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O ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL

Arte e Lazer

Página 19

SÁBADO,

19

DE

DEZEMBRO

DE

Saul Schramm

Atores de ‘Caras & Bocas’ aproveitam sucesso para fazer outros trabalhos

ENTREVISTA: Bate-papo com Augusto César Proença Página 24

2009

Loucos por Manoel Completando 93 anos hoje, o poeta Manoel de Barros influencia artistas de várias áreas Foto de Manoel de Barros: Thiago Andrade

Manoel de Barros faz 93 anos hoje com séquito de seguidores aumentando a cada dia

Thiago Andrade

igura fugidia da imprensa, Manoel de Barros é um senhor simpático e sorridente, de baixa estatura e voz suave, que verte em poesia qualquer frase cotidiana. Esta foi a impressão que o escritor deixou em encontro articulado pelo amigo de Manoel, Luiz Taques, com a reportagem de O Estado em sua casa, na tarde da última quarta-feira. O poeta, considerado por muitos como o mais importante da atualidade do País, completa hoje 93 anos. Entretanto, Manoel não deixa de surpreender: "Não gosto de aniversário. Vê se árvore comemora aniversário? Não! Elas só deixam o tempo passar. É simples". Nascido em Cuiabá no dia 19 de dezembro de 1916, o poeta foi criado em Corumbá e morou no Rio de Janeiro. Voltou para Campo Grande, onde criou raízes e vive até hoje com sua companheira Stella. Atualmente, prepara um novo livro chamado "Infância da Palavra". Seu dom em transformar pedras e lesmas em arte, já

F

rendeu 27 livros desde que lançou "Poemas Concebidos Sem Pecado", em 1937. Um dos maiores vendedores de livros de poesia do País, o escritor tem como fãs assumidos personalidades como Millôr Fernandes e Cássia Kiss, além do companheiro de ofício Carlos Drummond de Andrade, falecido em 1987. Ganhador de inúmeros prêmios, entre eles dois Jabuti, Manoel influencia muitos artistas e intelectuais. "Estava um dia conversando com meu neto, que procurou meu nome na Internet e disse que mais de 160 mil citações apareceram. É muita gente falando de uma pessoa só, não é?", brinca o próprio. INSPIRAÇÃO Foi a obra de Manoel que abriu as portas para Joel Pizzini iniciar seu prestigiado trabalho como cineasta. "Estava de férias em Campo Grande, em meados da década de 80, e me levaram para conhecê-lo. Na época, seus livros estavam esgotados e poucos falavam dele. Pensando nisso, decidi produzir um filme que o trouxesse à memória e divulgasse seu trabalho",

relembra. Deste modo nasceu seu primeiro filme, "Caramujo-Flor". Entretanto, Manoel deixou claro que não apareceria, tanto que o primeiro título sugerido foi "O Inviável Anonimato do CaramujoFlor". "Imagine meu choque ao descobrir que eu teria que fazer um filme sem o personagem principal. Em compensação, tivemos total liberdade para usar sua obra. Assim nasceu o ensaio poético cinematográfico", detalha. O curta-metragem ficou pronto em 1988. No mesmo ano, o cineasta recebeu um prêmio no Festival de Huelva, na Espanha. Graças ao filme, a cantora Tetê Espíndola teve espaço para realizar um feito inédito: musicar um poema de Manoel. Na falta de um, Tetê transformou duas obras em canção. As escolhidas foram "Poema da Lesma" e "Boca". "Conheci seu trabalho através do Pizzini e me apaixonei logo de cara. Nunca tirei 'Poema da Lesma' do meu repertório", confirma. Tetê ressalta que a influência do poeta sobre seu trabalho ainda é grande. "Acho que tenho algumas coisas parecidas com ele, prin-

cipalmente quanto à forma de articular as palavras. 'Para Tudo', uma das músicas de um trabalho ainda inédito, tem bastante disso, de brincar com os significados", detalha. CONTEMPORÂNEOS Outro que decidiu transformar literatura em música foi Márcio de Camillo, com a diferença de que o trabalho será voltado para o público infantil. "Acredito que a poesia do Manoel atinge todas as faixas etárias. Também sou pai e isso me envolveu nesse universo", ressalta. Márcio se aproximou da arte do poeta durante os anos de escola e afirma que ela sempre o influenciou musicalmente. As possibilidades oferecidas pela obra do poeta são enormes. Para a artista plástica Miska, frases de Manoel como "os objetos sem função têm muito apego pelo abandono" ou "palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria" se tornaram inspiração para criar sua exposição "Pequenos Oratórios de Coisas Desúteis", título tirado de mais uma frase do poeta. "Ele tem esse traba-

lho de colagem e de trazer à memória palavras esquecidas. Acho que meu trabalho também vai nessa linha, só que uso objetos em vez de palavras", compara. Uma curiosidade marcou a aproximação entre a artista e o escritor: o fato de que seu pai e Manoel dividiram um quarto no período em que moraram no Rio. "Descobri isso quando fomos apresentados. Falei meu nome e ele disse que sabia quem eu era e contou toda a história", detalhou. AMIZADE Alguns "loucos" por Manoel acabaram desenvolvendo uma relação mais próxima com o poeta. Esse é o caso do jornalista Luiz Taques, que lançou ontem "Vaso de Colher Chuvas", um livro de contos-reportagem sobre ele. O diferencial da obra foi desvendar o universo e a intimidade do autor. Taques se aproximou de Manoel por meio de um amigo no final dos anos 80. Ele conta que a amizade teve início com os dois conversando sobre a obra do poeta e autores que gostavam. "Foi crescendo e hoje somos bons amigos. Sempre

que posso o visito. Meu livro foi uma forma de homenageá-lo, relembrando personagens importantes de sua história", garante. HISTÓRIAS Durante o tempo em que morou no Rio de Janeiro, o poeta participou dos círculos modernistas da geração de 45. Aproximou-se de escritores como Drummond, que se tornou um de seus grandes admiradores. Quando Pizzini trabalhava na produção de "Caramujo-Flor" decidiu procurar alguns artistas para dar maior visibilidade ao projeto e conseguir um pouco mais de dinheiro, já que o cedido pela Embrafilme mostrou-se insuficiente. "Liguei para o Carlos Drummond e contei toda história. No final ele disse: 'Aprecio muito o Manoel. Por onde ele andará?'. Em uma entrevista para o 'Correio Braziliense', comentei o que o poeta mineiro havia me dito. No dia seguinte, a manchete era 'Drummond considera Manoel de Barros o maior poeta brasileiro de todos os tempos'", lembra. Segundo o cineasta, até hoje a frase circula como se realmente tivesse sido proferida.


Loucos Por Manoel