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CAMILLO CASTELLO BRANCO

MARIA DA

ONTE

A PROPOSITO DOS

APONTAMENTOS PARA A HISTORIA DA REVOLUÇÃO DO MINHO EM 1846 PUBLIC.\DOS RECENTEMENTE PELO REVERENDO

‘PA D1<fr C14SLWI’kO CELEBRADO CHEFE DA JNSUBREfCjO POPULAR

PORTO LiVRARIA CIVILISA’CAO DE

EDUARDO DA COSTA SANTOS —EDITOR 1

$85


‘DISCURSO TROEMIAL.

e.

Pcrto—Typ. Occidental, rua da Fabrica, 66

,~

~ ~UANDO eu abria as paginas d’este livro sinrular do snr. PA occorreram-me

~ DRE CASIMIRo,

•~~fr4~’

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dois versos de G~tl~e, filtrados pela glote melhflua do visconde •-J •1I ue ~astiino. (_‘

a apparecer. entes imaginarias, que me enchieis outrora os olhos l’iSloflarios. (i)

Sentia-me remoçar; o sol da juventude a dissolver gêlos sobrepostos de mais de —

(x) FAUSTO, ‘Prologo do andor.


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MARIA DA FONTE

meio seculo. A primavera dos desenove an nos a reflorir violetas, redoiças de trepadei ras e froixeis de folhagem veludosa para os ninhos das aves hilariantes. O coração a en cher-se-me de cores, de aromas, de musi cas, de fórmas e ideaes que eu tinha esque cido. Uma consolação ineifavel como deve ser a do asfixiado que, salve á morte, de subito, sorve, a peito cheio, haustos redem ptores de oxigenio. Em fim, a ressurreição da memoria das coisas boas, dos sentimen— tos alegres—memoria apagada no frontal de um craneo vasio como um velho jazigo com as lettras do epitaphio obliteradas. Esta tafularia de rhetorica só pode apre— cial-a um velho que haja sido môço, quando a Historia passava por esta nêsga da Euro pa evolucionando os casos que padre Casi miro José Vieira condensou no seu livro. E é preciso, de mais a mais, que esse velho seja infeliz e sinta a saudade atroz, sem des afôgo e sem remedio, da sua mocidade. Por

MAlHA DA FONTE

~q~ianto, se a revolução do Minho lhe fôr a --tecord ação horrente de uma epoca sinistra em que as notas de dez pintos se desconta:-yam ominosamente com 15 tostoens ‘/2 de

~p.êrda; as Inscripçoens a 32; a Espanha a -Cem prestar-nos tres milhoens a 43 com com ~missão de 2 ~/2 se elie recorda com mo ~*irnentos peristalticos dos seus intestinos baixos os toques a rebate nas torresenos • .q~Üarteis, o leva-ai-riba canibalêsco das cazer nã~ e das montanhas, os clarins estridulos -dos esquadroens com as espadas fluas, as • in~asdens do José Passos aos Bancos, os .000 proletarios do PADRE CAsIMIRo cc de ~f~nsor das cinco chagas e general das duas pr&~’incias~ do norte)) em redor de Braga a ~i1~lárem por D Miguel i, a pandega civica d’~s artistas e colarejas ~pelas ruas das cida • des guinchando a Liiizjnha, os pianos com u~n~a dysentheria democràtica patuleando e:m.-farnilia o hymno do Antas e da Maria da —

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onte; os matadouros de Valpassos. Agrel—


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)IiIilA UA FONTI:

la, de Braga, de Torres Vedras, do Alto do Viso,—se estas remeniscencjas assustam a sua memoria de capitalista pacato, pondo— lhe no seu interior colicas de futuras crizes semelhantes, não leia. Ah! não leia este li vro o velho que, ha quarenta annos, soifreu desfalques nas suas notas de moeda, la droeiras patrioticas nas suas acções banca rias, nas emissoens diabeticas de bonds, abo letamentos das legioens da Junta Suprema, ameaças á natureza do seu pbysico, e talvez ~ posse legitimamente canonica da sua es posa um pouco desviada da ((linha da boa conducta» por suggestoens do batalhão aca demico ou dos officiaes do Concha, todos descendentes de D. Juan de Marafia. Ah! não leia. Para que a MARIA DA FONTE seja uma la grimosa mira~gem de saudades é preciso ter sido o que eu era—não ter possuido no tas, nem valores bancarios, nem aboleta aos, nem familia de E/viras sujeitas ao ibe

i~1AaIA DA FONTE

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~r4smo lubrico das hordas castelhanas da qua ~rupla alliança. Assim, nestas condiçoens e~p~ciaes, comprehende-se que eu, ao ler o ipdice das 458 paginas do extraordinario li vró do PADRE CASIMIRO, proferisse a sauda ç.ão. de G~the ás reapparecidas imagens da suâ mocidade:

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Toniai-;ne a apparecer entes, imaginarios, que me ench leis oziti-ora os olhos ~isionariog.

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~Ha cinco annos, pernoitou n’esta casa de S. Miguel de Seide um clerigo de variadis sima sciencia, d’um trabalho indefesso no serviço da religião; e, na flor dos annos, pu jante de seiva para luctar, barba por barba, com os athletas do estylo e da zombaria voltaireana. Era o padre Senna Freitas o meu querido e inesperado hospede.


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MARIA DA FONTE

As antigas e as modernas sciencias—as novas que vão solapando as velhas pelos alicerces—tudo o que a Inglaterra de Shaf tesbury e Toland enxertou na França de Bayle e Montesquieu, e a Aliemanha joei rou desde Luthero até Von Hartniann, o padre Senna Freitas sabe tudo isso, hau riu-o nos rnananciaes torvos e cristalinos, puros e impuros, nas livrarias profanas, nos cursos publicos de Londres, de Roma, de Paris. Ouviu preleccionar sobre o transfor misnio darwinista, Saturou-se de biologia e anthropologia para não desconhecer os fios mais delgados da urdidura lamarckista, des piu-se da preoccupação da batina para que a luz da sciencia lhe batesse em cheio no peito de homem, e chegou á conclusão re frigerante de que o leitor benigno não é a transformação organica e psycologica de um anthropopitheco—urna qualquer besta ex tincta e por isso incognita. Corno natura lista, pois, Senna Freitas está com Wirchou,

MARIA DA FONTE

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um sabiQ dé reputação imminentissima, como sabem. Cuidavam os senhores, tal vez, que eu ia dizer que Senna Freitas es tava com os padres Grainha e Marnôco? Não’ sei isso, com certeza, quanto ao Sylla

bus; mas’ o averiguado é que elle estuda e

sabe tudo quanto a Natureza de Lucrecio

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destiliada nos alambiques da chimica, e gra • :nulada em miudezas de sciencia pode ensi nar e phosphorear na massa cerebral. E a exuberancia do que apprcndeu é tamanha ‘:que o padre Senna Freitas está convencido (deque ha Deus e que a alma é irnmortal. ~E, n’esta persuasão, veio elie do coliegio de Santa Quiteria, onde exercia o niagiste rio, a S. Miguel de Seide, seis legoas decor • r.idas, por que lhe constára que eu adoccára ~eri~osamente. Viera deitar uma delicada són’da’ ás profundezas do meu panthcismo deSpinósa, accender uma lampada deante • da minha lugubre e chagada esculptura de -Jesih’s Christo crucificado, levantar essa Iam-


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DA PONTE

MADIA DA FONTE

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pada entre a minha alma amaurotica e a treva que me é na vida o preludio da treva eterna, e mostrar-me, além na penumbra, duas veredas a bifurcarem—se, uma para Deus, outra para o Diabo— que, afina], se abotôa com 75 por cento, pelo menos, das almas das varias christandades; e quanto ao resto da especie humana, que está fóra da religião verdadeira, é tudo a eito. • O meu adoravel amigo, com um sincero jubilo por se haver enganado quanto á mi nha doença mortal e por me achar a es crever e a grangear a minha immortalidade por meio da costaneira barata e canéta de porco—espinho sentou-se á beira desta meza de trabalho. —

Palestramos muito. Contei-lhe episodios da minha mocidade, as minhas predilec çoens politicas aos desenove annos. Disselhe que eu tinha sido miguelista e afiveilára esporas de cavaileiro (umas esporas de cor reia, de 12 vintens, por signal) na legião

formidavelmente estupida do general escos • sez Reinaldo Macdonell. Failando-se em ~vCai-ia da Fonte, não podia esquecer o len dano padre CASIMIRO, general defensor das cinco chagas.

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—Conheço-o muito bem—disse Senna Freitas. —Conhece, quem? o padre Casimiro?de tradicçãoou pessoalmente? —Pessoalmente Vio-o ha dois dias. ~•

—Pois elie ainda vive? Está assim vivo ~obscuro um homem que acaudilhou trinta mil homens e abalou duas vezes o throno! Q~ue ingratidão a d’ëste paiz que elie arran c~uás garras dos Cabraes! Acaso é elie bis pô, patriarcha; ou Commissarjo geral da • ~1la da sancta cruzada? Foi a Regeneração, filba sacrilega da Maria da Fonte e do co n~go Montalverne, que o galardoou? Di g~me tudo o que souber d’esse homem que .e~.juJgava morto, n’um silencio mythico, n’içna~ especie de transfiguração de Çakia


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MAaIA DA FONTE D~ FONTE

Muni ou de Apolonio de Tyane, desde que executou a façanha herculea de limpar de cabralistas esta cavalhariça de Augias! No meu espanto, parece-me que ainda fui mais erudito; mas não me lembra o resto da apostrophe. Não era nada na escala das grandezas ci vicas, nem na hierarchia sacerdotal, o padre Casimiro—informou Senna Freitas. Ia pai liando a velhice com o estipendio da sua missa e do ritual das festividades baratas. Não era nada mundanamente faliando! Assim devia ser n’esta Byzancio do occi dente. Na oütra, o general Belizario, depois de exterminar os godos, vivia de esmolas do publico. Aqui, o general Casimiro, tendo expulsado da Lusitania os Cabraes, quinta essencia de godos, vive da esmola da missa. Um seu coliega, outro levita, caudilho tam bem de guerrilhas transmontanas escrevia pamphletos incendiarios no Porto quando o presbytero minhoto vibrava o bronze dos

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campanarios. Um chegou a conego, a bispo, •a ministro do reino; e o outro, Cincinnato á força e romano antigo quanto se pode ser no concelho de Fe]gueita~, está em Marga ride a plantar couves galiegas e a podar as parreiras do seu quintal! Como elie desceu, n’um enxurro de cala rn.idades, desde os penhascos de Vieira, sua tèrra natal, até Felgueiras, é isso uma secção • i~porta.nte dos APONTAMENTOS. A curio sidade.do leitor malograr-seja, se eu apou casse em breves periodos algidos, sem as pulsações febris da paixão auto-biograpilica as muitas paginas que o reverendo sacer d~t~ realça com a odyssea da sua corajosa desgraça e honrada teimosia de caracter p0P’ti~o. Pelo transcurso d’este estudo, raras ve-zes trasladarei o que deve ser apreciado no’ livro que me vae esj~ertando lembran ç-as~e;:notici~~ aproveitaveis para encher es pa,ç-os:vasjos e dignos de serem enviados á pesteiidade com a plenitude possivel. O


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~MAHIA DA FONT1~ -

d’elie e o meu são dois livros que se com pletam. Da existencia do manuscripto d’esta obra me faliára o meu amigo Senna Freitas. Pe di-lhe que incitasse o padre a publical-o, ou, pelo menos, m’o confiasse por alguns dias. Pude obtel-o. Como prefacio á sua obra, o snr. padre Casimiro José Vieira publicou parte de uma correspondencja que troca mos, respectivamente ao merito das suas mernorias, escriptas sem desvanecimento, com quanto, urna vez por outra, n’elias transluza o amor-proprio immodesto de Cesar nos Coininentarios, de Chateaubriand nas .9~Ceiizorias, e de Larnartine na Historia da Revolução de 48. Não achei então que aproveitar na con textura de um romance que eu andava ~sbo çando a ‘Bra~jleira de ‘Prazjns; mas colhi sensaçoens incomparavelmente mais delei tosas. Os factos d’aquelia epoca attrahiam-me —

MAR{A DA FONTE

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péla magia da saudade. Havia um resurgi ~nento de mbrtos, o grupo d~s meus ~anii a rea~parecer, como visualidades adora d~a~ de G~the, com a vida palpitante de ha .trinta e oito annos. Tudo me lembra, como ~ a~oz um dormir de Epimenides, acor dá~se hoje em 1846. Era eu quem de pé, ~ob~e o balcão do Zé-da-SoIa, ëm Villa Real, um logista de cabedaes de bezerro e vacca, muito legitimista, declamava empha t~icarnente e com os gestos mais violentos as proclamaçoens do padre Casimiro es .ta~padas no Periodico dos ‘Pobres, e a carta, r.ica de. conselhos em arte de reinar, dignos d~Fénelon, enviada pelo correio á senhora ]~. Maria u. Era uma carta convulcionada deprophecias tragicas, ás quaes eu dava toa da~ ft~nereas, expediçoens gutturaes como diz Renan, valha a verdade, que faziam Eze c-hieL’e’Habacuc. A turba que me escutava, oda orelhas, trovoava urros de um vanda lisaio, que sobrepujava as minhas cordas vo


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MARIA DA FONTE

caes. Havia cabeças de granito que chora v~m como os~penedos biblicos; e velhqs bachareis formados, antigos juizes de fóra, com o simonte engatilhado aos narizes ,e as mandibulas n’um prolapso de espanto, disiam Grande homem é o padre! é o 2.0 José Agostinho de Macedo! —

E eu, i~a qualidade de declamador corre cto; prosodico e múitomimico, attribuia me um~quinhão d’aquelias ovaçoens, muito menos explosivas quando o leitor era An tonio Tiburcio., o méu amigo de infancia que rhorreu ha muito, depois de ter gover •iiado o districto muitos annos, manten 1o-se, com um grande tino, na media, entre a Republica e o Absolutismo. Havia senhóras realistas, filhas de capi tães-mores, de desembargadores, de briga ~eiros e morgados em decomposição, ‘ás quaes eu lia as peças do «General cÍas cinco chagas». Em algumas cazas brazdnadas ac cendiam-se castiçaes com hobeches de pa

MARIA DA FONrE

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~el.verde nos oratorios de talha dourada, e ~fa~iarn-se preces votivas, bastante caras, a ~tios sanetos muito anteriores á formação dó- regimen parlamentar, e por isso talvez ‘~!i~differeij’tes á revolução de 1820 e á poli ti~a•de Vilia Real. De permeio com as jacu latorias, bebia-se muita geropiga capitosa por meio da etherisação alcoolièa, dar ~a1Ôr aos voadouros .da esperança. lQue noites de alegria doida n’aquelie in v’erno de 1846! ~ Eutinha~um tio analphabeto a quem opa dre~ ‘doutor Candido Rodrigues Alvares de Figueiredo ~Lima, logar-tenente do snr. D. Miguel x,promettera nomear corregedor da c~1~rca, logo que se desse o gritp em Tras es-môntes Ah! eu ainda me deliciei a ouvir giito e o R~ei-chegon; mas os sanctos, do m~~icos das familias heraldicas, cahiram em um descredito politico que não ha fusão pos s~vel que os rehabilite no meu conceito e no d’a~uellas familias bigodeadas e scepticas.


MARIA DA PONTE

Mas que saudades! que relances de olhos marejados, no discurso da leitura d’este livro do snr. padre Casimiro, eu lançarei áqueile horisonte esvaecido para ver a mi nha sombra perpassar por entre os cypres taes onde se esfarelam os ossos de tanta gente querida que me levou para o seu po dredoiro o melhor que eu tive—a minha tão curta mocidade! Ah! Torna i—me a appa recer, entes imagina rios, que me enchieis outrora os olhos iisionarios. S. Miguel de Seide,

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de Novembro de 1884.

PARTE PRIMEIRA MARIAS DA FONTE

a personi ficação fantastica de uma colie ctividade de amazonas de ta mancos, ou realmente existiu, em corpo e fouce roçadou~a~ urna virago revolucionaria com aqueile nome e appellido? E o que vamos esmiuçar. Mas, em parenthesis: acho que faltam condiçoens epicas n’este periodo que acabei de immortalisar e exhibirá poste ridade. Ao tratar das heroinas darevolução 01 A MARIA DA FONTE


MARIA DA FONTE

MARÍA DA FONTE

naciànal de i~46, o meu estylo é lapan tanamente grutesco. De mais a m~.is, con funde-me a presença de uni brinde impresso, proferido então pelo maior orador que deu Portugal, João Bap’tista de’ A~ Garrett, em pm jantar offerecido aos proscriptos, repa~ triados pela porta que as fouces das mulheres de Lanhoso e’Vieira estilhaçaram. Gar rett exclamava: cc. Muitas nações grandes e populosas terão de morrer sem deixar her deiro do seu nome, nem legatario das suas obrigaçoens. na terra. Mas nós i~ão podemos morrer; não devemos morrer, em quanto, entre nós houver homens como ha’ pouco se manifestaram; muito menos ainda• em quanto entre nós houver mulheres como’ agora as vimos, (Muitos appoiados) como’ essas que ha pouco surgiram no norte de Portugal, renovando todas as glorias que pareciam fabuladas, de Aljubarrota, de Diu e de Chaul. Senhores, ‘nós acabamos de presencear uma grande revolução, uma re .

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‘~1ução que tem (perdoe-se-me repisal-o) ‘q~le;.tem’, além de todos os outros caracte -r~es,bri1hantes, o magnifico, o transcendente ~cter de ser verdadeiramente popular, • ‘~o,,r que começou pelas mulheres. (Apoia dç~).’ Quasi que’ ainda não houve uma re ~v.ol~ição verdadeiramente grande, verda dç~i~?arnente nacional que assim não come •~~se, desde expulsão dos Tarquinios até h@j~. ..» (i) eu assistisse ao civico banquete—onde pi:esença das senhoras, como diz Gomes’ d~Arnorim, explicava ~ frição que deu o poeta á ~ii~te,’~do seu discurso—applaudiria a gritos ~aj~na essas phrases eruditas e encomiasti c-as~das mulheres viris do Minho, até para en~v~rgonhar os homens afeminados de Lis bøa;porém, todo meu enthusiasmo esfriaria n’um~ sorriso zombeteiro das grandes mu -~e~ e dos grandes oradores, quando vi, ‘~‘>GARRETT: Memorias biographicas por Fran— ciscd Goh’~es de Amorim, tomo III, pag. 200 e segg.


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MAMA DA FONTE MAmA DA PONTE

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em junho de 1$49, o snr. conde de Tho mar no ministerjo e os obreiros dinheiro sos da revolução do Minho compeilidos, em 1851, a comprar sargentos e soldados do i8 de infanterja. Os vencedores eram os crusados novos d’alguns burguezes da ci dade heroica, distribuidos por Salvador França no quartel de Santo Ovidio, onde o alliciador penetrára com chaves falsas for jadas por Victorino Damasio na fabrica do Bulhão. O exterminio do cabraljsmo não promanou da revolução do povo; foi da in disciplina militar. As balas que prostraram cadaver o coronel Cardoso pesaram mais na balança da politica portugueza que os se tenta e sete milhoens desfalcados no capital do paiz com a guerra civil de 46 e 4~. De pois, bem sabem, a espada do Saldanha tambem pesava mais que a de Brenno, quando o ouro se levantava na outra con cha da balança. O conde de Thomar ne goceara-o indirectamente em 46 para a em-

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bbscad~i de 6 de outubro, e vae elie depois prn 1851... Ora esta! cuidei que estava ~agora a compor iSm artigo para um jornal ‘~‘~ctico de ha trinta annos!... Está fe 7ehado o parenthesis.

*

~Sobre a personalidade unica, singular e ~1istjncta de Maria da Fonte entre as mu .1heres amotinadas no concelho de Vieira, ø depoimento do snr. padre Casimiro deve ~ser:o primeiro n’este processo de investi .~ação :• Refere o minucioso historiador que um ~p~teiro de Simães, da freguezia de Fonte Arc~da, o avisára de que lhe maquinavam a ~rte; e, na mesma occasião, se mostrára eeëosô de que lhe matassem sua irman M~a”Angelina, a quem chamavam ~Caria da ~oii~e; e fôra processada e pronunciada n~s tumultos da Povoa de Lanhoso. Per-.


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MARIA DA FONTE

guntou-lhe padre Casimiro o que fizera dia para ganhar tal nome.—Nada, respondeu o sapateiro; apenas acompanhára as outras mulheres que arrombaram a cadeia da Po voa para soltar as pr~zas que primeiramente se levantaram contra a Junta de Saude. In sistiu o padre em querer saber a causa por que a distinguiam das Outras. Explicou o artista que Maria Angelina se estremava das mais por estar vestida de vermelho; e, por isso, o empregado, que fizera a lista das amotinadas, a pozêra na cabeça do rol, com tal nome, por não lh’o querer dizer alguem que elIe interrogára. Perguntou o padre Ca simiro se havia alguma jante á beira da casa de Maria. Que não. Chamavam-lhe da Fonte por ser da freguezia de Fonte Arcada. O in terrogador ficou satisfeito, acreditou e feli citou o sapateiro por sua irman ter conse guido nomeada tão distincta. E, passados mezes, indo ver a Maria da Fonte, encontrou urna mulher trigueira, de

MARIA DA FONTE

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~làtura mediana, desembaraçada, robusta, • e’n~re vinte e trinta annos. ~D’ahi a poucb, terminada a revolução • j~i~movida pelos setembristas, urna do ~iPa~ de Valbom, nas visinhanças de La n1hb~o, andava pelas feiras e romarias incul c-~do-se a ~Caria da Fonte. Padre Casimiro, e~t:ranhando naturalmente o duplicado, pe d~& informaçoens ao abbade de 5. Gens de @al:vos, parocho e visinho da doceira. O ~h~ade confirmou ser elia a celebre Maria da~Fonte. Não obstante, o nosso auctor, sem apoucar os serviços da doceira—pelo ~ntrario, os encarece—entende que a ver dadeira é a de Simães, por ser de Fonte Ar ~da é.não a outra, visto que o nome lhe nãb foi dado por ter prestado maiores servi ~ aliás de direito lhe pertenceria. Acres centa ~ó monographo da revolução de 46 que Maiia Angelina ou da Fonte, morrera, an’nos depois, em Vilia Nova de Famalicão ou.po~.ali perto.


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MARIA DA FONTE •

Quanto ao obito de Maria Angelina foi o snr. padre Casimiro incorrectamente in formado. E’ certo ter vivido e morrido em Farnalicão uma endiabrada mulher, voIte~ra e espancadora a quem chamaram .9vCaria da Fonte por analogia de bravura com a faça nbosa revolucionaria do Alto Minho. Em diferentes terras do paiz se chamaram an thononiastjcamente ~vCarias da Fonte as mu lheres valentes e decididas.

~IABI~ DA FONTÉ

rpêit~ivel fidalgo. É textualm~nte s~a a re~ dá~ão circumspecta e redondamente ~phra~ dà da biographia da mu1h~r de infima ~oi~d~ção cujo nome ficou perpetuado n’um levantamento nacional, e s~ leu estampado c~oi~Í assombro nos periodicos do velho e novo mundo. Na exposlçao que vae ler-se h~&n~éndres que não expungi. Quem o~ ‘r~i~ta. desapaixonadamente assistiu á irriso via iniciativa da revolução, e os jornaes da é-poca desconheceramos

*

Outro testemunho importante de um coevo e visinho das mulheres iniciadoras da revolução. Quem depõe é José Joaquim de Ferreira de Meilo e Andrade, senhor da casa da Agra, na Povoa de Lanhoso, faile cido em novembro de i88i, com idade ex cedente a oitenta annos. Desde 1874 que conservo com muita estimação as notas ve ridicas que recebi directamente d’aqueile

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MARIA DA FONTE ;i

(1846)

k~a~adrugada de

de junho de 1882, Je~fã Antunes que morava em uma casi nha~s~brancejra á fonte do Vido (i) no lo )

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~H~via junto á fonte um antigo vidoeiro (Bel ulia um raio espedacou no meado cio seculo XVIII, d’onie de~va o nome[

alva

•i~


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~il

MARIA DA FONTF

gar do Barreiro, da freguezia de Font’arcada, levantou-se da cama, vestiu-se e correu pressurosa á fonte para colher agúa de S. João, antes do sol nado, por que, dizia, era agua de muito prestimo para todos os achaques. Ao aproximar-se, ficou surprendida, ven do á beira da fonte um embrulho de ba~tas sobre uma pedra. Pegou no embrulho; e, parecendo-lhe que encerrava cousa viva, voltou com elie para casa; e, passando a examinal-o, achou uma menina recem-nas cida e muito vividoura. Applicou’lhe logo os peitos (por que lhe tinha niorrido, dia~ antes, uma criança); a menina mamou e adormeceu. Sem lhe lembrar mais a agua milag~osa, preparou-se e partiu com a menina para a Povoa. Apresentou-se ao rodeiro, e este, depois de a examinar, disse-lhe que seria bom leval-a á egreja para receber o sacra mento do baptismo, para o que se offereccu

MARIA DA F’ONTE

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•1-

J~osefa Antunes. O rodeiro então, lançando i~ãb do capote, e mais a ama, marcharam •~on-i a menina para a egreja de Font’arcada. ao preparar a criança, para receber o sa cnari~1ento, acharam-lhe, cosido na fralda da ~ah-iisinha, um bilhete que continha a se ~ copia: Eis-me exposta junto d lympha £.

L

que aqui fiara deste monte. Serei delia a clara nympha, Serei ~iam ia da Fonte.

O parocho riu-se muito, riram todos, e a criança baptisou-se com o nome de ~Cai-ia dw Fonte; e, depois de lavrado assim o ter mo, voltaram ambos. para a Povoa. ‘Facil foi a Josefa Antunes obter aquelia c~~sta para creação; por isso depois do ro ~de~r.o fazer o assento do estio, por-lhe o ~ui~nero ~io pescoço, e dia receber d’elie o oval do costume, voltou para a Fonte do~.Vido, muito satisfeita por tao depressa


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11 UUA D~. FONTE MARIA DA FONTE

achar um unitivo que lhe mitigava as sau dades do seu menino que pouco antes havia perdido. Nenhuma ama houve que maior affeição creasse á sua pupilia, pois queria-lhe tanto como ao proprio filho; mas este excessivo amor foi a perdição d’a-~ queila rapariga. Já o tempo da lactação tinha passado e a criança medrava a olhos vista, sempre sa dia, rubicunda e travêssa. A ama a quem elia chamava mãe olhava-a com a maior complacencia como se n’dia se lhe encer rassem todas as riquezas do mundo; mas descurava totalmente de a educar. Em 1828, quando se consummara a uzur pação, cantava já a fanfarra do Rei-Chegou com taes arrebiques que attrahia a attenção dos ouvintes; e não faltava quem por isso lhe dava alguns cobres que imrnediatamentc ia gastar em vinho nas vendas do Cruzeiro, recolhendo-se sempre embriagada. A ama sabia tudo, mas não se dava por achada.

~

Êm

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1830 áinda ignorava a doutrina chris

t~iiE~ e não sabia pegar na roca; mas pro fe~ia palavras obscenas; luctava com os ra p~~s da Sua idade, e, quando ós levava de bdixo, a mãe adoptiva ria que se conso e, se lhe trazia alguma fructa ou le .nhà das propriedades dos visinhos, limi ta~a-se a perguntar4~~ se lá ficou ainda mai~; Em 1840 havia chegado ao seu perfeito d~s~n~vo1vjmento Não era baixa, mas re feii~, madeixa comprida e bem povoada de ~ab~1los’ pretos olhos, sobrancelhas e pes tai~ms negros; mas estas arcadas e salientes; ‘ar~i~ direito de azas folgadas; bocca breve e sèrn riso; rosto afogueado e redondo; vistà fir~e; voz algum tanto varonil, fdrte e San~ temperamemito irascivel; trato gros seiro; teimosa e rispida nas respostas. Sup punMj-se invulneravel, e~. assim afugentava os admiradores e lisongeiros; mas uma re veré~dá niejjurja venceu todos esses redu 3


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MARIA DA FONTE.

MARIA DA FONTE

ctos, e, no fim de nove mezes, a roda dos expostos deu mais uma volta. Por este tempo Josefa Antunes, sendo atacada de uma febre escarlatina, em menos de treze dias rendeu a alma aô Creador; e Maria da Fonte, ou por conselho alheio ou por deliberação propria, alugou uma pe~ quena caza na mesma freguezia, sita no lo gar de Vai-Bom e transferiu-se para elia com todos os haveres que lhe ficaram da sua mãe adoptiva que a levou para a sepul tura, como se costuma dizer em taes casos,~ atravessada no coração: tanto era o amor que lhe tinha (i) N’esse tempo foi que os missionarios (prosegue o meu informador), como se:. estiveramos nos sertoens da America, ou não houvesse parochos nem confessores, No manuscripto de Ferreira de Meilo segue a no ticia do fingido D. Miguel 1, preso na residencia do abbad~ de S. Gens. Este episodio faz parte do romance intitulado A BRAZILEIRA DE PRAZINS. (i)

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pr.incipiaram a cruzar por estes sitios, quaes andorinhas em maio, sobre os verdes linha• ~ ao avisinhar-se a trovoada. Maria da • Fonte começou a seguil-os por toda a parte, e~,a roda dos expostos deu mais duas vol tas.. apezar de elia se vestir de roxo e preto, despojar-se dos seus beilos cabeilos, ‘~4eixando a classica marrafa, cortada hori— ~onta1mente duas linhas acima das suas arqueadas sobrancelhas. Era este o decan tado uniforme da milicia d’aquelies senho res que por aqui recrutaram a mãos largas,

-

..

distinguindo-se assim dos mais fieis, prin cipalmente dentro das egrejas, onde se asestavam sobre as sepulturas, com as testas pousadas nos taburnos e as garupas alçadas para o ar... como obuzes; ou agrupando-se arrebanhadas no cucuruto da egreja, sol tando uma ou outra, de quando em ~juando, em voz irrtelligivel e de cabeça torta, o terno gemido: ai meu Jesi~s! Tudo isto se presen. ciava e Maria da Fonte sobresabja a toda~.


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MARIA DA FONTE MARIA DA PONTE

Os confessionarjos não creavam têas d’ara nha, nem ferrugem as chaves dos sacrariás. Versinhos e jaculatorias não faltavam: tudo santidades e um ceo coberto. Começára o anno de 1846 docemente re clinado nos fagueiros braços da maisbonan çosa~ paz. A agricultura prosperava, o com mercio desenvo1via-~e, as artes floresciam, o credito publico augmentava, a viação come çava os seus primeiros ensaios e as con tribuições não escaldavam. Mas o surdo mu gir do touro do Minho, com quanto mal percebido, ouvia-se por toda a parte sem se saber da sua guarida: é que o incommoda vam sonhadas visoens no antro do seu re pouso. O prurido da desconfiança princi piava a inquietal-o; e o ha]ito corrosivo, manando clandestinamente dos bons dos ministros da paz para os ouvidos das filhas de Sião, estas infecciónavarn o ar que o touro, niugindo, aspirava. Por isso, viu-se em março na freguezia de Garfe onde tinha

?

-...

~stado o apostolo de Leiria, (i) uma nu Ve~ de baccha~tes, todas de marrafa como

à~dbs leigos da ordem benedictina, arrepa um esquife e Çonduzji-o á egreja dan do~lhe sepultura entre risadas e motejos, na p~s~nça do Deus vivo, alli sacr~imentado! A~uthorjdade deu logo parte do sacrilegio, ~ pediu providencias, pediu for~a armada; (x) Quem fosse este ~ apostojo de Leiria » illucjda em~outra pagina das suas notas Ferreira de Meilo e An— 4~ade, ao.dar noticia do D. d7~1igue1 1 que enganou o ab baae de Calvos, (Bra~ife ira de Pra~insJ e prosegue :cNáo tardou muito que apparecesse na freguezia de Gar— •fe;~do concelho de Lanhoso, Outro individuo desconhecido apparentando quarenta e tantos annos de idade, com seu ~cãpote de panno azul forrado de vermelho, fard~ta, calça ç colête dd mesma côi~ e fazenda, chap~o grosso de copa ,altã’e larga, butes de attanado, cabelios pretos um tanto :grisalhos, rosto trigueiro e oval, barba feita, nariz regular e s~mb1ante abeatado. Não era baixo nem alto; failava

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e pauzado; mas sempre com reticencias e myste— ri6~A1jj se recolheu na casa de um lavrador, onde per— ~~neceu encerrado alguns dias occupancj~se na leitura de livros mysticos, e de noite, em cathequisar, a seu modo, a f~nilÏa em volta da lareira. E declarou que mais onze


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MARJA DA FONTE

mas nem resposta obteve. Era a repetição de que pouco antes se havia praticado na freguezia Travassós, no concelhb de Gui rnarães, com os enterramentos. Nos primei ros dias de abril repetiu-se egual profanação na freguezia de Font’arcada; mas debalde a authoridade participou ~ao governador ci-

MARIA DA FONTE

vil. Quasi no fim d’este mez, no logar de .Simães, frèguezia onde o halito da corru ..;~ção mais tinha penetrado, e a dourada • .~nuvem de Londres havia assombrado um ‘pouco, estreou-se nova companhia de bac ~ ~ihantes, como se vae ver com pormeno •‘..jres.’ (i)

:

como elle tinham partido de Leiria, sua patria, e se espa lharam por outras partes, para annunciar a palavra de Jesus Christo. Que lhe não convinha mostrar-se, por que se arriscava a ser martyrisado, embora o desejasse; mas que ainda não era chegada a sua hora. De tal sorte se fez acreditar perante aquella gente boçal que já o tinham em conta de grande ~ancto, pois por onde passava dei xava tudo fanatisado. Assim discorria pelas melhores ca sas; até que, tendo noticia d’isto a authoridade adminis trativa, o mandou vir prezo á sua presença, onde deu identicas respostas, acrescentando que vinha em nome de Deus cumprir sua missão, e que para elie as prisoens abriam suas portas de par em par; pelo que, nada receava. Mandou-o o administrador para o governo civil, mas ahi foi posto em liberdade; e, passados poucos dias, voltou a Garfe, e de lá passou a outras freguezias, continuando sempre as mesmas praticas, até que sahiu a campo o tu multo dos enterros, e então desappareceu.»

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Àchava-se depositada na capelia do logar em ataúde fechado sobre eça enluctada de ~ãrepes urna defunta de familia honesta. Chegou a hora de ser transferida para a ~greja parochial com acompanhamento de pessoas que alli tinham concorrido tanto para desanojar os doridos como para acom • p~tnhar á ultima morada os restos mortaes d’aquella finada. Já o parocho se achava • paramentado, já responsava a defunta e (x)

c4 dourada nuvem de Londres é a herança de aI—

gumas centenas de contos que levantaram á opulencia ai— guris jornaleiros, resvalados depois á miseria e ao latroci— no. O romance ‘Demonjo do ouro foi urdido com os - apontamentos de Ferreira de Meilo.

~‘


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I~1ARIA DA FONTE MARIA DA FONTE

levantava o memento, já ondeavam as alve jantes sobrepelises, repartiam-se as tochas accesas, e hasteava-se á porta da capeila a cruz da redempção, qqando, de repente, apparecem quatro bacchantes, de cabelios cortados e amarrafados na testa debaixo de lenços brancos atados na nuca, em mangas de camisa, saias pelos joelhos, presas nas cinturas e descalças. Entram na capelia, ar rebatam o ataúde, põem-no aos hombros e caminham a passo dobrado para a egreja, indo á frente a Maria da Fonte com a cruz alçada, e uma hórda de Amazonas rodean .do o caixão, umas de chuços, outras de fer rélhas e pás de infornar, muitas com chou pas e sacholas, algumas com forcados e espétos, e até uma com uma colher de fer TO amassada, formando duas pontas com que ameaçava arrancar os olhos de quem se lhe pozesse deante. Apoz d’este prestito burlesco, foi-se aba lando em seguida o parocho, o clero, e no

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•couce d’este os concorrentes, muitos sem surpreza d’esta novidade, que até parecia á ~rnaior. parte d’elies muito honesta e impor• ~ante e para bem de todos, por que já o ha ~ito pestifero lhes tinha eivadas as cabeças. i No meio do transito, as bacchantes levan •‘tararn vivas, e seguiram até entrarem na ~egreja da parochia. Elias mesmas enxotaram do interior sem excepção o sexo masculino, • pondo guardas ás portas armadas de chou •pas e forcados; e, depois de coliocarem o ataude sobre a eça, levantaram o taburno de uma sepultura, despejaram-a, extrahindo os iestós das ossadas com a terra, desceram nõvamente o ataude ao fundo d’aquelia se ~ul~ura, reenchendo-a de novo com a mes .materra e fragmentos humanos; e, depois d~i1he assentarem o taburno, bateram paI ~ deram vivas á religião e ás leis velhas, ~norras ás leis novas, levantaram as guardas ckrain-se ei~bora. Ninguem aIIi foi testemunha d’isto senão


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MARIA DA FONTE MARIA DA FOr~TE

o Sacramento e as~sagradas imagens dos al tares, e mesmo uns olhos que ficaram es condidos por detraz.da tribuna do altar-mór, que desgraçadQs seriam, se fossem lobriga 4os p.elos’olhos que se aninhavam de1~aixo das marrafas’ beatas d’aquelia sucia. S~ en tão é que entraram, na egreja o’ parocho, o clero e os seculares em” lirnitadb numero, por que o mais d’elies tinha retirado. Se guiu-se.a missa e o officio do corpo pi-~scnte, posto que o corpo já estivesse sumido seis pãlmos debaixo da terra. E, .a final, rece bendo o clero a’.colação e a esmola costu mada, tambem retirou. ‘A authoridade .administrativa deu logó’ parte de tudo por expresso ao governo ci vil pedindo pela terceira vez alguma força; mas nada de novo. Limitou-se então a rnai’i dar prender Maria da.F,onte e algumás ou-’ tras Amazonas que se tornaram salient~s’,: Todasforatn prezas excepto Maria da Forttes que se escóndeu. .0 juiz de direito retir,á~

,

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~a~”par’a ‘sua casa’a~é vêr ho que paravam ~s, modas. O ordinario, que n esse tempo “e’r~;séü substituto nato, resolveu ir á egi~eja l~vant~r auto do facto, ‘procedendo á exhu m~çãó do cadaver. Na sexta-feira proxima • en~.que havia confessores% para desobriga, • • ‘•.

d~rigiu-se pará lá com o delegado e escrivão c~asemana, official de diligencias, e mais

ad~.jun’ctos; porém, lo~o’qu’e aJli chegaram e~se~oube o seu intento, f6i comose estou i~s~é “uma bomba no’ meio da egreja. De I~e~entë, as Amazonas pozeram-se todas em a6ço. Umas foram tocar os sinos ‘a rebate, ~‘utras espalharam-se amotinando gente; muitas procu ra~vam os da JilstiQa, corno’ ella’s &zi~t’m’; perguntávam pelo dos oculos~ o dele outras déram’ sobre o juiz’com’ ~rna pá db forno e’aindit lhe desca~rega.ram”.u~ma pai~da :nas costa~’; Ôutras perseguiam o eseri~ã~ qUe’ p’oi ‘mu’ito gõi~do cuidou de’ ab~fa~qüando fugia. Os officiaes de diligen-’ c-ias nir~guem mais ~ ‘

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.


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MARIA DA FONTE

Continuavam os sinos a tocar a rebate n’esta e n’outras freguezias em roda. Já o adro e avenidas estavam cobertas de mulhe res e outras vinham chegando. Foi então que appareceu a Maria da Fonte de clavina empunhada e duas pistolas no cinturão, (i) gritando: Vamos d cadeia tu-ar as prezg~s! Viva o snr. ‘D. .5’vCiguel! E, sendo enthusiastica mente correspondida por toda a multidão, principiou esta a desfilar pelo caminho da Povoa até ao largo do Cruzeiro, onde fize ram alto para se juntarem todas em numero talvez de 1:200 mulheres! Seguiram pela estrada occupando a sua largura e extensão de meio kilornetro, e assim foram cami nhando já guardadas pelos lados, sobre os campos, por homens armados. Chegadas á Povoa, Maria da Fonte, lan çando mão de um machado, arrombou as portas da cadeia e os alçapoens, e tirou (x)

Era dadiva de padre. Nota de Ferreii-a de dMeIlo.

MARIA DA FONTE

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as prezas entre vivas ao snr. D. Miguel e á santa religião, voltando corri dias em triumpho pelo mesmo caminho. A autho ridade participou logo por expresso ao governo civil; mas já sem lhe pedir nem forças nem providencias Eram ~ horas da tarde. N’esse mesmo dia, ao pôr do sol, um destacamento de 50 praças do regimento 8, estacionado em Braga, commandado pelo tenente Taborda, entrou na Povoa. Mas para que tão diminuta força, no estado a que as cousas tinham chegado?... e que cominandante! Inteiramente des memoriado e t~o pusilanime que não des cançou, emquanto não foi mudado para a freguezia de Gallcgos, que, dizia elie, era um belio ponto para urna retirada sobre o San ctuario do Bom Jesus e d’ahi para Braga!... Pørétn, como o fóco da reacção era todo de l~p.do Nascente, tornou-se indispensa v~l remover aqueile destacarnento para a


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MARIA DA FONTE MARIA DA ITONTE

freguezia d’Oliveira. (i) Eis que se dá ou tro enterro tumultuoso na freguezia de Gal legos, onde appareceu Maria da Fonte e suas Amazonas! O enterro fez-se, como nas mais partes, com a diferença do clero estar funccionando dentro da egreja. Foram pre zos depois, pela policia um homem e uma mulher que mais se distinguiram n’aqueile motim e logo enviados para Braga; mas, ao passarem na serra do Carvalho, lá vão ti rai-os á escolta os moradores das proximas freguezias de Ferreiros e Geraz. Estava visto que o vulcão se ia espraiando, e suifocal-o com pequenas forças—já era tarde. Maria da Fonte tornou a esconder-se. Em consequencia de tudo isto, n’uma ma nhã, ainda que tardiamente, chegou á Po voa outra força de 250 baionetas do regi mento 8 commandadas pelo major Malhei i Taborda, aboletado na rezidencia, obrigou o Pa rocho a mandar abrir, na taipa, uma porta, para uma sentineila lhe rondar a cama, em quanto elie dormia!

qual fazendo junção com a do pri ~ei~itó destac~mento, ficaram ás ordens d’aqueila patente superior. Foram aboletadas na~ freguezia, d’Oliveira e parte OHenta1 da de .~nt’arcada, onde se con~ervàram pou eosdias~ até que vindo’dó administrador do ~oncélho de Vieira uma lamerifosa requi siç-ão~ po’r se ter alli suh1e~ado o povo, t~aichou para lá toda a força. Ab me~mo temp~, ~‘oi novamente occupada ~i freguezia oe Gallegos por Outro destacamentõ, do re gi’mento n~° 9, composto de cin~oenta pra ças,-ei~jo commaiidanfe não só fraternisava ~ ~ povo, senão mostrava as confiden cïae~,~iie recebia!.., por isso, foi d’alli trans-, fe-rid~”para Guimarã~s, onde o povo das fre-g~i~ do ‘norte, conduzido pelo padre Josê das Caldas, no dia i ~ d’abril, tentbu en trarQ [~iou~ie tiroteio entre elle e a tropa, fi can~d®. com um quarto quebrado por uma bahIa aq:uelle commandãnte. N@ rn~smo dia os povos de Prado, depois


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MARIA DA FONTE

de, queimarem o archivo da administração do seu concelho, capitaneados por outro padre, avançaram a Braga e atacaram de sur preza os quarteis do regimento 8... Foram, porém, repeilidos e perseguidos até ao rio Cavado, deixando bastantes mortos e feri dos: pelo que foi mandado recolher o major Malheiro com toda a força do seu com-. mando que se achava em Vieira. Tambem, n’esse mesmo dia, os povos da freguezia de Souto, Donim e Briteiros, do concelho de Guimarães, homens e mulhe res, invadindo o concelho da Povoa de La nhoso, pela freguezia de Santo Emilião entraram em 5. Martinho do Campo, atra vessaram Villela e foram pernoitar nos logares de Ouintella e Porto d’Ave, na fre guezia de Tbaide, obrigando a seguil-os todas as pessoas que encontravam. Aqui se lhes uniu Maria da Fonte com as suas pis tolas e clavina. Ao outro dia, i6 d’abril, tocando todos

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MARIA DA FONTE

-sinos a rebate, era pavoroso vêr, ao som d’~lles~ como se abalava aquelia mol~ de ~

p~o,’a qual subiu, com toda a lentidão ás f~egúezjas de Travaços, Brunhaes e Espe arf~ desceu a Oliveira, baixou a Font’ar-. eada, deixando queimados nas regédorjas tod~’bs papeis, e, fazendo juncção com os pQs de Gal.legos e Lanhozo. Outro tanto ~a~cou no archivo da administração sem se i.lnportar dos prejui~os que n’isto iam. E~a triste vér, em roda, tudo alastrado de papeis rasgados e queimado5. uns redo moi~hando com o vento e oufros servindo ee •j~guete, nas mãos dos rapazes, que os aDalhavam âs rebatinhas A~noite veio pôr termo a ~ste vandalis mo ~ë ~vit’ou igual catastrophe nos carto rios, dos escrlvaes de direito, e mesmo no archiS,o municipal, que só por esta razão En~ão Maria da Fonte, julgando termi nada.a sua missão, recolheuse á choup~~ 4


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MARIA DA FONTE

de Valbom—já sem receio de ser preza, porque a auctoridade administrátiva ces~oii de funccionar;~até que, no outono seguinte, voltando de Vieira o conde d~s Antas, com a sua divisão de 3:ooO homehs, onde fôra tentar ~um convenio com o padre Casi miro, (!), e, pernoitando em Font’a,rcada, Maria da Fonte affeiçoou-se a um tambor; e, acomp~ftihando-o na divisão, de’sappare ceu, sem quê mai:s se soubesse ~noticias d’elia. Tal foi a carreira e fim da clara iVympha da fonte... Que a terra lhe peze n’alma.))

*

Conjecturo ser esta a lidima e authen tica heroina com suas intermittencias de borrachona e malandra. Tambem me quer parecer que o snr. padre Casimiro José Vieira não conheceu exactamente aquelia Maria da Fonte, a garantida, ou pelo menos

MARIA DA FONTE

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i~norou a sua fecundidade e outras coStu_ m~ras pouco austeras, ~ •blicanjente a Judit/j Portuguez~a. Acertou me 1Ihoi~ çhamando Holofernes ao snr. conde de Thom ar, cuja cabeça, rhetorj cámen te, gra •~as aos ceus! andou pendurada nas roçadou rds:das matronas e das don~elias do Minho. (i) —

Quanto a don~elids, o snr. pãdre Casimiro i~ão. precisa ser mais rigorosarnentec1~~~j~0 e technico que mestre Camões para quem Ignez de Castro, mãe de alguns filhos, era a «pailida donçella.»

Elias eram, pelos modos, como as don ~e!/as virilmente experimentadas de Horacio, na Ode 14 do Livro III:

Ç•~.

Et pueila’ Ja,n Viru,n expert~~’.

UT,~. Apontameng~S

..

pag. x8x.

Camilo Castelo Branco - Maria da Fonte  

Apontamentos para a história da revolução do Minho de 1846.

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