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Anais do XV Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 26 e 27 de outubro de 2010 ISSN 1982-0178

O CIRCUNSTANCIALISMO ÉTICO LATINO-AMERICANO: um exame da filmografia mexicana de Luiz Buñuel Leandro dos Santos Amorim

Prof. Dr. Arlindo Ferreira Gonçalves Jr.

Faculdade de Filosofia Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas Leandro.morin@gmail.com

Grupo: Filosofia, Cultura e Sociedade Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas arlindo@puc-campinas.edu.br

Resumo: Com a tarefa de recuperar e examinar os argumentos presentes na augusta obra de Leopoldo Zea e Luis Villoro, o distinto trabalho visa compreender a especificidade e a originalidade de um projeto filosófico que destaca a necessidade de um modo autêntico de se pensar o problema do homem a partir de seu entorno, caracterizando algumas categorias éticas como: valor, identidade, autenticidade, moralidade, liberdade e pessoa. O circunstancialismo historicista de inspiração orteguiana, cuja a inscrição está figurada nos já citados pensadores, será a referência teórica no exame hermenêutico da produção cultural cinematográfica de fase mexicana do surrealista Luiz Buñuel. Inicialmente, se faz necessária a compreensão de conceitos da filosofia orteguiana e seu reflexo na América latina, destacando ainda, seus principais períodos e núcleos, ressaltando a formação do Grupo Hipérion e outros movimentos de maior importância para tal pesquisa. Ao término dessa trajetória inicial, serão analisados os conceitos de identidade moral e historicismo de forma veemente em Zea e Villoro. E na conclusão do estimado projeto, será vista a análise da filmografia de Luiz Buñuel tendo como norte os conceitos estudados ao longo deste percurso. Palavras-chave: América Latina, circunstancialismo, Luiz Buñuel. Área do Conhecimento: Ciências Humanas – Filosofia – CNPq. INTRODUÇÃO A primeira parte desta pesquisa debruça-se sobre esse acalentado questionamento a respeito da compreensão de identidade numa perspectiva moral segundo Leopoldo Zea e Luis Villoro e a relação desse pensamento com os conceitos de pessoa, liberdade, história e circunstancia. A princípio percebe-se então, que a filosofia hispânica, que decende do raciovitalismo orteguiano, tem como caractério fundante uma minuciosa investigação a respeito das constantes mudanças geradas atualmente, especificamente no que se refere à sua concepção de ho-

mem projetada desde o remoto racionalismo cartesiano, assumindo assim uma complexidade que se problematiza em um contexto social em que se prioriza, deixando-se nortear principalmente pelo consumo e pela informação. Em meio a essa problemática, emerge uma crise com relação à noção de circunstância histórica, sobretudo no que se refere à sua constituição axiológica e ética, uma vez que se separa de seu formato autêntico e moral. Essa forma de refletir foi um ponto de partida teórico que alicerçou várias correntes latino-americanas de pensamento, Inspirando-as assim nas noções de “circunstancialismo” e “historicismo”, enquanto fonte de pensar e repensar o seu entorno cultural e sua busca de identidade. Um grande exemplo da vivência dessa trajetória foi o Grupo Hiperión, que foi formado por autores que mais incorporaram a fonte precursora teórica-filosófica orteguiana, a fim de conferir uma historialização ao pensamento latino-americano. E após analisar e ter clara todas essas definições, identificar a presença desses conceitos na produção cultural latina da obra de Luiz Buñuel. 1 PANORAMA HISTÓRICO DA FILOSOFIA LATINO-AMERICANA DE INSPIRAÇÃO ORTEGUIANA. A filosofia latino-americana, oriunda de um contexto histórico e intelectual bastante turbulento, caracteriza-se pela incansável busca de reformulação e formulação de uma identidade autêntica dos povos deste continente. A predecessão de uma série de invasões, destruição cultural e muitas outras atrocidades, fez com que essa busca por autenticidade criasse um corpo de pensadores capazes de refletir os resultados da intervenção “civilizadora” dos invasores europeus. As especulações entorno de uma filosofia latinoamericana original e autêntica, começam a ganhar corpo no início do século XX, com o advento de movimentos e de alguns pensadores como Leopoldo Zea e Luis Villoro que, oriundos de uma corrente orteguiana, trazem reflexões relacionadas a um projeto de integralidade da filosofia neste continente.


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É interessante antes, tentarmos entender essa citada “corrente orteguiana” que tem como principal vertente o seu raciovitalismo. Ortega y Gasset que inicia o seu pensar partindo sempre da circunstânica, ou seja, daquilo que o circunda. Ele não trata os problemas se desvinculando de sua realidade, mas ao contrário, pensando sempre a partir de sua conjuntura. Ortega usa o termo circunstância para apontar tudo àquilo que o rodeia, tudo aquilo que ele encontra e que há alguma identificação. E nessa perspectiva, segundo ele, o homem vai construindo a sua realidade na medida em que vai interpretando o mundo que o rodeia. E essa forma de pensar está nítida em sua mais famosa frase: “eu sou eu e a minha circusntância e se não salvo a ela, não salvo também a mim” [7]. E essa afirmação significa que a vida de cada um se estrutura na relação com o que a constitui ao seu redor. Nessa perspectiva, é pensar no homem com as coisas, ou melhor, transformando-as, vivendo e fazendo algo, é sempre uma escolha, mas não qualquer escolha. É saber escolher dentro das mais variadas possibilidades que a circunstância proporciona; aquilo que se aproxima da espontaneidade mais peculiar, mais íntima de cada um. Ortega pensa na relação complementar homem-mundo. E é dessa forma que o raciovitalismo orteguiano é estabelecido, colocando sempre a vida no centro da investigação para melhor compreender o homem e sua realidade, pois é na vida que se manifestam todas as formas reais de experiência, ou seja, realidade para ser significativa tem que manifestar vida. Eis aí o grande centro da moral filosófica de Ortega: o homem responsável por suas escolhas e criador de seu próprio projeto moral. Contudo, na ética raciovitalista o que a faz única e toda própria é a entrega íntima e original à espontaneidade, sendo fiel a si mesmo dentro de sua própria realidade. Sendo assim, pode-se entender espontaneidade também como fidelidade a si mesmo. E nisto consiste essa linha raciovitalista orteguiana, é a interpretação objetiva dos valores. 1.1 Principais Períodos e Núcleos Apesar do silenciamento e dependência da América Latina, foi se formando uma filosofia especificamente latina cujos traços nascem das diversas lutas por uma liberdade intelectual, tendo muitos nomes que nortearam esse processo como, Leopoldo Zea, e Luis Villoro entre outros, que nas mais diversas realidades deram a sua contribuição. A formulação de teorias e ideias desta forma de conceber a filosofia

está intimamente ligada às audaciosas práticas sociais e políticas da época, que embora repletos de fragilidades e dubialidades, conseguem desenvolver concepções ímpares, assumindo assim, posições críticas em relação ao pensamento e a produção oriundas da Europa e mantendo uma atitude de ruptura diante de alguns modelos filosóficos “coloniais”. Nesse primeiro momento, após a geração dos “primeiros”, “fundadores” e “normalizadores”, surge aquela que pretende levar esse amadurecimento à obtenção definitiva de esforços dos anteriores para realmente efetivar uma identidade cultural latinoamericana, para assim poder responder aos seus próprios problemas. Integrando esse grupo a geração nascida entre 1915 e 1920. A grande tarefa desta geração foi a de assumir o legado desta primeira e organizar com empenho aquilo que a segunda geração tinha feito, para assim poder implantar uma filosofia original e autêntica que se pudesse denominar latino-americana. Para realizar essa missão, era necessário lançar um olhar na história do pensamento latino, para, conhecendo-o bem, assumi-lo em sua realidade seja qual for. Este trabalho foi iniciado de forma exemplar e referencial pelo mexicano Leopoldo Zea, que conseguiu transmitir e contagiar um amplo grupo de contemporâneos de sua geração. Em meio a todo esse processo de gerações, havia também duas correntes importantes: a assuntiva e a afirmativa. Em suma, a primeira se caracterizava em não acreditar na possibilidade da criação de uma filosofia autentica, delegando sempre essa função a uma geração posterior e que a função do filósofo seria a de assumir a filosofia universal; enquanto que a outra corrente, na medida em que se consideravam preparados para tal tarefa, lançando as bases de uma originalidade, acreditavam que um filosofar autônomo consistiria em fazer a própria situação e circunstância sempre dialogando com ela. Entendem que fazer filosofia não está em imitar a Europa, mas fazer outro tipo de filosofia sob o calor de seus próprios problemas específicos, cultura e de sua própria situação. E liderando esta segunda postura está Leopoldo Zea como principal expoente e Luis Villoro como um adepto dessa corrente. 1.2 A Formação do Grupo Hipérion O Grupo Hipérión foi um grupo formado por jovens filósofos que se reuniram com o intuito de refletir a filosofia e ao mesmo tempo tinham a preocupação


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pelo problema da filosofia mexicana e latinoamericana. Este mesmo grupo que tinha como principais expoentes Zea, Villoro, Uranga e etc, que por sua vez, tinham como objetivo influenciarem através de seu pensamento, o meio cultural mexicano. A primeira aparição publica deste grupo foi através de um conjunto de conferências sobre o existencialismo francês em 1948, no Instituto Francês da América Latina. Neste mesmo ano, organizaram também uma outra série de conferências na Universidade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional do México com o título de “Problemas de la Filosofia Contemporánea” [1]. Em sua primeira série de conferências o tema predominante foi o existencialismo francês; e em um terceiro momento, em 1949 o tema central foi “Qué es el mexicano?” [1]. Organizada na mesma faculdade. E assim o Grupo Hipérion começou a criar seu corpo de pensadores e sua linha de pensamento filosófico. Desde o início deste processo, estava nítido que o grande líder e estruturador desse grupo era mesmo Leopoldo Zea, que funda os princípios de sua corrente em 1952 funda o Centro sobre Estudos Mexicano, tendo o Grupo Hiperión como núcleo, mas sendo subsidiado por historiadores, sociólogos, economistas, psicólogos e outros cientistas. Na época foram organizados uma série de mesas redondas para se discutirem problemas concretos do México. E neste mesmo período Zea teve a idéia de fundar e dirigir uma coleção de ensaios com o título de “México y lo mexicano” [1], que foram publicando os trabalhos de vários pensadores que compunham tal grupo. Em suma, o Grupo Hiperión, foi impulsionado por vários mestres e sofreu as mais diversas influências, entre elas se destacam as reflexões de Samuel Ramos a respeito do perfil do homem e da cultura mexicana e da filosofia circunstancialista orteguiana. O trabalho desse jovem grupo de pensadores foi muito importante neste período, mas em anos posteriores, cada um seguirá seu próprio caminho intelectual. 2 IDENTIDADE MORAL E HISTORICISMO EM LEOPOLDO ZEA Principal representante do grupo de pensadores mexicanos, Leopoldo Zea, nascido em 1912, se calca fundamentalmente no pensamento de Ortega y Gasset (+1955), e inicia sua busca em uma filosofia que tivesse identificação com o problema da América Latina e de seu lugar na história e na cultura universal. Zea foi fortemente influenciado por José Gaos (+1969), pertencente ao grupo de Ortega, e também

foi discípulo de Antonio Caso (+1946), e um grande admirador de Samuel Ramos (+1959). Leopoldo Zea inicia sua trajetória de um pensamento filosófico muito influenciado por seu contexto e pelas linhas políticas, históricas e filosóficas que vigoravam em seu tempo. De Ortega, Zea absorve a concepção histórica de humanidade e cultura, concepção que destaca a capacidade criadora do homem. Por isso é muito forte a importância que ele remete a história da cultura, fazendo com que ele pesquise a forma de pensar do povo mexicano através da sua filosofia. E em virtude disso, os conceitos de Historicismo, Circunstancialismo, Originalidade e Autenticidade, serão o norte na definição de sua filosofia. Sua formulação filosófica, que parte de pressupostos historicistas, é que dá a base de toda a sua argumentação, principalmente no que diz respeito aos conceitos de originalidade e autenticidade. Sua filosofia emerge de circunstâncias bem particulares, de problemáticas que dentro de uma determinada conjuntura fazem com que o indivíduo procure suas próprias soluções. Esse historicismo, segundo Zea está sendo complementado por um existencialismo, que ajuda a perceber o homem na concretude de suas circunstâncias existenciais, culturais e históricas, e como ele mesmo diz: “O historicismo, na sua essência, proclama a originalidade, a individualidade, a irredutibilidade do espírito em função da circunstância de tempo e lugar; e refere-se a essas mesmas circunstâncias o processo de sua atividade constituinte.” [13]. E é nessa perspectiva que Zea quer que a América Latina, no início do século XX, se descubra como objeto filosófico, percebendo a realidade de sua cultura. E nessa busca de si é que surgem outras questões como originalidade e autenticidade do homem latino e de tudo que o rodeia. Nesse contexto, a identidade moral do homem latino está plenamente vinculada com a sua conservação. Destruir a cultura de um povo é destruir sua identidade moral, atitude que foi muito frequente no período das descobertas e da colonização da América Latina. A dependência e a dominação que ocorreram no decorrer da história, negando a humanidade do homem latino americano são pontos muito importantes nessa abordagem a respeito de uma identidade moral. Zea denuncia essa atitude, mas tendo presente que tal denuncia, tem um objetivo mais ecumênico implicando numa afirmação solidária de todos os seres humanos. Esse caminho se faz através de lutas, gritos e reivindicações de todos os povos que sofreram esse processo aniquilador de colonização, que abstraiu desse povo oprimido o direito de falar sua própria palavra, isto é, de ser diferente, pois


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como afirmou o próprio Zea: “somos iguais porque somos diferentes” [13]. 3 IDENTIDADE MORAL E HISTORICISMO EM LUIS VILLORO Nascido em 1922, Villoro também, assim como Zea, transita por um caminho parecido ao do já citado filósofo. Membro atuante e também importante do Grupo Hipérion, Villoro tem sua formação em arte e filosofia e também é um discípulo de Gaos. Sua formação filosófica aproxima-se do mesmo existencialismo perpassado por Zea, como um manancial para refletir a identidade do homem latino, adquirindo assim a consciência de sua essência e de sua conjuntura. Seu foco historicista se inicia na análise do índio no começo do processo colonizador. Essa análise não se preocupava em somente estudar os índios em si, mas fundamentalmente na forma em que eles eram vistos pelos espanhóis, mestiços e crioulos através da História do México. Villoro ainda discorre sobre o sentido de história, na relação passado-presente e a sua conseqüência na ação humana: “Ninguna actividad intelectual ha logrado mejor que la historia dar conciencia de la própria identidad a una comunidad.” [11]. Em um contexto marcado pelas tecnologias e novo meios de comunicação, Villoro questionará, então, até que ponto pode haver a convergência de culturas sem que haja o prejuízo das culturas particulares, nesse ponto já se percebe a preocupação com a identidade específica, que assim como Zea, também prioriza a conservação, assim como o próprio Villoro afirma: “La lucha contra la enajenación cultural no consiste en la afirmación de nuestras peculiaridades, sino en el ejercicio de un pensamiento libre y riguroso…” [11]. Assim, toma como cultura autêntica aquela isenta de dominações mentais e da mistificação de ideologias a serviço de grupos particulares e que possua um pensamento livre e rigoroso. Logo, poderá haver a integração das culturas se houver respeito e tolerância entre elas. 4 A PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA DE LUIZ BUÑUEL COMPREENDIDA COMO BUSCA DE IDENTIDADE HISTÓRICA. Para o prosseguimento desta próxima etapa, será realizado o exame hermenêutico da produção cinematográfica da obra fílmica de fase mexicana de Luiz Buñuel (1900-1983), focando a análise nas obras “Los Olvidados” de 1950, “Susana” de 1951, “Abismo de Pasión” de 1953 e “Nazarin” de 1958.

4.1 Los Olvidados (1950) É sob a forma de um grande tratado sociológico que Luis Buñuel inicia a polêmica obra fílmica “Los Olvidados” (1950), retratando o resultado da catástrofe histórica da colonização de forma bem sutil, em um povo sem acesso, sem sonhos, adaptando uma cultura importada, imposta e inevitavelmente violenta e difícil de se viver: Buñuel se debruça sobre a opulência e a pobreza, dois pontos muito comuns em todas as grandes cidades e constrói uma ficção com personagens extremamente humanos e muito próximos daquilo que percebemos como sendo “vítimas de suas próprias circunstâncias”, não construindo sua própria trajetória contrariando àquilo que afirma Boergui: “El ser humano es un ser histórico, alguien que tiene que hacerse, que ser. Pero el hombre iberoamericano no sabe a qué atenerse y se realiza como accidente.” [1]. Vida e morte, edifícios verticais grandes cercados de uma grande miséria e de casas destruídas. Uma sociedade cheia de fome que devora aterros sanitários, esquecendo-se de seus próprios filhos nas mãos do carrasco da negligencia educacional e comportamental decorrentes de suas próprias circunstâncias, que neste caso, torna-se um “círculo vicioso”, ou ainda uma herança maldita para todo aquele povo inserido naquela realidade, sendo vistos como “sub-homens” ou ainda, homens diferentes: “O homem, todo homem, é igual a qualquer outro homem. E esta igualdade não advém de que um homem ou um povo possa ou não ser cópia fiel de outro, senão de sua própria peculiaridade.” [13]. Buñuel destaca em sua ficção de forma até ríspida, uma verdadeira crítica social ao contexto latinoamericano, destacando situações difíceis, como resultado de uma ideia de qualificação da diferença, errônea entre os de homens: “As diferenças entre os homens não são diferenças de qualidade, mas as próprias de todo homem por ser, pura e simplesmente, homem.” [13]. Circundados por conflitos dos mais diversos e cruéis que ocorrem na Cidade do México, um grupo de jovens delinquentes que, empurrados por seus familiares e por seus governadores, começam a fazer uma série de vandalismos, sendo então, punidos por um Estado que só reprime e não instrui. Como resultado desse sistema, o personagem Jaibo, que, com sua incrível capacidade vingativa e perversa, um verdadeiro bárbaro, se coloca em torno de seu líder em uma conduta elaborada sob a forma de uma


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espiral de violências e atrocidades que só levam a dor e a frustração pessoal: “A barbárie está em querer ser como outro, a civilização está no ser um mesmo e construir a partir deste ser.” [13]. Mas, como em tudo que Buñuel produz, ainda existe salvação. Como um contraponto, ele também constrói e destaca o menino Pedro, um jovem de bom coração, incompreendido por sua mãe, mas com um grande conteúdo afetuoso (e porque não usar o termo “cristão”) em suas atitudes, mas que se revolta com o clima que o circunda, numa manifestação contrária à suas circunstâncias, opondo-se até violentamente ao meio. Este sentimento de Pedro é retratado com a cena em que é jogado um ovo de galinha na câmera, como se estivesse naquele momento regurgitando toda a sua ira sobre a comunidade. Mestre de problemas surreais e simbólicos, Buñuel destaca seu grande talento como contador de histórias e sequencia seu filme com sonhos de um menino pobre trabalhando muito a profundidade de campo, neste caso, em espaços abertos, cenas externas (cinematograficamente falando), o que insinua a distância do povo de seus governadores; a relação dramática entre grupos, destacando também uma espécie de suspense de forma bem eficaz, em um cenário até certo ponto “natural”, destacando ainda o tradicional jogo de luz e sombra. E por fim, o erotismo que se expressa em diversos momentos dessa obra: como no leite derramado sobre as coxas da moça, olhares e conversas entre a mãe de Peter e Jaibo antes de fechar a porta violentamente, a menina inocente no colo do cego e etc. São momentos interessantes que tiveram como norte no desenrolar da história a delinquência juvenil, enfatizada num realismo brutal, exercitando assim um exercício livre e rigoroso de pensar sua realidade, como afirma o filósofo Villoro, “La lucha contra la enajenación cultural no consiste en la afirmación de nuestras peculiaridades, sino en el ejercicio de un pensamiento libre y riguroso, en el examen crítico de todo dogmatismo, en la desmistificación de las ideologías al servicio de grupos particulares.” [11], muito bem retratado pela fotografia genial, cheia de contrastes de luz, desembocando no espectador uma grande reflexão sociológica sobre seu tempo. 4.2 Susana (1951) Dirigido em 1951, “Susana” é mais um daqueles filmes de fazer pensar a vida, a história, a conjuntura e etc. Muito próximo dos contos do nosso saudoso Nelson Rodrigues, esta obra fílmica conta a história

de uma diabólica desconhecida que é acolhida por uma família no interior. Sua beleza estonteante desperta o súbito interesse de homens e mulheres. Sem o menor pudor e psicologicamente questionável, Susana usa de seus atributos físicos para seduzir o patriarca da família, seu primogênito e enfim, todos aqueles que poderiam de alguma forma suprir as suas vontades. Percebe-se que no decorrer da obra, que a grande avalanche de paixões e culpas dos personagens é literalmente canalizada em Susana, que mesmo não sendo nenhuma santa, é acusada de qualquer coisa, por mínima que seja, e é retirada arrastada por policiais do meio daquela família da mesma forma que a nordestina “Tieta do Agreste” de Jorge Amado, e exilada para bem longe dos angustiantes olhares de prazer e alívio por culpa de mentes nada normais daquela provinciana família. Buñuel que sempre mostra em suas obras o lado grotesco do ser humano, como diria o filósofo Julio Cabrera, “o Shopenhauer do cinema” [2], está intimamente ligado, especificamente nesta obra, àquele pessimismo característico daquele ser que não se conhece e que tanto Zea quanto o próprio Villoro explicitam em sua teoria filosófica. Na realidade “Susana” nada mais é do que aquela situação de algo que vem de fora atrai, se faz importante e indispensável, desencadeando dois caminhos. O primeiro caminho seria àquele de mostrar a força do homem que não se deixa submeter por outro, como propõe Zea em sua nova forma de pensar uma filosofia autentica, “o novo homem não há de ser o que se submeta a outros homens, mas que impeça, de uma vez e para sempre, esta possibilidade.” [13]. E Susana faz isso, controla-os se fazendo extremamente interessante, ao ponto de controlar sem a menor preocupação com nada. Como aqueles colonizadores que, ao chegarem na América, se preocuparam somente em tentar atrair para dominar, e quando não conseguiam, simplesmente matavam, descartavam. Como todo colonizador ou importador de ideias, Susana aproveita-se da falta de conhecimento de si por parte daquela família e manipula, fazendo com que cada um deles possa tropeçar em si em “função da grande solidão e do sofrimento aos quais suas próprias ações os levaram” [13]. Susana aqui atinge o esgotamento total do meio, tinha uma grande fixação em mudar o meio ao seu bel prazer, em nível bem mais profundo. Queria de alguma forma buscar um novo meio de explorar, desfrutando de tudo aquilo que fosse possível.


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Buñuel personificou em Susana a imagem do conquistador, do explorador, fazendo com que cada expectador se enxergue em algum momento naquele belo corpo e naquele olhar sedutor e diabólico de uma mulher obsecada pelo poder e pela dominação. 4.3 Abismo da Pasión (1953) Adaptação do romance de Emily Bronte, “O morro dos ventos uivantes”, “Abismo de Pasión” de 1953 pode ser considerado uma obra convencional na carreira do surrealista Luis Buñuel. Obra feita sob encomenda, com um elenco reaproveitado de outro projeto, “Abismo de Pasión”, ou “Escravos do rancor” traz em si personagens medianos, com atitudes previsíveis e nada caracterísco ao estilo buñeliano. É interessante o observar alguns detalhes, que mesmo com toda a trivialidade desta adaptação, ainda assim deixa em alguns mínimos adereços da excentricidade de Buñuel. Por exemplo, a escolha da música de Richard Wagner, “Tristão e Isolda” que desastrosamente foi o grande exagero desta obra. Um filme com uma fotografia forte e bem feita, e que impecavelmente transporta a história de terras inglesas para terras mexicanas. O domínio estabelecido por sentimentos de pessoas que teoricamente estão alheias ao que acontece ao seu redor, isso traz de forma tácita algumas ideias de Luis Villoro a respeito de ideologia. Alejandro idealiza um amor que só existia em sua mente e por ele é capaz de tudo. Encarna um personagem shakespeareano, visando apenas essa paixão exagerada. Por outro lado esquece-se de suas reais circunstancias, de que na verdade muitos anos já se passaram e mesmo que o amor persista, as escolhas já foram feitas e a vida de ambos mudou. É de extrema importância observar que essa paixão infinita, assemelha-se com uma crença fundamentalista, irracional, pois como explicita Villoro, uma crença pode ser, no caso de nosso personagem, injustificada, culminado assim em um objeto de dominação. Por outro lado, temos ainda a questão da história, a relação passado-presente e sua consequência na ação humana, que se tratando de “Abismo”, tem finais cíclicos trágicos e pouco racionais. Como abreviação de todo este discorrimento, percebe-se a alteridade de cada personagem envolvido na história. Nesse aspecto Zea resgata a singularidade de cada um. E por todos serem diferentes, peculiares e originais, os fazem por outro lado iguais. E isso os torna humanos fazendo com que cada pessoa possa se perceber naqueles sentimentos tão aflorados e divinamente humanos.

4.4 Nazarin (1958) Baseado no romance de Beníto Péres Galdós, o filme segue contando a história da paixão radical com que Padre Nazarin decide viver o evangelho. Este “Dom Quixote” da década de 50 se dispõe a fazer o bem, mas falha miseravelmente. Como no romance de Cervantes, o filme não analisa apenas o fracasso de um cristão comprometido em um mundo corrupto, mas o desapontamento do sacerdote com os ideais cristãos. Buñuel chama a atenção do grande público para duas situações: a idealização dos pobres (como sendo os únicos merecedores do céu) e o ideal de bondade (padrão de postura para todo bom cristão que almeja um “pedacinho” do céu). O conceito de pobre e de bondade se tornam ideologias, na medida em que alguns personagens se remontam como cruéis ou injustos dominadores ou então quando se colocam numa busca estéril por liberdade. E essa situação nos remete a algumas considerações centrais da filosofia de Luís Villoro que define o conceito de ideologia de forma variada, acrescentando que o mesmo, pode ter várias faces, não sendo determinado pelo conhecimento, mas por diversas causas sociais. Num primeiro momento vemos nitidamente quando, por conta do escândalo por ter acolhido uma prostituta assassina em casa, proíbem o piedoso padre de celebrar missas, em virtude de um molde cristalizado de “bom padre”, defendido pela Igreja, sem se preocupar realmente com os valores cristãos de caridade, amor ao próximo e etc. Num segundo momento vemos o próprio padre numa luta estéril pela liberdade através da pregação de uma bondade que ninguém levava a sério, uma caridade que só ajudava a ele mesmo, que não media a aplicação da mesma em meio àquelas circunstâncias, àquela realidade. Essa bondade até certo ponto, tem apenas o intuito de uma “auto-salvação”, e que por ironia do destino, a aplicação da mesma sempre acabava em tragédia, tornando quase que insana, na medida em que não é feita uma séria leitura da conjuntura. Esta forma de aplicação da caridade nos remete ao conceito inicial de historicidade de Leopoldo Zea, em que seu circunstancialismo prega que determinados problemas que tais conjunturas circunstanciais colocam o homem, devem ser sanadas na medida em que o próprio homem se descobre em sua realidade concreta, descobrindo então a si mesmo, sua cultura e o sentido de sua existência. Nazarin, por sua vez, se entendeu em parte, pois na medida em que luta-


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va por essa caridade ao próximo, desconsiderou toda e qualquer possibilidade dessas suas tentativas não serem necessariamente boas naquela situação, para aquela pessoa, naquele momento e etc.. A originalidade e autenticidade desta obra estão em seu conjunto. Zea conceitua originalidade como aquilo que se parte do que é, de suas próprias circunstâncias. E nesse sentido acho pertinente a comparação de Buñuel com sua obra. Buñuel, um espanhol educado em uma instituição católica (jesuíta) que em sua juventude tem contato com o movimento surrealista, passa pelo exílio, torna-se desde cedo um amante da sétima arte e etc. Toda sua história pessoal é um campo fértil para se ler os conceitos de originalidade e autenticidade abordada por Zea. Nazarin é apenas mais um dos vários personagens que Buñuel usa para estereotipar aquilo que sua alma quer gritar em protesto. Nesse caso o protesto gira em torno da castração institucional, podendo ser analisado de duas formas. Na primeira análise, giraria em torno da colocação de que Nazarin seria um filme profundamente cristão; e numa segunda perspectiva, a de que tal obra ressaltaria a ilusão da divindade e a descoberta da realidade do homem. Nessa perspectiva, Buñuel por meio do piedoso padre, convida seu público a uma profunda reflexão circunstancialista, original e autentica diante de seu entorno. Ele convida seu espectador a sorrir como aquele cristo alegre que dá risadas de toda aquela situação, fugindo bem daquele gênero ranzinza e fechado da Igreja de sua época. Risada essa que pode ser de escárnio de um Cristo que acusa e que zomba do sofrimento de uma prostituta, ou ainda que debocha do sofrimento de um processo catequético castrador e aniquilador que todo o povo latino sofreu no início de sua história colonizadora e que o próprio Buñuel também passou, transformando-se assim em um “ateu, graças a Deus!”, convicto e determinado em sua visão de mundo, de homem e porque não dizer, do transcendente. Em outras palavras, Buñuel de alguma forma coloca que qualquer pessoa na situação deste pobre padre seria também movida por rompantes antagônicos. Em suma, Nazarin, que se dá conta no final da falta de serventia da aplicação de sua bondade, encerrando sua trajetória pegando seu abacaxi e dirigindose para a câmera com a mesma angústia de um revolucionário armado numa causa desacreditada.

AGRADECIMENTOS Ao amigo e orientador Profº Drº Arlindo F. Gonçalves Jr. que muito me apoiou e compreendeu minhas limitações. Aos Padres Bento, Rodrigo e Benedito; e amigos que contribuíram tacitamente para a realização deste projeto. À Universidade pela abertura da possibilidade desta Iniciação Científica. A Deus e minha família, que mesmo distante, partilharam comigo desta experiência ímpar em minha vida. REFERÊNCIAS [1] BEORLEGUI, C. (2004), Historia del pensamiento filosófico latinoamericano. Bilbao: Universidad de Deusto. [2] CABRERA, Julio. O cinema pensa. Uma introdução à filosofia através dos filmes. Rocco. 1ª Ed. 2006 [3] LATINOAMERICANA: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe. (2006), Coordenação geral de Emir Sader. Rio de Janeiro: UERJ. São Paulo: Boitempo. [4] MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. Editora Brasiliense. 1ª Ed. 1990. [5] MIRÓ QUESADA, F. (1974), Despertar y proyecto del filosofar latinoamericano. México: F.C.E. [6] OLIVÉ, L. (comp.). (2004), Ética y diversidad cultural. México: F.C.E. [7] ORTEGA y GASSET, J. (1967), Meditações do Quixote. Trad. Gilberto de Mello Kujawski. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano. [8] SALADINO, A.; SANTANA, A. (comp.). (2003), Visión de América Latina. Homenaje a Leopoldo Zea. México: F.C.E. [9] SUBERCASEAUX, B., et al. (2002), Identidades y sujetos: para una discusión latinoamericana. Santiago: Universidad de Chile. [10] VÁSQUEZ, A. S. (1994), Ética. São Paulo: Civilização Brasileira. [11] VILLORO, L. (1985), El concepto de ideología y otros ensayos. México: F.C.E. [12] ______. (1997), El poder y el valor: fundamentos de una ética política. México: F.C.E. ZEA, L. (2005), Discurso desde a marginalização e a barbárie; seguido de A filosofía latinoamericana como filosofía pura e simplesmente. Rio de Janeiro: Garamond.


O circunstancialismo ético latino-americano - um exame da filmografia mexicana de Luís Buñuel