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A reflexão e a criatividade As vezes música não tem nada a ver com música mas tem a ver com fotografia, política, história e o desejo de mudar o mundo

Procura-se curiosos

Onde estão as pessoas questionando ?

O que as escolas não ensinam mas todos deveriam aprender...

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arte ciência tecnologia comportamento

Perspetiva - Edição 1 - 2013

R$15,00


Graficamente, a revista reforça este conceito através do uso de uma tipografia moderna sem serifa para textos longos. Há o uso de uma palheta de cores especifica, baseada principalmente em cores associadas a tecnologia.As colunas de texto são mais soltas, e há a presença de espaços em branco.Estes espaços servem como uma pausa/descanso de forma que o conteúdo escrito, que é mais profundo, possa ser melhor assimilado no tempo de leitura. Espero que esta primeira edição possa trazer ao leitor diversos questionamentos sobre o mundo que o cerca - E que a leitura seja prazerosa. Thaís Gioia

Perspetiva - Edição 1 - 2013

Editorial

A revista perspectiva pretende trazer ao leitor uma visão madura e pensada sobre arte, tecnologia e comportamento.É voltada para um público mais adulto, que possue poder de influenciar a sociedade.A revista aborda assuntos de interesse do universo masculino.Seus conteúdos envolvem senso crítico e inovação.


Sumário

Verdades

Procuram-se curiosos............................................................8 Os Fazedores de Pano da Apple............................................10 Público disposto a ler, independente do tamanho................13 O futuro vai muito além dos botões de compartilhar............16 O Brasil recebe conferência mundial de física ......................19 Brasil aposta na produção de remédios e vacinas ...............22

Inovação

App-book ensina crianças misturando storytelling...............25 O fim da polarização política?..............................................27 E se você colocasse seus dados pessoais à venda?..............31 O que a internet está fazendo com o nosso cérebro?............33 A opinião dos outros............................................................36 Teve uma ideia? Problema seu!............................................38

Reflita

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O que as escolas não ensinam............................................42 Eu não queria fazer dinheiro, queria provar minha teoria.....46 A Reflexão e a Criatividade..................................................56 O excesso de conteúdo ganhou da atenção. De novo..........62 Quando o velho ajuda o novo e vice-versa...........................66 As máquinas que mudam nossos hábitos...........................68


Edição Julie Pires Design Thaís Gioia

Criativo

Fotografia 123RF

Franquia de idéias............................................................94 Como Eles sabem o que você quer ver..............................97 Algumas vezes música não tem nada a ver com música...100 Você não está no comando.............................................104 Visão além do alcance....................................................109

Ilustração Thaís Gioia Tratamento de imagem Elizabette Sampaio

A capacidade de readaptação da sociedade ...................72 A próxima geração de placas de sinalização....................76 Sites brasileiros levantam fundos para projetos...............78 Qual é o seu lugar mais privado na cidade?.....................82 As vantagens da tecnologia no ensino das crianças........85 Naufrágio humano..........................................................90

Colaboradores deste número Ana Montez Lívia Figueiredo Guilherme Gomes Gustavo Dornelas Patrícia Carvalho Sandro Saporito

Impressão GráficaDefinir Tiragem 1.000 exemplares Contato contato@revistaperspectiva.com.br

Perspetiva - Edição 1 - 2013

Mundo

Revisão Julie Pires


Reflex達o e a Criatividade A

por Vitor Cabral


Perspetiva - Edição 1 - 2013

Não é novidade que vivemos em uma sociedade desfavorável à criatividade... E, uma vez assumido isso, como fugir dessa terrível inércia? Como isso influência do nosso futuro ?


Reflita

No final de novembro, estive na PUC-SP para o IV Seminário NEMES ( Núcleo de Estudos de Mística e Santidade da Pós-Graduação em Ciências da Religião), que acontece anualmente, encabeçado pelo filósofo Luiz Felipe Pondé. E aquele contexto me fez retomar uma questão importante, geralmente esquecida em nosso cotidiano: a importância do fundamento e da reflexão no ato criativo. Não é novidade que vivemos em uma sociedade desfavorável à criatividade. Burocracia, stress, necessidade de trabalhar nos “moldes que funcionam”… e aquelas reclamaçõesclichê das pessoas no Happy Hour da sexta à noite não deixam de ser verdade. No entanto, habituados com esse modus operandi do nosso cotidiano, nos tornamos nosso maior adversário. Assim, como poder reivindicar a si mesmo criatividade, se, sob uma ilusão de ‘movimento’ estamos, de fato, estagnados?! E, uma vez assumido isso, como fugir dessa terrível inércia? Talvez a história possa nos ajudar.Na trajetória de alguns grandes artistas há dois pontos que sempre me chamaram a atenção: primeiro, eles são profundamente conhecedores da tradição da área escolhida. Buscam, pesquisam, vivenciam e têm uma base sólida. E como desdobramento disso, vem o segundo: eles refletem a respeito da própria criação, de seu próprio entendimento das coisas e sobre o meio onde tudo isso está inserido – como um diálogo entre eles e o mundo.

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Tomemos como exemplo o músico Miles Davis. Conhecido por estar sempre um passo à frente no que diz respeito à inovação, Miles era, antes de tudo, um conhecedor da tradição da música americana e do Bebop, gênero que surgia na época como fundador do que seria chamado “Jazz moderno”. Tamanho era o seu conhecimento sobre o assunto, que trabalhou e gravou com Charlie Parker (um dos criadores, senão “O” criador do Bebop) por alguns anos, e uma vez dominada essa linguagem, passou a moldá-la à sua maneira (com o respaldo de já ser uma referência naquilo em que estava trabalhando) e também a se perguntar sobre as possibilidades ainda não exploradas naquele gênero em ascensão. O resto virou história, ou melhor, ele virou “A” história, tendo lançado as principais vertentes e músicos e sendo considerado o mais original artista de Jazz da segunda metade do Séc. XX.


Perspetiva - Edição 1 - 2013


O primeiro passo – e o mais difícil – é perceber que estamos em um deserto, e não em uma floresta encantada.

O ponto onde quero chegar é: Quão consistente é seu conhecimento a respeito da sua área? Digo, história, conceitos, referências, ligações com outros campos, real compreensão desses outros campos, etc. Outra: Quanto tempo você dedica para nutrir, pela reflexão, o seu processo criativo pessoal e suas implicações (suas limitações, pontos positivos, opiniões externas, seu trabalho em relação a outros profissionais/ artistas, etc)? Talvez aqueles dias em que lhe falta criatividade tenham um


correspondente nessas perguntas. Desperdiçamos tempo para saber qual o último “vídeo mais assistido do Youtube” (que amanhã será outro e o de hoje ninguém lembrará), ou para baixar os 64 discos, contando com os não oficiais, da sua banda preferida, dos quais metade você dificilmente ouvirá, mas esquecemos de olhar para trás, de pesquisar o fundamento das coisas, e para dentro (nós mesmos), o fundamento da nossa criatividade! Um professor, compositor e esteta do século XX chamado Arnold Schönberg, em seu livro “Harmonia” (1911), já alertava sobre o perigo da falta de fundamentação, que ele chamava de “instrução”, “preparação integral” (Durchbildung). Hoje, o excesso de informação, com sua velocidade assustadora, nos priva dessa formação sólida e desse tempo para refletir, ou seja, você acaba não sabendo nada sobre nada, mas já leu sobre tudo. E isso tem um efeito devastador no processo criativo, pois você não tem raiz em lugar nenhum. O fato é que em última instância, nós permitimos que sejamos privados disso. Discordo daqueles que dizem que para ter criatividade é preciso estar 100% “antenado”, vendo as “coisas novas”, até porque faz tempo que não aparece algo realmente novo nesse planeta. E isso, acredito ser uma “mal do nosso tempo”. Uma espécie de “Idade das Trevas” que passamos conceitualmente/artisticamente, fantasiada de “pura criatividade da geração YouTube”. Para mim, ainda hoje, solidificar-se com um olhar voltado para a tradição e para a reflexão é acessar o que há de mais inovador e inexplorado. Seja na Filosofia, na Música ou nas Artes, o passado talvez fale mais sobre o “Ser criativo” que o Facebook. Isso me leva para outra pergunta: O que será da criatividade quando essa geração “Touch Screen-cabeça vazia” crescer?!

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O texto “O fim do Futuro” (The End of the Future) de Peter Thiel (National Review) fala sobre isso de uma maneira global muito interessante e séria.


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Sabemos que o otimismo desesperado não vai nos salvar.

A civilização ocidental moderna se sustenta sobre os pedestais gêmeos da ciência e da tecnologia. Juntos, esses dois campos nos asseguram que a história de progresso ininterrupto do século 19 segue intacta. Sem eles, os argumentos de que vivemos uma decadência cultural – desde o colapso da arte e da literatura após 1945 ao totalitarismo do politicamente correto e aos mundos sórdidos dos reality shows – ganhariam muito mais força. Os liberais afirmam que ciência e tecnologia continuam saudáveis. Os conservadores às vezes dizem que elas são falsas utopias; mas os dois lados concordam que o firme desenvolvimento e aplicação das ciências naturais deve continuar. No entanto, durante a Grande Recessão, que começou em 2008 e ainda não terminou, essas grandes expectativas foram suplementadas por uma necessidade desesperada. Precisamos de empregos bem pagos para nem pensar em competir com China e Índia por empregos mal remunerados. Precisamos de crescimento para preencher as expectativas ilusórias de nossas aposentadorias e nossos fugidios Estados de bem-estar social. Precisamos de ciência e tecnologia para nos tirar do profundo buraco econômico e financeiro, embora a maioria de nós não possa separar ciência de superstição ou tecnologia de mágica.

Sabemos que o otimismo desesperado não vai nos salvar. O progresso não é automático nem mecânico; é raro. Aliás, a história única do Ocidente é a exceção da regra de que a maioria dos seres humanos existiu num estado brutal, imutável e empobrecido por milênios. Mas não há uma lei garantindo que a ascensão do Ocidente vai continuar. Portanto, faríamos bem em analisar a opinião amplamente aceita de que os Estados Unidos estão no caminho errado (e já há algum tempo). Seria bom também perguntar se o progresso não está se saindo tão bem como alardeiam e, talvez, tomar medidas excepcionais para conter e reverter um possível declínio. O estado atual da verdadeira ciência é a chave para saber se há realmente algo de podre nos EUA. Mas qualquer avaliação tropeça em um desafio quase intransponível. Quem poderá avaliar a saúde do universo do conhecimento humano uma vez que muitos campos científicos ficaram complexos, esotéricos e especializados demais? Quando qualquer campo exige metade de uma vida de estudos para que seja dominado, quem poderá comparar adequadamente a taxa de progresso em nanotecnologia, criptografia, teoria das super cordas e 610 outras disciplinas? Aliás, como saber se os chamados cientistas não são legisladores e políticos disfarçados, como alguns conservadores suspeitam em campos tão díspares como mudanças climáticas e biologia evolutiva, como eu vim a suspeitar em quase todos os campos? Por enquanto, vamos reconhecer esse problema de medição, mas não permitir que ele paralise a investigação sobre a modernidade antes de ela começar.


e das muitas pessoas desesperadas que ficaram mais famintas que temerosas.

Confrontado às grandiosas esperanças dos anos 1950 e 1960, o progresso tecnológico ficou devendo. O exemplo mais literal da não aceleração é: não estamos nos locomovendo mais depressa. O aumento da velocidade de locomoção ao longo dos séculos – veleiros cada vez mais rápidos nos séculos 16 a 18, trens cada vez mais velozes no século 19 a carros e aviões no século 20 – foi revertido pela desativação do Concorde em 2003, sem falar dos atrasos em aeroportos. Os atuais defensores de jatos espaciais, férias lunares e exploração tripulada do Sistema Solar parecem vir de outro planeta. Uma desbotada capa de Popular Science de 1964 – “Quem o levará para voar a 3.200 km/h?” – recorda vagamente os sonhos de uma era passada. A explicação oficial para a desaceleração nas viagens gira em torno do alto custo do combustível, o que aponta para o fracasso ainda maior na inovação energética. Os preços reais do petróleo excedem hoje os da catástrofe de Jimmy Carter de 1979-80. O apelo de 1974 de Nixon para uma plena independência energética até 1980 deu lugar ao apelo de 2011 de Obama por um terço de independência de petróleo até 2020.

Não se pode, em boa consciência, encorajar um estudante universitário em 2011 a estudar energia nuclear como carreira. A “tecnologia limpa” virou um eufemismo para “energia cara demais” e, no Vale do Silício, virou também um termo cada vez mais tóxico para maneiras quase garantidas de perder dinheiro. Sem inovações drásticas, a alternativa ao petróleo mais caro poderá acabar sendo não as energias mais limpas e muito mais caras – extraídas de vento e do sol – mas a do menos caro e mais sujo carvão. Para fins atuais, basta notar que 40% da carga ferroviária envolve o transporte de carvão. No caso da agricultura, a fome tecnológica pode levar a uma fome real ao velho estilo. O esmorecimento da verdadeira Revolução Verde – que aumentou em 126% a produção de grãos de 1950 a 1980, mas progrediu apenas 47% depois disso, mal conseguindo acompanhar o ritmo do crescimento da população global – encorajou outra “revolução verde”, esta mais intensamente divulgada e de um caráter mais político e mais incerto.

Os políticos de hoje achariam muito mais difícil persuadir um público mais cético a começar uma guerra comparável contra o mal de Alzheimer – apesar de quase um terço dos americanos com 85 anos ou mais sofrerem de alguma forma de demência. A medida mais crua, que é a expectativa de vida americana, continua aumentando, mas com certa desaceleração – de 67,1 anos para homens em 1970 para 71,8 em 1990 e 75,6 em 2010. Olhando para o futuro, vemos muito menos drogas revolucionárias sendo desenvolvidas – talvez por causa da intransigência da FDA (agência que controla alimentos e remédios nos Estados Unidos), talvez pela inépcia dos pesquisadores de hoje e pela incrível complexidade da biologia humana. Nos próximos três anos, as grandes companhias farmacêuticas perderão cerca de um terço de seu fluxo de receita corrente com a expiração de patentes, de modo que, numa resposta perversa, mas compreensível, elas começaram a liquidação dos departamentos de pesquisa que deram tão poucos frutos na última década e meia.

Podemos embelezar a Primavera Árabe de 2011 como um alvissareiro subproduto da era da informação, mas não deveríamos desconsiderar o papel principal da disparada dos preços dos alimentos Perspetiva - Edição 1 - 2013

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A indústria nuclear e sua promessa de 1954 de “energia elétrica barata demais para se medir” foi derrotada há muito tempo pelo ambientalismo e a preocupações com a proliferação nuclear.

Apesar de a inovação em medicina e biotecnologia não ter estagnado completamente, também há muita redução das expectativas. Em 1970, o Congresso prometeu a vitória sobre o câncer em seis anos. Quatro décadas depois, podemos estar 41 anos mais perto, mas a vitória parece muito mais distante.


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Por exclusão, os computadores viraram a única grande esperança para o futuro tecnológico. A aceleração na informática contrasta dramaticamente com a desaceleração em todo o resto. A Lei de Moore, que prevê a duplicação do número de transistores que pode ser empacotado em um chip a cada 18 a 24 meses, permaneceu verdadeira por mais tempo do que todos (inclusive Moore) teriam imaginado em 1965. Um celular em 2011 tem mais poder de computação do que todo o programa espacial Apollo em 1969. Da perspectiva de Palo Alto, um retorno ao ano festivo de 1999 parece quase dentro do alcance. Tudo que reluz parece ouro. Milhares de novas empresas

de internet são lançadas a cada ano, e as valorizações das empresas web 2.0 aumentaram; e não inteiramente sem razão, talvez duas a seis dessas empresas recém-criadas cruzarão a linha de valorização de US$ 1 bilhão cinco anos depois de sua criação. Afinado com essa nova vida para a nova economia, o Google comandou um movimento paralelo que quase dobrou os salários dos engenheiros de computadores mais talentosos nos últimos três anos. Além dos dólares, basta assistir A Rede Social para ver como o Facebook e seus 800 milhões de usuários captaram o novo espírito da época. A dissociação econômica dos computadores de tudo o mais gera mais perguntas do que respostas, e apenas sugere o estranho futuro para o qual as tendências de hoje caminham. Os supercomputadores se tornariam motores poderosos para a criação milagrosa de formas inteiramente novas de valor econômico, ou apenas virariam armas poderosas para reformar estruturas existentes e, por natureza, implacáveis? Como se mede a diferença entre progresso e mera mudança? Quanto há de cada um desses?

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Como se mede a diferença entre progresso e mudança?


Se ocorre um progresso científico e tecnológico significativo, seria razoável esperar maior prosperidade econômica (embora essa possa ser contrabalançada por outros fatores). E também o inverso: se os ganhos econômicos, medidos por indicadores chaves, foram limitados ou inexistentes, talvez o mesmo tenha ocorrido com o progresso científico e tecnológico. Portanto, na medida em que o crescimento econômico é mais fácil de quantificar que o progresso científico ou tecnológico, os números econômicos conterão pistas indiretas, mas importantes.

Para uma primeira aproximação, o progresso em computadores e o fracasso em energia parecem ter quase se anulado mutuamente. Como Alice na corrida da Rainha de Copas, nós (e nossos computadores) fomos obrigados a correr cada vez mais para ficar no mesmo lugar. Tomados pelo valor nominal, os números econômicos sugerem que a noção de um progresso vertiginoso e em todos os âmbitos errou feio o alvo. Quem acreditar nos dados econômicos, terá de rejeitar o otimismo do establishment científico. O futuro econômico parecia muito diferente nos anos 1960. Em seu best-seller de 1967, O Desafio Americano, Jean-Ja-

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cques Servan-Schreiber argumentou que a aceleração do progresso tecnológico alargaria a distância entre os EUA e o resto do mundo. Segundo o autor, a diferença entre EUA e a Europa (exceto Suécia) cresceria de uma diferença de grau para uma diferença de tipo, comparável à diferença entre Europa e Egito ou Nigéria. Com isso, os americanos enfrentariam menos pressão para competir: “Em 30 anos, os EUA serão uma sociedade pós-industrial. Serão só quatro dias de trabalho por semana e sete horas de trabalho por dia. O ano terá 39 semanas de trabalho e 13 semanas de férias. Somando os fins de semana e feriados, isso resultará em 147 dias de trabalho e 218 dias livres por ano. Tudo isso dentro de uma única geração.” Precisamos resistir à tentação de descartar o otimismo da era espacial de Servan -Schreiber para compreender como o consenso que ele representava poderia ter estado tão terrivelmente equivocado – e como, em vez disso, para muitos americanos, o Quarto Mandamento (“Lembra do dia de descanso, para o santificar”) foi esquecido.

Perspetiva - Edição 1 - 2013

O desenvolvimento econômico isolado mais importante dos últimos tempos foi a estagnação geral de salários e rendas desde 1973, o ano em que os preços do petróleo quadruplicaram.


5 A desaceleração da tecnologia ameaça toda a ordem política moderna, que se apoia no crescimento fácil e contínuo. O toma lá dá cá das democracias ocidentais depende da ideia de que podemos criar soluções políticas que capacitem a maioria das pessoas a ganhar durante a maior parte do tempo. Mas em um mundo sem crescimento, podemos esperar um perdedor para cada ganhador. Muitos suspeitarão que os vencedores estão envolvidos em alguma maracutaia, de modo que podemos esperar uma rudeza cada vez mais deplorável em nossa política. Podemos testemunhar os princípios de um sistema de soma zero em política nos EUA e na Europa ocidental, na medida em que os riscos mudam de ganhar menos para perder mais, e que nossos líderes procuram desesperadamente soluções macroeconômicas para problemas que não foram primariamente de economia por muito tempo.

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O nome mais comum para uma ênfase mal colocada em política macroeconômica é “keynesianismo”. A despeito de seu brilhantismo, John Maynard Keynes sempre foi uma fraude, e sempre houve um pouco de tapeação no estímulo fis-

cal em massa e na correlata impressão de papel-moeda. Mas temos que reconhecer que essa fraude curiosamente pareceu funcionar por muitas décadas. O forte vento de popa científico e tecnológico do século 20 potencializou muitas ideias economicamente ilusórias. Mesmo durante a Grande Depressão dos anos 30, a inovação levou a avanços em campos como rádio, cinema, aeronáutica, eletrodomésticos, química de polímeros e recuperação secundária de petróleo. Apesar de seus muitos erros, os agentes do New Deal impeliram fortemente a inovação. Os déficits do New Deal foram facilmente quitados pelo crescimento das décadas seguintes.

À medida que os anos passam e a carga não chega, nós acabamos duvidando se ela algum dia voltará. A era das bolhas monetárias terminará naturalmente em austeridade real. Uma pessoa perversa poderia até perguntar se “economias do lado da oferta” realmente foram o tipo de senha para “keynesianismo”. Por enquanto, basta reconhecer que alíquotas fiscais marginalmente mais baixas podem não ocorrer e não substituiriam a muito necessária construção de centenas de novos reatores nucleares.

Durante a Grande Recessão dos anos 2010, ao contrário, nossos líderes políticos debatem estreitamente questões fiscais e monetárias com muito mais erudição, mas adotaram uma mentalidade de “Culto à Carga” com respeito à inovação futura.

Para haver um futuro, seria bom que começássemos a refletir mais sobre ele.


Mais sucintamente, será que nosso governo pode religar o motor parado da inovação? O Estado pode impulsionar com sucesso a ciência; não há por que negá -lo. O Projeto Manhattan e o programa Apollo nos lembram dessa possibilidade. Mercados livres podem não financiar tanta pesquisa básica quanto necessário. Um dia após Hiroshima, o New York Times pôde, com alguma razão, pontificar sobre a superioridade do planejamento centralizado em matérias científicas: “Resultado final: uma invenção (a bomba nuclear) que foi dada ao mundo em três anos teria tomado talvez meio século para se de-

senvolver se tivéssemos que depender de pesquisadores ‘primmas donnas’ que trabalham sozinhos”. Mas isso era outra época. A maioria de nossos líderes políticos não é formada por engenheiros ou cientistas e não ouve engenheiros ou cientistas. Hoje, uma carta de Einstein ficaria perdida na sala de correio da Casa Branca, e o Projeto Manhattan nem seria começado; ele com certeza não poderia ser concluído em três anos. Não conheço um único líder político nos EUA, seja ele democrata ou republicano, que cortaria gastos com saúde para liberar dinheiro para pesquisa em biotecnologia – ou, mais geralmente, que faria cortes sérios no sistema de previdência para liberar dinheiro sério para grandes projetos de engenharia. Robert Moses, o grande construtor da cidade de Nova York dos anos 1950 e 1960, ou Oscar Niemeyer, o grande arquiteto de Brasília, pertencem a um passado em que as pessoas ainda tinham ideias concretas sobre o futuro. Os eleitores hoje preferem casas vitorianas. A ficção científica ruiu como gênero literário. Homens chegaram à Lua em julho de 1969 e Woodstock começou três semanas depois. Com o benefício do olhar retrospectivo, podemos ver que foi aí que os hippies se apoderaram do país e que a verdadeira guerra cultural sobre o progresso foi perdida. Os hippies envelhecidos de hoje não compreendem mais que existe uma grande diferença entre a eleição de um presidente negro e a criação de energia solar barata; em suas mentes, o movimento pelos direitos civis caminha em paralelo ao progresso geral em todos os lugares. Por causa dessas confusões, a esquerda progressista dos anos 1960 não consegue perguntar se as coisas realmente não poderiam ficar piores. Eu me pergunto se as intermináveis falsas guerras culturais em torno das políticas de identidade não serão a principal razão de termos ignorado a desaceleração tecnológica por tanto tempo. Seja como for, após 40 anos à deriva, não é fácil encontrar o caminho de volta para o futuro. Para haver um futuro, seria bom que começássemos a refletir mais sobre ele. Perspetiva - Edição 1 - 2013

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Responder à questão de se houve ou não uma desaceleração tecnológica está longe de ser uma tarefa tranquila. A questão crítica de por que tal desaceleração parece ter ocorrido é ainda mais difícil, e não há espaço para tratá -la por completo aqui. Encerremos com a questão correlata de o que pode ser feito agora.


O QUE A MAIORIA DAS ESCOLAS NÃO ENSINA | por Amanda de Almeida

Uma reflexão sobre o mercado de trabalho na área de TI a partir do web documentário da CodeOrg

Programar é também uma forma de expressar sua criatividade e imaginação

Steve Jobs disse, certa vez: “Todo mundo neste país deveria aprender como programar um computador… porque isso ensina como pensar.” É claro que, quando ele se referiu ao país, ele quis dizer Estados Unidos, mas de qualquer maneira é um raciocínio que poderia facilmente ser aplicado em outras partes do mundo, inclusive Brasil. A frase abre o web documentário What Most Schools Don’t Teach, da CodeOrg, que reúne nomes conhecidos da tecnologia – e também de fora dela – para falar sobre como aprender a programar foi importante para eles. A ideia do documentário é mostrar que, independentemente da área que muitos deles seguiram, aprender a

programar fez a diferença. E que apesar de parecer intimidante no começo, nada mais é do que um exercício de resolução de problemas que permite que a gente crie qualquer coisa do zero. Mais ou menos como tocar um instrumento musical. Segundo o CodeOrg, nos próximos 10 anos o mercado de TI terá 1,4 milhão de vagas, mas apenas 400 mil profissionais capacitados – ou seja, um milhão de vagas sobrando. E isso é apenas nos Estados Unidos.O Brasil vai pelo mesmo caminho. Segundo uma pesquisa realizada pela consultoria IDC, atualmente há 39,9 mil vagas sobrando no mercado nacional de tecnologia. Até 2015, a perspectiva é de que esse número triplique em função do déficit de profissionais qualificados.


Em resumo, não sabemos diferenciar o útil do inútil, então generalizamos tudo como inútil e ponto final

Algumas empresas – pelo menos as grandes como Google, Facebook, Twitter e afins – têm investido forte para atrair os profissionais certos e que já estão disponíveis no mercado, criando escritórios “incríveis”, com direito a alimentação saudável, academia e ambientes pensados para estimular a criatividade de seus funcionários. É Levando-se em conta que computadores estão em todas as áreas possíveis e imagináveis, independentemente do produto final de cada uma delas, e que na era da comunicação estamos interligados por, adivinhe, códigos criados em computadores, realmente vale a pena inserir este tipo de apren-

dizado em escolas.O problema é que uma outra pesquisa produzida pelo movimento Todos pela Educação, De Olho nas Metas 2012, indica que somente 10,3% dos jovens brasileiros têm aprendizado de matemática adequado à sua série ao final do ensino médio. E as receitas de Miojo e hinos de times de futebol nas provas de redação do Enem também não ajudam muito na hora de defender a inserção de aulas de código no currículo educacional brasileiro. Por outro lado, não faltam provas de que o nosso currículo educacional precisa ser revisto, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. Isso e algo um tanto mais importante – que provavelmente será um desafio ainda maior para todos nós.

Nós, brasileiros, precisamos nos livrar dessa maldita herança cultural de pensar que estudar é chato: Estudar não é chato. Chato é você ser obrigado a aprender coisas inúteis, que você sabe que não terá de usar para nada mais em sua vida além de passar de ano. O problema é que também existe uma categoria de coisas que você pode até pensar que são inúteis, mas que estão interligadas a algo maior e mais importante. No papel de alunos, a gente até pode achar que sabe tudo, mas não sabemos. E ainda por cima é raro encontrarmos um professor que consiga nos inspirar ou pelo menos mostrar, na prática, que aquilo será útil em algum momento. Aos poucos, essa equação vai ficando cada vez mais complicada.

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Será que não está na hora de começarmos a fazer alguma coisa?


Reflita

Isso significa que aquele jogo que seu filho queria que existisse, mas ainda não foi inventado, pode ser criado por ele mesmo.

Seria ótimo poder contar com o sistema educacional para aprender e ensinar coisas que poderão fazer a diferença não só entre passar ou repetir de ano, mas também na sua formação como ser humano e como futuro profissional, mas enquanto isso acontece de maneira pouco expressiva em apenas algumas escolas, talvez seja o caso de a gente tentar buscar conhecimento em outras fontes. O que eu faço se eu quiser aprender a programar e não quiser/puder depender de uma escola?

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Bom, daí você vai contar com a ajuda de programadores que pensaram nisso e criaram sites, aplicativos e tutoriais que ensinam a codificar, independentemente da sua idade. No próprio site da CodeOrg é possível começar a

aprender alguma coisa graças aos parceiros do Scratch, Codecademy, Khan Academy e CodeHS. A Codecademy, inclusive, tem uma versão mais ou menos em português. O site ensina a programar gratuitamente, de uma maneira interativa e interessante. Quando dá tempo, eu tenho tentado aprender um pouco, não só porque pode ser útil no meu trabalho, mas também porque eu adoro lógica e fiquei curiosa para explorar um pouco mais esse universo. Também no CodeOrg há alguns links interessantes, com tutoriais online que incluem o Hackety Hack, LearnStreet, Lynda. com e Udemy, cursos universitários da Coursera, Edx, Udacity e TeachingTree.co. Para aprender a fazer webpages, aplicativos mobile e até criar códigos para ro-


Há, também, formas lúdicas e divertidas de se aprender código que são perfeitas para crianças ou para você, que costuma baixar aplicativos de lógica e quebra-cabeças em seu smartphone/tablet, mas gostaria de ter um algo mais em seu passatempo. RoboLogic, LightBot, CargoBot, Move the Turtle, Kodu e KidsRuby estão entre eles.

todas as áreas e idades desenvolvendo soluções para N problemas que, como mostramos no outro texto, estão interligados de alguma maneira à programação e seus incríveis códigos. Por enquanto, tudo isso é apenas uma reflexão, uma ideia. É o meu jeito de produzir um código esperando que ele sirva para criar algo, algum dia. Quem sabe.

Apesar de não estar na lista do CodeOrg, recentemente conheci o Hopscotch, um aplicativo gratuito para iPad que também é bastante interessante para ensinar a garotada a programar. A proposta dos criadores é permitir que a criação de coisas no universo digital sejam tão fáceis para as crianças como é no universo analógico.

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É interessante pensarmos que, seguindo essa linha de raciocínio, entramos também na questão do design thinking e do empreendedorismo, com pessoas de

Tela do aplicativo hopscotch

Até porque não basta saber programar, mas também é preciso ter algumas qualidades que se encaixem com os valores, cultura e posicionamento da empresa.

bôs, há o Mozilla’s Thimble, Code Avengers, AppInventor, Codea, Arduino e Lego Mindstorms.


Criativo

ALGUMAS VEZES MÚSICA NÃO TEM NADA A VER COM MÚSICA Mas tem a ver com fotografia, política, histó | por Amanda de Almeida

Esta semana, Annie Leibovitz esteve em Cannes para falar do papel do fotógrafo profissional e, mais especificamente, da campanha Disney Dream Portraits Series. Apesar de ter feito muita coisa bacana ao longo de mais de 40 anos na ativa – o que inclui tanto fotojornalismo quanto publicidade – parece que a maioria costuma se lembrar apenas de uma coisa: a derradeira foto de John Lennon nu, abraçado a Yoko Ono vestida, tirada no dia 8 de dezembro de 1980. Se a data não chamou a atenção, foi neste dia em que, mais tarde, Lennon foi assassinado por Mark Chapman quando chegava ao edifício Dakota. Apesar de toda a história por trás desta imagem não ter nada a ver com mortes ou despedidas, foi assim que ela ficou conhecida. Segundo Annie, um caso claro em que as circunstâncias mudam o significado da fotografia. Neste caso especificamente, a circunstância foi um chocante assassinato. Mas poderiam ser outras, como a repentina fama de um artista, as transformações políticas e históricas decorrentes de um determinado momento, em que o desejo de mudar o mundo se torna mais forte do que qualquer outra coisa. E a forte ligação da música e da fotografia com isso tudo.

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o desejo de mudar o mundo, como mostra a campanha da Rock Paper Photo

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ória e


Especialmente quando existem: Zeus. Apollo, Poseidon. Townsend.

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Por que só constroem estátuas de caras montando cavalos?

É aí que chegamos à brilhante campanha impressa da Rock Paper Photo, feita pela Division of Labor. Sobre uma série de imagens incríveis do universo da música, frases que fazem a gente pensar: é isso. É exatamente isso. Porque, algumas vezes, realmente música não tem nada a ver com música. Tem a ver com muito mais coisas. E levanta uma questão muito importante:


Se você curte música e fotografia, depois de conferira a campanha na íntegra, dê uma chegada ao site da Rock Paper Photo. A empresa, criada em 2010, tem por objetivo reunir em um único lugar um acervo de fotografias artísticas, seja na área de esportes, moda, cinema e artes performáticas. E claro, música – afinal, a RPP nasceu dentro da Live Nation, uma das maiores promotoras de shows no mundo. Além de criar uma ponte entre fotógrafos e público, também facilita a vida de colecionadores e apaixonados em geral.

Perspetiva - Edição 1 - 2013

As circunstâncias mudam o significado da fotografia.


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Perspectiva