A Missão Agora é Amar - Cristina Melo

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Direção Editorial: Arte de Capa: Roberta Teixeira Gisely Fernandes Fotografia: Revisão: Fábio Neder Kyanja Lee Diagramação: Carol Dias

Copyright © Cristina Melo, 2018 Copyright © The Gift Box, 2018 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte do conteúdo desse livro poderá ser reproduzida em qualquer meio ou forma – impresso, digital, áudio ou visual – sem a expressa autorização da editora sob penas criminais e ações civis. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas ou acontecimentos reais é mera coincidência. Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária Responsável: Bianca de Magalhães Silveira - CRB/7 6333

M528 Melo, Cristina A missão agora é amar / Cristina Melo. – Rio de Janeiro: The Gift Box, 2018. 508p. 16x23cm. (Missão Bope ; 1) ISBN 978-85-52923-28-2 1. Literatura brasileira. 2. Romance. I. Título. II. Série. CDD: B869.3


Em meio ao cenário de violência instaurado atualmente no Rio de Janeiro, dedico esta obra e a série Missão Bope aos heróis anônimos que, vocacionados pela sua coragem, saem de casa todos os dias arriscando a integridade física e, por muitas vezes, a própria vida, pelo ideal de garantir os direitos coletivos e individuais de uma sociedade que — em grande maioria — não os reconhece. A vocês, o meu respeitoso muito obrigada! E aos familiares dos bravos guerreiros que enfrentaram a morte, mas que foram tombados por essa violência que assola não somente o Estado do Rio de Janeiro, como todo país. Famílias dilaceradas, que convivem diariamente com essa dor imensurável; as minhas mais sinceras condolências e que Deus possa confortar e fortalecer seus corações.

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NOTA DA EDITORA

A editora The Gift Box e a autora Cristina Melo decidiram fazer algo a mais, em virtude da função social com relação às várias mortes de policiais nos dias de hoje. Comovidos com o projeto #basta e Natal Azul, optaram por contribuir de alguma forma para esta causa: 10% do que for arrecadado com a venda do e-book do livro “A Missão Agora é Amar” será doado para esse projeto tão especial, que encanta com a iniciativa de abraçar essas famílias que perderam seu maior bem. Conheça o projeto #basta e o Natal Azul abaixo e escolha a melhor forma de ajudar, principalmente na época de novembro para o Natal: O #basta é um movimento iniciado em 2009 pela jornalista Roberta Trindade, que tem o objetivo de tornar pública a quantidade de policiais mortos e baleados no Estado do Rio de Janeiro. Além disso, denuncia a falta de estrutura e condições de trabalho a que são submetidos os policiais e ressalta as boas ações. Atualmente também integram o #basta uma viúva de PM e esposas de policiais civis e militares. Ao constatar que todos finais de ano ocorrem campanhas chamando a atenção para somente orfanatos, creches e asilos, o grupo teve a ideia de também despertar as pessoas para as crianças que convivem com a incerteza de verem seus pais voltando para casa do trabalho. O Natal Azul do #basta organiza uma festa natalina para os que já enfrentaram a tristeza de estarem crescendo sem eles e que costumam ser esquecidos nessa época do ano e não serem lembradas no restante dele. Voluntários se mobilizam para apadrinhar ou amadrinhar essas crianças e doam roupas, sapatos, brinquedos e itens para a realização da festa. Em 2016, 40 crianças fizeram parte do evento. Em 2017 foram 102 crianças e a previsão é de que a edição de 2018 reúna mais de 200 órfãos. Para apadrinhar alguém no Natal Azul, basta entrar em contato através do e-mail: natalazul.basta@gmail.com

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PROLOGO ´

Gustavo — Desce do carro, porra! Anda logo, quero ver sua cara, seu desgraçado! — Nunca estive com tanto ódio. — Abre a porta devagar ou vai morrer! — ameaço, apontando o fuzil bem próximo à janela. Só aí percebo que tem mais gente dentro do carro, e é uma mulher em pânico ao seu lado. Estraguei sua festinha, que bom! — Desce todo mundo da porra do carro, estão surdos?! — É sempre assim com esses infelizes, todos valentões, mas quando chegam na nossa frente, viram umas moças. Gesticulo para que o Michel vá para a porta do carona, onde está a garota. Ele aponta a arma na direção dela, que logo desce com as mãos para o alto, nitidamente trêmula — quem manda se envolver com bandido? Fica parada no mesmo gestual, aos cuidados de Michel. Agora esse infeliz será todo meu; se não sair do carro por bem, sairá por mal. Vou para a lateral do carro enquanto Carlos assume meu lugar, com Fernando à frente dele. Abro a porta do motorista violentamente, mas ao puxar o desgraçado de dentro, vejo mais uma mulher no banco de trás do automóvel. Está pálida e estática. Meu olhar rapidamente a varre de cima a baixo, percebendo que está sem armas à vista. Então, puxo o infeliz com tudo para fora e o jogo ao chão, sob a mira de Carlos. Volto meu olhar na direção da mulher e enxergo pavor em seus olhos, mas também sinto sua intensidade e isso faz com que me distraia e até me perca neles — são lindos. — Está maluca? Quer morrer?! Saia da porra do carro! — exijo,

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apontando a arma em sua direção. Ela obedece, saindo pelo lado em que o Michel está — esse modelo de carro só tem três portas. Para ao lado da amiga e, por um segundo, contemplo sua beleza. Nossos olhos se encontram, e é como se só existíssemos nós dois ali. Encara-me bem séria, com uma intensidade que nunca senti antes com ninguém. Como pode uma mulher tão linda andar com um verme como esse? Então, me lembro do verdadeiro motivo para estar aqui. Nunca havia me distraído assim em uma operação. Que porra é essa?! Desfaço o contato visual com ela, retornando ao meu objetivo: abaixo-me e puxo o infeliz pela camisa, jogando-o em cima do capô do carro — vamos começar nosso acerto de contas. — Você vai se arrepender de ter nascido, seu infeliz! — informo, encarando-o com frieza. — Eu não sei o que está acontecendo, mas o senhor está enganado, não fiz nada, só viemos a uma festa aqui, só isso. — Sério? Vou fingir que acredito. — E eu sou o papai Noel! — digo com toda a raiva. — Ele está dizendo a verdade, nós não fizemos nada, e não é assim que se aborda um suspeito. O quê? Não estou ouvindo isso: agora esse infeliz que tirou a vida do meu amigo, é um suspeito? Viro-me em direção à voz que quer me ensinar a fazer meu trabalho, e é ela, que me encara muito irritada.

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Lívia — Então... — dirijo-me à minha amiga Bia, que me olha com cara de quem já sabe o que eu vou dizer. Ela me conhece muito bem e, na maioria das vezes, nem preciso falar nada para que saiba o que estou pensando. — Eu sei que sou injusta com ele algumas vezes. — Seus olhos encontram os meus, e não disfarça o divertimento neles. — Tudo bem, Lívia, não acho que ele seja esse santo todo que você imagina, sabe que eu tenho lá minhas dúvidas em relação à fofura dele... perfeito demais! Bia tem suas cismas com Otávio, meu noivo. Diz que ele é perfeito demais, santo demais, compreensivo demais e nunca se manifesta contrário a nada que eu faça, diga, ou com qualquer atitude que eu tome. Ele sempre aceita tudo, e diz que o seu amor é capaz de superar qualquer coisa. Estamos juntos há quase um ano e meio. É meu primeiro namorado sério, com seis meses de namoro me pediu em casamento; aceitei, pois nosso relacionamento é perfeito. É o noivo que qualquer mulher gostaria de ter: adora fazer surpresas, vive me paparicando e diz tudo que uma mulher gosta de ouvir. Apesar de amá-lo, nunca tive aquela paixão arrebatadora que se lê nos livros, mas acho que na vida real é assim mesmo e, para mim, funciona a contento. — E então, mocinha, o que você está tramando para pedir desculpas ao seu namorado “perfeito”? — Bia enfim se manifesta, mas, claro, enfatiza o perfeito, não perdendo a oportunidade de implicar com Otávio. Na verdade, Bia chama-se Bianca. Nós nos conhecemos no Ensino

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Fundamental, e desde então, nunca nos desgrudamos. Estudamos juntas todo o Ensino Médio e fazemos até a mesma faculdade. Estamos agora no último período de Educação Física. A dupla imbatível, é assim que nos chamam. Mas, prefiro pensar que é a irmã que nunca tive. Sei que é. Posso contar com ela para qualquer coisa que precisar, sempre estará lá por mim. — Estou pensando em fazer uma surpresa em seu escritório hoje, já que nunca vou lá e ele vive reclamando disso. Conheci Otávio quando tive que procurar um advogado para resolver as pendências do inventário do meu pai. Apesar da fase difícil que estava passando, fiquei totalmente deslumbrada com sua beleza e educação. Depois de uma semana indo ao seu escritório, ele me convidou para jantar. Após um mês de muita insistência, resolvi aceitar e, desde então, estamos juntos. — E como você pretende fazer essa surpresa? Ah, claro, vai aparecer no escritório dele. Nossa, amiga, realmente uma coisa surpreendente; se não tivesse tido essa ideia, não seria capaz de pensar em algo assim — zomba. — Incrível, suas ideias andam cada vez melhores, Lívia! — Finge empolgação e seriedade, mas logo cai na gargalhada. — Para, Bia! Estou falando sério e você fica de sacanagem! Estou precisando de uma dica séria, tenho que me redimir, pelo menos um pouco! Balança a cabeça de um lado para o outro sem parar. — Só não estou vendo motivos para tanto, Lívia; você dificulta tanto as coisas... Se quer ir lá e se desculpar com seu namorado, se desculpe e pronto, mas sabe qual é minha opinião. Encaro-a, sua implicância está cada vez pior. — Ele está perdendo a paciência, estou sentindo isso, nunca agiu como ontem, não sei mais o que fazer. Sua gargalhada enche o ambiente. — Que foi, qual a graça? — pergunto. A Bia faz piada de tudo, não que isso me irrite; na maioria das vezes ela é muito engraçada, eu adoro seu senso de humor e de como faz piada e vê o lado bom de tudo. Peguei um pouco isso dela. Mas hoje, realmente estou nervosa e sem saber como agir. Queria só o lado das suas ideias mirabolantes, sempre brincamos que ela é o cérebro e eu, o coração. Bia

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me olha e vejo que tenta parar o riso, mas falha na sua tentativa. — Estou tentando ter uma conversa séria, Bia, será que pode parar com a gracinha e ser minha amiga? — Suas mãos vão à boca, abafando os sons indesejados, a meu ver pelo menos. — Desculpe, agora é sério: o cara te ama, e estou rindo porque você sabe exatamente o que o faria te perdoar na hora. Te garanto que se aparecer lá dizendo que, enfim se decidiu, não levará nem um milésimo de segundo para te perdoar; isso tudo só tem uma razão de estar acontecendo. — E qual é? — pergunto confusa. — Tesão acumulado! — Bianca!!! — Jogo uma almofada na direção de sua cabeça, da qual se desvia. — Que foi? Pediu conselho e eu estou te dando — fala bem séria, e pisca um dos olhos. Então, caímos na gargalhada, como sempre acontece. — Certo, sua maluca! Vou tomar um banho, e depois fazer uma visita ao meu noivo. Tenho que correr se não quiser dar de cara na porta. Já são quinze e trinta, e ele costuma sair às dezoito horas. Vou convidá-lo para jantar. — Pisco para ela e vou em direção ao meu quarto. — Isso! Atitude! Provavelmente você vai se transformar no jantar, então não se esquece de ir preparada. Coloca aquela lingerie que comprou na semana passada; ele vai pirar. — Bia, você não tem jeito! — Ela e suas gracinhas. —Bom, divirta-se, espero que hoje seja o dia D! Qualquer coisa, passa uma mensagem pelo WhatsApp, e depois quero o relatório com todos os detalhes. — Assinto. — Todos mesmo — intima. — Ok, dona Bia, fique tranquila que vou anotar tudo e te mando o relatório — grito sua resposta, pois já saiu do quarto. — Boa garota! — grita de volta, e logo ouço a porta da sala bater. De todas as amigas do mundo, eu tinha que arrumar a mais louca? Mas eu a amo desse jeito, sem tirar nem pôr. Quer saber? Com toda a sua maluquice, a Bia acabou de dizer algo muito importante. E eu acabei de me decidir: hoje realmente será o grande dia, não vejo motivos para esperar mais. Otávio vive dizendo que me ama e faz coisas lindas por mim. Essa minha insegurança não tem mais cabimento; afinal, sou uma mulher de 23

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anos que mora sozinha, me sustento, e tenho um noivo com muita paciência em esperar um ano e meio — quem faz isso, hoje em dia? Nós temos nossos momentos mais íntimos, mas na hora H, eu travo. Está decidido! Depois do jantar, eu me entregarei a ele de corpo, alma e coração! Só espero não perder a coragem na hora.

Saio do banho após quinze minutos, com o pensamento de que não posso esquecer o crachá que Otávio me deu para ter livre acesso à empresa sem precisar ser anunciada. Bom, acho que ele vai ter uma grande surpresa mesmo, essa será a primeira vez que vou usar meu crachá especial. Se quiser chegar a tempo, tenho que correr, sem demorar muito para escolher uma roupa. Esse é um grande problema que tenho: me decidir sobre o look. Ainda bem que uso uniforme na clínica de estética em que trabalho, senão não conseguiria sair de casa a tempo, já que tenho que sair bem cedo. Meu horário é às oito horas, e a clínica fica na Barra. Moro no Cachambi e, graças ao meu bom Deus, a Linha Amarela existe, mas também, quando engarrafa, só Jesus na causa! Por isso, meus itens principais na bolsa são um livro e meu iPod. Nunca dispenso boas músicas e bons livros. Com um sorriso no rosto, escolho o conjunto de lingerie sugerido pela Bia: calcinha de renda e sutiã tomara que caia brancos. Visto um vestido tomara que caia verde, colado até a cintura e soltinho embaixo, comprimento um pouco acima dos joelhos. O calor do Rio de Janeiro está castigando este ano, não dá para usar nada mais ou morrerei de calor. Coloco uma sandália anabela nude, pego minha bolsa que transpasso no ombro e estou pronta. Olho para o celular e já são dezesseis e quarenta e cinco. Dou a última conferida no espelho e está ótimo. Tomara que dê tempo!

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Desço minha rua até o ponto para pegar uma van até o metrô de Maria da Graça. Chego ao metrô às dezessete e dez. Fico aliviada, sei que vou chegar um pouco adiantada, estou ansiosa pela surpresa. Ligo meu iPod e começo a viajar na música que está tocando: foi Otávio que a colocou na minha playlist, disse que se lembrava de mim quando escutava a música... Tudo que Você Quiser, do Luan Santana. “(...) Tem gente que tem cheiro de rosa, e de avelã Tem o perfume doce de toda manhã Você tem tudo Você tem muito Muito mais que um dia eu sonhei pra mim Tem a pureza de um anjo querubim (...)”

Fecho os olhos e me lembro do dia anterior, da cara de decepção do Otávio...

Estava no estúdio de dança, no Méier, onde faço aulas de dança desde criança, e agora dou aulas duas vezes por semana para turmas iniciantes com idades de 3 a 6 anos. Assim, eu conseguia uma grana extra e praticava um pouco da minha paixão, que é a dança. Dou aulas todas as terças e quintas, das dezesseis às dezessete horas. Entro às dezenove horas na faculdade, a UERJ, na Tijuca. Ou seja, terça e quinta só chego em casa à meia-noite, porque também saio um pouco mais tarde da faculdade nesses dias, mas já está acabando, é o último período. Ainda estou de férias, já que estamos em janeiro, mas no meio do ano eu estarei formada e tentarei realizar meu maior sonho: abrir uma academia com um grande estúdio de dança. A Bia ficará responsável pela academia e eu, pelo estúdio. Esse é nosso plano desde que entramos na faculdade. — Lívia! — Estava saindo do estúdio quando escutei uma voz que

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conhecia muito bem. — Otávio!? O que você está fazendo aqui a essa hora? Ainda são dezessete horas, você não tinha que estar no escritório? Fiquei surpresa, apesar de ele viver aparecendo assim em todos os lugares possíveis. Ainda não tinha me acostumado com isso, afinal, ele era muito ocupado no escritório, mas sempre que podia, vinha ao meu encontro aqui, no trabalho, ou na faculdade. — É tão ruim assim tirar um tempinho para ver minha noiva? — disse, fingindo-se magoado. — Claro que não, só fiquei surpresa, só isso. Nós nos falamos mais cedo e não disse que viria. — Normalmente, quando fazemos uma surpresa, não avisamos antes, Lívia — seu tom mudou. Ai, meu Deus, eu e essa mania de falar demais! Não podia simplesmente aproveitar o momento, agarrar meu noivo e tudo certo? Não, tinha que pegar todas as informações, primeiro. Corri até ele e dei-lhe um beijo e um abraço bem apertado. — Hum, agora sim, já valeu a pena ter vindo até aqui, só por causa desse beijo — disse todo satisfeito. — Nossa! Você é facinho, facinho... — murmurei com a boca ainda em seu pescoço, e ele me deu mais um beijo. — Sabe que sim, quem se faz de difícil aqui é você, minha linda. Ouvi suas palavras, sabendo que estava jogando indiretas, e simplesmente odeio isso! Em segundos, o momento mágico se transformou. —Você sabe muito bem que não estou me fazendo de difícil, só acho que ainda não chegou o momento, e não vou fazer nada que não queira só para agradar a você ou quem quer que seja — subi meu tom e mudei meu humor imediatamente. Que saco! Já tínhamos conversado muito a respeito disso. Não que me importasse com esse lance de sexo só depois do casamento, não era isso, envolvia algo que nem eu mesma sabia explicar. Havia um bloqueio, meu cérebro travava e meu corpo não correspondia aos seus toques e carícias. Como se algo na minha cabeça gritasse: Você não está pronta, não é o momento, não faça isso. Otávio era muito carinhoso e compreensível, dizia que não se importava e que tudo teria seu tempo. Eu me

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sentia feliz e realizada com isso. No começo, tinha minhas inseguranças, achava que acabaria perdendo-o pela falta de sexo. Mas ele sempre disse que não tinha desejos com outras mulheres, que me esperaria o tempo que fosse preciso. Ele realmente era um noivo perfeito, e eu, uma sortuda filha da mãe por esse homem ser meu. Mas, vez ou outra, jogava algum tipo de indireta, e eu ficava muito irritada com isso. Sentia-me cobrada e o peso da minha virgindade caindo sobre minha cabeça. Era como se tivesse algum prazo de validade. —Vamos para o carro, vou te deixar em casa. — Seu tom foi seco, pegou minha mão e andamos em silêncio. Entrei no carro com a cara emburrada. — Que foi, Lívia, qual o seu problema? Por acaso é algum crime querer ir para cama com a mulher que amo? Caramba! Tenho sido super paciente em esperar seu tempo, mas porra, eu te amo! E quero ter você por inteiro na minha vida. O que mais preciso fazer para te provar o quanto te amo? Tenho 27 anos, Lívia, e já nessa espera há um ano e meio, e está complicado para o meu lado, não aguento mais tomar banho gelado! — disse um tanto exaltado. Realmente era um bom advogado! Estava tentando me convencer, como se eu fosse o júri. Até que sua argumentação tinha sido boa, mas isso só me deixou com mais raiva. Sabia muito bem que levava uma vida sexual ativa antes de mim. Mas, poxa! Não o tinha forçado em nada, sempre deixei minha posição clara e ele sempre aceitou. — Fique à vontade, Otávio, não quero atrapalhar sua vida e também não vou cair no seu drama. — Estava com muita raiva dele. — Lívia, minha vida é você, só estou conversando com você, mas vou esperar o tempo necessário, juro! — Faça o que for melhor para você, Otávio, só não quero que fique jogando indiretas ou me cobrando isso o tempo todo — exigi. — Para com isso, que bicho te mordeu hoje? Você está cansada de saber que é o melhor para mim. — Me puxou para um beijo, e me afastei. — Hoje realmente não é um bom dia, me leva pra casa, por favor. Ele não disse mais nada, só ligou o carro e engatou a marcha. Nos minutos que se seguiram, nenhuma palavra foi dita. Comecei a pensar se realmente devia esperar mais, não que eu não tivesse vontade, afinal, sou

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humana, e por mais que bancasse a durona e ficasse irritada com suas investidas, entendia perfeitamente os seus argumentos. Meu noivo era o sonho de consumo de qualquer mulher: é lindo! Com um metro e oitenta e cinco de altura, moreno claro, cabelos escuros, olhos azuis, sorriso perfeito, corpo definido, nem magro nem forte demais, é na medida, uma tentação. Mas enquanto tivesse essa dúvida dentro de mim, acho que não teríamos nosso momento perfeito e não me entregaria a ele. Minutos depois encostou o carro na frente do meu prédio. — Pronto, entregue — Foi só isso que disse. Olhei-o, confusa, estranhando sua atitude, mas não comentei nada, abri a porta do carro, e antes de descer dei uma última olhada para o lado, mas continuava parado, nem tentou me beijar ou me olhar, nada. Bati a porta, e logo arrancou com o carro. Nunca vi Otávio desse jeito, nunca agiu assim.

Depois de tomar um banho, fui preparar algo para comer. Quando terminei meu jantar, olhei o celular e vi que eram vinte e duas horas e nada de mensagem do Otávio. A essa altura, em outro dia qualquer, já teria pelo menos umas quatro mensagens. Resolvi que também não mandaria nenhuma, precisava dar esse tempo a ele; afinal, era a sua vida também e não queria ser egoísta a esse ponto.

Quando saí do trabalho, ainda não tinha nenhuma mensagem do Otávio. Nós precisávamos conversar, e sabia que dessa vez teria que tomar a iniciativa. Peguei meu celular e liguei para Bia. 18


— Fala, sua maluca, qual a missão dessa vez? — perguntou toda eufórica. — Me espera no ponto, Bia, devo estar chegando aí mais ou menos em quinze minutos. Preciso muito conversar com você, mas estou sem tempo, então temos que ir adiantando o assunto. — Bia morava em uma das ruas transversais à minha. — Estou descendo, te encontro lá, beijos! Quando desci do ônibus, ela já está lá me esperando. — Espero que seja muito sério o assunto, só assim mesmo para eu te desculpar por estar torrando nesse sol. — A coitada estava toda suada. — Desculpe, amiga, mas preciso da sua ajuda em uma coisa. — Quem eu tenho que matar?! — Mas era muito palhaça, nem eu dizendo que o assunto é sério, não adiantava. Continuamos andando até chegar ao meu prédio. —Acho que vacilei com o Otávio, peguei pesado. Ele não falou mais comigo desde ontem. — Não acredito! O senhor perfeito e bonzinho sente raiva! — seu tom era de ironia. —Para, Bia, o assunto é sério, eu acho que falei demais e o magoei. —E onde que isso é sério? Você fala demais o tempo todo, não estou entendendo. — Hahaha... Muito engraçada! — fingi sorrir. A Bia não conseguia mesmo levar nada a sério.

Assim que entramos em casa, peguei água para nós duas e comecei a contar a ela sobre Otávio e em como fui intolerante com ele. Realmente queria muito que déssemos certo, sabia o quão paciente Otávio havia sido até aqui, não tinha motivos para adiar mais. Achei que estava preparada, precisava acertar as coisas entre nós. Dessa vez, ou vai ou racha!

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Acordo das minhas lembranças com aquela voz, conhecida por todos nós que usamos o metrô, anunciando a próxima estação: CARIOCA. E é ali que desço. Apesar do frio na barriga, estou muito segura do que vou fazer; confesso que também um pouco curiosa para ver a reação do Otávio. Torço para que tenha a melhor reação do mundo, quando eu chegar ao escritório. Em relação à segunda surpresa, acho que não vai acreditar que, enfim, vamos ter nossa noite perfeita. E quanto a mim, estou mais calma do que achei que ficaria, sei que tomei a decisão certa, só quero que ele me faça feliz e eu a ele. Subo as escadas do metrô e, agora, falta pouco para, finalmente, provar ao Otávio que o amo também.

Minutos depois chego à portaria do prédio e tenho a mesma reação que tive na primeira vez em que estive aqui. A recepção é muito bem decorada. Apesar de ser um prédio de escritórios, eles tiveram muito bom gosto na decoração. Pego o crachá em minha bolsa, apresento para a recepcionista e sigo para os elevadores. Aperto Cobertura e as portas se fecham. Olho-me no espelho para conferir o visual, e graças ao meu bom Deus, está tudo no lugar, mesmo com o calor insuportável que faz hoje. O elevador chega ao seu destino e as portas se abrem. Minha barriga se comprime tanto, estou ansiosa e nervosa como nunca estive, as mãos suadas; a expectativa para saber sua reação chega a me sufocar. Olho para a recepção, onde costuma ficar a secretária dele, e noto sua ausência. De repente, bate o desespero e pego meu celular para verificar as horas, mas vejo que ainda faltam dez minutos para as dezoito horas.

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A porta do Otávio está fechada. É só o que me falta: depois desse trabalho todo, não o encontrar aqui será muito azar! Ando de um lado para o outro, pensando no que fazer. Penso em bater na porta do Otávio, mas me contenho; pode estar em alguma reunião importante. Após cinco minutos de espera, resolvo bater na porta. Vai que todos já foram embora, e eu aqui pagando mico. Respiro fundo e dou uma batida tímida. Como ninguém responde, resolvo dar uma olhada para saber se realmente a sala está vazia, afinal, depois de tanto sacrifício, tenho que ter certeza. Abro a porta devagar e vejo uma sandália feminina no canto da porta. Meu coração começa a disparar. Sigo com o olhar e me deparo com um vestido jogado no chão. Não pode ser verdade... Vou andando até abrir toda a porta e ter uma visão de onde fica sua mesa. A cena que vejo não pode ser real, não o Otávio... Fico parada, me falta o ar... e não sinto uma parte sequer do meu corpo.

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