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EDIÇÃO 01 - NOVEMBRO / 14

MUDANÇA ELAS SAÍRAM DE SEUS PAÍSES PARA VIVER UMA HISTÓRIA DE AMOR NO BRASIL

OPINIÃO QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO?

ENTREVISTA A TRANSEXUAL RENATA CARVALHO FALA SOBRE MILITÂNCIA LGBT

FORA DO PADRÃO

A MULHER MAIS FORTE DO BRASIL REVELA AS FRAQUEZAS E AS DIFICULDADES QUE ENFRENTA POR SER DIFERENTE


PADRÃO?

TÔ FORA! Elas estão em Brasília, na Presidência da República, no Senado Federal, no Congresso e nos escritórios das grandes empresas. Estão com o nome gravado no Prêmio Nobel da Paz. Saem às ruas, sem sutiã, exibindo o corpo que não queriam aceitar há alguns anos. Pintam os cabelos com as cores do arco-íris e nem se importam em usar um batom preto. São mulheres, de todas as idades, cada uma com sua loucura. A mulher do século XXI tem mais preocupações. Ela lava, passa, faz comida, mas também manda no trabalho, ganha seu próprio dinheiro e paga seu carro sem a ajuda de ninguém. É tudo seu, tudo conquistado com suor – e em cima de saltos cada

vez mais altos e finos. Ela compra seu pão, seu batom e seu apartamento. Ganha seu espaço no mundo e, se tentam lhe negar algo, vai em busca do que merece. Do que é seu por direito. Essa é a nossa mulher. Ou melhor: aquela mulher. Aquela que se liberta, sai das correntes que a prendem e liga o “foda-se” para a vida. Ela se transforma no que quer. Sai de onde mora para se jogar no lugar que quiser. Não tem vergonha de pegar ou largar ninguém. Ela não se importa com o que vão falar. Falem a vontade. Podem julgar como deusa, louca ou feiticeira. Ela sabe que é demais. Sabe que, na verdade, loucos são aqueles que não têm coragem de se jogar nas aventuras da vida.

EDITORIAL | 3


5 | ENTREVISTA A transexual Renata Carvalho fala sobre seu trabalho de atriz, agente de prevenção de DSTs e cabeleireira 10 | COMPORTAMENTO A mudança de mulheres que largaram tudo em seus países de origem para viver uma história de amor no Brasil 14 | BELEZA Elas saíram dos cabelos pretos e loiros para se arriscar nas cores do arco-íris 14 | PERFIL A rotina e os desafios de Mirian Fernandes, a mulher mais forte do mundo 10 | ESTANTE Os livros e filmes que você não pode deixar passar 23 | CRÔNICA Maldição dos cabelos presos 24 | OPINIÃO Quem tem medo do Feminismo?

REVISTA AQUELA SANTOS, NOVEMBRO DE 2014

Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação (FaAC): Humberto Challoub

Editora-chefe: Juliana Duarte

AQUELA é uma revista laboratorial desenvolvida pelos alunos do sexto semestre de Jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação (FaAC) da Universidade Santa Cecília.

Coordenador de Jornalismo: Robson Bastos

Diagramação: Juliana Duarte, Priscilla Kovacs, Thalles Galvão

Orientação: Raquel Alves, Helder Marques, Fernando Cláudio Peel

Foto de capa: Priscilla Kovacs

Reportagem: Juliana Duarte, Priscilla Kovacs, Thalles Galvão


As mil faces de Renata Carvalho Conheça um pouco do trabalho e opiniões de uma transexual que se divide como atriz, agente de prevenção de DSTs e cabeleleira

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Foto: Arquivo pessoal / Arte: Rom santa Rosa

Texto: Thalles Galvão

ão é qualquer um que aguentaria o ritmo da agenda de Renata Carvalho. De terça a sábado ela passa as tardes e noites na companhia da tesoura, do secador de cabelos e do dono do salão e parceiro de crime, Yan Rodrigues. Entre mechas e luzes, ou melhor segundas e quartas, bate perna pela rua Amador Bueno, no Centro de Santos, entregando camisinhas e géis lubrificantes às garotas de programa, durante seu expediente como agente de prevenção da Secretaria de Saúde. Quando pode, corre da labuta direto para o teatro. É nos palcos que Renata fica mais à vontade. É lá também onde sua história de vida é contada. Seu monólogo Dentro de mim mora outra é o enredo de um ser humano que nasceu Ricardo e depois de transformações, renasceu como Renata. Hoje ela não se considera travesti e nem transexual, apenas, Renata. Uma cabeleleira/ agente de prevenção/atriz/roteirista e diretora, que recentemente fez seu mapa astral e confirmou o que já sabia: que nasceria em um lar sem amor. Por isso, luta para que outros não passem pelo que ela passou.


Fotos: Thalle s Galvão

, ira, Taine Miaki ce ar p a su e a Renat santos as do centro de ru as em rr co er p ativos e lubrifi rv se re p o d an ois entreg programa. Dep e d s as ot ar g a Saúde de Santo e d cantes par a ri ta re ec S rios para a montam relató

Como você se tornou agente de prevenção? Na verdade foi uma coincidência. Eu conversava com um amigo na Praça dos Andradas, quando apareceu outro conhecido dizendo que a Secretaria de Saúde procurava agentes de prevenção. Já fui me envolvendo na conversa e perguntei se poderia levar um curriculo também. Moral da história: eu levei e meu amigo não. Então, desde 2007 atuo na prevenção de DST’s. Eu fui porque o serviço oferecia uma ajuda de custo. À medida que fui entendendo um pouco do trabalho do agente de prevenção me engajei de verdade no movimento LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais e Transgêneros) A agência de prevenção foi então uma porta de entrada para a militância LGBTT? Isso me proporcionou a ida à 1ª Conferência Nacional LGBT, em Brasília, e a outras reuniões, em que eu pude ter contato com pares minhas que buscam polí-

6 | ENTREVISTA

ticas públicas para a classe. Além disso, eu percebi que hoje o meu maior canal de militância é nos palcos. É no teatro que eu conscientizo as pessoas e coloco a questão da transexualidade em evidência. O que vocês fazem na agência de prevenção? Além do trabalho, na rua, participamos de palestras, encontros e fóruns voltados à prevenção de DSTs. Existem programas dirigidos aos públicos LGBTT, prostitutas, terceira idade, etc. Portanto, estou direcionada a atender travestis e transexuais por conta da facilidade de aproximação com esses grupos. Duas vezes por semana percorro as imediações da rua Amador Bueno e do cinema pornô Júlio Dantas, entregando camisinhas, géis lubrificantes e folhetos. Nós também sanamos dúvidas e prestamos informações sobre sexo seguro. Também existe um encaminhamento ao Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) para o tratamento de DSTs.


Por que o agente de prevenção é tão importante? Para prevenir. Tentamos conscientizar, orientar e informar sobre a importância do uso da camisinha. Existe um pensamento compartilhado por muita gente de que o portador de HIV tem o coquetel como salvação. Com isso, a prevenção vem sendo deixada um pouco de lado. Hoje em dia o sexo está muito banal. Um relacionamento de duas semanas já é considerado sério. Então os parceiros já param de usar camisinha e só usam o anticoncepcional. A gravidez é um dos menores problemas. As doenças é que são ruins. Muitos pensam que a AIDS é uma peste gay e que os heterossexuais estão livres. Não existe grupo de risco, mas sim comportamento de risco. Santos já foi considerada a capital da AIDS. Você que faz parte do combate à doença, como vê a situação atual da cidade? Quando se combate alguma coisa, ela fica em evidência. Na época em que Telma de Souza era prefeita, a cidade foi pioneira no combate à AIDS. Nós continuamos nessa luta, só que com outras dificuldades, como a banalidade. A mídia já não dá o mesmo espaço para esse assunto. Acho que o trabalho dos agentes de prevenção deve ser intensificado, com mais pessoal e valorização. Como a Comissão Municipal de Diversidade Sexual atua no âmbito de políticas públicas voltada à comunidade gay? Eu faço parte dela, mas estou saindo por conflito de agenda. A comissão não

AIDS em Santos

52%

Entre 2000 e 2013 houve uma queda de nos diagnósticos de AIDS na cidade Fonte: Prefeitura Municipal de Santos

é deliberativa. Ela discute propostas e as leva para a Secretaria de Defesa e Cidadania. Agora, por exemplo, está em pauta a programação e organização da Semana da Diversidade que ocorre em novembro. Mas existem outras discussões, como a luta pelo direito ao nome social, a instalação de um ambulatório para travestis e transexuais no hospital Guilherme Álvaro. A função da Comissão é cobrar políticas públicas voltadas a esse grupo e fazer como que ele seja enxergado pelo governo.

Faltam oportunidades. Basta perguntar: você já foi a alguma clínica em que a secretária era transexual ou travesti? algum mercado? loja? restaurante? ninguém contrata.

Santos cumpre seu papel ao trazer políticas públicas para a população LGBT? Não. A única política LGBTT na cidade é ligada a AIDS. Existem outras vertentes, como a lei do nome social, mecanismos de

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novos casos registrados em 2010 novos casos registrados em 2011

97 novos casos registrados em 2012 99 novos casos registrados em 2013

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Foto: Thalles Galvão

E aí eu fiz tal coisa e disse tal coisa blá.

Fulano de tal, profissão Além do trabalho como agente de saúde, Renata trabalha como cabeleireira de terça a sábado

8 | ENTREVISTA

Arte: Rom Santa Rosa

conscientização no tratamento de tranVão vetar projetos e sexuais, acompanhamento, ações para o leis. A PLC 122 (lei que mercado de trabalho, entre outras. criminaliza a homofobia) é semComo é o mercado de trabalho para os pre retirada da travestis e transexuais? pauta. A Muita gente me diz que eu sou diferen- Lei João te porque eu não faço programa. Na ver- W.Nery dade, eu optei por não fazer. Cada um faz (direito o que quiser com o seu corpo. O que eu à idenacho é não deve ser a única opção. E aca- tidaba sendo porque muitos gays são expul- de de sos de casa e precisam sobreviver. Faltam gênero) oportunidades. Basta perguntar: você já dificilfoi a alguma clínica em que a secretária mente era transexual ou travesti? algum merca- será aprodo? loja? restaurante? ninguém contrata. vada. Essas pessoas acham Você acha que falta algum representan- que a família te político para a causa LGBTT? só existe de uma Existe o Jean Willis (PSOL). Mas é pou- forma. O que me co. Os LBGTTs não votam em LGBTTs. deixa mais indigNão sei o porquê. Ainda por cima, a po- nada é que eles pulação acabou de eleger a assembleia colocam pedófilos e mais conservadora desde 1964. Daqui a LGBTTs no mesmo pouco o Congresso vai ser uma missa ou patamar, como se um culto. Ninguém é a favor do abor- fosse a mesma coito, mas poucos sabem que ele é a quinta sa. Isso é sujo. Eu sou maior causa de mortalidade materna no absolutamente contra Brasil. É uma questão de saúde pública. a pedofilia. Ela é um Os parlamentares não querem nem dis- mal que permeia tocutir um assunto desses por causa de re- das as classes sociais, ligião. inclusive na igreja. ‘Só porque existe na De que maneira a bancada mais conser- igreja, nós vamos vadora deve interagir com os gays? condenar todos os


Foto: arquivo pessoaç/eduardo amaro

Um dos papéis interpretados por Renata na peça itinerante Projeto Bispo é a de uma prostituta rejeitada pelos clientes por ser travesti, no Festival Mirada, 2014

religiosos?’ Não é por aí, né. É muito a ferro e fogo.

esse ‘fardo’ de mostrar a cara, talvez a próxima transexual tenha mais liberdade.

O que falta para mudar essa mentalidade preconceituosa? Cada um cuidar da sua vida. Tem gente que se preocupa mais em saber do vizinho do que de si próprio. Porque a grama do vizinho sempre é mais verde ou por ter uma vida muito infeliz para querer viver a do outro. Um país só muda com educação e outras duas coisas que transformam o ser humano: a arte e o esporte.

Como nasceu o Dentro de mim mora outra? Fui selecionada pelo Programa de Aceleração a Cultura (PROAC), dentro da categoria LGBT. Com isso contratei um dramaturgo e um diretor para elaborar o monólogo. Mas agora estou tomando posse da minha vida e do meu monólogo. Quem melhor para contar a história da minha vida do que eu mesma? Então hoje estou terminando uma nova versão do texto e vou passar a dirigir o Dentro de mim mora outra.

O que o teatro representa na sua vida? É no teatro que eu vou me curar do que me tiraram. É lá que a minha militância é mais forte. Sou transexual e tenho uma peça que conta a história de minha vida (Dentro de mim mora outra). Então, levar esse tema para pessoas que não estão acostumadas a ter contato com travestis e transexuais é ótimo. No monólogo, conto as dificuldades de ser uma transexual. É uma história humana. Se eu tenho que carregar

É no teatro que eu vou me curar do que me tiraram. É lá que a minha militância é mais forte.

Como é participar de um evento como o Festival Ibero-Americano de artes Cênicas de Santos, o Mirada? Esse ano foi a segunda vez que participei do Mirada. Em 2012, com do espetáculo das Noivas de Nelson, As Rodriguianas. Eu era uma das noivas. Esse ano, o Projeto Bispo foi convidado para participar do Mirada. Foi uma experiência ótima, um divisor de águas na minha carreira de atriz. Quais são os próximos passos na sua carreira? Estou tentando colher os frutos do Mirada. Vou reestrear meu monólogo em dezembro em São Paulo e Recife em janeiro. Além disso, estou ensaiando para uma peça que venceu o Facult (Fundo de Assistência à Cultura), chamada Projeto Zona.

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Diga ao B

que

Elas deixaram seus países de origem para viver uma história de amor em terras tupiniquins. Nem o idioma diferente e as dificuldades foram motivos para voltar. Afinal, quem disse que é só brasileiro que não desiste nunca? Texto: Juliana Duarte

Você teria coragem de abandonar seu país para começar do zero em outro, desconhecido? Segundo dados do Censo Demográfico divulgado pelo Instituto Brasileiro Geográfico e Estatística (IBGE), 431.319 gringos deixaram seus países, em 2010, e passaram a viver longe de seus amigos e familiares para dar um start over no Brasil, de olho nas oportunidades novas de emprego ou até mesmo em uma aventura romântica. Foi em 2011 que a italiana Ilaria Mutti, 32 anos, se juntou ao grupo dos aventureiros que decidem cruzar o oceano em busca de novas emoções. Com o término do casamento de um ano, ela fez a maior loucura de sua vida – ou, pelo menos, a maior loucura aos olhos dos outros: deixou uma vida boa, família e amigos em Milão, na Itália, para viver uma história de amor no litoral de São Paulo. O romance com o rapaz de Guarujá teve início na internet, quando Ilaria ainda

10 | COMPORTAMENTO

estava casada. E só saiu da friendzone após o divórcio. “Nós éramos amigos, frequentávamos o mesmo site com o objetivo de melhorar o inglês, mas não tínhamos nada. Foi tudo por acaso”. O contato com idiomas era comum para Ilaria, que diz ter facilidade para aprender línguas. O sotaque, quando fala em português, é quase inexistente e o físico magro, o cabelo curto castanho e os olhos da mesma cor passam longe do estereótipo de gringa. Quem a vê não imagina sua trajetória. Entre o fim do casamento e o começo do namoro, Ilaria viu a oportunidade de transformar na prática o sonho de mudar de país. O desejo, conta ela, vem de novinha, já que aos 19 anos saiu de casa para morar em Roma. “Foi um baque para meus pais, mas vir para o Brasil foi cem vezes pior”. OUTRO CASO DE AMOR Também foi por amor que Sonia Gabilly, 38 anos, deixou a cidade de Limoges na


Brasil

França em 2008. O sentimento não era por alguém, mas sim pelo Brasil. A francesa participava de um grupo de capoeira na França e foi a arte de rodopiar e dar cambalhotas com ginga e estilo que a introduziu na cultura brasileira. Como o emprego de publicitária estava muito cansativo, Sonia resolveu tirar férias no Brasil. “A ideia era ficar três meses em Santos, mas não saí daqui até hoje”. A paixão pelo país é tanta que ela não pensa em voltar tão cedo para a cidade natal. “Às vezes dá saudade, acordo com vontade de comer o almoço da minha mãe, mas passa”. Vencer a saudade era um dos maiores desafios no começo. “Foi assustador, mas todos me apoiaram. Acho que cumpri meu desafio”. De bom humor, diz que até se sente ‘abrasileirada’. “Lá na França o pessoal é muito negativo, ao contrário dos brasileiros. Com o tempo eu fiquei assim também”. A ‘gringa’ conta que consegue se camuflar bem entre as brasileiras. “Só percebem que não sou daqui quando abro a boca”, brinca sobre seu sotaque forte. Atualmente, ela trabalha como professora de idiomas e tradução. De cabelos escuros, óculos de sol e saia longa, a francesa se sente em casa na praia do José Menino, em Santos. Ela confessa que uma de suas paixões é o calor e até comenta que no início esperava que o clima fosse assim todos os dias. “Quando cheguei cheguei não parava de chover. Fiquei uma semana presa em casa”.

Juliana Duarte

fico! Sônia saiu da França para viver uma história de amor com o Brasil

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Arquivo pessoal

A italiana Ilaria, 32, cruzou o oceano atrás de um romance. Hoje está casada e leciona línguas A VIDA NO BRASIL Lecionar idiomas foi a saída para Ilaria. Apesar de conhecer bem a língua portuguesa, ela conta que alguns alunos não gostam da ideia de aprender com uma estrangeira. “Dar aula é legal, mas financeiramente não compensa muito. Quero mudar, tentar algo na área do porto. Estou até fazendo alguns cursos”. O romance que começou com o caiçara de Guarujá durou dois anos e a história de Ilaria com o Brasil quase terminou junto. Sem laços no país, a italiana sentiu vontade de voltar para o aconchego da família. Ela, que é filha única, tinha emprego garantido no negócio imobiliário dos pais, onde trabalhou por sete anos. Mas não desistiu de viver em

solo brasileiro. “Não interessa o que acontece, bola pra frente. Sei que terei dias melhores”, diz confiante.

Acho que cumpri meu desafio.

Sonia Gabilly, tradutora Ela descreve a experiência como um desafio. “No início é a empolgação. Então vem a dificuldade e um certo arrependimento. Se essa fase passa, ou você volta para seu país ou fica e se acostuma com as coisas”. A estadia de Ilaria no Brasil se deu em grande parte

12 | COMPORTAMENTO

graças ao atual marido, com quem namorou por três meses e está casada há um mês. “Quando você começa a ter uma vida, criar laços, é diferente”, compara. Os laços a prendem no país por enquanto, mas ela ainda não sabe onde o futuro a levará. “Hoje em dia me vejo aqui no Brasil, mas não sei dizer se é pra sempre. Eu me importo muito mais com os afetos que com os lugares. Para mim, a minha casa será sempre a Itália”. Mesmo com toda sua trajetória, Ilaria se sente atrasada com relação às outras mulheres. “Às vezes vejo minhas colegas de escola com filhos e casadas, tudo certinho. Mas não sou certinha, não consegui achar meu caminho. Acho que tenho muita coisa para fazer e viver ainda”.


Mais cor, por favor!

Elas apertaram o pause para o preto e o loiro e se aventuraram no rosa, azul, verde, roxo, laranja...

Para manter Tonalizante rosa - Keraton Colors Preço sugerido: R$19,90 Larissa Nicolette, 18, Atibaia/SP

Máscara Moroccanoil Preço sugerido: R$366,88

Linha Brain Chroma Captive - Kerastase Preço a consultar Daniela Zimmermann, 19, Porto Alegre / RS

Óleo de argan - Linoar Preço sugerido: R$58,90

Shampoo Delicate Color L’Oreal Preço a consultar Victoria Franz, 20, Mogi das Cruzes / SP

BELEZA | 13


EU TENHO A

FOR

ÇA

Mirian Fernandes tem 46 anos e é a mulher mais forte do mundo. Sem se importar com os estigmas impostos pela sociedade, ela mostra que ter músculos não é sinônimo de falta de feminilidade


Texto: Priscilla Kovacs Fotos: Priscilla Kovacs e Arquivo Pessoal


N

a rua, os olhares todos convergiam para ela. Motoristas curiosos desaceleravam para conseguir ver detalhadamente e de mais perto. Alguns chegavam mesmo a parar e fingiam que era para prestar atenção ao cruzamento. Outros nem se preocupavam em disfarçar, afinal não é todo dia que se depara com um “manequim” tão robusto: são 63cm de coxa, 37cm de bíceps, 58cm de costas e um metro e meio na circunferência do glúteo. Tudo isso distribuído em 1,60 metros e 74 quilos. Assim é Mirian Fernandes, de 46 anos, a mulher mais forte do mundo. Eram 4 horas da tarde de uma sexta-feira e depois de me perder entre as ruas de Guarujá, no litoral paulista, enfim tinha encontrado a casa de Miriam, com quem passaria horas conversando. “Seja bem-vinda, Pri. Não repara no meu cafofo. É humilde, mas é aqui que eu vivo”. Assim que ela me recebeu em sua casa, no bairro Vila Santa Rosa. OVOS E MÚSCULOS De shorts jeans, agarrados às suas enormes coxas e blusinha regata florida, que deixava todos os músculos do braço à mostra, ela me conduziu até a sala da casa. Passando pela mesa da cozinha, já era possível perceber as dúzias de ovos que, imaginei, deveriam fazer parte de seu cardápio diário. Na mesa da sala, troféus e medalhas estampavam as vitórias da semana anterior à visita. Esbanjando simpatia em meio ao resquício de um sotaque carioca, a atleta, atual campeã brasileira de powerlifiting e de strongman e campeã sulamericana de levantamento básico, me recebeu como se nos conhecêssemos há anos. Logo nos sentamos no sofá da sala e começamos a conversar como duas velhas amigas. O papo foi acompanhado pelo marido de Mirian, Anderson Teixeira, 46 anos, que tirou o volume do som da TV, de modo a facilitar a entrevista. A conversa inicial não durou muito, logo chegou a hora da fisioterapia. Mirian trabalha de segu-


rança no prédio da Receita Federal de Santos e, ironicamente, machucou a mão direita enquanto carregava um carrinho no horário de trabalho. Agora ela trata a parte do corpo que mais utiliza diariamente para levantar barras e pesos: as mãos. CENTRO DAS ATENÇÕES Fomos juntas à fisioterapia e no caminho de volta para casa pude presenciar o “frisson visual” que Mirian causa por onde passa. Engana-se quem pensa que os olhares curiosos a constrangem. “Eu adoro o espanto das pessoas. ‘Ó, meu Deus, que mulher forte!’; ‘Será que é uma mulher ou um homem?’ Ver as pessoas se cutucando na rua me fortalece, pois sei que estou conseguindo o meu objetivo: provar para mim mesma que eu sou feliz do jeito que eu sou e que independentemente do que as pessoas pensam, eu continuo

gostando do que eu faço”. Desde os 14 anos, a atleta é adepta da academia. No começo, o intuito era apenas manter o corpo em forma. Aos 39 anos, porém, um convite mudaria o rumo dos treinos. Postando frequentemente fotos em seu Orkut, ela foi convidada para desfilar de biquini em um evento de moda fitness. Foi quando Miriam ficou maravilhada com duas fisiculturistas que também desfilariam e decidiu que iria aumentar as cargas de treino. “Eu vi aquilo e fiquei encantada. Aí, então, fui atrás de uma academia que pudesse me auxiliar”, relembra. Dentro do mundo fitness existem diversas categorias (ver quadro). Mirian começou no fisiculturismo, passou pela wellness, body fitness, body building e, por fim, se encontrou no po werlifting. Afinal, não basta ter músculos e trabalhar o corpo. É preciso ter força, muita força.

CONHEÇA MAIS A MODALIDADE > Fisiculturismo Bikini Fitness - Baixo percentual de gordura corporal e baixo volume muscular. Wellnes - Volume muscular sem exageros e sem cortes musculares profundos. Reúne mulheres pouco mais “saradas”. Body fitness - Pouco volume muscular e definição sem marcações profundas obedecendo um shape longilíneo “V”. Women’s Physique Corpo não tão musculoso, ainda atlético e esteticamente agradável. Body building - Grande volume da massa muscular com definição e profundidade. Densidade, proporção entre tronco e membros inferiores e simetria entre o lado direito e esquerdo. > Provas de força: Powerlifting - Também chamado de levantamento básico, mede a força e é composto por três exercícios: supino, levantamento terra (do chão) e agachamento.

Mirian treina pesado diariamente em busca de títulos

Strongman - Também conhecido como atletismo de força, os competidores buscam demonstrar sua força numa série de testes, de diferentes formas.

PERFIL | 17


“Eu me apaixonei! O esporte pede uma preparação bruta, um treinamento intenso. E tudo ligado à força me fascina”, explica ela, que atualmente detém os recordes mundiais de todas as categorias da modalidade. No supino, sua marca é de 95 quilos, o equivalente a uma moto Biz. No agachamento e no levantamento terra (do chão) Mirian levantou 200 quilos. DISCIPLINA Para conseguir chegar ao corpo e músculos perfeitos, a alimentação de Mirian consiste basicamente em ovo, batata doce, peito de frango e arroz integral. Mas ela garante que não teve dificuldades em se adaptar à dieta, já que desde pequena não era muito fã de “besteiras”. Doces, nem pensar. Aliás, de vez em nunca, ela revela, cede às pressões. “Às vezes, quando estou, digamos, na TPM, eu digo ‘Anderson, me socorre’. Então ele me traz uma caixa de chocolate. Eu me acabo!”, comenta aos risos. A rotina de Mirian começa cedo, às 5 horas. Atualmente sua vida é dividida entre os treinos, o emprego e as aulas do segundo ano de educação física na Unaerp, em Guarujá. “É um sonho antigo que só hoje estou tendo a oportunidade de realizar”, orgulha-se. Ainda que ame o que faz

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Mirian com seu maior fã e incentivador, seu marido Anderson

A gente nasce sozinho, mas ninguém vive sozinho

e tenha certeza de que é isso que quer, Mirian garante que não incentiva ninguém a ficar forte. “Acho que vai de cada um. Cada um tem um objetivo, um limite. Eu tenho meu objetivo, minhas vontades e faço aquilo que me convém”. Diante de uma mulher de tamanha força, engana-se quem pensa que ela não tem fraquezas. Mesmo com tantos títulos, Mirian ressalta a falta de um patrocínio, que hoje é sua maior dificuldade. E mais, assume que um de seus pontos fracos é não conseguir pedir auxílio. A única ajuda

que recebe hoje é da Academia VertClub e da loja de suplementos Marcello’s Nutrition. “A gente nasce sozinho, só que ninguém vive sozinho neste mundo, mas eu não consigo pedir ajuda. Me sinto mal fazendo isso”, explica a mulher cheia de títulos. FORCINHA DO ORKUT Nascida em Natal (RN) e criada no Rio de Janeiro, Mirian aportou em Guarujá há quatro anos. Tudo por uma história de amor que começou na Internet. Recém-separada e com dois filhos, Mirian começou a conversar com Anderson pelo Orkut. Foram seis meses de conversa sem que ela tivesse visto sequer uma foto do correspondente, até que veio um telefonema surpresa. “Adivinha onde estou?”. Daí para o encontro com o Anderson, que já estava com-


prando passagens para o Rio de Janeiro, foi questão de horas. “Cheguei ao aeroporto e não fazia ideia de como ele era. Para completar, os olhares das pessoas estão sempre voltados para mim”, relembra ela, referindo-se ao assédio visual que sofre por todos os lados onde vai. Perdida, Mirian recebeu uma ligação dele, dizendo que estava bem à sua frente. “Demos um beijo de uns 40 minutos. Sabe quando você não quer mais soltar a pessoa?”. DE CABEÇA Depois de idas e vindas entre Guarujá e Rio de Janeiro, ela decidiu arriscar a vida no litoral paulista. Foi então que, ao lado de Anderson, se jogou de cabeça no que sempre quis fazer. Quem vê essa mulher forte e autoconfiante atrain-

do olhares e desviando a atenção dos motoristas não é capaz de supor que dez anos atrás Miriam levava uma vida completamente submissa. No período em que ficou casada com seu primeiro marido, ela confessa que viveu uma vida que não era dela. Trabalhando na rádio do então marido, não conseguiu fazer a faculdade que sempre sonhou: educação física. Além disso, só passou a treinar da maneira que queria após a separação. Quando decidiu largar tudo e escolher o Guarujá para viver, a atleta contou com o apoio total dos dois filhos, Ingrid e Júnior, frutos do relacionamento. “Eles sabiam que isso me faria mais feliz”, observa. Mirian acredita que foi em Guarujá que ela realmente se encontrou e passou a viver a vida na qual

Patrocínio da loja Marcello’s Nutrition ajuda na sua suplementação

Em 2012, quando sagrou-se campeã paulista de fisiculturismo

se enxerga. “Há alguns anos eu era uma pessoa que sempre abaixava a cabeça, me importava demais com o que as pessoas diziam”, relembra. “Depois que eu comecei a treinar, me separei, vim para o Guarujá e conheci o Anderson, passei a perceber que você é aquilo que quer ser“. Hoje, Mirian já é avó de Caio Ricardo, de 4 meses. Apesar da distância, o brilho nos olhos quando fala do herdeiro é evidente. Centro das atenções por onde passa, a figura de Mirian desmistifica os estigmas que envolvem a imagem de uma mulher musculosa. “As pessoas ainda têm preconceito de mulher forte: ou é sapatão ou toma bomba. É um termo que eu odeio. A gente tem que ouvir e fingir que não está ouvindo”.

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Fique por dentro dos lançamentos literários de 2014 que estão fazendo sucesso e alavancando vendas

Se eu ficar

Fotos: Divulgação

Autor: Gayle Forman / Editora: Novo Conceito Categoria: Ficção / Preço Médio: R$ 18,00 Sinopse: Mia Hall acreditava que a decisão mais difícil que enfrentaria em sua vida seria ter que escolher entre seguir seus sonhos na escola de música ou seguir um caminho diferente com o amor de sua vida, seu namorado rebelde, Adam. Mas quando o que deveria ter sido um passeio despreocupado de família, muda tudo em instantes, e agora sua própria vida está em jogo.

Seis Anos Depois

Autor: Harlan Coben / Editora: Arqueiro Categoria: Suspense / Preço Médio: R$ 29,90 Sinopse: Passaram seis anos desde que Jake Fisher assistiu ao casamento de Natalie, o amor da sua vida, com Todd Sanderson. Seis anos durante os quais cumpriu a promessa que lhe fizera de não voltar a procurá-la ou contactá-la. Mas quando, por mero acaso, Jake se depara com a morte de Todd, e encontra uma viúva diferente e logo descobre que o casamento de Natalie e Todd não passou de uma farsa.

A menina quebrada

Autor: Eliane Brum / Editora: Arquipélago Categoria: Comunicação / Preço Médio: R$ 28,30 Sinopse: Nas colunas da repórter Eliane Brum, a vida pode ser tudo, menos rasa. A cada segunda-feira, os leitores encontram um olhar surpreendente sobre o Brasil, sobre o mundo, sobre a vida a de dentro e a de fora. Este livro reúne seus melhores textos e dá ao leitor uma fotografia do nosso tempo, visto pelo olhar de uma repórter que observa as ruas do mundo disposta a ver. E que escreve para desacomodar o olhar de quem a lê.

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...e para ver Lançamentos e filmes que merecem ser lembrados com histórias para todos os gostos e idades

Fotos: Divulgação

Garota Exemplar (2014)

Direção: David Fincher/ Distribuidora: Fox Film Gênero: Drama / Elenco: Ben Affleck e Rosamund Pike Sinopse: Na época de seu quinto aniversário de casamento, Nick Dunne (Ben Affleck) avisa a polícia que sua linda mulher, Amy (Rosamund Pike), está desaparecida. Sob pressão da polícia e da imprensa, a imagem desse casamento perfeito começa a desmoronar. Logo suas mentiras e seu comportamento estranho fazem todo mundo começar a perguntar: Será que Nick Dunne matou sua mulher?

Comer, Rezar, Amar (2010)

Direção: Ryan Murphy / Distribuidora: Columbia Pictures Gênero: Romance / Elenco: Julia Roberts Sinopse: Liz Gilbert (Julia Roberts) tinha tudo o que uma mulher moderna pode sonhar – um marido, uma casa, uma carreira bem-sucedida – ainda sim, como muitas outras pessoas, ela está perdida, confusa e em busca do que ela realmente deseja na vida. Recentemente divorciada, Gilbert sai da zona de conforto, arriscando tudo para mudar sua vida, embarcando em uma jornada ao redor do mundo em uma busca por auto-conhecimento.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004)

Direção: Michel Gondry / Distribuidora: Focus Features Gênero: Drama/ Elenco: Jim Carrey e Kate Winslet, Sinopse: Ao descobrir que sua ex-namorada se submeteu a um tratamento experimental para apagá-lo de suas lembranças, Joel decide passar pelo mesmo processo. Porém, durante a experiência, ele percebe que não quer esquecê-la.

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A MALDIÇÃO

DOS CABELOS PRESOS Texto por Thalles Galvão

Mulher é um bicho peculiar. Talvez seja por esse motivo que gostemos tanto delas. Desde já, adianto que a característica mais detestável elas possam almejar – em um lapso de insanidade – é a generalidade. As normais sabem disso. Por exemplo: é comum ouvirmos numa tentativa de ofensa no grupo feminino, a utilização do termo “ordinária”. Esse adjetivo é o mais pejorativo para uma mulher que se preze, por isso que elas o usam para difamar umas as outras. Existe uma característica comum nas mulheres comuns. Elas fingem que não dão a mínima para seus próprios cabelos. Preferem se torturar deixando a escova e o secador de castigo. Mas o pior vem a seguir: Conceba a ideia de que alguns inescrupulósos fantasiados de machos ordenam que as mulheres escondam as madeixas. Veja que loucura! Tem um pessoal do outro lado do mundo com sérios problemas. Deve ser por isso que eles vivem fazendo guerra... Do lado de cá, nas Terras Tupiniquins, tem uma nova celebridade que sofre do mesmo problema. É obrigada a encarceirar fios e mais fios de cabelo. Antes de tudo, registro aqui a minha abstenção política e isenção partidária – até porque temos um assunto muito mais importante em voga. Trata-se da candidata à presidência da República, Marina Silva (PSB), na qual tomo a liberdade de chamá-la pelo seu nome de batismo Maria Osmarina, ou pra ficar mais bonito, só Maria. Não é dúvida para ninguém

que Maria é uma moça nem um pouco ordinária. A começar pelo fato de que é oriunda do estado mais nebuloso dessa Pátria Amada, o Acre. O que talvez tenha corroborado nessa tentativa de aparência sisuda. Legendas e ideologias a parte, aposto que qualquer homem que se preze é curioso o suficiente para imaginar a Maria mulher. De antemão, já aviso qual é o problema desse quadro: o cabelo preso. Se você olhar bem na Constuição Federal, de 1988, é possível encontrar um trecho que claramente proíbe as mulheres de prender o cabelo. Bom, se não tem, deveria ter. Aos que replicam que isso se deve à idade, triplico, no alto de seus 56 anos ela continua sendo uma mulher. E como dito anteriormente, a legislação não permite isso. Como política, ela deveria saber. Na verdade, ela sabe. Quando solta as madeixas, vira Maria de verdade. Esqueça o proselitismo, elas nasceram para serem extraordinárias, lépidas. No Palácio no Planalto ou entre quatro paredes, o cabelo deve ser solto. Isso se estende a todas, inclusive àquela de cetro e capa vermelha. Existe uma frase de um escritor carioca que diz que “nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais”. No sentido mais luxurioso da expressão, é esse o sentimento reprimido que Maria e tantas outras insistem em comedir. No fundo, eu e ela sabemos que essas mulheres não enganam a ninguém e que se corroem no âmago. Loucas para soltar o cabelo.

CRÔNICA | 23


TEM MEDO QUEM

do feminismo?

Já começo desmembrando o questionamento que é a porta de entrada para este texto: Quem tem medo do feminismo? Ah, mas fique tranquilo. Não precisa responder. Não agora, pelo menos. Pode guardar a sua resposta para a última frase do derradeiro parágrafo. Não tenha pressa. Pode pensar e refletir. Tudo com muita calma. Então, voltando. Quem tem medo do feminismo tem medo da luta diária das mulheres. Tem medo daquelas que se rebelam. Tem medo daquelas que gritam CHEGA! Daquelas que não aguentam mais carregar tantas correntes. Daquelas que se libertam das correntes que as aprisionam. Daquelas que ajudam umas às outras. Quem tem medo do Feminismo tem medo do sol amanhecer bem mais lilás ou, como mais gosto de enfatizar, ‘‘roxo feminista’’, minha cor preferida. Quem tem medo do Feminismo tem medo de ter a sua hegemonia surrupiada. E quem tem esse medo, mal sabe que Feminismo não é sobre hegemonia. E nunca será. O Feminismo é sobre equidade de direitos. É sobre liberdade. É sobre poder. Mas, que fique bem claro, o poder aqui mencionado é das mulheres para e com as próprias mulheres. O poder que cada uma deve ter sobre si mesma. Sobre o seu corpo. Sobre, principalmente, suas escolhas.

Quem tem medo do Feminismo ainda ousa ter medo de uma mulher andando faceira na rua, tão dona de si. Quem tem medo do Feminismo espera o silencio e ouve o som da salvação. Quem tem medo do Feminismo faz cara feia para a jovem mulher que diz, em letras garrafais, não querer ser mãe. Quem tem medo do Feminismo não suporta a mulher mais velha que escancara a sua sexualidade, sem se sentir errada ou imprudente. Quem tem medo de Feminismo se contorce de frustação com a mulher, que mesmo violentada, sabe que a culpa nunca foi sua. Quem tem medo do Feminismo são aqueles mesmos que soltam estupradores e algemam as vítimas. Quem tem medo do Feminismo tem muito medo de uma mulher Presidente da República. Que são os mesmos que têm medo de uma jovem, lá do Oriente Médio, que teve a ‘‘a audácia’’ de um ganhar um Nobel da Paz. Quem tem medo do Feminismo tem medo de Malalas, Dilmas, Julianas, Robertas, Vitórias, Marias, Danieles, Nayaras, Lorenas, Ingrides, Carmens, Marianas, Priscilas, Patrícias, Vanessas, Gabrielas, Saras, Letícias, Cynthias... Enfim, que tem medo do Feminismo, tem medo de todas nós. Mas o nosso recado é simples e direto: Quanto mais vocês mostram que têm medo, mais nós mostramos que não sentimos medo algum.

Herlene Santos é estudante de Jornalismo na Faculdade Cearense (FaC) e autora de dois blogs especializados em sociedade, feminismo e comportamento, além de ser aprendiz de feminista petulante. Contato: herlene_santos@hotmail.com

24 | OPINIÃO


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Revista Aquela  
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