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C. M. Carpi

1ª Edição

2018


Direção Editorial: Roberta Teixeira Fotografia: Franggy Yanez Arte de Capa: Carol Dias

Revisão: Kyanja Lee Diagramação: Carol Dias Ícones de Diagramação: Freepik/Flaticon

Copyright © C M. Carpi, 2018 Copyright © The Gift Box, 2018 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte do conteúdo desse livro poderá ser reproduzida em qualquer meio ou forma – impresso, digital, áudio ou visual – sem a expressa autorização da editora sob penas criminais e ações civis. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas ou acontecimentos reais é mera coincidência. Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária Responsável: Bianca de Magalhães Silveira - CRB/7 6333


Beyond the door there’s peace I’m sure And I know there’ll be no more tears in heaven (Tears in Heaven - Eric Clapton/1992)

Meu Pequeno Pedaço do Paraíso

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Prólogo Esta é a minha história. Eu poderia contar dezenas de mentiras, inventar lugares que conheci, viagens maravilhosas durante a infância. Poderia até dizer que tive os melhores amigos do mundo e os levei comigo por uma vida inteira. O que eu mais gostaria de dizer é que conheci o amor da minha vida na escola, fui a rainha do baile, nós nos casamos logo após a faculdade, tivemos três filhos e fomos morar em uma casinha de frente para o mar. Nada disso aconteceu. Bom, morei em uma casinha de frente para o mar e encontrei o meu grande amor quando já não tinha mais esperanças. Ele mudou a minha vida e trouxe cor para ela. Amou-me todos os dias e mostrou-me o paraíso... Então, acho que não é apenas a minha história, porque sem ele nada disso teria graça. Esta também é a história de Andrew. Esta é a nossa história.

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Capítulo 1 Heaven — Mas que merda! — Chuto o pneu com toda a minha força e me arrependo no instante seguinte. Na verdade, me arrependo no meio do caminho, mas não sou capaz de frear meus instintos. — Merda! Merda! Merda! Merdaaaa! — praguejo alto e seguro o pé enquanto dou saltinhos. Sento-me no chão, desesperada, e arranco meu tênis e em seguida a meia. A última coisa de que preciso é de um dedo quebrado em uma estrada que fica no meio do nada. — Qual é o seu problema, hein?! — pergunto para o céu enquanto sinto lágrimas se formando em meus olhos. Quero muito que elas fiquem quietas e não rolem por meu rosto. Passei tempo demais chorando. — Não basta tudo o que passei até agora? Isso nunca vai parar? Até quando você vai me punir?! Eu nunca fiz nada de errado. Nada! Você está me ouvindo? Quando um trovão ecoa ao longe, solto o ar, frustrada. Ele me ouviu. Ele sempre me ouve e sempre me ignora. — O que você disse? — Por um momento muito louco, arregalo os olhos para a nuvem negra que passa bem acima da minha cabeça. Apenas por um momento acho que Deus finalmente resolveu me dar algumas respostas. Óbvio que não. — Você está bem? Estico o pescoço um pouquinho para o lado e percebo que tem um carro vermelho parado no meio da estrada. Mas não é o carro que chama a minha atenção. E, sim, o garoto de olhos verdes (pelo menos daqui eles me parecem verdes) e penetrantes, e cabelo loiro amarrado no meio da cabeça de um jeito bem bagunçado.

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— Eu vou... — ele para de falar e vem na minha direção. A camiseta cinza parece ter cerca de dez anos, já que apresenta vários furos perto da região dos ombros, ou ele a comprou assim, a moda hoje em dia é tão estranha. Seu jeans é bem surrado e também tem um meio rasgo no joelho direito. — Você se machucou ou... Quando ele se abaixa ao meu lado e segura meu braço, desvencilho-me rapidamente e fico em pé. — Não foi nada. Eu só... — Franzo a testa para o estranho com sobrancelhas grossas e barba por fazer. — Você sabe trocar pneu? Ele tem que saber. Tem que me ajudar. Não saí daquela cidadezinha para morrer no meio da Highway 50 e virar uma lenda urbana. — Seu pneu furou? — pergunta ao mesmo tempo que olha meus pneus. — Se ele não estivesse furado, eu te pediria para fazer isso por quê? — Tem razão. — Ele aponta o dedo indicador para mim e me lança um meio sorriso. Um meio sorriso bem bonito também. Depois de colocar uma pequena mecha do seu cabelo atrás da orelha, ele dá a volta no meu carro, senta no banco do motorista, abre o porta-malas para em seguida ir até a traseira do carro. — Há! Você só pode estar brincando comigo. — O quê? — pergunto já sentindo meu rosto queimar. E eu ainda nem sei o motivo, mas tenho certeza de que não é nada bom. — Seu estepe está murcho. — Está? — pergunto lívida e vou até ele. Meus olhos encaram o estepe sem acreditar no que veem. — Por quê? — O que você está...? — Ele levanta uma mão no ar e aperta os lábios para não rir. — Você alguma vez encheu esse estepe? — Eu nem sabia que precisava fazer isso — admito, e ele explode em uma gargalhada, jogando a cabeça para trás e isso me deixa com vontade de rir também porque ele faz uns barulhos engraçados. Só não faço isso porque há lágrimas se insinuando em meus olhos. — O que eu vou fazer agora? — Bom, eu não... — Ele coça a cabeça. — Já sei! — Agarro-o pelos ombros e seus olhos se arregalam. — Você pega o seu estepe e coloca no meu carro. — O quê? Não! — Ele se desvencilha, dá meia volta e depois me encara com as duas mãos no quadril. — Não é assim que as coisas funcionam.

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— Não? — Coloco as mãos na cintura e o encaro de volta. — Eu não posso colocar o pneu de um Mustang 1970 em um... Um... — Ele aponta para o carro e franze a testa. — Que carro é esse? — É um... — Abro e fecho a boca três vezes para, então, dar de ombros. Eu não tenho a mínima ideia do que seja. Tampouco sabia que ele dirigia um Mustang. — Que diferença isso faz? Você não pode me ajudar mesmo. — Eu poderia chamar um reboque para você. — E ele demoraria quanto tempo para chegar até aqui? Nós estamos no meio do nada. — Não tenho a mínima ideia. — Ele parece bastante frustrado ao dizer isso. — Você está indo para onde? — Califórnia. — Apenas Califórnia? — É isso aí. — Certo. — Ele esfrega a ruga entre suas sobrancelhas com o dedo indicador. — Eu posso ficar aqui com você e esperar pelo reboque. Se... — Um trovão alto ecoa sobre nós e ele olha para cima. — Parece que vai cair uma chuva daquelas. — Era só o que me faltava — digo baixinho. — O que você disse? — Nada, eu... — e então tenho uma ideia maravilhosa. — Você está indo para onde? — Carmel-by-the-Sea. — Na Califórnia? — Ele assente. Tento controlar meu impulso de pular no seu pescoço e celebrar essa notícia maravilhosa, mas certamente me acharia louca e também não faria o que estou prestes a pedir. Também não faço isso porque não pulo no pescoço de estranhos no meio do nada. Mesmo que ele seja um estranho muito bonito. — Você pode me levar com você? — Levar você? — Seus olhos se arregalam e sinto meu coração murchar dentro do peito. — Éééé... — Dou de ombros meio sem graça e meio implorando. Deus do... Deus, não! Estou muito brava com Ele para chamá-lo. Mas para quem eu perguntaria se devo ou não estar pedindo para esse estra-

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nho me levar com ele? — Você teria coragem de entrar no carro de alguém que você não conhece? — Seus lábios começam a se curvar para cima. — Eu não deveria fazer isso — dou um passo à frente e acho que meu coração dá um salto. E é tão forte que sinto necessidade de colocar a minha mão sobre o peito. —, não deveria mesmo, mas o fato é que estou ficando apavorada com a ideia de ficar sozinha nessa estrada durante a noite. — Bem pensado. — Ele guarda as mãos nos bolsos da calça e dá um passo na minha direção. Puxo o ar com força e sinto as pontas dos dedos formigando. — Mas como eu disse, posso ficar com você até o reboque chegar. — E o reboque me levaria para onde? — Não sei. — Ele dá de ombros despreocupadamente. — Talvez algum posto de gasolina ou... — Seus olhos fazem uma varredura ao redor e pela infinita estrada de asfalto. — Eu dei uma olhada rápida no meu celular tem algumas horas e acho que não tem nada pelos próximos trezentos quilômetros. — Puta merda — digo baixinho e cruzo os braços na frente do corpo. — Você está vindo de onde? — Darby. — Ele franze a testa, esperando que eu seja mais específica na minha resposta. — Pensilvânia. — E por que você veio parar nessa estrada? — Eu meio que me confundi com o mapa, meu GPS não colaborou, quando dei por mim já estava nesta estrada deserta. — E então, um medo apavorante invade a minha cabeça. — Por favor, diga que eu estou indo na direção certa. — Está — assente, e o canto esquerdo de sua boca começa a se curvar para cima. — Graças a Deus. Não, droga! — Não o quê? — pergunta com a testa encrespada. — Eu estava falando com Deus e... — Faço um gesto qualquer com as mãos, e ele aperta os olhos castanhos. Agora eu tenho certeza de que são castanhos. — Deus, sabe? — Aponto para cima e ele segue meu dedo.

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— Espera — pede espalmando uma mão no ar e me encarando como se eu fosse uma aberração. — Você conversa com Deus? — Não! De jeito nenhum — respondo enfaticamente, e ele ameaça falar, mas desiste quando termino a minha resposta: — Nós dois temos algumas discussões bem acaloradas de vez em quando. — Você e Deus? — Uhum. — Okay, eu... — Sorrindo, ele aponta para mim. — Você fugiu de algum lugar? — Quando você diz lugar, quer dizer...? — Hospital psiquiátrico? — Ele inclina o pescoço na minha direção e sussurra. Imito seu gesto. — Promete que não conta para ninguém? — Seu segredo está seguro comigo. — Ganho uma piscadela e isso faz meu estômago congelar. Também pisco para ele, mas tenho certeza de que a minha piscadela não foi tão perfeita quanto a dele. Vou até o banco de trás do meu carro para pegar minhas coisas. — E o seu carro? — Meu carro? — Coloco a mochila sobre o ombro e agarro a alça da mala maior antes de bater a porta. — Sim, ele vai ficar aqui? — Droga! Eu não tinha pensado nisso e... Você pode me emprestar seu celular? O meu está sem bateria. — minto. Ele está desligado porque minha mãe deve estar tentando rastreá-lo desde que saí de casa. Ele tira o celular do bolso da calça e me entrega. Deixo minhas bolsas no chão, respiro fundo e digito o número da minha mãe. Minhas mãos estão trêmulas e isso me dá nos nervos. Onde está a garota confiante que saiu de casa enquanto a mãe ainda dormia e deixou um bilhete sobre o aparador da cozinha? Inspiro profundamente e me afasto para poder falar com ela. — Heaven? — Atende ao primeiro toque e, somente pela maneira como ela chama meu nome, sei que estava chorando. — Oi, mãe. — Onde você está, Heaven? E que número é esse? — É de um... — Você precisa voltar para casa, meu amor. — Sua voz é abafada

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por um soluço. — Heaven, me escuta. Você precisa voltar. Eu consegui uma... — Ela começa a falar sem parar e tudo o que não preciso agora é ouvir a empolgação na sua voz. Uma empolgação carregada de esperanças. Esperanças estas que serão destruídas. Arrisco uma olhadela para trás e vejo que o estranho está guardando minhas coisas no banco traseiro do seu carro. — Você está me ouvindo, Heaven? Heaven? — Eu estou aqui, mãe — digo frustrada. — Então faça... — Não! — grito, e ela finalmente se cala. Na verdade, para de falar, mas ainda ouço seu choro do outro lado. — Eu não posso voltar, mamãe. — O que você está dizendo? — pergunta com a voz quebrada e sei que acabei de partir seu coração. Mais uma vez. — Eu não aguento mais. Eu só quero viver um pouco. — Você não pode ficar muito tempo... — Você precisa me deixar falar, mãe! — Minha voz se altera e ela solta o ar frustrada, contudo fica em silêncio. — Eu só liguei pra você porque eu... — Esfrego a testa, olho o pneu furado, a estrada deserta, o Mustang. Ouço-a soluçar baixinho do outro lado e isso dá vontade de chorar. — Preciso que você me deixe ir embora, preciso muito que você... — Você não pode me pedir isso, Heaven! — ela grita e eu me controlo para não gritar também. — Estou sofrendo, mãe. — Querida... — Olha — começo hesitante, tentando conter as teimosas e espessas lágrimas que estão embaçando a minha visão —, eu amo você. Amo tanto. Só não posso mais continuar desse jeito. — Ela ameaça me interromper, mas continuo falando. Se parar agora, se vacilar um segundo sequer para ouvir suas lamentações, desistirei de tudo, e prometi que não faria isso outra vez. — Houve um problema com o seu carro e... Vou deixá-lo aqui, mãe. — Aqui onde, Heaven? — Sua voz já não está mais vacilante. Está carregada de preocupação, e arriscaria até dizer que ouço uma pontada de raiva. — Não sei, mas meu celular está com bastante bateria, então vou deixá-lo no banco do carro, assim você poderá rastreá-lo. — Começo

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a falar sem parar, desesperada para que ela não me interrompa. — E também vou deixar a chave escondida sob o pneu que está murcho. O estepe também está. — Heaven! — Sinto muito, mãe. — Não faça isso! Heaven! — Eu amo você — digo e desligo antes que ela comece a falar outra vez. Enxugo minhas lágrimas, respiro fundo e me viro. Ele está encostado no meu carro com os braços cruzados na frente do corpo. — Obrigada. — Ameaço entregar o aparelho para ele, mas puxo-o de volta e gravo dois números de telefone. — Eu gravei dois números nele, um é o celular da minha mãe, o outro é o número da minha casa. Está gravado como: SÓ ATENDA SE A HEAVEN ESTIVER MORRENDO. — Quem é Heaven? — Ele franze as sobrancelhas e coça o queixo com uma mão enquanto pega o celular com a outra. Aponto para mim mesma. — Seu nome é Heaven? — Uhum. — Não é um nome comum. — Não, nada na minha vida é comum, acredite. De um jeito bem fofo, seu lábio começa a se curvar para cima e uma covinha surge em sua bochecha esquerda. — Você está morrendo, Heaven? — Hoje não. — Coloco as mãos nos bolsos do short e ele assente. Seu sorriso se amplia, as covinhas também. — Certo... — Ele pigarreia e aponta para o celular. — Você não quer mais falar com a sua mãe? — Não enquanto ela continuar me dizendo como eu devo viver a minha vida e... Apenas prometa que você não vai atender, por favor? Ela vai me obrigar a voltar para casa e eu não posso fazer isso. Não agora. — Tudo bem, eu... — Percebo que ele engole em seco e tenho quase certeza de que, nesse momento, está me achando louca de verdade. — Devo me preocupar com isso? — Não. — Você matou alguém? — O quê? Não! — respondo exasperada ao mesmo tempo que

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nego com a cabeça. — Então, você está fugindo de casa? — Abro a boca para responder, porém ele levanta um dedo em riste e me calo. — Porque se você estiver fugindo não tem problema, de verdade, mas preciso saber se isso vai me meter em alguma encrenca. — De maneira alguma. Ele assente. Outro trovão ecoa e dessa vez parece que a chuva está ainda mais perto. — Nós precisamos ir antes que toda essa água caia sobre nós. — Okay. — Confirmo que meu celular está ligado, pego a chave no contato, escondo sob o pneu furado, como disse para a minha mãe que faria, pego meu tênis e a minha meia que deixei jogados no chão e vou até o Mustang vermelho. Contudo, não entro. — Espera! — peço, e ele me fita antes de entrar também. — Qual é o seu nome? — pergunto ligeiramente ansiosa. Acho que somente agora me dou conta de que estou prestes a pegar a estrada com alguém sobre a qual eu não sei absolutamente nada. — Andrew — assinto, e ele completa: — Andrew Price. — Muito bem, Andrew Price — digo, e ele sorri, apoiando o cotovelo sobre o capô do carro. — Você já matou alguém? — Hoje não. — Que bom, porque esse assunto de conhecer a Califórnia é muito sério para mim. É o sonho da minha vida. Então, se você for algum tipo de psicopata e resolver me matar no meio do caminho, me colocar no seu porta-malas ou deixar em uma vala sozinha, vai destruir meus sonhos. E isso vai partir meu coração. — Droga! Preciso pensar em outra coisa para fazer com você, então. Ele sorri e engulo seco, porque o meu coração está a ponto de arrebentar as minhas costelas. Faço uma anotação mental de nunca me apaixonar por ele, principalmente quando sorrir para mim e exibir essas covinhas perfeitas. Sento-me no banco do passageiro e fecho a porta com mais força do que deveria. No instante em que dá a partida, olho-o de canto e percebo que acabo de cometer um erro terrível. Um erro terrível e bonito pra caramba.

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Meu Pequeno Pedaço do Paraíso - CM Carpi  

Leia o primeiro capítulo do livro "Meu Pequeno Pedaço do Paraíso", da autora CM Carpi. Compre o seu em: http://bit.ly/MeuPequenoPedacoDoPara...

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