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THE BLESSED


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THE

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TRILOGIA THE BLESSED


Para minha

MÃE,

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IRMÃ e

FILHA


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E

O LAMENTO DE LUCY

stou sozinha. Encurralada. Na pior. E os cães estão à minha porta. A assembleia dos malignos me cerca. Sou tripudiada e evitada. Fui abandonada. Mentiras e dor são minhas únicas companheiras. Não me deixe agora. Estou tremendo, desesperada pelo conforto de seus braços. Línguas de chamas lambem minha consciência. Os algozes riem e me agarram. Estou rasgada e retalhada, com as vísceras à mostra. Sem piedade. Não há ninguém para me salvar? "Salve a si mesma", você disse. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

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Flores-cadáver vicejam lindamente abaixo de mim. E enchem o ar com cheiro de carne podre. Lágrimas de sangue escorrem pelos meus olhos e formam uma poça no chão, um lago vermelho e roxo, meu único espelho agora. Estou vazia de tudo, exceto por meu fantasma. Minha tristeza está diante de mim. Você acha que há outras maneiras, mas não há. Já fiz minha escolha. E minha escolha me fez. O caminho diante de mim é claro. Não sou inocente. Não estou envergonhada. Estou pronta para o teste. Exijo o pior de você. "Não tenha medo", você disse. Aqui estou. Despida de tudo. Vestida com uma fé cega. Cheia de ardor belicoso. Vide et credere. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

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1 HORÁRIO DE VISITA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Agnes! — gemeu Martha, agarrando o braço descorado de sua única filha. — Ele vale a pena mesmo? Vale isso? Agnes fitou a mãe com olhos inexpressivos, alternando estados de consciência e inconsciência. Seu corpo foi descarregado da traseira da ambulância como um naco de carne crua é levado ao açougue. Mas ela não teve forças para erguer a cabeça ou a voz para reclamar. Sangue encharcava o colchão de plástico em que fora estendida, acumulava-se e logo escorria até suas sapatilhas azul-escuras, deslizando finalmente pelas pernas metálicas da padiola.


— Agnes, me responda! — intimou Martha. Raiva, mais que preocupação, permeava seu tom de voz. Um paramédico aplicou pressão nos ferimentos de sua filha, cujo grito agudo suplantou a estática dos rádios da polícia e dos paramédicos. Portas de emergência foram abertas. As rodas de borracha da padiola retiniam metronomicamente enquanto rolavam pelo velho linóleo que recobria o piso do Hospital do Perpétuo Socorro, no Brooklyn, acompanhando o compasso dos bipes emitidos pelo monitor cardíaco conectado à paciente. A transtornada mulher começou a correr, mas não conseguiu acompanhar sua filha. Conseguiu apenas observar o plasma — ou teimosia e idealismo líquido, no seu entender — esvair-se de sua filha. — Menina de dezesseis anos. Pressão sanguínea: dez por cinco e caindo. Dez, cinquenta e seis, A. O código da polícia para uma tentativa de suicídio era extremamente familiar à equipe de emergência. — Ela está hipovolêmica — observou a enfermeira, segurando o braço frio e úmido da jovem paciente. — Está perdendo muito sangue. A enfermeira pegou uma tesoura e cuidadosamente, porém de maneira rápida, cortou a camiseta de Agnes, expondo um sutiã manchado de sangue. — Olhe o que ele fez com você! Olhe para você! — recriminou Martha, afagando os cabelos de Agnes. Maravilhada, contemplou a beleza da menina, cujo glamour lembrava antigos filmes de Hollywood, a pele perfeita e os cabelos acobreados que caíam em ondas sobre o rosto. Sentia-se cada vez mais perplexa com o fato de que a filha pudesse ter feito algo tão drástico por causa de um cara. Aquele cara. — E onde está ele agora? Não aqui! Eu lhe disse várias vezes. E agora isso. Foi ISSO o que você ganhou! — Vamos precisar que a senhora se acalme, madame — advertiu o paramédico, afastando com o braço a mãe de Agnes quando a padiola fez I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


uma curva em direção ao setor de triagem. — Agora não é o momento. — Ela vai ficar boa? — suplicou Martha. — Se alguma coisa acontecer com ela, eu nem sei o que vou fazer. — Alguma coisa já aconteceu com ela — observou a enfermeira. — É que estou tão... desapontada — confidenciou Martha, secando os olhos. — Não criei essa menina para se comportar de forma tão inconsequente. Diante da inesperada ausência de compaixão, a enfermeira se limitou a erguer as sobrancelhas. Agnes ouviu tudo claramente, mas não falou nada. Sua mãe precisar de consolo e de que alguém dissesse que ela era uma boa mãe, mesmo nas atuais circunstâncias, não a deixava surpresa. — A senhora não tem permissão para entrar no setor de emergência — disse a enfermeira para Martha, pensando que isto poderia ser bom para que ela esfriasse. — Não há nada que a senhora possa fazer agora. Por que não vai até sua casa e pega algumas roupas limpas para ela? Martha, uma mulher com cabelos pretos e curtos, bastante magra, meneou a cabeça de modo afirmativo e, de olhos esbugalhados, observou a filha desaparecer no corredor cruamente iluminado. A enfermeira, que ficara para trás, entregou a ela a camiseta ensanguentada de Agnes. Parte dela ainda estava molhada de líquido vermelho; outras partes já haviam secado e estalaram quando Martha dobrou a camiseta. Sem derramar lágrimas. — Ela não vai morrer, vai? — perguntou. — Não hoje — respondeu a enfermeira. Agnes não conseguia falar. Sentia-se aturdida, mais pelo choque do que pela dor. Ataduras brancas foram amarradas ao redor de seus pulsos, apertadas o bastante para absorver e estancar a hemorragia. Olhando para as lâmpadas fluorescentes que desfilavam acima dela, teve a sensação de estar em uma pista de decolagem, acelerando para levantar voo. Para onde, exatamente, não saberia dizer. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Assim que chegou ao setor de emergência, as atividades se tornaram mais frenéticas. Rapidamente, os paramédicos e as enfermeiras a levaram para um leito, enfiaram uma agulha em seu braço e conectaram diversos monitores a seu corpo para verificar seus órgãos vitais. Ela teve a impressão de que estava em uma festa-surpresa para ela — tudo era feito em função dela, mas sem sua participação. O dr. Moss desenrolou as ataduras que envolviam seu pulso direito e o segurou firmemente sob a luz do teto para examinar o corte ensanguentado. Fez o mesmo com o pulso esquerdo, ditando suas observações para a enfermeira que estava ao seu lado, para que ela as anotasse. Agnes, agora um pouco mais atuante, conseguiu olhar para outro lado. — Ferimentos verticais de cinco centímetros em ambos os pulsos — ditou o médico. — Laceração da pele, veia, vasos subcutâneos e ligamentos. Isso é mais que um pedido de ajuda — disse ele, percebendo a gravidade e a localização dos talhos e olhando Agnes diretamente nos olhos. — Abrindo as veias na banheira, coisa antiquada. Uma transfusão foi iniciada e Agnes começou, aos poucos, a recobrar os sentidos de forma plena. Com expressão fatigada, observou o sangue de um estranho penetrar em seu corpo, conjeturando se isto a mudaria. Não era um transplante, com certeza, mas o sangue em seu coração não seria totalmente dela. Soltou então um gemido e, de repente, tornou-se mais combativa. — Não foi um pedido de ajuda — disse ela, demonstrando que sabia muito bem o que estava fazendo. — Me deixe ir embora. — Você teve sorte de sua mãe estar por perto — replicou o dr. Moss. Agnes conseguiu revirar os olhos. Após alguns momentos, ela ouviu o estalido das luvas de borracha do médico, que as retirava das mãos. — Costurem ela — disse ele. — E encaminhem-na para o Setor de Psicoterapia, para uma avaliação, depois que ela receber toda a transfusão e estiver... estável. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Para o dr. Frey? — perguntou a enfermeira. — Ele ainda está aqui? A essa hora? — É Halloween, não é? — resmungou ela. — Só ele e uma equipe mínima. — Isso é que é dedicação — comentou Moss. — Pode ser. Mas eu acho que ele gosta daqui. — Ele tem alguns dos piores casos no setor dele. Não sei se ele tem escolha. Agnes escutou e ficou com a impressão de que o setor era uma espécie de casa de doidos. Mas, se estavam esperando que ela ficasse "estável", teriam que esperar muito mais tempo, mais até que as pobres almas que estavam na sala de espera aguardando tratamento. — Mais um corpo sobrevivendo à mente — disse o dr. Moss baixinho, enquanto passava ao compartimento seguinte, para prestar assistência num caso de reanimação cardiorrespiratória. Agnes, egoisticamente, rejubilou-se com o tumulto, que serviria para que esquecesse seus próprios problemas, nem que fosse por um minuto. Ofereceu então o pulso para o médico-assistente e se concentrou no tumulto à sua volta, que era como uma música a todo volume, emitida pelo aparelho de som de um carro estacionado diante de seu apartamento numa noite de verão. — Menina de dezessete anos — gritou o paramédico. — Suspeita de afogamento. A menina esquelética, de lábios azulados, que jazia diante do residente parecia estar sem vida e adquiria tonalidades cada vez mais claras a cada segundo que passava. Ele tentou examinar suas unhas, mas elas estavam pintadas de azul. — No rio? — perguntou o residente. — Na rua — respondeu o paramédico. Todos os que estavam no aposento ergueram as sobrancelhas. — Caída com o rosto em uma poça. Ela está com parada total. Desfibrilador! I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Após diversas aplicações de choques em seu peito e caixa torácica, o corpo da adolescente tatuada teve um espasmo e ela voltou a si. — Entubem-na! Mas, antes que alguém conseguisse enfiar o tubo na garganta da garota, ela começou a tossir e a regurgitar água suja nas batas das enfermeiras, até que um pouco de saliva começou a lhe escorrer pelo queixo. Ela poderia até ter vomitado se tivesse comido alguma coisa naquele dia. Tingida por seu batom vermelho, a descarga a deixou com uma aparência ensanguentada e enlameada. Alguma coisa escura escorreu por seu abdome malnutrido e inundou seu umbigo, fazendo seu piercing de aço parecer um trampolim, com uma das extremidades oscilando para cima e para baixo. Uma terapia intravenosa foi iniciada; amostras foram retiradas e enviadas para exames. — Qual é o seu nome? — perguntou a enfermeira, para testar a lucidez da garota. — Ceci — disse a garota em voz cansada. — Cecília. — Você sabe onde está? — pressionou a enfermeira. Ceci olhou ao redor. Viu enfermeiras e médicos andando às pressas e escutou os gemidos intermináveis emitidos por algumas das pessoas que estavam em padiolas estacionadas no corredor. — No inferno — respondeu a garota. Cecília olhou para o crucifixo pendurado sobre a porta e repensou sua resposta. — No hospital. Ela olhou para a lama acumulada sobre seu desbotado corpete de segunda mão, seus anéis-garra — simulacros de garras de faisão em metal acinzentado em seus dedos médio e anular —, suas perneiras de couro e suas botas de cano curto. — O que estou fazendo aqui? — Tecnicamente falando, você se afogou — disse a enfermeira. — Você foi encontrada com o rosto enfiado em alguns centímetros de água. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Ah, meu Deus — gritou Cecília, irrompendo em um acesso de histeria. A enfermeira segurou sua mão e tentou acalmá-la, mas logo descobriu que Cecília não estava chorando, mas rindo incontrolavelmente. Riu tanto que não conseguiu recuperar seu precioso fôlego, o que a deixou com falta de ar. — Não há nada engraçado acontecendo aqui. — O dr. Moss olhou para a sujeira que ela expelira e para os tubos de acrílico conectados a ela. — Você quase morreu. Ele tinha razão, é claro, mas ela não estava rindo da equipe, mas apenas do farrapo humano em que se tornara. Com a cara enfiada em uma poça de lama na rua. Até que ponto alguém pode cair? Literalmente. Jim, o amigo dela que se matara pulando da Ponte do Brooklyn e engolindo a água pastosa, escura e imunda do East River, teria achado muito engraçado. Este pensamento a deixou sóbria o bastante para recapitular a noite, para visualizar o cara com quem ela estava transando no metrô, entre o Brooklyn e a Bowery, cujo nome não conseguia lembrar, e a apresentação pela qual não lhe tinham pago. — Você tem algum contato para emergências? — perguntou a enfermeira. Cecília abanou a cabeça negativamente. — Onde está minha guitarra? Ela tateou a padiola, como um amputado procurando o membro perdido. Era uma garota bonita, alta e esbelta, dotada de olhos castanhoesverdeados e traços bem definidos. Seus cabelos, cuidadosamente desgrenhados, estavam cortados à altura dos ombros. Ela poderia ter se tornado modelo, sempre lhe diziam isso, e não do tipo recrutado em quiosques de shoppings por belas moças bronzeadas, de barrigas à mostra — mas uma modelo de verdade. E a moda era importante para ela. O problema é que ela não conseguia suportar a ideia de se tornar um cartaz da criatividade de I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


outra pessoa. Já era estressante negociar a sua própria. Se era para se tornar a mensageira de alguém, que fosse dela mesma. Aliás, a música e a sua aparência eram os estímulos que a tiravam da cama no início da tarde. Eram sua razão de viver. — O balcão de entrada tem um registro de tudo o que foi trazido junto com você — disse o dr. Moss. — Vou procurar sua guitarra quando as coisas se acalmarem por aqui. — As coisas se acalmam? — perguntou ela. O pequeno sorriso que arrancou dele foi uma injeção de ânimo. — Obrigada — disse ela com sinceridade, quando o doutor fez menção de se afastar. — Porra, o senhor é um anjo. — Não, sou um médico. Só conserto corpos danificados. — Doutor! Rápido! — gritou a enfermeira, interrompendo o moralismo de televisão. Sem nenhum aviso, um pandemônio se instalou na entrada do setor de emergência, indicando a Cecília que ela ainda demoraria algum tempo para ter notícias de seu instrumento. — Meu Jesus Cristo — disse ela, tentando decifrar o que poderiam ser os clarões de luz que se projetavam contra a parede acima de seu cortinado. Não era nada que ela e o médico já tivessem visto ou ouvido. Era como se uma tempestade de relâmpagos tivesse explodido na triagem. Os gritos que acompanhavam os clarões pareciam estar sendo emitidos por um bando de feras esfomeadas em torno de uma pilha de ossos. Na verdade eram flashes de câmeras fotográficas e imprecações de repórteres que disputavam posições para obter uma foto. A foto. — Lucy, olhe para cá! — gritou um deles. — Lucy, uma foto de você com sua bolsa de soro! — pediu outro. — Não estou conseguindo enxergar! — murmurou Lucy, puxando seu casaco de vison dourado para cima da cabeça, para proteger os olhos e esconder o rosto. Em seguida, desmaiou. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Ajudem aqui, droga — gritou um segurança para o balcão de recepção. Agnes e Cecília não conseguiram distinguir muita coisa além do que aparecia abaixo de seus cortinados e dos gritos de "overdose" proferidos aqui e ali. Artigos de vestuário começaram a cair no chão; primeiramente um sapato de salto agulha, depois outro; depois, polainas pretas, um sutiã, uma tiara Swarovsky, uma bolsa Chanel e, finalmente, um vestido de seda que pareceu flutuar em direção ao chão como um paraquedas negro. — Parece que a hora de pagar a conta chegou para alguma grã-fina quebrada — disse Cecília, baixinho. — O que está havendo, alguma festa de arromba? — perguntou o dr. Moss, enquanto preparava a solução de carvão ativado. — Não, só um sábado à noite no Brooklyn — respondeu a enfermeira. — Segunda-feira é dia dos ataques cardíacos... — Lucy! — gritou outra enfermeira. — Lucy, você está conseguindo me ouvir? A enfermeira não precisou conferir a prancheta para descobrir o nome. Qualquer pessoa que lesse as colunas de fofocas saberia quem era a garota e por que estava sendo assediada por jornalistas aos gritos. Agnes entreouviu a conversa entre o médico e o relações-públicas do hospital, que estava próximo ao seu cortinado. — Mande esses abutres ficarem longe daqui — ordenou o médico, olhando para a fileira de fotógrafos ansiosos que se apinhavam na sala de espera. — Não transmita nenhum comentário nem nenhuma informação para ninguém, entendeu? E foi examinar Lucy. O tratamento com carvão ativado já fora iniciado. Lucy estava engasgando com o tubo, o que era um bom sinal. Então acordou, como um cortador de grama ligado de repente. Totalmente desperta e lúcida. — Me tirem daqui — gritou ela, arrancando o tubo da garganta. Estava irrequieta e transtornada, quase enlouquecida. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Relaxe, querida — disse uma enfermeira grandalhona, pousando as mãos nos ombros da garota e a empurrando para baixo com suavidade. — Aqui você está a salvo daqueles repórteres. — A salvo? — ironizou Lucy com voz rouca, remexendo cegamente na maquiagem. — Você está brincando? Uma foto dessas pode pagar a faculdade do filho de alguém. A enfermeira fora claramente pega de surpresa, não só pelo comentário como também pelo fato de que a garota deitada na padiola estava a todo vapor. — De que você está falando? — Uma foto no setor de emergência? Você sabe quanto vale uma? — Lucy avaliou rapidamente a enfermeira e concluiu que, provavelmente, ela não sabia. — Como se você pudesse entender. Lucy puxou para mais perto a lâmpada de inspeção e examinou seu reflexo na bandeja de aço posicionada acima da padiola. — Bem, então talvez você possa explicar para o policial que está ali fora o que uma garota da sua idade estava fazendo desmaiada no banheiro de uma boate. Recusando-se a reconhecer a seriedade de sua situação, médica ou legal, Lucy começou a recolher suas roupas espalhadas. Mas uma dor lancinante a fez parar e se inclinar para a frente apertando o estômago. A enfermeira prendeu eletrodos no peito dela, conectou-os ao monitor cardíaco que estava ao lado da padiola e ligou o aparelho. Em vez do bipe, bipe que indicaria a pulsação do coração de Lucy, o que se viu foi uma longa linha na tela, acompanhada de um ruído longo. Depois... nada. A enfermeira começou a manusear nervosamente o equipamento. Lucy ergueu as sobrancelhas. — Todo mundo diz que não tenho coração — gracejou. — Pare de se mexer — ordenou a enfermeira. — Você está atrapalhando o monitor. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Epa, acho que minha menstruação chegou. — Lucy pousou a cabeça no pequeno travesseiro abaixo de sua cabeça. — Me arranje uns comprimidos de Vicodin. O dr. Moss abanou a cabeça e saiu do cubículo e viu os fotógrafos e os blogueiros com seus celulares, enviando mensagens, chamando informantes e fornecendo animadamente a seus editores as informações de última hora. De repente, como se um alarme de incêndio tivesse soado, os repórteres se dispersaram, atraídos por outra ambulância que chegava. — Merda! — esbravejou Lucy. Sua chance de obter alguma publicidade gratuita fora abortada pela tragédia de outra pessoa. Horas se passaram, luzes foram apagadas, equipes e roupas foram trocadas. Mas o estado de Agnes continuou a ser verificado de quinze em quinze minutos — procedimento padrão — e os sons emitidos pelos doentes, pelos feridos e pelos moribundos continuaram noite adentro, bem depois do horário de visitas. Era uma coisa tranquilizadora e, ao mesmo tempo, deprimente. Alguns pacientes recebiam alta e alguns davam entrada no hospital. Outros, como Agnes, Cecília e Lucy, eram deixados no limbo — aguardando um leito vago ou melhor avaliação —, tendo que suportar o sofrimento dos outros, além dos próprios. O celular de Agnes tocou. Pela música-tema de Dinastia, a série de tevê, ela soube imediatamente que era sua mãe. Desligou então o aparelho e o largou na mesa do monitor, ao lado da padiola, ignorando a chamada, assim como ignorara a enxurrada de mensagens que agora entupiam sua caixa de correio. Depois deu um suspiro e adormeceu, da mesma forma que Lucy, cuja publicidade perdida e uma primeira bateria de perguntas efetuadas pela polícia de Nova York haviam deixado exausta. Tudo ficou praticamente em silêncio. E tranquilo. Um técnico de enfermagem abriu a cortina de repente, como se estivesse arrancando um Band-Aid, trazendo um computador sobre um suporte móvel. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Preciso lhe fazer umas perguntas, Cecília... Trent. Cecília não se mexeu. — Endereço? — Esqueça. — Ah, tudo bem. Ele relanceou os olhos pela tela do computador em busca de uma pergunta mais fácil. — Religião? — No momento estou envolvida com a antiga arte do — ela fez uma pausa enquanto ele digitava — queroquessefodismo. Ele digitou tudo o que ela disse. Depois apertou o botão de deletar. — Eu não posso imprimir isso. — Claro que pode. — Não, não posso. — E ainda dizem que este é um país livre — disse Cecília. — Tudo bem, sou uma niilista praticante. — Acho melhor eu voltar mais tarde. Ele saiu do cubículo empurrando o carrinho com o computador e fechou a cortina. — Não fique assim — bradou Cecília em tom de desculpa. — Só estou entediada. — Descanse um pouco. Ela deveria conseguir descansar, com tantos sedativos fluindo em seu corpo, mas não conseguiu. Continuou a recapitular a noite em sua mente, o pouco que se lembrava. Após alguns momentos, o setor de emergência ficou totalmente silencioso, com exceção dos ruídos de passos apressados. Tinham um som pesado, diferente do ruído dos sapatos dos cirurgiões e das solas de borracha dos mocassins dos enfermeiros, que se ouviam no pavilhão até aquele momento. Cecília, uma ave noturna por natureza e profissão, sentiu-se inquieta pela primeira vez em muito tempo. Olhando para cima, percebeu um vulto masculino projetado em seu I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


cortinado. — Voltou para pedir alguma coisa? Os homens sempre fazem isso. Olhou então para baixo e viu um par de botas de motoqueiro pretas, as mais bonitas que já vira. Ela podia dizer, mesmo pela silhueta, que aquele indivíduo, fosse quem fosse, era sexy. Com certeza não era aquele auxiliar de enfermagem babaca. Ela havia se tornado muito boa em determinar os "atributos" de um cara no escuro. Ele permanecia imóvel, como se estivesse refletindo intensamente, de costas para o cortinado, dando a ela tempo para conjeturar sobre ele. O horário de visitas já havia terminado. Observando o contorno escuro e brilhante de seus cabelos, calça e casaco, ela se perguntou se não seria o cara com quem ela transara mais cedo. Mal conseguia se lembrar da aparência dele, mas talvez ele tivesse se esgueirado pela recepção para vê-la. Para ver se ela estava bem. Nem que fosse por um sentimento de culpa. — Você está apresentável? — perguntou ele. — Posso entrar? — Não e sim. Duas coisas a meu respeito: eu nunca entro em um avião onde esteja um ídolo da música country. E tenho tendência a nunca dizer não para um cara. Ela sentiu um formigamento na barriga quando ele afastou a cortina. Parecia ansioso, quase como um fumante inveterado que tivesse largado os cigarros no início do dia. Tenso. Ele entrou rapidamente no cubículo. Era alto e esguio, pele morena, cabelos longos, braços ligeiramente musculosos e um tórax avantajado que seu casaco e sua camiseta do The Kills mal conseguiam ocultar. Uma visão e tanto. — Eu achava que não encontraria ninguém acordado — murmurou ele com voz de barítono. — Veio me dar a extrema-unção? — Você está querendo morrer? — Depois da última noite é bem possível. — Você sempre convida desconhecidos para seu quarto? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Eu prefiro a companhia de pessoas que não conheço muito bem. — Parece coisa de gente solitária. Fez-se um silêncio desconfortável. Cecília teve que desviar os olhos do estranho. A compreensão e a compaixão nos olhos dele eram esmagadoras. Inesperadamente, os olhos dela se encheram de lágrimas. —Não estou chorando. Acho que ainda estou alta ou coisa parecida. — Entendo. Ele deu um passo para a frente. Para mais perto dela. Diminuindo o espaço entre ambos. Cheirava a incenso. Cecília começou a pensar se deveria confiar no cara. Caras sexy paquerando em boates era uma coisa; mas caras sexy se esgueirando para dentro de hospitais era outra. Ela ficou tensa. — Eu conheço você? — Você não saberia se me conhecesse? A verdade é que ela saía com um monte de caras, e era difícil distinguir um do outro. Encontrar-se com algum deles virava um jogo de adivinhação. Mas ela era boa nisso. — Você esteve no meu show esta noite? Foi você quem me trouxe aqui? — Não... — disse ele devagar. — Cecília. — Você sabe o meu nome? É melhor você ser médium ou vou começar a gritar — disse ela, recuando repentinamente. Ele apontou para o pé da cama. — Seu nome está no prontuário. — O que você quer comigo? — perguntou Cecília, mantendo os braços tão longe dele quanto os tubos ligados a eles permitiam, como se fosse uma marionete. — Eu sei cuidar de mim mesma. Apesar das aparências. — Estou vendo. Ele meneou a cabeça e deu umas palmadinhas afetuosas nas mãosdela. — Quem é você? — perguntou ela, retirando a mão rapidamente. — Sebastian — disse ele, segurando a mão dela de novo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ela relaxou ao sentir seu toque. Ele notou o estojo da guitarra, que estava encostado na parede ao lado da cama. Estava cheio de decalques, manchado, lascado e maltratado. Já vira dias melhores, mas ele teve a impressão de que protegia algo valioso. — Você é artista? — Foi o que eu disse aos meus pais quando saí de casa. — Todo mundo está se afastando de alguma coisa ou se aproximando de alguma coisa. — Bem — disse ela, sentindo alguma empatia. — Em qual das situações você está? — Nas duas, acho. — Pelo menos temos uma coisa em comum. — Pelo menos. — Sério, eu sempre tive a sensação de que havia alguma coisa dentro de mim que precisava dizer — tentou explicar Ceci. — Uma coisa... — Que estava tentando sair? — perguntou ele. Ela olhou para ele, surpresa. Ele compreendia. — É. — Mais uma coisa que temos em comum — disse ele. Ele se aproximou mais ainda, entrando totalmente no foco de luz. Chegou perto o bastante para que ela sentisse seu hálito e o calor de seu corpo. Para que o visse bem. Para que sentisse seu cheiro. — Então, Sebastian... — Até o nome dele a agradava. Combinava com ele. Ela conhecia seu tipo. Cara arrasadoramente bonito e encantador. Mas provavelmente era o namorado de alguma enfermeira e a estava traindo na cara dela. — O que você está fazendo aqui? — Uma visita. — A uma namorada. — Não. — Bem, você não parece um fazendeiro, nem um tocador de órgão, I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


nem um ladrão de ossos... — disse ela. — Você é desses caras que andam pelos hospitais procurando garotas doentes? O barulho alto de uma bandeja caindo e de pessoas falando em algum dos corredores os assustou. Ele parecia nervoso desde que entrara no cubículo, e ela podia perceber que estava pronto para sair. Naquele minuto. — Você está procurando alguém ou alguém está procurando você? — Eu encontrei o que estava procurando — disse ele, enfiando a mão no bolso da calça jeans. — Ei, que diabo você está fazendo? Cecília segurou o cordão do alarme das enfermeiras. Ele foi mais rápido e o arrancou da mão dela. Ela estendeu a mão para pegá-lo de novo, mas se contraiu de dor quando os tubos enfiados em suas veias chegaram ao limite do comprimento, Voltou então a se recostar. — Se você se aproximar mais eu vou machucar você. Ele tirou do bolso uma deslumbrante pulseira, feita de contas de marfim absolutamente extraordinárias. Dela pendia uma espada de ouro, de tipo antigo, com um arco de violoncelo preso no cabo, — Porra! — exclamou Cecília, maravilhada com o bracelete. Sentia-se também, ao mesmo tempo, emocionada e amedrontada com o fato de que um completo desconhecido estivesse lhe dando um presente tão espetacular, pessoal e exclusivo, além de ridiculamente caro. — Foi você quem me trouxe para cá? — perguntou ela. — Foi você quem me salvou? Sebastian depositou o bracelete na mão dela e a fechou, gentil, mas firmemente, e recuou em direção à cortina. — Mais tarde. Algo na voz dele disse a ela que ele estava falando sério e no sentido literal. Ela acreditou nele. Fora a conversa mais honesta que já tivera com um cara, talvez em toda a sua vida. E ele era um completo desconhecido. Porém uma alma antiga. Como ela. — Escute. Tenho alguns shows esta semana. Cecília Trent. Me procure I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


no Google. Talvez você me encontre e vá me ver sem esses tubos. — Talvez você me encontre antes — replicou ele. — Espere — murmurou Cecília em voz rouca, erguendo o pulso adornado com a pulseira. — O que é isto? — Uma coisa para você guardar com cuidado.

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2 PEREGRINAÇÃO DA VERGONHA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Domingo de manhã. Dia de repouso. Arrependimento. E ressaca. Lucy estava deitada de lado quando acordou. Por alguns instantes, ela permaneceu de olhos fechados, escutando os ruídos ao redor, agarrando-se àquele momento de serenidade, antes que sua mente sóbria e totalmente consciente se recordasse do que fizera na noite anterior. Seu primeiro reflexo foi tatear embaixo do travesseiro, à procura de seu frasco Hermes, meio cinza, meio salmão, com tiras de couro e tampa de prata, que se parecia mais com um colar que com um recipiente para ocultar


bebidas alcoólicas. Os proprietários da Sacrifice, uma luxuosa boate do Brooklyn, tinham lhe dado o frasco de presente após uma exclusiva festa Hermès durante a semana da moda... juntamente com alguns tiquetes de bebidas grátis, sem validade, o que a fazia voltar sempre lá, pois tíquetes de bebidas grátis eram uma coisa já démodé. Nesta manhã, entretanto, ela não encontrou nenhum consolo, nem embaixo do travesseiro, nem em lugar nenhum; ela não encontrou o frasco. A fronha havia escorregado parcialmente e sua boca estava em contato direto com a almofada de plástico. Ela levou alguns instantes para perceber isto. E entrou em pânico ao pensar em quantas pessoas poderiam ter morrido com a cabeça naquele travesseiro, permanecendo ali durante horas, secretando fluidos sobre ele. Travesseiros de hospital, assim como os de avião, eram reutilizáveis. Ninguém nunca os vira serem trocados, ela tinha certeza. A cobertura de plástico não a enganava — todo o conteúdo infeccioso do travesseiro estava agora em sua boca, brincando de cabo de guerra com seu sistema imunológico. Fosse o que fosse, já estava dentro dela. Lucy abriu os olhos azul-claros — vasos sanguíneos cruzavam a parte branca como uma teia de aranha — e percebeu que estava num hospital. Tentou voltar a dormir, mergulhar no estupor, mas os ruídos do equipamento médico somados à azáfama do corredor e ao cheiro de amónia, fezes, sangue seco e vômito que pareciam permear o setor de emergência, tornaram isto impossível. — Preciso sair daqui — disse ela, descolando o rosto do travesseiro de plástico. A enfermeira simplesmente a ignorou. Examinou-lhe os sinais vitais e saiu, retornando às tarefas burocráticas. Os olhos de Lucy se fixaram em sua bolsa, que seu pai comprara em Paris para ela. Fora feita a partir de um tapete antigo, tecido à mão, cuja urdidura exibia ricos tons de vermelho, magenta, azul e verde. Ele a levara a Paris quando ela tinha dez anos, pouco antes que a mãe I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


dela os abandonasse. Queria que sua filha visitasse Paris pela primeira vez, segundo disse, junto com um homem que sempre a amaria. A mãe de Lucy fora embora quando ela ainda era criança. Concluiu que não desejava ficar presa a um marido e uma filha. Mudou-se então para Los Angeles. Mais tarde, Lucy percebeu que tinha as mesmas iniciais desta cidade. Los Angeles, a cidade dos anjos, entre outras coisas. Lucy nunca soube se a decisão da mãe fora a realização de uma antiga ambição ou apenas uma reação extrema a um estilo de vida tradicional. Para ela, foi um incidente formativo e informativo, que coloriu sua visão da vida e do amor com uma paleta nada sentimental. Embora seu pai fosse tudo o que ela tinha, ela mal falava com ele. Exceto quando não conseguia pagar o aluguel. Durante muito tempo ela se aferrara à bolsa e às palavras dele. Mas estas acabaram se transformando, de uma doce lembrança, em uma amarga mentira. Agora só restava a bolsa. Quando ela falava com o pai, era sempre acusada de ser como a mãe dela, o que, para ele, era uma coisa imperdoável. Lucy tirou da bolsa as roupas que usara no dia anterior. Já era ruim o bastante, pensou ela, ter ido parar em um hospital, mas não possuir outra coisa para vestir era uma vergonha. Ela se perguntou quem pagaria, e quanto, por uma foto dela nesta situação. Procurou então seu telefone celular e, enquanto o fazia, algo caiu no chão. Ela olhou para baixo e viu uma pulseira feita de esplêndidas contas brancas, com uma espécie de talismã, no formato de dois olhos. Alguma versão de um bracelete da cabala, vendido na Quinta Avenida, pensou ela, inclinando-se para pegar a pulseira. Provavelmente algum maluco religioso me deu isso, tentando conseguir uma doação. Antes mesmo de examinar a pulseira com mais atenção, no entanto, Lucy resolveu incorporá-la aos seus paramentos. A Barneys New York estava preparando uma coleção em estilo sacro para o próximo outono e aquele pequeno adorno poderia cair bem nela. Com certeza é falso, mas acho que posso fazer esse negócio funcionar. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Trazendo a pulseira para mais perto dos olhos, examinou-a com atenção. Percebeu então que poderia ser tudo, menos falsa. O reflexo das contas sob a luz fluorescente a fez apertar os olhos, como um joalheiro. Ela conseguia distinguir um artigo barato a um quilômetro de distância — e aquilo era autêntico. Incrível. Parecia ser uma antiguidade. Era pesado. Feito à mão. Por alguns momentos fantasiou que o bracelete atravessara os tempos como uma joia de família, ou ficara enterrado em algum lugar — só sendo encontrado séculos mais tarde. Desenterrado. Aposto que isso vale uma fortuna. Não é como essas imitações baratas vendidas sobre tapetes na Atlantic Avenue, pensou ela. Deitando-se de costas, segurou a pulseira junto ao rosto e manuseou o amuleto dourado. Era diferente de tudo o que já tinha visto, mesmo em leilões de obras raras. E certamente era único. Estranho e familiar, ao mesmo tempo. Quase difícil de se olhar. Mas ela sentia, de uma forma que não saberia descrever, nem a si mesma, que aquele objeto deveria pertencer a ela. E agora pertencia. — Meu pai esteve aqui? — perguntou, com esperança na voz, como se fosse uma criança novamente, no dia de Natal, acariciando um presente valioso. — Foi ele quem deixou isso para mim? — Não — respondeu a enfermeira, pondo fim ao entusiasmo infantil de Lucy. — É. Ele jamais pisaria em um hospital do Brooklyn. Ele raramente sai de Manhattan. A enfermeira apenas revirou os olhos. — Quando vou receber alta? — perguntou Lucy, ainda pasmada com a pulseira. A enfermeira deu de ombros e voltou ao trabalho. — Mala — murmurou Lucy, enquanto a enfermeira baixa e atarracada saía do aposento. Observando a enfermeira, ela notou um rosto familiar no outro lado da sala. Não era uma amiga nem mesmo alguém mais chegado, mas uma antiga I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


colega de escola que competia ferozmente com ela pelos preciosos espaços das colunas de fofocas. Aquela garota nunca tivera uma notícia negativa a seu respeito até pouco tempo, quando rumores de que ela estava grávida de um ex-namorado, agora na universidade, começaram a circular. Lucy sabia tudo sobre o caso, pois fora ela quem dera início ao boato. Bem ao lado da garota, estava o atual namorado dela. As cortinas dos cubículos de ambas não estavam puxadas. Elas estavam totalmente expostas. — Oi, Sadie — gritou Lucy, captando a atenção da garota. Sadie estava apertando o estômago, gemendo de dor, fraca demais para responder ou para se defender. — Uau. Não consigo acreditar em como seu corpo pós-gravidez está fantástico — comentou Lucy. — É difícil acreditar que você estava grávida até, o quê... uma hora atrás. A garota enfiou a cabeça em seu capuz, sabendo o que estava para acontecer, como um gangster que estivesse sendo levado na traseira de um carro da família rival. Mas o cara nem mesmo tentou esconder o rosto. Na verdade, fez bem o contrário. Denunciando Sadie, ela com certeza impressionaria Jesse e obteria um lugar melhor para sua história no setor de emergência. Poderia até conseguir uma postagem no videoblog dele. Tudo o que ela conseguia pensar era: sorte grande. Nos círculos em que transitava, a gravidez de uma adolescente suscitava alguns dias de cobertura embaraçosa, antes de se transformar em um nobre sacrifício. Mas aborto era outra coisa. Poderia significar o exílio. E, para Lucy, uma rival a menos. Ela já nem sabia mais quantas vezes aquela garota tentara humilhá-la. Olho por olho. Ela bateu uma foto com seu celular e a examinou. Fora um instantâneo perfeito, que captara as lágrimas e todo o tormento de Sadie. Mas o olhar transtornado no rosto da garota e sua vulnerabilidade atingiram Lucy de um modo inesperado. Ainda mais comovente era o namorado de Sadie, Tim, ao I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


lado dela, de mãos dadas com ela. Não havia ninguém ao lado de Lucy. Nem mesmo o homem que mais deveria ter cuidado dela, seu pai. Ela encarou os dois namorados, sentindo que ambos, em silêncio, imploravam pela clemência dela, sentindo a dor deles — o que era uma coisa totalmente inusitada nela. Então pressionou o botão de enviar. — Você recebeu alta — disse a enfermeira para Lucy, quando estava passando pelo corredor. — Suas coisas estão nesta bolsa e a papelada está no balcão de recepção. — Só isso? — perguntou Lucy, um tanto decepcionada. — Hum! Você esperava o quê? Lucy franziu ligeiramente a testa e deu um leve sorriso de satisfação. — O que você acha disso? — perguntou à enfermeira, erguendo o pulso com o bracelete. — Acho que combina com você — disse a enfermeira. — Tente não botar essa pulseira no prego assim que sair daqui. Lucy exibiu os dentes, formou garras com suas mãos perfeitamente manicuradas e soltou um rosnado, para afastar a energia negativa da enfermeira. Depois pegou sua bolsa e se encaminhou para a porta giratória. O dia estava nascendo. Era a hora em que as pessoas se levantavam para trabalhar ou, como no caso dela, estavam voltando para casa. Era a sua hora do rush. Ela foi até uma carrocinha de comida e pediu claras de ovos mexidas com carne em um bagel e um copinho de café quente. Ainda pensando no que acabara de fazer a Sadie. Como se rebaixara. Ela observou o vendedor quebrar os ovos, separar as gemas, a parte mais substancial, e descartá-las. — Tire o miolo do bagel — ordenou ela, enquanto observava um casal, obviamente desvalido, pedir um refrigerante para seu filho pequeno. Neste momento, ela sentiu alguém agarrar seu braço. Nem precisava olhar o rosto da pessoa para saber quem era o dono daquela mão descarnada. A manga preta do paletó de Jesse era inconfundível. — Tire as mãos de cima de mim, vagabundo — esbravejou ela, desI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


vencilhando o braço sem nem ao menos se virar. Jesse era alto, levemente encurvado, de tanto tempo que passava debruçado no computador, e magro. Embora tentasse, até as raias do absurdo, andar na moda, estava sempre pouco à vontade nas roupas, que pareciam ter sido escolhidas por alguma namorada — coisa que ele não tinha. — Aiiii — gemeu ele. — Acordou do lado errado da maca? Subitamente, Lucy percebeu o reflexo do sol no talismã em forma de olhos. Ela poderia jurar que aqueles olhos estavam olhando para ela. — Estou exausta, Jesse. Desta vez estou falando sério. — Exausta por quê? Você está vivendo um sonho. — Sonho de quem? — O seu, lembra. — Tudo o que eu sei é que eu poderia ter apodrecido ali dentro e ninguém daria a mínima. — Eu estou aqui. — Como eu disse. — Não seja ridícula, Lucy. Você está por toda a parte. Ele brandiu o celular que tinha nas mãos, com a tela voltada para cima. — Eu não quis dizer morbidamente curioso a meu respeito, Jesse — disse ela. — Eu quis dizer preocupado. — Você só precisa dormir um pouco. — Você não faz ideia do que preciso. Jesse observou a garota descabelada que tinha à frente. Normalmente ele era bom em interpretar as reações dela, mas havia algo diferente nesta manhã. Ela estava mais melancólica do que ele jamais vira. — Você não pôde passar no banheiro para dar um jeito no rosto? Lucy levou a mão até o rosto. Ao fazê-lo, Jesse avistou a pulseira. — Bonita — disse ele, segurando o talismã pendente. — Onde você conseguiu? — Não toque nisso! I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Droga. Bem, pelo menos alguém se importa com você, certo? — Você é mau. — Os iguais se reconhecem. — Tenho que ir embora. — Não se esqueça. Nós temos um trato. Lucy não pode deixar de notar que a sombra que projetava cobria completamente Jesse. — Eu não lhe devo nada. — Adorei a foto da Sadie Tristonha. Já publiquei. — Então estamos mais do que quites. — Você conseguiu mais alguma coisa no setor de emergência? — perguntou ele em tom jocoso, tentando continuar a conversa. — Sim, uma consciência. — Lucy remexeu na bolsa, à procura de um cigarro e de dinheiro para pagar um táxi. — Fique longe de mim, você pode ser contagioso. Jesse percebeu que ela não encontrara o que estava procurando. — Dinheiro para o táxi? Ele puxou um maço de notas do bolso do paletó e extraiu uma nota de vinte dólares com seus dedos longos e finos. — Não me tente como você faz com todo mundo. — Já é tarde demais para essas coisas, não é? — Nunca é tarde demais. Lucy deu meia-volta sobre seus saltos de dez centímetros e colocou seus gigantescos óculos escuros, pondo um ponto final na conversa. Depois se afastou, ignorando Jesse como só ela sabia. Ela não tinha um centavo e ele sabia disso. Todos os centavos que tinha, ou pedira emprestado, ela estava vestindo. Com um pouco de sorte, pensou Lucy, talvez o cartão de metrô que estava em sua bolsa ainda tivesse uma viagem. — Verifique seu e-mail quando chegar em casa — gritou Jesse, sem se mostrar ofendido. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ela parou por um segundo, alisou o vestido, que estava subindo pelas suas coxas, e continuou a percorrer o quarteirão. Então, assegurando-se de que ninguém a estava espiando, caminhou até uma parada de ônibus no outro lado da rua, rezando para que ninguém a visse com as roupas da noite anterior. Ou pior, em uma parada de ônibus. Ela havia descido todos os degraus da vergonha. Cabelos — desgrenhados. Batom — borrado. Olhos — enegrecidos pelo rímel que escorrera. Roupas — manchadas e amarrotadas. Cabeça — abaixada de vergonha. Dignidade. Perdida.

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3 OLHEM PARA MIM I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

O setor psiquiátrico do Perpétuo Socorro ficava no último andar. "A Cobertura", como os funcionários do setor gostavam de chamá-lo. Naquele momento, tudo o que Agnes conseguia pensar é que aquele era um bom lugar para se pular da janela, o que pode ter sido o que os administradores tinham em mente quando mudaram a unidade lá para cima. O corte de custos mais simples do mundo. Agnes foi conduzida até a sala de espera deitada na padiola, mas se forçou a levantar o corpo e sentar — após ter sido "estacionada" —, girando o corpo em direção à beira da padiola até que suas pernas deslizassem para


baixo. Sentindo-se tonta, agarrou a beira da maca e a apertou, o que acabou lhe causando muita dor. Ela não havia percebido como os músculos dos pulsos e dos antebraços ficavam sobrecarregados quando usados desta forma. Levantou então a cabeça e olhou em volta. Viu-se em um aposento sombrio, gradeado, silencioso e mal iluminado, com paredes pintadas em cores neutras. Os móveis estavam discretamente fixados no chão e não tinham nenhuma aresta pontiaguda que se pudesse ver. Tudo era monótono e insípido, com uma exceção: um vitral ornamentado, que seccionava o luar que se filtrava através de seus vidros coloridos e banhava o corpo de Agnes. Eram as únicas cores que havia no andar e seu brilho caleidoscópico era repousante, até mesmo hipnótico. No lado negativo, o lugar cheirava como bolo de carne, purê de batatas, feijão em lata aguado e desinfetante. Nauseante. O almoço dos lunáticos, pensou ela. A espera parecia infindável, mas lhe deu tempo para refletir, já que estava sozinha. De repente a porta se abriu, dando passagem a uma jovem enfermeira acompanhada por um garotinho, que deixou no meio do aposento. Depois saiu e trancou a porta, sem dizer uma palavra. O menino era muito jovem, não tinha mais que dez anos. Jovem demais para estar ali, com certeza. E não se enquadrava na casa de doidos que ela esperava encontrar, depois de ouvir as histórias contadas por sua enfermeira no setor de emergência. Agnes sorriu para ele, mas ele não estava interessado em gestos, nem em estabelecer contato visual. Eles estavam sós. — Qual é o seu nome? — perguntou ela. Em um silêncio constrangedor, o garoto permaneceu sentado por um longo tempo. Imerso em seu próprio mundo, sem nenhum interesse em conversar abobrinhas com uma desconhecida. — Tudo bem se você não quiser... — Jude! — gritou o menino, como se estivesse acumulando pressão I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


dentro dele para soltar a palavra como um foguete. — Meu. Nome. ÉA Jude. Após esta elaborada introdução, Jude correu até uma velha e desgastada imagem de Jesus, cuja mão esquerda apontava para seu coração exposto. Tempo e indiferença haviam cobrado seu preço. Manchas brancas, nos lugares onde o gesso fora lascado ou quebrado, pontilhavam a estátua. Agnes presumiu que tivesse sido removida para o setor psiquiátrico para ser tirada do caminho, como quase tudo e todos ali em cima. Lembrava as estátuas que adornavam o saguão de sua escola, o Colégio Imaculado Coração, mas esta estava em piores condições — o que lhe dava, ironicamente, uma espécie de simpatia espontânea, mais agradável do que fora pretendido originalmente. Sem nenhum motivo. Sem nenhum aviso. O garoto pulou sobre o pedestal da imagem e a agarrou com ambos os braços, grunhindo e se agitando como se a estátua estivesse lutando com ele. Bem, talvez esse menino não seja jovem demais para ser um paciente psiquiátrico, pensou ela. — Diga "Tio", Jesus! — disse o garoto, tentando recobrar o fôlego. Agnes tentou não olhar. O garoto começou a ficar cada vez mais agitado e descontrolado... pendurado no pescoço de uma estátua quase em tamanho natural, golpeando com os nós dos dedos a cabeça do Salvador. — Diga! — exigiu o garoto, como se a imagem estivesse oferecendo resistência. Agnes estava atônita. Que tipo de garoto poderia agredir uma estátua, principalmente uma de... Jesus? Enquanto olhava fixamente para o rosto pintado da imagem, gotas de sangue surgiram de repente, escorrendo pela testa e sobrancelhas. Seus olhos incrédulos seguiram os filetes de sangue que caíam no chão, formando sobre o mármore encerado manchas de um vermelho vivo. Era uma prova de que é possível — para uma pessoa, pelo menos — arrancar sangue de pedra. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Por um segundo ela achou que estivesse vendo coisas, algo milagroso, até que notou os nós dos dedos de Jude, que estavam esfolados e sangrando. Impávido, o menino examinou a mão, sacudiu-a e reiniciou a seção de golpes, parando apenas para tatear a parte posterior da cabeça da estátua. Quando finalmente afastou as mãos e pulou do pedestal, encaminhou-se na direção dela. Agnes reparou que ele estava segurando alguma coisa. — Ele deixou isso para você — disse Jude, entregando a Agnes a mais estupenda pulseira branca que ela já vira. — Ele me pediu para entregar isso a você. Agnes estava perplexa. Sem palavras. Tinha a impressão de que seu coração iria explodir para fora do peito. E estava certa de que, se alguém olhasse com atenção suficiente, poderia enxergar através de seu avental hospitalar. As contas — talvez pérolas, presumiu ela — estavam enfileiradas ao lado de um talismã de ouro fosco, no formato de um coração em chamas. Ao manuseá-lo ela sentiu os cortes em seus pulsos formigarem. — Diga a ele que eu lhe entreguei a pulseira — disse o garoto orgulhosamente, sem a menor hesitação ou gagueira. — Certo? — Agnes Fremont — gritou a enfermeira. Jude ouviu a voz dela e, submissamente, voltou a sentar-se em silêncio. — Quem? Dizer a quem? — perguntou Agnes com súbita urgência, examinando a estátua com desconfiança. O menino não respondeu. Agnes estava em uma espécie de choque. Quaisquer que fossem seus problemas, aquela joia era extraordinária. Ela enfiou as contas embaixo do avental, com o talismã sob uma das ataduras, para que não fossem vistas. O coração em chamas estava machucando seu ferimento, mas a dor que causava era de certa forma tranquilizante. Ela ainda estava viva. — Agnes Fremont — gritou a enfermeira de novo, desta vez com mais impaciência. — Você vem ou não? Agnes pulou da padiola e esperou ansiosamente diante da porta, como um cachorrinho que não foi levado para passear durante o dia todo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Lançando um olhar para o garoto, que agora estava quieto como um anjo, ela acompanhou a enfermeira pelo corredor. Enquanto caminhava pelo corredor, espiava os quartos. Como nunca estivera antes em um setor psiquiátrico, foi dominada pela curiosidade e não conseguiu deixar de bisbilhotar. Aliás, todas as garotas que se encontravam nos pequenos quartos a olhavam também. Rostos após rostos, todos com ar desesperançado e desorientado. Algumas das garotas tinham um olhar ausente e outras... apenas esperavam. Agnes sentia que não tinha nada em comum com elas, exceto pelo fato de estar ali. A enfermeira gesticulou para que ela entrasse em uma sala e esperasse o médico. A sala não era como as dos psiquiatras que aparecem nos filmes, com cortinas pesadas, tapetes grossos, sofá confortável e uma caixa de lenços de papel. Além de um cachimbo aceso deixado num cinzeiro, queimando tabaco aromatizado com cerejas, e estantes de parede a parede com livros de Freud e Janov — não havia nada disso lá. Era uma sala de paredes beges, minúscula, despojada e fartamente iluminada. Combinava perfeitamente com o corredor, exceto pela ausência da iconografia religiosa que pululava no restante do hospital. Não havia estátuas. Não havia nenhum quadro de Jesus, desses que seguem a gente com os olhos. Encostado em uma das paredes, havia um armário de vidro e aço, cheio de gravuras e réplicas de cérebros, inteiros e seccionados. Ela sentou-se numa cadeira com almofadas verdes e braços de metal que estava em frente a uma mesa do tipo que se encontra em consultórios médicos, com a respectiva cadeira de espaldar alto. Havia uma placa com um nome sobre a mesa, mas tudo o que ela conseguiu ler, na posição em que se encontrava, foi diretor de psiquiatria. Ela iria se encontrar com o chefe. Distraidamente, logo viu-se cutucando uma ponta da almofada da cadeira, que saía pelas frestas do forro, não sendo a paciência uma de suas virtudes. Se não fosse isto, estaria remexendo nos ferimentos dos pulsos, que, entretanto estavam bem atados, impedindo que ela pudesse agravá- I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


los. Cada vez mais nervosa pela austeridade do ambiente, ela começou a pensar no garoto. Ele era jovem demais para ser tão pirado. Até agora ela achava que sua juventude e sua natureza obviamente desafiadora fariam com que seu recente comportamento fosse compreendido, e desculpado, como um momentâneo erro de julgamento; e que ela seria liberada com apenas alguns conselhos. Claro que ela não era mentalmente insana. A porta se abriu e um homem de meia-idade, vestindo um jaleco branco de modelo antiquado, entrou na sala. Agnes arrancou os vestígios da espuma da almofada que ainda restavam embaixo das unhas e se aprumou na cadeira, com as mãos delicadamente cruzadas no colo. Notou então que o talismã estava aparecendo sob a atadura e o cobriu com uma mecha de seus cabelos. — Olá... Ele fez uma pausa. Examinou a ficha dela para descobrir seu nome. — Agnes... sou o dr. Frey. Diretor de psiquiatria. — Estou vendo — disse ela, sem se impressionar, olhando para a placa sobre a mesa. — Trabalhando até tarde na noite de Halloween? — É uma das minhas noites mais atarefadas do ano — respondeu Frey, sorrindo. Uma das coisas que Agnes detestava nela mesma era sua impulsividade. Tinha tendência a fazer julgamentos precipitados e já não gostara do homem. Havia algo em sua polidez automática e formalidade elitista que a desagradava. Ou talvez fosse porque ele não tivesse se dado ao trabalho de descobrir seu nome antes do encontro. Fosse como fosse, ela não pretendia se abrir com ele. O médico, ao que parecia, não gostava muito de conversa fiada. Nem ela. Decidiu que iria cooperar no que fosse do interesse dela. Queria sair dali. — Tenho certeza de que o senhor já ouviu isso antes, mas... — começou Agnes. — Mas você não é louca — interrompeu ele, prosaicamente, terminando a frase sem nem mesmo olhar para ela. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Meu lugar não é aqui — disse ela, quase em tom de súplica. Inclinou-se então na direção dele de mãos estendidas, expondo inadvertidamente seus ferimentos autoinfligidos. — Essas coisas aí são tatuagens, srta. Fremont? — Ele olhou por cima dos óculos. — Não? Então é provável que seu lugar, no momento, seja mesmo aqui. Agnes recolheu os braços e abaixou a cabeça, incapaz de olhá-lo nos olhos. Mas ainda podia ouvi-lo, e ele continuou a falar. — Diz aqui na sua ficha que você é boa aluna, muito sociável, nunca esteve metida em encrencas que valha a pena mencionar e não tem nenhum histórico de depressão. — Ele folheou de frente para trás e de trás para a frente as páginas grampeadas que estavam num envelope de papel pardo. — Então, o que foi que mudou? Agnes não respondeu. Apenas se remexeu na cadeira pouco à vontade, tanto pelo incômodo da pergunta quanto pela dor do amuleto em sua atadura. — Você quer me falar sobre ele? — Por que tem sempre que ser um cara? — explodiu Agnes, tentando refrear as lágrimas que a denunciavam. — Porque geralmente é — respondeu Frey. Agnes fez uma pausa. Depois recapitulou rapidamente todos os relacionamentos que tivera, desde a primeira paixonite. Com certeza havia um padrão. Nenhum deles durava. Até suas amigas já estavam começando a dizer, de gozação, que ela não conseguia ter um namorado firme. No que lhe dizia respeito, seu coração era grande demais para que os caras soubessem lidar com ele. Se pudesse encontrar um que soubesse, tudo correria bem. — Minha mãe diz que eu me apaixono muito facilmente. — É verdade? — Eu apenas sigo meu coração. Sempre fiz isso. — Isso é uma virtude. Mas quase levou você a um beco sem saída, Agnes. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Agnes deu de ombros com indiferença. — Quando os relacionamentos terminam é como morrer. E sempre ficam cicatrizes. — É fácil se desapontar quando a gente sente com tanta intensidade, não é? Agnes geralmente não era tão cética, mas o médico tocara em um ponto sensível. — Sim. — Qual é o nome dele? — Sayer. — Me fale sobre Sayer. Agnes se sentia um tanto estranha ao falar abertamente, pois havia uma enfermeira postada atrás dela — mais para a proteção do médico, tanto física quanto legal. Uma testemunha. — Bem, na opinião da minha mãe... — começou ela. Ele abanou a mão, como que descartando o que ela estava dizendo, e se inclinou para a frente, fazendo a cadeira ranger. — Que tal me dizer a sua opinião? — Minha mãe quer controlar minha vida porque odeia a dela — explodiu Agnes. — E já entendi que você e sua mãe discordam em algumas coisas, mas eu perguntei sobre o cara. O médico a olhava fixamente. Concentrado. O que havia come' çado como uma avaliação estava se transformando em um interrogatório. Apenas naquele momento Agnes percebeu que não pensara em seu atual namorado nem mesmo uma vez desde que dera entrada no hospital. Seu interesse nele escorrera de suas veias juntamente com o sangue na noite anterior. — Ah, Sayer não era tão importante assim. Só o mais recente. — Não era importante? — Frey fitou as ataduras dela de olhos semicerrados. — Eu não vou poder ajudar se você não for sincera comigo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Eu gostava dele. Tudo bem, eu gostava muito dele. Mas minha mãe achava que ele não valia nada, como todo cara que eu namoro. Eu pus muita pressão no... relacionamento. Ele não conseguiu aguentar. Nem eu. Obviamente. — O que havia de errado com ele? — Tudo, aparentemente. Não vale nem a pena falar no assunto. — Mas vale a pena se matar? — sondou o dr. Frey. — Você ficou enraivecida porque a coisa não funcionou ou porque sua mãe podia estar certa? Agnes estava começando a achar que sua mãe e o médico partilhavam o mesmo cérebro. Ele lia sua mente e a levava a lugares aonde ela não queria ir. Ela não estava gostando disso. — Talvez as duas coisas. Mas eu acredito no amor. — Você se sente pressionada a fazer sexo? — Eu não disse sexo. Eu disse amor. Amor verdadeiro. — Você não acha que isso pode ser meio idealista na sua idade? — Qual era a idade de Julieta? — retrucou ela. O médico fez uma pausa, reparando na presença de espírito dela, principalmente considerando as circunstâncias. Não era um diagnóstico médico, mas lhe ocorreu que ela poderia ser uma pessoa muito difícil. — Mas isso é apenas ficção, Agnes. Fantasia. E veja no que deu. — Sem sonhos só existem pesadelos, doutor. Agnes sentiu que ensinara alguma coisa ao médico. — Há outras formas de resolver problemas, de lidar com eles. Terapia, por exemplo — explicou o Dr. Frey. — Suicídio não é a solução. Ela refletiu sobre as palavras do médico, conjeturando seriamente sobre se a tentativa de suicídio era legítima ou somente um meio de se vingar — magoando Sayer por traí-la, magoando sua mãe por não lhe dar apoio. — Não estou bem certa de que haveria necessidade de terapia — disse ela — se todo mundo tivesse alguém para amar e fosse correspondido na mesma moeda. Incondicionalmente. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


O Dr. Frey sorriu da ingenuidade dela. Era claro que, para ele, o amor não era a única resposta. — O que o senhor acha que acontece depois que nós morremos, doutor? — perguntou Agnes, cuja atenção se voltara para os modelos de cérebros ordenadamente dispostos no arm��rio. — Acho que você está em melhor posição para responder a essa pergunta do que eu, Agnes — respondeu Frey, inquieto; parecia que a garota estava tentando deixá-lo irritado. — Você chegou bem perto de morrer na noite passada. — O senhor com certeza conversa o tempo todo com pacientes que tentaram se matar, ou tiveram algum tipo de experiência extracorpórea. — Acho que, infelizmente, a vida após a morte está além dos meus conhecimentos — explicou Frey calmamente. — Sou um cientista. Não passo muito tempo especulando sobre coisas que não posso observar, reproduzir ou provar. — A morte provavelmente é uma experiência extracorpórea, eu acho — disse ela. — Mas o senhor não sente curiosidade? — Só posso verificar os processos bioquímicos que ocorrem no momento da morte. O apagão coletivo de sinapses e a morte das células cerebrais por privação de oxigênio. Se você estiver procurando uma explicação para a luz no fim do túnel, é essa. — Na sua opinião — esclareceu ela. — Você pediu minha opinião, não pediu? Sinto muito se não é o que você queria ouvir. — Acho que todos nós vamos acabar descobrindo quem está certo e quem está errado. — Talvez. Mas não há pressa, não é, Srta. Fremont? Agnes começou a sentir dores nos pulsos, cada vez mais fortes. Ainda era cedo para que o efeito dos medicamentos estivesse diminuindo; tinham injetado uma tonelada deles nas veias dela. Ela pensou que talvez estivesse sangrando, mas não ousou expor o bracelete na frente dele. Por que, I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


exatamente, ela não saberia dizer. De qualquer forma, o garoto fora tão reticente que ela não queria colocá-lo em dificuldades. — Você está bem? Ele acenou para que a enfermeira tomasse nota da perturbação dela. — Estou bem. Estou mesmo. Posso continuar a conversa. — Nós podemos terminar agora... Agnes engoliu em seco. — Não. Então o senhor estava dizendo que nós somos como qualquer máquina, como um motor de carro ou um computador, que quebram de repente. — Ela viu um sorriso zombeteiro nos lábios do psiquiatra. — É isso o que o senhor pensa? — Sim. — O senhor não está sendo muito romântico. — Não — respondeu ele. — Mas estou sendo sincero. — Então por que o senhor trabalha num hospital católico? — perguntou ela. — Isso não é hipocrisia? — É onde precisam de mim neste momento. As dores em seus pulsos eram lancinantes. Mesmo que quisesse, Agnes não tinha mais condições de prosseguir. Frey fez algumas anotações no prontuário dela, guardou-o e entregou uma receita para a enfermeira. — O senhor está me dando alta? — perguntou Agnes, retornando ao assunto em pauta. — Ou minha mãe está vindo me internar? — Você está sendo meio radical. — O senhor não conhece minha mãe. — Acho que você vai ser liberada amanhã, mas preciso que você fique aqui esta noite — disse ele, olhando para os pulsos dela. — Em observação. — Como parte de suas experiências? — Você não seria a primeira. — Ele estendeu a mão, quase a forçando a apertar a dele. — Foi um prazer conhecê-la. Lucy esfregou os olhos, jogou suas chaves sobre a mesa e chutou para I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


longe os sapatos de salto agulha. Depois se deitou de bruços no sofá e ligou o laptop, ajustando o contraste para enxergar melhor. O endereço do site apareceu enquanto ela o digitava. Ela clicou "entra" e aguardou ansiosamente. Há anos vinha se aproveitando da conexão Wi-Fi de um morador que não se protegera, e o acesso não era garantido. Desde que passara a morar sozinha, tornara-se mestre em cortar despesas, de modo a canalizar todo o dinheiro disponível para os cuidados com sua aparência. — Não há senhas para os bons vizinhos — disse Lucy a si mesma, quando o website desejado preencheu a tela. Lá estava, bem na página de abertura. Como Jesse dissera.

Apresentamos agora: LULUnática Será que LULU pirou mesmo? Será que perdeu o juízo? Nesta madrugada, a festeira Lucy "Sortuda" Ambrose foi removida de ambulância da burlesca boate BAT e transportada para o Hospital Perpétuo Socorro, em Cobble Hill. A festeira estava no baile à fantasia de Halloween, promovido na sala VIP da boate, quando aconteceu uma coisa absolutamente horrível, Pessoas próximas a ela dizem que ela foi encontrada no banheiro MASCULINO, desmaiada, e recebeu tratamento no local. Ela recebeu alta hoje de manhã em condições não reveladas. A polícia foi despachada até o Perpétuo Socorro para interrogá-la. Mas nem a festeira nem o porta-voz do hospital foram encontrados. Status: MATÉRIA EM DESENVOLVIMENTO! Clique AQUI para acessar uma exclusiva galeria de fotos de LULU chegando à boate no início da noite. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Esquadrinhando a página, Lucy meneou a cabeça, com ar aprova- tivo. As fotos estavam boas, o que significava principalmente que a matéria era importante. E uma das fotos mostrava com clareza sua nova bolsa e seus novos sapatos. Isto valia dinheiro. E destaque, o que significava mais coisas grátis.


— Isso agora vai viajar — disse Lucy prosaicamente, repassando o link para todos os seus websites. — Engulam essa, víboras. Entrou então nos outros sites àe fofocas. Mas, apesar de ser a melhor cobertura que obtivera até o momento, sentiu um enjoo no estômago. Até seu passatempo favorito — julgar os outros — não lhe trouxe alívio. Começou a folhear a pilha de tablóides empilhada no sofá. Foi quando teve uma epifania. Em vez de olhar as fotos de estrelas de cinema recebendo premiações — ou de férias, ou comprando roupas, ou almoçando — e sentir inveja, Lucy gastou mais alguns segundos observando atentamente cada foto. Quando mais observava, mais feias lhe pareciam aquelas pessoas, e mais agradável a experiência se tomava. Ela media sua vida em notícias a seu respeito. Seguidores e status, tanto reais quanto virtuais, eram tudo para ela. Não sendo do tipo que se arrepende de nada, ela conseguiu uma ascensão sem precedentes, comparecendo a lançamentos de livros, lançamentos de discos, pré-estreias de filmes, inaugurações de lojas, eventos para arrecadação de fundos para as doenças mais obscuras, comparecendo até, diziam as más línguas, a aberturas de envelopes. Era uma técnica já consagrada pelo tempo, que não poderia ser usada contra ela. Mas o fato é que ela obtinha muita cobertura, o que irritava muita gente — especialmente no BYTE, o blog mais lido e mais influente da cidade. Graças a ela. Ela se lembrou de como o BYTE começara há menos de um ano: como um vil jornal online criado por jesse Arens para acertar diferenças com seus inimigos — uma turma de jovens grã-finos festeiros, da qual Lucy fazia parte. Assim como ele, por falar nisso. Mas o blog não decolou até que Lucy subiu a bordo, no início involuntariamente. Jesse sabia que Lucy não era nem de longe tão rica quanto os outros integrantes do círculo e que ela estourava no início do mês a mesada que seu pai ausente lhe dava; depois ficava desesperada para obter dinheiro e atenção. Ele também conhecia seus segredos, como a história da mãe dela — uma fonte de enorme embaraço para Lucy, que ela não desejava ver divulgada. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Em um esforço para evitar um assalto à sua intimidade por parte do tablóide, Lucy concordou em colaborar. Secretamente, forneceria a ele informações embaraçosas sobre seus amigos grã-finos. E ele providenciaria para que todos os movimentos dela, tudo o que ela dissesse, comesse ou usasse, fossem noticiados. Quanto mais exclusivas as informações, mais lido era o BYTE e mais famosa se tornava LULU. O que podia ser traduzido em coisas grátis, presentes e ambicionados convites para ela. O apelido de "Sortuda" provinha do fato de que ninguém conseguia entender o que ela fazia para obter tanta atenção. Com pouco mais que audácia e ambição, ela conquistou a fama. O trato de Lucy com o diabo digital rendeu frutos. A fama podia trazer muitas coisas: convites, patrocínios, viagens grátis, roupas, acessórios, passe livre nas boates — mas havia algo ainda maior que a fama não poderia lhe trazer. Enquanto tocava suavemente na tela com a ponta dos dedos e percorria os e-mails acumulados em seu smartphone, não encontrou nenhuma mensagem de conhecidos perguntando como ela estava. Todos deviam saber de tudo, tinham que ter lido a cobertura do incidente do hospital. Mas nenhum parente, amiga ou ex-namorado escreveu para ela. Na verdade ela não tinha mais amigas, apenas competidoras. Havia se distanciado de todas devido à súbita fama e aos meios que utilizou para adquiri-la, embora, mesmo para uma mercenária da mídia como Lucy, fosse difícil trair as pessoas mais próximas. Principalmente nos últimos tempos, quando seus melhores amigos estavam cada vez mais desconfiados dela. Verdade seja dita, ela não sentiu falta deles até se encontrar no setor de emergência do hospital e descobrir, em primeira mão, que ninguém de fato sentia falta dela. Com exceção de Jesse, cujos motivos não eram exatamente puros e sempre vinham atrelados a exigências. Quanto mais avançava em sua busca frenética por alguma solidariedade online, mas deprimida ela ficava. Seu telefone tocou. Ela verificou quem estava chamando e hesitou antes de responder. Mas acabou respondendo. — Que é? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Você viu? — perguntou Jesse. — Como eu poderia deixar de ver? — Conseguimos de novo. O site está quase sofrendo uma pane de tanto tráfego. Lucy lutou contra a sensação de enjoo que começou a fermentar em seu estômago. — Onde você vai estar durante as próximas horas? — perguntou Jesse. — Na cama. — Eu vou até aí. — Eca. Não. Tarado. — Não vou aí para fazer sexo. Vou para bater uma foto. Preciso de uma foto. Os assinantes premium querem algum conteúdo exclusivo. Para ver como está... a sua aparência. Lucy estava acostumada a ser tratada assim. Como uma coisa. Na maior parte das vezes ela não se incomodava, mas nesta noite as coisas eram diferentes. — Você não pode esperar até as coisas esfriarem? — Não no BYTE. Nós só publicamos notícias quentes. Até nossas discussões giram em torno de marketing, pensou ela. — Use alguma coisa sexy, négligé e salto alto; talvez seja melhor não usar maquiagem — disse ele, dirigindo-a como sempre fazia. — Você é tão vulgar — respondeu ela, sentindo arrepios nos braços e nas pernas. — Não seja tão moralista, Lucy. Ninguém encostou um revólver na sua cabeça. — Gostaria que alguém tivesse feito isso —> disse ela. — Amanhã eu lhe envio alguma coisa. — Preciso de público e de anunciantes — insistiu Jesse. — Agora. Lucy cruzou as pernas e observou a pulseira. Os olhos do amuleto a deixaram um pouco assustada; pareciam estar olhando para ela novamente. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ela virou a pulseira ao contrário. — Nunca mais fale comigo como se eu fosse sua piranha. E você quem precisa de mim. Existe mais público para o que eu escrevo nos meus sapatos do que para o seu blog. Fim de papo, babaca! — gritou ela, batendo o telefone. O telefone voltou a tocar imediatamente. — Que porra deu em você? — perguntou Jesse. — Você ainda não percebeu que tudo isso é muito desagradável? — Não sou padre, portanto não perca seu tempo se confessando para mim. — Eu não estou pedindo seu perdão, seu escroto. — Nós temos um trato, Lucy. — Essas coisas ficam para sempre, Jesse. Nunca irão desaparecer. Os netos dessas pessoas poderão pesquisar o assunto. — E daí? — E daí que eu tenho que viver com essas pessoas, olhar nos olhos delas. Elas sabem que fui eu. Eu vejo aquele olhar de quem se sente traído quando elas leem as porcarias que estão no seu site. — Não são porcarias — advertiu Jesse. — Conteúdo. Que você fornece. Além disso, você caiu fora. Mal vê essas pessoas, com exceção de umas poucas horas em algum festival de moda. — Preciso dar um tempo. — Você não pode se desligar sem sofrer as consequências, Lucy. — Não estou lhe pedindo, Jesse, eu estou lhe comunicando. Meu Jesus — disse ela, revoltada com a ânsia dele para cafetiná-la. — Se eu não receber a foto dentro de uma hora, nosso trato morre — disse ele. Ela pôde sentir o desespero na voz dele. — É sempre a próxima coisa, a próxima foto, a próxima tragédia, a próxima falência, o próximo porre. Sempre perseguindo... alguma coisa. — Lembre-se do que está em jogo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Você quer dizer as reputações das pessoas que eu denunciei por uma mísera notícia? — As reputações delas — disse ele. — Ou a sua. A enfermeira escoltou Agnes para fora da sala e lhe entregou um copo de papel com água e um comprimido verde. — Tome isso — disse. — Acabou a terapia? — perguntou Agnes. — Isso faz parte da terapia. Agnes pôs o comprimido sobre a língua e o engoliu com um gole da água, que tinha um sabor metálico. Normalmente ela relutaria em tomar a medicação. Só tomava remédios holísticos, exceto se estivesse de fato doente. Mas agora ela esperava que aquela pílula a ajudasse a parar de pensar em Sayer, ou em qualquer outro cara por quem ela já tivesse se apaixonado. Queria ficar entorpecida. — Abra — ordenou a enfermeira. Agnes abriu a boca para mostrar à enfermeira que realmente engolira o comprimido. Após registrar a comprovação na ficha, ela entregou a Agnes uma blusa branca de hospital, folgada, e uma calça branca. Depois a conduziu pelo corredor até um grande banheiro. Ao chegarem lá ela teve que se despir. Ficou nua. Restaram apenas suas ataduras e o bracelete escondido em uma delas. As paredes do banheiro estavam forradas com ladrilhos encardidos. Ao fundo, via-se uma série de compartimentos equipados com grandes chuveiros e janelas basculantes, cujos pisos de cerâmica descaíam ligeiramente em direção ao centro, para que a água fluísse para os ralos. Na área de entrada, cortada por canaletas de escoamento, havia um longo banco de madeira. Agnes não saberia dizer se o local se parecia com um spa condenado à demolição ou com a casa funerária em que trabalhou durante um inesI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


quecível emprego de verão. Enquanto esteve lá, era sua responsabilidade, ao final do dia, pegar uma mangueira e empurrar para as canaletas os fios de cabelos, pedaços de unhas, lascas de pele, poeira, pedaços de gaze e o que mais estivesse no chão. Tudo isto se misturava ao fluido de embalsamamento, cuja cor alaranjada conferia à água suja um aspecto de sorvete derretido. Ela só trabalhou lá durante um verão, pois o proprietário do estabelecimento, o agente funerário, cometeu suicídio. Estranhamente, Agnes achou o incidente reconfortante. E este foi o ponto de partida para a sua preocupação com a vida e a morte, que ela discutira com o dr. Frey ainda há pouco. Chegou então a hora do banho. Agnes foi lavada embaixo do chuveiro. Foi uma coisa indigna, mas como tantas coisas indignas lhe deu um certo bem-estar. A água estava fria, não o bastante para arrancá-la do estupor induzido pelas drogas, mas o suficiente para lembrá-la de que era um ser humano — carne, sangue e cinco sentidos. O suficiente para que ela chorasse; lágrimas quentes se derramaram de seus olhos, atingiram os ladrilhos de cerâmica levadas pela água e desapareceram no ralo enferrujado. Ela teve vontade de desaparecer junto com elas. Ela secou-se e vestiu seus trajes hospitalares. Somente em duas oportunidades alguém usaria um conjunto todo branco como este: ao ser internado em um hospital psiquiátrico e na cerimônia de casamento. Ela então foi levada até um minúsculo quarto, sem nenhuma janela. Já havia uma pessoa lá. Era um lugar incaracterístico e impessoal. Dava a impressão de ser ocupado por alguém que jamais recebia encomendas de casa. A única peça decorativa era um quadro desbotado, que parecia ser uma imagem religiosa. Agnes a examinou com atenção, esquecendo-se de que não estava sozinha. — Santa Dymphna — disse sua companheira de quarto, com uma voz fraca. — A santa padroeira dos distúrbios nervosos e dos mentalmente I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


insanos. Agnes olhou para a garota, que estava deitada em sua cama, com o rosto virado para a parede. — Ela foi assassinada pelo pai — continuou a garota. — Ele era um rei pagão e sua mulher era uma cristã devota. Quando Dymphna tinha quatorze anos a mãe dela morreu. O pai amava tanto a esposa que ficou totalmente louco. Então tentou beijar Dymphna na boca, porque ela o fazia se lembrar da mulher. A garota fechou os olhos, reunindo forças para prosseguir. — Dymphna fugiu, Quando o pai a encontrou... puxou a espada. E então... — ela fez uma pausa e engoliu em seco. — CORTOU a cabeça dela. Ela tinha com dezesseis anos. Como eu. — Você realmente conhece bem a história — disse Agnes. — Meu nome é íris. íris se virou e olhou para Agnes. Tinha um aspecto doentio e olhos encovados. Ocorreu a Agnes que íris conhecia a história de Dymphna bem demais. — O meu é Agnes. — Bem, Agnes, por que você está aqui? Depois de encarar os olhos vulneráveis da garota, Agnes estendeu os braços à frente e expôs seus pulsos enfaixados. — É, eu também — disse a garota. — Por que você fez isso? — perguntou Agnes. — Não importa. Ninguém acredita em mim, mesmo. A garota se virou novamente para a parede. — Eu acredito — disse Agnes, surpreendendo a si mesma com a segurança de sua resposta. Talvez seja o comprimido. Ou talvez seja outra coisa, pensou ela. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


4 I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

12:51

— Obrigada, seus filhos da mãe! — berrou Cecília, uma esguia silhueta brandindo uma guitarra no palco mal iluminado do bar Continental, na Bowery. Ela estava arrasando. Como sempre. Era sua noite de glória. Quinta-feira. O show da meia-noite. A incursão no setor de emergência do hospital, no fim de semana anterior, era apenas uma vaga lembrança. Agora, quem estava arquejante eram as fãs deslumbradas, que ela dominava sem piedade, musicalmente,


como que as agarrando pela goela. A iluminação estroboscópica piscava. Feixes de luz incandescente brilhavam ao redor de sua cabeça e de seus ombros, como raios laser segmentados e multicoloridos. Os amplificadores de som surround estalavam esperançosamente. A plateia aguardava ansiosamente a apresentação dela. E lá estava ela. Silenciosa e poderosa. Uma fêmea de vanguarda vestida de branco. Uma tela em branco, capaz de ser o que a plateia projetasse nela. Com sua atitude de "não me torrem o saco" e a guitarra, sua arma favorita, Ceci estava pronta para confrontar os playboyzinhos que eram o sustentáculo das boates de Nova York. Aceitava o desafio. E tinha o aspecto adequado para o papel. Prendera na cabeça um véu de renda branca, que obscurecia seu rosto até para quem se encontrava à beira do palco. Usava os cabelos romanticamente desgrenhados e seu pescoço, fino e longo, estava desguarnecido. Vestia um transparente colete de kevkir branco, amarrado com tiras de velcro, e uma calça McQueen, aparentemente comprada num brechó. Perneiras de vinil atadas na frente cobriam suas pernas. Sobre um dos ombros desnudos fixara uma dragona, de onde partia uma faixa de contas que cruzava seu tronco. Suas unhas estavam pintadas de branco e cobertas com algumas letras quase invisíveis — ela mergulhara as unhas em álcool e as pressionara contra a Bíblia que Bill, seu amigo e poeta sem-teto, comprara para eles. Seus olhos estavam pintados de preto e cinza, e os lábios, com um batom cor de carne. De pé sobre o pedestal da bateria, Cecília olhou para a sala comprida e estreita, observando a multidão. Mantinha as pernas afastadas, a guitarra Fender pendurada no peito e um dos braços esticado para a frente, como se estivesse apontando uma arma para a plateia. Uma postura agressiva, que ela gostava de adotar. Sorridente. Linda. Atrevida. As pessoas não compareciam propriamente a seus shows semanais, seria I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


mais exato dizer que se agrupavam em torno deles. Ela atraía uma multidão heterogênea e tinha orgulho disto. Garotos das vizinhanças se misturavam a alunos de escolas de elite, namorados puladores de cerca, garçons carregados de bandejas, estilistas de músicos famosos que pretendiam "tomar emprestado" sua mise-en-scène, um grupo de garotas exageradamente entusiásticas que se aglomerava à beira do minúsculo palco e quatro ou cinco caras que tinham vindo apenas para comê-la com os olhos. Um monte de gente tinha comparecido a seu show, mas não a única pessoa que ela gostaria ver. Ela sabia que não tinha o direito de exigir que ele viesse, mas estava decepcionada mesmo assim. Olhou por sobre as cabeças dos presentes, aspirando o fedor do próprio suor, do piso de madeira marinado em cerveja derramada, de saliva, de fumaça e de guimbas de cigarro — pisoteadas antes que as leis que regulamentam o fumo tivessem sido sancionadas. Uma típica noite de quinta-feira, exceto pelo novo acessório que ela estava usando: a pulseira que lhe fora dada no hospital. Estava amarrada em torno do bíceps, apertada como um torniquete. O talismã de ouro que pendia da corrente acrescentava um toque inusitado às suas vestes brancas. Para ela, os aplausos eram irrelevantes. Faziam parte da comunicação. O que ela procurava eram os olhares de adoração nos olhos dos fãs. Era o que ela necessitava. Era o respeito deles, não a aprovação, o que a deixava excitada. Era o que a inspirava. Era o mesmo tipo de compulsão que impulsionara seus heróis musicais, as pessoas que admirava. A compulsão de falar a verdade. De revelar às pessoas o que elas, no fundo, já sabiam. De sacudi-las. Sebastian era um completo desconhecido, mas percebera isto nela. E ela sentira a mesma vibração nele. Ela não pretendia tomar um caminho seguro. Seu objetivo era trazer o risco, o inesperado, de volta à música. E de volta à vida, por falar nisso. No fundo ela só queria acabar com as frescuras, pelo menos no palco, onde criara um tipo que lembrava simultaneamente um soldado ferido e I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


uma lâmina afiada — porém mais uma faca que uma espada. Uma velada sugestão de violência e ruptura estava sempre presente. Ela não tinha medo de revelar seus culhões femininos. De ser durona. De ser intimidadora. A rainha guerreira em sua própria distopia. Ainda mantendo a pose dramática ela olhou além das luzes brilhantes e se concentrou nos olhos dos presentes. Era uma coisa hipnótica. Depois passou algum tempo observando cada um deles. Inspecionando a multidão à procura de alguém em particular. Sebastian. Mas não o encontrou em lugar nenhum. Ele não viera. Prestou atenção em cada um dos espectadores. Todos olhavam para ela. Aguardando o que ela faria em seguida. Os barmen descruzaram os braços. As garotas se quedaram imóveis. Os caras continuaram à espera. Pacientemente. À espera dela. De que ela fizesse algum movimento. Lentamente ela abriu a mão, mantendo contato visual com a plateia, e deixou cair a guitarra. Os olhos solitários, perdidos numa noite de quintafeira, esperavam que ela fizesse alguma coisa. Uma coisa que, ela percebeu, não poderia lhes dar. Não naquela noite. — Que diabo está acontecendo? — gritou um cara na multidão. — Toque para nós! A multidão começou a cantar em uníssono: — Cecília, toque para nós! Se eu não puder tocar para ele, pensou ela, vou tocar por ele. Ela tirou a pulseira do braço e a entrelaçou nos dedos, formando o mais deslumbrante soco inglês já visto. Depois segurou o talismã entre o polegar e o indicador, como uma paleta, e recolheu a guitarra do chão. Executou, I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


então, um solo melancólico, canalizando seus sentimentos em uma voragem de agressão sonora, ferindo as cordas de aço com o arco do amuleto e alimentando implacavelmente os amplificadores e os ouvidos dos espectadores. Dedilhando as cordas com fúria, arrancava notas com tanta paixão que quase desafinou a guitarra. A extremidade pontuda da espada do amuleto penetrou profundamente em sua mão. Gotas de sangue deslizaram até a ponta de seus dedos e caíram sobre o corpo da guitarra. Sem articular uma única palavra, ela disse a uma atônita plateia tudo o que precisava dizer. Exausta e à beira das lágrimas, ela se virou para o baterista e movimentou os lábios, formando as palavras não consigo. Mas já conseguira. Pulou então do palco, guitarra em punho, e se dirigiu às pressas para o closet nos bastidores que era usado como camarim. Chegando lá pressionou sua bolsa, para verificar se a carteira ainda estava no lugar, olhou-se com indiferença no minúsculo espelho preso na porta e se dirigiu à saída. — Aonde você pensa que vai? — perguntou uma voz áspera. — Eu lhe paguei por um show de uma hora. — Você não me pagou, Lenny — lembrou Cecília. — O trato foi que eu ficasse com o convert e você com o lucro do bar. — Que lucro do bar? Esses maníacos que você trouxe são menores de idade. Eu não ganho dinheiro vendendo refrigerantes. — Isso é problema seu. — Agora é seu. Não volte mais aqui. — A ideia é essa. Cecília não sabia o que dera nela. — Eu estava lhe fazendo um favor. Deixando que você se mostrasse aqui. Construísse alguma coisa. Uma legião de fãs. — Favor? — bufou ela. — Você quer dizer a foto que você tirou de mim mudando de roupa com a câmera que plantou no banheiro? Você só está a fim de me comer. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Não, obrigado, querida — disse Lenny, sacudindo um dedo artrítico. — Tenho um pouco de medo do que poderia ver quando você tirasse a roupa. — Agora me pague — ordenou Cecília, estendendo a mão ensanguentada. — Ah, você é como os outros. Você ferra com um cara e depois quer ser paga. Cecília permaneceu imóvel, esperando que Lenny lhe pagasse. Mas ele agarrou a mão dela e, em vez de lhe dar o dinheiro, pôs a língua de fora e lambeu a mão dela, com sangue e tudo. Depois cuspiu no chão e a xingou. — Você não vai receber nem um centavo de mim depois dessa merda de apresentação. — Fique com o dinheiro — disse ela, limpando a saliva e o sangue de sua mão na camisa dele. — E o herpes. Ao sair do quarto, Cecília notou um rosto familiar na penumbra. Ricky Pyro. Punk e drogado, mas um vocalista promissor. Com certeza não era o cara que ela esperava ver. Era muito diferente de Sebastian. E curiosamente, embora conhecesse Ricky há muito tempo e Sebastian só há alguns momentos, tinha a impressão de que conhecia menos Ricky. Seu apelido favorito para ele era "sociopata". Era um que só pensava em si mesmo. Sem modos. Grosso. Completamente diferente de Sebastian. Ricky era um colega no circuito musical e, às vezes, parceiro sexual, nem sempre dos mais agradáveis. — Você viu meu show, não viu? — perguntou ela. — É, eu vi. — Bem profissional. Ele meneou a cabeça, concordando. — Curto, porra, mas incrível. — Tenho que ir embora. É a sua vez? — É. — Como seu conjunto vai se chamar hoje? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Pagãos — respondeu ele, enfiando uma das mãos no bolso e a olhando de cima a baixo. — Parece familiar. É melhor chamar seu advogado — troçou ela, sabendo que ele era tão duro que promovia o próprio conjunto, fingindo que era um agente. Mas ela fazia isso também. — Aquela banda se chamava Os Pagãos, espertinha — lembrou ele, sem explicar o que mais havia de diferente além do artigo. — Eles formavam um conjunto punk. Fui falar com o vocalista. Ele agora é zelador de um prédio ou coisa parecida. Disse que a gente poderia usar o nome se a gente cantasse uma das músicas deles todas as noites. Ele ainda tem os direitos autorais. Negócios, sabe? — Ele deve ter um catálogo valioso. Como é o nome da música? — "Por que chamam essa porra de amor?" — Lindo. Quebre a perna1. Ah, e obrigada por me levar para o hospital naquela noite. — Hospital? — Deixe pra lá — disse ela, dirigindo-se rapidamente para a porta. — Para onde você vai? — Não sei — respondeu ela, enquanto abria a porta, deixando o silêncio da rua ser sugado pelo barulho da boate. — Ah, e falando nisso, eu já estou melhor. Obrigada por perguntar. — Vamos transar mais tarde? — Não — disse ela, pensando nas fãs dele, que matariam para transar com ele. — Não se apaixone por mim, Ricky. — Tarde demais — replicou ele. Ela olhou com ar condescendente para os outros integrantes do conjunto dele. — A propósito, seja qual for o nome que você dê a eles, eles vão ser sempre uma droga. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

1

Expressão utilizada no meio artístico. Equivale a "boa sorte". (N.T.)


— Não uma droga tão gostosa quanto você — gritou o baterista. Ceci abriu mais a porta e saiu para o beco, onde algumas de suas fãs — as mais obstinadas — haviam se reunido. Suas "apóstolas", como ela as chamava. Todas haviam tentado se vestir como ela, com diferentes graus de sucesso. Ela gostava delas, de sua lealdade e devoção principalmente, mas no momento elas não eram o bastante. — O que aconteceu? — gritou uma delas, quando ela passou às pressas pelo grupo. — Está tudo bem? — Tudo bem. Ela sorriu sem muita convicção, como alguém prestes a vomitar, e continuou a andar. — Maneiro esse bracelete — gritou outra garota. — Onde você conseguiu? — Um cara — respondeu ela, preferindo guardar os detalhes para si. Ela levantou o braço, tanto para exibir a pulseira quanto para dar um aceno de adeus. As garotas arregalaram os olhos, cobriram a boca e riram silenciosamente, devorando a informação confidencial que tinham acabado de receber. Cecília estava sendo rude e suas fãs não mereciam isto. Mereciam uma explicação, mas o que ela ganharia pregando para convertidas, para suas seguidoras?, pensou ela. Dissesse o que dissesse, elas apenas balançariam a cabeça, ouviriam atentamente com ar compreensivo e concordariam com cada palavra. Ela precisava de críticas, de algum distanciamento. Talvez devesse confessar a elas que suas bravatas de poder eram um monte de baboseiras, uma personagem de palco que ela vestia e despia do mesmo modo que trocava de roupa ou de namorados. Que o dono do clube era um pervertido que ela sutilmente encorajava a manter seus shows semanais; que ela mal conseguia ganhar o suficiente para pagar o táxi com o que arrecadava com a venda de ingressos e downloads dos shows; que ela se deixara usar por todos os imitadores dos Strokes vestidos com jaquetas de I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


couro e calças apertadas, de Williamsburg até o East Village2; e que ela finalmente estava cheia. Caso precisasse de alguma prova disto, ela ainda estava tossindo a sujeira que absorvera na poça de lama, no fim de semana anterior. Mas pelo menos estava reconfortada pela certeza de que dera aos fãs uma interessante atualização de status, para que adicionassem às respectivas coleções. Embusteiros, mentirosos, vigaristas, aproveitadores, imitadores e até pior. Ela os aceitara pouco a pouco, até que tudo parecesse quase... normal. Até se sentir à vontade com eles e consigo mesma por tê-los escolhido. Até quase ter necessidade deles. Estava iludindo a si mesma, sabia, mas isto a ajudava a encarar o dia — e a noite — na maior parte do tempo. Sebastian parecia ser o antídoto a tudo isso. Mas talvez não fosse. Nem se dera ao trabalho de comparecer a seu show. — Sei escolher bem — disse a si mesma, com ironia. De repente, ela sentiu um encontrão no peito, que a despertou de seus devaneios. — Ah, mil desculpas! — disse uma voz doce e trêmula. — Preste atenção! — vociferou Ceci, contornando a pessoa que havia esbarrado nela. — Você poderia assinar isso para mim? — pediu a garota, humildemente, estendendo um folheto do show, com várias fotos de Cecília. — Se não for muito incômodo. Cecília se imobilizou e rangeu os dentes. Era a última coisa que desejava fazer naquele momento, mas ainda se lembrava de quando ninguém se importava com ela. Seu ego entrou em cena. — Claro. Ceci pegou o folheto rosa e verde, em estilo punk, dos trêmulos dedos da garota. — Estou vendo que me anunciaram hoje à noite — disse ela, perI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

2

The Strokes — conjunto norte-americano de indie rock. Williamsburg — área do Brooklyn, distrito de Nova

York. East Village — área de Manhattan. (N.T.)


cebendo que Lenny precisava mais dela do que ela dele. — Eu não tinha visto esses folhetos. — Tenho certeza de que as suas fãs penduraram esse folheto nas paredes dos quartos delas — comentou a garota. Cecília olhou para ela. A garota percebeu que também era uma dessas fãs. — Qual o seu nome? — perguntou Cecília, impacientemente. — Catherine — disse a garota, incapaz de disfarçar sua excitação. — Sou de Pittsburg também. A cidade de Nova York, principalmente o Brooklyn, tem uma coisa engraçada, pensou Cecília. Se você está vivendo lá, você é de lá. Dizem que, depois de dez anos, você é considerado um nativo, mas na verdade o tempo não importa. Você é logo absorvido pela cidade. Sua ficha é apagada. Pittsburg era uma lembrança remota para ela. Era outra vida. — O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, fitando a própria mão enquanto assinava o nome. A garota apenas deu de ombros e deu um largo sorriso. — A mesma coisa que você. Tentando ser alguém. Encontrei um fotógrafo de Nova York online, que disse que eu deveria ser modelo. E uns caras do conjunto de Ricky Pyro disseram que eu devia gravar um disco. Cecília se arrepiou um pouco à menção do nome de Ricky, e um olhar contrariado atravessou seu rosto. Levantando a cabeça e olhando a garota direto nos olhos, podia ver que ela era jovem, talvez um poüco mais jovem que a própria Cecília. Tinha pele e olhos claros. Era bonita e recatada. E alegre, sem ser irritante. "Real" seria uma boa palavra para descrevê-la. Cecília viu algo de si mesma na garota. De si mesma há cerca de um ano. Quando a desilusão ainda não havia se instalado. Teve vontade de dizer alguma coisa, mas não o fez, sentindo que não lhe competia. Catherine continuou a falar, quase sem fôlego. — Ricky disse que nós poderíamos gravar um vídeo e colocá-lo na internet. Assim a gente poderia conseguir algumas apresentações ou parI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


ticipar de um show de calouros na tevê. — É. Bem, não fique roendo as unhas, esperando a sua vez da roda da fortuna parar no seu número. — Eu achei que deveria tentar de tudo. — Catherine — disse Ceci severamente. — A vida não é um jogo. — Você sabia que ainda existem algumas garotas que ficam rondando a sua antiga casa? — informou Catherine, entusiasmada, como se esta pequena fofoca significasse muito para ela. — Acho que são fãs de seu primeiro conjunto, de quando você estava com, o que, quinze anos. Desculpe, mas não me lembro do nome do conjunto. — The Vains — disse Cecília, com um leve sorriso nos lábios, quando a lembrança de seu primeiro trio psyche pop, só de garotas, passou por sua mente. — Nós fomos muito bem por alguns minutos. Foi antes do seu tempo, não? Catherine sorriu também, acanhadamente. — Por que vocês terminaram? — As coisas de sempre. Calúnias de colegas do grupo. Namorados dominadores. Egos fora de controle. Então eu saí — explicou Ceci, em tom quase melancólico. — Mas o motivo principal foi que eu achava que elas não estavam interessadas em música tanto quanto eu. E aqui estou. — Acho que é mesmo difícil saber o que a gente quer com tão pouca idade — disse Catherine, com ar solidário. — Ou com qualquer idade, por falar nisso. — É mesmo? Eu sabia o que queria fazer quando tinha cinco anos — retrucou Cecília asperamente, pois não era de ficar paparicando ninguém. — Se a coisa estiver dentro de você, ela vai encontrar você. Ou você logo vai encontrar a coisa. Se não estiver... Catherine estava consternada. A diatribe de Ceci parecia um tanto pessoal. Parecia mais um ataque. Mas era também inspiradora, pensou Catherine, de certa forma. Ceci acreditava no mito do rock and roll. Catherine podia ver isto. Uma verdadeira crente. Nascera para o que estava I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


fazendo. E sabia disto. E ninguém conseguiria convencê-la do contrário. Entretanto, apesar da autoconfiança de Ceci, a expressão de mágoa em seu rosto era muito reveladora. — Parece que seus pais não gostam muito daquelas garotas que ficam rondando a sua casa. As persianas das janelas estão sempre baixadas e eles nunca falam com nenhuma delas. — Surpresa nenhuma — disse Cecília pouco à vontade. — Eles também não falam comigo. — Ah — disse Catherine, sentindo que tocara em um ponto sensível. — Eles não aprovam o que você está fazendo? — Não aprovam? Cecília levantou a voz e contraiu o nariz, como se tivesse sentido cheiro de esgoto. O verbo aprovar quase lhe dava calafrios. Fosse qual fosse o contrário de aprovar, era o que seus pais achavam de suas escolhas e justificava o pouco apoio que lhe tinham proporcionado. Fora por isto que ela saíra de casa. Ela deixara de procurar o apoio deles no instante em que descera do ônibus, em Port Authority. O fato de Catherine ter usado esse verbo dizia tudo o que Cecília precisava saber sobre a garota. Ela ainda se media pelos padrões de seus pais. Ingênua. Dependente. As vozes deles ainda ressoavam em sua cabeça. O que poderia ser uma coisa perigosa nesta cidade. Pessoas complacentes aqui eram devoradas vivas e cuspidas como ratos de esgoto na linha C do metrô. — Desculpe, eu não queria me intrometer na sua vida — disse Catherine. — Tudo bem. Já faz muito tempo. Já superei. Eu consigo toda a aprovação de que preciso com isto aqui — observou Cecília, fazendo um gesto de cabeça em direção ao estojo da guitarra. Catherine percebeu que Ceci esgotara todo o seu estoque de paciência e polidez, e estava dando por encerrada aquela conversa sobre reminiscências. — Então, algum conselho? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Cecília fez uma pausa, pesando as palavras. — Volte para casa, Catherine — disse ela, com um sorriso tenso, enquanto puxava uma garrafinha de vodca do bolso do casaco e a erguia como que num brinde. — Só isso. Volte para casa.

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5 OS ESTÁGIOS DA QUEDA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Caminhando pelos santificados corredores do Colégio Imaculado Coração, Agnes sentia-se como um alarme de automóvel disparando após a meianoite, tendo as bandagens nos pulsos como sirenes. A tensão era quase insuportável, até mais que os ferimentos em seus pulsos, os quais ainda sangravam, ameaçando se infiltrar pela manga do suéter de seu uniforme azul e manchar o livro de história. Estar de volta à escola era uma coisa humilhante, mas ainda melhor, na opinião dela, do que estar em casa. Ainda assim, os deboches que estava esperando por parte dos colegas com certeza seriam piores e mais


contundentes do que os ferimentos que infligira a si mesma. — Adereços novos? — foi o sussurro dissimulado que ela ouviu de uma loura magricela que passou pelo corredor, rodopiando um dedo e olhando para as ataduras. Quanto mais as pessoas comentavam, mais Agnes levantava as mangas do agasalho, expondo-se desafiadoramente ao ridículo. — Adorei sua pulseira. Ela estava sendo bombardeada. Com palavras. — Que menina infeliz. — Na próxima vez, tente para valer. Ela aguentou tudo. Todas as agressões verbais. Fechava os olhos após cada uma delas, recuperava-se e seguia em frente. — Escolha a vida! — gracejou outra, agitando o livro que carregava, como um crente fanático brandindo uma Bíblia. — Babacas — murmurou Agnes, baixinho. Sem olhar para os lados, ela continuou a caminhar, aguentando as zombarias com impávida dignidade. Havia dignidade em desejar morrer por alguém ou por alguma coisa, disse a si mesma. O que transformava as chacotas em algo mais suportável. Sua amiga Hazel surgiu ao lado dela. — Garotos. Não se pode viver sem eles, nem morrer por causa deles. — Agora não, Hazel — disse Agnes, dando um sorriso. — Depois eu converso com você. — Espero que sim! — respondeu Hazel, rindo da própria piada. Agnes continuou a percorrer o corredor; sabia que todos olhavam para ela. Ninguém se aproximou dela. Estava se sentindo traída. Mas era difícil recriminá-los. Não que ela fosse particularmente generosa, pois não era. E que aquelas pessoas não eram inimigas. Nem amigas também, na realidade, estavam mais para conhecidas. Pessoas com quem conversava, após as aulas, ou nas festas, com quem se reunia para fofocar, falando mal de alguém ausente. Elas faziam parte de sua turma e ela I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


fazia parte da turma delas, seja lá o que isto signifique. Todas divertidas, mas insensíveis por dentro. Ela não poderia esperar solidariedade por parte delas, mesmo que soubessem como expressá-la. Sabia como elas eram e como ela mesma era, às vezes. Mas passar a ser o alvo não era nada agradável. Era ruim. A campainha tocou anunciando a próxima aula. Estou salva, pensou Agnes, sentindo-se mais como se estivesse em um ringue de boxe, não no corredor de uma escola. Ela não esperava muita clemência e não estava obtendo nenhuma. O melhor era manter a guarda. Principalmente porque acabara de vê-lo entrando no corredor. Ela deu meia-volta, esperando que a adrenalina que latejava dentro dela a ajudasse. — Posso ouvir você revirando os olhos — disse ela, sentindo que Sayer estava atrás dela. — Oi — disse ele, tentando parecer preocupado. — Andou chorando? — gracejou ela, notando os olhos avermelhados dele e sabendo muito bem que ele estava drogado. — Como você está? — perguntou ele. — Mas, a propósito, como você está? — respondeu Agnes. Sayer era esbelto e usava os cabelos compridos; parecia sempre confuso e nervoso, com um eterno sorriso no rosto, como se estivesse prestes a ser apanhado fazendo algo errado e não soubesse o que era, exatamente. Sua postura natural se adequava com perfeição à situação presente. A indiferença dela é que era inesperada. Ele achava que enfrentaria uma atitude hostil, mas Agnes parecia estar lhe oferecendo um cachimbo da paz. — Tudo bem — disse ele. — Ah, que alívio. Eu achei que você podia ter quebrado os dedos, ou as pernas ou uma coisa assim. Enquanto conversava com ele, ela apertou o talismã em forma de coração, que ainda estava sob a atadura, e o contornou com o dedo. — Hein? — Pois é, não sendo por um motivo desses, eu achei que você viria me I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


visitar, ou telefonar ou pelo menos me enviar uma mensagem — prosseguiu Agnes. — Mas então me lembrei das erupções solares. — Erupções solares? — Elas ferram com a internet. Quer dizer, deve ter sido uma coisa muito drástica para você não ter vindo me visitar nem perguntar como eu estava, certo? — Cortar os pulsos é uma coisa muito drástica, Agnes — murmurou ele, dando uma risadinha nervosa, que só ressaltou sua insensibilidade. — Foi, tipo, assustador. Não sabia o que fazer nem o que dizer. — Então você não fez nada — disse ela. — Nem falou nada. — Não exatamente — replicou ele. — Pensei em você o tempo todo. — Quer dizer que agora tenho que ser telepata? Pensando em mim? Quando? Entre um baseado e outro? Pela primeira vez ela estava conseguindo vê-lo como o drogado egoísta, descabelado, atarantado e fingido que sua mãe desaprovava com tanta veemência. O despropósito daquela conversa a tirou completamente do ar, e ela começou a se recriminar por ter sido tão boba e impulsiva, por seus momentos de fraqueza e rebeldia. Mas alguma coisa de boa resultara desse episódio de autodestruição, fora que a névoa cerebral que eclipsava o relacionamento se dissipara. Graças a Deus ela não tinha dormido com ele. Finalmente ela e sua mãe concordavam em alguma coisa. — Doeu? — perguntou ele lentamente, esfregando um dedo no próprio pulso, para dar ênfase. — Não tanto quanto agora. — Acho que um cara não vale isso. — Um cara? — exclamou ela em um tom de voz que os pais e os advogados utilizam quando fazem uma pergunta importante. — Estamos falando de você. Ele não era muito rápido de raciocínio, e respondeu ao sarcasmo dela com desculpas embaraçadas. — Desculpe, está bem? — gemeu ele, na mais autêntica demonstração I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


de emoção que ela jamais arrancara dele. — Só isso? — sibilou ela. — Você me traiu! — Eu nunca disse que nós éramos namorados. — Você sabia o que eu sentia por você. — Era pressão demais, todo esse negócio de amor — disse Sayer. — Eu só queria me divertir um pouco. — Isso parece divertido? — gritou Agnes, alto o bastante para interromper o tráfego no corredor, e erguendo os pulsos com as bandagens até a altura do rosto dele. Sayer apenas abaixou a cabeça. — Estou perdendo meu tempo — disse Agnes, virando as costas para ele e remexendo em seu armário. — Acho que você foi só uma desculpa. Para mim. — Você me perdoa? — perguntou ele, pousando a mão no ombro dela e tentando apresentar a expressão mais desolada que podia. — Por favor. Surpresa com este gesto de solidariedade, ela olhou para ele e, por um segundo, pensou honestamente no assunto. Ele estava arrependido, pelo menos tão arrependido quanto possível, para ele. Ela podia ver isto, mesmo através do rosto inexpressivo dele e de seus olhos vidrados. Mas na: cabeça dela ele agora ocupava o território de "o que eu estava pensando?". O pior lugar para um cara estar. — Minha mãe estava certa a seu respeito — disse Agnes, quase se engasgando com as palavras. — Pelo menos agora você admite isso. Nós dois sabemos que isso nunca teve nada a ver comigo. — Não inverta as coisas — retrucou ela, começando a derramar lágrimas, mais por embaraço que por mágoa. — Você me usou. Acreditei em você. — Não realmente, não tive chance de usar você, lembra? — Quer dizer que, se eu tivesse dormido com você, você se importaria? Que piada — rosnou ela, agarrando o braço dele com força. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ele permaneceu imóvel, de cabeça baixa e fazendo beicinho, como uma criança, esperando terminar o intervalo entre as aulas. Ela largou o braço dele e o empurrou para longe. — Quase morri por você — disse. — Quase esperei por você — respondeu ele. Como se isto tivesse a mesma importância. Como sempre, Lucy foi imediatamente levada até a área VIP da Sacrifice, a luxuosa boate do Brooklyn. Ambas as pontes — a do Brooklyn e a de Manhattan — iluminavam o espaço escuro, criando halos ao redor dos convidados e clientes famosos. Ela acabara de tingir de louro os cabelos, que se apresentavam lisos e reluzentes. Nas orelhas, trazia brincos com imitações de diamantes, aureoladas por filetes de ouro. Trajava um vestido-túnica de grife, curto e cinzento, com as mangas de pele de raposa tingidas de azulturquesa. A mesma cor de seus sapatos de pelica, cujos saltos-agulha eram adornados com filetes dourados, para combinar com os brincos. É espantoso, pensou ela, como a gente se acostuma rápido com um tratamento VIP, quer a gente mereça ou não; e também a perder este status. Todo mundo acabava perdendo um dia. Era como a morte. Sempre assomando à frente e se tornando nosso destino. Mais incrível ainda era o curto espaço de tempo que havia em obter tal status, ter de suplicar por ele e finalmente perdê-lo. Era uma coisa viciante, como qualquer droga. Enquanto olhava ao redor, procurando alguém que de fato conhecesse, ouviu alguns cumprimentos. Mas só viu menores de idade trocando opiniões banais, expressões curiosas em faces cheias de botox, rostos recompostos por cirurgia plástica, Coringas com sobrancelhas anormalmente arqueadas e lábios inchados emoldurando sorrisos tensos, impossíveis de se distinguir de caretas. Caçadores de atenção digital com um milhão de perguntas que ansiavam fazer, cujas respostas ansiavam vender para quem oferecesse mais. Um duelo de ambições mais intenso que a escalada de qualquer pirâmide corporativa ou hierarquia colegial. Um esporte sanguinário que cheirava a perfume, em vez de transpiração. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


A competitividade era palpável, contagiosa. Ela a reconhecia nos outros por ser um deles, um dos contaminados. Indivíduos que surfariam qualquer onda que os levasse até às margens de suas fantasias de Quinta Avenida. Não importava que pegassem uma onda limpa ou uma que os arremessasse sobre a areia, eles eram sempre os mesmos. Dia diferente, mesma noite. Sempre a mesma coisa. Jesse estava enfurnado em seu compartimento mal iluminado, sozinho por opção própria, observando aquele miniuniverso em ação, como um telescópio Hubble em tamanho de bolso. Ele estava empoleirado em um lugar estratégico, com uma visão panorâmica, tendo a cidade e as pontes iluminadas como pano de fundo. Uma barcaça de lixo — coisa bem apropriada para ele — navegava no East River. Jesse estava vestido de preto, como sempre, o que o eclipsava na penumbra, exceto por seus olhos, sempre perscrutadores, e suas mãos, sempre martelando teclas invisíveis, como o Homem Invisível, só que ao contrário. Ela captou seu olhar e lhe virou as costas, bem no momento em que ele levava um dedo até a sobrancelha, numa espécie de saudação vulgar. Ela não sabia ao certo se era um reconhecimento de que ela havia chegado, ou um sinal de que ele estava ali. De qualquer forma, ele era a última pessoa que ela desejava ver. De repente, abafando a música do DJ, Lucy ouviu atrás dela uma voz esganiçada e agressiva, que não reconheceu. — Sua puta! — gritou a encolerizada socialite, estapeando o ar próximo à cabeça de Lucy. — Sua delatora fingida! Lucy tinha uma boa visão periférica e um instinto de sobrevivência ainda maior, e facilmente se desviou da garota furiosa. Mas esta, de forma rápida e determinada, deu meia-volta e agarrou algumas mechas de cabelos de Lucy com suas garras manicuradas, puxando sua cabeça para a frente. Lucy não conseguia enxergar nada, com exceção dos brilhantes saltos-agulhas dos sapatos da oponente, cravados no tapete vermelho e iluminados pelos flashes eletrônicos de cameras e telefones celulares. Lucy agarrou as pernas da garota pelos joelhos e a derrubou de costas, em meio a uivos e I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


gritos, a maioria emitido pelos caras em volta que consideraram a exibição de calcinhas como um brinde para os clientes. Estranhamente, o que mais preocupava Lucy era sua pulseira. A possibilidade de que fosse danificada. A segurança chegou antes que a briga de mulheres evoluísse mais, e as duas VIPs foram separadas contra a vontade. Lucy por fim conseguiu ver sua adversária, que reconheceu como a atual namorada de Tim, o cara que ela entregara para Jesse. O cara que estava com Sadie no hospital. Mas como poderia ela, aquela bonequinha retardada, ter conseguido conectá-la com o fato? Como ela poderia saber? Lucy lançou a Jesse um olhar de desprezo. Fora ele. Tinha que ter sido, pensou ela. Vingança por sua ingratidão e um aviso do que tinha em estoque para uma protegida rebelada. Ele devolveu o olhar por um segundo e, em seguida, começou a martelar febrilmente as teclas de seu celular. — De que círculo do inferno essa garota escapou? — perguntou alguém. — Mas quem é que se importa? Isso vai dar o que falar. — Essa festa estava uma chatice até agora — disse outra voz. — Você viu Jesse ali? Ele viu a coisa toda. — Você deveria entrar em contato com a companhia de próteses capilares — comentou uma terceira. — Xena conseguiu arrancar um bocado de cabelos da sua cabeça. Igualmente aturdida pelo violento ataque e pela calculada indiferença dos desmiolados bêbados que a cercavam, Lucy olhou vagamente para a frente, tentando imaginar como descera tão baixo. — Estou bem, obrigada — murmurou sarcasticamente, ao notar que ninguém se dera ao trabalho de lhe perguntar como ela estava. Ela ainda não bebera nada e a sala já estava girando. — Nós vimos a notícia no BYTE, na semana passada — disse mais alguém. — Foi legal você ter ido parar no hospital. Foi muito... eficiente. — Vou ter que aumentar minha lista de contatos quando for parar no hospital — acrescentou uma garota. Um ano atrás, esta garota poderia ser eu, pensou Lucy. Emitindo I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


comentários irritantes sobre minúcias da vida social de puxa-sacos de elite. Ela era como eles, exceto que, de certa forma, já não era. Não desde que estivera no hospital. Calculista, astuta, interesseira e egoísta, sim. Mas não mais sem consciência. Preferia pensar em si mesma como uma flor entre ervas daninhas. Uma única flor que sobressaía na terra inculta. O problema era que, como todas as flores entre ervas daninhas, estava começando a sufocar. Ela havia se tornado um ídolo para eles, era aquela que iluminava o caminho para as outras criaturas atraentes e ambiciosas — mas sem outra qualidade digna de nota. Arrivistas sociais da Big Apple. Ela era a própria Imagem da Celebridade. Sua tocha de notoriedade brilhava intensamente nas coberturas VIPs da cidade. Mediante uma taxa, é claro. Mas não era um direito inalienável, como ela acabara de perceber. "Traga-me seus seguidores egoístas e sedentos de fama..." Ela erguera a lâmpada ao lado da porta dourada. Mas, cada vez mais, sentia que a luz em seu interior estava se extinguindo. — Com licença, Lucy — disse outra voz atrás dela. Na mesma hora ela se contraiu, pronta para ser agredida por mais uma idiota. — Ah, Tony. — Ela suspirou de alívio ao ver um rosto amigável e abraçou o homem corpulento. — Graças a Deus. — Escute, Lucy — disse o leão de chácara da boate, afastando os braços dela e falando da forma mais confidencial possível num lugar tão público. — Não posso deixar isso acontecer aqui. Eu soube que os tiras se envolveram naquele negócio da semana passada, e não quero mais problemas que os que já tenho. Os proprietários estão furiosos. — Você deve estar brincando comigo — disse Lucy, perplexa. — Estou lhe pedindo, como amigo, para você não voltar mais aqui. Pelo menos por algum tempo. — Eu fui agredida. Vocês têm sorte de eu não processar vocês. — Não me faça banir você, Lucy. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Me banir? Eu botei essa espelunca no mapa. Sem mim ninguém encontraria esse lugar nem com um GPS, a menos, claro, que fosse menor de idade — replicou Lucy, olhando ao redor. — Você checou as identidades hoje, Tony? Tony permaneceu calmo diante das ameaças dela. — Não me encha o saco, Lucy. Talvez qualquer notícia seja boa para você, mas não é para mim. Desculpe. Ela soube então que agora era cada um por si e que, neste mundo, até cartões de agradecimento têm prazo de validade. Recolheu então suas coisas. Mas, antes que saísse, Jesse se postou ao lado dela. — Bom trabalho — disse ele, deixando de lado seus modos dissimulados e adotando uma atitude mais direta. — Se eu não soubesse a verdade, pensaria que você mesma encenou essa briguinha de bar. — Você está me acusando de alpinismo social? — vociferou ela, olhando fixamente para ele. — Você é uma alpinista social, querida. — As pessoas só chamam alguém de alpinista social quando este alguém não é bom nisso — replicou Lucy, começando a andar para a porta de saída, dando uma última conferida em seu telefone celular. Imediatamente, um alerta de notícias surgiu no mostrador, com uma foto sua pouco lisonjeira e comentários de "pessoas que haviam visto tudo". — Eu mereci isso — disse ela a Jesse. O único detalhe positivo no sórdido episódio foi que o bracelete mereceu uma foto exclusiva, classificado como uma nova moda que ela estava lançando. Ela olhou para a foto por um momento, apalpando o pulso. E sorriu. Depois atirou o telefone na rua. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


6 CONTOS DE FADAS EM NY I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Não é sempre que eu tenho alguma coisa para dar — disse o velho, estendendo para Cecília uma sacola marrom molhada de uísque. — Obrigada, mas já bebi bastante — disse ela. — Abra — exigiu ele com sua voz áspera. Após os shows, Cecília costumava ir até o alto do prédio de cinco andares sem elevador em que morava, em Williamsburg, para visitá-lo e lhe dar um sanduíche acompanhado por uma garrafa de vodca. Isto, para ela, fazia parte do negócio. Ele era um velho na casa dos setenta anos, magro, que sempre usava terno e chapéu. Sendo um sem-teto, fizera do teto


alcatroado do prédio a sua residência, onde escrevia sob a luz das estrelas seus poemas beatniks3 e romances alucinados. Cecília abriu a sacola que ele lhe oferecera. Depois, devagar, retirou dela uma série de envoltórios de agulhas hipodérmicas pendurados num cordão preto. — É um colar — disse ele. — Não tive tempo para fazer um candelabro. — Graças a Deus — disse ela, aliviada, colocando o colar ao redor de seu longo e alvo pescoço. — Reciclagem? — perguntou — amarrando-o na nuca e arrumando os envoltórios de agulhas de modo a que todos apontassem para baixo, formando um "V". — Não me diga que virou ambientalista. O colar faria inveja a qualquer aspirante a figurinista, desde a Smith Street até a Bowery. Mas, para ela, era um gesto amabilíssimo de um amigo, que confeccionara o objeto especialmente para ela, com as próprias mãos. E com o único material de que dispunha. Eles haviam se encontrado há alguns anos; ela passava por ele todos os dias a caminho do metrô, e sempre lhe dava o que sobrara do seu bagel de ovos e queijo. Bill era um antigo poeta punk, que na meia-idade caíra na miséria, e que de boa vontade contava alguma anedota envolvendo Jim Carroll ou Billy Childish4, ou experiências pessoais que tivera no Chelsea Hotel ou no Beat Hotel, em Paris, em troca do que estivesse necessitando no dia. Não eram apenas as histórias dele que o denunciavam como escritor. Era também a desmantelada máquina de escrever — seu maior tesouro — que ele posicionava à sua frente, transformando a calçada em uma espécie de escritório. Todas as teclas pareciam estar funcionando, mas a máquina não tinha fita nem papel, o que para ela era mais profundo que qualquer I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

3

Movimento sociocultural nos anos 50 que pregava um estilo de vida antimaterialista. (N.E.)

4

Jim Carroll (1949-2009) — escritor, poeta e músico punk norte-americano. Billy Childish (1959) — pintor,

escritor, poeta, fotógrafo, cineasta, cantor e guitarrista inglês. (N.T.)


coisa que ele tivesse dito ou escrito. A falta destes implementos, entretanto, não o impedia de datilografar seus pensamentos num espaço etéreo, como se estivesse compondo uma canção ou ditando para uma secretária imaginária de um passado remoto. Fosse efeito de drogas ou de pura determinação, ela achava este comportamento — assim como o próprio Bill — inspirador. Mais que qualquer pregador, líder espiritual ou guru de autoajuda, ele falava à sua alma. Era um maestro que tocava sua máquina de escrever como se fosse um instrumento, executando seus pensamentos. Na condição de artista musical, ela sentia afinidade com ele. Ele precisava escrever, mas não precisava de leitores. Tinha uma autoconfiança que ela ainda lutava para alcançar. Então passou a lhe trazer papel e fita, para coletar o que pudesse. Vestindo seu terno, ele tinha um aspecto sofisticado e até elegante, orno um alter ego de William Burroughs5, embora o paletó e as calças lar- as dançassem ao seu redor. Ele era tão magro, devido à sua tendência de eber suas refeições, que ela tinha certeza de que o único alimento sólido que ingeria eram os sanduíches que ela lhe dava. Não que ela fosse, dessas pessoas "agradecidas". Não recebera tanta generosidade assim, para que se sentisse compelida a repassá-la. Aliás, ela já encontrara muitos indivíduos do gênero, e achava que a caridade deles era mais em causa própria. O que a irritava. Benfeitores dispostos a oferecer seus préstimos ou doações, mas não se isto fosse penoso, se exigisse algum esforço ou compaixão. Era uma caridade que só funcionava quando alguém estava observando e havia alguma vantagem a ser obtida com sua benevolência. Eles se aproximaram no dia em que ele foi atacado por alguns malfeitores de rua e ela lhe ofereceu a laje do prédio como moradia — que não pertencia a seu apartamento, mas ela podia deixá-lo ficar lá. Desde então Cecília abastecia Bill com sanduíches, vodca e um inesgotável suprimento de papel e fitas para a máquina de escrever. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

5

William Burroughs (1914-1997) — escritor e ensaísta norte-americano. (N.T.)


Ela lhe entregou uma garrafa de Stoli que trouxera da boate. Ele parecia doente, seus olhos estavam encovados, com uma expressão de desespero. Ela sabia que ele precisava de um drinque. Mas ele jamais pedia a ela. Não a ela. De qualquer maneira, não precisava pedir. — Beber essa porcaria é como beber veneno, você sabe — disse ela, chutando algumas agulhas que estavam no chão para se aproximar dele. — Não, Rainha da Noite. A cólera é que é como beber veneno... — E esperar que outra pessoa morra. — Isso me soa mais como inveja. — Você é um homem inteligente — disse ela, desembrulhando o sanduíche que trouxera, para garantir que ele comesse alguma coisa. — Não, sou só um vagabundo com uma máquina de escrever. — Tudo bem. Então você é um homem perigoso. Ela sentou-se sob a escuridão ao lado de uma vara de incenso acesa de onde espiralava uma fumaça com cheiro de sândalo. Começou a dedilhar sua guitarra, até que ele comesse. Depois, ambos cantaram trechos de "Conto de Fadas de Nova York". Com a garrafa ainda na mão, ele começou a cochilar. Uma canção de ninar para drogados. Todas as noites era a mesma coisa. Cecília o cobriu com o paletó de reserva que ele tinha, terminou de fumar o cigarro que ele acendera, tirou da máquina o poema que ele escrevera e desceu a escada de aço reforçado que levava ao corredor do seu apartamento. Leria o trabalho mais tarde e o devolveria antes que ele acordasse de manhã. Estava escrevendo para ela, de qualquer modo. Ele jamais venderia sua alma, mas a daria de bom grado a alguém que precisasse de uma. Para ela. Naquela noite, ao entrar no corredor de seu apartamento, ela avistou o aviso na porta. Chegara a vez dela. Ela já vira aqueles avisos em outras portas e sabia exatamente o que significavam. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


NOTIFICAÇÃO DE DESPEJO Conforme mandado expedido pelo Tribunal de Justiça, aposse deste imóvel foi devolvida a seu proprietário legal. Ela encostou o estojo da guitarra na pilha de sacos de lixo que se acumulara à sua porta, puxou em sua direção a velha gambiarra que iluminava o corredor e procurou sua chave. Tentou em vão inseri-la na fechadura. Depois de algumas tentativas frustradas e sem nenhuma prece que servisse no momento, eia desistiu. Não foi sua vida que desfilou diante de seus olhos naquele momento, mas uma série de envelopes enviados por seu senhorio, através de entrega especial, ao longo das últimas semanas. Cartas que se acumulavam, sem terem sido abertas, na bancada da cozinha, ao lado de seu amado espremedor de frutas manual, e de um terrário que Bill lhe dera no último Natal, feito com uma garrafa de bebida. Continha musgo, uma guimba de cigarro, um pedaço de goma de mascar mastigada, um velho bilhete de metrô e um canivete, tudo orbitando um minúsculo bonequinho representando um bebê — um enfeite de bolo que ele encontrara no lixo de uma confeitaria. Ele chamava sua obra de "Vida das ruas". Ela gracejou que poderia vender aquilo por cem dólares para uma butique da Bedford Avenue. Mas jamais faria isso. Nem por um milhão de dólares. Nem mesmo agora. Cecília se jogou contra a porta, batendo a cabeça com força suficiente para causar dor, para se lembrar de como as coisas estavam mal, para arrancar uma gota de lágrima de seus olhos pesadamente maquiados. Além de não ter mais um lugar para dormir ou tomar banho, o que mais a aborrecia era a rejeição que estava sofrendo e o fato de que a culpa era dela. Ela estava habituada a ser expulsa de apartamentos tarde da noite, mas não do seu. Havia ainda outra coisa, muito menos pessoal, mas igualmente urgente. Enquanto dois riachos escorriam por suas bochechas e se juntavam no queixo, formando um cavanhaque líquido, ela pegou o I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


estojo da guitarra e o pendurou nas costas. Leu então o que Bill escrevera: Nossa Senhora Cristã, Não há esperança para o Amanhã. A nossa luta é Vã. Em suas mãos está o Amanhã. Ela sorriu momentaneamente, apesar das lágrimas. Depois saiu para a rua com a guitarra nas costas e chamou um táxi que passava. Não sem antes acenar um adeus para seu amigo, no teto do prédio. — Nunca mais fale comigo! — berrou Agnes para sua mãe, de olhos semicerrados. Sua mente era uma ferida, e Martha não parava de escarafunchá-la, tentando abri-la de qualquer maneira. — Por quê? Porque eu tinha razão? Por que você tem tanto medo da verdade? — É a sua verdade, mãe. — A verdade é a verdade, Agnes. Parecia familiar. Agnes começou a conjeturar se sua mãe e o médico estavam trabalhando em parceria. Mas, rapidamente, recusou-se a ceder à paranoia. — Eu terminei com ele. O que mais você quer que eu faça? Quer que eu rasteje e lhe peça perdão por ter desviado do Caminho? — Não fique histérica, você vai acabar arrebentando seus pontos. — Ah, agora eu sou louca e não posso tomar minhas próprias decisões. Ótimo, mãe. — O que você quer dizer com "agora"? — Eu odeio você. — Nunca vou entender por que você é tão radical — disse Martha, tentando ajustar a atadura de Agnes. — Não, você nunca vai entender — respondeu Agnes, recolhendo o braço. — Não tenho medo do futuro. Não tenho medo de seguir meu coração. — Que ingênua. Você é jovem. Você vai entender. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Você é uma pessoa amarga. Não admira que papai tenha ido embora. Martha ficou lívida. Era a coisa mais dolorosa que Agnes poderia cuspir sobre ela. E era tarde demais para desculpas. Mas Agnes ficou aliviada por trazer o assunto à baila. — Quando eu me casei com seu pai... — começou Martha em tom gelado. — Você não se casou; você foi sacrificada — interrompeu Agnes — Não foi? — Não fale assim comigo. Sou sua mãe. — Tecnicamente. — O garoto Harrison é ótimo. Boa família, as melhores escolas, educado, bem falado, foi aceito em todas as faculdades. Ele tem tudo o que você precisa para vencer na vida. Não é como aquele figurantezinho de filme B que você andou namorando. — Ah, por favor, mãe. Não comece a me arranjar casamento de novo. Isso é careta. — Porque você está numa situação muito boa? — "Garoto Harrison"? Você nem sabe o nome dele. Em que ano estamos, 1950? Além disso, tenho certeza de que ele está procurando uma dessas garotas que se vestem maravilhosamente bem e que na cama são umas piranhas. Do tipo que faz sucesso em Wall Street. — Não ouse falar desse jeito comigo! — Ah, mas você pode me tratar desse jeito. Só que não posso reclamar. Entendi. Mas não sou assim. Não sou como ele. — Poios opostos se atraem — devolveu Martha. — Só tenho dezesseis anos, mãe. Não estou procurando um Donald Trump. — Seria muito difícil para você pescar num rio menos poluído? Ou dar um jeito nesses cabelos, que ficam caindo pela casa toda? Use um pouco de maquiagem. Melhore um pouco o estilo, pelo amor de Deus. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


-— Que tal eu me vestir de gueixa? Eu sei que vou encontrar uma coisa melhor para mim. Não preciso que me elaborem um projeto. — Você não precisa porque eu faço o trabalho pesado. Faço sacrifícios para que você não tenha de se sacrificar. Ambas fizeram uma pausa para tomar fôlego. — Quando eu encontrar, eu vou saber o que é. Na mesma hora. Não vou precisar de uma aula para me convencer — prosseguiu Agnes. — Encontrar o quê, Agnes? É óbvio que você não tem a menor ideia do que está procurando, pulando de fracassado em fracassado como uma romântica serial. — Amor, mãe. Amor verdadeiro. Coração e alma. Não uma carteira com pés. É simples. — Por favor — implorou Martha. — Chega de sermões sobre o amor à primeira vista, Agnes. Agnes e a mãe se encararam. Tanto uma quanto outra destilando ressentimento. — Você sabe como se explica o amor à primeira vista, mãe? Martha suspirou. — Não, como? — Não se explica. É assim. — Amor verdadeiro. — Martha riu com desprezo. — Não seja tão arrogante. Agnes tapou as orelhas, tentando bloquear aquele ceticismo, aquela rigidez, aquela insistência de sua mãe em modelá-la. Sentia-se quase de volta ã sessão de terapia com o dr. Frey, exceto que a conversa de agora era um pouco menos profissional. — Foi você quem quis que eu entrasse em uma escola católica. — E pelo que estou pagando, esperava resultados melhores! Sempre o dinheiro, pensou Agnes. E culpa. Ela era um fracasso para a mãe, e a mãe era um fracasso para ela. Apertou os lábios, tentando segurar a bile que vinha se acumulando há meses — na verdade anos — e I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


então explodiu. — Você não consegue entender? Eu não quero acabar como você e suas pseudoamigas. Já bêbadas na hora do jantar, cheias de Botox e dormindo com suas pensões do divórcio embaixo dos travesseiros. — Anulação. — Quer dizer que se a Igreja aprovar, está tudo bem? Sua hipócrita. — Olhe sua língua, mocinha! Você não sabe com quem está falando! — E nem você — disse Agnes. Ela correu para seu quarto e bateu a porta, quase quebrando a maçaneta de vidro e derrubando a armação com chifres pendurada na parede acima. Seu quarto era seu santuário. Seu casulo. Tão zen quanto ela conseguiu torná-lo e exatamente o que ela necessitava naquele momento. Inundado de luz, com tetos altos, piso de madeira escura e paredes avermelhadas. Contrastava inteiramente com a conversa áspera que fora travada na sala. Echarpes coloridas cobriam as luminárias, como ela gostava. E ainda: um tapete persa em cores vívidas, um pufe acolchoado, uma bergère de couro verde, pilhas de livros encimados por almofadas que faziam às vezes de banco, travesseiros forrados com um tecido de aniagem, um grande vaso de cimento com cactos em todos os tons de verde, suportes de incenso e uma impressionante coleção de vestidos e túnicas de seda. Ela acendeu sua luminária marroquina e uma vara de incenso, pegou seu xale favorito na cama e se enrolou nele. Depois sentou-se à sua escrivaninha — uma porta antiga que ela estendera sobre cavaletes. Sua enorme gata maine coon, que ela chamava de Elizabeth da Hungria, pulou sobre seu colo. Ela afagou as costas do animal e olhou para seu armário de curiosidades, com a coleção de coisas lindas e raras que ela reunira ao longo dos anos: uma antiga mão de madeira, que ela usava para pendurar seus preciosos colares, seus dedais antigos e as borboletas com asas multicoloridas, espetadas em uma tábua. Assim como sua mãe, Agnes gostava de colecionar coisas bonitas. Muitas vezes sentia que sua mãe a via como uma de suas aquisições. E ela já estava farta de fazer parte dessa coleção. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Agnes segurou a cabeça e começou a chorar. Sabia que sua mãe tinha razão. Não a respeito de tudo, mas com certeza sobre Sayer. Naquele momento ela já não sabia o que doía mais, seus braços ou seu ego. Ambos estavam bastante machucados. Ela pressionou com a unha uma parte menos cicatrizada de um dos ferimentos, mordendo os lábios e se contraindo. Ter um corte aberto era uma coisa conveniente, de certa forma, mais do que as pequenas dores que vinha infligindo a si mesma. Agora havia algo para lhe infligir a dor que ela achava que merecia. De modo geral, ela não cortava ou quebrava partes de seu corpo. Punia a si mesma se recusando a ser ela mesma. Negando-se. Aceitando a vida que sua mãe estabelecera para ela. Até pouco tempo. Então começara a escolher seus namorados e amigos, e deixara os cabelos crescerem. Não se sentia mais feliz, necessariamente, mas mais livre. Sua mãe atribuía isso a sua teimosia, a uma fase que ela estava atravessando. E havia horas em que ela, Agnes, também pensava assim. Mas desta vez a coisa era diferente. Sua mãe era rígida demais, ressentida demais com seu divórcio e com as dificuldades que tivera que enfrentar para reconstruir sua vida — para "se reposicionar", como ela dizia. Não poderia mais ser levada a sério. Onde antes Agnes era tida como um dos "itens valiosos" de sua mãe, ela agora se tornara outro obstáculo, uma ingrata insubordinada. — Eu não tenho ideia do que devo fazer. — A voz de sua mãe atravessou a porta e entrou em seu quarto. — Ela está arruinando a vida dela. E a minha. Agnes percorreu a lista de canções de seu smartphone à procura de "Mentiras de Verão",6 uma de suas favoritas. Depois o ligou a seu aparelho de som, apertou o botão de tocar e aumentou o volume até o máximo. Depois do assunto com Sayer, aquela canção tinha um significado especial para ela. Porém, mais importante, iria abafar aquele monólogo pernicioso que ecoava no outro lado da porta. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Todas as coisas doces que você disse e eu acreditei eram mentiras de verão6 Penduradas como os mortos nos galhos dos salgueiros eram mentiras de verão Eu nunca voltarei a amar. Fosse quem fosse a vizinha ou o parente que sua mãe escolhera para se lamuriar ao telefone, aquela era a última gota para Agnes. Ela sabia que não poderia continuar ali. Olhou então pela janela do quarto, observou um carro que estava estacionado no outro lado da rua dar partida e desaparecer no crepúsculo, deixando para trás uma preciosa vaga naquela rua movimentada para se dirigir a um destino desconhecido. Eu também cochichei, mas disse coisas verdadeiras Abandonei meu mundo por você. O súbito toque das cortinas em seu rosto a fez pensar numa vela que, captando uma brisa, leva a embarcação para fora do porto. Estou murchando, emagrecendo, pálido e doentio Não vejo o amanhecer, as cortinas escondem meu quarto, Estou definhando, cortei a mim mesmo. A canção terminou. Ela abriu a janela, firmou mais a pulseira sob a atadura, pulou para o jardim de sua casa na Park Slope7, atravessou a cerca que separava seu quintal do quintal de vizinho e... Foi embora. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

6

Summer Ues, no original. Canção gravada pelo conjunto de indie pop norte-americano, Magnetic Fields.

(N.'I ) 7

Bairro do Brooklyn. (N.T.)


7 VENDENDO A ALMA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Chuvisco é uma droga — reclamou Lucy, abrindo a porta do táxi que estava estacionado em frente à boate, pelo lado do motorista, e empurrando o taxista para o lado do passageiro. — Ou chove ou não chove! — O que você está fazendo — perguntou o taxista, que costumava fazer ponto na boate. Ele a vira ir e vir. Ouvira histórias. Sabia. — Dirigindo! Ela bateu a porta do carro e começou a dirigir, cantando pneus e derrapando nas pedras escorregadias do Brooklyn, em direção à Furnan Street e à Atlantic Avenue. No início, ele só percebeu a cólera nos olhos


dela, mas agora o cheiro de bebida estava se fazendo sentir. — Eu posso levar a senhorita até sua casa com muito prazer. — Não quero ir para casa. Não há nada lá, a não ser meu laptop, e eu não consigo olhar para ele. Entendeu? — Mas já é muito tarde e uma tempestade está se aproximando. — Você tem coisa melhor para fazer? — perguntou Lucy com voz engrolada, lambendo os lábios de forma sedutora. Foi só uma provocação, mais tática que sexual, porém suficiente para mantê-lo na linha, como ela sabia que aconteceria. A neblina estava se transformando em finas gotículas, toldando sua visão do caminho à frente, o que a deixou irritada, mas não a fez parar. — Lágrimas de Deus, é o que dizem — disse o taxista. — O quê? — O chuvisco — respondeu ele, olhando Lucy de alto a baixo, concentrando-se em suas longas pernas expostas. — Quem disse isso, exatamente? Eu me esqueci de votar nessa pesquisa online. — As pessoas dizem, acho. — Bem, talvez tenham razão. — Para onde estamos indo? — perguntou ele, acionando o taxímetro e roçando a mão no joelho dela. Ela não tinha carro. Assim, sempre que precisava ir a algum lugar ela tomava um táxi, ocupando o lugar do motorista. Geralmente funcionava, devido a seu forte senso de prerrogativa, sua aparência e às fantasias alimentadas por taxistas pervertidos, muitos dos quais tinham imagens religiosas nos painéis de seus veículos. — Vou saber quando chegar lá. Lucy acelerou o carro na cada vez mais escorregadia Henry Street, ziguezagueando entre os buracos, alheia aos urgentes alertas meteorológicos transmitidos de onze em onze minutos pelo rádio. Segundo estes, a tempestade que se aproximava teria proporções bíblicas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Uma forte tempestade, que já recebeu o nome de Três Dias de Escuridão, está se formando a nordeste da costa da Carolina do Norte e se encaminha para a área metropolitana de Nova York. Um rigoroso estado de alerta está em vigor para as próximas 72 horas. São esperados ventos fortíssimos, chuvas torrenciais, granizo, relâmpagos perigosos e ruas inundadas. Um tornado também deverá atingir partes do Brooklyn e de Queens até o final da noite de sábado. O Departamento de Polícia de Nova York está impondo um toque de recolher; devido a apagões que poderão ocorrer em toda a área, devido aos ventos e chuvas. Os serviços de metrô e de ônibus foram cancelados. É possível que sejam organizadas evacuações na faixa litorânea, assim como barreiras rodoviárias. Verifiquem as baterias de suas lanternas, carreguem todos os aparelhos elétricos, estoquem água fervida e, seja lá onde estiverem, permaneçam no lugar durante pelo menos três dias. Viagens são perigosas. — Que dia é hoje? — perguntou Lucy. — Quinta-feira — respondeu o taxista. Depois conferiu o relógio e se corrigiu: — Na verdade, já é sexta-feira. — Três dias. Lá se vai meu fim de semana. — Muita coisa pode acontecer em três dias. — Tomara que sim. A polícia, a defesa civil e os serviços de emergência estão com as atividades normais prejudicadas. Portanto, contem com atrasos nas respostas ao telefone 911. Permaneçam sintonizados nesta estação para atualizações... — Tempestade do Século, Três Dias de Escuridão, blá-blá-blá... — gemeu Lucy. — Isso não é um boletim meteorológico, é uma profecia. Então estendeu a mão e desligou o rádio, silenciando os mercadores de pânico que se passavam por jornalistas. — Essa porra não vai acontecer no Brooklyn — disse ela. — É inconveniente demais. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


O taxista estava chocado com o egocentrismo dela. — Eu não sei informar a quem a senhorita deve exigir desculpas. — Por que as tempestades sempre "se formam"? — protestou Lucy, mais para si mesma que para o trêmulo taxista. — Por que não dizem apenas "vai chover, permaneçam dentro de casa"? Tudo tem que ser tão misterioso... tão, porra, sobrenatural. — Audiência — disse o taxista, com um sotaque da Europa oriental tão pronunciado que tornou sua análise mercadológica engraçada e triste, ao mesmo tempo. — Tempestades vendem. — Eca — grunhiu Lucy, contrariada com a penetração do showbiz na cultura, que na verdade já alcançara o assento ao lado. Escorrendo como xixi no muro de um prédio. Com chuvisco. Ela apertou mais o acelerador, de repente disputando uma corrida imaginária, não só com a tempestade, mas também com sua vida. Era justo, pensou ela, pois nem ela nem os repórteres sabiam exatamente para onde estavam indo. Por um segundo, ela se imaginou como um desses afoitos observadores de tornados do Meio Oeste, que arriscam suas vidas procurando tempestade, e para quê? Por alguns segundos de cobertura na televisão a cabo, em algum boletim meteorológico. Ela poderia atrair o dobro da atenção apenas exibindo uma alça de sutiã numa loja de delicatéssens. — Babacas — riu ela, comprimindo os lábios para disfarçar o ar desdenhoso. A súbita intensificação do vento e da chuva, acompanhada pela aceleração dos limpadores de para-brisa, logo apagou seu sorriso, assim como qualquer expressão que houvesse no rosto do taxista. Ela se esforçou para enxergar através do vidro. Estava escuro e escurecendo mais. As tonalidades cinzentas, violáceas e verde-escuras do céu lembravam a Lucy uma pintura de El Greco chamada Vista de Toledo. As luzes da cidade estavam obscurecidas pelas nuvens. Era como se ela estivesse exatamente no olho da tempestade em formação. O ar, de repente, tornou-se carregado de eletricidade. Eles podiam sentir as nuvens se adensando. A tensão de I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


suas respirações encontrava um abrigo inconveniente no interior do parabrisa, anuviando o vidro, apesar dos esforços dela para limpá-lo com a manga de seu casaco de grife. Era uma coisa assustadora, para dizer o mínimo. O taxista estava cada vez mais ansioso. — Chega. Você está bêbada. Pare ou vou chamar a polícia — exigiu ele, agora mantendo os olhos na rua, não nela, e segurando nervosamente a alça da porta. — Poupe seu fôlego — retrucou Lucy, driblando às pressas os carros estacionados, muito longe das calçadas, e os poucos pedestres ainda em circulação. Ao perceber como as ruas estavam vazias, ela foi desacelerando aos poucos. — Onde está todo mundo? Puxa, é só um pouco de mau tempo. O mundo não está acabando. As ruas do Brooklyn Heights que levavam a Cobble Hill estavam desertas. Era como se todo o bairro estivesse procurando abrigo. Carrinhos de bebê e vasos com plantas eram levados para dentro das casas dos yuppies, enquanto carcomidas estátuas religiosas, que adornavam os pátios de casas luxuosas, eram cobertas com plásticos e orações. Tudo muito perturbador. — A maioria das pessoas acredita em alertas urgentes — comentou o taxista, impacientemente. A tensão daquela noite — a briga, Jesse, tudo — começou a deixá-la cansada. Mas ela não sabia ao certo se o que a estava deixando de olhos vidrados era o efeito do álcool, o desembaçador de para-brisa ineficiente, o barulho do ar-condicionado ou a chuva persistente. De repente, algo a tirou do torpor. Um grande prédio de pedras cinzas em estilo gótico, nos primeiros estágios de uma reconstrução — com andaimes e armações de aço nos dois lados, quase dando a impressão de muletas —, captou toda a sua atenção. A tela protetora que envolvia quase toda a estrutura, das entradas no andar térreo até o solitário pináculo, drapejava ruidosamente ao vento, como ataduras soltas. A igreja, pois parecia ser uma igreja, exibia em seu exterior uma notável quantidade de arremates esculturais, cujos detalhes eram quase I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


impossíveis de se discernir devido às estruturas de madeira e metal que estavam à frente. Anjos e gárgulas brotavam da arquitetura amortalhada, acenando para ela e alertando. Então ela o viu. Ou ele a viu. Dois olhos esculpidos na alvenaria a espreitavam através de um rasgão na tela. Os dois olhos dela. Seu talismã. O talismã que pendia da pulseira em seu pulso. Olhando fixamente para ela. — Que lugar é esse? — perguntou ela. — É a Igreja do Sangue Precioso — disse ele. — Pelo menos era. Logo será um prédio de apartamentos. Ela enfiou o pé no freio e deslizou pela rua encharcada até parar com rangido estridente, O taxista bateu com a testa no painel e Lucy, em suas próprias mãos, que estavam sobre o volante — especificamente no talismã do bracelete, que abriu um pequeno corte abaixo da linha dos cabelos. Em choque, sem entender ao certo o que acabara de acontecer, ela procurou ferimentos na pele com olhos ainda enevoados. Depois voltou a atenção para o emblema na fachada da igreja. — Tudo bem com você? — perguntou o taxista, antes mesmo de saber se ele próprio estava bem. — Não sei — disse ela. Preocupada com o que lhe passava na mente, não conseguia se concentrar em seus problemas físicos. Retirou então sua echarpe da Pucci. A preciosa echarpe que ela jamais emprestava às amigas e que se tornara seu bem mais valioso. — Aqui, pegue isso e faça pressão. — Não posso — disse ele, recusando-se polidamente a limpar o sangue em sua testa com um acessório obviamente tão luxuoso e caro. E começou a esfregar a testa. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Bem, já que você não quer pegar... — Ela enrolou a echarpe em dois de seus dedos, inclinou-se e começou a limpar delicadamente o ferimento na testa do homem. Ele olhou para ela, surpreso com a consideração. — Estou dando a echarpe para você. Já está manchada com seu sangue. Ele aceitou com relutância a generosa oferta, mas seu olhar era mais de preocupação do que de gratidão. Sangue começara a se acumular na testa dela e a escorrer até seus olhos. — Você também está machucada — disse ele. — Me deixe chamar uma ambulância. — Não. Todas as perguntas que ela ouviria, as explicações que precisaria dar, as desculpas que teria de inventar não valeriam a atenção que certamente receberia. Não esta noite. — Deixe sangrar. A gente aprende a viver com um pouco de dor, sabia? — Não posso deixar você aqui — disse ele. O céu dava a impressão de que iria se fechar sobre eles. — Vou ficar bem — garantiu ela. — Me desculpe por ter machucado você. Lucy saltou e jogou todo o dinheiro que tinha na carteira no banco do táxi, esperando que fosse o suficiente para compensar qualquer prejuízo. Livrar-se da única coisa que ela valorizava mais que sua imagem pública lhe deu uma sensação boa. O taxista voltou para o assento do motorista e o carro se afastou, com o aguaceiro que despencou de repente, matraqueando a lataria como uma infindável rajada de balas. Ela olhou as lanternas traseiras desaparecerem na noite como dois olhos vermelhos e maléficos. O taxista não se deu ao trabalho de ligar a luminária do teto. Para ele, ela fora a última passageira naquela noite. Qualquer outra pessoa que precisasse de seus préstimos estaria sem sorte. Agilmente, Lucy saltou sobre as poças de água e subiu a passarela de 'metal e madeira compensada no outro lado da rua. A passarela cercava quase toda a igreja. Embora fosse coberta, oferecia I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


pouca proteção contra a fúria dos elementos que se desencadeavam em torno dela. Tinha um quarteirão de comprimento em todos os lados. Ela pouco mais via que a cerca de ferro negro ao longo do perímetro. Seguiu a cerca até a metade da rua lateral e chegou a uma escadaria ladeada por corrimãos de ferro forjado, que se elevavam até uma enorme porta i dupla de madeira, no momento fechada. As altas janelas de cada um dos lados estavam bloqueadas por tábuas e exibiam letreiros de PROIBIDA A ENTRADA. O portal era muito alto e escuro. Ela levantou o braço tentando captar qualquer luminosidade da rua que estivesse chegando até ela, mas foi inútil. A tempestade estava se tornando cada vez mais violenta. Galhos estavam sendo arremessados como gravetos, e as janelas, assaltadas pelo vento e pela queda na pressão atmosférica, estavam começando a se estilhaçar. Trovões começaram a estrondear e os primeiros clarões de relâmpagos iluminaram o céu. Ela se sentiu como uma presa assediada por um predador. Espreitada. Esconder-se sob uma passarela coberta de metal numa construção cercada de aço durante uma tempestade era como uma tentativa de suicídio, pensou ela. Precisava entrar no prédio. Se alguma tempestade como esta já tivesse algum dia atingido o Brooklyn ela não conseguia se lembrar. As ruas de Cobble Hill estavam agora completamente desoladas, e as luzes dos postes e das casas estavam começando a piscar espasmodicamente, prestes a se apagar. A rede eléctrica fora batida pelos deuses do tempo. Algumas de suas lojas favoritas — confeitarias e butiques — já estavam começando a sofrer danos, com vitrinas e letreiros quebrados. O letreiro de DIGNO DESCANSO de uma funerária, voava sem rumo pela rua. De costas para a porta, Lucy olhou para o dilúvio que corria ao longo da calçada. Onde estariam aqueles paparazzi que a seguiam quando ela realmente precisava deles, pensou ela. Estava encharcada e enregelada, mas seu coração estava palpitando e suas mãos, suando. Ela deveria ter ouvido o taxista. Voltar para casa não seria apenas difícil; seria impossível. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Por sorte, ela tinha uma sacola com roupas extras, usadas para despistar alguma aspirante a seu posto que tentasse copiar sua indumentária. "Atire primeiro" era seu lema, que sempre funcionara bem. Ela nunca ficara para trás nas listas de "Quem Se Veste Melhor" e estava determinada a nunca ficar. Emergências deste tipo eram comuns no mundo dela, portanto ela estava sempre preparada, até mesmo com uma pequena toalha de banho, comprada numa loja de artigos baratos. Ela olhou para uma das janelas do prédio e notou uma fraca luminosidade entre a parede de granito e uma das tábuas de vedação. Intrigada e intimidada, ela puxou com força a maçaneta da porta. Sem nenhum resultado. Trovões mais altos do que antes, mais altos do que ela jamais ouvira, quase a arrancaram de seus sapatos. Uma súbita rajada de vento a atirou contra a porta dupla com tanta força que esta se abriu, permitindo que ela enfiasse a cabeça pela abertura. A pequena luminosidade se extinguiu. — Olá! — gritou ela, com um dos ombros latejando, devido à pancada, assim como a cabeça. — Há alguém aqui dentro? O interior do prédio estava bastante escuro, e cada movimento que ela fazia era quase ensurdecedor. Como uma cega, ela avançou pelo espaço desconhecido com os braços esticados, tentando encontrar algo que pudesse guiá-la. Depois de passar por um átrio sombrio e entrar na igreja propriamente dita, através de uma segunda passagem, ela parou. Tinha a impressão de estar em uma caverna, sem conhecer sua altura ou profundidade. O ambiente era fresco, seco e silencioso, como se ela tivesse apertado um botão e emudecido a tempestade que se propagava lá fora. Havia no ar um leve odor de flores e frutas em decomposição. Uma prova de vinhos realizada numa agência funerária talvez cheirasse da mesma forma. A súbita mortalha de silêncio era tão pesada e opressiva quanto suas roupas encharcadas. Os raios continuavam a lampejar e cada clarão expunha partes do abandonado interior da igreja. Ela se encontrava em meio a mais andaimes e restos de obras abruptamente interrompidas. Mas ela não viu somente martelos, pregos e lonas. Viu coisas em fatias. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Como um show de slides de terror. Primeiro relâmpago: a estátua de uma mulher de rosto angustiado, usando uma capa, que pisava na cabeça de uma serpente. Segundo raio: um crucifixo fragmentado. Terceiro raio: um elaborado afresco pintado no teto abobadado — anjos chorando, sangue, espancamentos com porretes. Sofrimento sobrenatural. Tudo parecia fora de lugar. Olhando para cima Lucy sentiu-se desorientada, como se fosse ; parte de um mural de outro mundo, cercada por bancos de igreja vazios e : vitrais vedados com tábuas. Era a sensação que tinha quando ia à missa, | na infância, e se via cercada por horrendas estátuas lanceando demônios í e anjos de pedra com asas estendidas — os ingredientes dos pesadelos que ; tinha desde criança. Abalada, ela se apoiou em uma bacia de metal que estava ao seu lado. Era uma pia de água benta. Estava vazia, secara há muito tempo. Só agora recebia um pouco de água — a que escorria de seu vestido de grife. Tentando permanecer de pé, Lucy se agarrou na pia, mas seus sapatos I: molhados escorregaram no chão. O reboco da parede cedeu sob o peso adicional e a bacia se desprendeu, caindo no chão de mármore juntamente com ela. Sua testa bateu no chão, com força, e ela permaneceu deitada por algum tempo — quanto tempo, não sabia ao certo. Sentindo-se tonta, gemeu baixinho; mas estava alerta o bastante para agitar os dedos das mãos e dos pés. Depois tocou a cabeça, para checar se ainda estava inteira. Sentiu então uma coisa úmida sobre uma das sobrancelhas e percebeu, no mesmo instante, que aquilo não provinha de seus cabelos molhados de chuva. Ela lambeu os dedos, enquanto sentava lentamente. O filete de sangue que escorria de seu ferimento na testa se transformara em um pequeno riacho; que desembocava em seus olhos. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Nível de álcool no sangue? — murmurou ela. — Totalmente bêbada. Ela agora não conseguia enxergar nada. Por um instante desejou ter sua echarpe de volta, mas sabia que não adiantava chorar sobre o bloody mary derramado. Esta associação lhe despertou outro medo de infância. Quando ela era criança diziam que se alguém repetisse o nome da bebida! três vezes mentalmente, diante de um espelho, faria aparecer a imagem I da Virgem Maria coberta de sangue8. Ela tentou não repetir a brincadeira,: pois a possibilidade de que isto acontecesse lhe parecia agora bastante real. — Por que fui parar de fumar? — gemeu ela, remexendo nos bolsos e na bolsa em busca de seu isqueiro, que já havia iluminado seu caminho em diversas boates escuras. Já estava quase perdendo as esperanças quando o encontrou, no fundo da bolsa. Ela abriu a tampa e o acendeu. — Milagre — riu ela consigo mesma. Com a manga do casaco, limpou o corte e os olhos o melhor que pôde. Depois permaneceu algum tempo imóvel, no escuro, tentando se orientar. A tempestade lá fora estava aumentando. Seu barulho agora atravessava as paredes, invadindo aquele espaço fortificado e desolado, e a trazendo de volta à realidade. Seu primeiro pensamento foi de que sua presença ali devia ser uma expiação por antigos pecados. Afinal de contas ela já não pisava numa igreja há anos, e quando pisara estava bêbada. Ela se ajoelhou e se levantou lentamente. — Tudo bem, agora estamos quites — disse ela, olhando para cima. Seus sentidos entorpecidos foram se ajustando aos poucos. Havia agora bastante luz para que ela enxergasse alguns metros à frente. Erguendo o isqueiro, ela conseguiu distinguir os primeiros bancos de uma fileira e, à esquerda, uma grande estrutura de madeira que lembrava um armário, o mais ornamentado que já vira. Então compreendeu: era um confessionário. Usando a fileira de bancos como apoio e orientação, ela caminhou [até I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

8

Bloody Mary, nome de um coquetel de cor vermelha que pode ser traduzido como "Maria Sangrenta". (N.T.)


o confessionário, com passos vacilantes. Ao se aproximar, entrou às pressas em seu interior, como uma criança que se cobre com lençóis para obter segurança e conforto. Depois de pousar o isqueiro numa prateleira esculpida, ela fechou a porta do compartimento e sentou-se na corroída almofada vermelha do banco. Olhou então ao redor e examinou as incrustações na madeira ; escura, meticulosamente executadas. Era um lugar fora do tempo. A única concessão à vida moderna era um letreiro poeirento que dizia: POR FAVOR, DESLIGUEM TODOS OS TELEFONES CELULARES, SMARTPHONES E OUTROS APARELHOS ELETRÔNICOS. Ela riu nervosamente. Era um tanto irônico ver uma instrução dessas afixada num compartimento em que as pessoas conversavam sobre i assuntos espirituais. Onde eram catapultadas para o perdão. — Está na hora de mudar. Ela removeu as mangas de pele azul do vestido e os sapatos de camurça, tentando desesperadamente permanecer no momento presente. Depois abriu a sacola e retirou as roupas secas — uma capa de gabardina bege, um par de sapatos surrados, de veludo vermelho e salto em plataforma, e um chapéu também vermelho, para combinar com os sapatos. Começou então a se despir, tirando a roupa úmida até ficar vestida apenas com sua combinação branca. Livre dc sua armadura de grife, ela de repente se deu conta de que estava absolutamente só. Os paparazzi, as imitadoras e as rivais que andavam em seu rastro tinham todos desaparecido. Restavam apenas seus sentimentos mais íntimos. Uma garota isolada. Sua cabeça e sua vida estavam girando, pesando sobre ela e a afogando em um dilúvio de infelicidade. A chama do isqueiro, que vinha minguando lentamente, apagou-se com uma golfada de fumaça. — Ótimo — resmungou ela, batendo com raiva na lateral do velho confessionário, arranhando a madeira com o bracelete. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Sozinha. Em meio à total escuridão. Finalmente em silêncio diante da própria consciência. Sentada naquele confessionário, Lucy começou a chorar. Misturai das com sangue seco e maquiagem, as lágrimas formavam trilhas escuras! sobre seu rosto de porcelana. Ela limpou as lágrimas sanguinolentas dá: combinação branca. Seu hálito ainda recendia a bebida. Ela precisava de um banho, roupas secas e uma cama quentinha. — Alguém — gemeu ela em voz alta. — Alguém me salve dessa droga toda. — Salve a si mesma — replicou uma voz abafada e incorpórea, que atravessou a cortina do confessionário. — Merda! — gritou ela. O surto de adrenalina a deixou sóbria instantaneamente. Ela se preparou para correr, sentindo o rosto corar e os músculos das pernas se contraírem. Não conseguia se mover, mas sabia que seria necessário. Por fim, firmando as costas no estreito compartimento, abriu a porta com um chute e se precipitou para fora, ainda segurando os sapatos, mas deixando para trás a capa, o chapéu e a sacola, juntamente com sua vergonha. No desespero, ela bateu com o joelho na quina de um banco e caiu no chão. Mais um grito saiu de sua garganta. Quase no mesmo instante ela sentiu uma presença avultando sobre ela. Uma presença humana. Uma presença masculina. Ela sentiu alguém segurar seu braço com uma das mãos e apertar sua boca com a outra. — Psssssssssiu. Lucy se debateu, mas um joelho em suas costas a manteve no chão e sob controle. Ela não poderia morder, nem arranhar, nem oferecer resistência, fosse como fosse. Mal começou a esperar pelo pior, sentiu a mão apertá-la mais, porém não para subjugá-la inteiramente, e sim para levantáI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


la. Foi posta de pé com tanta rapidez e leveza que se sentiu como um fantoche. Ainda não conseguia divisar bem o rosto do homem, embora estivesse olhando para ele. Tudo o que podia discernir eram seus olhos castanhos, que pareciam incandescentes. Ele retirou a mão de sua boca. — Você não sabe quem eu sou? — balbuciou ela nervosamente. — Vem gente procurar por mim. Ele a olhou de modo avaliador em meio aos clarões dos relâmpagos, enquanto ela permanecia imóvel — assustada, molhada e desafiadora —, com os lindos cabelos louros gotejando nos ombros nus. Ela tinha uma expressão determinada no rosto contraído, mas seus lábios tremiam. Ele ficou admirado ao ver que ela ainda segurava os sapatos, que combinavam com as manchas de sangue, da mesma forma que uma mãe segura um bebê ao escapar de um prédio em chamas. Seus maravilhosos olhos azuis o atraíam. Era como se ele estivesse falando com uma pessoa com quem houvesse apenas sonhado. Olhe — disse ela com voz entrecortada, enquanto tentava se libertar do abraço dele. — Eu não sei quem você é, nem o que está fazendo aqui, e não me importo. Só me deixe ir embora e vamos fingir que isto nunca aconteceu. Lucy estava posicionando as mãos sob o queixo dele, preparando um golpe de krav maga que aprendera com um guarda-costas amigo dela, quando inesperadamente sentiu as mãos dele relaxarem. Teve a impressão de que ele estava procurando alguma coisa sob a combinação dela, mas foi a pulseira que o atraiu. Ela se afastou dele, mas achou melhor não correr, pois não sabia ao certo se poderia encontrar a saída com facilidade; tentaria acalmá-lo, antes que acontecesse alguma coisa de fato ruim. — Já terminou? — perguntou ele. — Me responda você. Ela começou a se sentir ainda mais amedrontada quando lhe ocorreu que talvez ele a tivesse seguido até ali. Talvez ele fosse um desses perseguidores de celebridades, que tinha esperado uma oportunidade para I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


encontrá-la sozinha e sair nas primeiras páginas dos jornais por ter matado uma socialite. Ela já vira esse filme. Já vira muitos desses filmes. Mas também tinha de considerar que, se ele quisesse matá-la, ela provavelmente já estaria morta. — O que você quer? — acrescentou ela. — O mesmo que você. Lucy ouviu um som de arranhar e em seguida a explosão incandescente de um fósforo sendo aceso. E o estranho foi iluminado, pelo menos em parte. Ele caminhou até um candelabro de ferro trabalhado e acendeu uma vela votiva. A vela projetava mais sombras do que luz, mas havia iluminação suficiente para que Lucy enxergasse sua silhueta perfilada contra a parede do altar lateral. Pouco depois pôde vê-lo melhor. Ele era jovem, não muito mai velho que ela, mas nada havia de agarotado nele. Ele era lindo de morrer, com feições bem delineadas. Traços clássicos que combinavam á perfeição com o estilo clássico do ambiente. Estava usando uma calça jeans preta e um suéter preto apertado, que parecia ter sido passado a ferro por cima dele. Seus cabelos castanho-escuros eram vastos e atraentes, como os de um vocalista de conjunto musical — cuidadosamente despenteados. E seus olhos. Aqueles olhos castanhos que perscrutavam a escuridão e que a luz da vela tornava ainda mais atraentes. Se ela tivesse que ficar presa com alguém durante três dias, haveria opções bem piores. — Você disse que está na hora de mudar? — perguntou ele. — Ah, aquilo foi o uísque falando — disse Lucy, envergonhada por ter sido ouvida em um momento tão embaraçoso. — Eu só precisava mudar de roupa. — Ah, sei. — Acho que este é o lugar para se estar hoje à noite, não? — Para nós, é — replicou ele com um sorriso. — Qual o seu nome? Ele não a conhecia. Bom sinal. Ela pensou em mentir para ele, mas já I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


fazia algum tempo que não se apresentava a alguém. E gostava disto. — Lucy. — Sebastian — informou ele, arregaçando bem as mangas do suéter e estendendo a mão. Ela notou que cada um de seus braços tinha uma espécie de mancha, que ia do bíceps ao antebraço. Mas foi a tatuagem em volta de seu pulso que lhe chamou a atenção. Isto a fez hesitar, no início, e depois desencadeou um violento ataque de pânico. Era a tatuagem de uma flecha, desenhada no mesmo estilo de seu bracelete. Um trabalho intrincado — a haste se enroscava no pulso, com a ponta e o engaste se aproximando no lado da palma. Quase se tocando. Perturbada, Lucy deu um grande passo para trás e quase perdeu o equilíbrio. Teve que se apoiar no encosto do banco para não cair. — O que é isso? — perguntou. — Um lembrete — respondeu ele. Ela começou a tremer, com a pele toda arrepiada. — Vou sair daqui. Sebastian não tentou detê-la. Se ela não estivesse com tanto medo dele no momento, poderia até supor que ele a estava deixando ir. Ela recuou e se encaminhou tropegamente para a porta por onde entrara, mas foi o mesmo que caminhar em uma mina subterrânea. Acabou caindo de joelhos e começou a chorar. Conseguiu se levantar e caiu novamente. O latejamento em sua cabeça e a percepção de que talvez tivesse cometido o maior erro de sua vida ao entrar na igreja a deixavam desesperada. Seu choro se intensificou. Mas de uma coisa ela tinha certeza: não poderia parar. De repente, sentiu as mãos dele de novo. Um aperto firme, mas gentil, embaixo de cada braço. E mais uma vez se viu de pé diante dele. — Fique de pé — disse ele, com a mesma firmeza de seu toque, olhando diretamente nos olhos dela. — Por favor, não me machuque. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Quase nua, machucada, sangrando e transtornada, ela fez algo completamente contrário à sua natureza: não lutou. Resignou-se e se preparou para um beijo forçado ou coisa pior, para o que desse e viesse. Ele ergueu o braço, o que a fez se contrair. Mas ele começou a secar suas lágrimas com a manga do suéter. Ela o abraçou e o apertou por alguns momentos. Depois se afastou dele, sem saber ao certo o que dera nela. — Parece que você sabe mesmo se cuidar — disse ele, afastando-lhe os cabelos e examinando o corte que ela tinha na testa. Lucy abaixou a cabeça e cruzou os braços sobre o peito, tanto para se aquecer quanto para se cobrir. Ele percebeu que era tudo o que ela podia fazer para não desmaiar de alívio. Ele tirou o suéter. — Não, por favor. Ele parou e olhou para ela. Então, gentilmente, enrolou o suéter nos ombros dela. — Vá — disse ele apontando para o confessionário. — Para onde? — Mudar de roupa. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


8 RESSURGÊNCIA REBELDE I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Sebastian ficou escutando os sons enfurecidos da tempestade, enquanto esperava que Lucy saísse do confessionário. Tinha certeza de que viria cheia de perguntas. Perguntas que ele ainda não estava preparado para responder. Respostas que ela não estava preparada para ouvir. Um ruído alto o tirou de seus devaneios. Vinha da porta da igreja e, tanto quanto ele podia perceber, não fora causado pela força dos ventos. Seguiram-se três batidas em sequência. Era um visitante — bem-vindo ou não —, mas, fosse como fosse, Sebastian estava preparado. Uma silhueta encharcada se esgueirou pela porta. Seu vulto treme -


luzia aos clarões dos relâmpagos cada vez mais frequentes. — Droga. Ele reconheceu a voz que ouvira no hospital. Cecília. Mas não disse uma palavra. Ela fechou a porta e sacudiu o corpo, para sacudir a água da chuva. A escuridão diante dela era densa e intimidante, porém não mais que o vento que uivava lá fora. Ela tirou seu casaco de penas de avestruz, que estava encharcado e pesando uma tonelada, e ficou apenas com a camiseta sem mangas que usava por baixo. Suas polainas pretas estavam coladas às suas pernas. Ela parecia uma renegada do rock'n'roll — delineador escuro e sombra azul escorrendo dos olhos e lábios sem batom. — Alguém em casa? Ela não queria que fosse simplesmente alguém. Queria que fosse ele. Uma fagulha à frente a surpreendeu. Ela não estava sozinha. Pensou em retirar a guitarra do estojo para usá-la como instrumento de defesa. No palco, sua atitude agressiva era uma simulação, mas agora sua vida poderia depender dela. Ela apalpou os fechos do estojo, sem tirar os olhos do ponto onde estava a fagulha. Sebastian ergueu à altura da cabeça um pedaço de madeira que acendera na vela votiva e se revelou a ela. Ela mal conseguia distinguido à distância, mas sentiu a presença dele, assim como sentira no hospital. Então relaxou um pouco. A decepção que tivera mais cedo, naquela È noite, desapareceu completamente. Foi substituída por uma sensação de descrença — do melhor tipo possível. Isso é mágica, pensou ela. Preces atendidas. Ao se aproximar, ela viu que ele estava nu da cintura para cima e era tudo o que ela imaginara. Ele acendeu uma segunda vela votiva com a chama do pedaço de madeira. — Isso é uma surpresa — disse ela. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— É mesmo? — Bem, eu estava esperando, estava achando que poderia encontrar você. — Você estava esperando. — Mais ou menos. Sebastian riu. — Como você me encontrou ? — Eu fiz algumas apresentações inesquecíveis nesta igreja e nunca e esqueci do cheiro do incenso daqui. Olíbano. Você cheira igualzi- ao. Além disso, me lembrei do talismã na pulseira que você me deu. E a esma espada que está gravada acima da porta. Um sinal, eu acho. — Sinal bom ou ruim? — Vamos ver. — Fico feliz por você estar aqui. Ele não pôde deixar de notar que ela parecia uma supermodelo que tinha acabado de ser molhada com uma mangueira para algum desfilei de moda esquisito. Fosse em um leito de hospital, fosse encharcada até 1; a medula, pensou ele, Cecília tinha uma beleza inegável, muito acima? da média. — Como você está se sentindo? — Molhada. Desempregada. Sem teto... Melhor. Então era para cá que você estava com pressa de vir naquela noite? — perguntou ela. — Não, não estou aqui há muito tempo — respondeu ele. — Mas aqui é seguro. Geralmente. Eu venho para cá de vez em quando. Vestido apenas com a calça jeans, Sebastian se aproximou de Cecília sem deixar de olhá-la fixamente. A luz da vela acentuava seus braços longos e musculosos. — Calma aí, marujo — disse ela em tom de brincadeira, mas um tanto preocupada. Ele sorriu, embolou um tecido que estava no altar e o arremessou para ela. — É melhor se secar — recomendou. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Não diga — brincou ela, virando-se de costas e enxugando o rosto, pescoço e braços. Depois de se recompor, puxou da bolsa molhada um cigarro com aroma de cravos, que tentou acender com seus fósforos molhados. Sebastian retirou o cigarro da mão dela, colocou-o na boca e o acendeu na vela. De olhos fechados, deu uma lenta tragada e esfregou o cigarro nos lábios dela, até que ela relaxasse e o firmasse na boca. Ele inclinou a cabeça para trás e soltou a fumaça. Tinha a expressão satisfeita, pensou ela, de um homem resgatado de uma ilha deserta ou de um prisioneiro em sua hora de lazer. — É impressionante como aqui é tranquilo — observou Cecília, tentando enxergar o melhor possível. — Mal se ouve a doideira lá fora. — Sim, é tranquilo — concordou ele, parecendo totalmente à vontade. — Bem, agora nós sabemos por que estou aqui — disse ela —, mas e você? Ela se aproximou de Sebastian, retirou o cigarro dos lábios e o colocou entre os lábios dele, aguardando uma resposta. Surpresa ao ouvir o som de conversa, Lucy entreabriu a porta do confessionário, perscrutou o lado de fora e viu Sebastian conversando com uma desconhecida. Olhou para eles durante algum tempo. No início estava apenas curiosa, depois começou a sentir ciúmes. De repente, ficou enraivecida. Saiu então do confessionário, ruidosamente, segurando o suéter de Sebastian. Procurou atrair o máximo de atenção que pôde. Mal conhecia aquele cara, mas seu rosto estava vermelho como se tivesse descoberto que ele a estava traindo. — Ah, então é isso o que você estava fazendo aqui — disse Cecília. — O que está acontecendo aqui? — bufou Lucy, aproximando-se deles. — Não é o que está parecendo — aparteou Sebastian, tentando explicar a situação para elas, antes que Cecília reagisse. — Ser a segunda é horrível, não é? — vociferou Lucy. — Não quando a primeira é vulgar — retrucou Cecília. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Querida, não há nada de vulgar em mim. Sebastian não disse nada. — Quer dizer que além de fazer ponto em hospitais você também faz ponto em igrejas? — disse Cecília, jogando a guimba do cigarro no chão e a pisoteando. — Que chique. Sebastian se moveu na direção dela, mas Cecília recuou. Ele não conseguiu falar nada. Cecília continuou a esbravejar furiosamente, deixando cair no chão sua caixa de fósforos e depois seus cigarros. — E ainda por cima no confessionário? — continuou ela. — Realmente você merece um prêmio pela criatividade, por desnudar seu corpo e sua alma. Mas me parece muito vulgar. — Quem diabo você pensa que é? — bradou Lucy. — Eu não sabia que você gostava do tipo patricinha — disse Ceci para Sebastian, dando uma risada. — Aposto que nem sabe o nome dela. Bem, talvez você tenha lido o prontuário que estava pregado na cama:; dela, no hospital. Como fez comigo. — Cama do hospital? — perguntou Lucy. — Espera lá, o que está havendo aqui? Aproximando-se, Lucy olhou para Cecília com mais atenção e ficou surpresa. Aquela garota não parecia do tipo ciumento. Era linda, controlada e, a julgar pela roupa, durona. — Vocês já se conhecem? — perguntou ela. Os saltos de seus sapatos estalavam cada vez mais alto à medida que ela chegava mais perto. — Do Perpétuo Socorro — explicou Ceci. — Eu estive lá no último fim de semana, Não foi nada de mais. — Eu também estive — observou Lucy. Lucy levantou a manga de seu pulôver e Cecília pôde ver a pulseira dela. E lançou a Sebastian um olhar encolerizado. — Você também tem uma? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Encontrei no hospital, na mesa de cabeceira — explicou Lucy. — E eu pensando que já tinha visto de tudo — rosnou Ceci. — Esse cara estava paquerando. Simplesmente no setor de emergência de um hospital! Distribuiu uns lindos presentinhos de despedida para ver quem conseguiria fisgar. Caramba, eu só estava brincando quando perguntei se você tinha atração por garotas doentes. Sentindo-se humilhadas, as garotas se entreolharam, abanando as cabeças simultaneamente, como que admitindo o péssimo gosto de ambas no que se referia a homens. Formavam um ótimo time, pensou Sebastian, mesmo que no momento estivessem contra ele. — Eu não arrastei vocês até aqui — disse ele, tomando a ofensiva. — Nenhuma das duas. — Não, você só plantou algumas sementes — disse Lucy, desapontada também. — Não inverta as coisas — acrescentou Cecília. — Vocês vieram por livre e espontânea vontade, não foi? — disse Sebastian. — E podem ir embora quando quiserem. — Boa ideia. Há outras lixeiras para a gente cair. Com ratos menores. Cecília estava magoada. Lucy, prostrada. — Eu pensei que isto fosse um presente especial! — berrou ela, retirando a pulseira e a arremessando em Sebastian. Cecília fez o mesmo, mas apenas a jogou para ele. — Foi um grande erro. Vamos embora. Lucy hesitou, oferecendo a Sebastian uma última chance para se explicar. O que ele não fez. Então, acompanhou Cecília relutantemente. ��� Os presentes são especiais — gritou ele para elas, em meio à penumbra. — Vocês são especiais. Não foi um erro. Elas pararam e se viraram. — Eles trouxeram vocês aqui. Vocês duas. Aqui. Para mim. — Essas pulseiras são o quê, mísseis teleguiados? — perguntou Cecília. — Os talismãs. Eles são chamados de milagros, em espanhol. Significa I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


"milagres" — disse ele, restituindo os amuletos para elas. — Servem para orientar. Curar. Trazer de volta para casa. — Então o meu falhou! — observou Cecília, erguendo os braços. — Não estou em casa. Nem tenho casa! — Por que você não escuta por um segundo? — esbravejou Lucy. — Eu não gosto de ménage à troís — disse Cecília, irritada com a indecisão de Lucy. Divirtam-se. Lucy segurou o braço dela. — A chuva lá fora ainda vai ficar pior. Espere passar. Cecília sentiu um pouco de psicologia reversa na voz de Lucy. Como se ela não estivesse realmente falando sério. Lucy queria que ela saísse dali. Queria Sebastian só para ela. — Passar? Como uma pedra no rim? Não, obrigada — retrucou Cecília, frustrando a tentativa de Lucy e olhando para Sebastian. — Não vim aqui para figurar no Bachelor9. Aliás, lá fora não pode estar pior que aqui dentro. Cecília pegou a guitarra e seu grosso casaco e se dirigiu até a porta. Ao abri-la, quase foi arremessada para trás por uma violenta rajada de vento que por pouco não arrancou das dobradiças a enorme porta de madeira. Ela mal conseguia enxergar, mas o que pôde distinguir era horrível. A rede metálica e os andaimes chacoalhavam e rangiam ao vento e grandes galhos eram arrancados das árvores, amassando os carros estacionados abaixo e atravancando a rua até onde sua vista alcançava. O aguaceiro entulhara os esgotos, inundando as calçadas e os porões das casas de pedra. Sacolas de supermercados, embalagens e camisinhas usadas flutuavam sob as vacilantes luzes da rua. Toda a área, pensou Cecília, estava com o odor insalubre de um banheiro de botequim. Ela se agarrou com força ao umbral da porta para se defender da ventania brutal que a açoitava, transformando seu rosto em uma espécie de máscara e seus membros em pedaços de carne trêmula. O dilema entre ir I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

9

Alusão a The Bachelor ("O Solteiro"). Reality show americano que focaliza um homem solteiro e suas

perspectivas amorosas. (N.T.)


embora ou permanecer ali já não fazia sentido. — Feche a porta! — gritou Lucy. — Você está deixando a chuva entrar. A porta, que se mostrara tão difícil de ser aberta quando elas chegaram, agora se mostrava igualmente difícil de ser fechada. Lucy correu até a entrada e apoiou as costas na porta, para ajudar a Cecília a empurrá-la. A pressão sobre seu corpo só fez aumentar sua dor de cabeça. Cecília e Lucy estavam quase fechando a porta quando um gemido esganiçado abriu caminho entre os estrondos atrozes e alcançou seus ouvidos. — Tem alguma coisa lá fora — disse Cecília. Tanto quanto ela podia dizer, o gemido viera das proximidades da escada. Seria um gato vadio, tentando sobreviver à tempestade?, pensou ela. Então, desafiando as rajadas impiedosas, ela enfiou a cabeça pelo vão da porta. — Filha da puta! — gritou, chocada. — Que foi? — berrou Lucy. — O que está havendo? Cecília estava perplexa. Era uma garota chorando, cobrindo o rosto com as mãos. Estava descalça e encharcada. O capuz de seu poncho de lã mal conseguia cobrir seus longos cabelos avermelhados. Curvada sobre si mesma, ela tremia de frio e de medo. Desmantelada e à deriva, como os restos de um naufrágio. Cecília passou para o lado de fora e foi instantaneamente atirada contra a porta. Ela se ajoelhou e estendeu a mão para a garota, mas esta permaneceu imóvel. Parecia quase catatônica, como se estivesse pregada no lugar. — Vamos — pediu Cecília. — Você vai morrer se ficar aí. Lucy continuava no saguão, assistindo frustrada à negociação unilateral. — Depressa! — gritou ela. — Se ela quer ser teimosa, deixe ela. Vou I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


fechar a porta. Cecília se virou e fez sinal para que Lucy se aproximasse. — Você não estava indo embora? — lembrou Lucy. — Não posso fazer isso sozinha... — bradou Cecília, percebendo que não tinha um nome para acompanhar seu pedido urgente. — Lucy. Meu nome é Lucy. — Cecília. Por favor, Lucy. Me ajude. Lucy concordou relutantemente e se esgueirou para fora. Lutando contra os elementos, ambas começaram a arrastar a garota. — Espero que você esteja grata — resmungou Lucy para a desconhecida. — Minha roupa custa mais que sua casa. Enquanto a garota era conduzida, as mangas de sua blusa se levantaram, revelando ataduras nos pulsos e um bracelete. Um bracelete quase idêntico aos delas. Ambas se entreolharam com ar de descrença. — Tudo bem — disse Lucy à garota, exibindo seu talismã. Ao vê-lo, a garota pareceu se acalmar. — Eu vi isso — disse ela, baixinho. — Lá fora. — Eu sei — respondeu Lucy. O inesperado clarão de um relâmpago, um trovão ensurdecedor, uma tromba-d'água e uma súbita escuridão as surpreenderam. — Blecaute! — gritou Cecília. — Não consigo enxergar nada! — bradou Lucy. Totalmente desorientadas, as três garotas subiram a escadaria com passos vacilantes, uma puxando a outra. Cecília começou a perder as forças e Lucy, o equilíbrio. Um segundo antes que todas caíssem, Sebastian as agarrou com as duas mãos e as puxou para dentro da igreja. Depois, lançando um olhar para o céu esverdeado que aparecia através da rede, fechou a porta com o pé. Ele imediatamente cuidou da desconhecida, conduzindo-a gentilmente até as proximidades das velas votivas, que se mantinham acesas. — Agora você está bem — disse ele, segurando a mão dela. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ele acendeu mais uma vela. — Obrigada — murmurou a garota. — Qual é o seu nome? — perguntou Cecília. Sebastian arriou o capuz da garota, afastando os cabelos molhados de seu rosto pálido. A pele dela parecia estar iluminada por dentro. — Agnes. Lucy a ajudou a tirar o poncho, que substituiu por sua capa de gabardina, agora já seca. A garota estava abalada, e estremecia a qualquer toque, por mais delicado que fosse. — Nós vamos morrer? — perguntou ela, por entre as lágrimas. — Você está segura aqui — prometeu Sebastian, sorrindo. Tomada de alívio e arrependimento, Agnes chorou.

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9 DOMANDO A LÍNGUA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Explique para nós o que está acontecendo — disse Cecília. Os quatro estavam agrupados diante das velas votivas, como em um acampamento. Molhados e com frio, ouviam os estrondos da horrível borrasca que caía do lado de fora. Eram estranhos, mas, estranhamente, não eram. — É uma história complicada. Sebastian as perscrutou em silêncio, enquanto a tempestade caía, avaliando uma por uma, a aparência, o estilo, a personalidade, as peculiaridades, os pontos fortes, as vulnerabilidades. Cecília batucava na própria


coxa. Lucy examinava obsessivamente a cutícula de suas unhas. Agnes abraçava os joelhos; seus tremores estavam começando a diminuir. — Nós temos tempo. Três dias, segundo os caras do tempo — disse Lucy. — Isso se nós não matarmos uns ao outros antes. Agnes e Cecília olharam para Lucy com ar de quem considerava a hipótese bastante possível. Sem uma muda de roupas e nenhuma comida, exceto as porcarias que Sebastian tinha na mochila, tudo era possível. — Três dias — repetiu Sebastian. — Vai dar tempo. — Dar tempo para quê? — inquiriu Cecília. — Para vocês entenderem. Cecília ficou apreensiva. — Não sei bem se quero mesmo saber. — Eu quero — disse Agnes, em voz baixa. — Gostei muito do presente, mas onde você arranjou essas pulseiras? — perguntou Lucy. — Eu nunca vi nada parecido. — Elas me foram dadas — respondeu Sebastian. Lucy duvidava de que aquele garoto à sua frente viesse de uma família endinheirada. Ele teria de pertencer a algum tipo de realeza ou aristocracia para receber uma herança daquelas. — Foram herança? São antiguidades valiosas, poderiam estar em um museu. — Por que você distribuiu esses braceletes? — pressionou Ceci. — Porque não me pertencem. — Tudo bem, foram dados para você, mas não são seus. Não estou entendendo. E alguma história tipo Robin Hood? — perguntou Lucy. — É só o que posso dizer agora. Sebastian se recostou na parede atrás dele. A visão que as garotas tinham dele estava distorcida pelo jogo de luz e sombras das velas bruxuleantes e dos clarões dos relâmpagos. Mas elas podiam perceber que ele, de repente, ficara pensativo, com uma expressão atormentada no rosto. Todas estavam curiosas, mas nenhuma delas se atreveu a fazer mais perI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


guntas. Estavam em segurança. Por enquanto. Agnes olhou para as explosões de luz que se filtravam através das frestas das tábuas que cobriam os buracos onde antes houvera vitrais. Os raios estavam cada vez mais frequentes e violentos, e os trovões, mais altos. — Vocês sabiam que a gente pode descobrir a que distância está uma tempestade contando o tempo que há entre um relâmpago e um trovão? — perguntou ela. — Não preciso contar — respondeu Cecília. — É uma medição bem aproximada — concordou Sebastian. — É uma coisa tão linda — disse Agnes, olhando para cima. — Parecem fogos de artifício naturais. — Uma coisa cósmica. Literalmente — observou Cecília. — Não se consegue comprar um show de luzes como esse nem com todo o dinheiro do mundo. — Na verdade se consegue — discordou Lucy. — Ninguém lhe perguntou nada, desmancha-prazeres — vociferou Cecília. Arcos de luz se propagavam pelo dossel de nuvens, produzindo clarões brancos, verde-alaranjados e azul-fosforecentes, que transformavam o céu sem estrelas no laboratório de algum cientista maluco. — Para mim parece uma teia de aranha — pensou Lucy em voz alta. — Uma armadilha. — Que ideia reconfortante — disse Cecília. — Ou uma tomografia computadorizada — emendou Agnes. — Uma tomografia computadorizada das veias e artérias do céu. — Que romântico — riu Cecília. — Obrigada — respondeu Agnes, sem a menor conotação de ironia. De repente, Lucy sentiu seus cabelos se arrepiarem. Então olhou ao redor, como que procurando um fantasma; depois observou os companheiros, para verificar se algo havia mudado. Ela os viu abrir e fechar as bocas, em um esforço inútil para combater a súbita queda de pressão que I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


comprimia seus ouvidos. Fez o mesmo. Depois tocou o ferimento na testa. Agnes apalpou os pulsos enfaixados, cujos ferimentos começaram a doer muito mais. O ar estava carregado de eletricidade, e os quatro vibravam como antenas. Nuvens carregadas se abriram diretamente sobre a igreja, despejando pedras de granizo do tamanho de grapefruits dentro e fora igreja, acompanhadas por uma espécie de neve. A temperatura caiu quase no mesmo instante, fazendo as garotas se encolherem ao máximo diante da saraivada de pedras de gelo que caíam sobre elas. Um matraquear feroz começou a ecoar no prédio, produzindo vibrações que todos sentiram em seus corpos. Um trovão estrondeou tão alto que eles estremeceram e taparam os ouvidos. As chamas das velas aumentaram momentaneamente, alimentadas pelo influxo de oxigênio, mas depois minguaram até quase desaparecer, fustigadas pelo vento. Um relâmpago mais forte, brilhante e próximo que os anteriores foi seguido pelo som de vidro se estilhaçando, que pareceu vir do altar. Tão rapidamente quanto surgira, a neve e o granizo desapareceram, substituídos por uma chuva forte e gelada. — Esperem aqui — ordenou Sebastian, levantando-se com um pulo. — Vou checar isso. — Vou com você — disse Cecília. — Não — disse Sebastian com firmeza, deixando-as surpresas. — Quero ajudar você. — Volto já. — Tome cuidado — recomendou Agnes. Sebastian desapareceu na escuridão. Elas ouviram seus passos por algum tempo, mas depois o perderam em meio aos estrondos da noite tempestuosa. Uma porta rangeu na parte da frente da igreja, e uma fechadura estalou. Depois, silêncio. Ele se fora. — Ajudar ele? — zombou Lucy. — Você só estava querendo ficar I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


sozinha com ele. Cecília revirou os olhos e mudou de assunto. Havia mais troça que despeito no comentário, e estava ocorrendo um claro degelo na fria distância que vinham mantendo entre si. Na ausência de Sebastian, as garotas sentiram-se mais dispostas a falar com franqueza. A escuridão, o frio e a incerteza minavam a atitude defensiva delas, como um cilício sobre pele nua. — Vocês acham que ele roubou as pulseiras? — perguntou Ceci, remexendo em seu bracelete. — Na verdade não me interessa — replicou Lucy. — Adorei a minha. — Tudo bem, mas por que nós? — insistiu Ceci. — Nós não nos conhecíamos, nem conhecíamos ele. Elas refletiram sobre o assunto em silêncio, até que Agnes ponderou: — Mas e o que ele disse sobre as pulseiras terem nos trazido até aqui? Vocês eu não sei, mas eu nunca estive nesta igreja em toda a minha vida. E de repente me pareceu o lugar certo para ir. — Talvez ele seja um maníaco — sugeriu Cecília. — Deu as pulseiras para as primeiras garotas que encontrou no hospital. — Você não acha isso realmente — disse Agnes. — As pessoas fazem todo o tipo de merda — respondeu Lucy. — Como penetrar em igrejas durante a noite? — gracejou Agnes. — Por que você está defendendo ele? — perguntou Cecília. — Não estou — replicou Agnes. — Só não vejo por que a gente não deve acreditar nele. — Não vê por quê? — bradou Lucy. — Para começar, ele é um completo desconhecido. — Isso não significa que ele seja mentiroso. Também não conheço vocês, mas estamos conversando. — Ele não está sendo sincero, Agnes — desafiou Cecília. — Quer dizer, o que ele está fazendo aqui, de verdade? — Por que não pergunta a ele? — respondeu Agnes. — Tenho certeza I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


de que não é nenhum mistério. — Por enquanto eu daria a ele um crédito de confiança — interpôs Lucy. — Nem sabemos por que nós estamos aqui. Agnes ergueu o braço e exibiu orgulhosamente sua pulseira, como se esta fosse uma tatuagem nova. — Por causa disto. — Você acredita em tudo o que um cara lhe diz sem questionar nada? — indagou Cecília. — Só estou dizendo que talvez devêssemos mesmo receber esses braceletes. — E eu só estou dizendo que vou ter que ficar aqui por... o quê, três dias? — Três Dias de Escuridão — disse Lucy, imitando o repórter do tempo em tom de pilhéria. — O gente de pouca fé! — disse Agnes incisivamente. — O gente imatura — devolveu Cecília. Ambas se entreolharam e, exaustas, com os nervos à flor da pele, decidiram encerrar a conversa por algum tempo. — Alguém sabe que horas são? — perguntou Ceci. — Não faço ideia — disse Lucy. — Já é muito tarde. Ou cedo. — Seja como for, não consigo ficar sentada aqui por mais tempo — disse Ceci. — Vamos examinar este lugar — sugeriu Lucy. — Sebastian pediu para a gente esperar aqui — lembrou Agnes. — Fique à vontade. Lucy pegou algumas velas votivas que estavam em uma pequena pilha, ao lado do altar de oferendas. Ofereceu uma para Agnes. Agnes a aceitou. Depois de acenderem suas respectivas velas e as colocarem em castiçais de metal, elas se afastaram lentamente do altar lateral dos fundos da igreja. Gotas de cera pingavam e endureciam em suas mãos. A luz era suficiente para guiá-las e para que enxergassem umas às outras, mas não tão forte a I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


ponto de despertar a atenção do mundo exterior, se é que o mundo exterior ainda existia. As chamas estavam bastante inclinadas. Os esforços que elas faziam para protegê-las eram inúteis contra a aragem contínua que se infiltrava através das tábuas das janelas. Mas havia pouca coisa para se ver. Ceci acendeu um cigarro em uma das chamas e deu uma tragada. — Isto aqui é como um paciente de câncer em estágio terminal. — Cecília examinou as adjacências, exalando fumaça enquanto falava. — A casca de alguma coisa que um dia esteve viva. — Com um aviso de NÃO RESSUSCITAR — concordou Lucy espanando a fumaça para longe. Filetes de água que caíam do teto danificado atraíram a atenção de Cecília. Ela pegou alguns receptáculos de água benta enferrujados, que estavam próximos à grade do altar, e os entregou a Lucy e a Agnes, para que estas os posicionassem sob as goteiras. Agnes se irritou um pouco com a analogia, pois seu próprio entre- vero com a morte ainda estava bastante presente em sua memória. — Isso não é coisa para se brincar. — Não falei com sentido de ofensa, mas você entende o que eu quero dizer, certo? — retrucou Cecília. — Essa igreja já estava morrendo muito antes que os empreiteiros comprassem o terreno. — Quando precisou se abrigar da tempestade você veio para cá. Entende o que eu quero dizer, certo? — disse Agnes. — Vocês não precisam ficar cheias de melindres — interpôs Lucy. — Mas Agnes tem razão. Todas nós sabemos por que estamos aqui, quer a gente admita ou não. — Você está falando por si mesma — disse Ceci. — Por que você está aqui? A rusga as levou de volta à primeira conversa entre elas. Sebastian alegara que elas estavam ali por escolha própria, mas estariam mesmo? Os braceletes contavam outra história. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Pela mesma razão que você — respondeu Lucy secamente. — Não tínhamos muitas opções. — É mesmo? Você não me parece nenhuma sem-teto — observou Cecília. — É porque não ando por aí dormindo cada dia em uma cama — disse Lucy. — Você é nojenta — disparou Ceci. — Garota fácil, não é mesmo? — disse Lucy sarcasticamente. Agnes olhou para Cecília com ar compreensivo, abanando a cabeça. As vozes começaram a subir de tom, à medida que a discussão descia a patamares cada vez mais baixos. O teto abobadado capturava a algazarra e a reverberava, até que chegou um ponto em que elas mal conseguiam ouvir uma à outra. — O que você está olhando? — vociferou Lucy em direção a Agnes, com a irritação superando qualquer simpatia que antes sentisse pela garota. — Você está me encarando desde que chegou aqui. — Nada — replicou Agnes humildemente. — É que você me parece familiar. — É, parece — concordou Cecília. — Na verdade, acho que conheço você. — Pode acreditar — assegurou Lucy. — Você não me conhece. — Ou melhor, sei a seu respeito. Lucy empalideceu como um menor de idade flagrado em uma boate apresentando um documento falso. Ela se preparou para os ataques. — Geralmente muito bem-vestida e enfeitada, e com uma expressão arrogante — disse Cecília, olhando atentamente para ela. — Símbolo dos ricos desavergonhados. Lucy aguentou o castigo como se tivesse um amortecedor, olhando silenciosamente para Ceci. Um pouco de zombaria não era novidade para ela. — Ah, desculpe - acrescentou Cecília. — Eu tenho permissão para I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


olhar você nos olhos? — Uau — retrucou Lucy, em tom de falsa descrença. — Eu não sabia que se pode fazer amizades tão nocivas tão depressa. — Amigas tão depressa? — desdenhou Cecília. — Só se for no seu mundo. — Não sei como uma piranha magricela como você consegue viver sendo tão rancorosa. — Não posso me queixar — bufou Ceci. — E como você consegue? — O que você quer dizer com isso? — sibilou Lucy. — Para sua informação, os homens fazem fila para se aproximar de mim. — Fotógrafos não contam — retrucou Ceci — Eles são pagos para se aproximar de você. — Não preciso pagar para sair com ninguém. E ninguém precisa me pagar, também. — Não, vocês usam um ao outro para tirar fotos, vendem os direitos e repartem o dinheiro. Você não namora. Levanta fundos. — Meus cheques, pelo menos, não são devolvidos. Agnes estava horrorizada com o rumo venenoso que tomara a discussão. Era como nas brigas entre ela e sua mãe. Ela sabia muito bem aonde isto levaria. Cecília não queria desistir. — Bem, você não se parece nada com suas fotos, mas com este tempo não vou dizer que é culpa sua. De repente, Agnes também se lembrou. — Lucy Sortuda — arquejou ela. — A Miss Putinha Mirim do Brooklyn — tripudiou Cecília. — Quem desdenha quer comprar. — Lucy deu de ombros, admitindo sua reputação. — Agora pode parar de apertar o botão da inveja. — Estou fora dessa — disse Ceci, jogando o cigarro no chão. — Mas pelo menos você reconhece. — Piranha — retrucou Lucy. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Meu Deus, quando é que vão legalizar a eutanásia? — exclamou Cecília olhando para cima. — Vocês estão me deixando com dor de cabeça! Agnes ficava cada vez mais debilitada e isto estava começando a aparecer. Na verdade, todas estavam. — Não se meta nisso, Rapunzel — disse Cecília, um tanto irritada com os cabelos compridos de Agnes e sua falsa boêmia. Lucy não era o único rosto familiar a Agnes. Quanto mais ouvia Ceci implicar com ela, mais ela percebia que a conhecia de algum lugar. — E acho que conheço você — disse Agnes para Ceci. — Você abriu o show daquele conjunto que tocou na minha escola alguns meses atrás. — Não pode ser verdade — troçou Lucy. — Você, uma deusa do indie rock. Uma artista alternativa. — Foi um show beneficente — explicou Cecília humildemente. — Se apresentando em um ginásio de escola — rosnou Lucy. — Desesperada mesmo. — Me apresento em muitos lugares — disse Cecília. — Então temos uma coisa em comum — disse Lucy. — Não, eu trabalho. — Parem — implorou Agnes. Tendo ambas conquistado pontos, Lucy e Cecília aceitaram a sugestão de Agnes e respiraram fundo. Sentaram-se então em bancos separados e ficaram olhando para as velas. Embora os bancos estivessem próximos, cada uma se recolheu aos próprios pensamentos. O pensamento de todas era que o pior ainda estava por vir. Assim, iam ficando cada vez mais tensas. Sentiam-se como se estivessem em um elevador enguiçado. — Nós estamos tensas — continuou Agnes. — Vamos ficar em silêncio e tentar ficar calmas. — Eu só estava procurando uma saída — desabafou Lucy. — E por isso que estou aqui. — Eu soube que você estava se escondendo — disse Ceci. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Quem não está? — interpôs Agnes. — Mas há outros lugares para se esconder. — Eu pensei que todo mundo procurava uma igreja desativada, com um cara sexy dentro, para se esconder — replicou Lucy, tentando interromper o raciocínio mágico de Agnes. O súbito som de marteladas, de pregos sendo cravados em madeira as assustou, e elas pararam de conversar por alguns instantes. — Sebastian? — gritou Cecília. Mas não obteve resposta, apenas mais marteladas. — Na verdade, há uma longa história de pessoas que procuram refúgio em igrejas. Para escapar de perseguições — disse Agnes. — O Brooklyn é conhecido como o Distrito das Igrejas. Cecília e Lucy olharam para ela com ar cético. — Faz sentido — acrescentou Lucy. — Estou sempre sendo perseguida. — Você e seus problemas de patricinha — replicou Cecília, acendendo mais um cigarro na vela do altar. — Mas isto ainda não responde à pergunta básica. Por que fomos atraídas para cá, especificamente, para este lugar onde ele estava? — Acho que a resposta sincera é não sei — disse Lucy. — Não sou religiosa nem nada. E não costumo dizer "Vá com Deus" quando alguém viaja. E gritar "Ai meu Deus" num domingo de manhã não é uma atitude propriamente religiosa. E você? — perguntou ela a Cecília. — Sou uma eclesiófoba total — respondeu Cecília. — Espere aí, você tem medo de igrejas? — indagou Agnes. —Aposto que com boas razões — acrescentou Lucy maliciosamente. — É que eu prefiro ouvir um sermão vindo de um amplificador, não de um altar — disse Ceci. — Tão pós-moderna — ironizou Lucy. Ceci a ignorou, perdida momentaneamente em seus pensamentos. Para sua surpresa, ela não estava se sentindo desconfortável. — A majestade, os rituais, a história, a arte. Tem muita coisa legal nas I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


igrejas — prosseguiu ela. — Eu entendo isso. Mas é difícil para mim acreditar em uma coisa que realmente não sinto. — Não vou muito a igreja, principalmente porque minha mãe faz muita questão que eu frequente — admitiu Agnes. — Mas frequento uma escola católica. — Essas são as piores. Eu cairia fora se fosse você — disse Lucy em tom sarcástico. — Ah, sim, eu caí fora. — Minha mãe achou que seria um bom ambiente para mim. Lucy traduziu: — Mais disciplinado, ela quis dizer. — E tão ruim assim? — perguntou Agnes. — Responda você — devolveu Lucy, apontando para os pulsos de Agnes. — Está funcionando? — Meus pais tentaram isso comigo também, mas eu disse a eles que fugiria de casa se tivesse que ir — confidenciou Ceci. — Então eles obrigaram você? — perguntou Agnes, admirada com a determinação de Cecília. — Não, eu fugi de casa — disse Ceci. — Ir para uma escola pública ou religiosa não era o meu problema. Meu problema era ir para a escola. — Então aqui estamos nós: um vagabundo, uma renegada, uma rebelde e uma suicida. Quatro pecadores em uma igreja enorme e ninguém sabe o motivo — resumiu Lucy. — E isso? — Um de nós sabe — respondeu Cecília, com a voz enrouquecida pela poeira e umidade. — Sabe o quê? — exclamou Sebastian, emergindo da escuridão. — Você estava escutando escondido? — Não precisei — disse Sebastian. — Fico surpreso por ninguém no lado de fora ter ouvido a discussão de vocês. — Então, o que houve? — indagou Agnes. — Uma árvore enorme se partiu e um pedaço entrou por uma das janelas. Vidro por toda a parte. Eu tapei o buraco com tábuas o melhor que pude. Mas não vai dar para manter a coisa lá fora para sempre. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— A tempestade? — perguntou Lucy. Sebastian ficou em silêncio. — Nós estávamos nos perguntando por que viemos parar aqui — explicou Agnes calmamente. — Nenhuma de nós faz a menor ideia. — E você? — indagou Lucy. Sebastian sentou-se junto a elas. — Eu tenho uma longa história neste lugar — começou ele. — Fui coroinha nesta igreja quando era garoto. — Não precisa contar a história da sua vida — atalhou Lucy. — Não é nada disso — replicou Sebastian. — Eu aprendi muito sobre mim aqui. — É por isso que você sabe andar aqui? — perguntou Cecília. — Mais ou menos — disse ele, hesitante. — Fui criado pela minha avó, e ela costumava me trazer aqui aos domingos. Quando ela morreu, alguns anos atrás, eu deixei de vir. — Você perdeu a fé ou coisa parecida? — indagou Agnes. — Não, acho que talvez algumas pessoas perderam a delas. — Você está sozinho desde essa época? — Passei por alguns internatos, mas não durou muito. Sebastian estava visivelmente pouco à vontade ao revelar detalhes de sua vida particular. — Bem, estamos todos aqui agora — observou Ceci. Sebastian percebeu que Agnes ainda estava pálida e trêmula. — Você está bem? — perguntou ele gentilmente. — Não — disse ela. Ele foi até o banco em que ela estava, ajudou-a a se levantar e a conduziu até os fundos da igreja, onde se sentou ao lado dela, deixando Lucy e Cecília sozinhas. — Muito conveniente — cochichou Lucy para Ceci. — Ela está representando muito bem o papel de menina vulnerável e ele está embarcando totalmente. Bem, ele não sabe o que está perdendo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Nós não temos nada a ver com a vida dele e vice-versa — sussurrou Cecília. Depois que a tempestade passar vamos voltar a viver nossas vidas, como se nada disso tivesse acontecido. — É, mas essa história de coroinha está me parecendo meio nebulosa — insistiu Lucy. — Acho que ele mora aqui e está com vergonha de dizer. — E se morar? — Detesto ver alguém desperdiçando potencial. Ele é inteligente, maneiro e lindo. O céu é o limite — disse Lucy. — Nem todo mundo quer o mesmo que você. Talvez ele tenha planos diferentes. Coisas melhores que ver seu retrato no jornal ou no blog de alguém. — Como o quê? Tocar em espeluncas e fingir que é feliz? — rebateu Lucy sarcasticamcnte. — Nós vivemos em um mundo de manchetes e ele tem tudo para aparecer nas manchetes. Na verdade, ele me lembra um pouco eu mesma. Pelo menos nas coisas que eu gosto. — Você é bipolar ou coisa parecida ? — exclamou Ceci asperamente. — Vai me dizer que você também não sente isso? — perguntou Lucy. — Ele é sensível com Agnes, inspirador com você e tranquiliza' dor comigo. Nem nos conhece, mas sabe do que nós gostamos e do que precisamos. — Suas teorias estão me deixando cansada. — Cecília bocejou e se pôs de pé. — Você acha isso importante? — Não realmente... Na verdade, acho sim — disse Lucy — Você não acha? Em silêncio, ambas caminharam até a frente da igreja, relanceando ' olhares para os fundos, onde Sebastian estava confortando Agnes. — Sim, acho que sim — admitiu ela finalmente. — Seja lá como for, isto vai dar uma boa história algum dia — comentou Lucy, adotando sua atitude de promoter profissional, como costumava fazer em situações difíceis. — Talvez ele seja um desses fanáticos religiosos malucos. — Espero que não. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Por que não? Ceci deu um largo sorriso. — Não me meto com malucos. — Aposto que mete — riu Lucy. — Nós estamos dentro de uma igreja, pelo amor de Deus — disse Cecília, fingindo indignação. — Olha só quem fala — lembrou Lucy. Cecília sentiu seus joelhos dobrarem ligeiramente. — Eu não sei o que é, mas minha cabeça está girando. Preciso jrepousar um pouco. — Tudo bem — concordou Lucy, cuja cabeça ainda doía. — Também não estou me sentindo eu mesma. — Acho que você precisa dormir um pouco — disse Cecília. — Nós todas precisamos.

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O SONHO DE CECÍLIA

C

ecília acordou pouco antes do alvorecer. Sozinha. Vestia ura elaborado corpete incrustado de granadas e um longo vestido bege-claro, intrincadamente alissado. Uma capa de chiffon preto recobria todo o conjunto. Seus cabelos formavam um coque no alto da cabeça, amarrado com os ramos flexíveis de um cipó espinhoso. Seus lábios estavam descorados, assim como sua pele empoada. Um ruge róseo lhe recobria as bochechas. Seus olhos estavam encovados e enevoados. Ela mais parecia uma pintura que uma pessoa. Uma onda de pânico irrompeu nela, inundando suas artérias com adrenalina e fazendo seu coração disparar. — Lucy — gritou ela. — Agnes? E finalmente: — Sebastian? — Estou aqui — disse ele. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ela virou a cabeça na direção do altar e o viu. Os raios de luz que se infiltravam na nave da igreja tornavam difícil distingui-lo àquela distância. Ela precisava se aproximar. — Não se mexa — disse ela, esgueirando-se para fora do comprido banco em direção ao corredor central. — Estou indo. Ela hesitou, sem saber ao certo se deveria se ajoelhar, inclinar a cabeça ou simplesmente continuar a andar. Não se ocupava dessas coisas há muito tempo. Então fez um pouco de cada uma: flexionou um joelho, abaixou um pouco o queixo e se encaminhou para o altar com passos vacilantes. Uma cena muito diferente de como ela imaginara seu casamento quando era apenas uma menininha. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Em sua fantasia seus passos eram firmes e acompanhavam o ritmo da valsa. Seu vestido de cetim branco incrustado de contas deslizava pelo corredor. Buquês de rosas e peônias, envolvidos por ramos frescos de pinheiros, adornavam cada centímetro quadrado da igreja, alternando-se com faixas de seda. Aguardando a chegada dela, é claro, estava o homem perfeito. Ela nunca conseguia ver seu rosto, mas ele compunha uma figura atraente: alto e elegante em seu smoking. Naquela época ela o imaginava saído de um conto de fadas. Nos dias de hoje, se ele saísse de uma capa da revista Rolling Stone já estaria ótimo. Que rumo diferente sua vida tomara. Em vez de um príncipe charmoso e carinhoso, o que lhe surgira pela frente fora um interminável desfile de depravados I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


egoístas, cujo único atrativo, para ela, era a total previsibilidade. Eles obtinham o que tinham vindo procurar, e ela obtinha o que pedia — uma vida de tédio, remorso, autopunição e ódio a si mesma. "Nunca espere nada e nunca se decepcionará" era seu lema. Ela nunca se decepcionava. Admirou seu vestido com a forte impressão de que fora feito só para ela; quando e por quem, ela não fazia ideia. Sentia-se como uma deusa, Quando se aproximou do altar, olhou para os dois degraus de mármore que o precediam e de novo para Sebastian, que estava de pé próximo ao atril, diante de uma harpa. De repente, foi assaltada por uma vertigem e seus ouvidos começaram a retinir. Era como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Teve a sensação de I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


que seu corpo oscilava e seus movimentos se tornavam mais vagarosos. — Estou esperando... — disse Sebastian. - Por você. — Onde estão os outros? — Estamos aqui — disse ele, estendendo a mão para — Não sei. Alguma coisa parece estar errada. — O altar ou eu? — perguntou. Seus olhos penetrantes prendiam os dela, queimando suas defesas. — Faz diferença? Para ela, tudo parecia ser uma coisa só. Um sacrifício. — Não tenha medo — disse ele, agora I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


estendendo ambas as mãos. Ela levantou um dos pés e o pousou no primeiro degrau. Estava com dificuldade para respirar. — Me sinto como uma criança. Por que isso é tão difícil? — Porque é certo. Ela abaixou a cabeça e, suavemente, começou a movê-la no ritmo da harpa, que estava longe dela. — Estou ouvindo música. — Que música? — Uma canção de amor. Você está ouvindo? Ela começou a murmurar, depois cantarolou baixinho como que sintonizando um caraoquê invisível. Era um hábito antigo. Um cântico que a preparava para a batalha. — Estou — disse ele. — Blues? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Johnny Cash — respondeu ela. — "Hurt". — Cante para mim. — Não. Triste demais. A canção mais triste que já escutei. — E a mais feliz. — Faz diferença? Ela colocou o outro pé no primeiro degrau, depois no segundo, enquanto a música estrondeava dentro de sua cabeça. Caminhou até os braços dele e encostou o ouvido em seu peito, que era musculoso, duro, diferente dos peitorais dos caras que costumava "namorar". Ela se aninhou em seu calor durante alguns segundos, sentindo as mãos dele afagarem suas costas, que eram muito sensíveis. Após tantos anos de dança quando menina, ela achava que sua coluna era protrusa — uma cordilheira de vértebras despontando I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


em sua pele. Reptiliana. Este era o termo que ela usava para descrevê-la. Uma feiura interior que tentava escapar, ou pelo menos se tomar visível. Um aviso. Uma forma de manter o amor ao largo. Como uma cobra exibindo as presas. — Você é tão linda — disse ele. Ela se sentiu embaraçada, tanto pela ternura das palavras dele quanto pela intensidade de sua aversão a si mesma, já ouvira essas palavras — de fãs entusiasmados despejando elogios, ou de parceiros sexuais fortuitos tentando parecer gentis antes de pedirem para ela ir embora. Ela já ouvira essas palavras, mas nunca lhes dera atenção. Até agora. — Não me envolvo com amor — sussurrou ela, relanceando um olhar para ele em busca de alguma reação, e depois retornando ao ninho que criara no peito dele. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— E porque o amor nunca se envolveu com você. Ele a abraçou. — Por favor, não. Remexendo em um relicário de vidro, Sebastian pegou uma aliança de platina. — A escolha é sua — disse ele, enfiando o anel no dedo dela e a abraçando com mais força. — Não minha. — O amor nunca é uma escolha. Não é? Ele segurou o rosto dela com firmeza e o levantou. Seus lábios se juntaram em um suave entrechoque de confusão e desejo. Cecília sentiu a aspereza de sua barba por fazer roçando contra seu rosto; doía, mas ela gostava da sensação. Foi dominada por uma paz que jamais conhecera e, ao mesmo tempo, por uma angústia que também não sabia de onde vinha. O som da harpa se elevou. Sentiu-se tangida como uma corda I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


o instrumento. Vibrando no mesmo tom. Seu coração começou a bater ainda mais rápido, perigosamente, e a circulação sanguínea pareceu deixar sua cabeça. Suas mãos ficaram dormentes e seus joelhos fraquejaram. O amor é isso, pensou ela, um ataque de pânico? Ou é algo diferente? — Não estou pronta — arquejou ela, com os lábios arroxeados. — Existe escolha? — perguntou ele. Cecília costumava pensar que o amor poderia matá-la, mas isso era diferente de tudo que ela havia imaginado. Era como se seu coração estivesse sobrecarregado, não partido. — Estou morrendo — disse ela, segurando a mão dele, que agora estava apertando com força seu fino pescoço. — Você está me matando. — Não tenha medo — sussurrou ele em seu ouvido, aumentando o aperto. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Eu não tenho fé — arquejou ela. — No amor. — Você é tão linda — repetiu ele. — Muito. Linda. Cecília se debateu, mas perdia as forças rapidamente. Sentia-se incapaz de estancar a vida que estava deixando seu corpo. Seus olhos arregalados fixavam um mural ilusionista no teto, pintado em cores vivas. Anjos em um vasto céu azul, que pareciam ganhar vida à medida que ela morria. Fitou Sebastian. Ele a olhava com tanto amor. Com tanta paixão. Como ela jamais fora olhada. — Eu te amo, mas não posso pensar em você. Ela sentiu-se purificada. Seu vestido se transformou em uma peça de cetim alvíssimo. Como sua pele. Os ramos de espinho entrelaçados em seus cabelos geraram minúsculos e I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


delicados botões vermelhos, como ela sonhava quando menininha. Enquanto seu peito arfava e seu último suspiro a deixava, seus braços penderam frouxamente. Um filete de sangue rubro coloriu seus lábios empoados e lindas rosas negras formaram uma poça a seus pés. A música parou. Sua consciência se desvaneceu em trevas e, de repente, em uma explosão de claridade. Sentindo-se mais viva que nunca, Cecília articulou sua última palavra. — Sebastian. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


10 VIGILANTES DO AMOR I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Agnes sentia-se enjoada. E amedrontada. Estava com medo do escuro, como sempre estivera. Era irracional; ela sabia disso. Até completar quatorze anos, nunca dormira de fato sozinha. E mesmo depois disso, só dormia com uma lâmpada acesa e a porta do quarto entreaberta. Esta provavelmente era uma das razões pelas quais sua mãe se achava no direito de interferir em sua vida. Aos dezesseis anos, ela não era apenas jovem, mas ainda muito criança aos olhos de sua mãe. Era teimosa, mas não independente.


Lucy e Cecília estavam adormecidas nos bancos ao redor. Sebastian ; ainda não retornara. Ela se sentia rodeada de gente, mas sozinha. "Engolida" descrevia a sensação de estar na igreja escura. A realidade do que ' estava fazendo começou a se infiltrar nela como a chuva no teto. Sua mãe iria enlouquecer quando fosse acordá-la para a escola e encontrasse o quarto vazio, com a cama ainda feita — a colcha cobrindo os travesseiros e os lençóis bem-arrumados. O que faria em seguida? Telefonaria para todas as amigas, sem dúvida, em busca de apoio e atenção. Mas depois o pânico se instalaria. Ela era a vida de sua mãe. Pensar na angústia da mãe intensificou suas neuroses. Ela estava futucando distraidamente um dos esparadrapos das ataduras quando um som atrás dela, seguido por um toque em seu ombro, gerou uma onda de choque que lhe atravessou o corpo. — Tudo bem com você? — murmurou Sebastian. Mergulhada em pensamentos, Agnes levou um susto. Em vez de se afastar, Sebastian se curvou sobre ela, aguardando uma resposta. — Sim — disse ela, mas seus olhos contavam uma história diferente. — Só não consigo dormir. Sebastian tocou a pele nua dos braços e pousou a mão sobre a testa dela. Que estava pegando fogo. — Você está sentindo dor? E deslizou a mão pelo braço dela. — Não — disse ela, com convicção. Mas logo mudou de ideia diante do olhar cético de Sebastian. — Sim. — Venha comigo. Gentilmente, ele a ajudou a se levantar. Agnes estava descalça, vestida com uma encharcada saia cigana que ia até seus tornozelos leitosos. A saia era em camadas, cada uma com uma tonalidade diferente. O conjunto lembrava uma nevasca na cidade: a primeira camada era bem branca; as seguintes iam escurecendo gradativamente. A última tinha cor de fuligem. Ele a conduziu até os fundos da igreja, onde passaram por uma porta e I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


entraram em um pequeno aposento atrás do altar. Fazia frio ali dentro e o ar estava tomado pelo aroma de sândalo, bálsamo e rosas. Agnes tinha bom olfato e se orgulhava de sua capacidade para discernir até as fragrâncias mais delicadas — extremamente útil para a confecção dos perfumes e sabonetes que ela dava de presente às amigas em seus aniversários. O único odor que ela não detectou, e que saturava o restante da igreja, era o cheiro da decadência do prédio. Sebastian riscou um fósforo, acendeu uma vela e se postou diante de uma cômoda grande, dotada de gavetas e prateleiras. Era um móvel em estilo tradicional, uma antiguidade. Embora fosse difícil enxergá-lo direito à luz da vela, parecia o tipo de peça que Agnes e suas amigas percorriam os brechós da Park Slope para encontrar. Sebastian virou a vela de lado, de modo que um pouco de cera pingasse do pavio e formasse uma poça no tampo da cômoda. Depois firmou sua extremidade inferior na poça e esperou que a cera endurecesse. Pela primeira vez Agnes conseguiu ver bem o aposento onde estavam. Um grande crucifixo de ouro pendia na parede acima da cômoda. Trajes nas cores roxa, verde e branca estavam pendurados em ganchos atrás da porta. Havia um genuflexório e diversas cadeiras em madeira trabalhada, com almofadas de veludo cor de vinho. Ela notou duas portas: uma maior, ao lado da cômoda, que dava acesso a um pequeno banheiro; e uma menor, preta, na parede dos fundos. Espalhados no tampo da cômoda estavam caixas de velas, espevitadeiras, pacotes de incenso, caixas de bronze trancadas, galheteiros de vidro e cerâmica, xícaras de ouro e pratos muitos diferentes dos que já vira. Além de um suporte com um livro dc orações aberto. Tinha capa de couro e folhas douradas. Marcadores em cetim multicolorido estavam enfiados entre suas páginas. Agnes sentia-se atônita e muito pouco à vontade. — Onde estamos? — perguntou ela. — Chama-se sacristia. É como um escritório dos padres. — Parece mais uma sala de operações — comentou Agnes, olhando I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


para os instrumentos da atividade episcopal. — Por falar nisso... Sebastian abriu a porta do armário. Os aromas reinantes se intensificaram, tornando-se quase insuportáveis para ela. Ele pegou uma galheta de vidro, que estava no armário entre várias outras, retirou sua tampa, aprumou o corpo e se virou para ela. Agnes também se virou para ele, sem nenhum esforço, como uma frágil estatueta de caixa de música. — Estenda os braços para mim — disse ele ternamente. — Para quê? — Tudo bem — afirmou, sorrindo com ar preocupado e estendendo também a mão. — Não vou machucar você. Ela estendeu seus finos braços e os manteve esticados para a frente, as palmas para cima, quase lhe oferecendo seus ferimentos. Os olhos de Sebastian se fixaram no talismã. — Ele me deu isso — disse Agnes. — Como você pediu. — Ele é um bom garoto — disse Sebastian, remexendo com delicadeza nas ataduras nos pulsos dela. Lentamente, ele removeu o esparadrapo e desenrolou a gaze pro tora, até que tudo o que restou em cada pulso foi uma almofada de algodão, que seu sangue tingira com uma coloração vermelho. Mais preocupantes eram as manchas amareladas nas almofadas. — Acho que estão infeccionando — disse ela, estremecendo. Sebastian examinou os ferimentos o melhor que pôde, à luz da velai Ainda estavam esfolados e inflamados. Ela cortara fundo, e havia mai pontos do que lhe era possível contar. — Eu deveria ter voltado ao médico hoje — disse ela nervosamente —, mas briguei com minha mãe e... — Você se dá bem com ela? — É que nós vemos as coisas de modo diferente. — Como por exemplo...? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Não sei. — Agnes hesitou. — Amor? Vida? — Isso é tudo? Ela sorriu. — E você? — Não tenho mais nenhuma família — disse ele. — Isso torna as coisas mais fáceis, de certa forma. — E mais difíceis também? — observou Agnes, tocando suavemente o braço dele. Sebastian abaixou os olhos. — Tenho certeza de que sua mãe ama você — comentou ele. — Você é que não quer aceitar isso. — Eu tento, mas tudo que ela faz é tão deliberado. Ela quer que eu seja como ela, mas eu não consigo. — Você tem de ser sincera com você mesma — disse Sebastian, chegando ao cerne do problema. — Sempre. — Sim! — disse Agnes, quase com alívio. — Fico muito feliz por você entender. As pessoas fazem com que eu me sinta uma idiota às vezes. Estou quase começando a acreditar nisso, para falar a verdade. — Não acredite. — Se eu não saísse de lá, me sentiria como se estivesse totalmente perdida. Sentindo os efeitos da fraqueza e da tristeza, Agnes começou a lacrimejar. — Você está aqui, agora — disse Sebastian, segurando a mão dela. — Ela acha que eu sou fraca porque acredito no amor verdadeiro. Como se o mundo fosse me massacrar, ou coisa parecida. — Eu acho que não existe nada mais poderoso. Quando você consegue mudar os corações, consegue mudar as mentes. Ele era solidário. Sincero. Não muito mais velho do que ela, mas ipuito mais sábio do que os caras da escola. Suas amigas não eram muito melhores. Pela primeira vez, em anos, ela não se sentiu tão sozinha. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— É como se ela quisesse me mudar, mudar quem eu sou. — Você não é a única que se já se sentiu assim. Eu também estava — disse Sebastian, segurando as mãos de Agnes ternamente entre elas. — Você não pode deixar que isso aconteça. — Eu sei. Isso seria pior do que a... — Morte? — Sim — arquejou ela, assombrada com o fato de ele ter entendido completamente o que ela pensava. — Morte. Tudo nele era reconfortante pata ela. Sua ansiedade e tensão começaram a se desvanecer. Sua infecção, infelizmente, permaneceu. Ele podia perceber que a conversa a estava deixando extenuada, e que ela parecia não ter mais nada a dizer. — Vamos cuidar de você, certo? Sebastian aproximou a vela da parede atrás deles, tirou uma estola de um gancho, foi até a pia do banheiro e a encharcou com água fria. Depois de torcê-la, ele a pressionou sobre um dos ferimentos dela, depois sobre o outro. O tecido frio e molhado sobre sua pele lhe dava um alívio maior >; do que ela poderia ter imaginado. Quase podia sentir o tecido cortado e inchado se retraindo. Fechou então os olhos e suspirou lentamente. — Obrigada. — Não me agradeça ainda. Sebastian pegou o frasco que abrira, despejou um pouco de óleo aromático na mão, molhou dois dedos nele e o espalhou nas pontas dos dedos. Depois segurou o pulso dela. Ela retesou o corpo. — Relaxe — disse ele. — Acredite em mim. — Estou com medo — disse ela. — Feche os olhos. Agnes fechou os olhos e respirou fundo. Rendeu-se completamente a ele. Estava à sua mercê. Sebastian esfregou o óleo que tinha nos dedos sobre os ferimentos dela. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ele estava dentro dela. Agnes gemeu baixinho. Ele acariciou sua pele macia e leitosa e segurou a mão dela enquanto trabalhava. Ela era tão delicada e... tocável. — Não — murmurou ela, puxando a mão levemente. — Está tudo bem — disse ele tentando acalmá-la. E afagou os cabelos dela. — Esse óleo tem propriedades antibacterianas. Ele aplicou mais óleo sobre os ferimentos e sobre os antebraços dela. — Isso dá uma sensação boa. — Dá mesmo. Sebastian pegou duas estolas brancas, limpas, com as quais improvisou novas ataduras. Agnes abriu os olhos e olhou para ele. Ele usava uma técnica suave. Estava concentrado, como se tivesse algo precioso e frágil entre as mãos. — Onde foi mesmo que você se formou em medicina? — pergunto- ela, com um toque de sarcasmo escapando de seus lábios, juntamente co um sorriso. — Uma brincadeira? — perguntou ele em tom de descrença. — Você já deve estar se sentindo melhor, ou coisa assim. — Ou coisa assim. Sorrindo, Agnes olhou para a pequena porta nos fundos do aposento. — Essa é outra saída? — Talvez. — Você não sabe? — Sei. — Mas não vai me dizer. — Não. — Lucy e Cecília acham que você está escondendo alguma coisa de nós. — Elas têm razão. Agnes ficou surpresa. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Então você mentiu para a gente? — Não — disse ele. — Não menti. Eu disse a vocês o que podia. Agnes olhou para a porta e de novo para Sebastian. Estava claro para que aquela porta significava alguma coisa para ele. Mesmo debilitada, ela foi vencida por sua curiosidade e teimosia. — O que há lá atrás? — Uma capela. Ela insistiu. — A resposta está lá atrás? — Veja você mesma. — Tudo bem, eu vou. Agnes se aproximou da porta, segurou a maçaneta desajeitadamente e parou. Sua mão estava sem força e a porta era intimidadora; ela receava não conseguir girar aquela maçaneta pesada. Tinha medo de sentir dor, caso tentasse. — Detesto portas trancadas. — Como você sabe que está trancada? Ela se afastou um pouco da porta e segurou a maçaneta novamente, desta vez com força. Fez uma pausa, tentando concentrar toda a sua força em seu pulso esquerdo. Repetidamente, tentou encontrar forças, mas não conseguiu. Sebastian ficou impressionado com a determinação dela. Agnes parou de tentar e recuou, com um olhar de desapontamento no rosto, como um jogador que acaba de perder uma aposta. — Não consigo abrir essa porta — disse ela, frustrada, mas determinada. — Ainda. — Tente de novo em outra hora. — Quando? — Quando estiver pronta. — Bom conselho para se abrir portas e corações — comentou Agnes. Sebastian abriu os braços, oferecendo-lhe um abraço reconfortante. Agnes hesitou, mas acabou se aninhando nele, com o rosto encostado em I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


seu peito, ouvindo seu coração bater. Batia com força e firmeza, ao contrário do coração dela, cujas batidas pareciam rápidas e irregulares. Ele a abraçou com mais força e ela apertou a cintura dele, com a força que lhe tinha faltado para girar a maçaneta. Isto poderia não ser amor ainda, pensou ela, mas era como o amor deveria ser. Paixão e paz, perigo e segurança, tudo de uma vez. — Nós não deveríamos — disse ela, com a mente um pouco à frente do coração. Sebastian não se moveu, e ela realmente não queria que se movesse. Agnes aprumou o corpo. Sebastian se ajoelhou e olhou para cima, para os cabelos longos e macios de Agnes, que lhe caíam sobre os ombros e o peito, e para sua camisola de seda, que aderia à sua pele pálida. Parecia majestosa. Sebastian segurou a mão dela. — Ah, acho que as meninas vão ficar preocupadas — disse ela com relutância. — É melhor a gente voltar. Vagarosamente, eles se separaram, olhando-se nos olhos. Após um ou dois segundos pouco à vontade, Agnes jogou a cabeleira para trás e pigarreou. — Posso lhe agradecer agora? — Pode — respondeu ele, inclinando-se levemente e fazendo um gesto formal em direção à porta. — Obrigada — disse ela, em voz quase inaudível. Ele se inclinou para a frente, encurtando a distância entre ambos. Ela se inclinou na direção dele e fechou lentamente os olhos, com ar de expectativa. A tempestade que pulsava no lado de fora proporcionava o ambiente perfeito para um romance proibido. Para um primeiro beijo. O beijo que ambos sentiam que estava a caminho foi interrompido pelo estrondo de um trovão que fez tremer o prédio. Foi como um dedo em riste I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


acusador, vindo de cima. O telefone tocou. Estava chegando um fax assinado pelo diretor da escola. "Devido à emergência climática que abrange toda a cidade, e com a preocupação de garantir a segurança dos alunos e do corpo docente..." O telefone tocou de novo. Martha levantou o auscultador. Uma ligação automática da escola. Um telefonema seria mesmo necessário? — Agnes — gritou ela. — Agnes! O vento atingia as janelas com força, tornando impossível ouvir mais alguma coisa, ou ter certeza de que fora ouvida. — Droga de tempo! — disse ela, pulando da cama, entrando no corredor e se dirigindo ao quarto da filha. — Quando será que isso vai terminar? Marta parou diante da porta, onde um letreiro grande e enferrujado — que Agnes pegara no cais de Montauk durante suas últimas férias de verão — dizia: NÃO ENTRE. O fato de que Agnes tivesse despendido tanto tempo e esforço para apregoar seu desejo de privacidade deixava Martha ofendida. Principalmente considerando que só elas moravam na casa. Pensando bem, os problemas entre as duas poderiam ter se originado no último verão, quando Agnes iniciou seu relacionamento com Sayer, o garoto que Martha desaprovava com tanta veemência. Mães e filhas em conflito. Uma história tão antiga quanto o tempo. Mas Agnes superaria isso e o ressentimento entre ambas iria se desvanecer. Enfim. — Agnes, era da escola — disse ela tamborilando na porta, sem obter resposta. — Você pode dormir mais. A ironia de acordar Agnes para lhe dizer que ela poderia dormir mais não escapou a Martha. Ela sorriu um pouco, embora estivesse um tanto surpresa com o fato de que Agnes estivesse conseguindo dormir com uma tempestade tão avassaladora. Geralmente ela acordava e encontrava a menina deitada ao lado dela. Seu humor e seu tom de voz se amenizaram consideravelmente. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Vamos, querida. Você não está mais zangada comigo, está? Martha segurou a maçaneta e a girou, esperando que a porta estivesse trancada, mas se abriu com um rangido. A primeira coisa que Martha notou foram as cortinas, sacudidas pelo vento. O parapeito e o tapete abaixo estavam encharcados. O vento derrubara coisas das prateleiras e o quarto estava gelado. Ela empurrou um pouco mais a porta, que se escancarou, assim como sua boca. A cama estava feita, ninguém dormira nela. O computador ainda estava ligado, embora o monitor tivesse sido derrubado. E o telefone celular ainda estava carregando na mesinha de cabeceira azulturquesa. As roupas que ela usara na noite anterior ainda estavam jogadas no chão. Martha pegou o celular de Agnes e percorreu a lista de chamadas não atendidas. Ao reconhecer um dos nomes, apertou o botão de contato, enquanto se postava diante do computador para verificar os e-mails, cuja tela ainda estava aberta. — Alô, Hazel? Aqui é a sra. Fremont. Ela sempre usava o nome de casada, embora seu casamento tivesse terminado há muito tempo. Era pelo bem de Agnes. Partilhar o mesmo sobrenome as mantinha ligadas, de alguma forma, e dava uma boa impressão às pessoas estranhas, por mais ilusório que o fato parecesse a quem as conhecesse melhor. — Oi. Eu pensei que fosse a Agnes me telefonando. — Agnes não está com você? — perguntou Martha, tentando disfarçar a intensidade de seu pânico. — Ela não está em casa? — Não. Você tem alguma ideia de aonde ela possa ter ido? — Pensei que ela tivesse ido dormir cedo ou qualquer outra coisa... você sabe. Partindo dela... — Obrigada — disse Martha em tom preocupado, ignorando a falta de sensibilidade. — Se souber de alguma coisa... — Não se preocupe. Ela já esqueceu Sayer. Tenho certeza de que vai I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


voltar mais tarde. Provavelmente só está tentando irritar você. — Mas a tempestade e os pulsos dela — lamentou-se Martha. — Está horrível lá fora; disseram que vai haver um tornado. No Brooklyn! E ela não tem qualquer condição mental, nem condição nenhuma, para estar na rua agora. Sozinha. Nessa tempestade. — Eu sei. Dá pra acreditar? Nós estamos sem energia elétrica desde ontem à noite. Tem árvores caídas por todo lado. Não se pode nem sair à ma. Neste momento, Martha não poderia estar se incomodando menos com os problemas de Hazel. — É que ela não costuma sair assim. Quer dizer, já tivemos discussões piores. — Ela está muito fragilizada. Vou mandar mensagens para o pessoal todo. Ela vai aparecer. Sim, mas tomara que não seja em um latão de lixo, foi tudo o que Martha conseguiu pensar. Ao abrirem a porta da sacristia, Sebastian e Agnes levaram um susto ao verem Lucy e Cecília paradas diante deles, prontas para baterem à porta e igualmente assustadas. — Vocês ouviram aquele trovão? — disse Lucy, segurando os próprios braços e estremecendo. — Nós estávamos chamando vocês. Ruborizada com o embaraço momentâneo, Agnes jogou os cabelos nervosamente para trás dos ombros, cruzando os braços em um gesto defensivo e olhando para baixo. — Nós não estamos interrompendo alguma coisa, estamos? — perguntou Cecília retoricamente. — Eu estava cuidando dos pulsos dela — disse Sebastian, enquanto Agnes concordava com a cabeça. — Cecília acordou gritando. Estou surpresa por vocês não terem ouvido — provocou Lucy. — Mas foi bom — disse Cecília, ainda abalada. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Tempo ruim ou sonho ruim? — perguntou Agnes em tom compassivo. — Pesadelo — respondeu Ceci. Agnes não sabia ao certo se Ceci estava falando do sonho ou da situação comprometedora em que os surpreendera. — E realmente difícil ouvir alguma coisa aqui — justificou Agnes, um tanto enfaticamente demais. — Pois é, seja lá como for — disse Lucy, logo distraída por um objeto brilhante que sobressaía de uma gaveta parcialmente aberta na sacristia. — O que é aquilo? — É uma cômoda para roupas — explicou Sebastian. — Não, não estou me referindo à cômoda. Dentro da gaveta. Sem saber ao certo se o que estava vendo era efeito da pancada que levara na cabeça, ela apontou para o objeto, esperando que os outros o vissem também. — Roupas de padre? — perguntou ela. Dirigiu-se então à gaveta e a abriu totalmente, revelando as roupas mais elaboradas que já vira. Chegando o rosto mais perto, observou diversos tipos de tecidos ricamente adornados em branco, vermelho, verde, roxo e dourado. E bordados com fios prateados e dourados. Mesmo na penumbra, ela admirou sua beleza, passando os dedos sobre o material para sentir a textura e os detalhes. Depois acenou para que as outras garotas se aproximassem. — Não se fazem mais coisas como essas — disse ela. — São relíquias autênticas. — Alta costura sagrada — comentou Cecília, igualmente encantada. — É uma coisa muito tentadora. — Menina má — disse Lucy, empinando o peito. — Menina boa! — acrescentou, encolhendo o peito. — Tem alguma diferença? — disse Cecília. Sebastian sorriu para ela, como se soubesse o que ela estava pensando. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Como no hospital, quando se encontraram pela primeira vez. Lucy retirou uma casula da gaveta, passou-a por cima da cabeça e a deixou cair sobre os ombros. A vestimenta religiosa ia quase ao chão. Uma linda imagem bordada de uma jovem coroada, segurando um galho de palmeira em uma das mãos e um prato na outra, ocupava toda a parte de trás do paramento. Os cuidados na confecção e na manutenção de uma peça como aquela fizeram com que as garotas se perguntassem por que alguém a deixaria para trás. — O que vocês acham da minha roupa de domingo, meninas? — disse Lucy com um sorriso maroto e fazendo uma pose. — Exagerada? — Um lobo em pele de cordeiro — respondeu Ceci, enquanto ela e Agnes batiam palmas afetadamente, como se fossem editoras de moda na primeira fila de um desfile. Sebastian sorriu, levado pelo entusiasmo delas e pelo primeiro momento realmente descontraído que eles vivenciavam desde a chegada delas. — Coleção A Paixão — anunciou Lucy, como uma apresentadora de tevê. Depois jogou mais dois lindos ponchos para as outras garotas. Cecília jogou sobre o ombro a pesada manta de lã com enfeites roxos e dourados, como se fosse uma túnica, e a prendeu na cintura com um dos escapulários que estavam pendurados atrás da porta. Usou outro para prender os longos cabelos de Agnes em um rabo de cavalo, e depois a ajudou a vestir sua própria casula. — Madre Cecília! — riu Lucy. — E Irmã Agnes — disse Cecília, enquanto Agnes passava os braços pelos buracos debruados em ouro da vestimenta e sua pequena figura desaparecia sob o tecido branco. Sebastian assistia a tudo, um pouco mais preocupado. Agnes olhou para as pinturas bíblicas penduradas em torno deles. Imagens de fé e devoção que ela via na escola, mas sem se interessar muito. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Tive uma ideia — disse Lucy. — Temos uma passarela muito maneira ali do outro lado. Alguém se habilita? — Estou sempre a fim de um show — acrescentou Cecília. — O altar? — perguntou Agnes. — Não sei. Não é uma coisa errada? — Sebastian? — guinchou Lucy. Elas olharam para Sebastian, esperando sua aprovação, mas ele se virara de costas. Através de uma janelinha suja e rachada, estava observando o dilúvio. Mal escutara a pergunta. — Acho que isso quer dizer não — concluiu Cecília. — Bem, foi só uma ideia — defendeu-se Lucy. Sebastian não reagiu. Estava a quilômetros de distância. — Isso é pesado — disse Agnes com ar fatigado, pondo um fim à brincadeira. Ela não parecia bem. Sebastian segurou seu braço. — Última chamada — clamou Cecília. Rapidamente, as garotas despiram as indumentárias clericais e as largaram pelo chão, transformando o piso da sacristia em um provador de uma loja de roupas. — É melhor levar um pouco disso — lembrou Sebastian. Ele pegou uma braçada de estolas e alguns vidros de óleo para fazer novos curativos em Agnes, caso fosse necessário. Lucy e Cecília fizeram o mesmo. — Obrigada por cuidar de mim — sussurrou Agnes. Sebastian apertou seu braço ternamente. Agnes olhou para os acessórios que estavam levando para a igreja. — Me sinto meio estranha por estarmos levando essas coisas por minha causa — disse ela. — É como roubar de uma igreja. — Não estamos roubando — disse Sebastian. — Só peguei o que precisamos. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


11 A MANHÃ SEGUINTE I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Linha um — disse a secretária. — É o capitão Murphy. O dr. Frey fechou a porta de seu gabinete e sentou-se em sua cadeira. Respirou profundamente e pegou o telefone. — Sim, policial. — Capitão — corrigiu Murphy. — Queira desculpar. Em que posso ajudá-lo? O relacionamento entre o médico e o capitão era controverso, no mínimo. Frey já havia testemunhado algumas vezes como perito convocado por advogados de defesa, para o descontentamento da polícia e dos


promotores de Nova York. Ambos se tratavam cordialmente, mas nenhum deles se mostrava inclinado a ajudar o outro além do que era ! exigido profissionalmente. — Estou surpreso por encontrar o senhor no hospital, doutor. — Estamos operando com geradores, por causa da falta de energia elétrica. Minha presença aqui é necessária. — E eu sou praticamente a única pessoa aqui no distrito. — Eu também estou com falta de pessoal, como o senhor pode imaginar, e muito ocupado. O senhor tem alguma notícia? — Não a notícia que o senhor gostaria de ouvir. Estou ligando para falar a respeito de outra paciente sua, que está desaparecida. — Quem? — Agnes Fremont. A mãe dela encontrou o quarto da garota vazio hoje de manhã, depois de uma discussão que tiveram ontem à noite. — Entendo — disse o dr. Frey, já folheando suas pastas. — Eu soube que, recentemente, ela deu entrada no setor de emergência daí, depois de uma possível tentativa de suicídio. E passou a noite em observação sob seus cuidados. É verdade? — Sim, é verdade. Ela foi liberada sob custódia da mãe no dia seguinte, e foi a última vez que eu soube dela. — Isso foi em primeiro de novembro? Frey hesitou e verificou seu calendário, refletindo sobre a data. — Doutor? O senhor está na linha? — Sim — respondeu ele, inusitadamente perturbado. — Ela deu entrada na noite de 31 de outubro, Halloween, e recebeu alta em primeiro de novembro. — Dia de Todos os Santos — observou Murphy. — O quê? — exclamou Frey, ainda distraído. — Ah, sim, parece que sim. — Entrou pecadora e saiu uma santa, não é? — gracejou o policial. — O senhor está tentando dar uma de espertinho? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Então, doutor, se uma pessoa com múltiplas personalidades tenta o suicídio, o senhor consideraria isso uma situação com reféns? Agora foi esperto. — Como eu disse, estou muito ocupado. — A falta de senso de humor de Frey era famosa. — Principalmente agora. — Tudo bem. Ela deu alguma indicação de que fugiria? A mãe dela está fora de si. O senhor sabe, com esse tempo e tudo o que aconteceu. — Nenhuma. — Há alguma coisa fora do comum que o senhor tenha notado nela ou conversado com ela durante a sua avaliação? — Não, mas não poderia lhe falar sobre isso mesmo que houvesse. Sigilo profissional. Suponho que o senhor conheça a lei, capitão. A linha ficou em silêncio durante alguns segundos enquanto o capitão refletia sobre até que ponto deveria se mostrar ofendido com os comentários do médico. — È uma menina nova que está perambulando pelas ruas, tanto quanto nós sabemos. Alguém pode acabar com ela, se a tempestade não fizer isso antes. — O relacionamento dela com a mãe era conflituoso, pelo que me lembro. Ela não poderia estar com alguma amiga? Não me pareceu que houvesse risco de ela fugir de casa. — Ela ficou sabendo de alguma coisa sobre o que aconteceu naquela noite? — Não que tivesse me contado. Por quê? — Ela estava no setor de emergência quando aquele garoto, paciente seu, fugiu. — E daí? — As cameras de vídeo do prédio foram alteradas, portanto nós não podemos ter certeza, mas nossa melhor hipótese é que ele fugiu pelo setor de emergência. — E o senhor acha que eles puderam ter tido algum contato? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— É apenas uma suposição, mas temos de seguir todas as pistas. Estamos sofrendo um bocado de pressão para encontrá-la. Não quero que o desaparecimento da garota vá parar nos jornais, e os repórteres façam uma conexão antes de nós. — Eu não me preocuparia muito ainda — disse Frey, aparentando esinteresse, como se o assunto não tivesse importância. — E como está a investigação sobre o desaparecimento de Sebastian? — Como está? Indo. Designei alguns homens para o caso, mas eles ram requisitados para os trabalhos de emergência. Frey não se mostrou satisfeito. — Vocês já investigaram as igrejas? — Foi a primeira coisa que fizemos. Nada. — Esse assunto é urgente. É uma questão de segurança pública. Seu amento costuma deixar assassinos à solta? Que polícia! — Qual é o seu problema com esse garoto? — Eu o conheço, capitão. Isso é tudo. Se ele não receber cuidados adequados pode ser um perigo para ele mesmo e para outras pessoas. — Com o devido respeito, doutor, sua falta de cooperação não tem me ajudado a avançar nas investigações. Ele não é o único suspeito. — Se o senhor quiser falar com outros pacientes sob os meus cuidados neste pavilhão, terá que seguir os procedimentos. Eu tenho que fazer meu trabalho e proteger os direitos dos pacientes. — Uma das suas enfermeiras foi encontrada morta no fundo do poço de um elevador e o senhor quer eu peça uma ordem judicial para conversar com essa turma de lunáticos? — Esses lunáticos são seres humanos. — Eu mesmo já prendi um de seus pacientes, Sicarius. Um canalha sanguinário e desalmado. O fato de ele estar com o senhor em um pavilhão de segurança mínima, em vez de em uma solitária, é um arremedo de justiça. — Não sou eu quem faz as leis. Aliás, ele está medicado e controlado. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Dificilmente dará problemas. — Ele é um crápula pervertido. Veja o que fez com aquelas menininhas. As próprias filhas dele, porra! Se eu tivesse que apostar em quem jogou sua enfermeira no poço do elevador, eu poria todo o meu dinheiro nele. —Eu não quero que o senhor aposte. Quero que encontre Sebastian. — Esse garoto não tem nenhum histórico de violência. — Apesar de ter desaparecido justamente na noite em que a enfermeira foi jogada no poço? — O senhor não precisa me ensinar a fazer meu trabalho, doutor. — Não tenho essa pretensão, capitão — disse o dr. Frey, com um tom condescendente lhe escorrendo da voz. — Por enquanto, a morte da enfermeira foi classificada como acidental. Nós não queremos causar pânico na cidade com manchetes escandalosas a respeito de doentes mentais que fugiram do hospital e adolescentes sequestradas, já chega as confusões que esse tempo louco está provocando. Entendeu? Mas vamos encontrar o garoto. — Quanto mais cedo, melhor. — Vou passar aí para interrogar Sicarius e alguns outros assim que o tempo melhorar. — O senhor vai trazer uma ordem judicial, é claro. — Obrigado pelo seu tempo, doutor. Caso se lembre de mais alguma coisa sobre a garota Fremont, telefone para mim. — Até mais, capitão. O dr. Frey se debruçou sobre o calendário e sobre a pasta de Agnes, revendo suas anotações e reconstruindo suas impressões do encontro com ela. Dentre os pacientes instáveis que ele vira recentemente, ela era a mais estável. Seus ferimentos eram mais uma declaração de princípios do que um desequilíbrio mental. Para não correr riscos desnecessários, ele decidiu examinar o caso com mais atenção. — Enfermeira — gritou ele. — Pegue os prontuários dos pacientes que I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


estiveram no setor de emergência no último fim de semana. — Acho que não há ninguém na secretaria, doutor — disse a enfermeira. — É urgente? — Agora! Com os sons da rua cada vez mais presentes no interior da igreja, Cecília estava achando difícil se recuperar do pânico que lhe causara seu sonho. Agnes, que estava sentada nas proximidades, percebeu a agitação dela. — Quer que eu lhe traga um pouco d'água? — sugeriu então, ignorando seus próprios problemas. — Estou bem — retrucou Cecília. — Só preciso ser eu mesma por algum tempo. Levantando-se, ela foi até os fundos da igreja, parou e olhou para Agnes por cima do ombro. Desculpe, fez ela com a boca. Obrigada. Sebastian, Lucy e Agnes esperavam que ela se aproximasse da porta da frente, mas ela desapareceu de suas vistas antes de fazê-lo. Eles ouviram uma porta se abrir, entretanto, e o arrastar das botas de Cecília nos degraus de uma escadaria. Ela reapareceu acima deles, no balcão, diante de um enorme órgão de tubos, como se fosse algum fantasma perdido da ópera rock. Depois olhou para eles, como se estivesse em um palco observando os espectadores, e sentou-se no banco diante do teclado. Inclinando-se para a frente, ela tocou as teclas, produzindo um som leve, abafado pela poeira e pela idade, mas alto o bastante para que todos na pequena plateia abaixo ouvissem sua música. Produzindo música e suor, Cecília parecia possessa, hipnotizada. Era um hino religioso em tom menor, melancólico. Quase um cântico, com uma melodia cadenciada, etérea. Era fácil para Cecília se desligar de si mesma, mas nunca como neste lugar. Vazio e parcialmente desmantelado, lembrava muito um cenário teatral em processo de montagem, ou talvez de desmontagem — ela não sabia ao certo —, e havia muito mais coisas enraizadas naquele prédio. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Incline à janela, melenas douradas No ar da meia-noite, ouvi tuas toadas Meu livro está fechado, a leitura se encerra Apenas olho a dança do fogo na terra

Era o arranjo musical de um poema de Joyce, que ela amava. Não era como nada que ela já tivesse tocado em público ou para qualquer pessoa, exceto para si mesma. Sua própria música era agressiva, aguerrida, mas estes sons eram de aquiescência, de resignação. Cheios de graça. — Testes para o coro são na semana que vem — rosnou Lucy, olhando para Sebastian e Agnes, que pareciam extasiados com a apresentação de Cecília. O tom de inveja em sua voz era óbvio. — Vamos só escutar, está bem? — disparou Agnes, irritada com a mesquinhez de Lucy. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Deixei de lado o livro, deixei meu recanto Ao som de teu cantar desfazendo o quebranto Soando e ressoando, em alegres lufadas Incline-se à janela, melenas douradas10

10

Tradução livre do poema "Lean Out Your Window, Golden Hair", de James Joyce (1882-1941), romancista

e poeta irlandês. (N.E.)


A voz dela ecoava na igreja, reverberando nos apliques de madeira e metal. Ao terminar, Cecília levantou-se em silêncio e desceu as escadas, indo ao encontro dos companheiros. — Isso foi lindo — comentou Sebastian. — Espiritual. — Obrigada — disse ela timidamente. — Syd Barrett — disse ele. — Sim — concordou Cecília. — Um grande herói para mim. Como você sabia? Todas as fortes ligações que ela já tivera haviam sido através da música. Quem você ouvia, quem o emocionava, dizia-lhe tudo o que ela precisava saber a seu respeito. Era como uma segunda língua. Que agora, sentia ela, partilhava com ele. — Uma lenda na época dele — acrescentou Sebastian. — E uma alma perturbada. Ceci assentiu com a cabeça. — Eu não sei de onde veio isso — explicou ela, examinando suas mãos com ar de espanto. — Nunca toquei nada como isso antes. — Talvez você esteja apenas... inspirada — disse ele sorrindo e apertando os braços dela. Cecília enrubesceu e olhou para outro lado. Ela não costumava ficar embaraçada ou emocionada com o toque de um homem, mas aquele foi diferente. Principalmente agora. Seus sonhos a tinham deixado assustada, mas também empolgada como nunca antes. Ela mal conhecia Sebastian, mas sentia que estava se apaixonando por ele. Ela olhou de novo para ele, sorriu um pouco e cruzou os braços, que estavam arrepiados — devido à umidade e à presença dele. Depois andou até onde estavam Lucy e Agnes. Agnes a recebeu com um gentil abraço, e Lucy, com alguns elogios resmungados. Admitissem ou não, estavam todos emocionados. Sentiam-se como se Cecília tivesse cantado para eles, ou a respeito deles. Por eles. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Foi bonito, mas não acho que tenha sido um sucesso — disse Lucy. — Por que essa obsessão sua em ser a maior e a melhor? — perguntou Agnes. — Eu não falei muito a sério, mas pense bem: para que buscar alguma coisa a não ser que esteja no topo? — retrucou Lucy. — Que tal emocionar apenas umas poucas pessoas? — observou Cecília, em defesa própria. — Prefiro alcançar poucas pessoas, mas pessoas que realmente curtam. — Que arrogante — acusou Lucy. — Pessoas que curtam? O seu trabalho é fazer as pessoas curtirem. — Um pouco preocupada com essa coisa de vender, não é? — devolveu Ceci. — A arte não é uma profissão, ou não deveria ser. — Por favor — contra-atacou Lucy. — Se você quer ser músico, você pode fazer isso no porão da casa dos seus pais ou em frente ao espelho do seu quarto. No momento em que você se apresenta em público, cobrando ingresso no bar de algum velhote, ou cobra por um download, você está no negócio da música. Você está pedindo às pessoas que tomem uma decisão de compra, que escolham. — E o que você vende? — perguntou Cecília. — Uma fantasia — respondeu Lucy. — Eu. — Você gosta de ser uma fantasia? — indagou Agnes. — Tudo gira em torno de números, de audiência. Só há uma de mim — disse Lucy. — Mas todo mundo tem uma fantasia. — Bem, mas antes de apertar o botão de enviar, pode ser uma boa ideia pensar primeiro no que você está enviando — replicou Cecília. — Besteira. Está com inveja? — zombou Lucy. — Talvez eu também estivesse se me apresentasse nessas espeluncas em que você se apresenta. — Eu estou tentando chegar às pessoas — disse Ceci. — Não estuprar as pessoas, nem me prostituir pela melhor oferta. — Prostituir? Você está me confundindo com você. — Na verdade, não. Em vez de vender, eu prefiro desnudar minha I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


alma. — Bem, eu só digo uma coisa: seja a melhor ou não seja nada. O resto é fracasso. — Ela me emocionou — disse Agnes, baixinho. — Ela tocou como eu sempre me senti. Sebastian observava o desenrolar da discussão e ouvia cuidadosamente cada uma das garotas defender seu ponto de vista. O que estavam dizendo e o que queriam dizer. — As duas coisas são necessárias — disse ele, dividindo igualmente o mérito e as diferenças, e encerrando a disputa. — Uma mensagem e um mensageiro.

Os cantos superiores direitos das pastas do hospital tinham orelhas e estavam amarelados pelo uso. Um leve esboço de impressão digital — do dr. Frey — estava começando a aparecer em um deles. Alternando a leitura entre uma pasta e outra, ele procurava algum tipo de conexão, um elo comum, uma pessoa, um lugar ou alguma coisa no histórico de ambos. Era muita coincidência, pensou ele, aquela garota ter desaparecido logo depois de Sebastian. Sebastian. Agnes. Sebastian. Agnes. Sebastian. Agnes. Uma rápida releitura e uma comparação entre seus prontuários e avaliações dos professores nada revelou de extraordinário que pudesse reuni-los; considerando tudo, eles eram completamente antagônicos. Ambos jovens, ambos inteligentes. E cabeças-duras. Isto ele sabia em primeira mão. As similaridades, no entanto, terminavam aí. Enquanto :ela era dedicada, esforçada, ambiciosa c meticulosa, ele era indiferente, rebelde, autoconfiante e desligado do mundo ao redor — cada vez mais. Comportamento maníaco se tornara a norma, muitas vezes associado a ilusões e ego inflado. Pensando bem, a autoestima de Agnes talvez até precisasse de um pouco de reforço. Ele examinou as fichas dos pacientes acolhidos no setor de emergência I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


e, de repente, surgiu uma conexão. Duas outras adolescentes, mais ou menos da mesma idade, tinham dado entrada quase na mesma hora. Cecília Trent. Idade: 18 anos. Altura: 1,80. Peso: 52 quilos. Cabelos: Castanhos. Olhos: Verdes. Nenhum plano de saúde, nenhum médico particular, nenhum parente, nenhum número de telefone. Endereço em Williamsburg. Chegara inconsciente. Possível afogamento. Ressuscitada no local e trazida por uma equipe de paramédicos. Diagnóstico: intoxicação aguda. Enquanto examinava os resultados dos exames de sangue, achou estranho ter tantas informações sobre aquela pessoa e, ao mesmo tempo, quase nenhuma. Ele acabara, literalmente, de olhar dentro dela sem nunca a ter visto. — Tecnologia — pensou. Tratamento: soro, repouso no leito. Alta: 1º de novembro. — Primeiro de novembro. Ao contrário dos médicos que haviam cuidado dela, ele estava tão interessado em sua mente quanto em seu corpo. Compor um perfil juntando um monte de fatos disparatados não era apenas uma habilidade que ele desenvolvera durante anos de experiência, era seu trabalho. E ele era muito bom neste trabalho. Pesquisou o nome dela no Google e logo encontrou anúncio de suas apresentações em bares e boates no Brooklyn, Queens e no Lower East Side. Espeluncas, concluiu ele, considerando a falta de informações sobre os lugares. Os videoclipes feitos em celulares que ele assistiu de seus shows eram tremidos e sombrios — não em relação à temática, mas literalmente sombrios. Ela era como uma antena, transmitindo sua raiva para o éter, uma guerrilheira da música underground, não apenas pronta para luta, mas em busca de uma luta. Procurando mensagens atualizadas em suas páginas de fãs, ele percebeu que o show da última noite, que ela encurtara, tornara-se assunto de controvérsia. Ele rolou a página dos comentários e leu uma série de críticas I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


cheias de ódio.

Rat In A Cage diz: Isso não foi um show! Estou cansada dessas calouras arrogantes que cagam para suas fãs. Você não vai nos enganar de novo, vagabunda! Eu já tenho ingressos para a semana que vem. Quem vem comigo?

H8ter88 diz: Espero que ela morra de urna morte lenta e dolorosa por se mandar no meio do show sem consideração pelos fãs. Provavelmente tinha um encontro marcado com um desses empresários bundões com quem ela dorme por uns trocados. Brincadeira. Eu amo taaaaaanto essa mulher!

FandemoniumGirl diz: Aposto que eia vai dizer na internet que tem uma maluca perseguindo ela e que ela viu essa maluca na plateia, Espera lá, não sou eu! I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

MusicKilledMeó66: Só Duas Palavras Pessoal: Que. Merda.

AdultBaby7 diz: A prima em terceiro grau do namorado da minha irmã frequentou a escola com ela em Pittsburg antes de ela sair de casa e disse que deve ter acontecido alguma coisa horrível para ela ter encurtado um show. Rezem para ela e visitem meu novo vlog.

Com fãs como esses, pensou ele, quem é que precisa de inimigos? Mas talvez a ideia fosse essa. Sem uma mistura volátil de amor e ódio, não pode haver paixão. E pelo menos ele estava vendo que aquelas pessoas se importavam com ela. Muito. Tinham investido nela. Não existe um termo médico para carisma, mas, seja lá qual for a origem da palavra, aquela garota


tinha carisma aos montes. No último vídeo da apresentação da noite anterior, ele percebeu algo que não esperava ver. Uma coisa alarmante. Um bracelete de contas que ela estava usando em torno do bíceps. Ele o reconheceu.

O dr. Frey voltou sua atenção para a outra "suspeita" no setor de emergência. Seu nome era vagamente familiar para ele. Lucy Ambrose, idade: 17 anos. Altura: 1,70. Peso: 54 quilos. Endereço: Bridge Street 7. "A área mais chique do Brooklyn", anotou ele. Nome e número para contato: Jesse Arens e um número que, pelo prefixo, deveria ser do Brooklyn. Não era exatamente uma garota pobre. Prédio novo. Ele a imaginou olhando de uma janela dos fundos de seu apartamento para o espaço vazio antes ocupado pela torres do World Trade Center. Os elevados edifícios da Wall Street, o burburinho de Tribeca, SoHo e do Lower East Side. E as pontes que eram como artérias vitais. Uma rápida pesquisa revelou diversas páginas de fotos e fofocas sobre moda e vida noturna da cidade. Um dos sites, mais que qualquer outro, parecia ser o gerador de notícias sobre a garota, documentando cada movimento dela, de debutante a figura das mais requisitadas nos melhores encontros da juventude endinheirada. Rastreando uma série de eventos como vernissages, bailes beneficentes e festas chiques, ele só encontrou uma incrível mistura de banalidades. Boatos de alcoolismo e problemas com drogas seguiam-se a notícias de contratos de publicidade com fabricantes de bebidas energéticas, figurinistas e até cirurgiões plásticos esteticistas. Havia muitas fotos sedutoras e roupas provocantes, mas pouquíssimas referências a namorados ou mesmo paqueras; nem a verdadeiros amigos, por falar nisso. Era o perfil de uma garota cujo único caso de amor era consigo mesma. Uma narcisista, sem I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


dúvida, provavelmente com um transtorno de personalidade beirando o histrionismo. Nada incomum, refletiu ele, mas inusitadamente desenvolvido para uma pessoa tão jovem. Fama na era da publicidade, pensou ele. Um ótimo exemplo de carreirismo digital acelerado e alpinismo social, dos melhores que ele já vira. Uma garota imortalizada em pixels sem outro propósito que não sua própria glorificação. A fama como único objetivo. A simples imaterialidade daquilo era espantosa. Mas de todas as imagens que desfilaram à sua frente, foi a mais recente que de fato lhe chamou a atenção: Lucy saindo dignamente da boate. Mas não foi sua bravura que ele admirou, e sim, o acessório que notou em seu pulso. Era quase idêntico ao bracelete que adornava o braço da cantora. Ele não tinha visto Agnes usando nenhuma pulseira, mas ela parecera inquieta durante a entrevista, como se estivesse escondendo alguma coisa. Sua mente científica só lhe permitiu uma conclusão: — Está acontecendo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


12 EXORCIZE OS DEMÔNIOS EM SEU CORAÇÃO I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Ei, coroinha! — sussurrou Lucy, acordando Sebastian de um sono profundo. — Estou pronta. — Pronta? — Para mudar: Eles se levantaram e se dirigiram aos fundos da igreja, afastando-se das outras duas garotas. Nenhum deles falou nada, mas ambos sabiam para onde estavam indo, guiados apenas pela vela que cada um levava. Palavras eram desnecessárias. Pararam diante do confessionário.


— A cena do crime — brincou Lucy, referindo-se ao lugar do primeiro encontro entre eles. — Não sou culpado — disse ele, erguendo os braços em um gesto de rendição. Ela abriu a porta do cubículo do penitente e Sebastian, a do cubículo do padre. Ambos tiveram o cuidado de fechá-las silenciosamente. Lucy e Sebastian se acomodaram em seus respectivos compartimentos, e só se viram novamente quando Sebastian abriu a portinhola. Mesmo assim, tudo o que podiam ver através da grade de metal que os separava eram as respectivas silhuetas. Era como um filme hitchcockiano de voyeurismo da alma. Ela se ajoelhou e aproximou o rosto da grade. — Está meio quente aqui — disse. — Não sei se é assim que se começa uma confissão. — Por que não? É verdade. — É verdade. Mas... — Tudo bem. Posso reformular a confissão? — Lucy respirou fundo. O clima no confessionário mudou. Sebastian encostou a orelha na grade. — Não quero que você me entenda mal, mas há alguma coisa errada comigo? — Não estou entendendo. Ao ouvir estas palavras, Lucy deixou vazar toda a frustração que mal estava conseguindo conter, e que fervia dentro dela. — Você está sempre tomando o lado delas. Eu não sei se isso é algum tipo de atitude passivo-agressiva para me punir por ser ambiciosa ou se você apenas me odeia. — Não te odeio, Lucy. — As pessoas têm essas falsas ideias a meu respeito. Não sou o que elas pensam. Lucy estava arrasada. Os machucados, a tempestade. Lágrimas, juntamente com seus pensamentos, começaram a fluir. Lentamente, no início, depois em torrentes. Ela se inclinou para a frente, ofegante, e cobriu a boca, para que as outras garotas não escutassem a conversa. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Você não tem que mudar nada nem para mim nem para ninguém. — Quer dizer, nós temos tanta coisa em comum. Não conte a elas que eu disse isso, mas é muito óbvio, não acha? Eu tenho a impressão que nós nos conectamos imediatamente. Isso é uma coisa que nunca acontece comigo. Sebastian não conseguia falar nada, mas concluiu que não faria diferença se falasse. A conversa era de mão única, no momento. — Aliás — soluçou Lucy —, cheguei aqui primeiro! Era pirraça de criança, mas sincera e charmosa em sua petulância. — Não estou dando preferência a nenhuma de vocês. Lucy pigarreou, subitamente exaltada, e reaprumou o corpo. — Que bom, porque eu ainda tenho meu orgulho. Não estou aqui para brincar de poligamia. O ultimato deixou Sebastian magoado e irritado. — E aqui não é nenhum bordel — disse ele asperamente. — Olhe nos meus olhos. Ela ergueu os olhos injetados, ladeados pelas pestanas borradas, e o encarou através da pequena abertura, como se ambos fossem prisioneiros solitários em celas vizinhas. — Você está aqui por uma razão. — Sei que estou. Estou aqui por você. Sebastian não respondeu. Não era a resposta confirmativa que ela estava esperando. Ela se sentia em uma competição agora, logo neste lugar, assim como se sentia lá fora, no seu dia a dia. Lucy tivera esperanças de escapar dessa novela, de sair do jogo por algum tempo, mas o jogo parecia tê-la seguido até ali. E, assim como em sua vida cotidiana, ela estava decidida a não perder. — Estou me aporrinhando aqui por você. Preciso saber em que pé estou. — Não posso escolher entre vocês. E não quero. Lucy já estivera com muitos caras, mas sempre presumira que poderia I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


escolher. Rejeição era uma coisa estranha para ela. E não somente para ela. Jesse mataria para me ver desse jeito, pensou ela. Era uma situação na qual homem nenhum, além de seu pai, conseguira colocá-la. Sebastian estava fazendo com que ela trabalhasse. Pensasse. Fazendo com que ela sentisse. — O que você está fazendo comigo? Eu não sou assim. — Assim como? — Carente — murmurou ela. — Eu também preciso de você. — Não minta para mim. — Nunca. — Estou confusa. Quero confiar em você. — Então confie em mim. Ela pegou sua vela, franziu os lábios, a apagou suavemente e relaxou. — Quando eu era criança, minha avó acendia uma vela todas as noites, quando me botava para dormir. Quando acabava de me ajeitar, deixava eu apagar a vela. Se a fumaça fosse para baixo, queria dizer que eu ia para o inferno. Se fosse para cima, eu ia para o céu. Ela sempre fazia a fumaça subir assoprando disfarçadamente. Eu sempre dormia com um sorriso nos lábios. Eu acreditava nela. Como acredito em você. Lucy olhou para o pavio apagado e percebeu que a fumaça estava subindo. Sentiu então que ele a estava soprando. Abriu ligeiramente os lábios e os encostou na grade. Sedutora. Ele se inclinou para a frente. Ela fechou os olhos. Por cima da grade, ele deslizou os dedos sobre seus lábios. As lágrimas dela escorreram pela grade, formando minúsculos prismas quadrados enquanto desciam. — Estou muito cansada de representar. — Nunca peça desculpas por ser quem você é. — Detesto esconder quem eu sou na realidade — disse ela. — Acho que você sabe o que quero dizer. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Sei. O trajeto até a casa paroquial, no Queens, foi feito em ruas inundadas, com postes de luz apagados. Mas Frey estava decidido. Estava quase na hora de fechar quando estacionou o carro e, sob uma chuva pesada, andou rapidamente para a entrada principal. A idosa recepcionista já acionara a secretária eletrônica para receber chamadas e estava recolhendo suas coisas, já pensando em se dirigir a seu quarto, quando a campainha soou. Era um som estridente, que contrastava sobremaneira com os sinos que tinham acabado de tocar as Vésperas. Seu primeiro pensamento foi que deveria ser algo muito urgente, para fazer alguém sair de casa com aquele tempo. Uma pessoa doente, talvez, necessitando de extrema unção. Ou um médico fazendo uma visita noturna. — Monsenhor Piazza, por favor. — Quem deseja falar com ele? — Um velho amigo dele, Alan Frey. Uma hora muito estranha para uma visita pessoal, mas a expressão nos olhos do homem indicava de que se tratava de assunto de alguma importância que não era de sua conta. — Vou avisar a ele. Só um momento. Frey aguardou com impaciência. Encharcado de chuva, posicionara- -se à entrada, sobre um tapete de borracha com os dizeres "bem-vindo", ao lado de um cabide de capas e de um suporte para guarda-chuvas. Não queria molhar a tapeçaria antiga do aposento nem deixar nenhum traço de sua visita, por mais rápida que fosse. Após alguns instantes, um relógio de parede no vestíbulo chamou sua atenção, tornando dolorosamente perceptível a passagem do tempo. Era enlouquecedor. Ele estava se sentindo como um lutador imobilizado na lona. Quando a sombra longa e esguia do monsenhor Piazza se projetou na sala, a recepcionista pediu licença e saiu apressadamente. O velho e descarnado sacerdote coxeou lentamente até a área de recepção, confirmando com sua visão minguante a identidade do visitante inesperado. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Enrolado na cintura, trazia um pesado bracelete de madeira, que balançava ao mesmo tempo no compasso de seus passos claudicantes e do tique- taque do relógio do vestíbulo. Piazza se postou diante do médico em silêncio, lembrando-se de cada palavra trocada entre ambos, e o olhou de alto a baixo. O médico o olhou também. O homem frágil diante dele perdera muito do porte majestoso que lhe valera o posto de bispo. Sua espessa cabeleira branca havia rareado, suas costas estavam curvadas, seus braços pendiam frouxamente, suas pernas oscilavam, seu rosto estava encovado e seus olhos cansados e opacos. Uma energia esgotada. — Lindo lugar, padre. Estou feliz de ver que o senhor está sendo bem cuidado. — O que o senhor quer de mim, doutor? — perguntou o padre sucintamente. Frey gesticulou para que ambos fossem caminhar no pátio molhado, protegidos da chuva implacável apenas por um dossel de folhas. — O senhor não está me culpando ainda pelo fechamento da igreja, está? — disse o médico. — Eu culpo a mim mesmo. Perdi minha igreja. Mas acho que você não veio até aqui em busca de perdão. — É um assunto urgente. O garoto. Sebastian. O senhor se lembra dele. O médico reparou que, à menção do nome de Sebastian, as mãos do monsenhor começaram a tremer, ainda que levemente. — Ele era um garoto — disse o padre, com uma indisfarçável entonação de arrependimento — quando o enviei a você. — Está mais velho agora, padre. Mas não mais sábio, infelizmente. À sugestão de rebeldia, o padre exibiu um sorriso crispado, deixando entrever certo orgulho de seu antigo pupilo. — É essa a notícia urgente que o senhor veio me trazer em uma noite tão perigosa? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Ele fez coisas ruins. Rapto. Assassinato. — Não acredito. — Não precisa acreditar em mim. A polícia está envolvida e também acredita nisso. Se não fosse essa tempestade, os policiais já teriam capturado Sebastian. O padre continuou deliberadamente impassível. — Bem, seja como for, eu estou aposentado, como você pode ver. O que você quer que eu faça? — As pessoas em nosso ramo de trabalho se aposentam algum dia, padre? A coisa faz parte de nós, do início ao fim, não é? — Ele é seu paciente — respondeu Piazza, com um gesto de pouco caso. — Ele foi meu paciente. Agora está foragido. Esta afirmativa pareceu ao padre mais uma acusação, como se ele estivesse escondendo o rapaz. — E o senhor acha que sei onde ele está? — perguntou Piazza, melindrado. — É isso o que eu vim lhe perguntar. O senhor o conhecia melhor do que ninguém. O padre lançou um olhar fulminante ao homem bem-vestido que tinha à sua frente. Tinha jurado cuidar bem de seu rebanho, mas Frey, sem dúvida, era uma ovelha desgarrada. Bastante desgarrada. — Eu nunca deveria ter enviado o garoto a você. — Sei que este assunto é desagradável... A descrição irritou o padre. — Desagradável? A vida de uma criança destruída? Traída pelas pessoas em quem confiava? Sim, é extremamente desagradável. — O senhor fez a coisa certa, monsenhor. Ele era incontrolável, delirante. Precisava desesperadamente de ajuda médica e psiquiátrica. — Que você ofereceu com tanto sucesso. Entendi. — Com tanto sucesso quanto o senhor, padre. O padre sentou-se em um banco de pedra diante de um santuário em forma de gruta, que abrigava uma imagem de São Domingos, fundador de sua ordem, santo padroeiro dos I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


acusados injustamente. Pousando o rosto entre as mãos, suspirou profundamente. —Ele estava falando a verdade. Mas não acreditei nele — lamentou. — A verdade? O senhor está tão louco quanto ele. — Desde o momento em que eu fiz a bobagem de entregar o garoto aos seus cuidados, a Igreja do Preciosíssimo Sangue começou a perecer. — Sem os braceletes, sem Sebastian, o propósito da igreja minguou e se perdeu. Eu me perdi. Foi quando eu vi que as lendas eram verdadeiras. Que ele tinha razão. — Mas nem tudo está perdido, padre. Meus amigos empreiteiros e eu conseguimos reforçar a estrutura, e logo o prédio será utilizado para finalidades mais práticas. — Essa estrutura, como você diz, foi construída sobre os túmulos de homens santos para um propósito santo. — Sim, bem, a missão deles descarrilou, por assim dizer — disparou Frey sarcasticamente. — Sim, até que Sebastian chegou. Ele entendeu e tentou fazer os outros entenderem. Foi um arauto. Mas, em vez de ser ouvido, ele foi traído. — Isso é desvario daquela velha senhora que criou ele. — Ela era uma santa. — Era uma bruxa. O senhor mesmo disse isso. Monsenhor Piazza se posicionou desafiadoramente em defesa da mulher e de Sebastian. — Não era uma bruxa. Ela praticava a Benedicaria. O Caminho da Bênção. Ela passou o conhecimento a ele. — Conhecimento? Isso é vodu medieval para as massas ignorantes. Ela encheu a mente impressionável dele com essa besteira. Um garoto solitário e órfão, querendo se sentir especial. Foi uma vergonha! — Ela encheu a mente dele com fé e entusiasmo. Ele conseguia detectar malevolência nas pessoas quando nem eu conseguia. Estou vendo isso agora, e rezo para que Deus me perdoe por minha cegueira. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Eu não vim aqui para revisitar o passado com o senhor, monsenhor. Não tenho tempo. — Então por que o senhor está aqui realmente, doutor? O senhor não está pensando que eu estou escondendo o rapaz, está? — Antes de fugir, Sebastian disse que havia outros. Alguma vez ele conversou com o senhor sobre isso? Ele tinha amigos ou conhecidos em quem confiasse? — Outros — repetiu o padre, como se tivesse sido informado de um milagre pelo qual aguardara a vida inteira. — Como padre, eu não poderia lhe dizer se ele tinha. Segredo da Confissão. — Agora não é hora para obedecer a votos antiquados, padre — repreendeu Frey. — O senhor se preocupa com o garoto, não é? Com o bem-estar dele. Ele pode não sobreviver se a polícia o encontrar antes de mim. Pode haver reféns. A fachada altruísta do médico estava deixando o padre cansado. Ele já fora enganado uma vez. — O que acontecerá com ele se você o encontrar primeiro? — A vida é melhor que a morte, monsenhor. — Não ao preço de nossa alma, doutor. — Eu posso salvar o rapaz. Dele mesmo. — Sua compaixão é tocante. Então você não quer que ele seja transformado em um mártir? A voz do padre assumiu a entonação de condescendência seca e combativa, que o tornara conhecido em sua juventude. Piazza já estava farto do médico. A frustração de Frey lhe desgastara o verniz de civilidade e o levara além dos limites da polidez. — Ele é louco — opinou o médico. — Doenças como essas são contagiosas entre pessoas de vontade fraca, vulneráveis ou deprimidas, padre. Ele é perigoso. — Perigoso para quem? O senhor fala como se a difusão da fé fosse uma doença. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Toda essa conversa sobre fé e almas. Isso vem de uma época diferente. Nós já não ultrapassamos essa fase, padre? — Não sei. Já? O senhor parece bastante perturbado com uma coisa na qual não acredita. — Contos de fadas! Mentiras! Com o propósito de controlar a mente e o comportamento das pessoas. E para quê? Para obter dinheiro? Poder? — As drogas que o senhor prescreve, doutor, alteram as mentes e i. controlam o comportamento. O que o senhor receia que Sebastian faça, a ponto de vir até aqui? Talvez o psiquiatra deva perguntar isso a si mesmo. O médico lutou para manter a compostura. — Me mostre uma alma — esbravejou ele. — Qual é a aparência dela? Qual a textura? Qual o gosto? Quanto pesa? Me mostre uma alma e eu vou acreditar no senhor. E em Sebastian. — Bem-aventurados aqueles que creem sem ter visto. — Bem-aventurados — resmungou Frey. — Mas o problema é esse, não é? — Para o senhor, doutor. Para mim é uma solução. — Aquela velha igreja era uma coisa horrenda, que há anos já tinha passado do prazo de validade, monsenhor. Ninguém ia lá e ninguém vai sentir sua falta, graças, em grande parte, à sua incompetência. Não tem mais nenhum propósito, exceto como um futuro bloco de apartamentos para corretores e suas famílias. Com o qual eu espero obter um lucro substancial. Monsenhor Piazza considerou a argumentação dele e chegou a uma conclusão diferente. Ele sabia que a Igreja do Preciosíssimo Sangue retivera seu propósito, mesmo que com uma congregação de uma só pessoa. Ou quatro. — Talvez você tenha razão — disse ele. — Talvez não. — Olhe em volta — sugeriu Frey, apontando para o antigo mobiliário da casa. — Sua época já passou. — Vou me reservar o direito a uma segunda opinião, doutor — I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


retrucou o monsenhor desafiadoramente, com um leve sorriso lhe cruzando os lábios. — Acho que terminamos. Eu conheço o senhor. Conheço sua espécie. Não vai conseguir o que procura comigo. Não desta vez. — A decisão de entregar o garoto foi sua; não me culpe — disse Frey. — É tarde demais para arrependimentos. — Nunca é tarde demais. Os sinos tocaram. Piazza abençoou a si mesmo e a seu indesejável visitante, que já estava de saída. — Não perca seu tempo — zombou Frey.

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13 CAMINHADA NO LABIRINTO I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Quando a luz pardacenta do final da tarde se infiltrou pelas frestas das tábuas das janelas, a Igreja do Preciosíssimo Sangue se revelou em toda a sua decrépita glória. Sebastian estava sentado em silêncio na parte da frente. Agnes e Cecília contornavam o perímetro da nave e logo foram acompanhadas por Lucy, que parecia estar com uma bela ressaca. Elas pararam para notar algumas marcas estranhas na parede, quatorze ao todo, à altura de uma pessoa em pé e igualmente espaçadas. Não eram identificáveis à primeira vista, mas Agnes acabou por reconhecê-las, ainda que agora, após anos de exposição à luz do sol nascente e poente, estivessem


entremeadas por tinta descascada e serragem. — As Estações — disse ela. — As Estações da Via-Sacra — acrescentou Lucy. — Parecem mais as Estações das Coisas Perdidas — comentou Cecília, notando a falta de diversas coisas. — Não consigo entender — disse Lucy em voz alta, abanando a cabeça. — Nunca entendi. Um homem é humilhado, torturado e morto para quê? — prosseguiu. — Para que um pretenso rabino possa se empanturrar com uma cesta de ovos de páscoa. — Pode ser que haja beleza no sofrimento — disse Agnes em tom quase melancólico, chamando atenção, embora involuntariamente, para seus ferimentos autoinfligidos. — E no sacrifício. — Você não está se referindo a si mesma, está? Não estamos falando de brigas com sua mamãe ou problemas com seu namorado — disse Lucy, apontando para o número VI que se destacava na pintura desbotada. — Esse sofrimento está em um nível bem diferente. — Isso é que é carregar o peso do mundo — disse Cecília, perscrutando cada imagem. — Põe nossos próprios problemas no devido lugar. — Você acha...? — disse Lucy. E sob o olhar de Sebastian, que preparava uma refeição improvisada no altar, elas continuaram o passeio. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

I,II... Cecília parou na número dois. Estava diante da imagem de um homem santo e amoroso, que carregava uma cruz cm meio a uma multidão. Uma carga pesada que ele aceitara de boa vontade, embora estivesse sendo chicoteado e recebendo cusparadas.

III, IV, V, VI...


Agnes parou na número seis. Sentou-se então no banco em frente e olhou para a imagem. Uma mulher ajoelhada aos pés de Jesus — que sofria, carregando a cruz. Ela se preparava para limpar o lindo rosto dele com um diáfano véu branco. — Era tudo o que ela tinha. Tudo o que poderia fazer. E isso deu forças a ele — murmurou ela, admirada.

VII, VIII, IX, X... Lucy ficou comovida com a número dez. Jesus estava quase nu. Como devia ter sido humilhante para ele, ter sido despido até ficar quase nu, despido de sua dignidade e com o corpo lacerado em sua via-sacra, enquanto a cruz era erguida à sua frente. Ele morreria sem nenhum bem material. Após alguns momentos de silêncio meditativo, elas retomaram a caminhada. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

XI, XII... — Isso — exclamou Lucy, de repente, parando diante da número doze. — Era disso que eu estava falando. Isso é espetacular. Jesus morre na Cruz. — Jesus Cristo superstar? — protestou Agnes. — É a isso que você está se referindo? — Eu representei isso na escola. Fui Maria Madalena — explicou Cecília. — Sensacional — disse Lucy. Depois, tocou o ferimento na testa e se encostou à parede. — O símbolo da cruz é reconhecido por qualquer pessoa. Basta olhar e na mesma hora a gente sabe a história. A gente sente alguma coisa. A gente entende — disse Agnes. — É a diferença entre a fama passageira e a fama eterna — disse Lucy.


— Isso é que é marketing. — Há um significado — disse Cecília. — Todo mundo consegue se identificar com o sofrimento e o sacrifício até certo ponto. Lucy sentiu uma dor aguda atrás do olho, que logo desapareceu, deixando alguns resíduos em seu rastro, como um foguete no Dia da Independência. Cecília estendeu as mãos para ampará-la, mas Lucy abanou a mão, dispensando sua ajuda. — Esse ferimento está feio — observou Cecília. — Seria bom se nós tivéssemos gelo. — Estou bem. Lucy cambaleou até um banco, sentou-se e olhou para a parede em que se encostara. Viu-a como se fosse uma mistura da noite anterior e das Estações. Ela se lembrou de sua infância, quando aquelas imagens a aterrorizavam. Formavam uma aterrorizante sequência de um homem sendo injustamente acusado, condenado, humilhado, torturado e pregado numa cruz. Parecia uma coisa inevitável, condição que combatia desde que podia se lembrar. Na verdade, nada a amedrontava mais que a inevitabilidade. — Ele era o Filho de Deus. Por que se deixou massacrar desse jeito? — murmurou. — Quero dizer, ele já era Jesus Cristo. — As cartas estavam marcadas — disse Cecília. — Ele jogou com a mão que recebeu. — E ele sabia — acrescentou Sebastian, surgindo atrás delas. Seu rosto tinha uma expressão. A angústia era evidente. Ele se juntou a elas no exame das duas últimas Estações. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

XIII... Jesus E Descido da Cruz. Eles agora estavam olhando para uma magnífica pintura de Jesus com um halo dourado, sendo acarinhado por seus entes queridos. Recebendo suas preces. Sua adoração. — Adoro o modo como eles tiram da realidade a agonia e o sofrimento


e transformam tudo em uma mitologia linda e glorificante — comentou Cecília. — Mas é só uma história. — É, mas uma boa história — disse Sebastian. — A Maior História de Todos os Tempos — acrescentou Agnes. — É o que dizem — disse Lucy. — Muita gente quis morrer por essa história — observou Sebastian. — E matar — completou Cecília, lembrando o outro lado da moeda. — As religiões são apenas pessoas. Algumas são boas, outras não — disse Sebastian. — Como tudo mais. Não se pode culpar Jesus por tudo isso. — Há idiotas em toda parte — disse Cecília. — Uma definição que podemos apoiar — concordou Sebastian. — Vocês sabiam que aquele padre velho no filme O Exorcista fez o papel de Jesus em A Maior História de Todos os Tempos1 Estive com ele numa pré-estreia — informou Lucy. — Só mesmo você poderia usar o nome de Jesus para se promover — disse Cecília. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

XIV... Jesus Foi Colocado no Túmulo. Ao chegarem à última Estação, Lucy estava se sentindo desligada. Não de seus companheiros, mas de seu corpo. Ela não sabia ao certo se estava presente ali, ou em qualquer outra parte. Tinha a sensação de estar flutuando, olhando tudo a três metros do chão. Isto às vezes lhe acontecia em boates lotadas, mas jamais em uma situação tranquila. E não era apenas Lucy. Todos estavam começando a se sentir estranhos. O vento martelava as janelas e trovões estrondeavam. Mas foi um som menos violento, vindo da entrada da igreja, que realmente lhes chamou a atenção. Principalmente a de Sebastian. — Quem é? — exclamou Agnes, alerta. A porta da igreja se entreabriu. Apenas alguns milímetros, mas com um


ruído alto o bastante para que eles ouvissem. Instintivamente, as garotas se agacharam atrás de um banco; não queriam ser encontradas. Sebastian permaneceu de pé, como um mastro fincado no chão. — Você está esperando alguém? — sussurrou Lucy. — Não. Uma figura solitária entrou na igreja, com uma boa ajuda do vento. Coxeou então através do átrio, sem demonstrar medo da escuridão. Mesmo no escuro, Sebastian viu que o homem era frágil e provavelmente velho — velho demais para enfrentar a tempestade naquela hora vespertina. Sebastian continuou olhando. As garotas podiam escutar os passos anônimos. — Quem é? — murmurou Lucy nervosamente. O homem avançava devagar, mas confiantemente. Visivelmente conhecia o local. Mesmo à luz de velas, Sebastian reconheceu sua maneira de andar e seu vulto. — Padre Piazza. O padre parou e virou a cabeça de um lado para outro e de cima para baixo, perscrutando a escuridão. Parecia alguém que tivesse voltado à cidade natal depois de muitos anos, apenas para encontrá-la mudada, modificada, embora não totalmente irreconhecível. Sobrara o bastante para despertar recordações ou tristezas. Ele não retornara à igreja desde que fora desconsagrada e seus paroquianos distribuídos por outras igrejas, sem nem ao menos o direito de visitá-la de fora. Mas agora ele estava ali, mesmo com aquela terrível tempestade. Arriscando a própria vida, mesmo que fosse a última coisa que fizesse. Piazza se lembrou de seus tépidos esforços para salvar a igreja e a congregação das imobiliárias, e de seu alívio quando não obteve sucesso. Estava se preparando para a aposentadoria, afinal de contas, e a diocese não estava disposta a subsidiar mais uma paróquia deficitária. Sebastian fora o último assunto não resolvido que lhe sobrara. Ele o amava e fez de tudo, juntamente com a assistente social do município, para encontrar uma boa casa para o garoto no seio da comunidade. Tentou I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


várias vezes. Várias vezes falhou. Sebastian estava se tornando cada vez mais instável. Comportava-se mal. Blasfemava. Tinha se tornado indesejável até para a mais acolhedora das famílias adotivas — se devido a uma depressão pela morte da avó, hormônios da adolescência ou algo mais sério, o padre não saberia dizer. O que mais poderia ter feito, conjeturou ele, além de agir como agiu? Entrara em contato com os melhores psicólogos para ajudar Sebastian. A reputação de Frey era impecável. Se alguém podia mudar o garoto e lhe trazer um pouco de paz, este alguém era ele. O monsenhor suspirou resignadamente, encolhendo os ombros quando expirou o ar. E continuou a descer o corredor central. O lugar estava uma bagunça. O mármore dos pisos, cortado e polido a mão, estava coberto de sujeira; bancos de madeira esculpida haviam sido arrancados do lugar e empilhados ao lado das portas laterais; andaimes se elevavam a alturas que, em outros tempos, somente as vozes dos fiéis alcançavam; estrados repletos de placas de gesso e canos quase ocultavam pedestais vazios, onde estátuas de santos e santas, lindamente pintadas, eram antes adoradas. Quem poderia ele culpar? Sebastian? Somente ele mesmo. O velho padre seguiu na direção do altar, passo a passo, até chegar ao centro da igreja, onde fez o sinal da cruz, abaixou a cabeça, ajoelhou-se e cruzou as mãos. Começou então a sussurrar uma prece, em tom fervoroso. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

"quia peccavi nimis cogitatione, verbo opere et omissione"

— O que ele está dizendo? — perguntou Lucy. — Ele está se confessando — explicou Sebastian, com os olhos fixos no padre penitente.


Piazza parou e bateu no peito uma vez. O som abafado de sua mão artrítica no esterno parecia o de um corpo caindo de um prédio. — Mea culpa — disse o padre. E de novo: — Mea culpa. E finalmente, quase em lágrimas: — Mea maxima culpa. O padre Piazza se levantou e olhou diretamente em frente, para o altar e para a silhueta de Sebastian à sua frente. — Sebastian! — gritou ele com todas as forças. — Como ele sabia que você estava aqui? — perguntou Agnes em tom de pânico. — Silêncio — disse Cecília, pousando a mão sobre a boca de Agnes. — Sim, padre. — Seu caminho é solitário e minhas ações o tornaram ainda mais solitário. — Não estou sozinho — disse Sebastian. — Nunca estive. Lucy, Cecília e Agnes se levantaram de seu esconderijo, atrás do banco. Ainda estavam confusas com o diálogo entre os dois homens, mas já não sentiam necessidade de se ocultar. O padre não conseguia ver seus rostos, mas os braceletes cintilavam em seus pulsos à luz minguante. O padre Piazza estava abalado. — Eles virão atrás de você. — Eu sei. — Eu lamento — disse Piazza, com voz embargada de emoção. Sebastian deixou as palavras ecoarem no espaço cavernoso, até se desvanecerem. O monsenhor elevou a mão trêmula e fez uma bênção, como fizera incontáveis vezes entre as paredes sagradas da Igreja do Preciosíssimo Sangue. Em seguida, fez o sinal da cruz. — Que a paz esteja convosco — disse Sebastian. — E com seu espírito. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


O padre inclinou a cabeça para Sebastian, depois para as garotas, virou as costas e começou a se afastar. Uma procissão de um só. De volta ao lugar de origem. — Padre — gritou Sebastian. — O senhor esqueceu alguma coisa? — Sim. — O padre parou e olhou para eles. Iria levar para o túmulo qualquer informação a respeito deles. — Tudo.

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14 IMACULADA ILUSÃO I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Isso foi... estranho — disse Lucy, em voz rouca. — Um homem rezando? — disparou Sebastian bruscamente. — Você sabe o que estou querendo dizer — replicou Lucy. — Para um homem idoso vir até aqui durante uma tempestade como essa deve ter sido por uma razão importante. — Sim, uma questão de vida ou morte — complementou Cecília. — Ele realmente se arriscou vindo aqui. — Quem é ele? — perguntou Agnes, com a curiosidade despertada. — O nome dele é Piazza. Ele foi o padre daqui durante muitos anos. E


acabou de fazer a viagem mais importante da vida dele. — Você conhecia bem esse padre? — perguntou Agnes, com delicadeza. — Pensei que conhecia — respondeu Sebastian. A dor e o ressentimento em sua voz eram inconfundíveis. — Você está metido em alguma encrenca? — perguntou Cecília com ar protetor. — Pode contar para nós. Ela se lembrou de como ele parecia cauteloso no hospital, quando se encontraram pela primeira vez. — Ele disse que vai vir alguém atrás de você — lembrou Agnes. — É a polícia? — Não é nada que eu não possa enfrentar. — Nós — enfatizou Agnes. — Juntos — completou Cecília. Até Lucy resolveu aderir. — Conheço umas pessoas que provavelmente podem ajudar. Seja lá o que for. — Isso significa tudo para mim — disse Sebastian, tocado com a solidariedade delas e, mais importante, seu companheirismo. Ele irradiava uma melancólica expressão de felicidade e remorso. Massageou então as têmporas, e começou a se afastar, pondo fim ao interrogatório. Como se tivesse recebido uma deixa que estivesse esperando. — Para onde você está indo? — perguntou Agnes. Sem responder, Sebastian continuou a caminhar. Elas o viram desaparecer nas trevas que envolviam os fundos da igreja e subir a escadaria, arrastando os saltos das botas nos degraus. — Você acha que isso tudo tem a ver com os braceletes? — perguntou Lucy. — Acho que estamos prestes a descobrir — respondeu Cecília. — Não quero sair daqui — disse Agnes. — Até saber. A resposta estava nos olhos de Agnes. Tudo estava nos olhos dela. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Estavam decididas a ficar. — Acho que ainda teremos mais um dia de escuridão até descobrirmos — observou Lucy, lembrando-se da previsão meteorológica que ouvira no táxi. — Tem alguma coisa realmente errada. — Ele parece preocupado — acrescentou Agnes. — Com ele mesmo? — perguntou Cecília. — Ou conosco?

— Pode falar. A conhecida recepção foi mais curta e o bipe que a seguiu foi mais longo que o necessário, e mais estridente — esta foi a impressão de Jesse. Ele não estava habituado a deixar mensagens para Lucy e não obter respostas. Apesar de sua mútua aversão, ou pelo menos dela por ele, eles se comunicavam. Mas dois dias já haviam transcorrido sem qualquer resposta. Com a tempestade torrencial provocando tantos estragos e um tornado a caminho, ele já estava pensando o pior. — Esta caixa de mensagens está cheia e não pode receber novas mensagens — informou a voz incorpórea. Jesse checou o número para ver se o tinha digitado corretamente, coisa absolutamente inútil, pois ele havia utilizado a discagem rápida. Teimoso, como sempre, ele teclou outra vez. Por fim, o telefone de fato tocou, em vez de cair direto na caixa de mensagens. — Alô? — disse uma voz, com um inconfundível sotaque do Brooklyn. A conexão estava fraca, cheia de estática e atrasos, tornando difícil falar e ouvir. — Onde está Lucy? Jesse se recostou na cadeira. — Quem é Lucy ? — Quem é você, porra? — perguntou Jesse. — Onde ela está? — Ela está bem aqui, ô babaca — respondeu o homem. — Eu vou virar I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


ela de frente pra poder falar com você. Uma onda de intenso ciúme, mais que de ansiedade, tomou conta de Jesse, quando ele imaginou sua protegida transando com um carcamano de Gravesend11. — Escute aqui, imbecil, eu não sei quem você é nem onde Lucy está, mas juro que os tiras vão chegar aí antes que você que você vista sua camiseta sebenta e ponha o anel de pedra falsa no dedo. — Calma, cara, eu só estou mangando com você. Eu achei esse telefone na rua, em frente à Sacrifice. Peguei antes que a tempestade começasse. Eu trabalho na boate. — Então você deveria ser despedido, porra. O ar de superioridade finalmente ecoou com clareza suficiente para que o homem começasse a se preocupar. — Merda, é Jesse quem está falando? Aqui é Tony. Anthony Esposito. Da segurança. — Você quer dizer o leão de chácara — fungou Jesse, em tom condescendente. — Sim, sou eu — confirmou Tony, melindrado. Jesse abrandou a voz. Grande parte de suas melhores histórias, quando não vinham de Lucy, vinham de Tony. — Esse telefone que você está usando é da Lucy. — Uau. O telefone da Lucy. É todo enfeitado, mas eu não sabia de quem era. O teclado está bloqueado por senha. Parecia ser de alguma garota, então eu pensei em ficar com ele e pedir uma boa trepada como resgate. — O que você fez com ela? — perguntou Jesse, cada vez mais furioso. — Onde está ela? — Como é que eu vou saber? — respondeu Tony. — Por quê? Você acha que ela está morta, ou que aconteceu alguma coisa? — Quando foi a última vez que você a viu? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

11

Bairro do Brooklyn onde há uma numerosa colônia italiana. (N.T.)


— No mesmo dia que você, provavelmente. Na noite em que eu encontrei o telefone, pensando bem. Ela saiu correndo da boate e entrou em um táxi, acho. Não tenho certeza. Para falar a verdade, eu não tenho visto clientes desde que começou a tempestade. Nós não temos aberto a boate. Estamos esperando o final. Ouvi dizer que vem aí um tornado. Dá pra acreditar nessa porra? Jesse ficou em silêncio e alegremente imaginou todos os idiotas sobre quem escrevia sendo levados por um vendaval, e depois aparecendo inchados e azulados em alguma distante praia pedregosa. Todos, com exceção de Lucy, é claro. — Você está aí? — perguntou Tony. — Sim, talvez ela tenha ficado presa em algum lugar — respondeu Jesse pensativamente, tentando convencer a si mesmo mais que qualquer outra coisa. — Você conhece o ditado. Nenhuma notícia é uma boa notícia, acho que é isso. — Não para mim — replicou Jesse. — Aliás, nem para você. Aquele merdinha era bem capaz de cortar sua grana extra, pensou Tony, o dinheirinho que ele ganhava com a "deduragem", como costumava dizer. E ele já tinha perdido dois dias de comissão, por causa do mau tempo. — Tentei fazer a coisa certa. Vou deixar o telefone na seção de Achados e Perdidos da chapelaria, assim que aquela espelunca reabrir. Isso fica entre nós, capiche? Só não sei quando vai ser. Está uma bagunça por aqui. Inundação, vidros quebrados. Uma merda só. — Se você souber de alguma coisa, me informe — disse Jesse, subitamente distraído por uma chamada em espera. — Sempre faço isso — disse Tony, rilhando os dentes. Sebastian subiu a escadaria em espiral, de dois em dois degraus, até a velha torre do sino. Quase foi sugado para cima, devido ao vácuo que se instalara na torre. Sentia-se relutante por se afastar das garotas, ainda que por alguns momentos, mas sabia que o tempo estava se esgotando. Abrindo I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


caminho através de tábuas, vigas e restos enferrujados de grades das janelas, que atravancavam sua subida, ele chegou ao topo da torre. Encheu então os pulmões com o ar brumoso que o cercava. Do campanário, ele examinou as casas de pedra marrom abaixo e as nuvens escuras e ameaçadoras que cruzavam o céu agourento do Distrito das Igrejas. Os vitrais estavam destruídos e a rede metálica das obras balançava ao seu redor. As tábuas que recobriam as janelas haviam sido arrancadas de algumas janelas pela força do vento, que continuava a açoitálas. Cacos coloridos dos vitrais despedaçados juncavam o chão da torre e o telhado principal da igreja, logo abaixo. Os estilhaços cintilavam como luzes de Natal. Luzes assim, pensou ele, geralmente anunciam uma ocasião alegre, mas não essas. A torre não era usada há anos, muito tempo antes que a igreja fosse fechada pela diocese e cobiçada pelas imobiliárias locais. Nem sino tinha. Para que se dar ao trabalho de convocar as pessoas para rezar, refletiu ele, se ninguém viria mesmo? Permaneceu de pé, à espera, como um Quasímodo do século XXI, vigiando seus decrépitos domínios e suas três Esmeraldas12. Estavam juntos agora. Ele sentia a presença delas não apenas ao seu redor, mas também dentro dele, com a mesma certeza que tivera no hospital, naquela noite. A noite em que ele escapou de Frey. E chegou a elas. Ele jamais poderia ter imaginado que esta seria a parte mais fácil. Ele queria lhes contar tudo, mas sabia que não poderia. E o tempo estava se esgotando. Será que elas acreditariam nele? Sebastian tentou divisar o porto à distância e Manhattan, mais além, ambos envolvidos por uma leve neblina que vinha em sua direção, atravessando o East River até os molhes que se estendiam pela costa, de Red Hook a Vinegar Hill. De seu poleiro de pedra e argamassa, ele se imaginou como o capitão de um navio acossado, transportando uma carga I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

12

Referência à obra Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo. O personagem principal, Quasímodo, era um

cor¬cunda que morava na torre da famosa igreja, e que se apaixona pela cigana Esmeralda. (N.E.)


preciosa para um litoral distante, em meio a mares tempestuosos e recifes pontiagudos. Cercado por navios inimigos, ocultos, mas sempre presentes. Deste ponto de observação era muito mais fácil observar a arquitetura da igreja. Vista por dentro, a igreja era apenas enorme e cavernosa. Como todas as outras, parecia que pouca atenção fora dada a seu projeto. De cima, no entanto, seu propósito ficava mais evidente. Transeptos se estendiam de cada lado da nave, como braços abertos, formando uma cruz. O motivo óbvio, imaginou ele, era que Deus pudesse observar a igreja do céu. Mas no momento ele tinha outras coisas para olhar. Eles viriam atrás dele, e logo. Disto ele tinha certeza. Seria tão mais fácil terminar tudo aqui. Pular. Esticar os braços, fechar os olhos e me lançar graciosamente, pensou ele, como um desses passarinhos das lojas de brinquedos, que mergulham repetidamente para beber um gole de água. O passarinho, no entanto, continuaria a mergulhar. Ele não teria tanta sorte. Não que não tivesse considerado a morte durante os dias intermináveis que passara trancado no hospício do dr. Frey, desmoralizado, desacreditado, observando das janelas de sua "cobertura" os andaimes cercarem a Igreja do Preciosíssimo Sangue. Mas mesmo então ele sabia que não poderia se dar ao luxo de se suicidar. Com tantas coisas em jogo, seu próprio sofrimento não tinha importância. Ele aceitara isto quando aceitara a si mesmo. Ainda tinha muito para fazer. Tinha que lhes dizer quem ele era, quem elas eram e por que estavam ali. E nada nem ninguém iria detê-lo. Ele não tivera muita escolha no tocante ao que tinha acontecido, mas pelo menos tinha seu espírito, Sebastian observou as cercanias por um longo tempo, esperando que sua mente se esvaziasse, assim como as ruas. Lembranças indeléveis, tão fragmentadas quanto o vidro a seus pés, assombravam sua consciência e o deixavam prostrado. Tão prostrado que ele mal sentia os entulhos abrindo buracos em sua calça jeans e arranhando sua pele. O tempo se tornara fluido. Podia ter recuado semanas, ou dias. Ele se viu arrastado para o setor psiquiátrico do hospital, imobilizado, sedado e avaliado. Contra a sua I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


vontade. Como uma rã em uma aula de ciências, esquadrinhada, cutucada, prestes a receber choques e narcóticos. Obliterada. Ele revivia tudo cada vez que fechava os olhos. Uma infindável espiral de sofrimento. As algemas, os interrogatórios disfarçados como terapia, o ofuscante quarto branco, os eletrochoques, a expressão de jogador de pôquer do dr. Frey, a enorme força do enfermeiro. — Eu estou impedindo você de alguma coisa? — Sim. — Você sabe por que está aqui? — O senhor é o médico. Me diga. — Mania, delírios, depressão, paranoia. — Tudo mentira. — Negação. — Eu não deveria estar aqui. — Onde você deveria estar? — Com eles. — Com quem? Com os padres? Com o padre Piazza? — Não, ele também não acredita em mim. O senhor sabe disso. Foi ele quem me mandou para cá, não foi? — Ele só queria o melhor para você. Como todos nós. — O senhor quer dizer o melhor para o senhor. Ele se lembrou de que o rosto do dr. Frey se contraiu. O médico não estava acostumado a que o desafiassem, muito menos questionassem. Sua irritação era visível, ao contrário da postura calma e controlada que geralmente adotava, tanto no hospital quanto em jantares de gala. Ele estava acostumado a ser tratado com respeito, com deferência. Tinha direito. Formara-se em medicina, psicologia e sociologia; era um cientista, tão credenciado quanto possível. E um humanista. Mal tinha espaço no vestíbulo de seu gabinete para as honrarias que recebera. Sebastian passava diante delas todos os dias, como os outros pacientes. Era a primeira parada que se fazia no setor psiquiátrico. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ele não estava muito disposto a aceitar desaforo de um garoto punk com complexo de messianismo. Tentara manter a frieza analítica que o tornara famoso, mas Sebastian estava lhe dando nos nervos. — Você chegou aqui com essas pulseiras de contas. Foram tiradas da velha capela abaixo da Igreja do Preciosíssimo Sangue. — Lembranças. O lugar estava sendo fechado. Qual é o problema? — Propriedade roubada. Isso não é pecado? — Eu não roubei. Só peguei o que precisava. — Precisava? — Elas também me foram tiradas. Por medo de que eu me enforcasse ou enfiasse tudo na boca e sufocasse. — Você não se enquadra no tipo que comete suicídio, Sebastian. — Então me devolva os braceletes. — Por que você quer tanto ficar com eles? — Por que você se importa com isso? — Talvez isso me ajude a entender você melhor. —Já não lhe disseram, doutor? Sou do tipo espiritual. — Foi o que eu ouvi. — Isso agora é doença? — Depende, Sebastian. — Se o senhor quiser me ajudar, me deixe ficar com as pulseiras. Elas podem me acalmar. Não é isso o que o senhor quer? — Nós podemos providenciar isso se você parar de se recusar a tomar os remédios. — Me sinto bem sendo quem eu sou. — E quem você é? — Você não acreditaria se eu lhe dissesse. — Experimente. O enfermeiro estava tomando notas por alguma razão, mas não para o prontuário oficial de Sebastian. Frey estava mantendo dois relatórios sobre ele. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Ainda não tem o suficiente para me condenar1 Para me prender para sempre? — Não estou aqui para julgar você. O tribunal tomou a decisão. — Baseado no seu prestígio e no seu depoimento, doutor. — E no do padre Piazza ■ Para começar, foi ele que encaminhou você para cá. — Que me prendeu e me internou, o senhor quer dizer. Por sua recomendação. — Para o seu próprio bem. — O senhor tem influência em tudo o que é lugar, não tem? Até na igreja. — Ele conhece você desde criança. Viu você roubar relíquias da capela, Sebastian. Preciso continuar? — Eu queria ser ouvido. — Ele ouviu você. Seus desvarios. Seus delírios. Não havia alternativa a não ser colocar você aqui. Não fui eu que procurei você. — O senhor não deixou impressões digitais, não é mesmo, doutor? O senhor não me internou aqui e não está aqui para me julgar. — Mais delírios. Você está doente, Sebastian. — É assim que a coisa funciona, não é? Não existem apertos de mão secretos, nem nenhum edifício-sede, nem uniformes. Só uma federação de indivíduos com o mesmo pensamento e poder, e as pessoas que eles podem usar para seus propósitos maléficos. — Parece que você já resolveu tudo. — Eu sei tudo sobre o senhor. Já me foi revelado. Tudo. — Você está aqui há três anos, Sebastian. Não acha que é hora de me contar essas revelações? Ou você tem medo? — Não sou eu quem tem medo. — Desabafe e a gente pode parar com isso. Por que você não me conta? — Porque o senhor já sabe. Não tente me tratar como idiota, — Eu não estou aqui para zombar de você. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Não, o senhor está aqui para me eliminar. — Não, para ajudar você. — Isso não importa. Sempre haverá outros. — Outros? Quem? Onde? — Mais perto do que o senhor pensa, Mas por que eu lhe contaria? — Você pode conversar comigo. Tudo o que disser será mantido em sigilo. — Desculpe eu não acreditar em nada do que o senhor diz. — A relação médico-paciente é sagrada, Sebastian. — Sagrada? Engraçado. O padre Piazza disse a mesma coisa. O rosto de Sebastian se contraiu de repulsa com a simples lembrança. — Você vai se sentir muito melhor quando isso terminar. — O senhor sempre adota esses procedimentos tarde da noite, doutor? Em um fim de semana, quando não há ninguém por perto? Com um paciente vestido com roupas normais? — Segure ele. — Por que o senhor se sente tão ameaçado por mim? Por que acredita no que eu falo? É isso. O médico acenou para que o enfermeiro começasse. — E essa a sua ideia de tratamento? — Já tentamos todas as outras coisas. — Está tentando me aproximar mais de Deus, doutor? — Não, Sebastian. Da sanidade. Sebastian ainda conseguia sentir sua luta. Seus músculos se contraíram quando ele se lembrou de ter sido arrastado, centímetro a centímetro, em direção à mesa, de onde as correias pendiam frouxamente, aguardando braços e pernas. As seringas cheias de anestésicos estavam sequiosas por suas veias. A placa oclusal de borracha repousava sobre a bandeja ao lado da padiola, à espera de seus dentes cerrados. — Vai ser preciso mais de um cara para ajudar você. O sorriso arrogante do enfermeiro sugeria que não. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Sicarius está por perto, se eu precisar dele. — Em uma coleira? — Injete o sedativo nele. — Relaxe. Só uma leve picada e você não vai mais se lembrar de coisa nenhuma. O enfermeiro se aproximou de Sebastian, que se esquivou e conseguiu lhe aplicar uma forte gravata. O enfermeiro se debateu, engasgando. Seu rosto começou a ficar vermelho, depois, roxo e, finalmente, branco como cal. Sebastian continuou a apertar seu pescoço com toda a força, olhando diretamente para o médico, que não fez nada. Quando o enfermeiro estava prestes a desmaiar, Sebastian lhe deu um último aperto e o largou. O enfermeiro caiu no chão, inconsciente. — Muito bem — disse o médico. — Agora você não é só um psicótico; é um assassino. — Ele não está morto. Sebastian investiu contra Frey, jogou-o contra a parede e apertou o antebraço sobre a garganta do médico. Que não ofereceu resistência. — E a minha vez agora — escarneceu ele. — Os braceletes — exigiu Sebastian. Frey os entregou a ele. Sebastian enfiou a mão no bolso do médico, pegou suas chaves e removeu a bateria de seu telefone celular. Depois saiu em silêncio, trancando Frey na sala de tratamento. — Vá em frente, chame Sicarius agora — gritou Sebastian. — Ele eu terei prazer em matar. — Eliminar o mal faz você ser bom! — E só o que eu faria. Não me cabe julgar. — Eu verei você novamente, Sebastian — disse o médico, atrás da grossa janela de vidro da porta de metal. — Que Deus o ajude se isso acontecer, doutor. Sebastian viu o doce rostinho de Jude assomar à porta de seu quarto, I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


perplexo com a agitação, inusitada para aquela hora da noite. O garoto estava visivelmente preocupado com ele. Eles haviam se tornado próximos, durante o convívio no pavilhão, apesar da diferença de idades. Sebastian se tornara uma espécie de irmão mais velho. Jude apontou para a direção do quarto de Sicarius, em um aviso silencioso, mas Sebastian acenou que estava tudo bem. Se Frey tivesse a intenção de jogar pesado, já teria feito isso. Sebastian beijou um dos braceletes e o arremessou para Jude. — Entregue isso a ela — disse ele. — E tome cuidado. O garoto assentiu, sem precisar de mais instruções. — Tome cuidado você — disse Jude com voz entrecortada e lábios trêmulos. — Eu não vou me esquecer desse favor — disse Sebastian, correndo para a escada. — Lembre-se do que eu lhe disse. Jude sorriu e entrou de novo no quarto. Uma fortíssima rajada de vento, seguida pelo silêncio mais intenso que ele já ouvira, trouxe Sebastian de volta ao momento presente. O ar crepitava à sua volta. Seus ouvidos entupiram dolorosamente e de repente estalaram, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Se levantou lentamente, lutando contra um forte vento. Embora a lembrança de seu cativeiro fosse penosa, sentia-se orgulhoso de ter escapado de Frey. Contra todas as probabilidades, tinha fugido e já quase cumprira sua missão. Ele ergueu os punhos em triunfo, enfrentando o vento e a chuva, desafiando os relâmpagos a atingirem-no. A velha torre começou a estremecer violentamente sob as vergastadas do vento, combinadas com o ataque sônico dos trovões, soltando o reboco das pedras e espanando um resto de poeira que ainda cobria suas lembranças. Na mesma hora, ele sentiu um embrulho no estômago. Não pelo que realizara, mas pelo que deixara de fazer, pelo que não percebera. Ele havia mesmo escapado, ou sua arrogância naquele momento turvara sua I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


percepção? Ele recapitulou a cena várias vezes, tentando extrair algum sentido. Frey não resistira. Por quê? Então tudo lhe veio à mente. Com força igual à do tornado que se aproximava da Preciosíssimo Sangue. — O que foi que eu fiz? — repetiu ele, cobrindo o rosto com as mãos, em um raro momento de dúvida e autopiedade. De repente, ele sentiu queimação nos braços e nas pernas. Os cacos coloridos, os pedaços de madeira e os pregos que jaziam a seus pés se ergueram em um vórtice com a força de um furação, revoluteando ao seu redor como um enxame de mosquitos famintos. A tempestade estava sobre ele. Ele tentou se proteger do entulho e acabou caindo no chão de cimento. O barulho era alto como o de um campo de batalha, mas o único som que Sebastian escutava era o da própria voz, repetindo uma penosa constatação. Ele pusera as garotas em uma situação muito mais perigosa do que poderia ter imaginado. — Ah, meu Deus. Frey poderia ter me detido. Ele me deixou escapar. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


15 ESTUPRO DA FÉ I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Está ficando muito escuro — disse Agnes, notando que as coisas haviam ficado estranhamente imóveis. — Onde está ele? Ceci estava pensando a mesma coisa. — Talvez seja melhor eu... O estrondo na torre do sino reverberou na igreja, enquanto vigas enfraquecidas pelas obras e pela tempestade se estilhaçavam como palitos. O órgão começou a tocar sozinho, com as teclas acionadas ao acaso pelos tremores e pelo reboco que caía do teto. Torrentes de água estavam


vazando pelo teto, transformando o balcão em uma cachoeira interior. — Tornado! — gritou Lucy, aprumando o corpo. A igreja inteira parecia se sacudir para a frente e para atrás, e de um lado para outro. Cecília caminhou aos tropicões até o vestíbulo e gritou para o alto da escadaria, mas não obteve nenhuma resposta. Entulho e poeira de gesso caíam como vômito, cobrindo os corrimãos, os degraus e as botas dela. Ela inspirou um monte de partículas e começou a engasgar. Suas narinas e cavidades nasais ficaram cheias de poeira. Com o rosto vermelho e o nariz escorrendo, ela gritou tão alto quanto pôde. — Sebastian! Ela se esforçou para ouvir alguma resposta, mas não veio nenhuma. Estava prestes a correr escadaria acima quando Lucy a segurou por trás. — Me solta! Ele pode estar machucado. — Você pode se machucar — advertiu Lucy, sentindo que algo estava extremamente errado. — Não vou deixá-lo morrer lá em cima. — Nós precisamos ficar juntas. Ou vamos morrer aqui embaixo. Lucy apontou para o teto do saguão. Enormes pedaços de gesso estavam rachando. — Vamos correr! — gritou Ceci, puxando Lucy pela nave e quase a arrancando de seus sapatos altos. E um pandemônio se instalou dentro e fora da igreja. Após uma rajada de vento particularmente violenta, a madeira que tapava as janelas superiores começou a rachar e a se desprender. Toda a igreja foi se transformando em um gigantesco túnel de vento, à medida que o tornado chegava mais perto. Elas sentiram o oxigênio ser arrancado de seus pulmões. Era algo de tirar o fôlego, literalmente. As vidraças do clerestório, já rachadas pela trepidação das britadeiras da obra, despejavam cacos de vidro sobre os peitoris e galerias, que caíam a centímetros dos calcanhares delas, transformando a antiga casa de adoração I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


em uma casa dos horrores. Os andaimes oscilavam e caíam como pequenos prédios sendo demolidos. Cobrindo as cabeças com as mãos, Ceci e Lucy correram até o altar, com as pernas — enfiadas até as panturrilhas em lascas de madeira e pontiagudos fragmentos de vidro — cobertas de fuligem e gotejando sangue. O vento e a chuva entraram pelas janelas abertas e as perseguiram pelo corredor principal por quase todo o comprimento da igreja. Após um aceno de Cecília para Agnes, que estava à frente, ambas se agarraram desesperadamente à balaustrada do comungatório e pularam para a relativa segurança do altar, antes que alguma parte pesada do prédio as esmagasse. Cecília cobriu Agnes com o próprio corpo para protegê-la dos fragmentos de vidro e madeira, como um soldado disposto a levar um tiro para salvar o companheiro. — Pensei que ficaria em segurança aqui! — gritou Agnes. — Você está — disse Cecília. — Eu protejo você. — Me sinto como se estivesse, sendo atacada! — berrou Lucy. Cecília concluiu que o melhor seria bater em retirada. — Temos que sair deste lugar. — E ir para onde? Vamos passear com esse ciclone lá fora? Na escuridão total? — questionou Lucy. — Você está maluca? Cecília limpou o líquido morno que lhe escorria pelas pernas e o lambeu. Era sangue. Ela olhou para as ataduras de Agnes. — A sacristia. Venham comigo. Elas correram até a porta da sacristia, com Cecília arrastando Agnes e Lucy as seguindo de perto, agora segurando seus caros sapatos. Eram camaradas de armas procurando abrigo. Fugindo da tempestade para salvar suas vidas, começaram a chapinhar sobre o mármore lamacento. Seus pés descalços mal conseguiam obter tração no piso escorregadio. Apesar do apoio de Cecília, Agnes escorregou e caiu sobre alguns pedaços de madeira que juncavam o corredor. Aparou a queda com as mãos e soltou um grito. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Lucy parou e ajudou Agnes a se levantar, num surto de adrenalina, tal como Sebastian a ajudara. E teve o cuidado de não puxá-la pelos pulsos. — Vamos — gritou. Cecília alcançou a porta e a escancarou. Agnes e Lucy entraram, e Lucy bateu a porta, estancando o pior da tempestade, pelo menos naquele momento. O silêncio foi um alívio. — Você não consegue andar mais depressa? — bufou Lucy para Agnes. — Nós deveríamos ter deixado você lá fora. — Desculpe. Fiz o que pude — disse Agnes, afastando do rosto os cabelos molhados. Obrigada por me ajudar. — Aí, fique calma — disse Cecília, sinalizando para que Lucy não exagerasse. — Sou eu que peço desculpa — murmurou Lucy em tom de remorso. — Tudo bem — disse Agnes, pousando a cabeça no ombro de Lucy. O contato físico pegou Lucy de surpresa. Já fazia muito tempo que ela não permitia que nenhuma amiga se aproximasse dela o suficiente para tocá-la, muito menos para consolá-la. Se é que algum dia permitira. Ela estendeu a mão e afagou os cabelos e o rosto de Agnes. — Não quis magoar você — sussurrou ela. Agnes se ajoelhou e deslizou os dedos pelas pernas das outras garotas, procurando cacos de vidro, que extraiu um por um. Depois limpou os pequenos ferimentos com a gaze de suas ataduras. — Não está muito limpo — disse ela —, mas é o melhor que posso fazer. Cecília e Lucy observaram o aposento. Pintura descascando, reboco empolando, infiltração de água e mofo cobriam as paredes e o teto, indicando que Agnes estava mais do que certa. Lucy olhou para as ataduras nos pulsos de Agnes e notou que estavam úmidas e manchadas, não somente com o sangue delas, mas também om o de Agnes. — Seria melhor trocar essas ataduras — disse Lucy. —Como estão seus I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


braços? — Estão doendo. Lucy apalpou a testa de Agnes, para sentir a temperatura, e constou que a sua pele estava fria e pegajosa. E pelo modo como Agnes se agarrava a seu braço, percebeu que esta começava a cambalear. A luz estava minguando rapidamente e a tempestade, aumentando intensidade. Sem nem mesmo a luz fria dos postes de luz, ainda amor- Lados pelo blecaute, a noite caía sem obstáculos. Com a vela que ainda trazia na mão, Cecília começou a acender as votivas guardadas no armário, que distribuiu pelo aposento, projetado sombras bruxuleantes nas paredes. Agnes estava vermelha e suada. — Deixe eu dar uma olhada nesses pulsos — disse Lucy. — Cecília,pode aproximar mais essa vela? Lucy esfregou os olhos, lacrimejantes devido à poeira e ao mofo. E não parecia desfocada. Agnes estremeceu quando Lucy desatou o nó prendia as ataduras. Os cortes ainda estavam vermelhos, esfolados e purulentos, e os pontos que os uniam brilhavam à luz das velas. Naquele estágio, era impossível dizer se os ferimentos estavam melhorando ou piorando. O diagnóstico de Lucy foi amadorístico, mas preciso: — Isso não está com uma aparência boa. — Não ponha medo nela — sussurrou Cecília asperamente. — Não seria melhor você sair daqui? — sugeriu Lucy. — Voltar para o hospital? — Não! — gritou Agnes, com todas as forças. — Ela não vai a lugar nenhum com esse tempo. E a gente nem sabe se ainda restou algum hospital — disse Cecília, assumindo o controle. — Por enquanto vamos tentar manter os ferimentos limpos e secos. Agnes começou a caminhar pelo quarto, ligeiramente curvada, com os braços pendurados e expostos ao ar abafado, como se estivesse atravessando uma corda bamba na aula de ginástica. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Não fique do lado dela. Isso é sério. Os pulsos dela estão infeccionados — disse Lucy, segurando o braço de Cecília. — Tem gente que morre por causa dessa porra. — E tem gente que morre em tornados! — gritou Cecília. — Vou conversar com ela. Só um minuto, está bem? Lucy assentiu. — Vocês estão sentindo um cheiro adocicado? — perguntou Agnes. — Acho que de rosas. Agora era Cecília quem estava ficando preocupada. Seu olfato não estava muito apurado, mas o único cheiro que estava começando a se fazer presente era o fedor putrefato dos braços de Agnes. — Ainda deve haver algumas flores no pátio — disse Cecília dubiamente, pois o frio fora intenso nos últimos dias. — Não quero sair daqui — suplicou Agnes. — Por causa dele? — perguntou Cecília, abrindo a torneira e limpando delicadamente os ferimentos de Agnes. — Que nem você. Posso ver isso no seu rosto. No de Lucy também. — Nós todas vamos ter que sair em algum momento — disse Ceci. — A tempestade não pode durar para sempre. Nada dura. — Talvez não, mas temos que pensar nisso agora — replicou Lucy. — Essa porta não vai aguentar muito tempo. Cecília enrolou as ataduras no braço de Agnes rapidamente e tentou pensar. A pesada porta de madeira com placas de bronze, pela qual haviam entrado, estava começando a tremer em suas dobradiças enferrujadas. Era um belo trabalho de marcenaria, uma verdadeira obra de arte — ou fora em outros tempos, até começar a se desmantelar por falta de manutenção. Sem nada que pudesse reforçá-la por dentro, logo se tornaria inútil contra os ventos inclementes. Elas se sentiam encurraladas. — Temos que sair daqui — disse Cecília, com uma nova ansiedade na I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


voz. — Para onde? — perguntou Lucy. — Para lá — contrapôs Agnes, apontando para a pequena porta dos fundos. — Dá para o lado de fora? — Não, Sebastian disse que dá para uma capela subterrânea. — Uma capela embaixo da igreja? — perguntou Cecília, conjetu- rando se Agnes poderia estar delirando. — Você já viu? — Não — respondeu Agnes, exibindo os pulsos para Ceci. — Eu tentei abrir a porta, mas não consegui. Sebastian me disse para tentar de novo quando estivesse pronta. — Não há como a tempestade nos alcançar lá embaixo — observou ucy, olhando para a porta. — Ele disse mais uma coisa — acrescentou Agnes. — O quê? — perguntou Lucy com ar cético. — Que as respostas estão lá embaixo. — Respostas? — perguntou Ceci. — Para as nossas perguntas. Por que nós estamos aqui — explicou Agnes. Lucy estava começando a ficar apreensiva. Sentia que Agnes começara a divagar, que a elevada contagem de glóbulos brancos em seu sangue a afetara, distorcendo sua realidade. Tinha medo de descer para o subterrâneo, mas a outra alternativa era muito mais assustadora. Cecília pegou algumas velas longas e as acendeu. — Depressa! Essa porta já não é segura — disse ela, entregando uma vela para Agnes e outra para Lucy. — É agora ou nunca. Estamos prontas? — Pronta — disse Agnes. — Lucy? — Pronta — respondeu. Todas seguraram juntas a grande maçaneta oval. — Puxem! — gritou Lucy. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Nós vamos conseguir! — gemeu Ceci. Com todas as forças, elas tentaram mover a maçaneta. As três. Recusando-se a desistir. Até que a maçaneta cedeu. — Estamos salvas — arquejou Agnes. — Veremos — disse Ceci. Elas se esgueiraram pela porta exatamente no momento em que a porta da sacristia se soltava das dobradiças, atingindo o chão com um terrível estrondo. Elas se viram em completa escuridão, uma escuridão maior que antes. Lucy acendeu uma pequena vela que estava levando e a entregou a Cecília, que usou seu braço comprido para estendê-la bem à frente. — Ou isso é uma escadaria ou é o maior closet que já vi — disse Lucy. Lentamente, elas começaram a descer as escadas. Os degraus de pedra estavam escorregadios devido à condensação, como os degraus do porão de uma velha casa. O cheiro de mofo se intensificava a cada degrau que elas desciam. Com apenas uma pequena chama para iluminar o caminho, a escadaria parecia não ter fim. Elas tinham a impressão de estar entrando em uma catacumba, nas próprias entranhas da cidade, até mesmo da Terra. A passagem foi se estreitando e a altura diminuindo, porém quanto mais elas desciam mais seguras se sentiam. Mais seguras, na verdade, do que quando haviam chegado. — Tudo bem? — perguntou Cecília, pausando por um momento. — Sim — disse Lucy. — Eu trabalho melhor no escuro. — Muitas noites nas boates — troçou Cecília, ajudando a aliviar a tensão. — Como você — devolveu Lucy. No final da escadaria, outra porta de madeira, mais estreita e mais baixa I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


que a de cima se revelou gradualmente à luz da vela. Cabeças de anjos esculpidas em pedra em estilo medieval — expressão de alerta, mãos minúsculas apoiando queixos querubínicos — estavam postadas de cada lado da porta, como que guardando a entrada. Uma cruz feita em osso fora pendurada acima. — Não sei o que é isso — disse Lucy, olhando para o crucifixo. — Não seria um aviso como nos faroestes? Um escalpo pregado na porta do forte? — aventou Cecília, afetando uma voz sinistra. — Não passe deste ponto. Agnes aproximou sua vela da porta e deslizou os dedos pela ranhura que atravessava a cruz. Uma inscrição esculpida na porta dizia: "Omnes Sancti". Outras palavras, pintadas com tinta dourada, já gasta, acompanhavam a curva da arcada de um lado a outro. Mal podiam ser vistas, muito menos entendidas. — Você é a menina católica — disse Lucy a Agnes. — Vá em frente. Seja o orgulho da mamãe. Hesitante, Agnes leu foneticamente as palavras desconhecidas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Probasti cor meum Vísitasti nocte Igrie me examinasti E non est inventa im me inqaitas13

— O que você acha que isso significa? — perguntou Cecília. Meu latim é macarrônico. — Não faço ideia — respondeu Agnes em tom de desculpa. 13

Vós pusestes à prova meu coração / e o visitastes à noite / vós me testastes pelo fogo / e não encontrastes

iniquidades em mim.


— Tanto dinheiro jogado fora — disse Cecília, dando um aperto ombro de Agnes. — Aposto que é alguma coisa do tipo: "Para entrar, é preciso s mais alto que esses algarismos romanos" — brincou Lucy nervosament passando os dedos pelas relevos carcomidos das letras, como se fosse cegi — Não — objetou Agnes, rememorando o pouco latim que apre dera na escola. — É alguma coisa como um julgamento, eu acho. — Por que haveria um tribunal embaixo de uma igreja? — pergui tou Lucy. — Ou uma prisão — acrescentou Cecília. Todas sentiram um arrepio de dúvida e medo percorrer suas espij nhãs, como o eletrochoque punitivo de uma caixa de Skinner, m nenhuma delas falou nada. — Vamos — disse Cecília, inspirando fundo. — Não vamos no: amedrontar. — Talvez fosse melhor a gente esperar Sebastian — sugeriu Agnes.5 — Quem sabe o que tem aí dentro? Lucy a ignorou e deu um passo à frente, assumindo a liderança. — Ver para crer — disse ela, segurando a maçaneta de ferro ornamentado. Quando o aposento se tornou visível, ela ficou de queixo caído. — Não precisamos esperar Sebastian. Acho que ele sabe onde fica este lugar. Cecília passou pela porta, seguida por Agnes. A reação de todas foi o silêncio, provocado por excesso de estímulos sensoriais. Ao contrário da escadaria e da igreja acima, o aposento circular estava lindamente iluminado, com inúmeras velas votivas encerradas em vidros cor-de-rosa. Poças de cera semiderretida se avolumavam gota a gota no piso abaixo. A luz intensa era quase ofuscante, iluminando cada recanto da capela. Era um ambiente vibrante, repleto de sinais de vida e, ao mesmo tempo, lembretes da morte. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Mais impressionante era um enorme candelabro que pendia sobre o centro da capela, feito inteiramente — e com maestria — de ossos humanos. Oscilava suavemente à brisa que se infiltrava pela porta aberta. Os soquetes das velas mal conseguiam conter a parafina derretida, que borbulhava de forma ameaçadora, ameaçando se derramar a qualquer momento. Fragmentos de ossos de diversos formatos e tamanhos estavam espalhados pelo chão, como conchas quebradas em uma praia pedregosa. Dois grandes ostensórios ladeavam um pequeno aitar, cujas pernas também eram feitas de ossos, juntamente com dois leitoris, cada um sustentando um livro aberto. A frente do altar era cercada por três genuflexórios em madeira e veludo. Atrás, do teto ao chão, via-se um afresco representando o Sagrado Coração, envolvido por uma coroa de espinhos e com sangue escorrendo. Diante deste, havia quatro esculturas em pedestais de mármore, cobertas com panos brancos amarrados com barbante. — Não é um tribunal nem uma prisão — observou Cecília em voz baixa. — Um túmulo — aventou Agnes. Elas entraram lentamente na sala, olhando ao redor a cada passo, tentando assimilar a compacta magnificência do ambiente. Era tudo muito belo, mas sinistro, provocando uma reação muito mais intensa que o prédio acima. Pesados vitrais ornamentavam todo o perímetro, com cenas horrendas de tortura e morte, que pareciam quase reais sob as chamas bruxuleantes. Decapitações, surras, incinerações e coisas piores eram lindamente representadas em seus mais horrendos detalhes. À luz fraca das velas, os vitrais ganhavam uma aparência de 3D. Suas imagens flutuavam na penumbra como que sob o comando de um projecionista de filme B. O aposento era em parte uma capela, em parte um quarto de horrores. — Acho que estamos com problemas — disse Cecília a Lucy, estudando os painéis. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Cecília achava estranho o perímetro ter vitrais, quando era literalmente impossível, àquela profundidade, que a luz natural se filtrasse através deles. Lucy caminhou até uma das estátuas dos pedestais e tentou, sem sucesso, afrouxar o nó do barbante. Em frente às esculturas, em um pedestal próprio, Cecília viu um relicário de vidro com caixilhos dourados, idêntico ao que vira em seu pesadelo, com o vidro embaçado e a parte da frente quebrada. Limpou então a poeira e a fuligem, procurando os anéis do sonho. Depois, confusa, ficou esfregando a sujeira na ponta dos dedos por alguns momentos. — Que lugar é esse? — conjeturou. — Uma cripta? — sugeriu Agnes, intimidada. — Na verdade parece um lugar que eu visitei com meu pai na República Tcheca — disse Lucy. — Uma espécie de ossuário. Um armário de ossos. Era uma capela totalmente construída com partes de esqueletos. Ficava embaixo do cemitério da Igreja de Todos os Santos. — Você foi a um lugar desses nas férias? — admirou-se Cecília. — O lugar era grotesco, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente: bonito. Quem nem aqui — explicou Lucy. — Ossos de pessoas que morreram durante a Peste Negra foram desenterrados e transformados em móveis e paramentos religiosos intrincadamente esculpidos. O trabalho foi feito por um monge meio cego. — Está ficando cada vez melhor — murmurou Ceci. — Era uma visão incrível, como aqui. Uma obra de arte. Uma verdadeira obra-prima. Horas depois nós ainda estávamos conversando sobre aquilo. Dias depois. As divagações sobre a viagem que fizera com seu pai a ajudavam a afastar o medo que estava se apossando dela, enquanto ela olhava para os vitrais que contornavam o perímetro do aposento. Agnes examinou os atris que havia em cada lado do altar. Os livros { que sustentavam estavam ambos abertos; um deles era claramente uma Bíblia, com cinco fitas marcando algumas páginas. Ela abriu a página I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


assinalada pela primeira fita. Dizia: "Psalmus". Frustrada por sua dificuldade para ler o texto, ela se dirigiu ao outro leitoril. Três marcadores pendiam; deste livro. Era um volume encadernado em couro dentro de uma caixa de madeira. Estava elaboradamente ilustrado. Uma chave minúscula repousava sobre as folhas abertas. Para um cadeado, presumiu ela. Ela nunca vira nada semelhante. Então folheou as páginas com o maior cuidado. Este livro precisa ser trancado para ser protegido ou para que as pessoas fiquem protegidas dele!, perguntou a si mesma. — Isso aí é um guia para este lugar? — perguntou Cecília sarcasticamente. — Mais ou menos— disse Agnes, virando as páginas vagarosamente. — São histórias. Biografias, eu acho. Como as inscrições na porta, o texto estava em latim, e muito antigo, tanto quanto ela podia dizer. Ela pegou o livro e olhou a capa. Dizia: "Legenda Áurea". Enquanto isso, Lucy tentava dar um sentido a uma coisa que acabara de descobrir: uma caixa de madeira com o tamanho e o formato de uma pessoa, e duas aberturas na altura dos olhos. Tinha uma tampa com dobradiças, com outra inscrição em latim que ela não conseguia compreender: I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Mortificate ergo membra vestra quae sunta super terram.14

Ela abriu a tampa e ficou chocada ao descobrir fileiras de agulhas e espigões fixados no interior. Amedrontada, afastou-se da caixa, com medo de tocar na caixa ou mesmo fechá-la. Para ela, era algo muito mais assustador que sagrado. Mas não tanto quanto o que ela encontrou ao lado. Um espelho veneziano. Antigo e coberto de fuligem. Lucy lambeu a 14

Condenai à morte o que é mundano dentro de vós. (N.T.)


palma da mão e limpou uma pequena área do vidro. Foi o bastante para ver o reflexo de seus olhos, que estavam vermelhos, inchados e borrados de rímél, Era a primeira olhada que dava em si mesma desde que chegara. Tentou limpar o restante do vidro, mas quanto mais olhava, menos gostava do que via. Cabelos desgrenhados. Partículas de sangue seco ainda visíveis em sua testa e nariz. — Eu pareço tão... feia — murmurou consigo mesma, com uma autocrítica pouco habitual. Cecília se deparou com coisas igualmente estranhas, embora menos ameaçadoras, espalhadas pelo chão: uma caixa de ferramentas enferrujada, atiçadores de lareira, pedaços de madeira e de corda. Nenhum desses itens parecia servir a construções modernas nem ter vindo da igreja acima. Eram muito velhos. Um forno a carvão, mal ventilado, estava com o metal avermelhado e soltando fumaça; era a fonte da fuligem que impregnava o ambiente. Sobre ele havia uma urna, também cheia de carvão em brasa. Tudo quente, enfumaçado e desconfortável. Lembrava uma sauna. Depois que a fumaça cinzenta se dissipou aos poucos pela porta parcialmente aberta, o restante do aposento ficou visível. Todo o aposento lhes parecia um depósito abandonado há muito tempo. Agnes desceu do altar e olhou para o chão. — Estão vendo isso? — perguntou às outras garotas. No piso ladrilhado estavam os símbolos de seus rosários — Parece que éramos esperadas — disse Cecília. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Jesse Arens? — perguntou Frey com voz entrecortada, devido à horrível recepção. — Possivelmente. Quem fala? — Eu tenho uma história exclusiva para você — anunciou Frey anonimamente. — Você gosta de exclusivas, não gosta?


— Quem está falando? Como você conseguiu este número? — Houve um assassinato. A vítima foi encontrada no poço de um elevador no Hospital do Perpétuo Socorro. Um paciente que fugiu do setor psiquiátrico do hospital é suspeito do crime. — Então chame a polícia. Ou os jornais. Homicídio não é exatamente meu departamento. Por que você me telefonou? Jesse estava prestes a desligar o telefone. — Você tem visto sua amiga Lucy ultimamente? Jesse sentiu seu corpo ficar entorpecido e uma sensação de náusea subiu de seu estômago. — Não — disse ele laconicamente; depois fez uma pausa. — Por quê? — Uma aluna do ensino médio, moradora da Park Slope, foi dada como desaparecida. Uma cantora de Williamsburg também. Eu acho que sua amiga pode estar envolvida nisso de alguma forma. Todas foram atendidas no setor de emergência do hospital no sábado passado, na noite em que o assassino fugiu. — Isso é alguma brincadeira? — Jesse deu uma risada tensa. — Está me parecendo uma coisa meio forçada, se você quer saber. — Eu não faço brincadeiras. Esse cara parece estar falando sério, pensou Jesse. Ninguém mais, além do leão de chácara, tinha conhecimento de que Lucy estava desaparecida. Ele começou a ficar preocupado. — Vou lhe perguntar outra, por que você está contando isso para mim? — Por que você ama Lucy, não ama? Você faria qualquer coisa para me ajudar a encontrar essa garota. — Você não sabe o que está falando. Se soubesse, saberia que ela me odeia. — Você acha que não? Eu vi seu site. Vi como a elogia. Como você tira fotos dela. Somente certos ângulos, as pernas dela, o busto, as mãos, os lábios. A linha ficou muda. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Roendo as unhas, Jesse aguardou uma nova chamada, mas não veio nenhuma. O nome no identificador de chamadas dizia simplesmente: Hospital do Perpétuo Socorro. Era um lugar grande. Poderia ter sido qualquer pessoa, pensou ele. Quem quer que fosse, no entanto, conseguira penetrar em sua mente. Por fim, ele teclou no botão de rediscagem e ouviu uma gravação. — Você ligou para o Setor de Psiquiatria do Hospital Perpétuo Socorro, gabinete do dr. Frey, médico-chefe. Para atualização de receitas, tecle um. Se quiser agendar uma consulta com... A voz feminina robótica foi substituída por outra, de homem, mais familiar. — Dr. Alan Frey. Por favor, tecle dois. Jesse teclou dois.

I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


16 A HORA SAGRADA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Agnes olhou para cima, e as outras fizeram o mesmo. Uma única palavra fora pintada várias vezes nos espaços vazios entre as frases latinas inscritas no teto: CIPHER. As letras eram retorcidas. — Meu Deus — murmurou Cecília, assombrada. — Sebastian — sussurrou Agnes, externando o que todas pensavam. — É como uma compulsão para escrever -— comentou Lucy. — Coisa de alguém com TOC, realmente.


— Parecem mais grafites, eu diria — acrescentou Cecília. — Uma espécie de aviso. O calor e a névoa eram quase opressivos. Pior do que qualquer coisa que já tivessem experimentado na cidade, mesmo nos dias mais quentes e úmidos. — Eu... estou me sentido... tonta — disse Agnes, e caiu nos braços de Cecília. — Agnes! — gritou Cecília, caindo de joelhos abraçada a Agnes, como uma versão ao vivo da Pietà15. Lucy correu até elas e verificou a respiração e a pulsação de Agnes, apalpando também sua testa, para verificar se ela estava com febre. — Ela está queimando — disse Lucy, em tom acusador. — Ela deveria ter ido embora. Nós deveríamos tê-la obrigado a ir embora. — Acorde. Por favor — implorou Cecília, afagando delicadamente os cabelos de Agnes e a segurando com o outro braço. Agnes obedeceu. Delirando. Seu corpo se contraiu e sua cabeça se inclinou para trás. — Acho que ela está tendo um ataque! — berrou Lucy. — Ne discesseris ame — gemia Agnes sem parar, despejando latim como que em um transe. — Quonian tribulatio est quonian non est qui adiuvet. Cecília se inclinou para trás, e Lucy arregalou os olhos. Estava assustada. Em uma súbita constatação, olhou para todos os lados e levou as mãos trêmulas aos lábios. — Agora estou apavorada — disse ela. — Você está pensando o mesmo que eu? — Não seja ridícula — ralhou Cecília. — Ela está passando mal. É só um acaso. — Cecília — gaguejou Lucy, apontando para uma área na parede acima delas. — Ela não está delirando. Ela... ela está lendo. — Mas ela está de olhos fechados — observou Cecília. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

15

Escultura de Michelangelo que representa Jesus morto nos braços da Virgem Maria. (N.E.)


— Ela parece possuída ou coisa parecida. Fora de si. — Possuída? Em uma igreja? Eu... Lucy se virou para a porta, alarmada pelo som de velhas dobradiças rangendo e estalando. E de latidos. — Você está ouvindo isso? Cachorros atrás da porta, Cecília! Ela correu até a porta e a fechou. Depois se encostou nela por alguns momentos, de olhos fechados, precisando sentir alguma coisa sólida, firme, enquanto aguardava os rosnados cessarem. Aliviada, abriu os olhos. Mas agora estava difícil enxergar. O movimento da porta se fechando apagara quase todas as velas, deixando apenas três acesas, praticamente transformando a capela em uma caverna. A escuridão caiu sobre elas como uma mortalha. — Acho que estaríamos melhor lá em cima, Cecília. Cecília? Está me ouvindo? — Estou ouvindo música. — O quê? Cecília parecia em transe. A cor se esvaiu de seu rosto e sua pele adquiriu a tonalidade ambarina das chamas das velas. Seu corpo oscilava, enquanto ela tentava sentir a pulsação de Agnes. — Estou entendendo — disse Cecília, pasmada. — Estou entendendo ela. — "Não fiqueis longe de mim. Pois tribulações se aproximam. E não há ninguém para me ajudar". Agnes e Cecília repetiram a frase juntas, ao mesmo tempo, como se estivessem rezando. Agnes, em latim; Cecília, em inglês. Suas vozes reverberaram no aposento circular. — Parem com isso! — gritou Lucy, abalada, pondo as mãos sobre o rosto e caindo de joelhos, enquanto o cântico entoado pelas companheiras enchia seus ouvidos. — Cecília, tem alguma coisa errada aqui! Que diabos está acontecendo? Lucy olhou para imagem do Sagrado Coração diante dela. Sentiu a pele I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


se avermelhar e o coração começar a palpitar como se tivesse acabado de correr uma maratona. Enquanto tentava desesperadamente acalmar a si mesma, pequenas gotas de suor começaram a se acumular em seu rosto e em seu couro cabeludo, caindo sobre sua testa, bochechas e queixo. Trilhas negras de sangue pareciam fluir de seu coração, embora ela não soubesse ao certo o que inundava seus olhos — se eram apenas lágrimas, ou goteiras que caíam das rachaduras do teto. A imagem na parede dos fundos começou a tremular na bruma. — Vocês estão vendo isso? — perguntou ela, tentando focalizar a visão através da fumaça. — Está batendo. Lucy estava paralisada. Cecília deitou Agnes gentilmente no chão e se pôs de pé. — Também estou vendo — disse ela, olhando para a imagem até ficar tonta. Começou então a oscilar como um pulôver pendurado na janela. Tão pálida quanto os ossos no candelabro acima, ela cambaleou para trás, escorregando e caindo dentro da dama de ferro16, com força suficiente para que a tampa se fechasse sobre ela. Espetada pela frente e por trás pelos pequenos pregos afixados no interior da caixa, numerosos demais para serem contados, ela foi forçada a permanecer ereta e imóvel. Um centímetro para qualquer lado significava uma dor inimaginável. Se aquela coisa fora concebida para arrancar arrependimento ou perdão, não seria preciso muito tempo. Cecília tinha certeza disto. Estava imobilizada e amedrontada. Aprisionada. Entorpecida pela dor. Tentando permanecer consciente no calor sufocante. Tendo apenas um pensamento. Nós vamos morrer. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

16

Iron maiden, em inglês. Instrumento de tortura que alguns afirmam ter sido inventado na Idade Média;

outros, em épocas mais recentes, até mesmo no século XIX. E a caixa com pregos pontiagudos no formato de uma pessoa, descrita antes. (N.T.)


Ela permaneceu na caixa, entorpecida e confusa, em choque, olhando através das frestas para os olhos, as pupilas dilatadas e fixas na cena horripilante que se desenrolava à sua frente sem que ela pudesse fazer alguma coisa: a capela inundada de sangue, suor, lágrimas, pus e vômito. Ferida, machucada, envergonhada e cortada, com suas entranhas se derramando lentamente, seguramente, como o óleo sujo de um motor de carro. — Me ajudem — gritou ela, em vão. Lucy foi despertada do transe pelos gritos de Cecília. Olhou então para a caixa de madeira e viu que partiam de lá. Reunindo seus últimos vestígios de força e sanidade, Cecília deu um empurrão na porta e conseguiu abri-la, soltando um grito terrível quando os pregos lhe perfuraram as mãos, das palmas até as costas. — Minhas mãos — gemeu ela, arrancando-as dos pregos e caindo de joelhos. Suas mãos tremiam, enquanto sangue e suor formavam uma poça no centro de cada palma. Agnes se aproximou de Cecília, segurou-lhe os pulsos e esfregou os ferimentos sobre seu rosto e cabelos. O sangue se grudou nos cabelos, formando uma horrenda máscara vermelha sobre seu rosto. Ela reiniciou suas súplicas com fervor ainda maior. Depois arranc as ataduras sujas que envolviam seus pulsos, buscando algum alívio pa a sensação de claustrofobia que lhe provocavam. Como um prisionef que tenta arrancar as algemas. As bandagens caíram no chão, enchend o aposento com um desagradável fedor de decomposição, enquanto el recitava. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

"Cor meum tamqiiam cera liquescens in medio veneris mei. Ipsi vero consideraverunt et inspexerunt me. Concilium malignantium obsedit me.


Sicut aqua effusus sum et dispersa sunt universa ossa mea factum17."

Lucy começou a ter ânsias de vômito, devido ao fedor. Sem conseguir se conter por mais tempo, ela vomitou um líquido aquoso e cheio de bile, provocado em parte pelo fedor de carne putrefata, em parte pela dor que sentia na cabeça. Arrastou-se então até o pequeno corredor diante do altar, em busca de um lugar mais limpo, vomitando em seco durante todo o caminho. Por fim, desabou no chão. Agnes continuou seu cântico — uma narrativa surrealista para os tormentos que as assolavam.

"Mei animam meam circumdederunt super me18." I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Lucy — gemeu Cecília. — Saia daqui. Encontre Sebastian. Lucy ouviu Cecília. Mas em vez de fazer o que ela dizia aproximou-se do espelho que tanto a incomodara antes e fitou seus olhos, que pareciam incandescentes, o que a deixou com uma sensação de tontura. Perdendo o equilibro, caiu e bateu com a cabeça no espelho. Cacos aguçados de vidro penetraram em sua cabeça, um por um. Ela não se moveu. Permaneceu no lugar e aguentou a dor. Mais um caco. Mais outro. Os cacos se incrustaram em seu couro cabeludo até formarem uma auréola em torno de sua cabeça. Ela olhou para si mesma no que restava do espelho. Sangue escorria de seus ferimentos. O reflexo em cada fragmento era o de seus próprios olhos, olhando de volta para ela. 17

"Meu coração se tornou como cera derretida em minhas entranhas. / Eles me olharam e me encararam. / O

conselho dos malignos me sitiou. / Eu me derramei como água e meus ossos estão espalhados." 18

"Meus inimigos cercaram minha alma."


— Não julgai para não serdes julgados — murmurou Agnes. Lucy tapou as orelhas. Agnes se arrastou em direção ao estrado de velas votivas, tentando enxergar à luz fraca, e estendeu a mão para uma das velas acesas, como uma criança curiosa estende a mão para um forno quente. Gotas do sangue de Cecília, ainda líquidas, caíram sobre a chama e crepitaram. Por fim, Agnes se aproximou tanto da vela que queimou as pontas de seus longos cabelos. E o cheiro desagradável de cabelo abrasado se misturou à fedentina ambiente. Através da bruma, ela apareceu para Lucy — agora caída sobre um leito de cacos de vidro —; um fantasma patético, condenado a repetir um ritual infindável, que poderia algum dia lhe trazer o perdão. Agnes murmurou:

"Dinumeraverunt omnia ossa mea19." I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Reunindo forças suficientes para calçar seus sapatos, de modo a proteger os pés de novos ferimentos, Lucy manquitolou até Agnes. Antes que pudesse puxá-la para longe das chamas, Agnes se virou, olhou para ela e levantou a palma da mão. Um gesto para que ela permanecesse onde estava. — Você está fora de si — insistiu Lucy, esperando incutir algum juízo nela. — Essa não é você. — É — disse Agnes. — É todas nós. Agnes olhava direto para a frente, como se Lucy não estivesse ali. Um olhar que abrangia milênios. A capela se transformara em um cenário de dor e sofrimento. Lucy não sabia para onde se virar e a quem deveria socorrer, quando nem era capaz de socorrer a si mesma. Agora entendia como a insanidade poderia abalar até um cérebro perfeito e atilado — como ela sempre considerara o seu. A 19

"Eles numeraram todos os meus ossos".


proximidade da loucura era avassaladora e mantê-la distante, uma tarefa impossível. A insanidade acenava para ela. Para recuperar o controle, começou a dizer a si mesma: respire fundo. Mas não conseguiu fazê-lo, nem mesmo uma vez. — Ver para crer — troçou Agnes, e começou a rir. Seu rosto e seus braços ensanguentados estavam quase invisíveis na penumbra, dando a impressão de um tronco sem cabeça e braços, flutuando no espaço. — Minha aparência está boa? — Aqui deveria ser um lugar sagrado! — gritou Lucy. Mas sua argumentação foi abafada por uma explosão de dor, a pior de todas. Cera derretida do candelabro começou a cair sobre seus olhos, rosto e cabelos. Ela sentiu-se coberta como um molde. Como se suas pálpebras tivessem sido coladas e seus olhos se transformado em bolas de vidro. Cega. Sufocada. Sem perdão. — Eu... não consigo... enxergar. Seu reflexo foi arrancar a crosta de cera, mas ela não o fez. Em vez disto, passou os dedos trêmulos pelos ressaltos da segunda pele que a recobria. Tinha a sensação de estar derretendo, mas ao contrário. Ou de estar presa como o pavio de uma das velas, esperando um fósforo que a acendesse e as chamas que a consumiriam. Lucy caiu de joelhos. Os cânticos de Agnes se tomaram mais descontrolados, mais angustiantes. Súplicas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

“Petite et dabitur vobis quaerite et invenietis pulsate et aperietur vobis.


Omnis enim qui petit accipit et qui quaerit irwenit et pulsanti aperietur.20”

— Sebastian! — gritou Cecília desesperadamente, com o pouco de energia que ainda lhe restava. — Alguém, por favor, nos ajude! De repente, ouviu-se um gemido agudo, vindo do outro lado da capela. — Meu Deus — gritou Agnes, como se estivesse acordando, desesperada, de um horrível pesadelo. — Nos ajudem! E por fim recitou:

"Adtendite a falsis prophetis qui veráunt ad vos in vestimentis ovium intrínsecus autem sunt lupi rapaces21." I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Todas perderam a consciência, e o aposento ficou em silêncio. Ao despertarem, nenhuma sabia ao certo quanto tempo se passara. Tanto o tempo quanto o sofrimento delas pareciam ter parado naquele mesmo instante. As mãos de alguém segurando sua cabeça e mexendo em seus olhos acordaram Lucy. Eram as mãos de Sebastian. Ela não precisava enxergar para saber disto. Enquanto Sebastian, gentilmente, terminava de lhe remover a cera dos olhos, ela ouviu Agnes e Cecília tossindo e chamando uma pela outra. Pelo menos, pensou, elas estavam vivas. — Eu estou com você — disse Sebastian. — Você está comigo. — Sebastian — disse Lucy, com gratidão. — Estou enxergando.

20

"Perguntai, e vos será mostrado / procurai, e ireis encontrar / batei, e a porta vos será aberta. / Pois todo

aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e para quem bate, a porta será aberta." 21

"Cuidado com os falsos profetas que vêm até vós vestidos de ovelha / por dentro são lobos ferozes."


17 ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ MORREU I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Sobe? — perguntou o alegre ascensorista. Jesse acenou que sim e entrou na cabine nervosamente. Aquele elevador lhe parecia antigo. Revestimento em estilo art déco no piso, nas paredes e no teto. Balaustrada de latão polido. Lembrava os elevadores do luxuoso prédio de antes da guerra, na Park Avenue, onde moravam seus avós, que cheiravam vagamente a tapetes embolorados e pessoas idosas. Jesse pingava água. Seus cabelos, normalmente muito bem penteados, estavam colados ao crânio. Poças se formavam a seus pés, A momentânea trégua na tempestade, que o induzira a ir até o hospital para se encontrar


com o dr. Frey, não fora mais que um engodo meteorológico. Mas mesmo o súbito aguaceiro que o assaltara quando ele se aproximava do hospital não conseguiu esfriar sua curiosidade. Ele tinha que saber mais sobre Lucy. O operador sorriu. — Trouxe a tempestade com o senhor, pelo que estou vendo. Qual o andar? Jesse sentiu-se irritado, e até desconfiado. Sabia que o cara fora treinado para deixar os pacientes descontraídos. O que nada tinha de errado, exceto que ele não era um paciente e não queria ser tratado como um deles. — Último. Ele não sabia o número exato. O ascensorista fechou a grade do elevador e empurrou a manivela, acionando o motor. A cabine deu um solavanco e começou a subir. O ascensorista se virou para Jesse, sorriu e retornou à sua posição habitual, olhando para a frente, observando o elevador se deslocar de um andar para outro. Jesse sentiu-se enjaulado. Sua claustrofobia e paranoia começaram a dar sinais de vida. O fato de estar se dirigindo ao setor psiquiátrico de um hospital não melhorava as coisas. Ele se agarrou à balaustrada e contou os andares que passavam, conjeturando se o cara do elevador, diante de seu comportamento neurótico, iria achar que ele era um paciente, em vez de visitante. Afinal de contas já era tarde, bem tarde, e, com o temporal que caía, era pouco provável que alguém, exceto com sérios problemas mentais, tivesse coragem de arrostar os elementos. Uma visita poderia ser adiada. Uma consulta, não. — Cobertura — anunciou o ascensorista, abrindo a grade do elevador. — Tenha um bom dia, senhor. Jesse suspirou e pulou para fora rapidamente, sem dizer uma palavra. Ele não era muito de bater papo, mesmo nas melhores circunstâncias, e não sentia necessidade de trocar abobrinhas com empregados. Com a porta do elevador se fechando atrás dele, entrou cautelosamente na sala de espera. Os pisos luzidios e as solas molhadas de seus sapatos não I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


formavam uma boa combinação. Seus pés deslizavam traiçoeiramente no linóleo escorregadio. Para se equilibrar, ele estendeu os braços para os lados, como asas, e riu nervosamente. Se o ascensorista o visse naquele momento, pensou, duvidaria de sua sanidade mental, achando que um maluco de verdade acabara de chegar. Não havia nenhum balcão de recepção, apenas um cubículo de enfermeiros, onde não havia ninguém. Ele olhou ao redor em busca de ajuda e vislumbrou alguns internos à distância, perambulando pelos corredores. Exatamente como ele imaginara. E temia. Muito calor. Paredes descoloridas. Pisos e tampos fáceis de limpar. Nenhuma aresta pontiaguda que se pudesse ver. Muitos desinfetantes. Canetas presas aos balcões. E o cheiro. Desagradável e emborrachado, como mijo vulcanizado. O pior de tudo eram os pacientes de olhos mortiços, costurando rasgões imaginários, levantando pacotes imaginários, contemplando mundos imaginários pelas janelas e mantendo conversas imaginárias. Na maior parte das vezes com eles mesmos; ocasionalmente, um com o outro. — Sr. Arens? — O quê? — exclamou ele, assustado. Sua rudeza nervosa foi recebida com indiferença pela enfermeira. — O dr. Frey pode receber o senhor agora. Jesse acompanhou a enfermeira pelo corredor do setor de psiquiatria. Ao longo do caminho passou por diversas portas, cada uma com um pequeno postigo de vidro espesso ao nível dos olhos, reforçado com tela de arame. Olhando através de cada um, podia ver todos os horrores das doenças mentais. Embora raramente vistos, não eram surpreendentes. Homens e mulheres em camisas de força lutavam para se libertar. Alguns estavam sedados, inconscientes, encontrando paz e liberdade apenas em seus sonhos. Uma coisa que ele não esperava ver: uma criança. Um garotinho de cabeça baixa, sentado com as mãos cruzadas diante do peito e completamente imóvel, como se estivesse rezando. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Jesse parou. O garoto levantou a cabeça e olhou diretamente para ele. Seus olhos se encontraram. O garoto abanou levemente a cabeça de um lado para outro e retornou às suas orações. — Não vamos deixar o dr. Frey esperando — disse a enfermeira. Jesse retomou sua caminhada em direção ao gabinete de Frey, que agora estava à vista. Depois de passar por algumas salas de tratamento, com paredes pintadas de branco, ele se aproximou de uma porta, ao lado da sala do médico, que era diferente das outras: mais pesada, mais grossa e feita de metal — não de madeira. O aposento estava às escuras, exceto por uma única lâmpada de luz ambarina que pendia do teto. Abaixo dela, Jesse viu um homem grande, corpulento e calvo. Pareceu-lhe vagamente familiar, seu rosto estava envolto pela escuridão. Mas era possível perceber que tinha marcas de varíola e outras cicatrizes. Finalmente Jesse o reconheceu. — Sicarius — murmurou ele, quase em tom de reverência. Lá estava ele. O astro de muitos pesadelos de infância. Tão próximo de um bicho-papão quando o Brooklyn jamais tivera. Era uma prova irrefutável, diziam os pais de Jesse, que monstros de fato existiam. Um infame assassino de crianças que aterrorizara o bairro durante meses, cerca de uma década atrás, e se livrara da pena de morte com uma bem-sucedida alegação de insanidade. Sua presença ali deixou Jesse chocado e, ao mesmo tempo, intimidado. — Sr. Arens! — insistiu a enfermeira. O tom de voz dela era como o de um zelador de zoológico ordenando a um visitante que não desse comida aos animais. Jesse se afastou da porta e a seguiu até o gabinete de Frey, ainda um tanto desorientado com o que acabara de ver. Quando o médico entrou na sala, estava sentado em uma cadeira, impaciente, tentando arrumar suas roupas molhadas. — Sr. Arens, sou o dr. Frey — disse o médico, sentando-se a sua mesa e estendendo a mão para Jesse. — Obrigado por ter vindo. Sei que não deve I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


ter sido fácil chegar aqui. Jesse apertou a mão de Frey rapidamente, temendo que este lhe passasse alguma doença bizarra. — Sim — disse Jesse. — O noticiário estava informando que até os crimes alcançaram uma baixa recorde, com tantas pessoas fora das ruas. Mas parece que o senhor anda bem ocupado por aqui. — É ��� disse o médico, ignorando a insensibilidade do jovem. — Muito ocupado. As doenças mentais formam uma epidemia silenciosa, que não discrimina ninguém, nem se detém diante de tempestades. — Não se detém diante de crianças e assassinos também — observou Jesse, ainda perturbado com o que vira no corredor. — Você é observador, como uma pessoa em seu ramo de atividade tem que ser — cumprimentou Frey. — O garoto, Jude, está sujeito a surtos de violência. Vive entrando e saindo daqui. Nós o tratamos, principalmente, como paciente externo. — Ele não me pareceu violento — replicou Jesse. — Isso começa cedo — explicou Frey. — Na infância. Na adolescência. E sempre melhor cortar o mal pela raiz, quando possível. As aparências enganam, como diz o ditado. — A aparência de Sicarius não engana ninguém — objetou Jesse. — Ah, ele é inofensivo enquanto estiver sendo tratado, e sua liberdade de ação é bem limitada, como você viu — respondeu Frey. — Eu o mantenho bem perto de mim. Inofensivo. Este não foi o primeiro pensamento que acorreu à mente de Jesse, mas Frey era o médico, um médico respeitado, segundo ouvira, e deveria saber o que estava falando. Aliás, discutir os programas de tratamento do setor psiquiátrico do hospital não era o objetivo de sua visita. — Por que estou aqui, doutor? — Como mencionei, por causa de sua amiga, Lucy — respondeu Frey. — Espero que o senhor não tenha me pedido que viesse aqui para me I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


dizer que ela é uma lunática — avisou Jesse. — Em primeiro lugar, eu já sei. Em segundo, sou a única pessoa que pode dizer isso. — A lealdade é um traço admirável — comentou Frey. — Tenho certeza de que é mútua. Jesse ficou em silêncio. — Bem — prosseguiu o médico —, você disse que sua amiga está desaparecida. — Um leão de chácara da boate onde eu vi Lucy pela última vez achou o telefone dela na rua. Ela não está em casa e nenhum de nossos conhecidos sabe dela. Espero que seja só por causa da tempestade, mas... — Mas você está com um mau pressentimento — disse Frey, completando o pensamento dele. Você tem um bom instinto. Não é de admirar que seja tão bem-sucedido. Bajulação. Uma coisa à qual Jesse era bastante suscetível. — Sim — concordou ele. — Mas aqui não é o departamento de pessoas desaparecidas. Então, o que isso tem a ver com o senhor? — Acho que sei o que pode ter acontecido com ela. Calmamente, o médico pegou algumas pastas que estavam atrás dele e as pousou na mesa. Folheou então um pequeno maço de fotos e começou a explicar. Jesse era todo ouvidos. — Tivemos um paciente aqui. Um jovem chamado Sebastian. Um jovem muito doente. Jesse examinou a foto. Um cara mais ou menos da idade dele. Era muito bonito, com traços cinzelados, olhos encovados e olhar sonhador. Jesse ficou surpreso. Jamais o vira nos lugares que frequentava, mas, pelo que o médico dissera, Sebastian tinha outras prioridades. Era uma pena, pensou Jesse. Um cara com aquela aparência e presença poderia ir longe, ajudado pelas pessoas certas. Mas, mesmo pela foto, estava claro para Jesse que aquele sujeito estava com a cabeça em outras coisas. — Isto é um hospício, doutor. Todo mundo aqui não seria muito doente? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Não como ele. — Como assim? — Ele tem certas fantasias — explicou Frey. — Não vou chatear você com detalhes clínicos, mas ele é muito perigoso. — Para ele mesmo ou para os outros? — As duas coisas. — Esse paciente escapou daqui durante a noite, há poucos dias. Nós achamos que ele saiu pelo setor de emergência. E ele ainda está à solta. — O senhor se incomoda, doutor? Jesse pegou seu bloco de notas. O que ele normalmente usava para registrar as idas e vindas das celebridades em potencial, cujas histórias pudessem chegar tanto aos principais meios de comunicação quanto aos semanários de fofocas. Mas isto era diferente. — Fique à vontade — disse Frey, com ar de aprovação. — Ele fugiu na mesma noite em que sua amiga deu entrada no setor de emergência. — O senhor está dizendo que eia, de alguma forma, está envolvida na fuga dele? Acho pouco provável. Para começar, ela é egoísta demais para ajudar alguém. — Não. O que estou dizendo é que ele pode estar envolvido no desaparecimento dela. Ele não fugiu simplesmente. Ele matou um homem. Sequestro. Assassinato. Loucura. Tudo isso era matéria de primeira página, pensou Jesse, sentindo uma secura na boca e um leve aperto na garganta. Ele não tinha experiência nesse tipo de reportagem. Na verdade, em nenhum tipo de reportagem para valer. E estava começando a achar que aquilo era muita coisa para ele. — O senhor acha que ele pode estar com Lucy? Por quê? Frey entrou no site de Jesse e acionou a barra de rolagem até uma foto, tirada algumas noites antes. — Você se lembra dessa foto? — Claro que me lembro. Eu bati a foto. Estava no local quando tudo aconteceu. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— O que você está vendo? — Estou vendo duas garotas se engalfinhando em uma boate. — Olhe com mais atenção — pediu Frey. Jesse olhou para a imagem, tentando encontrar alguma exposição acidental de partes íntimas que por acaso não tivesse percebido quando postara a foto. — Eu realmente não estou reparando em nada, a não ser um bracelete. — Sim! Isso mesmo. Jesse estava um tanto confuso. Frey estava bem-vestido, mas não parecia dar muita importância à moda, a julgar pelo terno cáqui, bastante tradicional. Não era o tipo de pessoa que prestaria atenção a um bracelete. — E daí? É bonito — disse ele. — Minha caixa postal ficou inundada de e-mails de garotas querendo saber onde ela arranjou esse bracelete. Mais até do que o habitual. — Eu sei onde ela conseguiu a pulseira — disse o médico. Frey abriu a pasta no alto da pilha e a empurrou na direção de Jesse. Continha três fotos de braceletes semelhantes, com diferentes talismãs pendurados neles. Um deles era idêntico ao que Lucy estava usando na boate. — O que é isso, algum sinal do diabo? — perguntou Jesse, apontando para o talismã. — Não, é justamente o contrário. É um milagro. O tipo de símbolo que se encontra pendurado em rosários, preso dentro de roupas ou em braceletes como este. — O que há de tão especial neles? — Não sei bem, mas eram tão importantes para Sebastian que ele os roubou da velha capela que existe embaixo da Igreja do Preciosíssimo Sangue. Um ladrão de relíquias. Jesse não estava muito impressionado. A igreja estava sendo demolida há algum tempo. Talvez ele quisesse uma lembrança, ou alguma coisa para penhorar. Para Jesse, parecia mais uma brincadeira I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


que alguma conspiração misteriosa. — Não sei bem aonde o senhor está querendo chegar. Lucy não é religiosa, doutor. O único atrativo que o bracelete teria para ela seria como acessório. Pelo que eu sei, ela pode ter encontrado a coisa na rua. — Quando ele chegou aqui, nós tomamos os braceletes dele. Eram três. Quando ele fugiu, os braceletes desapareceram. — O senhor acha que ele deu o bracelete a Lucy intencionalmente? A ideia de presentear uma pessoa estranha com uma pulseira de contas de rosário era algo Jesse só vira nas esquinas das ruas e em festivais de música no norte do estado. Bem, mas o cara era maluco. — Coincidentemente, duas outras garotas deram entrada no setor de emergência naquela noite. Ambas estão desaparecidas. Jesse olhou para a foto da pulseira com mais atenção. — Três garotas? — perguntou ele, com ar sério. — Exatamente — respondeu o médico. — A segunda foi dada com desaparecida ontem pela mãe dela. O nome dela é Agnes Fremont. Tentativa de suicídio. Eu mesmo a avaliei. — E a terceira? — Uma artista que toca nas boates do Brooklyn e da Bowery... Cecília Trent. — Parece familiar — disse Jesse, esquadrinhando seu arquivo mental até enquadrar o nome. — Ela é sexy. Queridinha dos críticos. Usa roupas extravagantes. Tem um pequeno grupo de seguidoras, eu acho. Tipo superfãs. Eu quase escrevi alguma coisa sobre ela, uma vez. — As apresentações dela foram inexplicavelmente canceladas nas últimas noites. O que é estranho, pois ela nunca faltou a um show antes. Fizesse o tempo que fizesse, como eu fiquei sabendo. Ela mora em frente à espelunca onde deveria fazer os shows acústicos. A boate estava aberta para os frequentadores locais, com blecaute e tudo. — É, ela é do tipo que tocaria para um salão vazio, se deixassem — reconheceu Jesse. — Mas está havendo esse dilúvio aí fora. Quem I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


iria criticar a garota por não aparecer? Jesse estava começando a se sentir pouco à vontade, como se uma narrativa tivesse sido implantada em seu cérebro. Frey empurrou a pasta com a foto de Cecília para mais perto dele. — Parece uma garota que tem medo de um pouco de chuva? Jesse protestou contra o enorme eufemismo: — Um pouco de chuva? Frey apenas sorriu. O médico era convincente, Jesse tinha que admitir. Mas Frey era o homem que tirara Sicarius das ruas, não era? Jesse se levantou subitamente e se afastou da mesa, enquanto um calafrio lhe percorria a espinha. — Para que está me contando isso, doutor? Isso é assunto para a polícia. — A polícia está no caso, mas a tempestade está atrapalhando tudo, inclusive a investigação. Todos os recursos estão alocados aos serviços de emergência. Até que a tempestade, e a limpeza, comecem. — E o homem que morreu? — A morte está classificada como acidental, por enquanto, e desapareceu dos jornais para dar lugar à cobertura da tempestade — disse Frey. — Você está interessado? Jesse não conseguiu se controlar. Seu ego entrou em cena. — Sim. — Esse cara é perigoso e tem que ser encontrado o mais rápido possível. Antes que possa machucar essas garotas. — Sim. — É claro que, se você me envolver nisso, eu vou negar tudo. Portanto, estou confiando em você para manter sigilo. — Sou bom em guardar segredos, doutor. — Ótimo. Acho que você não gostaria de entrar em uma competição de credibilidade comigo. — Ameaças? Já? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Estou lhe dando um futuro, Jesse. Esse é o tipo de história que constrói carreiras. — Um belo de um trato com o diabo. — Nem tanto — disse o médico. — Só mais uma pergunta, doutor — perguntou Jesse. — O senhor disse que o cara é perigoso. Alucinado. De que forma? O médico fez silêncio por um tempo incomodamente longo. Levou um minuto para escolher as palavras. — Ele acha que tem uma missão. — Missão? Como algum veterano de guerra pirado, com transtorno de estresse pós-traumático? — Ele está preparando o caminho — disse Frey. — Que caminho? Para quem? — Quem você acha? — Não. Acredito — gaguejou Jesse, quando entendeu finalmente a explicação de Frey. — Ele acredita... — Acredita em quê? — Ele acredita que é um santo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


18 A VIÚVA VIRGEM I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Agnes estava pendurada nos braços de Sebastian. Era a última a ser carregada para cima. A escadaria era íngreme e ele estava com as pernas e os braços cansados. Ele a pousou gentilmente nos degraus forrados de veludo vermelho do altar, como já fizera com Cecília e Lucy. Agnes parecia irradiar luminosidade. Parecia estar dormindo sobre um leito de rosas. Ela voltou a si lentamente. Ele foi a primeira pessoa que ela viu, e conseguiu sorrir. As três garotas estavam deitadas perto do altar, em meio ao entulho trazido pelo tornado. Lembravam oferendas sacrificais, ou alienígenas de um planeta distante, vítimas de um desastre aéreo. Sebastian cuidava delas.


Levantando a cabeça de cada garota, aproximava de seus lábios um cálice com água. Depois secou os ferimentos delas e os limpou. As coisas estavam diferentes, de alguma forma. Em primeiro lugar, havia silêncio; os estrondos da tempestade haviam cessado. O ar estava menos úmido e bolorento. Mais claro. — Onde você estava? — gemeu Agnes, ainda atordoada. — Pensei que você tivesse morrido. — Nunca mais vou deixar vocês — disse ele. — Beba. — Você está bem? — articulou Lucy através de seus lábios ressequidos, dirigindo-se a Cecília. Cecília fez que sim com a cabeça. E examinou suas mãos. Estavam envoltas em panos brancos. Ela abriu e fechou os dedos. Ainda funcionavam. Elas viram Sebastian. Uma visão reconfortante para olhos inflamados. Depois notaram a presença de Agnes, que estava lutando para se pôr de pé. Tentava primeiro se ajoelhar, mas desabava no chão todas as vezes que endireitava o corpo, como uma criança aprendendo a andar. Sebastian a segurou por baixo dos braços e a levantou. — Obrigada — murmurou ela, fracamente. — Obrigada? Por quê? — interpôs Lucy. — Por que você não nos ajudou? — O que era aquilo? — perguntou Cecília, ainda sentindo-se fraca, após tudo o que ocorrera. — A capela subterrânea. Os ossos. Aquele lugar é endemoniado. A bruma em suas mentes estava se dissipando, assim como a tempestade, e a desconfiança, retornando. — Eu não podia contar para vocês antes — explicou Sebastian, — Acho que está na hora de nos contar — retrucou Lucy. — Esta igreja — começou ele — é especial. — Não seriam todas? — disse Cecília. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— A minha avó me falou sobre ela quando eu era criança — continuou Sebastian. — A Preciosíssimo Sangue não se destina apenas a ser um lugar sagrado. Ela marca um ponto sagrado. — Diga isso aos empreiteiros — troçou Lucy. — Homens morreram aqui. Operários que cavavam túneis para o metrô, um século atrás. — Então ela é mal-assombrada — disparou Lucy. O rosto de Sebastian assumiu uma expressão extremamente séria, pois a história que começou a contar era tão aterradora quanto uma história de fantasmas. — Não é mal-assombrada, Lucy — corrigiu Sebastian. — É consagrada. Eram homens especiais. Descendentes de uma linhagem de guardiões, que detinham o antigo legado de algumas mulheres santas. Garotas, mais ou menos da idade de vocês, que mudaram o mundo com seu exemplo e seu sacrifício. As garotas o escutavam com muita atenção. — Eles mesmos escavaram essa capela com pás e picaretas. Construíram o altar e os genuflexórios com a madeira que sobrou da construção dos túneis. E adornaram a capela com imagens que trouxeram do velho mundo. Era um lugar de adoração no verdadeiro sentido do termo. Construída por pessoas de fé, literalmente a partir do nada. — A gente podia sentir alguma coisa viva, elétrica, lá embaixo — disse Cecília. — Já senti isso no palco. Uma força ao redor. Até mesmo em uma sala vazia. — O que vocês sentiram na capela foi a presença deles — disse Sebastian. — Eu também senti. — Fantasmas? — perguntou Lucy. — Espíritos — corrigiu Agnes. — Almas. — Foi preciso um longo tempo para tirarem os homens lá de dentro. Mas a comunidade e as famílias deles mantiveram uma vigília. Rezavam dia e noite. Primeiro pela recuperação dos homens. Depois pelo resgate dos I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


corpos deles. Levou semanas. — Que jeito horrível de morrer — comoveu-se Agnes. — Quando finalmente foram encontrados, estavam caídos sobre os genuflexórios diante do altar, que tinham construído juntos. — Estavam rezando? — perguntou Lucy cinicamente. — Talvez tivesse sido melhor se estivessem cavando a terra, para sair de lá. — Eles estavam tentando sair — respondeu Sebastian. — Mas desistiram? — perguntou Cecília. — Não, eles se resignaram — disse Sebastian. — Durante os anos que se seguiram, as pessoas vinham visitar o local, entravam pelo túnel do metrô para ver a capela subterrânea e rezar por milagres. — Parece uma coisa perigosa — comentou Agnes. — Era perigoso. Depois de algum tempo, a comunidade levantou dinheiro e construiu esta igreja por cima. — E os ossos? — perguntou Cecília. — Não sei se quero saber — disse Agnes. — Os ossos são os ossos deles. E os ossos daqueles que acreditavam no que eles estavam fazendo. Alguns dizem que são ossos sagrados. — Isso é um culto? — perguntou Cecília. — Não do modo como imaginamos um culto — explicou Sebastian. — Um culto de santos. — Isso não poderia ser só uma história que sua avó lhe contou? — perguntou Lucy nervosamente. — Como essas histórias que as velhas contam. — O que sentimos lá embaixo foi real — atalhou Agnes. — Você sabe disso. Sebastian, de repente, ficou agitado. Sentia-se frustrado por não estar conseguindo se fazer entender. — Ela era uma benedetta — disse ele, na defensiva, enquanto caminhava de um lado para outro. — Uma curandeira de corpos e almas. Uma mulher de fé. Nunca mentiu para mim. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


A inquietação de Sebastian encerrou o assunto. — Mas parece muito estranho que tenham deixado a capela aberta depois de um acidente tão trágico — disse Agnes. Sebastian olhou para ela ironicamente. — Eu não disse que foi um acidente. — Eles foram assassinados? Por quê? — perguntou Cecília com ar incrédulo. — Para que parassem. — Parassem o quê? — De cumprir o propósito deles. A história de Sebastian, somada aos acontecimentos que haviam se desenrolado na capela, era incrível demais, principalmente para Lucy. — E o que isso tem a ver com você ou conosco? — As santas cujos legados os trabalhadores do metrô estavam incumbidos de perpetuar eram Lucy, Cecília e Agnes22. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

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Santa Lúcia — ou Luzia —, Santa Cecília e Santa Inês — ou Agnes. (N.T.)


19 ORAÇÃO

I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Jesse voltou às pressas para seu apartamento, imbuído de uma sensação de poder. O tipo de poder que emana do conhecimento de um segredo. Sua mente fervilhava com possibilidades, como a sopa rala que abrigara os primeiros organismos terrestres, pouco antes de posicionar a vida. em sua rota para o infinito. Para ele, era uma coisa grandiosa. Colocando sob o braço o envelope de papel pardo que o médico lhe entregara, ele girou a chave e abriu a porta, lançando um breve olhar por cima do ombro antes de fechá-la novamente. Já haviam lhe confiado segredos antes, coisas importantes do mundo dos bloggers. Quem estava


namorando, quem estava traindo, quem estava roubando, quem era bissexual, quem fizera aplicação de Botox, quem estava duro. Não sendo um jornalista de verdade, ele não se sentia compelido a verificar os fatos, a inquirir diversas fontes para permanecer neutro. BYTE era seu diário digital para adolescentes, uma fantasia vingativa alimentada por suas alterações de humor, sensibilidade extremada e perícia técnica, que o colocara no lucrativo caminho da seminotoriedade. Sua concepção era simples: quem consegue resistir ao impulso de espionar a mesquinharia e a venalidade de uma turma de garotos mimados, privilegiados e traiçoeiros da Cidade de Nova York? Sabiamente, ele não deixou que o público decidisse quem iria ser a estrela do espetáculo; ele escolheu alguém, Lucy, e se autonomeou autor, diretor, roteirista e produtor da vida dela. E ela desempenhava o papel com perfeição, pelo menos até pouco tempo. Mas achou que poderia roubar a droga do show. Jesse reexaminou suas anotações e as pastas das garotas. Havia um monte de lacunas, pensou ele, que geravam um monte de perguntas. Muita coisa ali não fazia sentido. Lucy não era marionete de ninguém, nem mesmo dele. Por que teria se deixado levar por um psicopata esquizofrênico? Ele inseriu no site uma foto do anuário escolar e começou a escrever a matéria. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

VOCÊ VIU ESSA GAROTA?, dizia a legenda embaixo da foto, em negrito. LULU Desaparecida! Lucy "Sortuda" Ambrose está desaparecida. A princesa das festas não é vista nem ouvida há três dias. BYTE soube que o Departamento de Polícia de Nova York foi notificado, Surgiram boatos de um sequestro ou coisa pior; pois um paciente do setor psiquiátrico do Hospital do Perpétuo Socorro fugiu na mesma noite em que Lucy deu entrada na instituição. Ele continua foragido. Além de Lucy, duas garotas do Brooklyn, que por coincidência também deram entrada no setor de emergência do hospital na semana passada, também estão desaparecidas. As operações de emergência desencadeadas pelo tornado estão dificultando o trabalho da polícia. A administração do Hospital do Perpétuo Socorro conseguiu manter a fuga do paciente e os possíveis sequestros em segredo. Até agora.


Jesse leu e releu diversas vezes o que acabara de escrever. Depois, pousou o dedo sobre a tecla de entrada, conjeturando por alguns momentos se deveria postar a história, dividi-la com o mundo. Por medo de ser processado, ele omitiu os nomes de Ceci e Agnes. Mas sabia muito bem que esses detalhes acabariam sendo descobertos. — Pronto — disse ele, pressionando a tecla. — Agora é esperar. Então relaxou e começou a ler os comentários. Um frenesi virtual. Seu laptop não parava de piscar com novas notificações. A história foi crescendo e se espalhando como uma teia de aranha. Ela já desapareceu há muito tempo, disse alguém, de forma ambivalente. Acho que é o fim da maré de sorte da "Sortuda", zombou outro. Quero os sapatos e as jóias dela se ela estiver morta, postou LucyBFF. Não se preocupe, é tudo emprestado, respondeu LULUToo, grosseiramente. Pelo menos não houve postagens do tipo Morra, vagabunda! De qualquer forma, ainda era cedo. Muitas ideias maliciosas estavam sendo ventiladas — uma verdadeira torrente de comentários cáusticos despejados no éter eletrônico. Na disputa entre a solidariedade e o humor negro, a primeira ocupava um distante segundo lugar. O mais engraçado, observou Jesse, é que isso partia das mesmas pessoas que bajulavam Lucy quando a viam nas boates, esperando obter um drinque grátis ou entrar com ela na sala VIP. Hipócritas. Como Lucy. Como ele. De repente, o telefone tocou. — Alô? — Jesse Arens? — Diga. — Aqui é Richard Jensen, do editorial local da Amalgamated Press. Estou ligando a respeito da sua matéria. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Sim? — Acabei de falar com o distrito policial e eles não quiseram confirmar nada. — E daí? — Você pode me confirmar algumas dessas informações ou me encaminhar para alguém que possa? — Não revelo minhas fontes. Frustrado, o repórter insistiu. — Então como posso saber se o que você relatou é verdade? — Você não pode. — Escute, garoto, você precisa me dar alguma coisa. Como você soube que essas garotas estão ligadas a esse cara? Jesse desligou o telefone. Pensou então nos braceletes e no fato de que, intencionalmente, deixara de mencioná-los. Não era um detalhe que ele estivesse pronto para revelar. Estava guardando a informação para si mesmo. Ele teria mais a ganhar se isto vazasse. Dinheiro, por exemplo. Brincando de Deus, sentia-se muito à vontade. Decidindo quem sofreria indignidades e quem seria poupado de olhares indiscretos simplesmente martelando o teclado. E ver aqueles caras da imprensa desesperados — eles que sempre o ignoravam ou menosprezavam — era uma coisa divertida, para dizer o mínimo. O telefonema significava que a história estava nas ruas, e não era ele quem iria fazer o dever de casa para os caras. A pergunta do repórter, no entanto, fora boa. Tudo o que ele tinha nas mãos fora o que o médico lhe contara, e quem é que poderia saber o que ele estava tramando? Aquelas garotas não se conheciam, não tinham se encontrado, até onde ele sabia, e viviam em mundos totalmente diferentes. A única conexão que havia com Sebastian eram os braceletes. Ele sabia que Lucy era superficial, mas o que haveria de tão atraente em um bracelete, ou em um cara, para que ela entregasse sua vida nas mãos dele? Não, não poderia ter sido uma coisa voluntária. Ele passou um bom tempo examinando a foto da briga na boate. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Aumentou cada detalhe da imagem, inclusive do corpo de Lucy, coisa que, de qualquer forma, ele já tinha o costume de fazer. Observou o bracelete durante um longo tempo, tentando descobrir o que poderia tê-la fascinado. Havia algo familiar no objeto, mas ele não sabia ao certo se a lembrança provinha apenas daquela noite na boate. O telefone tocou novamente, mas desta vez foi o aparelho fixo, que ele raramente usava. Jesse deixou que a secretária eletrônica atendesse. — Diga o que tem a dizer e não encha o saco — disse sua voz gravada. — Sr. Arens, aqui é o capitão Murphy, da delegacia 76. Jesse apertou o botão de falar. — Vocês foram rápidos. — Nós gostaríamos de ter uma conversa com você a respeito de sua história. Estarei esperando você na delegacia amanhã de manhã. Se não for conveniente, posso dar um jeito de me encontrar com você no seu apartamento. Não me deixe esperando. Psiquiatras, repórteres, policiais. A barra estava ficando meio pesada. Jesse olhou pela janela e viu que o tempo estava melhorando, apesar da tempestade que ele acabara de enfrentar. Então, pegando o celular e as chaves, saiu para a rua. Queria clarear a mente e a consciência. E dar uma olhada nas coisas. Martha estava à janela do quarto de Agnes, olhando para o pequeno pátio dos fundos. Ela mal se afastara dali desde que Agnes desaparecera. Para ela, esperar significava que a filha retornaria. Se alguém está esperando por você, em algum momento você terá que retornar. Eram apenas duas noites, mas pareciam uma eternidade. Fortes batidas na porta a devolveram à realidade. Martha correu para a porta, esperando que fosse a filha cabeça-dura voltando para casa. Mas se deparou com a vizinha, cuja expressão sombria a fez lamentar ter aberto a porta. — Você viu? — Vi o quê? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


A vizinha estava encontrando dificuldades para olhá-la nos olhos. — O noticiário agora. Fiquei pensando se você já sabia de alguma coisa... Martha pegou o controle remoto e sintonizou um dos canais de notícias. Ela já tinha parado de escutar a vizinha quando a vinheta do telejornal anunciou a história principal. Ao ouvi-la sentiu um aperto no coração. Sentiu-se como se tivesse acabado de cair de um prédio alto. — Estamos no ar — anunciou o bem penteado apresentador, com a mistura adequada de urgência e seriedade. Atordoada, Martha assistiu à reportagem. Três garotas e um louco perigoso e carismático, possivelmente um assassino. Todos desaparecidos. Nenhum nome foi fornecido, exceto o de Lucy Ambrose. Era provável que estivessem juntos. Um sequestro? Melhor não tirar conclusões precipitadas. A coisa estava sendo apresentada como uma história de culto. Imagens de arquivo das garotas de Charles Manson apareceram na tela. Os detalhes eram vagos, mas foram relatados como fatos. — Tenho certeza de que a polícia teria informado você se... Os olhos de Martha estavam fixos no noticiário. — Se eu puder fazer alguma coisa — ofereceu a vizinha, enquanto recuava em direção à porta. Martha estava em choque. Não conseguiu emitir nem mesmo um obrigado. Então, calmamente, roboticamente, estendeu a mão para o telefone e discou para a polícia. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


20 NO TERCEIRO DIA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Dia de reflexão. E de reparação. Ainda estava escuro no lado de fora, mas os primeiros alvores da manhã iluminavam as paredes externas e as vidraças quebradas. Fora da igreja, o ronco de serras elétricas e o burburinho de vozes haviam substituído os estrondos dos trovões. As sirenes dos carros da polícia e dos bombeiros podiam ser ouvidas ao longe, abrindo caminho através de ruas inundadas e atravancadas com árvores caídas. A tempestade finalmente cessara. Lucy, Cecília e Agnes estavam sentadas em silêncio, assimilando o que


Sebastian tinha acabado de revelar. Nenhuma delas sabia o que pensar. Ou o que sentir. Ouviu-se um som de vidro triturado vindo da capela lateral, onde as janelas haviam sido arrancadas, abrindo caminho para um intruso. Surgiu um pequeno brilho branco-azulado, do tamanho de um smartphone, e o som de passos hesitantes ecoou na igreja. — Lucy? — gritou uma voz trêmula e nervosa. — Lucy, você está A voz era familiar para ela, e bastante indesejável. Ela caminhou rapidamente em direção ao retângulo de luz. — Jesse — sussurrou asperamente, apertando o braço dele. Jesse recuou, de olhos arregalados, até que a reconheceu. Ela estava diferente do que estivera alguns dias antes. — Eu sabia — disse ele, menos surpreso do que satisfeito consigo mesmo. — Sabia o quê? — Que você estaria aqui. — O quê? Por que você se daria ao trabalho de procurar por mim? — Eu não sou o único que está procurando, pode acreditar. — Como você me encontrou? — Foi o bracelete — disse Jesse. — Eu sabia que já tinha visto esse emblema com dois olhos em algum lugar. Foi durante uma matéria que fiz sobre a conferência de imprensa a respeito da construção do condomínio. Me lembrei da escultura na igreja. Ela praticamente me guiou até aqui. O som de um fósforo sendo riscado e a fumaça sulfurosa que encheu o ar foram seguidos por uma centelha de luz no altar. Jesse viu o imponente vulto acendendo a vela e levou um choque, como se tivesse visto um fantasma. Era o cara da foto. — Sebastian — murmurou ele em tom meditativo, como costumava fazer quando via em pessoa uma celebridade sobre a qual escrevera. Lucy se afastou dele e seguiu em direção ao altar, onde se juntou a Agnes, Cecília e Sebastian. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— O que você quer conosco? — gritou Sebastian. — Deixe elas irem embora — disse Jesse. As garotas pareceram perplexas. Cecília desatou a rir zombeteiramente, olhando o pálido e frágil adolescente no meio do corredor. — Deixar quem ir embora? — perguntou Agnes. — Nós não somos reféns. Foi a primeira vez que uma delas usou a palavra, embora todas estivessem começando a se sentir reféns. Não no sentido criminal do termo, mas presas por laços afetivos. — Eu conheço você — disse Cecília, torcendo o nariz. — Você é aquele blogueiro nocivo e babaca. Certo, Lucy? — Ele mesmo — disse Lucy. — Já não lhe disse que não quero ter nada a ver com você? — Ele é seu amigo — disse Cecília. — Resolva esse assunto. — Ele não é meu amigo. — Olhe, sei que você me odeia — disse Jesse. — Mas vim aqui para ajudar você. Todas vocês. — Eu... nós não precisamos da sua ajuda. — Nós? Você agora está tomando partido? Isso não é uma brincadeira, Lucy. Esse cara não é quem você pensa que é. — Tudo bem, então quem é ele? — escarneceu Cecília, pegando um castiçal de bronze e o entregando a Sebastian, que caminhava ameaçadoramente em direção a Jesse. — Você tem dez segundos para responder. — Sim — disse Sebastian. — Quem sou eu? — Ele é maluco — gaguejou Jesse, apontando para Sebastian. — Alucinado. A cada injúria proferida, a cada acusação feita, Sebastian dava mais um passo à frente. — Ele fugiu do hospício no Halloween. — Foi Frey que mandou você? — perguntou Sebastian, agora próximo o bastante para que Jesse visse a intensidade de seu olhar. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Me mandou? — indignou-se Jesse. — Não sou moleque de recados de ninguém. Estava preocupado com Lucy. Ele me contou o que sabia. — Ele lhe contou o que queria que você pensasse — troçou Sebastian. — O que mais ele disse ? — Que você é um assassino — uivou Jesse, com o rosto de Sebastian a centímetros do seu. — Ele é mentiroso! — gritou Sebastian na cara do apavorado Jesse. A luz da vela do altar iluminou o candelabro, quando Sebastian o ergueu até a altura do ombro. O objeto brilhava como a lâmina de uma guilhotina, prestes a fazer seu trabalho sangrento. Jesse engoliu em seco. Alguma coisa dentro de Sebastian pareceu se romper. Sua expressão se tornou mais dura, bem diante dos olhos das garotas. — Eu poderia arrebentar sua cabeça, seu fracassado — disse Sebastian, com uma careta, pressionando o suporte do candelabro contra a garganta de Jesse. — Você vai me matar também? — disse Jesse, com voz engasgada. — Qual delas vai ser a próxima vítima? Lucy já vira dois caras brigarem por causa dela, mas não com tanta coisa em jogo. Ela gostava de Jesse o bastante para não permitir que Sebastian o machucasse, e gostava demais de Sebastian para não deixar que ele fizesse alguma bobagem. Ela se aproximou de Sebastian e tocou seu braço, sinalizando que ele desse uma trégua a Jesse. — Não faça isso — disse ela. — Por favor. Sebastian jogou o candelabro no chão e deu um passo para trás. O choque do metal com o mármore ecoou, ressoando nos ouvidos deles. Jesse expirou lentamente. Mantendo o olhar fixo em Sebastian, fez sinal para que Lucy se aproximasse. — Ele é louco, Lucy. E perigoso. Você precisa sair daqui. Se afastar dele. — Mentir é seu ganha-pão — lembrou Lucy. — Por que nós deveI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


ríamos acreditar em você? — Você não tem que acreditar em mim — disse Jesse, pegando seu smartphone no chão. — Veja você mesma. Jesse tocou na tela, abriu seu blog e entregou o aparelho a Lucy. Ela leu o que ele escrevera, várias vezes, e clicou nos links de sites mais respeitáveis. Agnes e Cecília se aproximaram e também leram as matérias. — Já está por toda a parte — disse Jesse. — Nos jornais, na tevê. Todo mundo está procurando vocês. E ele. — Graças a você, sem dúvida — disse Cecília. — Não acredito nisso — sussurrou Agnes, depois que ela e Cecília terminaram a leitura. — Sebastian, isso é verdade? — Não, mas que importa? — respondeu Sebastian. — As pessoas vão acreditar nisso porque querem acreditar nisso. — Em quem vocês acreditariam? — devolveu Jesse. — Em um maluco sem-teto que mora em uma igreja abandonada, ou no chefe do setor de psiquiatria do Hospital do Perpétuo Socorro? — E o dr. Frey? — perguntou Agnes. — É — disse Jesse. — É o meu médico. — Que coincidência — disse Jesse sarcasticamente, olhando para os pulsos enfaixados dela. — Dele também. Jesse colocara Sebastian em julgamento, e o invectivava como um promotor, tentando minar a credibilidade do réu. Montando um caso, peça por peça, até que a conclusão fosse inevitável. Ele estava no lugar certo para um sermão. Mas, como medida de precaução, recuou para perto das portas enquanto fazia suas acusações. Sebastian permaneceu em silêncio. — Vocês estavam no setor de emergência do hospital na noite em que ele fugiu do setor psiquiátrico. Agora estão todas aqui. Mais uma coincidência? Pouco a pouco, Jesse estava conseguindo dar seu recado a elas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— E os braceletes que ele deu a vocês? Esses que estão nos seus pulsos. Ele roubou esses braceletes. Da capela. São antigos. Têm um valor inestimável. São relíquias. Vocês acham que ele teria dinheiro para comprar essas pulseiras? — Cale a boca, Jesse! — gritou Lucy. — Ele não está negando nada, por que você deveria assumir a defesa dele? Agnes estava quase em lágrimas. — Sebastian, isso é verdade? — Você nunca me disse o que estava fazendo no hospital naquela noite — disse Cecília, olhando para ele como que pedindo uma explicação. — Por que você estava lá7. — apoiou Lucy. — Diga-nos. Sebastian não falou nada. Percebendo a determinação delas fraquejar, Jesse sentiu-se encorajado. — Eu digo para vocês — prosseguiu ele. — Ele estava em confinamento. Internado. Se recusava a receber tratamento. — Tratamento para quê? — perguntou Agnes. — Não sou médico, mas acho que o termo médico é "lunático". Ele acha... — Ele acha o quê? — interrompeu Cecília. — Ele não contou para vocês? — disse Jesse, tentando sem sucesso abafar uma gargalhada que ecoou pelas paredes da igreja. — Ele acha que é um santo. Lucy investiu contra Jesse e o empurrou contra a parede; as costas dele bateram na pia de água benta vazia. Toda a fúria reprimida que ela tinha contra ele e contra si mesma se derramaram naquele instante. Ela agarrou o saco dele e o torceu. Com força. — Sua putinha invejosa — disse ela, enquanto Jesse gemia de dor. — Sempre metendo o nariz na vida dos outros, arruinando vidas. — É tudo verdade, Lucy. Você recebeu lavagem cerebral. Ou foi drogada. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Alguém mais sabe onde a gente está? — perguntou ela, através de seus dentes cerrados. — Não, não — disse Jesse, arquejando e começando a ter ânsia de vômito. — Ótimo. E você não vai contar para ninguém, vai? — Não vou. Juro. — Você jura? Isso não me impressiona — disse ela, torcendo com um pouco mais de força. — Largue ele — disse Sebastian. Lucy se afastou e Jesse caiu de joelhos aos pés de Sebastian, engasgando e tossindo. — Você vai me deixar ir embora? — perguntou Jesse com ar incrédulo. — Como você pode saber que não vou chamar a polícia assim que sair daqui? — Eu não sei — disse Sebastian, devolvendo a Jesse o telefone celular e virando as costas para ele. Lucy ficou sozinha com Jesse, que, humilhado, limpava a saliva que e escorrera pelo queixo. — Ele não fez nada. Eu mesma decidi abrir meus olhos. Jesse já vira esse olhar de determinação muitas vezes. Mas nunca tanta intensidade. Ela estava diferente. — Venha comigo — disse ele, fazendo uma última tentativa. — Podemos reverter essa lavagem cerebral. Você está mais célebre do que nunca. — É só curiosidade desse pessoal — disse Lucy. — Agora dê o fora daqui. Ver você faz com que eu me sinta humilhada. — Você precisa de mim — disse Jesse sem convicção, como um ex- ; namorado carente sendo rejeitado. — Eu costumava achar isso. A rejeição dela transformou a insegurança dele em um gélido despeito. — Quer saber de uma coisa? Fique aqui brincando de sem-teto com I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


esse assassino. A próxima coisa que vou escrever a seu respeito será seu obituário. — Faça o favor de usar uma foto bonita — disparou Lucy. Aproximou então o rosto do dele. — Eu salvei sua vida agora, Jesse. Não vou fazer isso de novo. Se você contar a qualquer pessoa onde nós estamos — disse ela, apertando o saco dele pela última vez, para deixar tudo bem claro, e o forçando a ficar na ponta dos pés —, eu mesma vou matar você. Ele sempre desejara que ela o olhasse nos olhos. Mas não dessa forma. Lucy virou as costas para ele e andou na direção dos outros, enquanto Jesse se encaminhava para a saída, abrindo caminho em meio aos entulhos deixados pela tempestade. Ela não precisava vê-lo sair. Sabia que ele não ficaria por perto depois de tudo. — Jesse pode ser um monte de coisas — refletiu Lucy —, mas corajoso ele não é. Foi um desgaste enorme para ele ter vindo até aqui e falar o que falou. Agora é sua vez de confessar — acrescentou ela dirigindo-se a Sebastian. E ele despejou a verdade. Uma verdade incrível. — Vocês são abençoadas. Escolhidas. Cada uma de vocês — disse ele. — Foi isso o que as trouxe até aqui. — Abençoadas por quem? Pelos operários do metrô que morreram? — perguntou Lucy. — É nisso que você quer que a gente acredite? — Olhe, eu não estou aqui para julgar você — observou Cecília. — Mas hospício e assassinato não são nenhuma carta de recomendação. — Só nos diga a verdade — suplicou Agnes, segurando a mão dele. — A verdade está dentro de vocês, assim como está dentro de mim. Não há mais nada que eu possa dizer. E também não havia mais nada que nenhuma delas pudesse dizer. — Chega de enigmas. Chega de perder tempo. A verdade é que você é maluco e nos transformou em malucas também — disse Lucy. — Sempre houve alguma coisa dentro de vocês. Uma coisa que fez com I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


que vocês se sentissem diferentes. Eu também senti isso. Há mais coisas na vida para vocês, e lá bem no fundo vocês sempre sentiram isso. Vocês não precisam mais se sentir frustradas. Isso é que trouxe vocês até aqui. E é por isso que vocês permanecem aqui. A igreja ficou silenciosa como um túmulo. — Não, é por isso que estou indo embora — disse Lucy. Cecília concordou com relutância. — A tempestade passou. É hora de ir. — Minha mãe deve estar doente de preocupação — disse Agnes humildemente, retirando a mão da mão dele. — Não se preocupe. Não vamos contar para ninguém. As três garotas tiraram os braceletes, reuniram suas coisas e caminharam pelo corredor principal da igreja como noivas em fuga. Passaram então pela porta e desapareceram à luz brilhante do alvorecer. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


21 GRITE VOSSO ÚLTIMO NOME I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Jesse olhou para o cursor por tanto tempo que se sentiu quase hipnotizado. Paralisado, seria uma palavra melhor. Seu correio de voz, que ele estava ouvindo, estava cheio de mensagens dos tiras solicitando um encontro. Com uma entonação bem menos cordial que antes. A história estava fresquinha em sua cabeça. Ele sabia exatamente o que queria dizer, mas não se queria de fato dizê-lo. Não por causa das ameaças de Lucy, embora ele jamais a tivesse visto tão inflexível. Era uma sensação desconfortável que ele estava sentindo desde que saíra da igreja, uma sensação de inquietude e incerteza. Sebastian era visivelmente perturbado,


mas assassino? Ele realmente entendia a atração que Sebastian exercia sobre as garotas. Sexy, inteligente, sinistro, incompreendido, boa aparência, uma aura de tragédia à sua volta... Ele tinha todos os requisitos. Não precisaria de drogas nem de lavagem cerebral para mantê-las por perto. Jesse escrevera muitas histórias sobre galãs muito menos prendados que conquistavam mulheres fabulosas, portanto sabia como as coisas funcionavam. Principalmente agora, que tinha conhecido o cara, ou pelo menos estivera diante dele. Havia sempre a possibilidade, pensou, de que não tivesse conhecido o "verdadeiro" Sebastian. Criminosos e lunáticos eram atores consumados, afinal de contas. Segundo o dr. Frey, Sebastian era as duas coisas. Os blogueiros não ficavam muito atrás, portanto ele podia ser solidário. Era talvez o único ponto que ele tinha em comum com Sebastian. Ele não tinha a aparência rústica nem a personalidade sedutora, mas tinha o desejo, a necessidade de se comunicar. E dentre as muitas histórias que contara a respeito de Lucy — verdadeiras ou não — nenhuma era mais importante que esta. As histórias anteriores tinham servido para montar uma vida para ela. Esta era para salvar a vida dela. Então, por que não conseguia se decidir a escrevê-la? A única explicação que podia imaginar era que talvez Lucy tivesse razão. E talvez fosse contagioso e ele também estivesse desenvolvendo uma consciência. Jesse procurou sua lista de contatos e teclou em um deles. — Dr. Frey, por favor. Sebastian sentou-se no duro banco de madeira em que estivera deitado e esticou os braços para a frente. Inspirou e expirou profundamente. Respirar estava cada vez mais fácil. A umidade provocada pelo mau tempo havia desaparecido, assim como a bruma com cheiro de cortinas emboloradas que inundara a igreja. O lugar estava vazio de novo, como quando ele chegara. Seus companheiros mais próximos eram, mais uma vez, os martelos, as serras, os ratos e as baratas que juncavam o espaço antes limpo I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


e sagrado. Ele sentia falta de Lucy. Sentia falta de Cecília. Sentia falta de Agnes. Mas a hora de se lamentar já passara há muito tempo. Ele pegou as pulseiras que elas haviam deixado para trás e se encaminhou para a sacristia. Notou então as roupas espalhadas pelo chão. O aposento parecia mais uma cabine de provas de uma loja elegante do que o quarto de preparação de um sacerdote. De fato, pensou ele, as garotas deixaram suas marcas neste lugar, assim como este lugar deixou marcas nelas. Abrindo a porta da escadaria do ossuário ele pensou nos esforços de Agnes para girar a pesada maçaneta e nas muitas dificuldades que havia à frente. Ele desceu as escadas lentamente, vivenciando a descida, sentindo cada degrau sob seus pés antes de passar para o próximo. Entrando na capela, ele caminhou até o genuflexório do centro. Continuava tão sólido e resistente quanto no dia em que fora feito. A madeira usada fora comiso vermelho, extraída de árvores como as que ladeavam os jardins da igreja, agora doentes, começando a definhar. Era uma madeira perfeita para a confecção de armas, carroças e cruzes. Cornisos vermelhos, comisos pendulares, cornisos rosas, todos plantados em homenagem aos homens há muito esquecidos que haviam morrido ali e aos santos por quem eles morreram. Eram especiais. Floresciam no outono, perto do início de novembro. O ar da capela estava pesado com a fragrância do incenso que ainda queimava no receptáculo de metal e com as flores de corniso que ele recolhera das árvores que tinham atravessado as janelas ao caírem. Olhando para cima, ele olhou fixo para o nome de seu inimigo. Do inimigo deles. O nome que ele rabiscara em todas as paredes da capela. CIPHER. Frey estava vencendo. Não havia nenhuma dúvida. E sem levantar um I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


dedo. Sebastian estava em fuga. Abandonado. Renegado. Lucy, Cecília e Agnes tinham partido. Mesmo sentindo-se sozinho sem a presença delas, ele não podia deixar de sentir alívio. Longe dele, elas estavam a salvo. Era um magro consolo, mas era tudo o que ele tinha, depois do perigo a que as expusera. Ele fizera o melhor que podia. Distribuíra a sua mensagem, conforme fora incumbido. Se elas aceitariam sua palavra, ele não saberia dizer. O destino dele estava selado, O delas estava nas mãos delas. Sebastian devolveu os braceletes ao relicário de vidro, de onde os retirara. Depois inclinou a cabeça e se preparou. Em vez de paz, tudo o que conseguira encontrar dentro de si mesmo era desespero. E raiva. — Fracassei. Ele chutou os genuflexórios e gritou o mais alto que pôde. — O que mais vocês querem de mim? — esbravejou, derrubando a dama de ferro e outros instrumentos de mortificação. — Eu fiz o que vocês me pediram. Eu lhes entreguei meu coração, minha alma e minha mente! Para quê? Ele subiu no altar e arrancou o pesado livro do suporte. — Dor! Rejeição! Morte! Ele ergueu o pesado volume sobre a cabeça e fez pontaria no relicário de vidro que continha os braceletes. Prestes a transformá-lo em cacos. De repente, sentiu mãos sobre seus ombros. Mãos poderosas. Um toque invisível para ampará-lo no momento de agonia. Seus pulmões se esvaziaram e seu peito se comprimiu, como se ele estivesse sendo esmagado por uma avalanche. Abaixando o livro, ele o recolocou gentilmente no lugar. No altar à sua frente, surgiram três vultos enevoados. Homens. Trabalhadores, cada um segurando sua ferramenta. Uma pá, uma picareta e um machado. Ele já os vira antes. Eram os que falaram com ele. Que lhe falaram sobre ele mesmo. Sobre os braceletes. Sobre as garotas. Naquela hora, ele achou que fosse um sonho ou um pesadelo. Mas agora não. De qualquer I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


modo, já era tarde demais. — Desculpem minha fraqueza — suplicou ele, caindo de joelhos e se preparando para ser punido. Eles ergueram as ferramentas. Não para golpeá-lo, mas para saudá- -lo. Um gesto de encorajamento e respeito. — Você agiu bem — disse um deles. — Você é um orgulho para a sua linhagem. — Seu tempo está próximo — avisou outro. — Que a paz esteja com você — disse o último. Os vultos escuros desapareceram tão rapidamente quanto tinham aparecido. Sebastian sentiu-se encorajado com a fé que depositavam nele, e sua fé em si mesmo foi reforçada. — Estou pronto. Entretido em uma conversa com um colega, Frey entrou de costas no gabinete e não notou o jovem que estava sentado esperando por ele. O ego de Jesse aguentava ser tratado rudemente, mas não ser ignorado. — Ah, desculpe — disse o distraído médico. — Eu me esqueci da sua visita. Só tenho um minutinho. — Me encontrei com eles. — Estou ouvindo — replicou Frey, sentando-se à sua mesa, com os olhos fixos em Jesse. — Aquele cara, Sebastian, é um lunático — divagou Jesse, evitando o olhar do médico. Pirado. Bem como o senhor disse. E ele está dominando as garotas. — Como assim? — perguntou Frey, com a curiosidade despertada. — Síndrome de Estocolmo. Elas embarcaram totalmente. Estão de olhos arregalados. Nunca vi Lucy daquele jeito, protegendo tanto alguém. — Impressionante — admitiu Frey. — Vou confirmar seu diagnóstico para atualizar o histórico. Confidencialmente, é claro. — Os policiais estão loucos para saber como eu obtive tantas informações detalhadas — disse Jesse. — Não sei quanto tempo eu ainda vou I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


poder escapar deles. Jesse estava esperando uma reação. — Agora que você sabe onde eles estão, o jogo acabou. A polícia ficará feliz em encontrar as garotas e você levará o crédito. Você só tem a ganhar. — O senhor já esquematizou tudo, não é doutor? — Bem, não foi nenhum bicho de sete cabeças, certo? — disse Frey, impávido. O beneficiário aqui, refletiu Jesse, não seriam as garotas nem a polícia e nem mesmo ele, Jesse. Seria Frey. Habilmente, o médico se mantivera fora da coisa toda, mas conseguira exatamente o que queria. Quase. — Então, onde eles estão? — Essa é a questão — disse Jesse, um tanto presumidamente. Não vou dizer. — Por que não? — perguntou o médico. — Se você viu Sebastian, você deve saber, em primeira mão, como ele é perigoso. — Perigoso para quem? Eu vi Sebastian. Falei com ele. Ele poderia ter me matado ali mesmo se quisesse. Mas não o fez. O senhor é o psiquiatra. Por que ele se comportaria assim? — Ele é imprevisível. Só porque não o matou, não significa que não é um assassino. Não se deixe enganar. — Bom conselho, doutor — respondeu Jesse. — Não vou mais me deixar enganar. — Você está me acusando de mentir? — Não — disse Jesse estudadamente. — Estou acusando o senhor de coisa muito pior. — Eu lhe dou a melhor oportunidade de sua vida e é isso que ganho — disse Frey sarcasticamente. — Mas talvez isso seja inevitável vindo de uma pessoa da sua estirpe. — Não percebi que o senhor estava traçando meu perfil — zombou Jesse. — Pode me dar sua opinião profissional a meu respeito? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Na minha opinião profissional você é um pirralho enganador, egoísta, irresponsável e ganancioso. Em termos médicos, um michê de celebridades. — Pelo visto o senhor andou conversando com meus amigos. — Se você está querendo que eu lhe pague pela informação, esqueça — disse o médico. — Não sou um dos seus colegas de classe, que você pode chantagear. — Ex-colegas de classe — bufou Jesse, confirmando que não pretendia ingressar em uma faculdade. — No fundo, sou um empresário. — Dá para notar — comentou Frey, criticando friamente o abreviado currículo escolar de Jesse. — Sim, sou do tipo curioso, entre outras coisas — replicou Jesse. — E estou curioso para saber por que um médico tão respeitável arriscaria sua reputação e sujaria seu diploma para ajudar alguém com meu, hã... perfil, como o senhor diz. — Eu queria tirar Sebastian das ruas antes que ele se machucasse ou machucasse alguém. — Que altruísta. O médico ficou visivelmente irritado, mas logo se recompôs. — Mas não tem importância. Logo nós encontraremos essas pessoas. — Nós? — perguntou Jesse. — Bem, você não precisa mais se preocupar em evitar a polícia, Jesse — disse o médico bruscamente. — Por que? — perguntou Jesse com ar cético. — Porque os policiais estão esperando por você no saguão. Agora, com licença. Com o coração aos pulos, Jesse percebeu que caíra numa armadilha. Um clássico jogo duplo. Se revelasse ou não revelasse a Frey o paradeiro de Sebastian, não tinha importância. O médico conseguira seu intento. E ele fora derrotado. — Eu mal posso esperar para contar tudo a eles — ameaçou. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Por favor, faça isso — disse Frey, com um sorriso malicioso. — Eles podem até acreditar em você.

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22 MENTE ESFACELADA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Mãe! — gritou Agnes, abrindo caminho através do entulho que juncava o corredor. — Você está aqui? Ela receava que algo tivesse acontecido a sua mãe. Que ela tivesse se ferido no tornado, ou até pior. — Mãe! — gritou ela de novo, desesperadamente. Martha desceu correndo os degraus da escada, alguns dos quais estavam completamente danificados, desviando-se de buracos de madeira solta. Mas isto não lhe diminuiu a velocidade. — Graças a Deus — disse Agnes, aliviada. — Você está bem!


Martha correu até a filha, olhou-a de alto a baixo e lhe deu um tapa no rosto. — Onde você andou? Pensei que você estivesse... você sabe o que eu passei? Não aguento mais, Agnes — disse ela. E se esvaiu em lágrimas. Agnes ainda sentia o ardor do tapa que levara. — Desculpe — disse, abraçando a mãe e, pela primeira vez em muito tempo, deixando sua mãe abraçá-la também. Após alguns momentos, ela se afastou. — Preciso de um banho quente — explicou, antes de se dirigir a seu quarto. O telefone tocou. Martha atendeu imediatamente. — Ela está em casa. Foi direto para o quarto dela — disse Martha à interlocutora. — Não, não faço ideia de onde esteve. Não quero ficar insistindo nesse momento. Como sempre, Martha falou alto o suficiente para que Agnes a escu' tasse. Mas ao contrário do que sempre fazia, não reclamou. Em compara' ção ao que passara, um pouco de fofoca entre vizinhas era uma mudança bem-vinda. Tinham sido apenas três dias, mas pareceram uma eternidade. Aliás, isto era apenas o começo. Ela sabia o que viria no dia seguinte, pensou, enquanto vagarosamente tirava as roupas. Amigas "curiosas" de Martha começariam a espreitar as janelas da sala, que iam do chão ao teto, ou ficariam paradas em frente à casa. Garotos mais novos da escola e das adjacências, fascinados com a ideia do desaparecimento dela, começariam a inventar histórias. De como Agnes fora engolida pela tempestade, ou que aquela garota não era realmente Agnes, mas urn fantasma, um robô ou um zumbi. Histórias de fantasmas brotariam na vizinhança como ervas daninhas. Isso já acontecera antes, e com muito menos motivo. A verdade era irrelevante, quem acreditaria nela? — Sim é muito engraçado — disse Martha à interlocutora —, mas as feridas no pulso dela estão quase totalmente curadas. Onde quer que ela I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


tenha estado, deve ser um lugar limpo e seguro. Ela foi bem tratada. Enquanto sua mãe falava, Agnes examinava os pulsos, deslizando os dedos pelos cortes, que já desbotavam. Agora havia pouca coisa que a ligasse fisicamente a Sebastian. Apenas as cicatrizes, o único lembrete de que ferira a si mesma e de que ele a ajudara a se ajudar. — Já que ela voltou em segurança e não foi vítima de nenhum maníaco louco... — disse Martha, deixando o alívio vir à tona. — Obrigada, querida. Claro que vou falar com você se a gente precisar de alguma coisa. — Claro que vai — comentou Agnes baixinho, enquanto abria o chuveiro e entrava no boxe. Martha estava se deleitando com a atenção. O perigo passara e ela estava pronta para arrancar de suas amigas cada grama de solidariedade e o que mais conseguisse imaginar, em troca da satisfação da curiosidade delas. Maníaco. Que coisa estranha para se dizer sobre ele. Sebastian era muitas coisas. Mas não um maníaco. Independentemente do que aquele blogueiro dissesse. Mas como sua mãe e qualquer outra pessoa poderiam saber disso? Tudo o que sabiam sobre ele era o que fora noticiado. E pelo que ela lera no telefone de Jesse, os detalhes não eram tão importantes quanto as manchetes. Isso a fez pensar em todas as pessoas que ela provavelmente julgara mal. O telefone tocou de novo. — Agnes! — berrou ela. — É o Dr. Frey. Agnes não respondeu. — Desculpe, ela deve estar dormindo — explicou Martha em tom de desculpa. — Foi um fim de semana cansativo. Eu prometo que iremos entrar em contato para agendar uma consulta quando ela estiver melhor... descansada. Sim, vou manter o senhor informado. Tchau. Frey era o último indivíduo que Agnes queria ver ou manter informado. Martha informara à polícia que Agnes retornara e os policiais, por sua vez, repassaram a informação a Frey. Este tentara intimidar Martha, dizendo a ela que, se os relatos fossem verdadeiros, Agnes poderia estar sofrendo de I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


folie à quatre — um transtorno psicológico compartilhado, caracterizado pela difusão de uma crença ilusória entre pessoas emocionalmente enfraquecidas confinadas em ambientes fechados. Martha não acreditou nessa teoria de jeito nenhum. Seu cinismo às vezes vinha a calhar para Agnes. O telefonema de Frey só serviu para que Agnes pensasse em Sebastian com mais intensidade. As coisas que ele dizia. Ela fechou a água, saiu do chuveiro e ligou seu laptop. — S-A-N-T-A-A-G-N-E-S — disse ela, digitando no teclado. Páginas de verbetes surgiram, em sua maioria de sites religiosos. Muitas eram da Legenda Áurea, traduzida como Lenda Dourada, que ela examinou e reconheceu como o livro que tinha visto na capela. Ela tinha razão, pensou. Eram biografias. Vidas de Santos. Lendas. Agnes ou Inês. Virgem-mártir. — Virgem. LIma das sete mulheres homenageadas nominalmente no Cânone da Missa. Nascida em 28 de janeiro c. 291 d.C. — Há tanto tempo. Martirizada em 21 de janeiro de 304, com a idade de 13 anos. Decapitada e queimada. — Treze anos. Meu Deus. Por quê? Recusou-se a desposar um membro da nobreza romana... foi arrastada pelas ruas e enviada a um bordel para ser repetidamente estuprada... enquanto rezava, seus cabelos cresceram e cobriram seu corpo... para protegê-la... depois foi amarrada a uma estaca para ser queimada, mas as chamas se desviavam dela... um soldado finalmente a matou com um golpe de espada na garganta. Santa padroeira das virgens, garotas, jardineiros, vitimas de estupros... representada mais frequentemente com um cordeiro, simbolizando a castidade. Agnes se viu à beira das lágrimas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Eu não fazia ideia. Ela procurou por Santa Cecília e Santa Lúcia, e descobriu que suas histórias eram aterradoras e brutais. Ambas mártires. Ambas entre as sete citadas nominalmente. Lúcia, cuja fé foi denunciada pelo próprio marido... não pôde ser movida nem queimada, depois de condenada à morte... arrancou os próprios olhos... para se tomar menos atraente... para não comprometer sua castidade. Santa padroeira dos cegos. E Cecília. Tentaram decapitá-la, mas não conseguiram... durante os três dias que agonizou, ela cantou fielmente. Santa padroeira dos músicos. Por fim, Sebastian. São Sebastião. Mártir. Santo Padroeiro dos atletas e soldados. Capitão da Guarda Pretoriana, que secretamente se converteu ao cristianismo. Condenado à morte por converter outras pessoas. Agnes estava perplexa. Martha bateu à porta. — Tudo bem com você? — Sim, mãe. — Quer que eu prepare alguma coisa pra você comer? — Não, obrigada, não estou com fome. Isso era apenas conversa fiada. Agnes sabia que sua mãe tinha alguma coisa em mente. — Agnes, o que você estava pensando? Era uma pergunta justa, e não foi formulada com a entonação acusatória que ela estava acostumada a ouvir de sua mãe. — Eu não estava pensando. Estava sentindo. Não era bem uma resposta, mas foi a coisa mais sincera que ela pôde dizer. — Deu no jornal que você podia ter sido sequestrada por um rapaz psicótico, junto com duas outras garotas. É verdade? — Não sei do que você está falando, mãe. Você acredita em tudo que vê na tevê? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Fiquei apavorada. — Acabou, mãe — disse Agnes. — Estou aqui agora. Para sua surpresa, Martha deixou passar. Não houve nenhum sermão. Nenhuma discussão. Nenhuma desculpa foi exigida. Nenhuma autorrecriminação. Sua atitude seria passivo-agressiva ou passivo-compassiva? Era difícil dizer. Talvez a tempestade tivesse varrido um pouco de sua hostilidade. Qualquer que fosse o caso, foi o melhor presente de "bemvinda ao lar" que Agnes poderia ter recebido. A verdadeira história de sua fuga continuaria inexplicada e não resolvida, pelo menos por enquanto. Ao se deitar, ela encontrou chá de camomila em sua caneca marroquina vermelha e dourada que ela comprara na Atlantic Avenue. Estava em sua mesinha de cabeceira, quentíssimo. Obrigada, mãe. Agnes permaneceu deitada, apreciando a maciez de sua cama e brincando com Elizabeth da Hungria. Não conseguia dormir. Estava pensando na noite em que Sebastian lhe pusera novas ataduras. Em que cuidara dela. Em que a enganara. Durante toda a noite, até o alvorecer, até que o sol se levantasse sobre os telhados e coroasse sua cabeça com uma auréola amarelo-alaranjada... Ela pensou nele. Cecília estava agora não só sem moradia, como também sem emprego. O clube da Bowery fora destruído pelo tornado e a Saint Ann's Warehouse cancelara todos os shows, devido a uma inundação proveniente do East River. Lenny, o promoter da Sacrifice, fora vitimado pela tempestade. Assim, ela não poderia migrar com ele para outra boate. Aparentemente ele morrera tentando salvar o maior número possível de garrafas de bebida. Mas atulhara o pequeno corredor dos fundos com caixas, que acabaram caindo sobre ele. Ele costumava dizer que morreria naquele lugar. Acabou se revelando um profeta. Embora Cecília não o suportasse, ele lhe proporcionava um lugar para se apresentar, uma oportunidade. Assim sendo, a notícia de sua morte a entristeceu. Talvez, concluiu ela, porque I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


fosse a única pessoa que o conhecia bem. Uma triste situação para ambos. Na noite em que deixou Sebastian, ela se espremera em uma roleta do metrô da Jay Street, juntamente com um cara que estava passando, obtendo o acesso e uma contusão no bumbum. Na estação, tocou sua guitarra para conseguir uns trocados e manteve a rotina de comprar bebida e sanduíches para Bill no bar da esquina — ele gostava das carnes de lá e só comia coisas que viessem de lá. Era mendigo e gourmet. Uma combinação improvável, mas Bill também era improvável. O excêntrico mais sofisticado que ela já conhecera e que andava sempre bem vestido. "A gente nunca sabe quando o fim vai chegar, nem o começo", dizia ele. Ela tomou um banho na ACM e foi até sua butique favorita, cuja proprietária era uma garota chamada Myyrah, uma promissora figurinista, formada no F.I.T23. Ela adorava o estilo de Cecília, por cujas ideias frequentemente levava o crédito. Em troca, Cecília ganhava roupas exclusivas, feitas à mão. Cecília pegou algumas roupas, jogou-as no estojo da guitarra e se pintou um pouco com a maquiagem de Myyrah. Depois voltou para o prédio onde tinha morado, para Bill. — Bem, olhã só quem está aqui — disse Bill, olhando para Cecília como se ela fosse uma alma gêmea há muito desaparecida a quem contava nunca mais rever. — A Rainha do Brilho. Ele não perguntou o que ela estava segurando. A referência ao "brilho" era suficiente, caso ela tivesse trazido alguma coisa. Para um viciado em heroína, isto era tudo. — Como você conseguiu sobreviver ao tornado aqui em cima? — perguntou ela. Mas o que ela queria realmente dizer era: Como você conseguiu sobreviver sem mim? — Baratas e drogados sempre sobrevivem — disse ele, com sua voz I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

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Fashion Institute of Technology — Instituto de Tecnologia da Moda. (N, T.)


arrastada. Ela ficou satisfeita com a resposta, como ele sabia que ficaria. — Andaram procurando por você — disse ele, demonstrando sincera preocupação. Cecília estava acostumada com a espontaneidade dele, mas não com aquela sinceridade e intensidade. Era como se ele fosse vinte anos mais jovem e estivesse completamente sóbrio. Um vislumbre do homem que fora. Alguém que se importava com ela muito mais do que sua aparência e fraquezas poderiam indicar. Muito mais que com as drogas. — Eles não vão achar você aqui — disse ele. — Garanto. Ela lhe entregou o sanduíche e uma garrafa de uísque barato. Ele mal conseguiu respirar quando viu o presente, ansioso para esvaziar a garrafa. — É mais fácil fazer um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus — disse ele, compreendendo que Cecília não tinha dinheiro, mas ainda conseguia lhe trazer comida e bebida. Isto sempre significava muito para ele, mas agora significava ainda mais. Quando a noite caiu, ela lhe contou tudo. Confiou a ele tudo o que acontecera na igreja, até os menores detalhes. O que tinham visto, o que ela vivenciara, o que sentira. Falou sobre Sebastian. Bill prestou atenção em cada palavra, a cada pormenor, como se estivesse recebendo uma aplicação de heroína por via auditiva. Não se arriscou a fazer nenhuma pergunta, temendo perturbar o raciocínio dela, ou perder algum detalhe. Era como se fossem duas amigas compartilhando segredos. — Por que você não trouxe um pouco desse negócio? — perguntou ele, no final da história. Ele insistia que Sebastian devia ter lhes dado algum alucinógeno poderoso, como os que às vezes obtinha na rua em frente ao hospital onde Sebastian estava internado. Cecília sentia-se traída por Sebastian, mas ao mesmo tempo não conseguia deixar de pensar nele. Ela tirou a guitarra do estojo e cantou para ele. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Cada palavra. Para ele. Lucy comprou um novo celular e já saiu da loja com a linha ativada. Em questão de segundos, o telefone já estava tocando. Jesse, é claro. Só mesmo ele para inaugurar seu novo smartphone. Era seu primeiro aborrecimento desde a tempestade. Ela desligou a campainha e pôs o smartphone na bolsa, determinada a nunca mais falar com ele. Mas com a mesma determinação tirou o telefone da bolsa e atendeu a chamada. — Que é? — Você é a única pessoa com quem eu posso contar — disse Jesse, desesperado. — Não desligue. Lucy sabia exatamente o que isso significava. — Onde está você? E por que está telefonando para mim? — Estou na Casa de Detenção — explicou Jesse, como se alguém o estivesse pressionando a desligar o telefone. — Você tem que vir para cá agora. Preciso falar com você. Clique. — Casa de Detenção? — gritou ela, alto o bastante para que quem estivesse na Gold Street a escutasse. Ela grunhiu de frustração, já furiosa consigo mesma pelo que estava prestes a fazer. Mas estava perto da delegacia. E curiosa. Sabia que qualquer coisa que Jesse tivesse feito, ou não, se estava na delegacia a coisa era séria. Muito séria. Ele era um babaca. Mas um babaca bem-intencionado. Às vezes. Ela desistiu de ir até seu apartamento, na Vinegar Hill, e começou a caminhar pelas ruas do Brooklyn. Justamente quando caminhava sob a ponte de Manhattan, o metrô passou à toda, fazendo seu cérebro tremer, assim como tudo mais. Passou pela Sacrifice, mas no outro lado da calçada. A boate ainda estava com tapumes e fechada, como quase todo o bairro. Praticamente destruída. Enquanto observava as árvores caídas, as ruas inundadas, os veículos abandonados e cabos de força partidos que entulhavam a área, percebeu que a tempestade que mudara seu mundo a I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


mudara também. Tony, o leão de chácara, saiu pela porta dupla e a reconheceu, uma figura solitária andando pela rua. Acenou para ela. Ela pôs um dedo sobre os lábios, a mímica internacional para se você contar a alguém eu corto seu saco fora. Ele meneou a cabeça, compreendendo que Lucy não queria que ninguém soubesse que ela estava de volta, ou mesmo viva. Embora Lucy tivesse a fama de ser uma narcisista fria e egocêntrica, Tony a acobertava. As chaves para o mundo dela eram relacionamentos. Ele sorriu e levantou o antigo telefone dela, para lhe mostrar que o guardara para devolvê- -lo. Ela abanou a cabeça negativamente. Ele o deixou cair no chão e o pisoteou com o salto do sapato, para que a lista de contatos dele, e-mails salvos e fotos jamais caíssem nas mãos erradas. Ela lhe soprou um beijo e continuou a caminhar. Ladeira acima. De tão preocupada, quase passou direto por sua pizzaria favorita, Paisan's, sem mesmo olhar a vitrine. Os mostruários estavam abarrotad com todos os tipos de pizza conhecidos pela humanidade. Ela grudou * nariz no vidro e prometeu a si mesma que retornaria mais tarde. — Ei, Lucy, por onde você andou? — gritou Sal, da janela de aten dimento, com uma voz grave e rouca. — Na igreja, Sal — respondeu ela, dando uma piscada. O corpulento pizzaiolo, com o avental branco polvilhado de fari nha, deu uma risada. — Só pode ser piada. Quer um pedaço? Por conta da casa? Você está parecendo... com fome. — Para viagem, certo? Estou com pressa. — Para ir aonde? — Para a cadeia — disse ela. — Essa foi melhor ainda. Sal abanou a cabeça e voltou para o interior da loja. Voltou com um pedaço de pizza bem quente, recém-tirado do forno. Lucy sentiu vontade de chorar. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Obrigada, Sal. Pela primeira vez na vida, ela lhe deu um beijo de agradecimento no rosto. — Saia daqui — disse ele, meio ruborizado. Indivíduos do bairro. Ela os amava muito. Não eram pretensiosos. Não eram tensos. Se não fosse por Sal, ela se esqueceria de comer durante parte do tempo. Realmente podia contar com ele. E com Tony. Eles não se pareciam nada com Sebastian, mas era como se ele fosse como eles no que era mais importante. Eram autênticos. Lucy conhecia a Casa de Detenção do Brooklyn. Ela alimentara a esperança de chamá-la um dia de "cadeia de lojas", a primeira prisão americana com lojas no andar térreo. Mas isto não aconteceu. Era uma monstruosidade de onze andares, no cruzamento da Atlantic com a Smith, que se agigantava sobre as casas e becos do bairro, que vinha se transformando rapidamente em uma área nobre. A única coisa positiva que se podia dizer sobre o prédio era que nenhum prisioneiro jamais escapara de lá. Era pouco provável que Jesse fosse o primeiro. — Lucy Ambrose para visitar Jesse Arens — disse ela para o guarda. Passou então por uma máquina de raios X e se resignou a ser revistada por uma mulher com aspecto bastante masculino. Ela gostaria que tivessem inventado, em versões portáteis, aparelhos que mostrassem o interior das pessoas. Como seria bom se pudéssemos enxergar dentro de alguém, em vez de termos que adivinhar. Lucy foi escoltada até a área de visitas. Sob uma luz fria e incômoda, aguardou então a chegada de Jesse. Este apareceu algemado. Ela o observou enquanto ele se acomodava na cadeira. Tinha um olho machucado e aspecto doentio. — Não teve fiança? — Ninguém vai abrir a carteira para mim — disse Jesse languidamente. — Sei disso. — Você precisa de umas férias, porra — disse ela, segurando o telefone do visitante a quinze centímetros da boca, para não ser contaminada por I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


algum germe ou pela pobreza. — Você também — disse ele, percebendo que Lucy parecia tão alquebrada quanto ele, se não pior. — Gosto de olhos de guaxinim. — Até aqui eu tenho que ser criticada? Jesse sorriu. Lucy sorriu também. — Tenho que lhe dizer uma coisa. — Que tal começar me dizendo que diabo você está fazendo aqui? — Aquele cara, Sebastian... — Eu sei, eu sei — atalhou ela. — Você acha que ele é um assassino. Bem, eu não tenho mais nada a ver com ele. Nenhuma de nós tem. — Não. — Ele a interrompeu com firmeza, olhando de um lado para outro cautelosamente. — Acho que ele está falando a verdade. Bem, de certa forma. A revelação deixou Lucy chocada. E desconfiada. — Por que essa conversão repentina? — perguntou ela, conjetu- rando se Jesse não estaria usando algum tipo de psicologia reversa para voltar a cair em suas boas graças. — Você me perguntou há alguns segundos por que eu estava aqui. É porque eu não quis revelar ao dr. Frey o paradeiro do cara. Depois q encontrei vocês, eu o interpelei sobre a história que ele me contou. E não gostou. Os tiras estavam lá. — Você acha que ele está mentindo a respeito de Sebastian? Ela sentiu-se tomada por uma onda de náusea e culpa. — Não sei, mas alguma coisa não está certa. — Você não contou nada a eles? — perguntou Lucy, surpresa com fato de ele não ter dado com a língua nos dentes para salvar a própria pele. — Não. — De quanto é a sua fiança? — perguntou Lucy, procurando a carteira na bolsa. — Vou tirar você daqui. — Obrigado, mas não se incomode. Só vou ficar detido por setenta e duas horas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Você vai ficar bem? — Foi a pergunta mais sincera que ela jamais fizera a ele. — Não estou preocupado comigo, Lucy. Jesse fez uma pausa. — O quê? — Estão de olho em você. — Jesse, sempre estão de olho em mim. Esse era o nosso objetivo, certo? — Não estou brincando. Eles querem Sebastian. — Isso não é mais problema meu — disse Lucy. — Só quero esquecer a coisa toda. — Mas não consegue. — Eu me sinto como se estivesse no limbo. Não estava feliz com quem eu era e não tenho muita certeza de quem sou agora. Alguma coisa mudou em mim de forma definitiva, mesmo que tudo o que aconteceu tenha sido uma fantasia estranha em que me vi envolvida. Como a que minha mãe me fez acreditar antes de ir embora. Que ela me amava como eu era. Que nada era mais importante do que eu. E todos nós sabemos no que deu essa porra. Mas sei lá... Isso, ele... era uma coisa diferente. Me senti conectada a uma coisa maior do que eu. Alguma coisa real. Não consigo explicar. — Bem, fantasia ou não, não pense que isso vai terminar. Pelo menos não até eles pegarem o cara. — Quem são eles, os tiras? — Provavelmente, mas a coisa toda está sendo dirigida pelo dr. Frey. Ele tem medo de Sebastian por algum motivo. — Pare com essa paranoia, Jesse. — Acho que você está sendo observada, Lucy. — Você está me assustando. Jesse espalmou a mão no vidro, de modo a alinhá-la com a mão dela. — Ótimo. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


O ÊXTASE DE AGNES

A

gnes se entregou. No meio da noite. Na gruta do jardim, perto do tanque das carpas. Aconteceu, w Ela teve a sensação de estar deixando seu corpo. Abriu o roupão de seda verde-amarelado, despiuo e se deitou nua sobre as pedras abaixo do corniso. Seus cabelos ruivos estavam enrolados sobre a cabeça como uma coroa. Um dos pés e uma das mãos estavam mergulhados na água; peixes dourados, brancos, pretos e laranja mordiscavam seus dedos. — Sebastian — murmurou ela, com voz delicada e vulnerável Chamando por ele. Acenando para ele. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ela inspirou profundamente e se perdeu no aroma da pele e dos cabelos dele. Picante, tépido — sândalo, baunilha, olíbano, patchuli. Ele não era como nenhum outro. Ele conhecia o amor. Ele era o amor. Incontáveis botões em forma de cruz se abriram na árvore acima, como se fosse primavera. Depois se soltaram e pairaram no ar, como se fosse outono. Pétalas caíam sobre seu corpo nu, adornando seus cabelos. — Você é divina — ela o ouviu dizer. Suspirou, fechou os olhos e deixou as pétalas pousarem em seu corpo escultural. A beira da água escura como couro curtido, ela resplandecia na noite. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Seus lábios aguardavam os dele, chegava a sentilos sobre seu corpo. Ela ansiava por ele. Tremendo. Eu não vou machucar você. Ela o sentia. De todas as formas. Seu amante espiritual. Ela segurou os cabelos dele, perto da nuca, que eram também seus próprios cabelos. Tentou ter mais dele. Porém quanto mais tinha, mais necessitava. Suas cicatrizes, gotejando sangue no tanque, avermelharam a água, onde os peixes subiam e desciam, aproveitando seu calor. Lentamente. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ela apertou os pulsos para estancar o sangramento, mas o sangue jorrava implacavelmente. Tudo estava fora de seu controle. Ela pousou os lábios nos ferimentos e moveu a língua sobre eles. Mas o cheiro de rosas que deles exalava, doentio e adocicado, era forte demais para ser engolido. Tão forte que se infiltraria dentro de casa ela tinha certeza — e acordaria sua mãe. Então relaxou e a sensação foi boa. Sentiu-se eufórica. Tinha acontecido. — Sebastian. — Eu conheço suas fraquezas. Compreendo seus mistérios. Agnes acreditava. — Estarei sempre com você. Ela olhou para a água escura e viu seu reflexo. — Me reconheço em você. Agnes se virou para olhá-lo de frente. — A cada dia que amo você, me torno mais eu mesma. — Esse é o verdadeiro amor. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


23 OS PÁSSAROS E AS BANSHEES I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— A natureza está se comportando mal — disse Cecília, contemplando as pilhas de corpos de cigarras que juncavam os meios-fios. Desde a tempestade, o Brooklyn vinha sendo afetado por pragas de insetos e até de roedores. As drogarias já não tinham mais estoques de repelentes para insetos. Os locutores de tevê atribuíam o fato às poças de água deixadas pela tempestade, que permitiam que mosquitos e assemelhados se reproduzissem em escala maior. Além disso, a água que inundara porões, adegas e túneis do metrô havia expulsado para a superfície moradores subterrâneos, como ratos e camundongos. A ameaça de


epidemias era bastante real e crescente. Todo mundo estava falando, blogando e twitando sobre a insólita revoada de cigarras, que estava a todo vapor e já sendo explorada por alguns comerciantes locais. Camisetas com os dizeres CALEM A P*RRA DAS CIGARRAS eram vendidas em lojas, e cigarras fritas eram servidas como pratos exóticos em alguns restaurantes. Havia até iguarias para crianças: carcaças, com suas asas transparentes, colocadas dentro de balas vermelhas. Esse era o único assunto de conversa depois do tornado e da campanha Nós Não Estamos Mais no Brooklyn. Os moradores do Brooklyn haviam se dividido em duas facções. Ou as ocorrências anormais eram um prelúdio do final dos tempos, ou não faziam parte de suas preocupações. Cecília, por enquanto, enquadrava-se na segunda facção. Já estava farta de ideias apocalípticas, a menos que tivessem relação com sua sobrevivência no dia a dia. A única coisa em sua mente, no momento, era conseguir apresentações. Estava agoniada para subir em um palco, qualquer palco, ligar sua guitarra no amplificador e tocar. Tinha muitas coisas por dentro que precisavam ser liberadas, e essa era a única forma de fazê-lo que ela conhecia. Sua terapia. Em busca de uma boate que apresentasse shows e dividisse com ela o convert artístico, ela atravessou a Ponte de Williamsburg, carregando sua guitarra, e rumou para Alphabet City24. O estridular das cigarras era tão retumbante que quase chegava a sacudir a ponte. Embora ela não interpretasse o ruído como prenúncio do Armagedom, como alguns faziam, este a afetava sob um aspecto pessoal. Era como se o próprio Sebastian estivesse tentando abalar a estrutura de metal para lembrá-la do que ela estava se esforçando para esquecer. A tempestade. Ele. Saindo da ponte, ela perambulou pelo Lower East Side, subindo a Ludlow Street em direção ao East Village. Entrou então em um pequeno e sombrio estabelecimento na Avenue B. Era um lugar em que ela não se I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

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Bairro de Manhattan. (N.T.)


apresentava há algum tempo, um lugar onde seus fãs não a localizariam. Eles estavam perguntando por ela há dias, em mensagens postadas na internet, mas ela não conseguia responder a eles, não conseguia enfrentálos. Se a encontrassem, ótimo, mas ela não tornaria a tarefa fácil. O sistema de som poderia ou não estar funcionando, o que dependia mais das finanças do proprietário do estabelecimento do que do mau tempo. Ela passou decididamente pelo porteiro, seguiu direto para os fundos e sentou-se na beirada do palco. Depois abriu o estojo da guitarra, revelando não apenas sua surrada Telecaster, mas também algumas roupas e um incrível par de sapatos de plataforma em couro de camurça. Tirou então suas botas de motociclista e calçou os sapatos, cujos saltos tinham cerca de vinte centímetros e eram feitos do que parecia osso, com um pequeno crânio esculpido na parte de trás. A ideia fora sua e o projeto de Myyrah. Como ela iria se equilibrar neles era outra história, mas se sentia compelida a usá-los para esta única apresentação. Estava com os cabelos esticados para trás, com as laterais pintadas de branco, o que lhe dava um aspecto de moicana virgem. Usava uma minissaia preta com debruns dourados, uma blusa aberta nas costas e trazia nas orelhas um par de grandes argolas, que ela mesma confeccionara com arame encontrado no teto de seu antigo prédio. Dava a impressão de que fora contratada pela boate, portanto nenhum dos presentes disse nada, apenas a observaram. — Esta é para você, Alphabet City de merda — disse ela ao microfone, acenando para que o baterista da casa se posicionasse atrás da bateria. Ela ligou a guitarra na tomada e aguardou alguns momentos, enquanto o instrumento carregava. E foi assim que tudo começou. No início, Cecília dedilhou as cordas e cantou suavemente. Estava vulnerável. Sua voz cantarolou algumas lindas notas plangentes, que suplantaram a estática do amplificador. Ela começou a suar. Viu que suas mãos estavam começando a sangrar nos lugares exatos onde haviam sido perfuradas pela dama de ferro. Alguma coisa estava acontecendo com ela. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


O baterista da casa rapidamente se juntou a ela no palco. Ela pôs uma toalha sobre a cabeça e começou a bater o pé, marcando seu próprio ritmo. Depois, fez sinal para que o baterista entrasse em dois tempos. Era como se ela precisasse de uma trilha sonora para controlar o que estava dentro dela. Sentindo-se afogueada, ela jogou a toalha no chão. Poderia jurar que a viu irromper em chamas. Ela começou a cantar tão alto quanto possível, Estridente como uma banshee25 enfurecida como uma gata no cio. Parecia mais um exorcismo que qualquer outra coisa. Cecília tinha mais que alguns demônios para exorcizar. No início, a canção estava irreconhecível. Uma releitura áspera e punk de uma espécie de blues. Uma canção apresentada no estilo de Cecília. Alucinada e violenta. Era um local onde a música tinha importância. E, para Cecília, a música tinha importância — a música era seu coração, sua alma e sua realidade. Uma combinação ideal. De repente a música se revelou, ou foi revelada por Cecília. "Acorrentada no Tronco26". A pequena plateia blasé de aficionados musicais prendeu a respiração. Um murmúrio se espalhou pela sala. Em termos de canções cantadas ao vivo, essa era uma das sagradas. Os clientes do bar começaram a prestar atenção. Cecília tocava e uivava no minúsculo palco, com o corpo inclinado para a frente. Muitas pessoas, uma mistura de fleumáticos moradores do Lower East Side e garotos fanáticos por música, começaram a entrar na boate. Ou um I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

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Uma espécie de fada na mitologia irlandesa, vista como prenunciadora da morte e mensageira do além.

(N.T.) 26

"Whipping Post" — canção de Greg Allman gravada, em 1969, pela banda The Allman Brothers. (N.T.)


assassinato estava sendo cometido ou um show espetacular estava em andamento. No caso, eram as duas coisas. Qualquer uma delas valeria o dinheiro. Cecília arranhou as cordas e uivou: Meus amigos me dizem Que eu fui muito tola E eu tenho que ouvir, querido Porque amo você Cecília e o salão estavam febris. O que acontecia dentro dela — fosse o que fosse — era insuportável para ela, mas aparentemente interessante para muitos. Eu me afundo em tristezas Vendo o que você fez Parece que nada muda Os tempos ruins continuam E eu não consigo fugir A boate rapidamente se encheu até o limite, com uma publicidade boca a boca se alastrando pelas vizinhanças. Ela era cáustica e derramava sensualidade, vulnerabilidade, rebeldia e raiva — tudo ao mesmo tempo. Era como se fosse um canal para a grandiosidade, como se estivesse sendo usada como veículo por alguma coisa ou alguém maior. Às vezes eu me sinto Às vezes eu me sinto Como se estivesse amarrada Amarrada no tronco Amarrada no tronco Meu Deus, parece que vou morrer Ela deu um berro e começou a rolar no piso. Os ferimentos que sofrera na capela ainda estavam abertos. E quanto mais rolava e se arranhava na madeira áspera do piso, mais os ferimentos se abriam e inflamavam. Ela sentiu alguma coisa bater em suas costas. Pensando ser uma corda da guitarra que tivesse se rompido, checou o instrumento. Mas as seis cordas estavam no lugar. Ela olhou para o espelho rachado que havia no teto e teve a impressão de que um vergão surgira em suas costas. Alguma coisa estava acontecendo. Sentindo uma pontada de dor, Cecília olhou para a plateia, mas não viu as pessoas, apenas partes delas — mãos, dentes, tatuagens, cotovelos, cabelos, sapatos. Ela gemeu de dor, enquanto era açoitada verbalmente pelos especI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


tadores, atitude típica de empolgação com o espetáculo, e fisicamente por alguma coisa invisível. Chicotada após chicotada, na frente de todo mundo. Era como se ela estivesse sendo açoitada por sua própria essência. Por um Inquisidor invisível. Amarrada no tronco Amarrada no tronco Meu Deus, parece que vou morrer Estas foram as últimas palavras de que ela se lembrou. Cecília acordou. No teto do prédio, ao lado de Bill. — O que aconteceu? — perguntou ela desesperadamente. — O que está acontecendo? — As coisas estão diferentes agora, respondeu ele. — Tenho que sair daqui — disse ela. — Eu sei — concordou ele. — Posso ajudar em alguma coisa? Cecília recolheu algumas roupas que pusera para secar em um duto de ar, e as enfiou no estojo da guitarra. — Você pode escrever sobre tudo isso — disse ela, antes de descer as escadas. O Baile do Museu do Brooklyn, ou "O Baile", como o chamavam os moradores locais, era o evento social do ano no distrito. Lucy nunca perdia a oportunidade de caminhar sobre o tapete vermelho, e este ano não era exceção. Com Jesse na Casa de Detenção, Lucy foi desacompanhada, o que lhe dava uma sensação estranha. Eles haviam comparecido juntos ao evento nos últimos anos -— o que garantia publicidade para ela e, para ele, o ingresso. Também garantia a ela alguém para conversar. Ela estava começando a ser uma das pessoas mais conhecidas do distrito, mas não uma das mais queridas. Ela não sabia como seria percebido seu recente "hiato", mas o segredo de ser uma Garota da Moda estava em jamais perder um baile importante. Por. Motivo. Nenhum. Era uma obrigação que ela tinha. Consigo mesma. Comparecer a este evento era como voltar à tona da forma mais pública I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


possível. Ela ainda não sabia bem o que queria no futuro, portanto se ater ao que conhecia parecia a coisa certa a fazer. O show tinha que continuar, pensou ela. E para Lucy isso incluía um vestido de tafetá preto assinado por John Galliano — com um ombro à mostra, colete justo e saia com intrincados babados e cauda. Seu rosto estava impecável: claro e liso. Até os lábios estavam cobertos de corretor, assim como o restante do rosto, exceto os olhos, maquiados com sombra rosada para camuflar a ligeira descoloração remanescente das queimaduras de cera na capela — o que, de quebra, poderia criar a próxima moda. Aliás, ela não era a primeira garota que parecia ter sido descascada a caminhar por aquele tapete vermelho. Os motivos de Lucy para comparecer, desta vez, eram mais nobres que o egoísmo e a autopromoção. Ela se oferecera para ser leiloada no jantar de gala, com o dinheiro revertido para obras de caridade. Uma excelente oportunidade para conhecer pessoas influentes, pensou ela no início. Mas agora, considerando a devastação provocada pela tempestade e tudo mais que ocorrera recentemente, ela estava de fato empolgada com a oportunidade. O baile era conhecido por suas excentricidades e, neste ano, os organizadores haviam superado a si mesmos. O desfile no tapete vermelho vinha depois do coquetel e do jantar. Era um esforço, explicaram os organizadores através de um press release, para encorajar os convidados a se misturar e, principalmente, a permanecer até a hora do leilão de caridade, em vez de darem o fora após algumas fotos. Alguns convidados, por seu turno, suspeitavam que isso era, na verdade, um artifício encontrado pelo comitê organizador para garantir aos repórteres algumas fotos de celebridades tropeçando, caindo ou exibindo acidentalmente os seios, enquanto desfilavam no tapete vermelho ou entravam em suas limusines. Lucy não dava a mínima. Fosse qual fosse o motivo, achava ela, tanto os espectadores quanto os repórteres gostariam muito mais de ver as celebridades sonolentas ou de porre após terem se enchido de acepi- pes e I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


álcool. Ela avaliou o tamanho da multidão de tietes profissionais, mantidos à distância por seguranças e cordas de veludo, todos esperando para bramir sua aprovação indiscriminada ao final do baile, e teve certeza de que seria uma noite bem-sucedida, tanto para seu ego quanto para sua grife. — Você está atrasada — disse rispidamente um fiscal vestido de smoking, que portava um walkie-talkie. Ela estava. Seu sentido de tempo realmente não era mais o mesmo depois da tempestade. E sem Jesse para espicaçá-la, ela tinha sorte por ter ao menos conseguido chegar. Usou, então, a desculpa padrão. — Meu carro chegou atrasado. Pela expressão exasperada no rosto do homem, não era a primeira vez, naquela noite, que ele ouvia essa desculpa. — Problemas de pessoas ricas — desdenhou ele, enquanto pressionava um botão do seu aparelho. — Estou com ela aqui. Lucy sentiu-se como um desses animais que às vezes escapam do zoológico e armam um tumulto, depois de capturado. — Não vai precisar de uma arma com tranquilizante? — O jantar já está quase no final — disse ele, com ar de pouco caso, agarrando com força o braço dela. — Você vai ser a primeira no leilão. Enquanto era conduzida até os bastidores do palco, como uma dançarina amadora em um programa de televisão, Lucy notou uma fileira de cabeças penduradas sobre as mesas de aperitivos, no salão de jantar. Todas retratavam pessoas ricas e famosas da cidade. Quando as lâmpadas acima delas foram ligadas, as cabeças começaram a derreter lentamente, pingando nos biscoitos que os comensais colocavam abaixo. Era como se o museu de cera de Madame Tussaud estivesse se incendiando. Lucy percebeu que uma das cabeças era parecida com ela. Ela fora decapitada. E queimada. Seus traços logo se dissolveram sob o calor das lâmpadas e alimentaram bocas famintas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ela não poderia se sentir mais glorificada. O fiscal a conduziu até o pé de uma pequena escadaria. — Quando falarem o seu nome, suba a escada e entre no palco. — E depois, o que eu faço? — Fique parada lá — disse ele, reiniciando sua entrecortada conversa pelo rádio com algum colega no museu. — Você é boa nisso. Uma matilha de homens trintões, obviamente supercompetitivos e bem casados, todos membros da classe dominante, lançaram-lhe olhares furtivos por sobre suas flütes semivazias de champanhe, e começaram a sussurrar. As línguas estavam soltas. Cada vez menos à vontade, Lucy esperou para ser apresentada. Sentia os olhares sobre ela, brilhando selvagemente, avaliando-a e calculando seu valor. Ávidos por sua juventude, sua beleza, sua ambição, seu sucesso. Lucy tentou manter o queixo erguido, mas sua cabeça ainda doía. Ela podia contar as batidas de seu coração pelo latejamento em sua testa. — ... a nossa garota do Brooklyn, Lucy Sortuda Ambrooooose. Ela se concentrara tanto na dor, que instantaneamente a fez pensar em Sebastian, que mal ouviu seu nome mencionado pelo mestre de cerimônias e os polidos aplausos que se seguiram. O fiscal surgiu por trás dela e lhe deu um empurrão. — Vai! Lucy irrompeu por entre a cortina e praticamente galopou até a beirada do palco. Quando parou, pôs as mãos na cintura, pronta para abafar. Era uma pose desafiadora, sedutora. Se havia uma coisa que ela sabia fazer era vender a si mesma. E nesta noite ela estava literalmente se oferecendo pela melhor oferta. A plateia adorou. — Muito bem, senhoras e senhores, quanto vocês pagam por um jantar exclusivo com esta linda jovem no River Café? Os lances surgiram rápida e furiosamente, cada um maior que o outro, mesa a mesa, junto com berros e assovios, todo o decoro indo para o espaço. Flomens endinheirados, principalmente, largaram seus talheres, limparam o I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


molho que lhes escorria pelo queixo, afrouxaram as gravatas e os colarinhos e procuraram seus talões de cheques. Maridos e namorados recebiam olhares desaprovadores de esposas e namoradas ciumentas. Era uma cena primitiva, até o cheiro do salão muito sutil- mente — de um aroma floral para o odor almiscarado e suarento de um vestiário masculino. — As despensas precisam ser abastecidas, pessoal. Nós não podemos fazer isso sem a colaboração dos senhores! Lucy conjeturou sobre como aquela situação seria vista do lado de fora. Todos aqueles indivíduos fazendo ofertas por seu tempo e sua atenção. Era tudo muito comercial. Será que eles ao menos sabiam qual instituição beneficente estariam ajudando? Ela mesma não sabia, mas, como os licitantes, queria vencer, queria ser o prêmio mais valioso e disputado da noite. Não se importava com quem pagaria o preço. — Abram as carteiras, senhores! — gritou ela atrevidamente. — Colaborem até não sobrar nada. Lucy entrou no jogo para valer. Quanto mais alto o lance, mais ela recuava para o fundo do palco, provocando e sugestionando os licitantes, juntamente com o mestre de cerimônias, a aumentarem as ofertas. Sentia- se, ao mesmo tempo, aviltada e poderosa. Era bom ter tanto controle, tanta influência. Atrair tanta atenção. — Não sejam sovinas, senhores — bradou o mestre de cerimônias. — E tudo por uma boa causa! Diante deste desafio, alguém fez um lance descomunal, o dobro do mais alto até aquele momento. A multidão fez silêncio, enquanto o mestre de cerimônias pedia um lance maior. — Dou-lhe uma. — Dou-lhe duas. — Dou-lhe três! — Srta. Ambrose, por favor, dírija-se à mesa seis para conhecer o vencedor. Lucy desceu cautelosamente para o obscurecido salão de jantar, I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


temendo que a dor de cabeça, que retornara subitamente, estivesse afetando sua visão. Após passar cambaleando por algumas mesas, ela chegou à mesa seis, ocupada apenas por um homem sozinho. — Olá, srta. Ambrose. — Olá. — Uma festa maravilhosa. Foi muito atruísta de sua parte passar por isso tudo. Mesmo para ajudar uma instituição beneficente, — Tudo por uma boa causa — disse Lucy, sorrindo. — A propósito, parabéns. Lucy apertou os olhos para enxergar o crachá do homem. Ele parecia não estar usando nenhum. — Dr. Frey — disse ele, levantando-se e estendendo a mão formalmente. — Por favor, sente-se. A reconhecer o nome, Lucy afrouxou o aperto e recolheu rapidamente a mão. Parecia doente, no entender do médico. Sentindo-se trôpega, ela pousou a mão na mesa para manter o equilíbrio. — Você está bem? — perguntou o médico. — Sim. Tudo bem. — Muitas pessoas foram surpreendidas pela tempestade e ficaram doentes — disse ele, olhando atentamente para ela. — Dor de cabeça. Olhos vermelhos e inchados. Uma gripe feia. Nós estamos vendo muito disso no hospital. Era claro que ele a estava sondando. — Eu estava em casa. — Claro — disse ele. — Isso explica por que nós não tivemos muitas notícias a seu respeito ultimamente. — Eu jamais imaginaria que um homem com as suas responsabilidades saberia quem eu sou. — Muito pelo contrário. Sei exatamente quem você é. Ela engoliu em seco. — Como todo mundo, não é? — concluiu ele, com um sorriso. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Lucy sentiu os joelhos fraquejarem, dobrarem-se. — Desculpe, mas não estou me sentindo muito bem, afinal de contas. Podemos marcar outro dia? — Não se preocupe — disse Frey, enfiando a mão no bolso. — Eis meu cartão. Fique à vontade para me ligar e marcar o jantar quando estiver se sentindo melhor. — Obrigada. Lucy se virou para ir embora. Quando começou a se afastar, deu uma olhada por cima do ombro, para ver se o médico a estava seguindo. Não estava. Ele a tinha liberado. Ela mordeu os lábios para não gritar de alegria. — Ah, srta. Ambrose? Lucy gelou. Tinha que lhe dar atenção. Outras pessoas estavam olhando. Escutando. — Estou surpreso que você não esteja usando seu bracelete — disse Frey. — Seria o acessório perfeito para um evento tão importante. — Bracelete? — perguntou Lucy, sabendo muito bem a que ele se referia. — Ah, desculpe. Eu estava me referindo à pulseira de contas brancas que você estava usando em uma de suas fotos on-line. Onde você conseguiu uma coisa assim? — Foi um presente. — Bem, seja quem for que lhe deu isso deve conhecer você muito bem — disse ele. — O bracelete combina com você. Lucy se virou e brindou Frey com um meio sorriso, mantendo o controle por mais alguns segundos. — Em nome dos patrocinadores do Museu do Brooklyn, obrigada por sua generosa contribuição, doutor. — Você vale cada centavo, Lucy — respondeu Frey. Lucy sentiu sua cabeça prestes a explodir. Jogando o cartão no chão, pisou nele e limpou a mão. Depois procurou uma saída, qualquer saída, mas para onde quer que se virasse, no salão lotado, encontrava o caminho I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


bloqueado por uma mesa, um garçom, um admirador, um desafeto. Cabeças de papel machê vomitando rosas, usadas como peças de centro das mesas, destacavam-se de forma surrealista em meio a guardanapos amarfanhados, copos marcados de batom e pratos com ossos de leitão e coelho, selvagemente devorados por lindas mulheres e seus superalimentados acompanhantes. — Por favor — suplicou ela, tentando abrir caminho na multidão. — Eu preciso sair daqui. Quando já estava a caminho de uma porta aberta, foi puxada para o lado com tanta força que quase foi arrancada de seus sapatos altos. — O tapete vermelho é por aqui. O fiscal designado para ela não aceitaria um não como resposta. Ela foi empurrada por uma porta diretamente no corredor do desfile, assim como antes fora empurrada escada acima. Entregue como uma encomenda. Flashes faiscaram. Dezenas deles. — Lucy! Fotógrafos e fãs berravam o nome dela. Todos ansiando por reconhecimento, como amantes fogosos. Um ambiente barulhento e caótico. Confuso. Enlouquecedor. O que já fora um prazer parecia agora um castigo. Os flashes fizeram sua enxaqueca aumentar brutalmente. Tonta e em pânico, ela começou a esfregar a testa. — Socorro! — gritou. Num espaço escuro entre dois flashes, Lucy poderia jurar que vira Sebastian abrindo caminho na multidão, tentando chegar até ela. Lucy o chamou, mas sem resultado. — Sebastian! Ela caminhou vagarosamente pelo infindável tapete vermelho, sozinha, exposta, ainda esfregando a testa, ainda alerta o bastante para saber que os editores de fotografia poderiam obter a foto humilhante que procuravam às suas custas. De repente, ouviu-se um grito assustador. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Ah, meu Deus! Gotas de sangue escorriam pelas pernas de Lucy, sujando o tapete. No início, houve um mal estar coletivo. Parecia que Lucy ficara menstruada. Mas quando ela tirou as mãos do rosto, a verdadeira origem do sangue foi revelada. As lágrimas de Lucy eram de sangue. Os flashes entraram em frenesi novamente. Os brancos dos olhos de Lucy estavam vermelhos. Ela olhou para a tenda branca acima dela e a sentiu sair de foco, cada vez mais, até que ela mal conseguia distinguir o enorme dossel. — Meus olhos — disse ela, repetidamente. Ela não conseguiu ver mais nada até fechá-los. Então, tudo que o pôde ver foi ele. Uma mulher mais velha, garçonete do baile, achou que já vira o bastante e correu em direção à garota, que estava sofrendo aquele brutal ataque da mídia. Ela conduziu Lucy até os bastidores, fora do alcance visual dos fotógrafos. Ao chegar lá, Lucy desmaiou em seus braços solidários. Os funcionários do evento começaram a cercá-las, mais preocupados com possíveis processos que com a garota. Um simples olhar da garçonete foi o suficiente para dispersá-los. — É para chamar uma ambulância? — perguntou o fiscal, enquanto recuava. — Não — disse a mulher em tom autoritário. Puxou então um lenço branco e o pousou sobre o rosto de Lucy, para secar o sangue e as lágrimas. Quando o removeu, notou que uma réplica do rosto da garota, delineado com sangue, fora transferido para o pano. A mulher enfiou o lenço no bolso de seu avental, com cuidado, respeitosamente, e tentou reconfortar a garota, afastando os cabelos de seu rosto. — Ai, minha cabeça — gemeu Lucy. — Parece que está rachando. Gentilmente, a mulher segurou sua mão e passou os dedos em seus I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


pulsos, no lugar exato em que estava o bracelete. Depois começou a fazer sinais da cruz, enquanto sussurrava preces nos ouvidos de Lucy. Lucy bocejou. E bocejou de novo. E de novo. — Ótimo, deixe sair — disse a mulher. A dor pareceu se escoar pela boca aberta de Lucy. Que relaxou, enquanto a mulher a aninhava em seus braços. — O que houve? — perguntou Lucy, quando cessou a dor de cabeça. — Uma fatura — disse a mulher, com forte sotaque italiano. — O malocchio. — Não estou entendendo — disse Lucy, limpando os olhos e o rosto. — É como uma maldição. O mau-olhado. — Ah, não acredito nessas coisas. — Não importa que você não acredite. O que importa é a verdade. — Eu já nem sei mais o que é verdade — disse Lucy, pondo-se de pé. — Obrigada por ter me ajudado. — Não — disse a mulher. — Eu é que a agradeço. Lucy ficou lisonjeada por ter causado um impacto tão grande naquela mulher. Nunca imaginara que sua fama tivesse ido tão longe, principalmente em seu próprio bairro, onde tendia a ser menos popular e mais antipatizada. Ela deu um abraço forte na mulher, como imaginava que abraçaria sua mãe, caso a visse novamente. A garçonete enfiou a mão em outro bolso de seu avental e tirou um talismã de ouro, no formato de uma cornucopia, e o depositou na mão de Lucy. — Quem é você? — perguntou Lucy. — Perpetua. — A velha senhora sorriu. — Moro na vizinhança. Perto da Preciosíssimo Sangue. Dei abrigo a ele depois que fugiu, assim ele não será encontrado quando for procurado na igreja. — Sebastian? — perguntou Lucy, aturdida. Elas viviam em mundos diferentes. Até agora. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Um não pôde proteger você. Três podem te salvar. Está me entendendo? — Sim — respondeu Lucy. — Acho que estou. — Então volte para ele.

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24 DES/GRAÇA

I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

— Você deve achar que eu sou uma espécie de psicótica, não é? — desabafou Agnes, enquanto juntava suas coisas e se encaminhava para a porta. Sua paranoia chegara a extremos. Ela tinha a impressão de estar sendo vigiada, mesmo dentro de casa. — Só sei o que vejo — respondeu sua mãe pachorrentamente, sem demonstrar contrariedade nem solidariedade, enquanto Agnes se preparava para deixá-la de novo. — Pareço maluca? — perguntou Agnes, tentando provocar algum tipo de reação.


— Você parece uma garota sem nada a perder — disse Martha com franqueza, olhando a filha de alto a baixo. — Vou rezar por você — acrescentou ela, quando Agnes se aproximou da porta. — Não, mãe — disse Agnes, vestindo seu poncho de lã de ovelha. — Eu é que vou rezar por você. Agnes correu começou a correr pelo quarteirão, mas parou de repente ao ouvir o som de crianças brincando no pátio da escola São João. Viu um garotinho que lhe pareceu familiar. Era Jude. Ela correu até a alta cerca de arame que cercava o pátio e se agarrou à tela, esperando que o menino a reconhecesse — um sorriso, um olhar, qualquer coisa — mas não teve muita sorte. Ele estava em pé ao lado de uma mulher de meia-idade, uma freira, diante de um objeto feito à mão pendurado diante de ambos. — Os sete pontos da pinata simbolizam os sete pecados capitais — explicou a freira, apontando uma fina vara de madeira para cada ponta. — Avareza, Luxúria. Orgulho. Gula. Cólera. Preguiça. Inveja. A freira pôs uma tira de pano em frente aos olhos do garoto, dobrou- -a e a amarrou ao redor de sua cabeça. Depois, suavemente, fez o garoto rodopiar algumas vezes, explicando a ele o significado profundo daquela brincadeira tradicional. Agnes engoliu em seco. A imagem da criança de olhos vendados a deixou perturbada. — A pessoa de olhos vendados significa a fé. O rodopio simboliza a desorientação da tentação. Ela pôs a vara na mão do garoto e o instruiu a começar. Agnes estava nervosa por causa do garoto. Ela já participara desse jogo inúmeras vezes, em festas de aniversário. Era difícil, e Jude não era uma criança "típica", pelo que ela já vira. — Bater na pinata lembra a batalha contra o mal. Derrote o mal e a recompensa é revelada. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Jude segurou a vara também com a outra mão, para firmá-la, e bateu na pinata uma vez, medindo a distância que o separava do objeto suspenso. Depois levantou a vara sobre a cabeça como um cavaleiro com uma espada pesada. Pela careta em seu rosto, quando bateu na pinata, Agnes quase podia sentir como ele queria as balas. Ele bateu de cima para baixo e de um lado para outro. Agnes ficou surpresa com a precisão dele, mas o objeto não sofreu nenhum dano. Jude ficava cada vez mais frustrado à medida que a brincadeira se prolongava. A freira retirou a vara de sua mão e bateu na pinata, também inutilmente. Então a devolveu ao garoto. — Faça de novo — disse ela, aconselhando paciência e perseverança. O garoto golpeou o objeto e entregou a vara à professora, que fez o mesmo. O procedimento foi repetido várias vezes. Agnes estava maravilhada. Esta era, possivelmente, a primeira combinação entre educação religiosa e terapia ocupacional que ela vira. Outras crianças começaram a olhar para Jude, contando os golpes e lambendo os lábios com impaciência, antegozando as balas que, segundo esperavam, acabariam caindo. Por sua vez, Agnes estava começando a sentir pena da pinata. Até que um novo golpe da freira se mostrou eficiente. Fez uma mossa no objeto. Então, na sua vez, Jude conseguiu abrir a pinata com uma forte pancada. As balas se derramaram e as crianças correram para pegá-las. — Está vendo, Jude — disse a freira, ajoelhando-se para ajudar a criançada a recolher os tesouros açucarados. — Nem sempre se pode fazer tudo sozinho. Tudo mundo tem um papel a desempenhar. Agnes sorriu, não só por causa do garoto e de sua conquista, mas também por ter pensado em Sebastian, Cecília e Lucy naquele momento. Havia mais que uma lição naquele jogo, sentia Agnes. Havia uma mensagem. Uma mensagem para ela. Para sua surpresa, Jude retirou a venda e olhou diretamente pata ela, como se soubesse o tempo todo que ela estava ali. Ela acenou para ele, e o I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


menino, aproveitando que a freira estava distraída, correu até ela, deixando de lado as balas que conquistara. — Eu falei com ele — disse Agnes. O garoto deu um beijo nela através da tela de arame. — Existem cobras atrás das pedras. Você pode não ver essas cobras. Mas você sabe que elas estão lá — sussurrou Jude. Neste momento, a Freira correu até Jude e segurou sua mão. — Você não deveria se afastar assim — disse ela severamente, olhando direto nos olhos do garoto. — Acho que ele queria me dizer alguma coisa — explicou Agnes, esperando livrar Jude de alguma encrenca. — Sinto muito, mas isso é impossível — disse a freira. — Ele é não verbal. Ele não fala.

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Cecília acordou com a chuva morna que se infiltrava pela grade acima e pingava sobre ela, no canto imundo da estação do metrô que ela atualmente chamava de casa. Abriu os olhos para se certificar de que era mesmo chuva, e não algum vagabundo se aliviando por cima dela, só para se divertir. Ou coisa pior. Quando se esgueirara até o metrô para dormir um pouco, na noite anterior, ela teve a sinistra sensação de que estava sendo seguida. O metrô não era exatamente o melhor lugar para se esconder, mas era o mais bem iluminado, àquela hora da noite, e isto era uma vantagem. Havia uma pessoa, encolhida em posição fetal, deitada perto dela. Perto demais para não incomodar. — Ei — disse Cecília, cutucando a garota com o pé. — Levante!


A garota gemeu, virou-se lentamente e se ergueu nas mãos e joelhos. Cecília a reconheceu imediatamente, embora seus longos cabelos lhe cobrissem a maior parte do rosto. Era Catherine. Sua fã de Pittsburgh. Ou o que restava dela, — Você estava me seguindo ? — Não — disse Catherine, baixinho, erguendo a cabeça sob a luz fria. Ela estava muito machucada, Seus cabelos estavam desgrenhados; suas roupas, sujas e surradas. Era claro que não era a primeira noite que ela passava na rua. Quanto tempo se passara desde que a vira perto da boate?, conjeturou Ceci sonolentamente. Uma semana? Duas? Pelos olhos encovados de Catherine, poderiam ter sido anos. — Quem fez isso com você? — perguntou Cecília, segurando o rosto da garota entre suas mãos. — Que importa isso? — respondeu Catherine com os lábios inchados, mal conseguindo reunir forças para articular palavras. — Sim — disse Cecília, já pressentindo a resposta. — Me conte. — A turma de Ricky. Eles disseram que eu poderia cantar na banda — disse Catherine. — Me convidaram para ir até o local de ensaio deles em Williamsburg. Disseram que eu poderia ficar lá com eles. Cecília não precisava ouvir o resto. Já sabia. — Nova York não é lugar para alguém como você — disse Cecília, irritada com a ingenuidade da garota. — Eu já lhe disse. E melhor você ir para casa. — Acreditei neles — disse Catherine, tristemente. — Estou tão envergonhada. Cecília resolveu parar de lhe fazer sermões, de tentar resolver os problemas dela. Ela também estivera assim. Tivera sua cota de erros. Era como olhar em um espelho. Ela tirou um lenço do bolso e limpou o rosto e os olhos da garota. — Às vezes nós confiamos nas pessoas erradas. — O que você faria? Iria mesmo embora? Desistiria dos seus sonhos? I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Foi o que eu pensei — disse a garota com ar fatigado. — E por isso que você é ótima. Cecília tirou sua guitarra do estojo, pôs algumas moedas num copinho de plástico e começou a tocar. — O que houve? — perguntou Catherine. — Realidade. É uma droga, mas a vida é cheia dela. — Sim. — Sim o quê? — perguntou Cecília pousando a guitarra. — Sim, ainda quero ser como você. — Por quê? Para cantar em troca de uma refeição, viver nas ruas e afundar em tudo o que é tipo de vício? — Não posso ir embora, simplesmente desistir. Cecília ouviu as palavras dela e pensou em Agnes, Sabia que não havia jeito de mover Catherine. — Você é quem sabe, Catherine. Você já está pagando o preço. — Eu nem mesmo acho que tenho escolha. É como se fosse meu destino. Cecília olhou para a frente, impassível, pensando em Sebastian. — Quer dizer, eu acho que nossos sonhos nos escolhem, não o contrário — prosseguiu Catherine. — Tenho que ficar e realizar o que vim fazer aqui. Seja lá o que for. — Eu sei. Cecília pegou novamente a guitarra. — De volta ao trabalho — disse Catherine. — Posso ficar aqui um pouco? — Claro, por favor — respondeu Cecília, começando a dedilhar uma canção em tom menor. — Assim terei certeza de que pelo menos uma pessoa vai escutar. — Uma pessoa é tudo o que você precisa. — Você tem toda a razão. Cecília entoou algumas palavras sobre os mesmos acordes que tocara na I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


igreja. — Incrível — disse Catherine. — É sobre algum cara que você conhece. — É. — Você já cantou isso para ele? Catherine arregalou os olhos, com um pouco da expressão de tie te de volta a seu rosto. — Ainda não. Uma composição entrou ruidosamente na estação, interrompendo a conversa, mas não a canção de Cecília. Ela continuou a cantar em meio ao fragor estridente, de olhos fechados e cabeça baixa, enquanto alguns passageiros corriam para as portas e a composição partia. Era a última. Cecília abanou a cabeça, olhou para a estação vazia e suja, e depois para Catherine. — Isso parece um sonho? — perguntou, mais a si mesma que a Catherine. — Não — admitiu a garota. — Não parece. — Bem, então o que parece? — Uma vocação — respondeu Catherine. — Sem cafeína ou normal, querida? — perguntou a garçonete. — Normal — respondeu Lucy pensativamente. A garçonete encheu uma xícara pousada à frente de Lucy, que se sentia um pouco tonta, devido à experiência que tivera no museu. Era de madrugada. Lucy estava em uma lanchonete da Cadman Plaza. Sozinha. Como sempre, não conseguia se lembrar de como chegara ali. Exceto que, desta vez, vodca e Vicodin não eram o motivo. O motivo era sobrenatural. Lucy se sentia observada, mas não pelos babacas e maníacos que costumavam segui-la. — Está precisando de alguma coisa para acordar? — perguntou uma voz anasalada, aparentemente vinda de lugar nenhum. Lucy ficou atônita. Geralmente era deixada em paz no bairro. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— O café — acrescentou a garota. Lucy levantou os olhos. Era Sadie. Não a via desde a noite em que ambas tinham estado no setor de emergência do hospital. — Sadie? — exclamou Lucy humildemente, levantando-se. — Hmm, como vai? Havia tristeza nos olhos da garota. Lucy se pôs em guarda para ouvir as recriminações que certamente viriam e as recriminações que com certeza merecia. Rapidamente, preparou sua defesa. Jesse me fez fazer isso, foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu. Era verdade, mas uma desculpa muito esfarrapada para tê-la entregue a Jesse. Ela tinha o direito de manter sua gravidez e tudo o mais em segredo. Quase por reflexo, Lucy olhou para a barriga da garota, mas não viu nenhum sinal de vida. — Eu só queria agradecer a você — disse Sadie. — Por quê? — Por ter me ajudado a dar uma reviravolta na minha vida. — É mesmo? — perguntou Lucy, sinceramente surpresa. — Você me expôs. — Não estou entendendo. — Quando a notícia saiu, com a foto que você tirou, começaram os olhares maldosos e as fofocas. Então entendi o que minha vida tinha se tornado. Quem eram meus verdadeiros amigos. O que era importante para mim. Para Lucy, isso não soou muito como um cumprimento. Parecia mais um insulto disfarçado. Uma coisa em que Sadie era especialista. — Ainda não estou entendendo... — Eu não abortei, Lucy. Eu perdi o bebê. Lucy mordeu o lábio inferior para impedi-lo de tremer. Como estava errada... — Eu lamento muito — disse ela, com preocupação e remorso autênticos se estampando em seu rosto. Ela lamentava muito. Lamentava ter feito a piada sobre o aborto, por I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


ter batido a foto; e lamentava ainda mais a tremenda perda que Sadie teria que suportar. — Tudo bem — disse Sadie. — Eu já saí daquele mundo. Para sempre. — E Tim? — perguntou Lucy. — Como ele está encarando isso? — Ele está bem — explicou Sadie, forçando um sorriso em meio a suas lágrimas. — Voltou para a namorada e contou tudo à avó dele. Ela disse que os anjos quiseram guardar o bebê só para eles, porque ele seria muito bonito. — Tenho certeza de que ela tem razão — disse Lucy, segurando a mão da garota. — Sei que ela tem. Lucy olhou para seu café, que estava esfriando, e percebeu que tinha perdido a fome. — Só de falar no assunto com você, já me sinto muito melhor. Não contei a ninguém fora da família. Não me importo com o que os outros vão pensar. Eles já formaram a opinião deles, de qualquer forma. — Você sabe que isso não é coisa para se ter vergonha, não sabe? — indagou Lucy, com ar solidário. — Você não fez nada errado. Não foi culpa sua. — Obrigada —- fungou Sadie. — Vou tentar me lembrar disso. Lucy se encolheu ao pensar em como ela facilmente traíra aquela garota em uma hora de necessidade, assim como fizera com Sebastian. Lágrimas começaram a encher seus olhos. Ela sabia que tinha de se redimir. — Desculpe — disse novamente, abraçando Sadie o mais apertado que pôde. — Está desculpada. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


25 A ÚLTIMA CHAMADA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Ao cair da noite elas chegaram à igreja. Uma por uma. Na mesma ordem em que haviam chegado anteriormente. Lucy. Cecília. Agnes. Todas sem fôlego e todas com um pressentimento ruim. Olhando por cima dos ombros. Elas se encontraram no saguão, o que não foi muito inesperado, e sorriram simpaticamente uma para a outra. Não houve abraços nem beijos. Nem palavras. Nenhuma se fazia necessária. Apenas suspiros de alívio e compaixão. — Vocês sentiram também, não foi? — perguntou Lucy às outras


garotas. Elas sabiam a que Lucy estava se referindo. Era como um puxão no âmago de cada uma. Um fogo na parte de trás de suas cabeças e no fundo de seus corações, que ia se tornando mais ardente à medida que ficavam longe da igreja. Uma inquietude que elas tinham quando crianças, e mais intensamente na adolescência, uma sensação de que alguma coisa grandiosa estava reservada para elas. Porém, mais do que tudo, era o desejo de voltar para ele. Todas tinham a mesma compulsão. — Sim — respondeu Cecília. — Sim — disse Agnes. Agnes falou a elas sobre suas santas homônimas, e a influência que exerceram. Falou sobre seus martírios. — Eu já falei, não sou religiosa — disse Lucy. — Virgem? — exclamou Cecília. — Isso me deixa fora. — Essa não é a questão. Era uma época diferente — rebateu Agnes. — O negócio é perceber o que é mais importante, o que nós pretendemos ser, o que pretendemos fazer. E o que estamos dispostas a sacrificar por isso. Elas deram tudo o que tinham pelo que acreditavam. Alegremente. Um amor, um dever, uma vocação que ia além delas mesmas. — Ah, sim, e qual é nossa vocação? — perguntou Cecília. — Não sei, mas acredito que seja alguma coisa que nós não podemos fazer sozinhas. Como abrir a porta da capela — afirmou Agnes. — Nós pensamos que ele queria trazer nós três para junto dele. Agora acho que o que ele realmente queria era nos juntar. — Nós sabemos mais uma coisa — disse Ceci. — Sabemos que tem alguém tentando nos deter. — Mas por quê? — Ele pode nos explicar. Lucy gritou por Sebastian, mas não houve resposta. — Você acha que ele ainda está aqui? — perguntou Cecília. — Deve estar — disse Lucy com ar preocupado. — Será que ele está I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


zangado conosco? — Ele está aqui — disse Agnes com convicção. — No ossuário. Em meio ao entulho espalhado pelo chão — tábuas empenadas, vigas quebradas, vidros estilhaçados e gesso —, elas caminharam por um corredor lateral, contemplando a velha igreja como se esta fosse uma atração turística favorita prestes a ser implodida. Entraram então na sacristia, que ainda mostrava sinais da bagunça que elas haviam feito alguns dias antes. Parecia que ninguém havia estado lá desde então. A porta da escadaria estava diante delas. Lucy parou. — Todos os nossos problemas, todas as nossas perguntas começaram depois que entramos aqui. — Começaram muito antes — disse Cecília, passando por Lucy e segurando a maçaneta da porta. — Oi, Bill. Como vão as coisas? O velho viciado apertou os olhos intumescidos de ressaca e observou o jovem magro, de cabelos desgrenhados, camiseta cuidadosamente rasgada, grossa corrente de carteira e calça jeans bem justa. Tudo nele indicava um babaca. Na verdade, Bill teria jurado que se tratava de uma garota, ou pelo menos um transexual, no mínimo, se não fosse pela voz grave. — É o Ricky. Ricky Pyro — disse o cara, balançando o corpo. — Você já me viu tocar. Foi quando eu usei sua máquina para escrever uma das minhas canções. Confuso, Bill vasculhou suas células cerebrais, procurando uma que por acaso tivesse sobrevivido entre aquele momento e seu último drinque. Mesmo assim, não conseguiu se lembrar do garoto. — Vamos lá. Você sabe. Ricky Rehab. Do programa do dr. Frey, no hospital — disse o roqueiro, em voz um tanto mais baixa, inclinando-se sobre o ouvido de Bill. — Ah, sim, agora me lembrei. Ricky. — É isso aí, Bill. Posso repartir essa calçada com você? Ricky se acomodou em seu traseiro ossudo, descansando os antebraços I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


sobre os joelhos. O ancião não pôde deixar de notar o saco de papel que o garoto estava segurando. Ricky não pôde deixar de notar que Bill vira o saco de papel. Como esperara, o saco quebrou o gelo. Subitamente, Bill se tornou sociável. — Você é amigo de Ceci, não é? — Em algumas noites — disse Ricky, dando uma risada e cutucando o velho com o cotovelo, como se este fosse um amigo. — Você a tem visto? — Não ultimamente, mas ela apareceu na noite passada — disse Bill, cutucando Ricky também, mas sem muita convicção. — Ela me traz um lanche, de vez em quando. — Ela lhe disse por onde tem andado? — Ah, sim. Até me disse para escrever tudo. Bill puxou algumas folhas manuscritas do bolso do casaco e as mostrou para Ricky, de modo provocador. A caligrafia era quase ilegível. — Parece uma boa história. Conte pra mim. Bill entrou em estado de alerta. Era um drogado, não um otário. — Não posso fazer isso. Ela me fez jurar segredo. Promessa é promessa. Ricky balançou o saco de papel. O som familiar de líquido se agitando dentro de uma garrafa era mais do que óbvio para o ancião. — É, mas Ceci sabe tudo sobre promessas de viciados. Bill baixou a cabeça ligeiramente. — Tudo bem, então, Bill. Tenho que ir. Foi ótimo ver você de novo — disse Ricky. Quando Ricky já estava começando a se levantar do chão, Bill segurou seu braço, o que estava com a garrafa. — O que você tem aí, filho? — Aguardente — disse o roqueiro, com um sorriso. — Água sagrada, você quer dizer — retrucou o velho, dando uma pequena gargalhada. -— Depende do ponto de vista, eu acho — comentou Ricky. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Os olhos de Bill estavam vidrados no saco de papel, como um gato faminto no beco atrás de um restaurante. O suave som de líquido chapinhando de um lado para outro era tão atraente para ele quando o marulho de ondas em um resort à beira-mar. — Me fale sobre Ceci — disse Ricky, em tom muito mais sério e exigente. — Não sei — disse Bill nervosamente. — E uma coisa muito pessoal. Eu prometi manter tudo entre nós dois. — Ela nunca saberá, Bill. Ricky abriu a tampa da garrafa. O aroma do álcool entrou no nariz de Bill como se fosse anestesia. Bill não conseguiu resistir mais. — Tudo bem, mas não fique furioso comigo se isso ferir seus sentimentos. Sou só o mensageiro. — Não vou me aborrecer, juro. — Ela encontrou ura cara durante a tempestade. Acho que eles passaram umas noites naquela igreja velha e grande que está sendo demolida. Você sabe qual é. — Sei — disse Ricky, contraindo o rosto e apertando os olhos. — Sei qual é. Bill podia ser velho e bêbado, mas o escritor que havia nele era bom em ler expressões. — Ela disse que era uma coisa espiritual. Eu nunca a tinha ouvido falar daquele jeito antes. — Nem eu. — Eu disse que você poderia ficar furioso. Bill estendeu a mão, com ar de expectativa. Ricky se pôs de pé e entregou a garrafa para o velho. Bill a agarrou como se fosse maná caído do céu. — Obrigado, filho. — Não precisa agradecer, velho. Promessa é promessa. Ricky percorreu lentamente o quarteirão, dirigindo-se a um dos poucos I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


telefones públicos que ainda havia em Williamsburg. Chegando lá, depositou algumas moedas na ranhura e discou um número. — Dr. Frey, por favor. — Queira desculpar, mas no momento ele está ocupado. Quer deixar alguma mensagem? — Aqui é Ricky Pyro, um dos pacientes dele em reabilitação. Pode lhe dizer que preciso cancelar minha sessão? Vou fazer uma apresentação especial hoje. Na Igreja do Preciosíssimo Sangue, na Cobble Hill. Ele tem me perguntado sobre esse show. Diga a ele que ele não deve perder. Cecília, Lucy e Agnes desceram os degraus de pedra, tal como antes, e pararam diante da porta baixa. Estava encostada. Cecília a escancarou e entrou, seguida pelas outras garotas. O espetáculo era deslumbrante. Todas as velas votivas estavam acesas, projetando uma luz tépida e densas sombras nos ossos sagrados que ornavam a capela. Havia um homem sentado sozinho diante do altar, imóvel, com as pernas cruzadas e as mãos entrelaçadas. Oscilava levemente. No jogo de luzes e sombras projetado pelas velas, parecia tremeluzir. — Sebastian — sussurrou Cecília. Elas estavam receosas de se aproximar. Ele parecia em transe. Sua respiração era fraca e entrecortada. Como um prisioneiro em meio a uma greve de fome. — Será que ele está bem? — perguntou Agnes, pensando em correr até ele para descobrir. Lucy deu de ombros, indecisa. — Ele está bem. Eu acho. Por fim, Sebastian falou. — Eu não faço ideia do que vai acontecer, nem em quais lugares a dor virá — murmurou ele, abrindo os olhos e olhando para elas. Seu olhar fixo as deixou paralisadas, conjeturando se ele enlouquecera totalmente. Agnes andou lentamente até ele e se ajoelhou. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Sebastian, nós estamos aqui. Ele sorriu e afagou o rosto dela. — Agnes. Lucy e Cecília se aproximaram e ajoelharam também. Ele olhou cada uma nos olhos. — Vocês voltaram — disse ele. — De livre e espontânea vontade — disse Lucy. — Acho que nós estamos sendo vigiados. Você tem que sair daqui — disse Cecília. — Para quê? Não há nenhum lugar para ir. Ele estava tendo dificuldade em responder com clareza. Parecia ouvir e responder perguntas diferentes das que elas estavam fazendo. Elas olharam ao redor, assombradas e trêmulas. As lembranças de alguns dias atrás ainda eram vivas e dolorosas. Ainda havia manchas de sangue no chão. Seus braceletes estavam no relicário. — O que aconteceu conosco aqui? — perguntou Lucy. — Precisamos saber. Ele fez o melhor que pôde para dar explicações e, ao mesmo tempo, tranquilizá-las. — Eu nunca machucaria nenhuma de vocês. Elas queriam ser céticas, lutar contra o que sentiam, mas ele era tão bonito, tão autêntico, tão real — e agora tão vulnerável — que era quase impossível não se abandonar a ele. — Nós queremos entender — acrescentou Cecília. — Queremos acreditar em você. Sebastian se sentiu encorajado com a confiança delas. — Eu vou lhes contar tudo o que sei — disse ele. Acenou então para que viessem até o altar sustentado por ossos, que estava cercado por quatro grandes velas, uma em cada canto, e coberto com as vestimentas que elas haviam usado — uma mistura de tecidos verdes, vermelhos e brancos, ornados com imagens elaboradamente tecidas de I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


jovens aureolados, vestidos com trajes luxuosos. Em cima, viam-se magníficos pratos de ouro e taças de prata cintilantes. No centro, estava o Legenda Áurea que Agnes folheara no atril. As garotas se juntaram a Sebastian no altar, sentando nos antigos bancos baixos que ele espalhara em torno. Sentiram-se como nobres. — Que é isso? — perguntou Cecília. Sebastian alcançou um acendedor de velas metálico, que estava encostado no altar, riscou um fósforo e acendeu mais uma vela. Depois, passou a haste para as meninas, pedindo-lhes que fizessem o mesmo. Quando a última vela foi acesa, Sebastian pegou o relicário com os braceletes e o depositou no altar, diante deles. — Nós vamos ter os braceletes de volta? — Sim. — Mas, Sebastian, eles não lhe pertencem — disse Agnes. — É verdade. — Jesse disse que você roubou os braceletes — lembrou Lucy. — Não roubei os braceletes. Peguei os braceletes — admitiu Sebastian. — Não estou entendendo. Você pegou, mas não roubou os braceletes? — perguntou Ceci. — Eu peguei os braceletes para que fossem devolvidos às suas verdadeiras donas — explicou ele. — Nós? — perguntou Lucy. — Esses braceletes foram feitos de relíquias sagradas, com os ossos de Santa Lúcia, Santa Cecília e Santa Agnes, como prova de sua existência ao longo dos séculos. Foram guardados cuidadosamente por geração após geração de homens e mulheres devotados a elas, que as adoraram e rezaram pelo retorno delas quando o mundo estivesse precisando. — Agora? — perguntou Lucy. — Agora — disse Sebastian. — Esse legado, esses braceletes, são a herança de vocês. Tive que entregá-los a vocês antes que Frey me impedisse. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Por quê? — Porque ele sabe quem nós somos e vai tentar nos parar como puder. — Como ele pode fazer isso? — questionou Cecília. — Ele não tem controle sobre nós. — Vocês disseram que achavam que estavam sendo vigiadas, seguidas. Ele está usando vocês para me encontrar. Para pegar todos nós. De repente, Sebastian ficou muito sério. — Vocês não estão só sendo seguidas. Estão sendo caçadas.

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26 O ALTAR

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O guarda caminhou lentamente pelo corredor de cimento da Casa de Detenção do Brooklyn. Mesmo para um veterano funcionário, o lugar era assustador. Mas na verdade a intenção era esta. Em épocas mais remotas, seria considerado o tipo de lugar para onde alguém era enviado para "afrouxar a língua". E ainda tinha este efeito. Era uma fábrica de delatores, principalmente para caras como Jesse. Mas Jesse não afrouxou. E estava orgulhoso disso. — Arens! Jesse se levantou devagar do catre duro. O guarda pressionou o botão


da tranca ao lado da cela, e a porta se abriu com um barulho metálico. Jesse saiu cautelosamente, temeroso de que aquilo pudesse ser algum truque. — Você pode ir. — Posso dar o fora? Sério? Alguém pagou minha fiança? Sua busca por um bom samaritano fora infrutífera. Ele duvidava que algum conhecido seu fosse tão generoso. — Você não está sendo acusado de nada. Já se passaram setenta e duas horas e você já cumpriu sua pena. — Tão rápido? — perguntou ele ironicamente. — Se nunca fui acusado de nada. Cumpri pena por quê? — Por ser um babaca — disse o guarda em tom desdenhoso. — Ah, então sim, sou culpado — disse Jesse estendendo as mãos para ser algemado. — Pegue suas coisas no balcão e dê o fora daqui, porra. — Escute, eu gerencio algumas noites na Sacrifice durante a semana. Talvez você queira aparecer lá com seus rapazes. É só me dizer. Eu arranjo entradas para vocês. — Isso é suborno, idiota. — Você deve entender do assunto. Jesse inspecionou antes de sair da cela e pegou seu smartphone. Ele ganhara a reputação de ser um maricas chorão na cadeia, mas fez questão de parecer durão ao sair, para ganhar crédito junto aos leitores: pôs os óculos escuros, ergueu os colarinhos do terno, e começou a andar gingando quando chegou à porta. Havia um fotógrafo esperando pela saída dele, como combinado. Antes mesmo que ele chegasse à esquina, a foto já fora postada e enviada para todos os assinantes da cidade. O slogan "Liberdade para Jesse", que ele postara em sua página principal foi substituída pela manchete "Jesse Está Livre", um ícone com um punho e os dizeres "o povo no poder" e o lide: "Da cadeia à liberdade na velocidade da luz". Ele estava de volta. Como sempre fazia, quando ficava um ou dois dias offline, ele pesquisou os sites de seus competidores, apenas para saber o que acontecera durante I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


sua ausência. Ele sorriu quando viu um conjunto de fotos de Lucy e uma reportagem sobre ela no baile do Museu. Ele olhou as fotos e as legendas ao acaso, irritado por ela ter ido sem ele ao baile. Quando abriu a última foto, ficou totalmente pálido e de queixo caído, Era uma imagem de Lucy e do dr. Frey. De repente, entendeu tudo. — Ah, meu Deus. Como pude ser tão burro? Não era somente Sebastian que Frey estava perseguindo. Ele enviou uma mensagem de texto a Lucy. 911 .Você não está segura. Depois agitou um braço noar, como se estivesse louco. — Táxi! Pulou então no primeiro táxi que parou para ele e seguiu a toda em direção à igreja. — Não — disse Lucy, e começou a chorar descontroladamente. Agnes e Cecília tentaram escapar do abraço de Sebastian para reconfortá-la, mas Sebastian as segurou. — Não quero isso — protestou Lucy histericamente, remexendo no bracelete. — Você quer — disse Sebastian, com benevolência. — Você voltou. — Gosto da minha vida. Essas garotas não têm nada a perder — uivou Lucy, apontando para Agnes e Cecília. — Eu me esforcei muito para ter tudo o que sempre quis. — Então você deve ser feliz. Você é... feliz? Sebastian aguardou. Depois de mais alguns soluços, Lucy se recompôs e olhou para seus três companheiros, que estavam de pé entre ossos rodeados por um círculo de velas acesas. — É quem você é. Quem você sempre foi. Cecília e Agnes estenderam as mãos, convidando Lucy para o círculo em que se encontravam. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Você não está mais sozinha — disse Cecília. — Nenhum de nós está. Lucy subiu no altar, como se estivesse à beira de um precipício, e se reuniu aos outros. Permaneceram, então, imóveis, como saltadores ansiosos para pular do trampolim. De repente, a tensão abrandou. Todos se deram as mãos e relaxaram. De cabeça baixa, Sebastian, Lucy, Cecília e Agnes tinham a impressão de que estavam quase se dissolvendo no calor e na fumaça aromática, como se sua carne se fundisse à cera derretida das velas. Expostos. Descarnados como os ossos que adornavam a capela. Em paz com eles mesmos. Em comunhão com a capela e um com o outro. Uma espécie de música enchia seus ouvidos, como o zumbido baixo de um gerador ou o canto suave de um coral, uma música que vibrava em seus corpos e no ossuário, transformado agora em um gigantesco diapasão. Eles canalizavam uma força poderosa, que trocavam uns com os outros e com a capela, até que tudo foi infundido com a energia, o que tornou a súbita intrusão da realidade — o ronco de uma composição de metrô — ainda mais espantosa. Sebastian abriu os olhos, levantou a cabeça e olhou para os vitrais que os circundavam. Cenas de dor. Cenas de sacrifício de um passado distante abrindo caminho até o presente. — Os fiéis não eram os únicos que estava se preparando para a nossa chegada — alertou Sebastian. — Cifras? — perguntou Cecília. — Os Cifras são os líderes. Eles não se escondem. Eles manipulam, persuadem, seduzem e perseguem seus propósitos embaixo dos nossos narizes. — Como o dr. Frey? — Sim, e muitos anônimos que fazem o trabalho sujo para eles, mas também são muito perigosos. São chamados de Vândalos por algumas I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


pessoas. Destruidores de corpos e corrompedores de almas. Eles se sentem ameaçados apenas com o fato de nós existirmos. — De que eles têm tanto medo? — Do poder dentro de vocês — explicou Sebastian. — De que esse poder seja um toque de alerta. De que vocês sejam exemplos vivos de que as coisas podem ser melhores. — Almas-modelos — disse Lucy. — Sim — disse Sebastian. — As pessoas são solitárias, infelizes, vazias. Vocês preencherão as vidas das pessoas. Ele pegou o livro no altar e levantou o marcador de uma página específica. — Vocês me perguntaram o que estava acontecendo. O que está acontecendo é vocês. Ele andou até a urna, trouxe-a até o altar e retirou de dentro dela algumas pedras de carvão em brasa, que colocou no suporte dourado de incenso que estava à sua frente. Depois estendeu a mão para a caixa de incenso ao lado, polvilhou alguns grãos de resina sobre as pedras de carvão e observou a fumaça se evolar. O ar ficou pesado com o aroma penetrante de cedro e rosas. As velas brilhavam ao redor, quase cantando louvores. Lucy, Cecília e Agnes sentiam uma pressão invisível sobre elas, assim como Sebastian sentira. O peso do mundo. Sebastian se afastou da mesa e foi para trás do altar, onde panos brancos amarrados com cordéis envolviam três esculturas. Sebastian desfez os nós dos cordéis, um a um, revelando estátuas perfeitas, em tamanho natural, de três lindas jovens, pintadas nas mais deslumbrantes tonalidades de azul, roxo, vermelho, verde, dourado e prateado. Suas expressões eram, ao mesmo tempo, de alegria e tristeza. Todas seguravam folhas de palmeira. Na base de cada estátua havia uma placa com um nome. Santa Lúcia. Santa Cecília. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Santa Agnes. As garotas sentiram o coração disparar. Estavam abismadas com o que viam. Símbolos da fé e da pureza, dignos de adoração. Santa Lúcia, com uma coroa de rosas e velas acesas em torno da cabeça, erguia uma bandeja de ouro à altura de seus lindos olhos azuis. Santa Cecília, em uma túnica esvoaçante, portava um violino e o respectivo arco; tinha um anjo com asas pousado no ombro e olhava para cima. Santa Agnes tinha longas melenas que circundavam seu corpo e lhe chegavam aos pés, e segurava uma ovelha embaixo do braço. Sebastian retornou ao altar, sentou-se e pegou o Legenda, que abriu à sua frente. Tudo o que as garotas conseguiam ver de seu rosto eram os olhos. — Estas são as lendas há muito esquecidas das homônimas de vocês, mártires que deram suas vidas por algo maior que elas mesmas. Jovens. Adolescentes, como nós, que mudaram o mundo com seu exemplo e fizeram o derradeiro sacrifício. Seres humanos, mas divinamente inspirados. São temas de pinturas, obras arquitetônicas, poemas e orações. Suas imagens estão em relicários por toda parte. Seus nomes estão literalmente nos lábios de todo mundo. Elas foram superstars quase dois mil anos antes que a palavra fosse inventada. ídolos eternos. — É difícil de acreditar — murmurou Lucy, falando em nome de todos. Sebastian arrancou os ornamentados pergaminhos do velho livro e entregou a cada uma sua respectiva página. As garotas ficaram assombradas. A sensação de poder que sentiram foi palpável. Algo nas histórias, nas palavras dele, ressoaram no âmago de suas almas. — Vocês compartilham o espírito delas. A bravura delas. A paixão delas. O propósito delas — afirmou Sebastian. — Vocês ainda são vocês mesmas. Mas, agora, são algo maior. Vocês procuraram atenção. Adoração. Afeto. Todos os aspectos do amor. Agora vão encontrá-los. Não só em benefício próprio, mas em benefício de todos os que vocês tocarem. Sebastian tirou a camisa e as olhou fixamente nos olhos. Depois I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


removeu do relicário o bracelete de Cecília. Arrancou o milagro e o deixou cair na urna de carvão em brasa. — Cecília, a Mensageira — disse ele. Depois, leu em voz alta: "Santa padroeira dos músicos. Nascida, em uma classe rica e privilegiada de Roma, mas criada entre os fiéis, acreditava que era escoltada por um anjo. Traída por seu marido ciumento e entregue às autoridades como herege, foi condenada à decapitação. Mas as três tentativas de decapitá-la falharam. Ela cantou sua fé por mais três dias, mesmo agonizando. Seu corpo, exumado séculos após sua morte, foi encontrado intacto. Em sua determinação, ela encontrou a fama duradoura." Sebastian tirou o milagro escaldante da urna e o apertou contra o peito, marcando a espada com o arco de violoncelo bem sobre o coração. Apesar da dor da queimadura, ele não gritou. As garotas estremeceram, vendo sua pele abrasar. — Sua canção irresistível penetrará nos corações e mentes das outras pessoas. Encherá de paixão suas almas ansiosas, esvaziadas por dúvidas e promessas falsas — disse ele. Depois recolocou o bracelete no pulso de Cecília. Da mesma forma, retirou do relicário o bracelete de Agnes, arrancou o milagro do coração em chamas e o purificou nas brasas. — Agnes, a Ovelha — disse. E continuou a leitura: "Santa padroeira das virgens e das vítimas. Condenada à morte por suas crenças, foi despida, arrastada pelas ruas de Roma e levada a um bordel para ser estuprada e humilhada. Os homens que a atacaram foram acometidos de cegueira. Os cabelos dela cresceram e cobriram sua nudez, da cabeça aos pés. Amarrada a uma estaca para ser incinerada, as chamas se desviaram dela para não queimá-la. Finalmente decapitada, seu precioso sangue foi recolhido do chão por fiéis. Desonrada por seus adversários, mas jamais maculada. Em sua recusa a abjurar sua féea entregar seu corpo, constitui um I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


eterno testamento do poder do amor e da inocência." Sebastian tirou o sagrado coração do fogo e o pressionou no peito, diretamente acima da impressão da espada de Cecília, dando a impressão de que a lâmina estava perfurando o coração. — Seu coração piedoso e virtude inflexível serão um exemplo para todos os que procuram a honestidade e o verdadeiro amor. Você levará conforto e compreensão aos indivíduos perturbados, ensinando-lhes não só a amar as outras pessoas, como também a si mesmos. Por fim, ele pegou o bracelete de Lucy, o milagro com os dois olhos, e o jogou nas brasas. — Lúcia, a Luz. Então leu a passagem: "Santa padroeira dos cegos, de corpo e alma. Arrancou os próprios olhos das órbitas com o propósito de se tornar menos atraente para aqueles que a conspurcavam, recusando-se a renunciar à sua fé e permanecendo destemida em seu sofrimento. Perdeu a visão e a vida para seus algozes, mas não seu discernimento. É o caminho da luz brilhando sobre as trevas da vida." Ele retirou das brasas o milagro de Lucy e o posicionou estrategicamente acima dos outros dois. Sua carne já estava completamente queimada naquela área, mas ele não hesitou. Abaixou o talismã e o pressionou de tal forma que os olhos agora olhavam para a espada. — Você é um farol que mostrará o caminho de saída das trevas, em direção à esperança e uma vida melhor. Uma líder onisciente cuja vontade inquebrantável e firme determinação são essências da fé. — Os olhos tomam conta da espada que perfura o coração — observou Lucy. — Agora não há mais necessidade de livros para contar a história de vocês, nem de caixas de vidro para preservar o legado de vocês. A espera terminou. Vocês estão aqui. Queimando seu corpo e sua alma, os milagros, os três combinados, I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


marcavam Sebastian, juntando os quatro para sempre, por toda a eternidade. Agora elas não eram mais uma lenda, mas viviam dentro dele. E delas mesmas. Um coração transformado em relicário.

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27 INTERVENÇÃO DIVINA I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Jesse avistou um rosto familiar na esquina. O rosto do dr. Frey. — Vá para o outro lado do quarteirão — disse ao taxista. Feito isto, ele saltou, pagou a viagem e contornou os fundos da igreja sem ser visto por Frey nem pelo pequeno grupo de maltrapilhos que o cercava. Com certeza não eram seus colegas de profissão. Principalmente o grande sujeito careca que seguia ao seu lado. Era Sicarius, sem sombra de dúvida. O que Frey estaria tramando, levando Sicarius para passear? Coisa boa não era, Jesse tinha certeza. Quanto aos outros do grupo, Jesse nunca vira nenhum psiquiatra, que


ele se lembrasse, passeando vestidos com roupas de couro e tênis de cano alto. Mas se lembrava de ter visto alguns tipos perambulando pelos corredores do hospício de Frey, e fazendo fila para obter a dose diária de morfina. Seria difícil para o bom doutor desencaminhá-los em troca de umas doses extras? Não muito. — Drogados — murmurou ele para si mesmo. Na verdade, ele poderia pensar que aquilo era uma transação de drogas, ou mesmo um assalto, se Frey não parecesse tão calmo e controlado. No comando. Os caras pareciam conhecidos dele. Uma turma local em busca de atenção e sempre fazendo besteira quando a conseguia. Era como se tocassem música por drogas. Tocavam para disfarçar o fato de que eram produtos descartáveis. Frey realmente circula por aí, pensou Jesse. Nenhum vagabundo estava fora de seu radar, aparentemente, inclusive ele. Mas um toque popular era bom para levantar fundos para o programa de reabilitação do hospital e para o perfil pessoal do médico. Assim, ele tinha prestígio tanto com os grã-finos da Park Slope, engolidores de pílulas, quanto com os viciados das ruas que se reuniam no Greenpoint, à beira do East River. Não importava o fato de que nenhum deles jamais se curava, o que de qualquer forma não era o objetivo — e agora Jesse sabia por quê. Frey era um defensor das oportunidades de trabalho para drogados e lhes arranjava sempre um servicinho extra. Jesse viu Frey pedir licença e ir para um café no outro lado da rua. Os caras permaneceram juntos, observando nervosamente a entrada da igreja. Jesse verificou seu telefone. As palmas de suas mãos estavam suadas e era cada vez mais difícil rolar a tela. Nenhuma mensagem de Lucy. Ele ligou para ela várias vezes. Nada também. Se ela não estava em casa, o único lugar em. que poderia estar era na igreja, onde a recepção devia ser horrível. Através da janela do café, ele olhou para Frey, que bebia tranquilamente um café expresso. De repente, seus asseclas começaram a subir os degraus da igreja, olhando de um lado para outro para ver se estavam sendo I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


seguidos. Jesse teclou: Eles estão chegando. Jesse estava sem muitas opções, mas desesperado para ajudar. Se logou com seu site e atualizou seu status. Hora de fazer uma mobilização. Alguém pode ser testemunha? Ele teclou o endereço de igreja e apertou o botão de enviar.

A luz das velas estava cada vez mais fraca, levando a reunião a um encerramento natural. Mas ainda havia perguntas a serem respondidas. — Sei quem você diz que nós somos, mas ainda não entendi o que precisamos fazer — disse Lucy. — Ou por que alguém mataria para nos impedir de apenas sermos nós mesmas. Devemos melhorar as pessoas? — Acho que isso aqui não é um seminário de autoajuda, Lucy — interrompeu Cecília. — Tem que haver uma razão. Sebastian andou até o altar e pousou as mãos sobre o relicário, em uma atitude reverente. Depois de uma pausa, falou. — Foi no dia em que peguei os braceletes. Foi revelado para mim a quem eles se destinavam. Eu tinha que entregar os braceletes. Naquela hora, meu próprio destino me foi revelado. — Como uma profecia? — perguntou Agnes ingenuamente. — O que lhe disseram? — Que eu tinha que encontrar vocês antes de eles me encontraremAntes de eles me matarem. — Só por cima do meu cadáver! — berrou Cecília. — Agora não importa o que vai acontecer comigo. Estou pronto para devolver minha alma. Minha única tristeza é deixar vocês três. Lucy estava à beira das lágrimas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Nós vamos protegê-lo, Sebastian. Sebastian pousou a mão nos lábios dela. — Minha missão já foi cumprida, mas a de vocês está só começando. — Missão? — A resposta à sua pergunta — disse Sebastian. — A razão de estarmos aqui. — O que precisamos fazer? — Duas coisas. Podem chamar de milagres, se quiserem. A primeira, que era aceitar quem vocês são, já está cumprida. A segunda, vocês vão ter que descobrir por si mesmas. Lembrem-se de que eles não vão parar até seus corações pararem — continuou ele. — Até que o sangue de vocês esteja nas mãos deles. Sebastian podia ver a determinação nos olhos delas. — Pelo primeiro milagre, vocês serão chamadas de Abençoadas. Pelo segundo... Agnes interrompeu: — Santas. Os olhos de Sebastian se iluminaram diante da compreensão dela. — Vocês são as últimas de uma linhagem — explicou ele. — Se alguma de vocês for denotada antes de realizar o segundo milagre, a balança vai pender para sempre na direção do mal e o caminho nunca será preparado. As coisas vão começar com vocês ou terminar com vocês. — Caminho para quê? — perguntou Agnes. — Para quem — respondeu Sebastian. — E uma batalha que estamos perdendo há muito tempo. Uma batalha que vocês precisam vencer. — Batalha? — Nós estamos em uma guerra e vocês são as guerreiras. Vocês são a realização de quase dois mil anos de devoção. — Não sei lutar — disse Agnes nervosamente. — Todas vocês são guerreiras. As armas de que precisam estão dentro de vocês — assegurou Sebastian. — O dom que receberam vai fortalecer I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


suas mentes e seus corpos. Não só suas almas. Quando vocês precisarem, essas armas estarão presentes. — Você disse que sua missão estava cumprida — disse Agnes. — Qual foi seu segundo milagre? — Vocês. O orgulho na voz dele foi temperado pela tristeza em seus olhos. — Quando vocês saíram desta capela eram pessoas diferentes daquelas que entraram — disse ele. — Agora não há como mudar isso. — Tragam as hostes celestiais, então! Sem saber ao certo como explicar o fato, Cecília estava ansiosa por uma briga. A passividade não fazia parte do processo. — Vocês são as hostes celestiais, Cecília — explicou Sebastian agourentamente. — Não há nenhum exército de anjos para socorrer vocês. — Três garotas e um cara do Brooklyn. — Por que não? — disse ele simplesmente. Suas palavras pairaram no ar como uma punição. Uma sentença de morte. — Seja você mesma — resumiu Cecília. — Acredite em si mesma — acrescentou Agnes. — Salve a si mesma — murmurou Lucy, lembrando as primeiras palavras que ouvira de Sebastian. — Vocês vão ter que fazer isso antes de poderem salvar outra pessoa. Ou amar outra pessoa. — Acredito em você — disse Lucy. — Não acredite em mim — replicou Sebastian. — Tenha fé. — Qual é a diferença? — perguntou Agnes. — Uma criança acredita. Em mágica. Em fadas. Em monstros. Fé é conhecimento. Certeza. Sem fé nós fracassamos. — Mas fé em quê? — Comece com você mesma. — Acredito no amor — começou Agnes. Sebastian segurou a mão I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


dela. — O amor é apenas a fé que você deposita em outra pessoa. — Então eu tenho fé em você — disse Agnes. Um barulho alto, na igreja acima, interrompeu a conversa. — Eles estão aqui — observou Sebastian, encaminhando-se para a porta. — Vou com você — disse Cecília. Sebastian a segurou pelos ombros, suavemente, mas com firmeza. — Não. Vocês serão mais fortes juntas — afirmou ele. Os ruídos acima aumentavam à medida que os inimigos se aproximavam. Sebastian correu para a escadaria. — Quer dizer que, se nós acreditarmos em você, nós morreremos? — gritou Agnes. Sebastian parou, de costas para elas. Olhou então para o teto, reunindo todas as forças que tinha para dar sua resposta. — Não, se vocês acreditarem em mim, nunca morrerão. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Monsenhor Piazza se ajoelhou no genuflexório de seu quarto. Estava agitado. Perturbado. Retirando sua batina, expôs seu tronco repleto de cicatrizes. Pegou então uma corda com nós. A disciplina era guardada no relicário da capela. Presumia-se que tivesse pertencido a um dos operários que morreram lá, juntamente com os braceletes, o cilício e outros intimidadores itens de mortificação usados pelos fiéis mais abnegados. Foi a única coisa que ele levou de lá. Começou então a bater com o chicote nos dois ombros, de forma repetida, ritmada, em um compasso de sofrimento. Começou a sangrar. Começou a rezar. Os lábios do ancião se moviam em silêncio; apenas ocasionalmente as


palavras eram pronunciadas em voz alta. Fragmentos de súplicas que ele conhecia de cor. Em sua dor, procurava redenção e punição para seus pecados. A cada chibatada ele se penitenciava por sua ingenuidade. A cada lanho em suas costas, ele se arrependia de sua arrogância. Fora ele quem fechara a capela, afinal de contas. Ele quem desencorajara o culto que se desenvolvera em torno dos "santos do metrô", como diziam as pessoas das redondezas. Tudo em nome da modernidade. Ele se encontrava na escorregadia ladeira da secularidade antes de Sebastian aparecer. Ele ganhara a reputação na paróquia, e mesmo fora dela, de ser uma "voz da razão", como diziam alguns funcionários do governo. E fora recompensado com as pompas do status: participação em conselhos, jantares de gala, fins de semana em mansões à beira-mar. De modo que quando Sebastian surgiu, com suas reflexões heterodoxas, olhar penetrante, língua afiada e fervor espiritual, ele não conseguiu acreditar no garoto, não quis reconhecer a verdade que estava bem diante de seu rosto. Indivíduos assim eram loucos, não sagrados, foi o que ele presumiu. Mas agora ele sabia. Agora ele não participava de festejos. Ele sofria. Media seu legado não pelo que ganhara, mas pelo que perdera, ou pelo menos negligenciara. Sua igreja. Sua fé. E Sebastian. Em suas preces veementes, recriminava a si mesmo e lembrava o que gradualmente fora esquecendo. Abençoai toda a nossa vida e a hora de nossa morte. O padre Piazza largou a corda e cruzou as mãos sobre o queixo. Amém. — Deus, me perdoe — pediu ele, sentindo uma pontada de dor no peito. — Sebastian — disse ele chorando, massageando o peito e inclinando a cabeça. — Lúcia. Ele massageou mais o peito, enquanto murmurava cada nome. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Cecília. — Agnes. E com seu último suspiro: — Me perdoem.

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28 AS GAROTAS QUE FAZEM I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Lucy, Cecília e Agnes ouviram passos descendo rapidamente a escada. Seus corações dispararam. — Ele está voltando — disse Agnes aliviada. — Não — discordou Cecília, desconfiada. — Não é ele. Ceci olhou para as próprias mãos, para seus estigmas, e viu que estavam começando a sangrar. Era seu sinal de alerta. Os passos, que davam a impressão de um exército em movimento, pararam por um minuto no outro lado da porta. As garotas permaneceram tensas, na expectativa, com os olhares fixos na porta. Até que ela foi aberta com um chute.


— Vejam só quem satã nos trouxe — disse Cecília, descontraidamente. — Ricky. — Você o conhece? — perguntou Lucy. Ricky respondeu: — Conhece. Intimamente. Não é mesmo, Ceci? Está surpresa em me ver? — Não muito. Baixar de nível é com você mesmo, não é? Como você soube que eu estava aqui? — Seu amiguinho bêbado. E impressionante como se pode obter informações com uma garrafa de bebida. Eu deveria trabalhar na CIA. — Bill — arquejou Cecília, sentindo um enjoo no estômago. Sebastian tinha razão. O perigo podia vir das pessoas mais próximas. — Não fique chateada. Provavelmente ele nem se lembra do que me disse, aquele vagabundo bêbado. De qualquer jeito, eu acabaria descobrindo. Estamos seguindo vocês há algum tempo. — Tanta esforço para nada. Eu lhe disse que você não conseguiria nada assim, Ricky — disse Cecília. — Você veio tocar para mim? — Não. Vim matar você. E você. E você — disse ele calmamente, exibindo os dentes manchados de nicotina por meio de um sorriso torto e apontando para Lucy e Agnes. — E eles também, por falar nisso. Os caras atrás dele contraíram os músculos, preparando-se para uma luta. — Nenhum de vocês tem inteligência suficiente para planejar isso — disse Ceci. — Quem mandou vocês? — Um médico amigo meu, que encontrei no programa de reabilitação — disse Ricky. — Contatos que a gente faz. Lucy e Agnes recuaram, mas não havia lugar para ir. Elas estavam de costas para o altar e a parede. Cecília recuou também. O salto de sua bota bateu na guitarra, que estava encostada no altar, produzindo um clangor estridente. — Música nova? — perguntou Ricky. — Quem sabe uma marcha I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


fúnebre? — Um réquiem — respondeu Cecília. — Para você. — Bancando a durona — disse Rick desdenhosamente. — Eu já mencionei que nós vamos matar vocês? — acrescentou ele, fingindo esquecimento. — Mas primeiro um pouco de diversão. O que vocês acham, cavalheiros? O som de gargalhadas esganiçadas, excitadas, ecoou no pequeno aposento. — Olha só o que temos aqui! — exclamou Ricky, aproximando-se de Agnes e afagando seus cabelos. — Carne nova. — Deixe ela em paz, Ricky! — berrou Cecília. — Aaaah, não seja ciumenta — disse ele. — Tem bastante pra vocês todas. — Sebastian — murmurou Agnes, encolhendo-se de nojo e tentando se tornar invisível. — Não precisa chamar seu namorado — disse Ricky, subindo no altar. — Ele está ocupado, morrendo lá em cima. Então deu um chute no altar. O livro, o atril e as velas caíram com estrondo. Trilhas borbulhantes de cera quente se derramaram pelas frestas da madeira e escorreram pelos ladrilhos do piso, procurando alguma coisa para incendiar. Ricky andou até as estátuas das garotas e passou a mão lascivamente em seus corpos de gesso, enfiando a língua em suas bocas pintadas. — Frias como gelo — disse ele em tom de deboche. —-Não é muito diferente de beijar você, Ceci. — Nós nos beijamos, Ricky? — vociferou Cecília. — Pensei que era uma poça de mijo que eu estava chupando naquela noite. Ricky tirou as estátuas dos pedestais e as espatifou no chão, uma a uma. Grandes cacos de gesso e cerâmica pintada voaram para todos os lados. — Um dia perfeito para morrer, você não acha? — observou Ricky, enquanto o pó de gesso espiralava ao redor dele. — Uma igreja e uma I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


cripta. Tudo no mesmo lugar. Ricky e sua turma de sádicos observavam as garotas ameaçadoramente, vorazmente. Por mais que quisessem, Lucy, Agnes e Cecília não se moveram. Não havia como escapar, de qualquer forma. Mas encaravam seus algozes. Até aquele momento, uma situação de impasse. — Hora de um pouco de ultraviolência, turma. — Ah, que coisa original — disse Cecília com desprezo. — Um babaca tipo aqueles do filme Laranja Mecânica. Coisa dos anos setenta. Quem nem sua música. Chegara o momento. Todos sentiam isso. — Eu sempre disse que minha banda arrebentava, não disse? — Salvem a si mesmas — disse Lucy, apenas para que as outras garotas ouvissem. Elas entenderam. Cecília começou a contar seus inimigos. — Um. Dois. Três. Quatro. Não é uma luta justa. — A vida não é justa — disse Ricky, impassível. Ele fez sinal para um dos caras, que se adiantou silenciosamente em direção a Agnes. Pegando um tufo de cabelos da garota, começou a cheira-la como um porco, enquanto mexia no botão de cima da blusa dela. — Tem cheiro de Teen Spirit27 — silvou ele, espargindo seu bafo nojento nas narinas da garota. — E você tem cheiro de merda — disse Agnes, cuspindo no rosto do cara. Erguendo a guitarra e soltando um uivo assustador, ela deu outro golpe, agora com a cabeça do instrumento, que se enterrou na base do crânio do cara como se fosse um espeto, quase o decapitando. Um jorro de sangue misturado com tendões, ossos e miolos explodiu pata todos os lados, sujando I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

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Teen Spirit (espírito de adolescente) é um desodorante norte-americano destinado principalmente ao

público jovem. Foi celebrizado numa canção do conjunto Nirvana, chamada "Smells Like Teen Spirit . Ou seja, iem Cheiro de Teen Spirit", exatamente a frase usada pelo comparsa de Ricky. (N. T.)


Ricky e sua turma. Momentaneamente aturdidas, mas não amedrontadas, Lucy e Agnes observaram a vida borbulhar para fora do homem. Ricky pareceu impressionado. — Agora vou pegar vocês — disse Cecília com um sorriso, pousando o salto da bota no ferimento que acabara de fazer, como um orgulhoso caçador faria com uma carcaça de urso. — Isso é muito inadequado — disse Ricky com ar de troça, puxando uma corrente do bolso traseiro. — Vocês não deveriam ser santas ou coisa parecida! — Santas, talvez. Não anjos — disse Cecília, rodopiando a guitarra sobre a cabeça para manter os invasores à distância. A guitarra se chocou contra os ossos das pernas do altar e os estilhaçou. Ela jogou um pedaço de osso para Lucy e outro para Agnes, que os agarraram com a agilidade de atletas e se puseram em guarda, armadas e perigosas, brandindo os ossos como porretes e com um ardor e uma confiança que, poucos minutos antes, jamais imaginariam possuir. — Não tenham medo — comandou ela. — Não estou com medo — disseram as garotas, em coro. Ricky e sua turma investiram contra elas, girando as correntes. O agressor de Lucy se aproximou antes que ela pudesse se mover. Girando loucamente sua arma, ele acertou o queixo de Lucy e a derrubou nas proximidades da urna e do relicário. Depois riu e tirou um celular do bolso. — Sorria — disse ele, tirando uma foto dela. — Para ficar uma defunta bonita. Lucy mostrou o dedo médio e arremessou um martelo que estava no chão contra o peito dele. — Sua piranha, esse é o seu dia de sorte — esbravejou o vândalo, apontando para a virilha. — Primeiro vou matar você, depois vou trepar com você. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Trepar comigo? — provocou ela. — Viva ou morta eu não vou sentir nada, bundão. — Isso é o que nós vamos ver. Lucy tentou se lembrar de algum golpe de defesa pessoal, mas decidiu simplificar as coisas. Erguendo uma das pernas, cravou na virilha do cara o salto de sua bota de grife, decorado com filetes de ouro. — Para isso servem os saltos altos — troçou ela. O rosto do sujeito adquiriu uma tonalidade branco-azulada, e seu corpo, vagarosamente, começou a desmoronar. — Você não deveria pensar com a rola — tripudiou ela. Deu então um chute no nariz do agressor, que se espatifou, juntamente com o osso malar. Estava para acertar o cara com seu porrete ósseo, quando um grito terrível ecoou no outro lado da capela. Era Agnes. — Lucy! Agnes estava curvada sobre o genuflexório com a saia levantada e a calcinha de renda à mostra. O vândalo atrás dela estava abrindo o zíper da calça. Estava segurando Agnes pela garganta e pelos cabelos forçando a cabeça dela para trás, o que a deixava imobilizada, e se preparava para penetrá-la. — Ué, nenhuma tatuagem perto da bunda? — perguntou ele, notando a pele imaculada da menina. Agnes se contraiu quando ele puxou uma chave do bolso e desenhou uma cruz com a serrilha afiada na base de sua espinha. O sangue emergiu. Mas, mesmo sentindo muita dor, ela não gritou. — Assim é melhor — disse o cara, admirando a própria crueldade. De repente, Agnes sentiu uma onda sedosa e reconfortante se espalhar pelo corpo. Eram seus cabelos, que, aumentando de comprimento, desceram ao longo de suas costas, fecharam o ferimento e cobriram sua nudez. — Agnes! — gritou Lucy, ansiosa para socorrê-la. Mas o vândalo agarrou seu tornozelo e ela não conseguiu se soltar. Um pouco mais atrás, ela viu uma quarta estátua, ainda embrulhada. Abriu I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


rapidamente o nó do cordel e arrancou o pano que a envolvia. Surgiu a imagem de um soldado romano, totalmente uniformizado, com uma aljava cheia de flechas. No pedestal estava escrito: SEBASTIÃO. — Ele está aqui — disse ela. — Conosco. Lucy tirou a espada do soldado da bainha e a arremessou para Agnes, que estava sendo estapeada maldosamente nos dois lados do rosto. Sofria em silêncio. Mas pegou a espada no ar. Então, erguendo a arma o mais alto que pôde, enfiou-a com força no pé do pilantra, que ficou literalmente espetado, sangrando aos borbotões, com as veias do pescoço pulsando de dor. Agnes se levantou calmamente e o encarou. — Desculpe, mas acho que cortei uma artéria — disse ela calmamente, observando o sangue encharcar seus mocassins. Esperou então que seus cabelos readquirissem o comprimento normal. Depois deu uma bofetada no rosto do agressor, cujo catarro, que grudou em sua mão, foi limpo no próprio casaco dele. O cara estava cada vez mais enfraquecido, e não tinha condições de se defender. — Você gosta de puxar cabelo — disse ela em tom sedutor, enro- lando suas melenas no pescoço dele e o puxando em sua direção. — Eu também. Ela posicionou o rosto próximo ao dele — o suficiente para beijá-lo, em uma situação menos conflituosa — e aumentou a pressão na corda de cabelos que lhe envolvera a garganta. Ele viu a fúria nos olhos dela, enquanto ela obervava a vida deixá-lo lentamente, como o sol se pondo no horizonte. Ela continuou a apertar até que os olhos dele se esbugalharam e sua língua inchada se projetou da boca. Até que ele estivesse morto. Então desamarrou os cabelos e o deixou cair. No outro lado da sala, o malfeitor conseguiu ficar por cima de Lucy, impedindo com seu peso que ela se movesse. Depois rasgou a blusa dela e tentou infantilmente apalpá-la. — Eles são de verdade, apesar do que você possa ter escutado — disse Lucy. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Enfiou então as unhas na garganta do indivíduo, enquanto ele tentava enfiar os dedos nos olhos dela. Lucy empurrou a mão dele até conseguir colocar uma parte dentro de sua boca. A mordida que deu arrancou um pedaço da mão dele, que ela cuspiu no chão. Ele gemeu de dor. Ela pegou o pesado Legenda, que estava caído a seus pés, e bateu com ele no corpo do agressor, quebrando facilmente um antebraço e algumas costelas. Ele saiu de cima dela, mas ela não havia terminado. Ao olhar para os vitrais com as cenas de santos torturados, encontrou inspiração. Arrastou o quase inconsciente vândalo até o altar, recolheu alguns carvões em brasa da urna caída e puxou o queixo do cara até que a boca se abrisse. Depois, deixou cair os carvões na boca aberta, fechando-a novamente com o salto do sapato. Manteve o salto naquela posição, beijando com a sola os lábios do malfeitor — de onde fuligem e cinzas escapavam, maculando seu sapato de luxo. — Você tem uma boca suja. O cara literalmente fervia. Cozinhava por dentro. Seus gritos eram assovios agudos, diferentes de tudo o que ela já ouvira. Pareciam sair de suas orelhas. Vapor se evolava de seu nariz, como se ele fosse um touro furioso nos estertores da morte. — A vingança é doce. Mesmo que venha com mil anos de atraso. Então, golpeando o rosto do cara com o Legenda Áurea, Lucy terminou de matá-lo. — Quem foi que disse que eu não sou misericordiosa? Enquanto isso, Ricky investia contra Cecília, derrubando-a com força. Cecília ficou momentaneamente tonta e sem fôlego. Sua visão estava turva, seus cotovelos arranhados e ensanguentados. Ricky tirou o largo cinto de couro e o dobrou, dando uma pancadinha com ele na própria coxa. Ela já o vira por cima dela. Com más intenções. Mas era apenas seu autorrespeito que estava em jogo. Agora, era sua vida. Desta vez ela entendeu. — Não faça isso — disse ela, em tom ainda desafiador, enquanto tentava se levantar. — Você vai me deixar excitada. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Ricky sorriu. — Você tem sido uma garota muito malvada. Ele soltou um grunhido e bateu nela com o cinto. Com selvageria, chicoteou suas costas, seus braços e suas pernas. Chutou seu traseiro como se ela fosse um vira-lata desobediente. Sem parar. Lanhos surgiram na pele dela quase instantaneamente. Lágrimas de dor e humilhação encheram seus olhos. — É verdade — confessou ela, arrependida, assimilando o castigo como se quisesse ver o quanto conseguiria suportar. Com as forças que ainda tinha, engatinhou até a plataforma onde estavam as velas votivas e tentou subir nela, erguendo-se como pôde, enquanto Ricky a açoitava incessantemente. Se iria morrer agora, pensou ela, queria estar de pé. Em um último esforço, pegou dois suportes de vela, um em cada mão, e arremessou a cera derretida no rosto de Ricky. Ele largou o cinto e caiu de joelhos, esfregando o rosto e gritando — mais de raiva que de dor. Aproveitando que ele estava momentaneamente cego, Cecília lhe deu uma joelhada na cabeça, que o arremessou de barriga sobre o altar derrubado. Ele ficou aturdido. Mas não estava morto. — Você me bateu, agora vai ter que me matar — rosnou Ricky, arrancando pedaços de cera do rosto, juntamente com camadas de pele. Ele investiu contra ela novamente e a jogou no chão, com tanta força que ela sentiu os pulmões colidirem com as costelas. Permaneceu caída, imóvel, lutando para conseguir respirar. Ricky se afastou, pulou sobre o altar, chutou o relicário de vidro e o estilhaçou. Depois soltou um uivo assustador, com as veias do pescoço quase estourando, enquanto derrubava as velas restantes. — Você sempre quis ser o centro das atenções. A noiva do casamento, ou o defunto no caixão. Bem, uma dessas duas coisas vai se tornar realidade finalmente! — disse Ricky. Como no sonho que eu tive, pensou Cecília. — Vivam as santas! — exclamou ele. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Em meio à fumaça e ao fogo, seu rosto esfolado e dentes manchados de sangue faziam com que se parecesse com o animal selvagem que de fato era, exibindo-se diante de sua presa como ela deixara que ele se exibisse muitas vezes antes, em noites solitárias e perdidas. — Mas não por muito tempo — acrescentou. Pulou então do altar, agarrou o candelabro de ossos suspenso no teto da capela e ficou se balançando para a frente e para trás, ganhando impulso, sempre olhando para Cecília. Um pêndulo de degradação humana irrecuperável, oscilando ameaçadoramente. — Acho que já é hora de alguém enfiar um pouco de bom senso nessa sua cabeça dura, Ceci. Tudo o que Cecília conseguia enxergar claramente, enquanto aguardava o golpe fatal, eram as tarraxas metálicas que havia nas solas das botas dele. Aquelas tarraxas, provavelmente, iriam imprimir em seu rosto a palavra simples e zombeteira que formavam: DÚVIDA. Então, enquanto ela olhava para ele e esperava, pensou ter visto alguma coisa. Os frágeis pendentes do candelabro, feitos de ossos de dedos, pareciam estar segurando Ricky, em vez do contrário. Ricky começou a contar, alheio a qualquer coisa que não fosse a morte dela. — Um — berrou ele. Cecília percebeu que o candelabro estava se desprendendo do teto. De repente, um pedaço do centenário reboco do teto caiu sobre ela, juntamente com a água que havia se infiltrado no material. Cecília permaneceu imóvel, aguentando a dor, ao mesmo tempo que sentia uma força sobrenatural entrando em ação. Avistou então o braço quebrado de sua guitarra caído no chão, com a cabeça em chamas. Interpretou isto como um sinal. — Dois. Ele passou acima dela novamente. O deslocamento de ar provocado pelo movimento avivou as chamas que agora a cercavam e a separavam de Agnes e de Lucy. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Cecília! — gritou Agnes. — Ti... A placa que prendia o candelabro no teto cedeu e o candelabro desabou. Rapidamente, Cecília pegou o braço do instrumento e o posicio' nou abaixo de Ricky em posição vertical, antes que ele chegasse ao chão. E Ricky foi empalado. Durante alguns segundos, que pareceram horas, eles permaneceram cara a cara, como ocorrera em muitas noites anteriores. Ela o viu empalidecer, enquanto sua respiração se transformava em um gorgolejo e ele sussurrava, implorando por sua vida miserável. — Que tal demonstrar um pouco de misericórdia? — arquejou ele pateticamente, adequando a entonação à situação em que se encontrava. — De perdão? — Como você fez com Catherine? Como fez conosco? — retrucou Ceci. — Eu não trato de misericórdia nem de perdão, Ricky. Só trabalho aqui. Você vai ter que falar com o patrão. Quando a respiração dele se tornou mais difícil, ela aproximou os lábios dos lábios dele e murmurou suavemente: — Avisei para você não ficar caidinho por mim, não foi? Pois é. Tarde demais. Com todas as forças que tinha, ela o empurrou para baixo, fazendo com que o braço quebrado da guitarra o atravessasse completamente. Cobrindo-se com os panos que envolviam as estátuas, Agnes e Lucy atravessaram a parede de fogo e levantaram Ceci. Depois espanaram os cacos de vidro e as farpas de madeira que estavam grudadas na pele dela e limparam o sangue e as cinzas. Agnes estendeu sua coberta sobre os ossos do candelabro caído, como que o enterrando respeitosamente. Lucy cobriu Cecília com a sua. Quatro mortos. Três feridas. Um desaparecido. — Virão outros. Vocês sabem disso, certo? — disse Cecília. — Esse foi apenas o primeiro ato. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


As garotas examinaram o resultado da carnificina. Um campo de batalha com ossos quebrados, vidros estilhaçados, corpos destroçados e madeira fragmentada. Elas haviam transformado a capela em uma cena de crime. E, mais urgentemente, em um risco de incêndio. A jaqueta de Ricky explodiu em chamas e incendiou o altar. O fogo lambeu o enorme afresco do Sagrado Coração, que começou a desaparecer sob a fumaça espiralada. Incinerando lentamente os corpos e as provas. — Das cinzas às cinzas, babaca — refletiu Lucy. — Vamos embora. — Ainda não — disse Cecília. — Ela endireitou os genuflexórios, as únicas peças de madeira que não estavam pegando fogo, e se ajoelhou para rezar. Sem trocar nenhuma palavra, Lucy e Agnes se juntaram a ela. — Nós não sabemos o que estamos fazendo — disse Cecília. — Mas faremos o melhor que pudermos. Fizeram então uma prece pedindo orientação, sabedoria e forças. Depois rezaram por Sebastian e por si mesmas. Rezaram como nunca haviam rezado, pois nunca fora necessário. Acima de tudo, agradeceram aos que tinham vindo antes delas, cuja presença, força e coragem sentiam dentro da capela e, agora, dentro de si mesmas. Ao levantar a cabeça, Agnes sentiu-se perturbada. Estava tendo um ataque de consciência. — Será que matar esses caras não nos tornou más? Não nos igualou a eles? — Acho que vamos descobrir um dia — disse Lucy. — Mas não hoje. — Hora de ir — pressionou Cecília. Agnes pegou o Legenda Áurea, folheou-o rapidamente e arrancou uma folha. Lucy pegou um pedaço de osso e o enfiou no corpo de Ricky, que se transformou em uma tocha de luz quando elas já estavam saindo. Cecília pegou o cilício que caíra do relicário durante a luta. Colocou-o sobre suas costas ensanguentadas e estremeceu. — Venham comigo — disse Lucy. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Agnes parou ao chegar à porta e olhou para trás. — Nós agora somos monstros? — conjeturou. — Nós destruímos esse lugar? — Não — disse Cecília. — Nós reconstruímos esse lugar.

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29 AS MARIPOSAS CHEGARAM I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Sirenes começaram a tocar antes mesmo que os primeiros rolos de fumaça deixassem a chaminé. Jesse ficou logo desconfiado. Olhou para a janela do café, viu Frey desligar o telefone e recolher suas coisas. A fumaça do incêndio na capela começou a sair pela chaminé e a se espalhar pelo ar. Jesse estava entrando em pânico. Se Lucy e as outras estivessem lá — e ele tinha certeza de que estavam —, não iriam durar muito. Frey pia- nejara as coisas com perfeição. Literalmente criara uma cortina de fumaça para encobrir suas atividades.


Seus sequazes estavam atrasados. A polícia estava para chegar, e Frey a controlava, de cima a baixo. Testemunhas, uma multidão, eram a única esperança das garotas. — Meu Jesus — gemeu ele. — O Senhor pode reunir cinco mil crianças na Cadman Plaza pra fazer propaganda do Hershey's Syrup, mas não consegue atrair uma única alma para ser testemunha de um assassinato em massa. O médico atravessou a rua tranquilamente e começou a subir os degraus da igreja. — Babaca arrogante. Jesse se virou e avistou alguns garotos parados na esquina. Poderiam ser apenas bisbilhoteiros das vizinhanças, atraídos pelo incêndio, mas pareciam ter algo mais em mente. Talvez houvesse esperança. O lado de fora, pensou ele, já estava garantido. Precisavam dele dentro da igreja. Ele aguardou cerca de um minuto e entrou na igreja. Sebastian fora enganado. Os vândalos o haviam atraído para cima e se esgueiraram por trás dele enquanto ele vasculhava a igreja, trancando a porta da sacristia por dentro. Ele chutou a porta diversas vezes, mas sem resultado. — Deus ajude as garotas — suplicou ele tristemente, com lágrimas se misturando ao suor. — Sebastian. Uma voz ameaçadora ecoou nos fundos da igreja, enchendo o ambiente como se fosse o dobre de um sino. Mas não era a voz de Deus. Sebastian voltou para a igreja, e olhou o altar. Estava de costas para Frey. — Você sabia que os padres costumavam rezar a missa assim? Com as costas para as pessoas? As coisas mudam — disse Frey, pensativo. Sebastian subiu as escadas até o púlpito de mármore, postando-se de frente para a igreja e para o médico, que não estava sozinho. Da plataforma elevada, Sebastian viu outra pessoa na penumbra. Uma cabeça que I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


espreitava nervosamente por trás de um dos bancos dos fundos. Era Jesse. Sebastian não esboçou reação, pois não sabia se Frey percebera que fora seguido pelo blogueiro. — O senhor tem certeza de que quer vir até aqui, doutor? Frey suspirou. — Compreenda, nós fazemos o que devemos. — Eu compreendo. — Mais um enfermeiro para ser sacrificado? — perguntou Sebastian, apontando para o sujeito de olhos vidrados e uniforme do hospital, que Frey trouxera consigo. — Não — respondeu Frey. — Um paciente como você. Achei que vocês deveriam ser apresentados formalmente — explicou o médico, com ar velhaco. — Vocês têm muita coisa em comum. Ambos são sociopatas e violentos. Assassinos. Incuráveis. Embora no caso dele sejam crianças pequenas, não meninas adolescentes. Sebastian ficou de queixo caído. — Um candidato à pena de morte. — Quase. Mas, como eu expliquei ao tribunal, ele não é responsável por suas ações. — Todos nós somos responsáveis por nossas ações, doutor. E pelas consequências. O dr. Frey deu umas palmadinhas no ombro de Sicarius, arrancando um sorriso crispado do delinquente louco. Os passos de Frey e de seu assassino ficaram cada vez mais altos, à medida que se aproximavam do altar. — Isso aqui está uma bagunça. Preciso conversar com os empreiteiros sobre os investimentos que estou fazendo nessa obra. — Por que o senhor tem tanto medo de mim? — perguntou Sebastian friamente. — Eu entendo que haja um lugar para o senhor no mundo, para o que o senhor acredita. Mas o senhor acha que não há lugar para mim. — Não tenho medo. Apenas preocupação. Como tenho por todos os meus pacientes. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Bobagem. O senhor tentou apagar minha mente. Minha identidade. — Apagar você? Ou tratar você? — Dá no mesmo. Doutor. — Você está doente, Sebastian. Acha que eu sou mau, quando tudo o que fiz foi tentar ajudar você, proteger você de sua própria insanidade. E quando isso se mostrou impossível, proteger as outras pessoas de você. Sebastian lutou contra o impulso de estrangular Frey ali mesmo, e se manteve controlado. — Foi o senhor que chamou os policiais? E Jesse? — Disse a eles que você era assassino e sequestrador. Um jovem especialmente perigoso e delirante. A verdade. — Tudo isso soa razoável, doutor. Até para mim. — E deveria. Essas garotas lá embaixo estão em perigo por sua causa. Não por minha causa. — Isso é mentira. — Você encheu a cabeça delas com essas superstições bobas. Nós não precisamos mais dessas coisas — disse Frey, inflexível, apontando para o altar. — Nem de gente como você. — Por quê? Porque nós sabemos quem é o senhor? — disse Sebastian desdenhosamente. — O senhor não oferece felicidade. O senhor não oferece realização. O senhor não oferece amor. O senhor dá receitas de negação da alma. Em doses diárias. — Faço qualquer coisa que funcione — disse o médico jovialmente. — O que acontece quando as receitas vencem, doutor? — São renovadas, Sebastian. — Aqui me sinto sempre bem — observou Sebastian. — Não preciso de novas receitas nem de uma camisa de força. — Não. Basta fazer uma pequena contribuição semanal. — Ninguém me cobrou nada para eu entrar aqui. — Que romântico. Agora estou vendo por que as garotas se deixaram levar. Sacuda uns braceletes, diga que elas estão destinadas a ficar juntas. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Com certeza há modos mais fáceis para se arranjar uma namorada. — Elas vieram a mim. Foram conduzidas até mim como eu fui conduzido até elas. — Não há nada de especial em você, Sebastian. Você está tão iludido quanto uma pessoa que vê o rosto de Jesus numa tigela de cereais. — Eu sei o que eu sei — disse Sebastian com firmeza. — Você não sabe nada. Você acredita. Está espalhando mentiras. Mentiras perigosas. — Não há nada mais perigoso do que a verdade, doutor. — A ciência é a verdade. É um rigoroso processo de estudos realizados durante anos para responder perguntas antiquíssimas. Para separar o fato da ficção. Existem ensaios, avaliados e publicados, abertos ao escrutínio de qualquer um. — Tudo pago por pessoas como o senhor, doutor. Para afirmar que as coisas mudam. Evoluem, como preferem dizer. O que eu sei não pode ser comprado. É eterno. — Por que estou me aborrecendo? Tive essa mesma discussão com o padre Piazza. Você se lembra dele? Frey percebeu que até a menção do nome do velho padre era dolorosa para Sebastian. — Mesmo os autoproclamados homens de Deus não acreditaram em você. Eles traíram você. O mundo mudou, Sebastian. — Sim, mudou. Virou uma merda. — E você e seu pequeno harém vão limpar o mundo? Vão nos purificar para a Volta de Jesus Cristo? Por favor, não pregue para mim. — Se o senhor não acreditasse nisso, doutor, se não tivesse medo, o senhor não estaria aqui. — São hipóteses, Sebastian. Mas continue dizendo isso para si mesmo. — É a realidade, doutor. Em breve todo mundo vai conhecer essa realidade. — Não. A realidade é que a polícia vai chegar daqui a pouco. Os I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


bombeiros também, ao que parece. Suas namoradas estarão mortas. Eu serei um refém. E você levará a culpa. Ou estará morto. — Elas sabem cuidar de si mesmas — replicou Sebastian. — E eu também. — Quanta fé você tem, Sebastian. Mas tão raramente testada. Jesse levantou a cabeça de novo e começou a tremer, temendo pelo destino de Lucy, das outras garotas e de Sebastian. O que viria a seguir era óbvio. — Sicarius — ordenou Frey, fazendo um sinal para seu lacaio. Sicarius pareceu sair de seu estupor e começou a correr pelo corredor central como um animal selvagem farejando sangue. Sebastian pulou para o chão, de modo a interceptá-lo, defendendo o santuário da igreja com sua vida. Ele era o último bastião. A colisão foi fortíssima. Ambos caíram sobre o altar e depois rolaram no chão, em meio a uma nuvem de poeira. Usando seu peso, o assassino tentou prender Sebastian no chão. Mas Sebastian conseguiu livrar um braço, antes de ser imobilizado fatalmente, e deu uma cotovelada na têmpora de Sicarius que o deixou atordoado. Depois o empurrou para o lado. Jesse batia fotos e mais fotos das cenas de violência que se desenrolavam à sua frente. Sicarius se pôs de pé e pegou um dos pesados canos de metal que estavam empilhados perto da parede. Usando o cano como o machado de um carrasco, tentou acertar Sebastian, errando por centímetros. Sebastian começou a se levantar, mas Sicarius lhe deu um chute na barriga e outro no queixo — este arrancou sangue do nariz e da boca de Sebastian, que começou a ofegar, enquanto sentia o gosto do próprio fluido. De sua posição no chão, Sebastian avistou um aspersório — um instrumento para aspergir água benta — e rolou em sua direção. Quando o lento gigante ergueu o cano para golpear novamente, Sebastian bateu com o cabo do aspersório em seu joelho, despedaçando a patela. Quando o assassino se dobrou, Sebastian golpeá-lo a boca de seu estômago com a I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


ponta do instrumento, tirando-lhe o fôlego e o deixando incapacitado. Depois, com toda a força que tinha, bateu com o instrumento sagrado no crânio calvo de Sicarius. Após uma pausa para limpar o sangue do rosto, Sebastian pegou Sicarius pelo colarinho e o arrastou até as proximidades da enorme pia batismal. De lá olhou para o médico, que se mantinha impassível. — Esses instrumentos já não são muito utilizados — disse ele, sentando Sicarius e apoiando a cabeça do assassino na balaustrada do comun- gatório. — As coisas mudam. Caminhou então até os baldes que as garotas haviam distribuído em torno do altar. Cerrando os dentes, ergueu um dos baldes e despejou a água choca na boca do homem. — Você renuncia a satã? — perguntou, dando início a um falso batismo. Com suas últimas moléculas de força, Sicarius cuspiu a água no rosto de Sebastian e tentou fechar a boca. Sebastian enfiou o aspersório na boca do homem, até a garganta, quebrando alguns dentes e o obrigando a manter a boca aberta. — E a todas as artimanhas dele? Sebastian continuou a interrogar Sicarius conforme o ritual, enquanto despejava goela abaixo o primeiro balde, depois o segundo e por fim o terceiro. Até que a água começou a sair pela boca, nariz e orelhas do assassino, como se este fosse um tanque de gasolina cheio demais. — E a todas as pompas dele? O ventre de Sicarius estava anormalmente inchado e seus olhos, esbugalhados. Ele estava morto. Afogado. Sebastian removeu o aspersório de sua boca e o jogou em um dos baldes. — Muita gente diria que uma coisa dessas é uma blasfêmia. Imperdoável — disse Frey. — Nós fazemos o que devemos — retrucou Sebastian, repetindo as palavras do próprio médico. — Vou correr o risco. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


Sabendo que Jesse estava ali e querendo deixar tudo registrado, Sebastian decidiu recapitular a história. — Você me armou uma armadilha. Eu encontrei as garotas. Elas levaram você até mim e até elas mesmas. — Simples, você tem que admitir. E sem falhas. — E por isso que lhe pagam um dinheirão, doutor. O senhor tem sempre tudo preparado. Tudo totalmente racional, lógico. — Obrigado. — Exceto por um detalhe. E se eu não estivesse me escondendo? E se estivesse esperando? E se eu quisesse que você me encontrasse? — Por que você iria querer ser encontrado? — Talvez porque eu seja louco, doutor. O senhor mesmo disse isso. Ou o senhor pode fazer as contas. Eu poderia diminuir o número de pessoas como o senhor. Menos um, bem agora. Uma barulheira enorme vindo da capela e do lado de fora interrompeu o diálogo. O bando de Jesse havia chegado, pulando as cercas e batendo nas tábuas que fechavam as janelas, fazendo tremer os andaimes. Enquanto isso, fumaça começou a escapar pela porta da sacristia, penetrando na igreja. — Tenho certeza de que você gostaria de me matar, Sebastian, mas já fiz as contas e, a julgar pelas portas de carro batendo lá fora, você está em grande desvantagem numérica. Sebastian olhou para a porta da sacristia, observando a fumaça cada vez mais espessa e ouvindo a trepidação que provinha lá de dentro. De súbito, inesperadamente, a porta se abriu. Lucy, Agnes e Cecília surgiram à porta da sacristia enfumaçada. Estavam machucadas e sujas de sangue. Línguas de fogo lambiam seus calcanhares. Elas correram até onde estava Sebastian e o cercaram, sendo acolhidas com o abraço mais apertado que já haviam recebido. — Vocês estão vivas! — disse ele, com uma felicidade na voz que elas nunca tinham ouvido, partindo dele. — Graças a Deus. Frey estava com uma expressão sombria. Jesse, agora escondido na I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


galeria, ficou tão aliviado ao saber que as garotas estavam vivas, que quase chorou. — Agnes, querida. Que bom ver você de novo. Nós não tínhamos marcado uma consulta? — Vou ter que marcar outra hora. — Ele é um fanático. Fez você matar alguém por causa dele. Até onde você pretende ir? — Jogo mental — observou Sebastian. — Não deem atenção a ele. — Você só está realizando a fantasia dele e a sua. Abraçada a Sebastian, Lucy decidiu falar por todas. — O que aconteceu lá embaixo não foi nenhum sonho. Talvez um pesadelo. Não foi ilusão. — Srta. Ambrose. Agora eu sei por que você não me telefonou. Tem andado muito ocupada. Frey estava tentando entrar nas mentes delas. De repente, as janelas se encheram com atiradores de elite da polícia. Sirenes soaram, canos de rifles despontaram entre as frestas das tábuas. A estática dos rádios dos policiais ressoou no ar. Luzes das estações de tevê, acesas no lado de fora, projetavam uma penumbra sobrenatural na igreja. Um terceiro alarme soou, convocando os bombeiros de postos distantes a se dirigirem ao local, provocando um caos ainda maior nas cercanias. — Estou vendo ele, mas não estou conseguindo uma linha de tiro! — gritou um policial. — Fumaça demais. — As reféns estão muito perto! — gritou outro. Ouviu-se uma voz num megafone. — Aqui é o capitão Murphy. O prédio está cercado. Nós não queremos que ninguém saia machucado. Levantem os braços e saiam da igreja. — Nós não somos reféns! — protestou Cecília, sem resultado. Sua voz foi abafada pelo mído de um helicóptero e da multidão que cercava a igreja. Sebastian pediu às garotas que se escondessem atrás do altar derrubado, I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


como se este fosse um escudo. Ele se posicionou à frente do altar. Vulnerável. Um alvo fácil. — Afaste-se das garotas — ordenou Murphy. — Esse é nosso último aviso. Jesse estava quase perdendo o controle. Tinha certeza de que ficaria no meio de um fogo cruzado, todos ali ficariam. — Não atirem! — gaguejou ele da galeria, mostrando-se. — Não atirem! Frey e as garotas olharam para ele, surpresos. — Telefone para a polícia e diga que você vai sair — ordenou Sebastian. — Com as garotas. — Não vamos sair! — gritou Cecília, apertando Sebastian com mais força. Jesse assentiu com a cabeça, nervosamente, mas o telefone escorregou da mão dele enquanto ele discava e caiu na nave abaixo. — Merda — gemeu ele, correndo para a escada. Foi neste momento que a situação ficou ainda mais tensa. Raios laser vermelhos e verdes cortaram a fumaça, compondo um show de luzes como eles jamais haviam visto. Pequenos pontos brilhantes em busca de alvos. — Se abaixe! — gritou Sebastian para Jesse que estava entrando na nave. Jesse pulou no chão e se arrastou entre os bancos, para se esconder. Sebastian se virou para as garotas. Mesmo em meio à fumaça, elas perceberam que havia uma despedida nos olhos dele. — Está na hora — disse ele. — Eu não sabia que seria tão duro. Mas é. Agora que conheço vocês. Agora que amo vocês. — Sebastian, não! — gritou Lucy. — Não faça isso. — Precisamos de você! — gritou Cecília. — Por favor. — Não nos deixe! — choramingou Agnes. — Nunca vou deixar vocês — disse ele. — Mesmo algemado ou dentro de um caixão. — Eles não estão brincando, Sebastian — implorou Lucy ansiosamente. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


— Apenas se renda. Nós vamos lutar por você, aconteça o que acontecer. Não o deixe ganhar. Sebastian sorriu docemente. — Vocês não estão percebendo? Ele não pode ganhar, não agora. Agora é com vocês três. — A noite ainda não terminou, Sebastian! — exclamou Frey. — Eu lhe disse que haveria outras pessoas, doutor — disse Sebastian em tom desafiador. — A guerra continua, com ou sem mim. — Perdas acidentais. Sebastian rasgou a camisa, expôs as marcas que fizera em seu peito, os sinais delas, abriu os braços e soltou um grito alto. — Corajoso — reconheceu o dr. Frey, demonstrando algum respeito pelo adversário. — E tolo até o fim. — Não é o fim — corrigiu Sebastian. — É o começo. Neste momento, Lucy, Agnes e Cecília se postaram em torno de Sebastian, formando uma muralha humana. Frey sorriu. O caos era seu amigo e as probabilidades de que houvesse um acidente feliz eram, a seu ver, ainda boas. —Não atirem! — gritou Murphy nos fones de ouvido dos atiradores. O tumulto no lado de fora se alastrou até a igreja, quando os garotos convocados por Jesse começaram a bater nas portas e no que restara das janelas, tirando fotos e gravando vídeos que provocaram um frenesi de mensagens nas mídias sociais. As três garotas em atitude desafiadora, arriscando suas vidas por amor e misericórdia, ganharam fama instantânea. As Santas de Sackett Street, foi como Jesse as apelidou. — Atirem nele! — gritou alguém, com sede de sangue. A situação, dentro e fora da igreja, estava saindo do controle. — Capitão não podemos deixar isso continuar. O bairro inteiro vai se incendiar — disse o chefe dos bombeiros. — O senhor tem que dar um fim nisso. Os atiradores de elite mantinham os dedos nervosos pousados nos I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


gatilhos, esperando a oportunidade de executar um tiro perfeito. Qualquer movimento brusco e tudo estaria terminado. Todos sabiam disto. — Meu coração é o coração de vocês — sussurrou Sebastian para as garotas, dando um beijo de despedida no rosto de cada uma. — Lembrem- se do que eu disse. Lembrem-se de mim. — A escolha é sua — disse Frey, afastando-se do altar e da fumaça. As palavras de Sebastian ecoaram poderosamente: — Nunca houve escolha. Antes que as garotas pudessem segurá-lo, ele rompeu o escudo humano que elas haviam formado e investiu contra o dr. Frey, que, em sua pressa covarde para se retirar, caiu de costas no chão. — Tenho uma linha de tiro — disse um atirador em seu microfone. Murphy deu a ordem: — Atire. Ouviu-se um grito prolongado e gutural proveniente do altar, seguido pelos arquejos da multidão no lado de fora. Depois o silêncio. Completo silêncio. Cinco tiros ecoaram e atingiram Sebastian, que tombou no chão mortalmente ferido. Lucy, Agnes e Cecília correram até ele e o cercaram, tentando consolá-lo e a si mesmas, afastando os cabelos que lhe cobriam os olhos, pranteando Sebastian nos últimos momentos que passariam juntos, cobrindo seus ferimentos com as mãos e professando seu amor imortal. Ele era lindo. Estava sereno. Se não fosse pelo sangue que se esvaía dele, Sebastian parecia um atleta se recuperando do cansaço, tentando recobrar o fôlego. Um cheiro de cravo e rosas emanava dele. Seu olhar estava distante, voltado para o céu. Com seu último fôlego, ele olhou para elas e rezou a prece do Sagrado Coração: I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

Eu voltarei e vos levarei Comigo afim de que, onde eu estiver, estejais vós também.


— Nós estaremos esperando — garantiu Agnes, em meio a soluços. — Sempre. Sebastian sorriu e suspirou pela última vez. Frey olhou para o cenário de destruição com desagrado, pois alcançara apenas uma vitória parcial. — Ecce homo — disse para as garotas, com ar de troça. — O que vocês estão vendo? Um homem. Só um homem. — Nós veremos você de novo, doutor — prometeu Cecília entre lágrimas amargas. — Vocês verão — concordou Frey. — De um jeito ou de outro. Ele espanou a poeira das roupas e se encaminhou para a porta. Ao ver o celular de Jesse no chão, pisoteou-o, esmagando as provas. Depois o pegou tranquilamente e o enfiou no bolso — naquele ambiente confuso, não despertou atenção. Virando-se, olhou para Jesse, agora semioculto atrás de um banco. — Você vem comigo? — perguntou. — Não — respondeu Jesse. Frey ouviu a resposta de Jesse com expressão de desprezo e desgosto, e caminhou até onde estavam os policiais, paramédicos e repórteres, ansiosos para conhecer a versão dele dos eventos que tinham acabado de ocorrer. Policiais e bombeiros entraram na igreja, com armas e machadinhas na mão. — Acabou — disse o capitão de polícia. — Vocês estão salvas agora. As garotas olharam para ele com ar impassível. Decepcionado com a frieza delas, o capitão se retirou, deixando seus subordinados cuidarem do caso. Mangueiras enormes despejaram verdadeiras cachoeiras nas brasas fumegantes, enchendo novamente as pias de água benta, pela primeira vez em muitos anos. Uma a uma, as garotas foram ajudadas a se levantar. — Não podemos abandoná-lo aqui — gemeu Agnes, limpando o I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


sangue e o suor frio do rosto com a manga da blusa. — Nunca vamos abandonar Sebastian — disse Lucy, dando-lhe um abraço. Depois se inclinou, beijou o rosto de Sebastian e segurou a mão dele. — Descanse em paz — disse ela. — Ninguém nunca vai esquecer o que você fez aqui hoje. Isso eu garanto. Finalmente, foi a vez de Cecília. Ao segurar a mão de Sebastian, ela percebeu que ele segurava um rosário negro. Era pequeno como um rosário de criança. Provavelmente o recebera quando era menino do coro. E se apegara a ele ao longo dos anos que passara no hospital psiquiátrico. Segurava o rosário com força. Cecília abriu a mão dele e notou que faltava o crucifixo. Fora perdido, talvez, durante a saraivada de balas. Ela tirou o rosário da mão de Sebastian e o beijou. Depois, tirou um de seus brincos, removeu o pingente que havia nele — um soco inglês em miniatura — e o prendeu no rosário, no lugar onde estivera o crucifixo. Cingiu o rosário no próprio pescoço e o beijou novamente. Depois beijou Sebastian. Quando já estavam caminhando pelo corredor central em direção à porta da igreja, escoltadas por alguns policiais, elas pararam e olharam para Sebastian uma última vez. E aquilo aconteceu bem diante de seus olhos. No peito dele. De cada um dos buracos de bala. Uma a uma. Flechas brotaram. Todas as dúvidas, todas as tristezas delas, finalmente desapareceram. — Ver para crer — murmurou Lucy. — São Sebastião — disse Cecília, assombrada com a visão. Agnes correu até Sebastian, tirou do bolso a folha que arrancara do Legenda e a deixou ao lado dele. — Meu sagrado coração — disse ela, beijando Sebastian pela última vez. — Reze por nós. Depois se reuniu a Lucy e a Cecília e as três se encaminharam para o saguão da igreja. A tristeza deixara seus corações, substituída por uma sensação de propósito. A fumaça negra adquiriu uma tonalidade brancoI am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


acinzentada. Uma decisão fora tomada. Uma ameaça fora superada. Mas as chamas que ardiam dentro delas ainda estavam vivas. Elas se aproximaram da porta. Jesse se levantou quando elas passaram. A multidão indisciplinada as aguardava no lado de fora. Irrequieta. Se para absolvê-las ou condená-las, elas não sabiam. Não sabiam o que os outros iriam pensar sobre elas. Talvez, pela primeira vez em suas vidas, nem se importavam. Cecília colocou o capuz do casaco sobre a cabeça, protegendo seus cabelos eriçados. Lucy cobriu a cabeça com um cachecol de seda, que prendeu frouxamente sobre as melenas louras. Agnes puxou uma ponta de seu poncho de lã de ovelha e cobriu seus longos cabelos avermelhados. De cabeças cobertas, elas se deram as mãos e pararam à porta da igreja. Então, humildemente vitoriosas, desceram as escadas em silêncio, seguidas por gritos, assovios, flashes, cameras e microfones esticados em sua direção. O mar de policiais, repórteres e espectadores se abriu à frente delas, com reverência, enquanto elas eram conduzidas a um carro de polícia. Algumas pessoas estenderam as mãos para tocá-las. Outras as repudiaram em voz alta. Glorificadas, amaldiçoadas e toda a gama de atitudes que havia entre uma coisa e outra, ícones implausíveis, elas continuaram a caminhar. Seu propósito era claro, como Cecília disse a Agnes e a Lucy, que estavam a seu lado. — Seja feita a vossa vontade. I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


O MUNDO SEGUNDO SEBASTIAN Seguidores da esperança. Seguidores da fé. Seguidores do amor. Venham até mim E até Aquelas Três Que Guardam Meu Coração I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath


E Vocês Verão Que Tudo O que Querem E Tudo O que Desejam Fazer Já está aí Dentro de Vocês. Não Tenham Medo, Pois Estarei Com Vocês SEMPRE Até o I am alone. Cornered. N ext to nothing and the dogs are at my door. The asse mbly of the wicked surrounds me. I a m mocke d and s hunned . Abandone d. Lie s and pai n, my s ole companions. Do not leave me now. I’ m shaki ng and des perate for the comfort of your ar ms. Tongue s of flames licking my conscie nce. The torme ntors laug h and grab. I a m torn a nd shre dde d. Insi des out. Without mer cy. Is there no one who can save me? “Save yourself, ” you said. Corps e flower s bloom beautifully beneath

FIM


Abençoadas - The Blessed