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A ORGIA DOS SAPATOS

ISA PONTES


ORGIA DOS SAPATOS


Estou cansado! Estou cansado, cansadíssimo, sem ânimo, sem motivação alguma. Olho para mim e vejo-me achatado, meio disforme e o lado esquerdo apresenta-se um pouco gasto, lá para trás, muito embora à frente as coisas não estejam melhores. Desde o dia 4 de Junho tudo piorou, eu previ logo… Ela caiu, escorregou, e os moleoluos partiram-se e ainda um outro osso chamado, parece-me, astrágalo – nome esquisitinho! Foi um longo período de saturação para ela, presumo. E para mim? Fiquei arrumado para um canto e vi os meus parentes serem atirados para o lixo numa raiva descomunal, acusados da desgraça acontecida. Vá


lá aguentar-se tanta injustiça! É verdade que eles estavam velhos, gastos, mas todo o mundo sabe que a água com que ela regava o jardim a ajudou naquele desequilíbrio repentino. Que fazer? A corda, dizem, rebenta sempre pelo lado mais fraco e, na desventura, é sempre útil arranjar um culpado. Convém… E assim tenho passado este dias desagradáveis, na espera dorida de dias melhores. O que me tem valido é que, inteligentemente, vou esperando pela noite, quando ela se deita sonolenta e indiferentemente, me atira para o lado; fico-me ali, frio e distante, numa vigília atenta e quando finalmente o quarto é invadido por uns rugidos agressivos a lembrar as primeiras tentativas dos homens das cavernas na descoberta da linguagem, eu desperto e parto por aí fora voando.


Voando… claro voando! Esse foi sempre o grande sonho dela. Oiço-a dizer, por vezes, que o consegue à noite. Ah! Pois… deve ser naquelas noites em que uma música divinal lhe atravessa o peito e invade o quarto. Penso que ela tentou, já há uns longos anos, voar realmente. Nesse tempo eu enfeitava-lhe os pés de azul e branco, com umas tiritas entrelaçadas, leves como a aragem que nos envolvia. Estávamos na Tunísia, em Hamamette, à beira mar. Ela entrou numa barraca, dentro do Castelo e o vendedor convenceu-a de que aquele pequenino tapete para além de servir para se ajoelhar ao rezar, virada para Meca, louvando o Profeta, também lhe iria proporcionar grandes viagens no tempo e no espaço, além do mais – dizia ela – o tapete era Persa! Ah! Ah!


Ela voou e muito sobre o mediterrâneo, enlouquecida de prazer, o que me chegou a comover mas de Parapente. O tapete veio connosco e jaz por aí, esfarrapado, esquecido no tempo como acontece a quase todas as coisas depois de muito desejadas. E eu? Volta e meia ela olha para mim e diz - Umh!... Tenho que procurar uma coisa mais leve, clara, moderna! E eu renovo-me é certo mas, verdadeiramente, só eu sei como. Pela noite dentro lá vou eu buscar o tapete, velhinho como ela, e parto para o Sul; inevitavelmente é sempre para o sul…


Rapidamente encontro-me ou em Malange ou em Luanda, nas quedas do Duque de Bragança ou no Kilombo. Fico por ali, em qualquer lugar e encontro-me! Que maravilha! A última vez que aterrei sob uma mangueira, na “Fazenda dos Italianos”. Foi aqui que eu senti as pernas dela tremerem de espanto, enamorada, e lembro-me bem quando ela me atirou ao ar – coisa que fazia sempre que se sentia aflita, não sei porquê? Dispensar-me era a sua prioridade, ela queria só ser ela sem apêndices; ela queria entregar-se à descoberta do momento, nua, e como não o podia fazer tirava os sapatos. Eu era, nessa altura, uma leve plica creme tendo um laço castanho a enfeitar-me e como eu me sentia maravilhoso… Ninguém reparava em mim mas eu era importante, havia participado da magia inicial dos olhares sôfregos dos dois.


Ah! Por falar em maravilhoso: uma noite destas fui até Luanda e vi-me no dia em que a mãe dela lhe ofereceu o seu primeiro par de sapatos de salto alto; eram cremes, com buracos pequeninos, um salto fino baixinho. Lembro que foi a vez em que ela me deu mais atenção; todos os dias me olhava babada e me colocava bem alto ao lado da cama, de um modo especial. Como as pessoas mudam!... E quando eu a elevava naquele salto bem alto, finíssimo de um azul-marinho enfeitado de tiras brancas! Unh!... Que elegância eu tinha e como a envolvia nessa magia que só um sapato pode oferecer! Ficava linda e esguia e se colocava aquele vestido de riscas azuis, em espinha, todos olhavam para ela, especialmente ele… Ingrata, devias-me todo esse glamour. E quando eu me misturava com outros sapatos, os masculinos, os sem graça, deselegantes,


naquela pressa que vinha da pressa, da muita pressa do amor… Quanto testemunho de amor! Nunca se lembraram que eu estava ali só, desamado… A semana passada fui até Malange. A cidade está triste, todos sabem e não há nada a fazer. Encontrei

por

montes

de

parentes

abandonados, esfacelados, sem forma e alguns a servir de tampão em paredes, à falta de outros materiais para tapar buracos e buracões. Fiquei desolado, caramba! Senti-me assim como um andaime; a gente serve para enfeitar, para ajudar numa conquista e até, muitas vezes, ganhar guerras e, na hora seguinte, após o efeito desejado, atiram-nos fora. Mundo ingrato, mundo cão! Que mundo cão? Mundo sapato, isso sim!


Mas lembro-me bem que foi ali, em Malange, que consegui, um dia, atrair a sua atenção sobre mim mais tempo: Se calhar nem será correcto falar nisto… Ela olhava fixamente para mim e para o meu parceiro há mais de uma hora; estava sentada no chão de uma casa com as duas filhas mais velhas, uma de cada lado; por toda a casa viam-se pessoas sentadas no chão, chorando e gemendo, com olhares apreensivos e ela parada, olhando os pés, os sapatos, só, agarrada às filhas. Fora, ouviam-se rajadas de metralhadoras e morteiros. Só muito tempo depois me apercebi de que ela não olhava para nada, nada, simplesmente esperava… Então ontem, arrastando-me quase, fui até Luanda. Ela foi tão feliz!... Acompanhei-a sempre, tanto no amor, como na dor, fiel, procurando suavizar-lhe o chão, guiando-lhe os passos ora


agitados, ora tímidos, ora cansados, doridos. Parei frente á sapataria onde ela magra, olhar perdido de tanta dor entrou e disse: - Por favor, quero aquelas SOCAS de salto 19. Descalçou-me – já nem sei como eu estava, qual o meu formato, a minha cor – e enfiou no pé uma linda soca azul-marinho, toda em pele, bordada a branco e com um salto de 19 cm. Era o último grito em Luanda, na moda, claro, 500$00, uma fortuna. Ela calçou-me. Mas, só eu ouvia os gritos que ela exalava da alma em revoada; saiam pelos olhos, pelos poros, só eu os ouvia mais ninguém. Era a sua última compra em Luanda, antes de deixar

Angola,

para

nunca

mais

voltar.

Acompanhei-a nesses últimos passos na frescura daquela compra e empossado no novo estatuto todo azul. Eu representava, afinal, um marco.


Agora compreendia porque estavam as socas há tantos anos na estante, lado-a-lado com os livros, intocáveis, belas! Parece-me que não estou a ser justo… Terá sido por mim que ela um dia resolveu fazer uma colecção? As pessoa fazem colecções de caixas de fósforos, de isqueiros, de facas, de colheres e até de terços, mas de sapatos! Pois… Ela tem na sala uma bela colecção de sapatinhos, pequeninos, maravilhosos. Têm vindo das cinco partes do mundo. Há sapatos de prata, de cristal, de madeira, de barro, de couro, de plástico, de pano e até já vi lá uns de chocolate. Como ela é malandra! Arranjou desta forma uma maneira de viajar, sem tapete. Vem tudo até ela e ela, depois vai, noite fora, até outros lugares.


Amanhã,

quando

voltar

para

casa,

hei-de

“aterrar” no centro daquelas miniaturas. Sei que irei encontrar por ali dias de sol, de Primaveras eternas, de vitórias conseguidas em outros mundos, de rendas de Veneza e cristais da Boémia, dragões e amuletos dos Templos Maias misturados com pequenos ratinhos de campo, bem como grutas encantadas, tudo a enfeitar os delicados parentes meus. Será uma festa, uma orgia de sol e cor, de renascimento, de paz, enfim… Hei-de encontrar-me eu sei. Depois virá uma outra espécie de cansaço e eu olharei para mim, penso, agradecido à vida e a ela e, levemente para não a perturbar, irei repousar


dentro da minha pele azul bordada de 19 cm que enfeita a estante lรก de casa

FIM


CADERNOS DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DA Pテ天OA DE LANHOSO,2008

Nツコ5

Caderno n.º 5 Biblioteca Municipal  

Caderno n.º 5 Biblioteca Municipal da Póvoa de Lanhoso - A Orgia dos Sapatos, de Isa Pontes.

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