamente, é claro. Pois a proposta foi ligeiramente diferente: 119


O Diário De Um Desajustado – Deixe-me explicar algumas coisas, criança. Existem centenas de empresas no mundo que funcionam direta e indiretamente tendo base a produção de energia, principalmente o petróleo. E boa parte da economia mundial funciona por causa delas. Agora pense: se um gerador de energia, como o seu, for criado, estas empresas aos poucos serão levadas a falência e isto fará uma crise econômica mundial... Sabe onde estou querendo chegar? – Acho que sim... – Não podemos deixar que isto aconteça. Por isso estou aqui, em nome da OEEB, quero lhe oferecer uma proposta: passar a patente do seu gerador para o meu nome. Por uma boa quantia, é claro. – E o que farão se eu aceitar? – Diremos que o gerador é falso e destruiremos todas as provas de que ele funcionava. – E se eu recusar? – Espero veementemente que você aceite... E agora? Ele estava certo sobre a crise mundial. Mas e o meio ambiente? Ele continuaria sofrendo até que acabe, tudo por ganância humana. Além do que as pessoas tinham direito de saber sobre o que eu fiz... O que faria? Estava praticamente sendo forçado a aceitar, mas uma parte de mim lutava pra não se ajoelhar perante a ganância. Qual será minha escolha?

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 32: Teatro dos vampiros Adoraria dizer que fui um revolucionário, que lutei contra a ganância, que fui o herói bonzinho... Mas nós sabemos que o mundo não funciona assim, não é? Sim, fui fraco, aceitei a proposta. – Senhor João, agora a única coisa que precisa fazer é assinar este documento e lhe darei o cheque – Osvaldo me deu um documento, no qual li rapidamente e assinei. – Muito bem, agora vá para sua aula e peço lhe encarecidamente que não diga a ninguém o que houve aqui. – Está bem – não sabia se me sentia bem ou mal. – Antes que eu me esqueça: Você, provavelmente, será expulso da faculdade por mentir. Mas, mesmo assim, deverá ficar calado – arregalei os olhos, lutei tanto para estar ali... Mas não cheguei a me importar tanto a ponto de dizer uma palavra. No dia seguinte, percebi que todos estavam me olhando com cara feia, acho que a notícia do gerador falso já se espalhara. Logo fui chamado para a diretoria: – João Roberto... Se me contassem, eu não acreditaria! Um aluno tão promissor – dizia o diretor com uma expressão triste. – Por que mentiu para todos nós? – Queria ser o aluno mais popular, queria chamar a atenção – aquele teatrinho estava me dilacerando. – Mas a que ponto? Sabe que não posso deixá-lo impune, não é? – Sei... 121


O Diário De Um Desajustado – Sinto em lhe dizer, mas está expulso desta faculdade. Sai da sala do diretor um pouco desolado. Mas não tive tempo de me lamentar, Ivete chegou num passo rápido até mim e, antes que eu pudesse esbanjar alguma ação, ela me deu um tapa. – Por que mentiu pra mim? – ela parecia tão desolada quanto eu. – Não menti. E não posso provar isto. Pode confiar em mim? – não podia falar, ela precisava confiar... – Como confiaria? – Confia em mim? – Ela me abraçou e começou a chorar baixinho. – Confio – sussurrou. – Eu posso não te conhecer a tanto tempo, ou não saber tudo sobre você, mas... Em algum lugar do meu coração, sei que você não seria tão mal. Eu a levei para um lugar mais solitário e expliquei-lhe toda a história. Por fim, mostrei o cheque. Ela se espantou, estava aborrecida por eu ter desistido do meu projeto, mas estava radiante com o fato de seu namorado ser um milionário. Não por interesse, é claro, apenas por eu ter lhe dito a verdade, eu acho. Resolvi me demitir do emprego na mecânica, não tinha mais porque estar lá. Passou-se dois dias depois da expulsão, minha mãe estava me odiando por ter jogado tamanha chance fora e eu não estava a fim de contar tudo, quanto menos souberem, melhor. Mas eu tive uma visita inesperada: Adolfo. Ele me pediu para conversarmos a sós. Então, levei-o pro meu quarto. 122


Josué Viana – Thiago Echer – João, o que aconteceu? Não me diga que o gerador é falso! Eu vi com os meus próprios olhos ele funcionar – ele parecia decidido em saber a verdade. – Eu te enganei, enganei a todos. O gerador era fajuto. – João, você pode ter feito muita besteira no passado, mas eu sei que você tinha acertado desta vez. Não tente me enganar. Ponderei sobre o que iria dizer, ele estava realmente decidido. E ele poderia ter excelentes idéias de como investir o dinheiro... Mas será que poderia confiar nele? Acho que ele não representava nenhum mal a mim, no momento. Ou era eu muito mole para levar a mentira adiante. – Veja, Adolfo – Mostrei o cheque. – Eu sabia! Seu safado, agora você está podre de rico! – Pois é, mas não deve contar ninguém. – Esta bem, minha boca é um túmulo. Mas como conseguiu este dinheiro? O que aconteceu? Expliquei tudo que aconteceu, ele ficou estupefato. Como havia pensado, ele teve mil idéias de como poderíamos investir aquele dinheiro. Tenho que confessar: mesmo depois de tudo, acho que estou feliz por ser um milionário.

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 33: À hora de acordar! Ando um pouco triste ultimamente. Nem tão triste assim, pois estou com uma conta bastante vantajosa, e ainda penso em como investir esse dinheiro, mas só isso não basta para completar o vazio que estou sentindo. Minha família já não é a mesma, estou com vontade de dar um basta nesta situação. E ainda por cima estou com uma péssima credibilidade naquela faculdade na qual fui “expulso”, acho que se não fosse por Adolfo e, principalmente, por Ivete, desistiria de tudo, como quando era adolescente. A situação lá em casa já não era boa, muito por minha mãe que vivia me perseguindo, e as coisas só pioram por ter sido expulso da faculdade (ainda não contei do dinheiro e não mostrei como funcionava o gerador, eles apenas acham que é falso). Já estava planejando em sair de casa e morar em outro lugar, mas antes precisava tomar decisões importantes no trabalho e no meu relacionamento. Porém, não tinha idéia que a situação iria acontecer tão breve como agora: – João, você está se tornando um estorvo aqui nesta casa. Não coloca dinheiro aqui e nem faz mais nada – minha mãe me acordou já reclamando. Vejam só! Tinha acabado de sair do meu emprego e daquela faculdade há apenas uma semana, só neste tempo que fiquei sem ajudar naquela casa. Antes quase todo o meu salário era gastado no sustento dessa família. E o que recebo? Apenas críticas.

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Josué Viana – Thiago Echer Já estava meio perturbado por tudo que ocorreu, e disse para minha mãe: – Já estou cansado de você, mãe. Esta perseguição esta indo longe de mais, eu não dependo mias de você. Se eu quiser sair agora, eu saio, e muito bem resolvido! – esta pareceu ser a gota d’água para minha mãe que já estava querendo um motivo para me tirar de casa. – Eu não acredito no que você disse! Não tem nenhuma consideração por sua mãe, moleque? – Isto acabou me tirando totalmente do sério e tive que intervir, dizendo: – Não quero mais saber de você, Maria! Você esta irritando a minha vida com a sua presença – Minha mãe me deu um tapa na minha cara. Isso me deixou muito enfurecido e, como nunca fiz antes, revidei o tapa. – João, seu crápula, é melhor sair daqui. Você não é mais bem vindo nessa casa! – Eu nem acredito nisso, expulso duas vezes de casa. Prometi para eu mesmo sair dali com a cabeça erguida e conquistar tudo que sempre sonhei, nunca mais voltaria aqui. Tive que sair de casa com todos me olhando com repulsa, cada vez mais me sentia para baixo. Combinei um encontro com Ivete para contar tudo para ela, Ivete esta sendo um grande apoio para mim, cada vez me convenço mais que ela é a mulher da minha vida. Também conversei com Adolfo, que se tornou também um grande amigo, ele me propôs um negócio:

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O Diário De Um Desajustado – João, lembra daquela mecânica que você trabalhava? Por que não oferece uma proposta de compra? Seu irmão e eu podemos te ajudar a começar este negócio, além do que, o dinheiro não é problema para você – Gostei bastante da proposta e logo disse: – A sua proposta é muito interessante, Adolfo. Vou conversar com o meu irmão sobre isso... Após a conversa, fui procurar um hotel perto da casa de Gabriel e logo pela manhã iria falar com ele. Quando chegou o outro dia, fui conversar com meu irmão e conseguimos desenvolver a idéia sobre o assunto, disse tudo o que aconteceu em casa, ele ficou bravo com o que fiz, mas, mesmo assim, combinamos uma parceria. – Agora que estou com muito dinheiro na conta, quero fazer um negócio, estou interessado na mecânica onde trabalhamos. Como você tem mais experiência, pensei que poderia ser meu sócio – Gabriel parecia que ainda estava se recuperando do baque de informações, mas ele estava sempre ao meu lado. – João, está difícil de assimilar tudo que me disse. Você brigando com a mãe, agora milionário, nem sei o que dizer... – Já estava sem muita paciência e fui direto: – Mas você aceita ou não, Gabriel? Diga logo, tempo é dinheiro... – Gabriel me olhou com um olhar surpreso e disse: – Aceito, João. Você sabe que isso sempre foi o meu sonho – Após esta conversa oferecemos a proposta ao dono da mecânica, que a aceitou de bom grado.

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Josué Viana – Thiago Echer O meu sonho foi realizado, minha primeira empresa, no qual sou sócio majoritário. Foi um bom negócio, porém há um grande trabalho a fazer...

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 34: Juntando os trapos Já se passou uns meses desde que comecei a trabalhar de administrador e o negócio tem ido muito bem, mesmo eu não tendo terminado a faculdade de administração, ou não tendo tanta experiência. Falando em faculdade, não pretendo voltar a estudar em outra faculdade. Primeiro: estava super chato estudar apenas a teoria e nada de prática. Segundo: não preciso estudar mais, já tenho tudo o que preciso e o que não tiver eu ganho com a experiência. Mas não, não vou ficar escrevendo sobre trabalho, estudos, ou coisas chatas do tipo. Vou falar sobre um dos melhores momentos da minha vida... Sem querer esfregar isto na cara de ninguém, mas agora que estou rico, posso ir aos melhores restaurantes do Rio com a Ivete. E foi entre tantos encontros, sorrisos, beijos e amassos, que percebi o quanto ela é especial. Eu precisava mostrar isto a ela, acho que só tinha um jeito. Resolvi levá-la naquele mesmo restaurante que a pedi em namoro, o “não muito chique, mas romântico”. Ela gostou da ideia, de voltarmos aquele lugar e ver como tudo evoluíra tão rápido. Depois do jantar, e de muitas lembranças revividas, fomos caminhar até a praça. – Primeiro: Promete que não vai me interromper? – disse a ela, relembrando o meu pedido de namoro “frustrado”, naquele mesmo lugar.

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Josué Viana – Thiago Echer – Prometo – falou, com um meio sorriso. – Não sei se é muito cedo para fazer este pedido, ou se você vai aceitar... – Desse jeito vai demorar a noite toda... – ela ironizou. – Ta, ta. Quer casar comigo? – Ela ficou muda, peguei uma caixinha no bolso e a abri. Os olhos de Ivete cintilaram quando ela viu a aliança. Continuava muda, o silêncio dela estava me matando. – Sim, sim, sim. É claro que sim, meu amor – Ela pulou em cima de mim e me encheu de beijos. Parecia realmente feliz, eu também estava. Nós marcamos a data do casamento pra bem perto, estávamos ansiosos. Tínhamos que escolher a igreja, o Buffet, os convidados, o vestido de noiva, arrumar a papelada. Ufa! Casar dá trabalho... Os convidados da minha parte foram apenas meus irmãos e minha avó, minha mãe não quis ir e eu não convidei meu pai. Da família da Ivete, foram os pais, tios, avó, primos... Ela tinha uma família grande, mas era filha única. A meu pedido, a minha antiga banda tocou no casamento. Ivete insistiu em um casamento simples, o que também era de minha vontade. Talvez desnecessário escrever, mas a Ivete estava linda... Simplesmente linda. Foi o melhor dia da minha vida. Passamos a noite de núpcias num hotel em Copacabana, para no dia seguinte irmos para a lua de mel em Fernando de Noronha. Nunca pensei que poderia ser tão feliz, parecia que poderia viver assim pra sempre. 129


O Diário De Um Desajustado Depois da lua de meu, comprei uma casa em Copacabana para eu e Ivete morarmos. Nós não queríamos uma mansão ou coisa do tipo, mas ainda era um imóvel muito luxuoso. Estava rico, com a mulher da minha vida e prestes a formar uma família. O que eu mais poderia querer? Penso que, depois de tantas dificuldades, cheguei ao paraíso antes mesmo de morrer. Não poderia querer nada mais! Ou será que poderia?

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 35: Vingança Às vezes, a vida não é justa. Às vezes, as pessoas que são ruins a vida toda não pagam o preço no final. Às vezes, tudo fica por isso mesmo. Um exemplo? Vanderlei. Caso não se lembre, Vanderlei foi a pessoa que mais me chateou no 2° ano do Ensino Médio. Ele nunca foi um bom aluno, nem um bom filho, uma péssima pessoa. E o que o destino reservou para ele? Virou um boxeador famoso. Injustiça. Mas administração nunca foi seu forte, estava indo mal com seu atual empresário. Precisava de um novo, que foi até ele, na academia que treinava: – Boa tarde, meu nome é Willian, sou um empresário renomado no esporte. Gostaria de falar com o senhor Vanderlei... – Vanderlei parou de socar o saco de areia e foi até o empresário. – Sou eu, Vanderlei, o que deseja? – Gostaria de lhe oferecer os meus serviços de empresário, soube que estava precisando... – Mas onde descobriu que eu precisava de um empresário? Estou descontente com o meu, mas não tinha anunciado isso ainda... – O empresário deu um tímido sorriso e disse, descontraidamente: – Os empresários têm muitos contatos, senhor Vanderlei... – Vanderlei ainda estava um pouco desconfiado daquele empresário, mas depois de muita conversa e sua ótima proposta, ele resolveu aceitar.

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O Diário De Um Desajustado Com ele como empresário, a careira de Vanderlei impulsionou, teve muitas vitórias, sua fama ficou muito grande, a nível mundial. Estava para competir pelo cinturão de Cruzador. Chegada à hora da luta. O lutador rival tinha uma energia muito boa e seu poder físico era invejável. Começada a luta. Vanderlei resolveu ficar mais na defensiva, a torcida ia à loucura em cada desvio que ele dava, enquanto seu adversário se fatigava a cada golpe fracassado. Na última rodada da luta, Vanderlei resolveu parti ao contra ataque, seu adversário estava acabado depois de tanto tentar golpeá-lo em vão. Depois de três golpes certeiros em sua face, ele cai duro no chão, nocaute. Foi uma excelente vitória de Vanderlei e a galera foi toda a loucura de tanta empolgação. Tenho que admitir, ele era bom. Como é de praxe, ele foi fazer o teste de doping, estava relaxado quanto a isso. Não tinha o que temer. Dias depois: – Você foi pego no exame antidoping, Vanderlei – palavras ditas pelo seu empresário, que disse isso tranquilamente. Vanderlei, por impulso, acertou um soco na cara do empresário. – Seu canalha, foi você que armou isso para mim, não foi? – O empresário se recompôs e disse: – Quer saber a verdade? Foi sim. Eu coloquei uma substância chamada nandrolona na sua bebida, um anabolizante. Prepare-se para varrer o chão no futuro...

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Josué Viana – Thiago Echer – Por que fez isso? Se eu for banido do esporte, você também vai se dar mal... – Ele me disse para falar o seguinte: “este é um presente de um velho amigo caipira”. Foi um golpe fatal para a carreira de Vanderlei. Ele gastava tudo o que ganhava, a ponto de não ter dinheiro para um bom advogado. Resultado? Foi expulso do esporte para sempre. Como nunca teve paciência para os estudos, não tinha nenhum curso técnico ou faculdade. O único emprego que conseguiu foi ser faxineiro no antigo colégio que estudou. À vezes, nós temos que fazer justiça com as próprias mãos.

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 36: Noivos? Sabe de quem mais eu tive notícias um dia desses? André e Julia. Quem diria, eles ficaram juntos e já tinham até marcado a data do casamento. Se você soubesse o quanto de infelicidade que os dois já me deram... Porém isto é passado, faz tanto tempo que nem devem mais se lembrar do que fizeram a mim... Mas eu lembro. Uma noite comum, terça-feira, André estava fazendo exercício na academia, quando conhece uma linda mulher: – Nossa! Você é bom nisso... – ela diz, descontraidamente, referindose ao exercício. – Pois é... É que eu já estou acostumado – diz André, até aí nada demais, ele era popular entre as garotas, mas sabia o limite e nunca iria trair a Julia. – Pode me ajudar? Eu acho que não estou fazendo direito... – Claro que ajudo. – Eu sou a Vitória... – Prazer, André. Ele a ajudou e com isso iniciou-se uma bela amizade. Tanto é que, parte da volta para casa, eles foram juntos. Na despedida, eles deram um rápido abraço, coisa normal, porém deu tempo o suficiente para Vitória colocar um bilhete na jaqueta do André, que nem notou isso, você sabe, homens são meio tapados para esse tipo de coisa.

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Josué Viana – Thiago Echer Por acaso, Julia, quando foi lavar a roupa, no outro dia, achou o bendito bilhete. Sabe o que estava escrito? Mais ou menos isto: Foi ótimo o nosso último encontro, Amor. Queria que pudéssemos ter mais tempo juntos... Mas eu sei que você não quer que sua noiva saiba... Eu entendo. Me encontra neste sábado, enfrente o Shopping da praça, as 08h:00min. Te amo. Beijos quentes da sua Vitória. Desconcertante, não? Julia com certeza ficou furiosa e, como havia pensado, não falou com André. Mas foi ao tal Shopping da praça, as 08h00min. Queria ver quem era esta tal de Vitória e seus beijos quentes. Ela estava lá, no local e na hora marcada, mas nenhum sinal do André ou de alguma mulher suficientemente atraente a ponto de ser mais bonita do que ela. Ao invés disto, parecia ter um homem zangado e bravo, algo que chamou a atenção de Julia a ponto de ela ir falar com ele. – Oi? Tudo bem com você? – disse Julia. – Não... Estou péssimo. Soube que a Vitória, minha namorada, estava me traindo com um cara... – Chamado André? – completou Julia, estava perplexa. – Sim, como você sabe? – Ele começou a se acalmar. – Ele é o meu noivo... Eu não acredito que isso tudo seja verdade...

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O Diário De Um Desajustado – Soube que eles iriam se encontrar aqui, agora. – Também soube... – ela parecia fragilizada. O rapaz se comoveu, não podia ver uma moça tão bela com tamanha infelicidade. – Parece que nós dois fomos passados pra traz... – disse o rapaz, bem baixinho. – Sim... – respondeu Julia. Pela primeira vez, viu que ele tinha belos olhos. – Não me leve a mal, eu, normalmente, não faria isto... Mas quer se vingar? – Julia, normalmente, não faria isto, também. Mas André merecia o troco, não é? Ela não sabia o que pensar... Deveria aceitar a proposta? Não tinha muito tempo para pensar... Então, após um momento, a resposta veio serena de seus lábios: – Quero... – seu olhar triste era mísero. Eles se beijaram. Não deveria ser algo bom, era apenas vingança. Alguém os fotografou neste momento lastimável, que se mal interpretado, poderia parecer uma das piores atitudes entre um casal. E estas fotos foram enviadas, anonimamente, para o e-mail de André. Depois disso, pouco sei. Apenas sei que André e Julia se separaram. Que pena, pareciam um belo casal. Que infortúnio foi este acaso.

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Josué Viana – Thiago Echer

Capítulo 37: Se Aceite Ultimamente só estou falando das pessoas ao meu redor, sinto muito, mas hoje nada vai ser diferente. Vou falar de uma pessoa que estava um pouco afastada de mim: o meu irmão Fábio. Desde quando houve o desentendimento lá em casa, Fábio nunca tocou no assunto de suas escolhas amorosas, ele e eu há muito tempo não conversávamos, quando um dia recebi uma notícia bem inesperada: Escutei o toque da campainha. Fui abrir a porta. – Fábio! Que surpresa... – Já fui dando um abraço nele, era animador ter alguém da minha família perto de mim, além de Gabriel. Fábio me disse: – Eu não posso mais continuar naquela casa. Papai voltou para lá e agora esta acontecendo à mesma coisa comigo que aconteceu com você – Fingi um pouco de indeciso e perguntei: – O que está acontecendo com você? – Fábio ficou sério, e me respondeu: – Estou sendo perseguido tanto por papai e mamãe... – Após ele falar isso, tentei compreende-lo com o meu exemplo: – E você não acreditava no que eu sempre dizia... Convidei meu irmão para entrar, Ivete tinha saído, estávamos a sós. – João, acho que você já sabe por que estou aqui, não é? – Quer um lugar para ficar, certo?

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O Diário De Um Desajustado – Isso... Você pode me arrumar algum lugar pra eu ficar? Eu faço qualquer coisa para sair daquela casa – disse Fábio, meio apreensivo. –Mas é claro! Somos irmãos, devemos nos ajudar – disse para ele, com um grande sorriso. Ele sorriu para mim, também. Aluguei um flat para ele ficar, com direito a tudo que um jovem poderia querer e ainda a liberdade total, mas as condições eram ele estudar e não se meter com drogas... Mas as surpresas ainda estavam por vir, Fábio sempre nos visitava em casa. Em um dia, nessas visitas, nos revelou uma notícia: – João, eu acho que tomei uma decisão importante – disse Fábio, olhando fixamente para mim. Continuei a olhar para ele e perguntei: – Que decisão é esta, Fábio? Vai voltar para casa dos nossos pais? – Rapidamente Fábio me cortou: – Nunca voltarei para lá, mas é algo muito mais importante... – Já estava curioso, e perguntei afim dele falar logo: – Que decisão é essa, Fábio? – Ele respirou fundo, parece que procurava a melhor forma de falar. – Resolvi me assumir logo a minha condição, eu gosto de meninos e acho que não há nada de vergonhoso nisso... – Abracei o meu irmão e lhe disse: – Você sabe que te entendo, meu irmão. Você sabe que te aceito... Alguns dias depois, ele apareceu com um novo namorado, mas algo mais impressionante estava por vir...

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Josué Viana – Thiago Echer Fábio começou um vlog em um site de vídeos chamado Moda do Mundo, onde ele fazia avaliações de todas as tendências das modas femininas, enquanto o seu namorado avaliava a tendência de modas masculinas. “Essa blusa está uó! Pode jogar fora...” essa frase se tornou uma marca registrada de Fábio, e o vlog se tornou campeão de acessos nesse site de compartilhamento de vídeo. Ele foi convidado a ter o seu próprio programa na TV, no qual foi mais uma vez campeão de audiência. Fábio mostrou uma grande lição: que as pessoas devem sim buscar a sua felicidade, mesmo que essa felicidade vá contra tudo e todos. Depois desse programa, ele criou uma campanha chamada Se Aceite, que ganhou grande aceitação entre todos os internautas, pois ela era diferente de todas as outras campanhas que queriam impor a ideologia Gay. Enquanto essa passa apenas a mensagem que a pessoa deve se aceitar e buscar a sua felicidade. Fábio se tornou um verdadeiro líder gay que defendia os direitos da causa.

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O Diário De Um Desajustado

Capítulo 38: Família Estamos quase no final do ano. E eu acho que este velho diário não necessita mais de minhas palavras, sendo assim, esta será a última vez. Ele foi uma grande companhia, muitas vezes me ajudou a desabafar e a não enlouquecer. Mas as folhas dele já estão acabando e acho que já estou ficando velho para isso, já tenho uma esposa e estou formando uma nova família... Sabe o que isso quer dizer, não é? Iria ter mais uma responsabilidade, ou duas... – João, João! – Ivete vinha correndo até mim, na sala de estar de nossa casa. – Você não vai acreditar, meu amor. – O que foi? – eu disse, enquanto ela me enchia de beijos. – Olha! – Ela me mostrou um teste de gravidez, era positivo. – Ivete, eu não acredito... Você está grávida! Só quem é pai, ou está prestes a ser um, pode imaginar minha felicidade. Um filho para chamar de meu, de nosso: meu e da Ivete. Tínhamos que contar para todos: para meus irmãos, para a família da Ivete. A mãe da Ivete adorou a ideia de ser vovó, mas o meu sogro não gostou muito. Achava a filha muito nova para ser mãe, se achava muito novo para ser avô. Porém, o convencemos de que ia ser ótimo ter mais um na família. Ricardo, Vanessa, Jonathan, Gabriela, Yuri, Amanda... Eram tantos nomes possíveis! Nem sabíamos qual era o sexo do bebê, mas já íamos arrumando nomes, íamos tentando adivinhar com quem ele ou ela pareceria, saber o que faria da vida. 140


Josué Viana – Thiago Echer Antes do final do ano, já dava pra ver a barriga da Ivete maior. Em breve, poderíamos fazer um exame de ultrassom para ver o sexo do bebê. Iríamos fazer uma grande festa na virada do ano, tínhamos muito a festejar, muito a comemorar... Mas, sei lá, às vezes, parece que a vida não me deixa ser feliz por muito tempo... Será que eu já não tive problemas demais? Era manhã de natal, eu estava em casa, Ivete tinha saído bem cedo para a casa dos pais dela, íamos almoçar lá. Ouvi o toque da campainha, Fábio ou Gabriel? Talvez eles quisessem me desejar feliz natal, mesmo eu não acreditando muito nesta data... Mas meu “presente de natal” foi outro... Abri a porta, por um segundo não reconheci quem era aquela mulher. Mas, como num passe de mágica, a reconheci... Se Deus existisse, deveria estar tramando para a minha desgraça. Era Isabela. Tinha amadurecido, mas estava com uma expressão péssima, talvez a vida não tivesse sendo tão boa com ela. Meu coração bateu mais forte, veio um mar de sentimentos em mim. Por que ela estava lá? E por que tinha uma criança no colo? – Oi – eu disse, meio que sem saber o que dizer. – Surpreso, não é? – a voz dela parecia à mesma, porém mais triste, pesada. – Eu não estaria aqui se não tivesse alternativa... – O que aconteceu? E quem é esta criança? – Este é Mateus, seu filho – ela disse olhando para a criança. – Mas como? Esta mentindo, só quer me dar o golpe do baú!

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O Diário De Um Desajustado – Esqueceu daquela noite, na igreja? Tinha me prometido, em nome de Deus, que iríamos ficar juntos para sempre. Tínhamos consumado o nosso amor. Antes, é claro, de você me abandonar com uma falsa acusação – tinha jurado, a mim mesmo, esquecer aquela noite, nunca tinha dito o que aconteceu naquela noite a ninguém. – É mentira, se não, por que apareceria logo agora que sou rico? – Pensei que seria humilhante demais me arrastar até você para pedir ajuda... Mas agora eu não tenho para onde ir. Se quiser, podemos fazer o exame de DNA. Depois de tudo que já tinha passado, achei que merecia um descanso, achei que poderia ser feliz... E agora? Tenho um filho bastardo e uma esposa grávida. O que deveria fazer? Contar a todos ou esconder minha criação? Não sei... Nada estava bem. Acho que preciso de um novo diário...

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Josué Viana – Thiago Echer

Agradecimentos: Eu, Thiago Echer, agradeço ao Josué Viana pela ideia inicial e por ter escrito boa parte do livro, pelo pessimismo ponderado e por ser um ótimo amigo. Eu, Josué Viana, agradeço ao meu grande amigo Thiago Echer, por ser um ótimo incentivador de continuar este projeto antes utópico e hoje realidade, e por ter dado o seu toque de brilhantismo neste livro com suas edições e criações. Sem ele este livro não passaria de apenas um sonho. Agradecemos a Papai do céu. Agradecemos ao Carlos Nascimento pelo incentivo, por ter lido o manuscrito, nos ajudar a melhorá-lo e por ter escrito o prefácio. Agradecemos a televisão brasileira por ter nos transformados em espectadores alienados por tanto tempo. E agradecemos, principalmente, a você! Que leu e se aventurou por estas humildes escritas feitas por jovens que lutam por um mundo onde ler seja um habito.

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O diário de um desajustado