1º Capítulo "Explosivo", Jane Harvey-Berrick

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JANE HARVEY-BERRICK

Traduzido por Natalie Gerhardt

1ª Edição

2018


Direção Editorial: Roberta Teixeira Gerente Editorial: Anastacia Cabo Tradução: Natalie Gerhardt Arte de Capa: Sybil Wilson/Pop Kitty Design

Modelo: Gergo Jonas Fotógrafo: GG Gold Revisão: Calliope Soluções Editoriais Diagramação: Carol Dias

Copyright © Jane Harvey-Berrick, 2018 Copyright © The Gift Box, 2018 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte do conteúdo desse livro poderá ser reproduzida em qualquer meio ou forma – impresso, digital, áudio ou visual – sem a expressa autorização da editora sob penas criminais e ações civis. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas ou acontecimentos reais é mera coincidência. Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária Responsável: Bianca de Magalhães Silveira - CRB/7 6333

H341 Harvey-Berrick, Jane Explosivo: tick tock / Jane Harvey-Berrick ; Tradução Natalie Gerhardt. – Rio de Janeiro: The Gift Box, 2018. 334p. 16x23cm. v.1 Título original em inglês: Tick Tock ISBN 978-85-52923-40-4 1. Literatura inglesa. 2. Romance. I. Gerhardt, Natalie. II. Título. CDD: 820


Para todos os homens e mulheres que vão de encontro ao perigo. E – Explosive O – Ordnance D – Disposal Desarmamento de artilharia explosiva. Esquadrão Antibombas.

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UMA OBSERVAÇÃO SOBRE ESTE LIVRO

Não foi nada fácil escrever este livro por diversos motivos — e foi muito importante para mim fazer a pesquisa de forma correta. Tenho bons amigos no Esquadrão Antibombas, além de amigos bem próximos na comunidade mulçumana, que me ajudaram e me orientaram. Fizeram isso, mas, no final das contas, este livro foi escrito por mim, então, quaisquer erros cometidos são exclusivamente meus. O meu objetivo é ser respeitosa com ambas as comunidades e contar uma história de amor e compaixão em um lugar muito sombrio. Gostaria de avisar que talvez haja muitos “gatilhos” para algumas pessoas nesta história. No final das contas, esta é uma história de amor, não de ódio, e eu espero que essa parte fique com você. E eu realmente devo agradecer os meus dois amigos no exército, J. e J. Mas também devo um grande agradecimento à minha adorável equipe que me ajudou a dar forma a esta história, Madeena Mohana Wali, Dzana, Selma e Sejla Ibrahimpasic, que me orientaram em relação aos costumes islâmicos. JANE HARVEY-BERRICK

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PRÓLOGO

Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Nunca tive medo de morrer. É viver que me assusta pra cacete. Mas, usando a armadura do Esquadrão Antibombas, estou completamente sozinho. Não existe o hoje, nem o ontem, nem o amanhã. Só o aqui e agora. Não existe, Deus, Diabo, bem ou mal. Apenas eu. E o som da minha respiração, alta e rítmica. Apenas eu. E essa bomba. Uma bomba é um dispositivo criado para matar, mutilar ou ferir. Não estou com medo. Não tenho tempo para o medo. O sol está brilhando, a luz é um nevoeiro branco, o suor escorre pela testa e entra nos meus olhos. Quanto mais tempo eu ficar aqui fora, ajoelhado na poeira, mais vulnerável ficará a equipe que está me dando cobertura. Não posso me apressar. Tenho que agir com precisão. Porque se eu cometer um erro, estou morto. Sou um soldado do Esquadrão Antibombas. Faço o desarmamento de artilharia explosiva. Eu sou o homem que neutraliza a explosão.

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CAPÍTULO UM

JAMES Ergui o meu fuzil SA80 e mirei no peito do homem. Você está na minha mira! Com a distância de 18 metros, eu não tinha como errar. Nem ele. Ele estava dirigindo um Jeep velho, mas tão velho, que parecia que as partes eram coladas com chiclete e barbante. Ele mudou a marcha de forma ameaçadora, e eu usei um poste como proteção para que ele não me atropelasse. Eu não conseguia ver as mãos do motorista. Mas que merda ele estava fazendo com as mãos? Poderia estar tentando pegar uma arma, ou preparando um dispositivo que poderia abrir um buraco no mundo. Aquela merda estava ficando séria. Fiz um gesto com o fuzil, minha voz dura e cheia de coragem — uma voz de comando: — Levante as mãos e as coloque no volante. Ele não se mexeu, só ficou olhando para mim, estreitando o olhar cheio de ódio. — Levante as mãos, agora! Nada ainda. O soldado ao meu lado começou a se agitar. — Sargento, ele não está fazendo nada! Será que fala inglês? Ele tinha um sotaque da Georgia e a frase soou bem estranha aos meus ouvidos, como se ele estivesse falando com a boca cheia. — Sei lá. Você fala? Ele deu um sorriso nervoso, mas a minha piada o ajudou a relaxar um pouco. Ou talvez ele só tenha retrocedido antes de cometer um grande erro.

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Dei um passo para a frente, apontando o fuzil para o insurgente. — Mãos onde eu consiga ver! Mesmo que ele não falasse inglês, o significado estava claro. Mas eu me distraí com o soldado ao meu lado que estava agitando os pés como se fosse mijar na calça. Olhei para ele. — Fique calmo, está tudo bem... De repente, ouvimos uma explosão alta, um brilho de luz vindo do Jeep e uma nuvem de poeira e fumaça azul subiu para o céu. Baixei meu fuzil e xinguei. — Sargento Spears! — berrou o Capitão Elderman, balançando a cabeça. — Se esse dispositivo fosse real, você e seus homens estariam mortos agora. Você deveria ter se certificado de que as mãos dele estavam à vista. Que bom que este é um exercício de treinamento em Wiltshire e não uma situação real na porra de algum lugar qualquer. Eu esperava mais de você, Spears. Vá até o meu escritório mais tarde. Então, ele se afastou. O motorista do Jeep riu, fez um V de vitória com os dedos, saindo da nuvem de poeira, enquanto o escapamento fazia barulhos asmáticos. Filho da puta. — Sinto muito, sargento — desculpou-se o cabo que estava comigo, com expressão deprimida. — Eu estraguei tudo. — Você, eu, nós dois. — Suspirei. Nós nos juntamos ao restante da tropa e voltamos para o ônibus que nos levaria do campo de treinamento de volta aos barracões. A mochila nas minhas costas pesava cinquenta quilos. Vinte quilos de equipamento básico do exército e trinta quilos do meu kit do Esquadrão Antibombas. Estava 31ºC e eu estava suando em bicas. Os verões da Inglaterra não deveriam ser tão quentes assim. Foi um grande alívio quando entrei no ônibus e me sentei no fundo para poder largar a mochila e tomar um pouco de água no meu cantil. Olhei para a minha equipe — soldados formados em engenharia elétrica e mecânica. Eram caras muito legais, mas jovens e inexperientes. Com 29 anos, eu era o mais velho. Próxima parada, trinta anos. Puta que pariu. Quando é que eu tinha ficado tão velho?

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Eu me recostei no assento e fechei os olhos, deixando a exaustão tomar conta de mim. Em questão de minutos, eu tinha adormecido. Isso é uma coisa que se aprende no trabalho: tire um cochilo sempre que puder. Você talvez tenha poucas horas no saco de dormir e pode demorar muito até conseguir outra chance quando está em uma missão em ambiente hostil. Com o passar dos anos, eu me treinei para dormir em qualquer lugar, desde uma rede até no alto de uma árvore em um tanque ou deitado no chão de cimento. Tempo e oportunidade eram as únicas coisas de que eu precisava. Embora uma cama confortável e macia com uma mulher bonita seria muito melhor, mas eu aproveitava o que podia. Quando o ônibus chegou à base, eu já estava totalmente desperto. As bases militares são essencialmente iguais: casas de tijolos vermelhos para as famílias, barracões baixos de concreto para os solteiros, construções feias, escritórios sem-graça, hangares para os aviões ou transporte, pistas de asfalto — tudo cinza, funcional e deprimente. O ministro da defesa vivia prometendo melhorar os quartéis, mas eu não tinha visto nenhum sinal disso ultimamente. Pelo menos cada um contava com um quarto individual, a não ser pelos recrutas que ainda não tinham passado pelo treinamento básico. De volta à sala do arsenal, devolvemos as armas e a munição foi contada de forma diligente. Ninguém queria que a nossa munição caísse em mãos erradas. — Muito bem, garotos — disse eu, sorrindo, apesar do cansaço e do fracasso. — Não foi um dia totalmente ruim... A gente estava indo bem até nos depararmos com a porra de uma bomba. Pensem como poderíamos ter nos saído melhor da próxima vez. — Sim, senhor — vieram as respostas resmungadas. O sorriso desapareceu do meu rosto quando virei para seguir para o prédio dos escritórios da administração da base. Nem todos os oficiais eram babacas. Em média, você às vezes cruzava com um em quem não queria atirar. Elderman era tranquilo, não que eu o conhecesse bem. Estávamos trabalhando juntos havia três semanas — tempo que mal dava para eu aprender a me virar pela base. Se eu estivesse em uma missão no exterior, teria usado o tempo para

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fazer requisições não oficiais para um kit melhor para os meus homens. Sempre havia alguma coisa que eles precisavam e o filho da puta do intendente queria manter arrumadinho no seu lindo e arrumado armazém. Pegar suprimentos lá poderia ser um excelente exercício de treinamento para a minha equipe. Não oficialmente, é claro. Mas em uma base local, isso seria visto como uma ação extremamente não profissional e provavelmente acabaria com a sua carreira — mas conseguir suprimentos em missões era visto de outra forma. Totalmente contra os regulamentos. Mas esse era o lance com os homens que estavam no meu ramo: técnicos de munição — soldados do Esquadrão Antibombas —, nós éramos péssimos soldados, mas ótimos técnicos de munição. Nós pensávamos de forma bastante diferente da maioria dos soldados — fomos treinados especificamente para isso. Tínhamos que estar três passos na frente de todo o resto. Aprendíamos a analisar, a pensar. E isso nos tornava independentes — o que a maioria dos oficiais odiava. Éramos o oposto de pilotos de caça: eles saíam contando para todo mundo que eram pilotos e que a velocidade é a vida deles. Eu não contava para ninguém o que eu fazia e velocidade seria a nossa morte. Capitão Elderman aceitou a minha saudação rapidamente e fez um gesto para eu me sentasse. — Que merda hoje, hein, sargento. Não foi o seu melhor momento. — Não, senhor. Ele tinha visto tudo que tinha acontecido. Não havia necessidade para me desculpar. O capitão se recostou na cadeira, batendo no tampo da mesa marcada com uma caneta de plástico barata. — Recebi um pedido nada usual de alguém da sede da nossa divisão que acha que você é o homem certo para o trabalho. Lancei um olhar cauteloso para ele. Na minha experiência, um voluntário era alguém que não tinha entendido bem a pergunta. — Parece que nossos amigos do outro lado do oceano precisam da ajuda de alguém com suas habilidades específicas, ao que tudo indica. Para trabalhar com a equipe local do Esquadrão Antibombas — algum tipo de exercício de treinamento. Você precisa se apresentar à RAF

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Croughton amanhã. Parece que os ianques querem tanto você que estão mandando um avião para buscá-lo. Arrume suas coisas e esteja pronto às sete horas da manhã. Eu não estava esperando por isso — um exercício de treinamento com os militares americanos? Seria interessante: os americanos tinham uma pesada rotina de treinamento. Quinze anos antes, eles disseram que queriam se tornar o Esquadrão Antibombas de referência em dez anos, e talvez, em termos de equipamento, suporte, números e capacidade, eles tivessem tudo a favor deles. No exército britânico, nós treinávamos havia décadas aprendendo a neutralizar qualquer ameaça que o IRA, os rebeldes irlandeses, lançasse contra nós. Havia uma diferença de curva de aprendizagem para se inspirar. — Sim, senhor. Por quanto tempo ficarei fora? Ele franziu a testa e olhou para os documentos. — Não está especificado. Melhor esperar ficar longe por algumas semanas. — Sim, senhor. Peguei os documentos de convocação que ele me entregou e li enquanto seguia para o meu quarto. A convocação simplesmente informava onde e quando eu seria pego: nada sobre o exercício de treinamento, quanto tempo eu ficaria no exterior, o que eu faria e com qual regimento eu trabalharia, nem quem foi o solicitante da minha presença. O mais estranho é que a única informação era um endereço de e-mail encaminhado para um departamento do qual eu nunca tinha ouvido falar na sede de Londres. Ao que tudo indicava, Elderman não tinha recebido mais nenhuma informação além das que constavam no documento. Não era completamente estranho fazer exercícios com colegas do exército americano; eu já tinha treinado até com soldados de elite, os Navy Seals, e com equipes do Esquadrão Antibombas da infantaria naval dos Estados Unidos — mas isso era definitivamente diferente. Por um motivo, parecia que eu viajaria sozinho em vez de com a minha unidade. Além disso, não havia nenhuma informação dizendo para onde eu estava indo. Isso sem contar que a logística para esses tipos de exercícios conjuntos sempre levavam meses de planejamento. Eu já teria

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ouvido alguma coisa sobre isso antes de agora. Peguei o meu telefone e pesquisei no Google RAF Croughton: Royal Air Force Choughton fica na base aérea do 422º grupamento cuja função é servir como instalação de suporte, serviços, proteção e comunicações com todo o mundo cobrindo um amplo espectro de operações. O grupo fica no Reino Unido e tem o apoio da OTAN, do Comando Europeu dos Estados Unidos, do Comando Central dos Estados Unidos, do Comando de Operações Especiais da Aeronáutica, das operações do Departamento de Estado dos Estados Unidos e das operações do Ministério da Defesa. O grupo sustenta mais de 450 circuitos C2 e apoia 25% de todas as comunicações entre Europa e Estados Unidos (CONUS). Em outras palavras, coisa pesada. Havia uma história atrás dessa convocação, eu só não sabia qual era ainda. Porque parecia ser o tipo de coisa que geralmente seria feita pelas forças especiais. Mas desde que eu tinha sido jogado em uma unidade sem muito futuro depois do incidente do Afeganistão, essa era a minha chance de escapar para algo mais excitante — e possivelmente salvar a minha carreira. Então, não me restava mais nada a fazer, a não ser arrumar as malas. Como eu só estava em Wiltshire havia três semanas, eu não estava ainda à vontade ali e eu sempre viajava com pouca bagagem. Então isso não era um problema: mas onde guardar a minha motocicleta Ducati Sport 1000 era. Eu não confiava nem um pouco nos filhos da puta atrapalhados da transportadora, a Unidade de Logística da Coroa, de não danificá-la. Mas eu partiria em 12 horas e não tinha muitas opções. Decidi mandar uma mensagem de texto para meu colega Noddy, lembrando que ele me devia um favor e que deveria cuidar da minha moto até eu voltar. Ele concordou, mas também ameaçou dar umas voltas enquanto eu estivesse longe. Noddy tinha feito parte do meu pelotão, mas tinha

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deixado o exército cinco anos antes. Agora pesava mais de 130 quilos e tinha o equilíbrio de um hipopótamo; se ele tentasse dar uma volta com a minha moto, ele acabaria no hospital; e minha moto, no ferro-velho. Por um momento, pensei em mandar uma mensagem de texto para Vanessa, mas eu me lembrei de que a gente tinha terminado havia um mês porque ela não curtia esse lance de relacionamentos a distância. Ela odiava que eu fosse enviado para longe o tempo todo e reclamava, choramingava e resmungava sobre encontros cancelados, ausências em aniversários. Tinha reclamado um monte quando descobriu uma infestação de formigas na cozinha e eu não estava lá para resolver. O que será que ela achava que o exército era? Um acampamento de férias onde você poderia entrar e sair como bem lhe desse na telha? O exército era o meu lar — o único que eu já tinha tido, então, eu fazia o que me mandavam fazer — na maior parte do tempo — e ia para onde me mandavam ir. Tentei não pensar sobre o que eu ia fazer depois de servir meus 22 anos. Voltar para a vida civil aos quarenta era uma coisa que não me atraía nem um pouco. Alguns ficavam depois de terem servido o tempo completo, mas não muitas. Balancei a cabeça: eu ainda tinha 11 anos antes de ter que enfrentar aquele pesadelo. Eu me acomodei na cama dura e coloquei as mãos atrás da cabeça e me perguntei o que exército me reservava daquela vez.

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