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J a m a i c a • A n a ï s S y l l a • N o v o s Ta r ó l o g o s • B o t a f o g o

A s t r o t u r i s m o • C a b o Ve r d e • M E C A • H o t e l A r p o a d o r # 0 02 • 2 0 19

Costa

D I S T R I B U I Ç Ã O G R AT U I TA

Rica

Duda

Beat

W W W .T H E S U M M E R H U N T E R . C O M

Brejo


marcas que acreditam na gente


“E na praia é que se vê a areia melhor pra deitar. Vou dançar uma ciranda pra beber. Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor.” “A Praieira” Chico Science & Nação Zumbi


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Ru a Lu i s An h a i a, 9 1 0 5 43 3 - 02 0, Vi l a M a d a l e n a S ã o Pa u l o, S P, B r a s i l Re ce b a e m c a s a : h e l l o @ t h e s u m m e r h u n t e r. co m

AU T U M N S O N N I C H S E N B R U N O D I EG U E Z B R U N O M AC H A D O DA N I E L A P I Z E T TA FA B I A N A CO R R Ê A F E R N A N DA N A S C I M E N TO F R E D OT H E R O ISABELA MANARA JULIANA AZEVEDO JULIANA ROCHA L AU R A C E S A R L E T Í C I A I P P O L I TO L I L I A N K AO R I H A M AT S U LU I Z WAC H E L K E RICARDO MORENO V I C TO R A F FA R O

expediente

TH E SUMM E R H U NTE R


_qual é o

seu sol?

Quando o The Summer Hunter nasceu, há cinco anos, nosso sol era aquela bola incandescente no céu, que brilha com mais força três meses por ano. Mas se reinventar é um direito cada vez mais legítimo, e por isso nos permitimos mudar um pouquinho também. É que percebemos que o verão não é só uma es t a çã o d o a n o, mas um es t a d o d e espí r i to: b usca r aquilo que nos motiva, nos faz feliz, vibrar, que empur ra nossa vida pra frente e traz consciência. E de uma coisa nós s e m p re t ive m os ce r tez a: é p ossíve l m u l t ip lic a r his tó r ias inspiradoras e transbordar essa alma quente e envolvente do verão em qualquer época do ano. Quando estreamos no papel, não imaginávamos que tanta gente ia compar tilhar e distribuir nossa revista Brasil afora. Cor re m os p r a lançar a se gun da e dição, com re p or t a ge ns inéditas e algumas das publicações mais legais do nosso site nos últimos meses . Ir radiar tudo isso outra vez é um dos nossos sóis. Deixa a gente ajudar a descobrir o seu?


AS T ROT U R I S M O

O CÉU ÉO LIMITE A VIAGEM DO MOM ENTO P R A O B S E R VA R E S T R E L A S TEXTO FABIANA CORRÊA

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Os melhores lugares do mundo pra ver nebulosas, eclipses e a Via Láctea de pertinho, da Nova Zelândia à Namíbia

Noites estreladas estão em alta. Mas não adianta olhar pro céu se você está em uma cidade grande, cercada por lâmpadas fluorescentes. Essas são, aliás, as maiores inimigas da galera que está viajando pra olhar os astros de perto, de preferência em observatórios com equipamentos supermodernos. O Airbnb registrou um crescimento da procura por hospedagem em lugares nos quais o céu é mais negro, onde se pode ver as estrelas de perto — há mais de 3 mil anfitriões na plataforma que oferecem telescópios. O site reuniu experiências para quem quer ver os astros, seja com glamour, em grande estilo, como uma casa envidraçada na Califórnia, seja com orçamento mais humilde, em cabanas perdidas em algum lugar do Chile. Observar o céu nesses lugares é ver a Via Láctea ao alcance das mãos. Windhoek e o Deserto de Sossusvlei, na Namíbia, Antofagasta, no Chile, e as Ilhas Canárias, na Espanha, são alguns dos destinos desse novo

turismo nerd. E cada uma dessas viagens pode ser bem diferente, já que o que se avista nos céus do norte não é a mesma coisa que se vê abaixo da linha do Equador. No firmamento sobre a América do Sul, por exemplo, o Cruzeiro do Sul é uma figura de destaque, enquanto a Ursa Maior é visível dos países na parte superior do globo. O astroturismo é mais comum em lugares distantes, onde o progresso não chegou com tudo — nem as lâmpadas. E algumas comunidades que já perceberam que seus destinos vêm atraindo mais gente passaram a priorizar a observação astronômica. Nas Ilhas Canárias existe

a Lei do Céu, que regulamenta a iluminação de locais públicos e impede que linhas aéreas passem onde se pode observar as estrelas. As Ilhas fazem parte da International Dark Sky Association (IDA), um órgão que se dedica a proteger esses locais da poluição luminosa. Aqui, nossa lista com alguns dos melhores pontos — abaixo ou acima do Equador, pra você ver o céu noturno em todo o seu esplendor.

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AS T ROT U R I S M O

Pico dos Dias minas gerais O Brasil não está oficialmente na lista dos melhores locais pra se ver muito bem as estrelas, mas isso não significa que por aqui não se possa fazer esse tipo de turismo. A gente tem os parques nacionais, como a Chapada dos Veadeiros, o Pantanal, as cidades de montanhas, como Teresópolis ou Campos do Jordão, onde a altitude e o ar seco ajudam a enxergar mais longe. E tem ainda um observatório que recebeu um telescópio russo na Serra da Mantiqueira, o Observatório do Pico dos Dias. Fica entre as cidades de Brasópolis e Itajubá, em Minas, e você pode aproveitar pra conhecer a bela região ao redor, que inclui cachoeiras e o monumento da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí.

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Joshua Tree Park Great Barrier Island nova zelândia Situada a 100 km de Auckland, a capital neozelandesa, a ilha Great Barrier, ou Aotea, nome dado pelos maori que habitavam o lugar, é um dos melhores pontos do planeta pra observação dos astros. É considerado um santuário Dark Sky, um lugar muito especial por ser extremamente isolado. Coberta por floresta nativa, tem apenas mil habitantes vivendo, basicamente, de agricultura e turismo — por isso, preservar a escuridão noturna virou prioridade pra essa comunidade.

estados unidos Há uma lista de destinos nos Estados Unidos pra quem quer observar os astros, então você pode fazer um tour pelo país só olhando pro céu. Há 40 parques nacionais na lista, sempre bons lugares pois costumam estar longe da poluição luminosa. Joshua Tree National Park, na Califórnia, fica entre dois desertos, o do Mojave e o do baixo Colorado, tem sítios arqueológicos como atração e os guardas viram guias noturnos para os visitantes. Não é dos céus mais escuros do mundo, mas é considerado o último lugar com escuridão natural que restou no sul californiano e vem conscientizando as comunidades próximas a reduzir sua iluminação noturna.


Antofagasta chile O país é um dos melhores locais do mundo pra se ver as constelações e os planetas por conta das altitudes elevadas, do clima seco e de lugares pouco povoados. A região de Antofagasta, próxima ao Deserto do Atacama, é considerada a capital mundial da astronomia. Próximo a Calama, na mesma região, há o parque de Chug Chug, certificado como destino Starlight pela Unesco, com mais de 10 mil estrelas que são visíveis por conta da altitude acima de 4 mil metros e impossíveis de se avistar em locais mais próximos do nível do mar. Dê uma olhada também no Valle del Elqui, onde há o hotel Elqui Domos, com tendas abertas pro céu.

Deserto de Sossusvlei namíbia A Namíbia é a viagem da vez entre os destinos africanos — e o Deserto de Sossusvlei, com suas dunas alaranjadas e árvores retorcidas, é um dos melhores pontos pra olhar as estrelas. Dentro dele, a reserva natural de NamibRand é a única listada pela International Dark Sky Association no continente e um dos poucos lugares do mundo que tem poluição luminosa próximo de zero. Por isso recebeu a classificação de santuário pela associação que elenca a escuridão dos céus. Fica a 140 km de distância da cidade mais próxima, o que garante um dos céus mais escuros do planeta.

Alqueva portugal Essa província na região do Alentejo é o principal destino mundial pra observação do céu, ou seja, onde é mais fácil ver os astros. Claro que há um monte de outras coisas a fazer, como caminhadas em torno da grande represa pra avistar pássaros, prova de vinhos e passeios de canoa. O observatório oficial Dark Sky conta com telescópios de vanguarda pra observação solar e astronômica, do céu mais profundo, entre as nebulosas e galáxias.

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VIAG E M

um respiro em

CABO VERDE TEXTO LAURA CESAR

FOTOS AUTUMN SONNICHSEN

Dez ilhas vulcânicas que, juntas, formam uma nação de pouco mais de 500 mil habitantes. Cabo Verde é um pedaço da África onde a vida é mansa, as águas são cristalinas e o sol se faz presente o ano inteiro. É um país de colonização portuguesa e musicalidade rica. Berço do batuque, do funaná e de Cesária Évora. Terra de um povo com estilo, de história sofrida, português cantado e recepção calorosa. Um lugar mágico. Puro amor. Pelo menos é o que contam a stylist Ana Wainer, o cineasta João Wainer e a fotógrafa americana de alma brasileira Autumn Sonnichsen. A viagem surgiu de um encontro inusitado de interesses: João foi pra documentar a vida de Mário 10


A primeira parada foi Tarrafal, um vilarejo pesqueiro localizado numa das pontas da Ilha de Santiago. É lá que a história de Mário Lúcio começa. Órfão desde os 15 anos, cresceu sob os cuidados dos militares antes de virar ministro da Cultura. “Mário tem um certo misticismo. Não gosta de falar pra onde vai, mas sabe dar uma puta entrevista”, conta

A viagem ao país surgiu de um encontro inusitado de interesses: documentar a vida do cantor Mário Lúcio e clicar a cantora Mayra Andrade

Lúcio, uma das figuras mais reconhecidas da cena cultural cabo-verdiana. Uma espécie de Gilberto Gil local. Autumn ficou sabendo da história e se uniu à missão. Fazia tempo que a fotógrafa e a cantora Mayra Andrade, a “Beyoncé de Cabo Verde”, conversavam sobre um ensaio pra revista Trip. Essa era então a oportunidade perfeita de fazer fotos da artista pela ilha com alguns looks produzidos por Ana.

Autumn. Seguiram viagem até o outro extremo da ilha, onde encontraram Mayra Andrade. Os dias em Praia, capital de Cabo Verde, foram tranquilos como o estilo de vida da região. Quando não estavam tomando banho de mar, comendo cachupa (cozido de carne, feijão e milho) ou fazendo amizades, o trio colhia os frutos de estar lado a lado com duas celebridades locais. “Andar com eles pelas ruas é um pouco estressante, porque eles são tipo o rei e a rainha de lá”, diz João. Foi assim que conheceram o genial Mano Preto, um dos melhores coreógrafos do país, e viram Mário tocar com o grupo Simentera depois de anos separados. Também fotografaram Mayra em cima do Citroën 2CV conversível de 1952

de Mário Lúcio. “Ele deixou a chave com a gente e foi embora”, diz Ana. Algumas das imagens que eternizaram essa aventura por Cabo Verde ilustram estas páginas. Todas elas registradas por Autumn, que, com um olhar único e muita sensibilidade, sabe retratar a beleza do ser humano como ninguém. “Desde que cheguei em Cabo Verde eu só vivi amor”, conta.

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PE R F I L

A VIAGEM MUSICAL TRANSOCEÂNICA DE

ANAÏS

SYLLA TEXTO LAURA CESAR

FOTO JOSÉ DE HOLANDA

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Ela tem uma

A artista demorou pra acreditar que sua paixão poderia virar profissão. Um namoro com a música sempre existiu, desde pequena, quando herdou os discos que sua avó e sua mãe ouviam (como Sade, Oumou Sangaré e Ali Farka Touré), até mais velha, na época em que

vivia em Paris e gravava alguns coros para músicos. Mas só foi aqui, no Brasil, que esse relacionamento foi finalmente assumido. Ela veio pra cá pela primeira vez em 2013 com a intenção de mergulhar nos estudos sobre miscigenação e história da escravidão, na USP. Apaixonou-se por São Paulo, viajou pelo país, conheceu comunidades quilombolas e algumas pessoas do ramo da música. Dois anos depois, decidiu voltar com a desculpa de iniciar um doutorado e nunca mais deixou o Brasil. “Em São Paulo fui muito bem acolhida e consegui me reconhecer. Se fosse na Suíça ou Alemanha, me sentiria muito mais

A cantora francesa demorou pra acreditar que sua paixão poderia virar profissão. Foi aqui que esse relacionamento com os palcos foi finalmente assumido

voz rascante, impactante, mas que traz leveza e doçura ao se combinar com os sons dos instrumentos de percussão e violão. Um som diferente que é resultado da mistura dos elementos de suas pesquisas musicais e antropológicas pelo Haiti, berço do despertar das primeiras revoluções negras; pela França, seu país natal; e pelas matrizes africanas do Brasil e Senegal. Anaïs Sylla é historiadora, filha de franceses e neta de senegaleses, e trouxe todas as suas raízes e seu conhecimento na criação da sua identidade musical. “Sou o que minha alma carrega, dos fulas do norte do Senegal aos mediterrâneos do sul da França. Minha música talvez seja tudo isso”, conta.

estrangeira que aqui.” E todo o processo de se aprofundar na história colonial por meio da pesquisa foi fundamental pra Anaïs se conectar com sua herança cultural e assumir quem era. Nessa época, lá em 2016, embarcou numa viagem transformadora com o avô para o Senegal, onde conheceu um pouco da sua ancestralidade. Saber de onde ela vinha foi essencial pra ir ao encontro da musicalidade adormecida dentro dela. Voltou ao Brasil com a inspiração necessária para compor de maneira que ficasse satisfeita e o resultado está nas quatro canções autorais do seu EP, lançado em setembro de 2018. Faixas que nasceram juntas dentro da solidão e da saudade. Tudo ainda é meio novo pra Anaïs, mas, aos 29 anos, é justamente esse brilho de quem está começando que é encantador nela. Enquanto os próximos projetos não saem do papel, a artista se arrisca na composição em português e segue cantando. Pra brincar, se encontrar, resistir. 13


JAMA AICA VIAG E M

Aqui, o sol brilha o ano todo TEXTO DANI PIZETTA

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o que já leu sobre a Jamaica, pois, para amar o país, é preciso interessar-se pela sua verdade tanto quanto pela sua beleza — afinal, a verdade é sempre mais interessante. Terra natal de lendas musicais e berço do reggae, o lugar abriga um dos segredos mais bem guardados entre as pessoas mais bacanas do planeta: o hotel GoldenEye, localizado na propriedade onde um dia foi a casa de Ian Fleming, o genial autor de James Bond. Seria impossível descrever a nova Jamaica sem detalhar o GoldenEye e contar quem o idealizou: Chris Blackwell, magnata da música e fundador da Island Records, a gravadora independente que lançou Bob Marley, Grace Jones, U2 e tantos outros. Apesar da sua influência no meio, Chris é um cara extremamente low-profile e, por isso mesmo, tão instigante.

Na cidade de Oracabessa, o hotel GoldenEye revela uma Jamaica que mistura luxo e tradição na propriedade que um dia pertenceu a Ian Fleming, o autor de 007

AICA Esqueça tudo

Britânico, Blackwell mora na Jamaica até hoje. Cresceu influenciado por Fleming, que foi namorado de sua mãe. Tocou sua gravadora até 1989, quando a vendeu para a Universal. Foi só em 2011 que abriu as portas do paradisíaco GoldenEye. Hoje, aos 81, conduz não só o hotel, mas também outros empreendimentos autorais, e dedica-se a movimentar a economia do país colaborando pra preservar os recursos naturais desse lugar que tanto ama.

música. Luxo é cumprimentar usando o termo “respect”. A elegância está na simplicidade das pessoas, mas tem um toque inglês e sofisticado, deixado por quem um dia passou por lá. Porém, não se engane, o país tem seu próprio swing e a ilha é cheia de nuances. A caminho do GoldenEye saindo de São Paulo, a melhor escala é por Miami e depois direto para Montego Bay, onde fica o maior aeroporto da Jamaica. Ao descer na ilha, Mike, o motorista do Hotel, te espera para 90 minutos de estrada até a cidade de Oracabessa, onde ficam os 52 hectares da propriedade. “Quando pensei em transformar a propriedade em um hotel, queria que fosse sobre Ian e sua sofisticação como pessoa, e não sobre James Bond. Meu objetivo era dividir seu lifestyle com pessoas

A verdade é que essa ilha caribenha, assim como qualquer pedaço de terra colonizada, é feita de gente forte. Mas aqui existe uma leveza e uma musicalidade que se sente até sem ouvir

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VIAG E M

APROVEITE a atmosfera e não faça nada por um tempo, apenas sinta o lugar.

que apreciam o que posso oferecer. Ninguém precisa de mais um grande resort na Jamaica”, diz Chris. A casa onde Ian Fleming morava está preservada, tem praia particular e é uma das Vilas do hotel — são três, no total. A Ian Fleming Vila, que é de fato a casa do autor, só pode ser reservada na sua totalidade e hospeda um grupo de até dez pessoas em cinco quartos. Fiquei instalada no quarto que era do escritor. A vista deslumbrante para o mar se dá através de uma imensa janela de madeira vazada que deixa a brisa entrar durante a noite. O hotel oferece uma experiência autêntica na Jamaica, desde sua decoração até os tours exclusivos criados pra promover a cultura local, incluindo visita ou hospedagem no Pantrepant, uma fazenda no meio do país onde Chris mora. A seguir, as atividades mais deliciosas do hotel:

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MISTURE-SE com a população e tente aprender algumas palavras locais. NÃO DEIXE de experimentar o ackee, considerada a fruta nacional da Jamaica e uma das mais exóticas do mundo. TOME UM BANHO na exuberante piscina gráfica, em forma de olho e água salgada, que adentra o mar através de uma cama de pedras rústicas. A sensação é de um momento contemplativo sem precedentes. Existem outras piscinas no hotel. CAMINHE pela praia durante o pôr do sol e tome uma cerveja no Bar Shabeen.

TERMINE a noite com um jantar no Bizot Bar, que serve especialidades locais e preparadas na tradição soulful. VEJA A LUA nascer no mar na icônica casa de Sir Noël Pierce Coward, que fica em uma montanha a poucos quilômetros do GoldenEye. Amigo de Fleming, ele foi um premiado dramaturgo, ator e compositor britânico condecorado Cavaleiro do Reino Inglês pela rainha Elizabeth II em 1970. MERGULHE no Fish Sanctuary, um espaço demarcado e protegido, que fica mar adentro a poucos metros do hotel. FINALIZE com uma massagem no FieldSpa. Agora você já pode voltar pra casa certo de que a Jamaica é muito mais sexy e instigante do que um dia você poderia imaginar.


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PE R F I L

Daniel Gorin e a elegância natural do novo Hotel Arpoador TEXTO BRUNO DIEGUEZ FOTO WENDY ANDRADE

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dia diferente, e eu também”, afirma Daniel Gorin à beira do calçadão do Arpoador. Atrás dele grita um dos últimos entardeceres do verão 2019, numa profusão de cores que é sempre impactante e nunca igual. Na frente dos seus olhos, sorri o repaginado Hotel Arpoador, tão vivo quanto o legado de seus avós. Um dos oito netos dos fundadores Manoel e Rachel Strosberg, ele hoje é gerente-geral da propriedade, mas circula pelos ambientes como mais um hóspede low-profile e alto-astral do antigo Arpoador Inn. No dia em que me recebeu, Daniel calçava Havaianas (as originais, de tiras negras e base branca) e vestia uma camisa de linho branco da Richards com short de seda estampado da Handred. Leve, autêntico e atemporal como todas essas marcas e o ar que se respira por aquelas bandas. Assim

ele flutua pelas memórias do menino que sempre habitou aquele espaço. Com a mesma naturalidade, perambula pelo hotel de olhos atentos a hóspedes e colaboradores, tratando a todos com a cortesia de quem sabe receber bem. É coisa de família, uma espécie de curso natural da vida, que deságua no tempo adequado de maturação. O avô, visionário, inaugurou o hotel em 1974, quando já tinha 50 anos e uma carreira estável como engenheiro. Sua esposa, artista plástica, cuidou da decoração. A mãe e o tio de Daniel tocaram o negócio, que também inclui o Ipanema Inn, inaugurado dois anos depois do primeiro e renovado antes, pouco tempo atrás, com projeto do casal Bel Lobo e Bob Neri.

O publicitário é o nome por trás do novo Hotel Arpoador, que em poucos meses já transformou a região e se tornou o destino predileto de quem vai ao Rio de Janeiro

“Cada dia é um

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Nessa época já estavam assumindo o futuro Daniel e o irmão Marcelo, oriundo do mercado financeiro e também peça fundamental nesta nova fase. No verão de 2011, após algumas temporadas em Londres, Daniel veio ao Rio de férias e aos poucos foi pavimentando o caminho de volta. Em julho daquele ano, prestes a completar 30 anos, desembarcou no Brasil pra restabelecer raízes. Chegava a hora de eles tomarem o bastão e revitalizarem o clima casa de praia que está na essência dos hotéis, que os irmãos evitam posicionar na categoria de luxo, apesar de estarem em pontos privilegiados da cidade. Preferem

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A reforma, que levou 1 ano e 9 meses, é assinada pelo arquiteto Thiago Bernardes, que vislumbrou a proa de um navio e construiu quartos como cabines de um sonho de verão

PE R F I L

o termo lifestyle, mais fiel ao que sempre foram e querem continuar sendo. Um conjunto de insights está na fórmula do novo Arpoador. Além das pedras fundamentais ali fincadas, de todas as lembranças dos Strosberg Gorin e dos ecos do Rio dos anos 1970, muita gente boa contribuiu para a versão século 21 do empreendimento. Um guia conceitual surgiu com Nereo Zago. Ele captou peculiaridades e influências que estavam no entorno e desenhou a ideia de “City & Sea” que costura sob medida tudo o que virou realidade. Há uma releitura do Modernismo brasileiro, uma geometria espacial que brinca com contrastes sutis e um espírito praiano de relaxamento traduzido em objetos, texturas e cores. Charme sofisticado, sem

ostentação e com curadoria. A reforma levou 1 ano e 9 meses, uma travessia sob o comando do arquiteto Thiago Bernardes, que vislumbrou a proa de um navio e construiu quartos como cabines de um bom sonho de verão. Pra cuidar da gastronomia, ninguém menos que a chef Roberta Sudbrack. Ela assina do café da manhã ao jantar, passando pelo room service, com a habitual delicadeza e criatividade que são suas marcas registradas. Tanto Thiago como Roberta eram desejos antigos que Daniel pensava inalcançáveis. Mas os astros se alinharam a seu favor, em sintonia ímpar cujo resultado dá gosto de ver. E ouvir. Outro dia ele recebeu seu elogio favorito até agora: o Arpoador lembrava uma pousada. Não pela falta de qualquer coisa, mas pelo tamanho certo de estrutura e hospitalidade. O nosso papo terminou na Suíte Arpoador, a principal do hotel, com 50 metros quadrados muito bem aproveitados. Como todos os 15 quartos de frente para o mar, tem uma rede pendurada e difícil


FOTOS DO HOTEL: LEONARDO FINOTTI

de resistir. E também uma varanda, de onde se vê de camarote o pôr do sol mais bonito da cidade. Antes da reforma a fachada era reta, sem essa abertura para o aproveitamento máximo da brisa. Daniel optou por perder área de quarto pra acrescentar esse espaçobônus a cinco acomodações, uma por andar, criando uma espécie de redário vertical na construção. Um acerto indiscutível.

Ali, refestelado no ponto mais nobre do Arpoador, ele sente a realização. Conseguiu caminhar com o hotel da família para o momento presente, devolvendo aos cariocas um lugar com a melhor cara do Rio. Ao mesmo tempo refinado e despretensioso, local e global, pessoal e capaz de agradar a múltiplos gostos. Essa percepção positiva vem da conjunção de atributos materiais com imateriais,

como o serviço hospitaleiro, a playlist caprichada e a fragrância customizada que, em breve, deve estar à venda na lojinha. Cada um desses elementos tem ao menos um dedo do gerente-geral. O hoje de Daniel Gorin é uma síntese do que ele conseguiu traduzir no novo Arpoador: uma elegância natural que combina com perfeição com um verão sem fim, filtros ou preocupações exacerbadas.

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R E P O R TAG E M

Refúgio esotérico TEXTO LILIAN KAORI HAMATSU FOTOS VICTOR AFFARO

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GISELLE NASSER Pendurada pelos Astros

Eles buscaram a astrologia e o tarô como alternativas aos seus trabalhos

Aos 22, a estilista

Futurologistas e caçadores de tendências indicam que retornaremos aos primórdios do humanismo como caminho pra descobrirmos a nós mesmos — mais uma vez. Na contramão da vida rotineira e com pouco significado, conversamos com quatro profissionais que conciliam carreiras bem diferentes e o interesse pelo esotérico como forma de aflorar o autoconhecimento e ampliar as perspectivas de mundo. Aqui, o resultado desse encontro.

Giselle Nasser já desfilava sua marca homônima nas passarelas do SPFW. Empregava 17 funcionários e ainda decidiu encarar outro desafio: assumir a direção criativa da Cori. Em busca de equilíbrio, optou por abandonar a rotina frenética e investir em um novo estilo de vida, pautado na espiritualidade e na qualidade das relações humanas. Hoje, atende em um espaço intimista dentro da própria residência e organiza três vendas anuais de vestidos pra noivas. Os estudos esotéricos tornaram-se parte fundamental e prioridade na rotina. Estudiosa como poucos, participou de uma oficina pautada pela simbologia junguiana, que trata o autoconhecimento, a psicologia e a filosofia como elementos essenciais. Já a tarologia surgiu mais recentemente, quando adquiriu a casa onde vive atualmente e, ao iniciar as

reformas, encontrou um baralho de tarô num dos armários. Geminiana com ascendente em Peixes, Lua em Virgem, Vênus e Marte em Áries, a estilista considera as duas vertentes complementares e reforça a ideia de que não existem cartas, signos ou mapas ruins, apenas diferentes interpretações. Na complexa rotina de Giselle Nasser, que engloba o trabalho como estilista, os estudos sobre astrologia, a dedicação ao candomblé e uma certa simpatia pelo xamanismo, também há espaço pra pensar o que será do futuro. “A astrologia te transforma em um ser mais tolerante. Entender que as pessoas vêm de universos distintos, de elementos distintos, e que não existe bom ou ruim, certo ou errado, é respeitar as características, as diferenças e encontrar a beleza em cada um.”

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R E P O R TAG E M

Tudo nela é um exercício de linguagem: as roupas coloridas, as tatuagens em temática floral, o apelido e a busca pelo esotérico. O último item, ela garante, é algo que nem todo mundo entende. Não à toa, formada em jornalismo, Mariana Candeias encontrou no papel de assessora de imprensa uma vocação. Em meados de 1993, começou a se libertar dos fantasmas: já não precisava mais passar pela agonia de ver seu texto modificado por editores ou fazer duras críticas a álbuns artísticos sobre os quais nem tinha certeza da falta de qualidade. Passou por publicações como a extinta Fama e a Contigo!, além de MTV, Warner, Abril Music e Trama. Ao lado de um amigo, fundou a Batucada Comunicação e passou a atuar de maneira

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“Nossos conflitos com o mapa astral têm a ver com coisas que precisamos trabalhar em nós mesmos”

MARIANA PIKY CANDEIAS A Maga da Comunicação

independente. Sob o codinome Piky, apelido dado pelos pais em referência à palavra pequenina, a comunicadora encarna a Maga Astrológica ao compartilhar o conhecimento esotérico nas redes e também faz atendimentos em sua própria casa, no Itaim Bibi, em São Paulo. Ariana com ascendente em Câncer e Lua em Touro, é pé no chão até demais e abandonou o ceticismo ao encontrar um universo paralelo nas cartas. Hoje, é parte de um grupo espiritual que abraça a energia dos ciganos como elo e se divide entre os trabalhos como assessora de imprensa e taróloga. “Nossos conflitos com o mapa astral têm a ver com coisas que precisamos trabalhar em nós mesmos. Já a tarologia, eu amo pelo mesmo motivo que criticava: não tem

explicação, acontece na hora e funciona.” A síndrome do impostor, uma constante que faz com que Piky duvide de suas conquistas, passou a ser combatida por meio dos atendimentos que proporciona aos clientes. Embora tenha começado tímida, tirando cartas para amigos e cobrando um valor quase insignificante, foi convencida a investir na profissão e logo criou sua página nas redes sociais. Nas cartas que ilustram o Mago e o Carro, Mariana encontra sua imagem e semelhança: a primeira atribui ao ato de fazer um aprendizado necessário pra que se liberte das próprias dúvidas e a última está em constante movimento, muitas vezes atropelando quem se encontra ao redor. Já a carta da Temperança, que estampa o próprio corpo, é um lembrete relacionado ao seu maior objetivo pessoal: ter autocontrole. “Flores são elementos coloridos que saem da natureza e nos dizem coisas. Eu sou tão dura comigo mesma, as flores dão um descanso.”


ÁRIES EM DÓ MAIOR Garçom, entregador em uma fábrica de calças jeans, office boy, ajudante em um bingo e estudante de direito, tentativas de negar aquilo que Rodrigo Campos sentia: uma inclinação para fazer música. Quem vê o moço de olhos sorridentes descrever com voz suave o amor pelos instrumentos de corda, em especial o cavaquinho, não imagina como foi abandonar o preconceito da família e de si próprio para abraçar uma carreira pouco segura. Ao entender que “não conseguiria

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R E P O R TAG E M

RODRIGO CAMPOS Áries em Dó Maior

Garçom, entregador numa fábrica de calças, office boy, ajudante em bingo e estudante de direito, tentativas de negar aquilo que Rodrigo Campos sentia: uma inclinação pra fazer música. Quem vê o moço de olhos sorridentes descrever com voz suave o amor pelos instrumentos de corda, em especial o cavaquinho, não imagina como foi abandonar o preconceito da família e de si próprio pra abraçar uma carreira pouco segura. Com quatro álbuns autorais e trabalhos em parceria com Juçara Marçal, Gui Amabis, Elza Soares, Criolo e Jards

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Macalé, o músico segue apaixonado por composições melódicas e aborda temas como introspecção, sincretismo, mitologia e aspectos imorais do inconsciente em suas obras. No embalo das canções de Elton Medeiros e por meio de livros como O Mito de Sísifo, de Camus, Rodrigo sempre retorna ao samba: “O gênero consiste naquela coisa que você é e tenta negar. Os sambistas são filósofos mais diretos do existencialismo francês”, diz. Ariano pouco tradicional, com ascendente em Câncer, regente em Peixes, pratica a cautela, o respeito e a tolerância ainda mais desde

que passou a estudar a agitação dos planetas. No boteco já não fala mais sobre o tema, pois acredita que deve ser tratado com seriedade. Ao compreender que as pessoas operam de maneiras diferentes, também entendeu que seu olhar para o mundo era apenas mais um. “É sobre trazer as crenças pra você e fazer o seu próprio balaio de percepções do mundo, não o contrário, de se fundir na crença e se perder na própria visão. Sua importância é confiar naquilo que não se vê, no que se intui, é sobre trazer um olhar não cartesiano para o mundo tecnológico.”


Com amplo interesse pelas humanidades, o louco transita entre São Paulo e Salvador enquanto exercita sua fotografia autoral e o olhar apurado sobre as pequenezas do cotidiano. Embora a capital paulista seja a terra onde nasceu e fez morada, as relações despretensiosas, o ritmo praiano e a conexão com a família permanecem estimulando a essência soteropolitana de Alisson Louback. Do jovem que

“Conhecemos as pessoas sempre tentando nos conhecer. O que o outro reverbera de mim mesmo e vice-versa”

ALISSON LOUBACK O Louco e o Mundo

abandonou a faculdade de psicologia pra trabalhar com cinema ao profissional dinâmico e capaz de transitar entre o universo do esporte, das colunas sociais e da moda, o fotógrafo encontrou no documental uma experimentação necessária. Em 20 anos de exercício da própria curiosidade a respeito do ser humano, percebeuse incapaz de passar os dias em frente a uma tela de computador e trocou as produções pra grandes publicações pela oficina onde desenvolve luminárias, cria suas composições imagéticas e faz companhia a si mesmo. Filho de pastor de igreja evangélica, muito cedo teve a oportunidade de se aprofundar nos estudos bíblicos, mas pouco se adaptou aos formatos que restringiam a espiritualidade como um todo. Por meio das cartas, descobriu a generosidade, o acolhimento e a clareza da tarologia, uma vertente que demanda pouco para que se alcance esclarecimento e a resposta sempre vem porque, de alguma maneira, já está dentro de cada um.

Assim como em um ensaio fotográfico, em que a ordem das imagens determina a história a ser contada, um jogo de tarô está sujeito à sutileza dos traços e às interpretações lúdicas nas combinações. Desse modo, fica fácil entender por que Alisson é a representação das cartas do Louco e do Mundo: sua motivação é pura e simplesmente uma vontade de conhecer os caminhos e atingir a concretização de uma totalidade de propósito. Vem do desejo de ter tudo o que se pode ter. “Conhecemos as pessoas sempre tentando nos conhecer. O que o outro reverbera de mim mesmo e vice-versa. A busca por pessoas também é uma busca por si mesmo, e eu só posso partir de mim mesmo.”

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Duda Beat &

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O SOL DA SOFRÊNCIA POP TEXTO BRUNO DIEGUEZ

FOTOS BRUNO MACHADO E JULIANA ROCHA

Eduarda Bittencourt ilumina a dor cantando hits de amor não correspondido com humor e empoderamento. Radicada no Rio há quase 15 anos, a recifense deixou o Nordeste com o sonho de estudar medicina porque achava lindo o poder de fazer alguma coisa pelo outro. Mudou de rota pra chegar ao mesmo destino com a persona Duda Beat. Ao lado de Gilberto Gil e Céu, ela é uma das headliners do MECAInhotim, que acontece

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entre os dias 17 e 19 de maio. Fã da autenticidade e da força de Chico Science e do movimento manguebeat, é uma artista que valoriza o trabalho em equipe e as parcerias musicais. Ama a pluralidade e rejeita a intolerância. “Diversidade é fundamental pra gente ser o que a gente é”, diz. Ela sofre sim, mas de cabeça em pé e sorriso no rosto.

SOFRÊNCIA TEM UMA AURA DOWN, MEIO DARK. MAS A SUA FIGURA IMPRIME UMA OUTRA LEITURA. Eu sempre fui uma pessoa muito solar, mesmo quando tava sofrendo. Era aquela pessoa que tava triste porque o cara não queria estar comigo, mas tava fazendo piada da situação. É óbvio que nas letras das músicas eu tô sofrendo, chorando, resmungando aquele amor. Mas tive uma preocupação muito grande em deixar todas as músicas do disco solares, porque é o que eu sou. É pra sofrer dançando. POR QUE É BOM RIR DE SI MESMO? Você deixa as coisas mais leves, não se cobra tanto, não fica tão na merda. Tem que ir ao fundo do

DUDA VESTE KIMONO, CALÇA E TOP AHLMA (@AHLMA.CC), BRINCOS ECRAN STUDIOS (@ECRANSTUDIOS) E CHAPÉU BARBARÄH (@BARBARAH)

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DIREÇÃO DE ARTE E STYLING @LUIZWACHELKE BELEZA @ZECAMAGALHAES

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poço e aproveitar a sofrência. Transformar essa dor em alguma coisa. Porque depois, quando você se levantar, vai ser foda. O sofrimento é chuvoso, mas também é solar, porque na hora da reviravolta o sol brilha de novo. QUAL FOI SUA PIOR “BÉDI BEAT”? Foi quando eu era apaixonada por um cara. A gente ficou durante sete anos e eu sempre na esperança de namorar. Um dia ele disse que uma outra ficante dele tinha engravidado. E eu achava que ele tava só comigo. Queria morrer. Eu peguei as minhas coisas e fui embora pro Recife. Dos 14 anos que tô no Rio, por seis meses eu voltei pra casa dos meus pais pra me curar dessa dor. Voltei, acabei ficando com essa pessoa de novo e terminou dois anos depois.

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VOCÊ ACESSA AS MEMÓRIAS DO TANTO QUE JÁ SOFREU PRA FAZER MÚSICA? Foi horrível reviver as minhas dores e as coisas que eu passei ao longo dos dois anos fazendo o disco. Já não é tão ruim, eu tô superbem. Quando é pra reviver, eu fecho os olhos e lembro o que aconteceu. Uma das coisas mais legais é a quantidade de mensagens dizendo como o meu disco ajudou a superar um amor que não rolou, o fim de um casamento. Eu consegui o que eu queria: tocar as pessoas com a minha arte. E COMO A SUA ARTE VAI EVOLUIR AGORA QUE VOCÊ NÃO TÁ SOFRENDO? Não tô sofrendo, mas tenho um monte de coisa pra contar (risos). Foram dez anos de sofrimento, imagina se um disco ia dar conta. Eu tenho ainda muita música de sofrimento, mas também tenho feito de amor recíproco, de conquista, de como foi o início com o Tomás [Tróia, namorado, produtor musical e guitarrista da sua banda]. Ele era o meu melhor amigo

e eu não sabia o que fazer com isso, foi difícil me entregar completamente. Posso contar um pouco dessa fase. Meu próximo disco vai ser de transição, da Duda que tava muito triste e ficou feliz de novo. VOCÊ COMEÇOU CANTANDO EM IGREJA... Igreja é fundamental, mas as pessoas que estão dentro dela estragam tudo. Eu sou formada em ciências políticas e o título do meu trabalho de conclusão foi “Vote em mim em nome de Deus” — trata-se de uma análise da base religiosa dentro do Congresso. Rola uma verdadeira lavagem cerebral. Não sei se Deus aprovaria isso. E SE A GENTE AMPLIAR O LEQUE PRA ESPIRITUALIDADE? Todo mundo tem que ter alguma fé, em qualquer coisa. É o que faz a gente parar pra pensar. É aí que a gente evolui.


“Amem mais, quebrem mais a cara. Sofrimento é importante pra gente evoluir”

DUDA VESTE MAIÔ THE NON BRAND (@THENONBRAND) CALÇA GUTO CARVALHONETO (@GUTOCARVALHONETO) BRINCOS ECRAN STUDIOS (@ECRANSTUDIOS)

Fui morar em Laranjeiras, que é o bairro do Tomás. A gente vai muito no Maya Café, na General Glicério. Toda vez que não estou viajando a gente vai na feirinha de rua de sábado comer pastel e ouvir chorinho.

AONDE VOCÊ QUER CHEGAR COMO ARTISTA? Sou ambiciosa e quero sempre mais. Me sinto muito feliz com o resultado do trabalho da minha equipe. Sofri muito, e não só amorosamente. Trabalhei muito. Limpei muita parede, muito chão pra conseguir dinheiro pra acabar meu disco. Agora tô colhendo os frutos. Mas não tô nem na metade do trabalho que tenho pra fazer.

O QUE É VERÃO PRA VOCÊ? Short jeans, regata, praia, calor, felicidade, alto-astral, festa na rua, picolé, sorvete. O verão no Recife era o verão de menina, onde eu curtia com a minha família. No Rio eu patino na Lagoa, dou um tchibum no Leblon, almoço num restaurante gostoso com meu namorado... ALGUM LUGAR NO RIO QUE VOCÊ ESTEJA MAIS APEGADA ULTIMAMENTE?

E QUAL É A MEMÓRIA MAIS FORTE DO RECIFE? É da feirinha do Recife Antigo aos domingos com a minha família, comendo acarajé, arrumadinho e vendo o Carnaval passar. QUAL O VALOR DO SEU SOTAQUE? Não vou perder nunca. Faz parte de mim, é a minha formação. Cada vez que eu volto pra casa eu só faço refrescá-lo na minha cabeça, enraizá-lo mais. O QUE VOCÊ QUER GRITAR PRO MUNDO AGORA? Tanta coisa. Amem mais, quebrem a cara e reconstruam de novo. É bom também amar e não ser correspondido. O sofrimento é importante pra gente evoluir. Sofra, porque depois disso vai vir alguma coisa muito melhor para você.

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E S PE CIAL

Nas areias de uma pequena praia do Rio Grande do Sul chamada Atlântida, tomou forma, nove anos atrás, a primeira edição do festival de música MECA. Colaborativo, vanguardista e sonhador, o evento passou a questionar sua própria essência identitária e encontrou na pluralidade de nossos tempos a fórmula para se tornar uma das plataformas criativas mais inspiradoras do Brasil T E X TO LILIAN K AORI HAM ATSU FOTOS FRED OTHERO

sem cargos ou perfis de trabalho específicos : no meca , a vaga se adapta ao talento de cada um . entre produtores culturais , jornalistas , designers , curadores artísticos , pesquisadores , publicitários ou o que quer que seja , a pluralidade é a única palavra de ordem

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E S PE CIAL

Ponto de convergência

Embora tenha arquitetado, uma década atrás, um festival de música em solo nacional nos moldes do que via no exterior, Rodrigo sabe que qualquer projeto só ganha força e forma pelas mãos de pessoas. Da intenção de ocupar o vazio deixado pela MTV e reproduzir conceitos introduzidos por eventos como o SXSW, nos EUA, acabou colaborando com um grupo de profissionais obcecados pelo frescor novidadeiro e surpreendente do que é trabalhar com cultura no Brasil. Ao acompanhar os movimentos sociais e a juventude infinita de viver conforme o fluxo, o MECA

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“Os festivais têm a potência e a missão de criar revoluções nos artistas, públicos e territórios. São formas de criar consciências coletivas ricas. Que o MECA siga nessa construção”, Marah Costa, chefe de Gestão e Promoção de Artes da Prefeitura de BH

das atenções, interesses ou aspirações de um grupo de indivíduos conectados por um elemento comum: é assim que o dicionário Houaiss define a palavra “meca”. Para Rodrigo Santanna, idealizador do festival que hoje também existe para muito além da música, o MECA tem uma definição, digamos, mais holística e menos pretensiosa: “A maior menor plataforma multicultural do mundo”.

UM FESTIVAL ÚNICO O que começou como um festival de música indie é hoje um fim de semana imersivo e desafiador. Em meio ao idílico cenário proporcionado pelo Inhotim, shows, workshops e feiras são pensados pra dar às cerca de 7 mil pessoas a experiência da acessibilidade num lugar intocado, por meio do sentimento de pertencimento. Neste ano, o MECAInhotim, de 17 a 19/5, recebe artistas como Gilberto Gil, Céu, Pitty, Duda Beat e Castello Branco pra despertar em cada indivíduo qualquer sensação que ele próprio quiser que seja.


“Quando acham que nos entenderam, experimentamos um outro jeito de fazer o MECA”, Rodrigo Santanna, fundador & CEO do MECA A NOVIDADE DO ANO Unidos pela inquietação do saber, MECA e WGSN, consultoria que é líder mundial em pesquisa de tendências, promovem uma conferênciafestival com mais de 30 horas de programação dedicada ao exercício da futurologia. “O MECA traz conteúdo e troca. É muito conectado aos valores e às vozes dessa geração que está chegando”, diz Luiz Arruda, diretor da WGSN Mindset. As quatro edições do MECATrends acontecerão em SP (julho), Recife (setembro), Porto Alegre (novembro) e RJ (janeiro de 2020).

evolui junto à pluralidade da galera que orbita em torno da plataforma — dos 12 profissionais que trabalham diretamente aos milhares de family & friends — e desconstrói as amarras que criou para si. O amadurecimento veio justamente de saber que jamais deixará de ser quem foi (indie, inspirado pela agitação internacional e pautado pelo cenário musical), mas é capaz de se reinventar e reconstruir em outros meios pra ir além. Nas palavras do jornalista mineiro Bernardo Biagioni: “O MECA é mágico, o MECA é místico. E a mística está na curadoria de artistas e pensadores que se juntam para redesenhar a percepção do presente e do futuro”.

UMA CAMPANHA GLOBAL Quando Cameron Saul, fundador da Bottletop, esteve no Brasil pra conhecer o MECAInhotim, concluiu que “unir música, arte, tecnologia e inovação em um lugar de natureza exuberante é um indicativo do futuro que temos que criar”. Como representante brasileiro, o MECA endossa a campanha global #TOGETHERBAND, criada em confluência entre a marca britânica de Saul e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável promovidos pela ONU.

Quando Charles Darwin desenvolveu a teoria da seleção natural, em meados do século 19, definiu em termos científicos toda a mentalidade que permeia

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E S PE CIAL

“O MECA é um centro de gravidade de encontros e reencontros”, Pedro Urizzi, cineasta paulistano

IMPACTO POSITIVO Parte integrante do ambiente de celebração da arte e da botânica que é Inhotim, o MECA abraçou a responsabilidade de retribuir ao solo mineiro tudo o que recebeu com muito apreço. Além de se unir ao fundo de arrecadação filantrópica PróBrumadinho, o festival adotou a missão de gerar renda pra comunidade que vive nos arredores da Mina do Córrego do Feijão. O próximo plano é executar uma edição gratuita aos moradores da cidade, intitulada MECABrumadinho. Com apoio da iniciativa privada e de negócios sociais, a intenção é potencializar a cultura e levar frescor, incentivos educacionais e financeiros aos locais.

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FOTOS: I HATE FLASH

o pensamento moderno de sobrevivência: a evolução determina os mais fortes pela capacidade de adaptação ao ambiente em que estão inseridos. Enquanto o MECA existir, o desenvolvimento sempre partirá do olhar indagador que não permite a esse organismo vivo incorporar verdades absolutas e ideais eternos. Pela mesma razão, ele existe por meio do fortalecimento empático das relações sociais. “O MECA acolhe, é um lugar perfeito pra fazer amigos e despertar a nossa sensibilidade pro outro e pro mundo”, afirma a atriz carioca Alice Wegmann. Desse modo, o molusco originado nas areias de Atlântida passou por uma mutação e decidiu abandonar

a pequena concha onde nasceu. Em quase dez anos de jornada, atravessou os mares e ganhou novas cidades, estados e o mundo. O MECA é MECAIberê, MECAInhotim, MECAMis, MECAUrca e MECABrennand na busca por imersões culturais em cenários hedonistas; é MECASpot, MiniMECA e MECATalks na aproximação de gente destemida que produz e consome diversidade; é MECAJournal e MECANews pra quem curte saber o que está acontecendo por aí; é MECATrends pra quem se interessa pelo futuro e MECATogetherband e MECABrumadinho pela vontade de gerar impactos positivos. O MECA é feito de gente que celebra gente, pra gente, através de gente.

UM ESPAÇO CULTURAL EM ASCENSÃO Selina é o que existe de mais contemporâneo em hospitalidade e turismo. Por oferecer experiências com propósito, ambientes dedicados ao coworking e ao estímulo do senso de comunidade, cada propriedade sob o selo da marca acaba sendo muito mais do que um lugar pra se hospedar. A inauguração de um novo espaço na Vila Madalena, em SP, chega como sopro de frescor em meio à enérgica cena urbana da cidade. O MECA aterrissa por lá para fazer morada e deve impulsionar a agenda cultural do bairro com shows, palestras e feiras.

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ROT E I RO

10 razões que fazem de

BOTAFOGO o bairro mais cool DO RIO DE JANEIRO TEXTO LAURA CESAR

Já faz alguns anos que Botafogo vive ondas de inovação. Mas sempre de maneira pontual. O que temos visto nos últimos meses é um surgimento massivo de endereços alinhados com temas como sustentabilidade, veganismo e consumo consciente — boa parte deles localizada no entorno das ruas Arnaldo Quintela, Álvaro Ramos e Fernandes Guimarães. São negócios que não fariam feio em nenhuma outra capital do planeta. E com uma vantagem: a malemolência típica que só o carioca tem.

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ACOLHEITA Inspirado nos valores da slow food (comida boa, justa e de produtores locais), é daqueles mercados de bairro a que todos deveriam ter acesso. Rua São João Batista, 79

BELCHIOR BRECHÓ Esqueça o estereótipo de peças de qualidade duvidosa e ambientes pouco convidativos. A atmosfera industrial do local faz desconfiar que as roupas são realmente de segunda mão.

@somosacolheita

Rua Fernandes Guimarães, 60 @belchiorbrecho

BE+CO Um local pra quem busca por sabores diversificados em um único lugar. A charmosa vila de contêineres que abriu em 2018 abriga a cozinha de nomes como Roberta Sudbrack e Katia Hannequim.

CANASTRA ROSE Fundado em 2015, o endereço original segue lotando a calçada e a rua em Ipanema. Aberto em outubro de 2018, o Rose é uma versão, digamos, mais madura do Canastra original.

Rua da Matriz, 54

Rua Álvaro Ramos, 154

@beco.rio

@canastrarose


Selecionamos os endereços mais recentes que fazem do bairro carioca o destino ideal pra exercer a boemia – de dia e à noite

APRESENTADO POR VIDA BOHEMIA

MARCHEZINHO Uma garagem dividida em duas entradas: a da esquerda vende itens de produtores locais, como os queijos da Fazenda Atalaia, os embutidos Pirineus, o café da Cafezal em Flores, além de geleias e compotas. Do lado oposto, com um salão que se estende mais ao fundo, tapas e pratos que sempre mudam no almoço executivo mais vinhos em taça a partir do almoço até a madrugada.

COLAB Com um terraço na laje onde volta e meia também tocam bandas e mesa comunitária na parte da frente, o CoLAB serve de plataforma colaborativa para pequenos produtores e marcas cariocas. A cozinha serve brunch, sanduíches, saladas, pratos de inspiração indiana, cerveja e drinks. R. Fernandes Guimarães, 66 @colab.rj

THE SLOW BAKERY A padaria artesanal provou que é possível, sim, comer bons pães de fermentação natural no RJ. Tanto que abriu um segundo andar pra receber os clientes, que descobriram que os pães também são ótimas opções no almoço. Rua São João Batista, 93 @theslowbakery

SORVETES HOBA Com uma pegada natureba, os sorvetes são adocicados com tâmaras ou pequenas doses de açúcar orgânico e são livres de leite, ovo, corante e conservante. Flores, frutas e oleaginosas: aqui tudo acaba em sorvete. Rua Fernandes Guimarães, 49 @sorveteshoba

QUARTINHO BAR Um bar em formato de quartinho. Aberto no fim de 2018, o novo espaço (na foto maior) é assim: salão descolado repleto de quadros pendurados, banquetas, poltronas e sofás espalhados e muita brasileiragem — dos petiscos à música. Rua Arnaldo Quintela, 124 @quartinhobar

SOUTH FERRO O hype se deve muito às receitas com toque coreano, algo ainda pouco comum na cidade, implementadas pelo chef e proprietário nova-iorquino Sei Shiroma. Experimente o churrasco k-jang ao molho gochujang (uma pasta de pimenta fermentada típica daquele país), servido com kimchi.

Rua Voluntários da Pátria, 46

R. Arnaldo Quintela, 23

@marchezinho

@southferro

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VIAG E M

Envision TEXTO ISABELA MANARA

Festival Mergulhamos no festival mais hedonista e good vibes da Costa Rica

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Na Costa Rica, o Envision Festival reúne seres revolucionários, mágicos, amantes e artistas pra celebrar a vida em torno de música, surfe e yoga

Um encontro escondido entre a floresta e a praia, num ambiente perfeito para os insights da alma. O Envision é mais que um festival de música. Rituais de cura, palestras e workshops com yogis, curandeiros, biólogos, coachs, bruxas e xamãs acontecem por lá durante os quatro dias de evento, reunindo 42 professores de dez nacionalidades. Música, performances, live paintings e um pouco de drogas inspiram e atraem criaturas de todos os cantos pra esse paraíso montado em Uvita. Os produtores criam os mais alucinantes sets, palcos e projeções que vão até o amanhecer.

Como voluntária, meu papel consistia em alguns dias de trabalho no café e encontros valiosos com pessoas em trânsito de uma atividade pras pistas de dança, de lá pro mar, e assim sucessivamente. Muita emoção, fluidos, calor, transpiração, suor, choro e descobertas. O que tínhamos em comum era a busca por conexões reais e expansão da própria consciência. Na praia, um aglomerado de artesãos e comerciantes locais formava um caminho até os limites dos portões, com pipas frescas (coco gelado) e muito groove. Com ênfase na política de lixo zero, embalagens plásticas são proibidas e todos são encorajados a levar seus próprios utensílios ou fazêlos em oficinas de bambu. As refeições são vegetarianas e há oficinas de composteiras para o lixo orgânico e plantio de árvores. A Costa Rica é um ícone em turismo ecológico, com 25% do território protegido por leis ambientais. Mas, para além da biodiversidade surpreendente, cultiva-se por lá o amor pela paz social, democracia e natureza

sublime. Essa consciência coletiva é um estado de espírito contagiante. A convivência harmônica de tantas culturas, raças e religiões, entre nômades, curiosos e radiantes seres humanos de todas as idades vivendo sua best life, gera uma egrégora de amor e confiança que reverbera além. E tudo está em perfeita sincronia. Brasil, Guatemala, Nicarágua, Canadá, França, Austrália, África do Sul, Israel, Estados Unidos... O festival tem proporções gigantescas e reuniu cerca de 8.500 pessoas este ano. A próxima edição, a décima, já tem data marcada: 20/02/2020. Vivi uma eternidade e tudo passou rápido. Em um piscar de olhos, todos partiram para o resto de suas vidas. Voltei cheia de amor e confiança. E a certeza de que na vida você pode ter tudo, basta pedir com jeitinho. Meu pedido pra próxima aventura: uma passagem só de ida.

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E N SAI O

O olhar da Brejo

Nani Rodrigues e Marcos Lôndero gostam de contar histórias. Das comidas, das pessoas e dos lugares que eles encontram em sua andanças. Especialmente aqueles mais escondidos, no meio do mato, onde o tempo corre sem pressa. E assim nasceu a Brejo, para dar nome ao trabalho da dupla, que há anos imprime nas lentes de suas câmeras — a dele, de vídeo, e a dela, de fotografia — um olhar sensível sobre tudo que os cerca.

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E N SAI O

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Nossos sóis

DO AMOR À MÚSICA, DE UMA VIAGEM INCRÍVEL AO ENCONTRO COM A ESPIRITUALIDADE, EIS O QUE NOS INSPIRA

Transformar o céu estrelado em destino de férias ASTROTURISMO PÁG.06

Aproveitar uma viagem de trabalho pra uma imersão cultural CABO VERDE PÁG.10

Buscar sua música nas raízes mais ancestrais ANAÏS SYLLA PÁG.12

Se hospedar num refúgio intimista e instigante JAMAICA PÁG.14

Imprimir um estilo de vida na reforma de um hotel HOTEL ARPOADOR PÁG.18

Encontrar na astrologia não só uma paixão, mas um trabalho NOVOS TARÓLOGOS PÁG.22

Usar a dor como combustível e inspiração DUDA BEAT PÁG.28

Transformar um festival numa plataforma criativa e multicultural MECA PÁG.32

Exercer a boemia no bairro mais cool do Rio de Janeiro BOTAFOGO PÁG.38

Mergulhar na experiência transcendental de um festival ENVISION FESTIVAL PÁG.40

Contar histórias através da lente de uma câmera BREJO PÁG.42


W W W .T H E S U M M E R H U N T E R . C O M

Profile for The Summer Hunter

The Summer Hunter Mag #002  

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