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ARTE E LAZER

Estado de Mato Grosso do Sul

Sábado, 5 de dezembro de 2009

ENTREVISTA

‘Assumir auxilia no tratamento’ O ator Fernando Cruz revela ser portador de HIV e estampa campanha do Ministério Moisés Palácios

Thiago Andrade

em medo de se mostrar para ajudar quem teme assumir a infecção por HIV. Este foi um dos motivos que levaram o ator e arte-educador Fernando Cruz, 46 anos, a aceitar participar da campanha do Ministério da Saúde “vHIVer com Aids é Possível”. “As pessoas não gostam de aparecer e isso atrapalha muito o tratamento”, ressalta o gaúcho. Ele e a mulher Ana, uma pedagoga de 44 anos, estampam out-doors por todo o Mato Grosso do Sul esbanjando vida, mas demonstrando um recado que vai além da convivência com o vírus. “É uma luta pela visibilidade”, enfatiza. Cruz explica que as autoridades de Saúde de cada Estado procuraram pessoas em suas próprias regiões para ilustrar a campanha. No caso dele e da mulher, muitos com quem conviviam não sabiam da condição de soropositivos. “No meu meio profissional de ator, a maioria sabia. Mas trabalho em algumas escolas da rede municipal e pouca gente sabia. Há um mito de que a pessoa com Aids tem a cara ‘chupada’, fica para baixo. Isso quebrou esse pensamento”, ressalta. O ator e garoto-propaganda defende os benefícios da exposição. “Tem gente que até hoje a família não sabe, mas o HIV é um vírus inteligente, pode haver mudanças e necessidades de ajustes. Alguns até abandonam a medicação em função de não fazer o tratamento por medo da exposição, medo de ser discriminado e se sujeita a doenças, entre elas a própria Aids”, alerta. Outro ponto defendido por Cruz é o da “exposição do preconceito”. “O lado legal da visibilidade é perceber quem são os amigos. Quem são as pessoas legais e quem dá mais peso para o preconceito do que para as relações humanas. As pessoas convivem o tempo todo com quem tem HIV e nem imaginam. E, para o portador, na medida em que conversamos, ficamos melhor”. Na avaliação do ator, assumir-se com Aids também é uma quebra de tabu. “Ficam sabendo que somos pessoas, gostamos de viajar, curtir a vida, de namorar, de sermos normaia”. Atualmente Fernando comanda o Grupo Teatral Maracangalha, dá aulas de teatro na rede pública de ensino e ministra cursos de capacitação para professores. (Colaborou Sandra Luz) Confira abaixo a entrevista:

S

O Estado - Como você decidiu entrar nessa campanha do Ministério da Saúde, vHIVer? Fernando Cruz - Na verdade, eu participo de campanhas de prevenção a Aids desde o início da epidemia, antes mesmo de contrair o vírus. A partir do momento em que contraí comecei a atuar na questão dos direitos humanos dos portadores. Também passei a pensar em questões ligadas ao tratamento e o acesso a ele, além do direito à convivência e à permanência no mercado de trabalho. Lutei pela quebra de patentes, para que toda a população tivesse acesso aos medicamentos. O Estado - A campanha de que você está participando é nacional? Fernando Cruz - O tema é nacional. Mas cada região tem outdoors com seus próprios artistas. Existe um monitoramento de dados e estatísticas da epidemia, por segmentos como homossexuais, profissionais do sexo, terceira idade, público adolescente etc. O objetivo é mostrar que é possível conviver com o HIV e que o preconceito pre-

epidemia, eles conseguem ver qual o tipo de HIV que tem e qual o remédio que deve tomar para isolar o vírus e para saber qual remédio que no organismo vai ter menos efeito colateral. Cada pessoa tem uma combinação diferenciada e por isso hoje os tratamentos são mais eficientes. O Estado - E quando você começou o tratamento não era assim? Fernando Cruz - Não. Tinha um limite de medicações e eram mais complicadas de tomar porque havia uma serie de restrições. Tinha de fazer jejum horas antes ou depois. Era mais chato de tomar. Uma vez tive alergia a uma medicação, mudei e estou com essa até hoje. Mas atualmente as coisas são mais tranquilas para a gente. Tomamos menos comprimidos cada vez mais, então está mais tranquilo.

Fernando Cruz é natural de Porto Alegre (RS), tem 46 anos e mora em Campo Grande desde os anos 90

cisa ser deixado de lado. O Estado - Você começou a participar de campanhas fora do Estado? Fernando Cruz - Comecei fora, mas foi em Campo Grande que detectei minha sorologia, portanto foi aqui que passei a atuar diretamente. Tudo aconteceu há uns dez anos, quando o acesso à saúde para soropositivos ainda era bastante precário, principalmente quanto às instalações. Hoje, nós transformamos Campo Grande em referência com a criação da Rede Nacional de Pessoas com Aids (RNP+). É uma rede nacional, que começou atuando em hospitais e, atualmente, movimenta o País na busca por medicamentos e na convivência sem preconceito. Algo diferencial nesse movimento é a participação da sociedade civil, por meio do monitoramento de políticas públicas de atendimento às pessoas com HIV. O Estado - Como funcionam as campanhas de prevenção? Fernando Cruz - Existem campanhas o tempo todo. Existe um programa do Ministério da Saúde, em parceria com a Secretaria de Educação, em que se capacitam professores e equipes pedagógicas, orientadores e estudantes

Fazia um tratamento dentário ligado a um plano de saúde. Quando falei para o dentista que era soropositivo, ele não aceitou continuar para serem multiplicadores de informação no trabalho de prevenção e sobre questões de sexualidade, afinal, as duas coisas estão ligadas. Existe também o usuário de drogas. Por meio do programa de redução de danos, desenvolvese um trabalho junto às comunidades, que envolve diversas áreas, inclusive o teatro. Procuramos fazer um trabalho temático e institucional, tem um edital que seleciona peças didáticas para conscientização em relação ao HIV. As campanhas de massa são mais localizadas, por volta do Dia Mundial de Combate a Aids, pois é um momento quando existe maior visi-

bilidade. Outras festas populares também têm campanhas fortes, como o Carnaval. O Estado - Você descobriu que era soropositivo na década de 90? De lá para cá, sempre lidou abertamente com isso? Fernando Cruz - Sim, sempre tomei a minha medicação corretamente. Tem pessoas que possuem dificuldades em lidar com isso, porque querem esconder dos outros. Acabam não tomando a medicação e não controlam como deveriam. Eu abri o jogo e aderi ao tratamento, para fazer tudo certo, porque eu queria viver. O Estado - Houve preconceito na época em que você assumiu a doença? Fernando Cruz - Eu fazia um tratamento dentário ligado a um plano de saúde. Quando falei para o dentista que era soropositivo, ele não aceitou continuar o tratamento e o plano me cortou. Movi uma ação judicial na época e ganhei. Mas fui fazer tratamento em outro lugar, com outras pessoas. Existe a questão dos filhos. Em algumas escolas acharam que nossos filhos poderiam transmitir a doença. Olha a falta de informação das pessoas! Eu tenho um filho, do meu primeiro casamento, que não é portador. Mas já faz tempo. Percebo que outras pessoas com quem eu convivo, eu sou professor, não tinham nem idéia da minha convivência com o HIV, e as pessoas vão conversando e você vai percebendo que tem um monte de bola fora, a gente tem que estar lembrando "Não, não é isso". A falta de informação ainda acontece em todas as áreas. O Estado - E agora, com você participando da campanha, muitas pessoas, que não sabiam que você é portador, agora sabem. Como foi essa mudança? Fernando Cruz - Um monte de gente vem falar, "Pô, que legal", As pessoas começam a ver onde estão os seus equívocos, mas foi uma aceitação bem legal. E outras pessoas que têm o HIV perceberam que ser feliz é uma opção e diversidade já é uma coisa que vem no pacote da vida. Tem que encarar, que seja com prazer, a melhor saída. O Estado - O HIV te priva de alguma coisa hoje em dia, de algo que você fazia e hoje não

faz? Fernando Cruz - Não, não me priva. Só mexe com o meu tempo, que a gente tem que ficar ligado nos horários, mas depois a gente se habitua, fica no automático. Pratico esporte, faço teatro, estudo pra caramba, dou aula, vou a festas, gosto de tomar a minha cerveja. Não me privo de nada. O Estado - Você dá aula onde? Fernando Cruz - Sou profes-

O HIV interferiu na nossa sociedade, expondo questões veladas como a transmissão sexual e o compartilhamento de agulhas

sor de teatro na rede municipal de Educação. Trabalho com a capacitação de professores na rede municipal e em movimentos sociais. O Estado - Você sabe a data exata em que contraiu o vírus? Fernando Cruz - Não. Foi na década de 90. Quando conheci a minha companheira, ela também já tinha. Foi tudo na mesma época. O Estado - Vocês se conheceram quando? Fernando Cruz - Já faz um bom tempo. Minha mulher é daqui. Nos conhecemos na Chapada dos Guimarães. O Estado - E como funciona a convivência de vocês dois? Fernando Cruz - A gente se cuida também. Todas as pessoas que possuem o HIV usam o preservativo, porque o vírus HIV tem cópias diferenciadas. É um vírus com vida própria. Então, em cada pessoa ele se desenvolve de uma maneira e para não replicar em outra pessoa tem que prevenir. Eu tomo o coquetel e ele cria uma resistência. Se entra outro vírus, ele começa a confundir o organismo e aí aquela medicação com o tempo vai perdendo efeito. Cada pessoa tem uma combinação de coquetéis diferentes. Através da genotipagem, que é um exame que se faz hoje para o tratamento da

O Estado - Qual foi a sua reação quando descobriu que era soropositivo? Fernando Cruz - Foi tranquilo. Acredito que é a nossa disposição mental que dá razão às coisas ou não. Liberdade como verdade, a gente sabe como lidar melhor com as coisas. Foi algo com a qual tive que me adaptar. Mas não houve nenhum choque. Cada bola que vem a gente tem de fazer um gol com ela. O Estado - Ter a relação com o teatro ajudou para você lidar com a doença? Fernando Cruz - O teatro tem um papel legal. Desde que eu comecei a fazer nos anos 80, e a gente não era educado para fazer teatro, e sim para ser engenheiro, advogado, profissões mais formais e mais comuns no mercado. E quis fazer teatro, dar aula, trabalhar com isso, dar oficinas, as mil coisas que se tem para fazer para viver de arte. E a grande mola no teatro para mim foi o meu tesão pela vida, e fazer aquilo que a gente gosta é uma grande saída para tudo. E por esse lado foi o que me deu força para encarar tudo e me profissionalizar dentro daquilo que me propus a viver. O Estado - Estamos no século 21, quando a AIDS está sendo encarada de uma melhor forma. Como você encara o futuro? Fernando Cruz - Eu acho que o HIV veio para interferir um pouco na nossa sociedade por ter uma transmissão sexual ou pelo compartilhamento de seringas ou transfusão de sangue. Isso mexeu com a sociedade porque envolve droga e sexualidade. Isso se desvelou na sociedade com os seus preceitos morais. Por isso, temos o grande número de mulheres casadas contraindo, idosos contraindo, heterossexuais contraindo, tudo aquilo que era tabu, família, tradição. Por baixo dessa fachada a gente tinha um comportamento diferente e a gente teve que encarar de fato. O princípio da epidemia tentou-se isolar, "Isso é doença de trabalhadores sexuais". Depois percebeu-se que não, era algo a que todos estão vulneráveis na medida em que não se previnem. E a sociedade teve de tomar uma decisão, senão todo mundo morreria. Meu desejo é que se encontre uma cura para essa epidemia e principalmente a cura para o preconceito. O Estado - Como você tratou o tema HIV com o seu filho? Fernando Cruz - Com muita liberdade. Liberdade como verdade que sempre nos une. Com meus pais também foi tranquilo e com a família da minha parceira também. A vida é boa, temos que dar um jeito nela!

E-mail para esta editoria: arteelazer@oestadoms.com.br


"Assumir auxilia no tratamento"