Page 1

Ator Ton Crivelaro nacional

Desde 2006

Faculdade de Jornalismo - PUC-Campinas

Raro no Brasil, hockey in line ganha adeptas em Campinas idades são desenvolvidas com as 19 jogadoras e também com os esportistas masculinos que treinam a modalidade. O treinador do time feminino, contudo, destaca que em termos de dedicação, as mulheres saem na frente: “Elas com certeza se dedicam muito mais do que os homens, se doam ao máximo por este objetivo”. Pág. 6

15 a 25 de setembro de 2014

Cultura

Mostra traz santos de casa que fazem milagres Rayssa Iglésias

Modalidade esportiva praticada com patins em linha conta com uma equipe de mulheres na cidade. As jogadoras que se destacam são convidadas a participar da seleção brasileira, disputando campeonatos mundiais em diversos países. O grupo se reúne toda segunda e quarta-feira na Sociedade Hípica de Campinas para treinar: as ativ-

Pág. 4

Divulgação

estreia em filme

Joaquim Egídio realiza exposição sobre ícones religiosos para reviver valores culturais. Pág. 9

Isadora Cipola

CULTURA

A 33ª edição da Expoflora, realizada durante todo o mês de setembro, espera um público de 300 mil visitantes. Este ano, a exposição de flores e plantas ornamentais recebe o tema “Flores, Magia e Alegria” e a mostra de paisagismo e jardinagem celebra 10 anos com o tema “Jardins em Festa” Pág. 9

“A VIDA que ninguém vê”

Campinas 240

Agrediu? Greve de sexo A iniciativa partiu das mulheres que se juntaram e resolveram que a mulher que fosse agredida pelo marido teria o direito de fazer greve de sexo de no mínimo 15 dias. Além disso, o mari-

do também deveria ficar sem jogar futebol, sinuca e ir ao bar. O cumprimento da punição seria assegurado pela união dessas mulheres. A medida funcionou.

Pág. 12

Rafaela Barbosa

A comunidade Menino Chorão, na periferia de Campinas, adotou medidas para conter a grande incidência de vários tipos de violência contra a mulher que havia no local.

Palácio da Justiça. Edifício memorável da cidade abriga grandes histórias em seus 71 anos. Pág 11


15 de setembro de 2014

Página 2

Editorial

Conexão Real

Nessa edição do Saiba + buscamos histórias, personalidades e fatos que representassem a Região Metropolitana de Campinas. Do coração da cidade, com a história do Palácio da Justiça, passando por Joaquim Egídio com a exposição “Santo de casa faz milagre”, até Holambra com sua reconhecida Expoflora. Humanizando alguns personagens da cidade e transformando a história deles em notícia, como Dona Conceição da Ponte Preta e o ator Ton Crivelaro. Noticiando projetos e pesquisas importantes na cidade que poderão influenciar a vida dos campinei-

ros, tanto no esporte com a massificação do tênis, quanto na educação com a implementação do horário integral em escolas municipais. Destacando o papel da mulher na sociedade, reafirmando o que dizia Simone de Beauvior “Ninguém nasce mulher, mas torna-se”. Seja mantendo o nome de solteira após o casamento, fazendo greve de sexo como castigo à agressão, lutando pelo registro de doméstica ou montando um time de hockey feminino. Tentando mostrar o que muitas vezes pode passar de forma imperceptível por nossos olhos. Boa leitura!

Saci, pantomimos e domingo Por Natane Parizzi

Tem 67 anos e até hoje não o vi uma única vez sem respostas na ponta da língua. Basta encontrá-lo nos almoços de domingo e dar corda para suas falações que o homem desembesta a contar suas histórias. Certo dia, observando-o atender seu celular, reparo que sr. Sebastião pouco consegue dialogar com a voz do outro lado da linha. Percebo-o ressabiado. Provavelmente está incomodado com a avalanche de gerundismo usada pelos profissionais do telemarketing. Após várias tentativas frustradas de negar qualquer coisa que seja que

a voz do outro lado tentava lhe oferecer, Sr. Sebastião dispara, sem rodeios: “Ah, vai é dormir com o defunto!”. Desliga o celular, e com a mesma expressão da criança que apronta, olha para mim e diz: “Esse povo só liga pra fica com pantomimo pro lado da gente”. Rio com a mesma ingenuidade de seus 60, e todos anos de vida, e desato a perguntar sobre suas histórias antigas. Como já me disse o velho homem, é o Saci piscar os olhos para eu me dar conta de que não há coisa melhor do que uma tarde de prosa com as gerações passadas.

Expediente Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Comunicação e Linguagem (CLC): Diretor: Rogério Bazi Diretora-Adjunta: Cláudia de Cillo Diretor da Faculdade: Lindolfo Alexandre de Souza Tiragem: 2 mil. Impressão: Gráfica e Editora Z Professor responsável: Luiz Roberto Saviani Rey (MTB 13.254). Editor-chefe: Ciro Oliveira Editores: Bruna Mascarenhas e Gabrielle Albiero Diagramação: Mariana Maia

Por Priscila Marques

Tenho 687 amigos no Facebook, mas hoje estou sozinha em casa. Trancada em um espaço que meus olhos só enxergam os outros através de uma tela luminosa. E, infelizmente, não sou um caso a parte. De acordo com a União Internacional das Telecomunicações (UIT), entidade ligada à ONU para pesquisas no setor, até o final de 2014 haverá mais de 3 bilhões de pessoas conectadas em todo o mundo. Enquanto isso, o Brasil ocupa o quinto lugar com o maior número de internautas. E os números não são animadores, segundo a consultoria da IDC Brasil, a venda de smartphones no país deve crescer 23% neste ano, ou seja, veremos mais pessoas andando cabisbaixas e solitárias pelas ruas. A conexão entre milhares de pessoas, que teria como objetivo principal nos unir de forma prática e rápida, agilizar o nosso trabalho e nos proporcionar mais tempo livre, surpreenden-

temente, dá passos em direção a um caminho inverso e nos rouba o tempo que não temos. As mídias que levam o nome de sociais, poderiam ser facilmente chamadas de “antissociais”. Afinal, quem são e onde estão essas centenas de amigos que tenho no meu Facebook? Provavelmente pessoas que um dia tive contato de alguma forma, ou que conhecem um amigo do meu amigo, mas que hoje não representam mais do que um número. Compartilhamos, curtimos e comentamos o tempo todo. São muitas fotos, muitos lugares, muitos check-ins. Mas pouca gente de verdade. Pouca gente compartilhando sorrisos e olhares reais. Pouca gente curtindo o jantar na casa de um amigo. Pouca gente conversando com a boca, em vez dos dedos. Quantas pessoas reais já deixamos de conhecer porque estávamos envolvidos com relacionamentos

apenas virtuais? Quantos livros deixamos de ler porque ficamos horas e horas navegando, ou talvez naufragando, na web? Quantos relacionamentos se acabaram por falta de tempo e paciência para ouvir e conversar com o parceiro, enquanto nos chats estamos sempre online? Para muitos, sei que esse é um caminho sem volta, a tecnologia já nos sugou de tal forma que seria quase impossível viver sem ela. Mas carrego um fio de esperança, acreditando que ainda há pessoas que queiram falar umas com as outras sem ter como intercessor um aparelho. De verdade, eu espero que a gente tenha uma conexão real, que nos lugares haja mais barulho, mais pessoas falando, mais crianças brincando, mais gente discutindo e rindo. Espero que a gente deixe de ser apenas uma geração de aparelhos inteligentes e também passe a ser de pessoas inteligentes.

Sobre dores, nas costas e de amores Por Willian Sousa

Não é facil essa história de conquistar uma mulher. Principalmente para sujeitos como eu, que vivem de escolhas improváveis. Aí a coisa complica. Gamei na minha ortopedista, que cuidava da minha dor nas costas enquanto ganhava meu coração. Morena alta dos olhos bonitos e do sorriso cativante. Combinação perfeita. Me despedia com voz aveludada e corria para agendar o retorno, se possível dali a dois ou três dias – se possível, na mesma tarde. Demorei, mas acabei me declarando. Paguei de poeta meio apaixonado-tanto-faz, desses que juram o fim do mundo sem os beijos dela, mas fazem do convite coisa bem despretensiosa: Tá fazendo nada, vamo nessa? Não colou, a lindeza tinha código de ética e tudo, dizia que não se relacionava com pacientes. Ganhei ela no jogo de palavras, paguei de ouvinte literal e apareci

uma semana depois com o cartão de outra clínica. Sábado à noite, encontro marcado. De início, não convenci. A moça estava irredutível, se esquivava dos meus cortejos tal qual um devedor desconversa as cobranças do banco. Precisava da artilharia pesada. No carro, apelei. Coloquei Sinatra cantando Strangers in the night, romanticamente irresistível. Na mosca, tinha a música como ponto fraco. Baixou a guarda e se deixou enamorar, a conquista foi pelo canal auditivo. Comemorei a proeza como quem ganha na Loto. Três encontros depois, percebi que a sorte estava era com cara de revés: descobri que a mulher é chata. O que tem de beleza, tem de proporcional egocentrismo. Critica o meu trabalho, a minha casa, os meus amigos, sem exageros, toda a minha vida. E além de tudo é maluca! Me liga às

quatro da manhã, diz que só para garantir que estou dormindo. Até precisei voltar a me consultar com ela, pois jurava ciúmes da outra médica. Nem uma receita provando o masculino do Doutor Roberto Chagas conseguiu convencê-la do absurdo. Haja sandice. Agora eu vivo fugindo dela. Terceira vez que fico doente essa semana e está ficando dificil acompanhar quais parentes eu já “matei” pela desculpa do enterro. Mas o pior de tudo é a dor nas costas, que voltou com tudo faz uns três dias. O problema mesmo é que sou sujeito cristão, vá lá que trocar de médica passe perto do adultério. Digo quando tem coração envolvido e a doutora não é cardiologista de formação. O jeito é aguentar a dor para tentar um espacinho no céu. Pela pertinência, reciclo minha declaração lá do início. Não é facil essa história de conquistar uma mulher.


15 de setembro de 2014

Página 3

24% das mulheres mantêm nome de solteira Na região de Campinas são mais de 500 casadas que optam continuar com seu sobreome por motivos que vão desde burocrático até familiares Por Mariana Maia

A

dotar sobrenome de solteira foi decisão de 24% das mulheres que se casaram no primeiro semestre no estado de São Paulo. O levantamento é da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais de São Paulo (Arpen – SP), a partir das 128.220 uniões realizadas no Estado. Foram 29.660 mulheres que continuaram com o sobrenome de solteira, sendo 560 da região de Campinas.

Os motivos para essa opção são diversos. No caso da bióloga Abikeyla Robaina, foram dois: ter um artigo publicado e manter o nome de sua família. “Na época, eu e meu marido conversamos e ele não fazia questão. Já tenho um artigo científico com o meu sobrenome, e pretendo ter mestrado e continuar a produzir artigos. E também quero manter a família Robaina, além de ser um nome forte, imponente, eu não queria retirar nenhum sobrenome da minha família”, conta.

O rompimento da tradição de ser o “Sr. e a Sra.”, para Abikeyla é sinônimo de independência. “Ter o sobrenome do meu marido não significa nada. Não preciso dizer que sou a Senhora Silva ou Alves. Sou a Senhora Robaina, casada com o Senhor Silva ou Alves”, ressalta a bióloga. Já para Danielle, conservar o sobrenome Lima no papel, foi motivado por questões burocráticas. “Estava terminando a faculdade e com viagem marcada. Teria que mudar

dados para emitir meu diploma, alterar meus documentos e refazer meu passaporte”, explica. O parágrafo 1º do artigo 1.565 do Código Civil já prevê que qualquer um dos cônjuges (não apenas mulheres), querendo, poderá acrescer ao seu sobrenome o do outro. Ou seja, acrescentar o sobrenome do cônjuge não é regar e sim opção. O procedimento dos cartórios é questionar os noivos sobre como ficará o nome, desde a entrada nas documentações.

Custo Aderir o sobrenome do cônjuge tem seu preço: é preciso alterar vários documentos pessoais para que neles constem o novo nome. Veja abaixo o preço para demudar os principais: • RG: R$30,21 reais •CPF: R$5,70 reais

Mariana Maia

•Habilitação: R$ 33,23 reais •Título Eleitoral: R$ 5,70 reais Total: R$ 74,85 reais

Projeto de educação gera descontentamento Modificações implantadas em escolas da Secretaria Municipal de Educação, para vigorar até em 2020, enfrentam opiniões divergentes Por Letícia Xavier

cola Padre Francisco Silva. De acordo com a Júlio Antonio Moreto, Diretor do Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal da Educação do Município de Campinas, a decisão de implantar esse período foi impulsionada a partir da LDB 9394/96 (Lei de Diretrizes e Bases) e das metas do Plano Nacional da Educação (2011 - 2020) que optou em colocar em estudo a implementação do projeto de edu-

Letícia Xavier

A Escola EMEF Padre Francisco Silva, da Vila Castelo Branco, vem enfrentando modificações na estrutura e na rotina por conta da implantação do Projeto Piloto de Educação Integral em instituições municipais de Campinas em 2014. Após mais de seis meses após o início das aulas algumas mudanças ainda afetam a vida das famílias e crianças

matriculadas na Escola Municipal de Ensino Fundamental Padre Francisco Silva (EMEF). Após um ano de estudos e reuniões entre responsáveis pela comunidade, representantes da Prefeitura e da Secretaria de Educação, duas escolas foram as primeiras instituições a assumir o sistema de período integral na rede municipal. Os alunos são atendidos das 8h00 às 16:00 na Professor Zeferino Vaz e das 8h00 às 15h30 na es-

“A minha sobrinha fala que passa o tempo todo nos quiosques”, conta Joyce de Lima

cação em tempo integral. Segundo a Secretaria Municipal da Educação a escolha pelas instituições pilotos se deu pelos seguintes motivos: “a primeira escola escolhida, a EMEF Professor Zeferino Vaz, iniciou os estudos por iniciativa da equipe em 2012 e dessas discussões elaboraram uma proposta inicial que foi considerada nos estudos da comissão. A EMEF Padre Francisco Silva foi escolhida devido à constituição do prédio, pois como a escola funciona num prédio doado pelo Governo do Estado, as condições físicas se tornaram mais viáveis para a implementação”. Porém mesmo num espaço maior doado pelo Governo do Estado a EMEF vem enfrentando problemas devido ao espaço físico. O espaço é grande, mas não oferece um número adequado de salas para acomodar os quase 600 alunos em período integral. De acordo com Rita de Cássia Ferreira de Almeida, 52 anos Diretora da Padre Silva “o fato de nós não termos os espaços

suficientes tem causado muito tumulto, por que as crianças se movimentam muito tempo, muitas vezes, e com isso elas perdem um tempo”. Porém, na opinião da Diretora “a educação integral está sendo muito interessante, inclusive ver o crescimento do coletivo, o crescimento das discussões, o amadurecimento daquilo que se pensou.” A maioria das vezes as crianças passam ao ar livre. Os familiares das crianças na escola também mostram o descontentamento “A minha sobrinha fala que passa o tempo todo nos quiosques” relata Joyce Cristina de Lima, 29 anos, monitora. Júlio Antônio comentou que as mudanças foram definidas na base de discussões com pais e responsáveis “o horário de funcionamento das unidades foi amplamente discutido com os pais e responsáveis, sendo então definido nesse coletivo. Por isso as duas unidades apresentam horário de funcionamento diferente, embora ambas garantam no mínimo 7 horas diárias de atividades”.


15 de setembro de 2014

Página 4 Divulgação

Além de atuar, Ton também dirige peças teatrais

Ator de Campinas estreia filme nacional Ton Crivelaro conta sobre incentivo à cultura na região campineira e preparação para filmagem do longa “O Mundo de Harppy”

A

Você

é ator, diretor,

dramaturgo e jornalista.

Qual

dessas

profissões

você considera como a principal?

Faltou Cartunista e caricaturista. Gosto de atuar. Sou um ator que ama o que faz e nunca deixou a profissão. Pra geral

você

a

possui

cimento

na

arte

em

reconhe-

cidade

de

Campinas? Pelo público sim, pois meus espetáculos lotam os teatros daqui há vários anos. Entendo que o pú-

Comparo a profissão do

artista como uma missão

O

que falta para esse

reconhecimento aumentar?

Maior espaço na imprensa é muito importante, para dar segurança aos “gerentes” públicos na hora de investir no que é produzido pelos artistas da região. Senti que neste ano já aconteceram acenos importantes rumo a este sonho. Você

se considera um

ator que dirige ou um dramaturgo que atua?

Um ator que dirige e escreve seus próprios textos para conseguir sobreviver da arte. Meus textos já foram montados por muitos grupos e nunca quis cobrar direitos autorais de ninguém. Escrevo para o mundo. Só faço questão que coloquem meu nome no cartaz. No

dia

15/09

você es-

treia no seriado

Politi-

camente Incorreto, com

Danilo Gentili. Como foi trabalhar com ele? Ele é uma alma boa. Faço o Deputado Norivaldo, um bicheiro que se elegeu para o

continuar na contravenção sem ser incomodado. É a cara do político brasileiro. A equipe é simplesmente incrível. Me senti à vontade. Estou trabalhando com profissionais incríveis. Adoro fazer cinema e tv. Como surgiu o convite para o filme “O Mundo de Harppy”? O diretor Nic Nilson tinha me visto no teatro e eu já admirava seu trabalho. Veio o convite e fiquei muito feliz com o reconhecimento.

mio de melhor ator do interior.

Qual

é a sen-

sação de ganhar prêmios tão

importantes

esses?

como

Sinto que sou reconhecido pela categoria e pelo público que sempre prestigia meus espetáculos. A sensação é a do dever cumprido. Comparo a profissão do artista, como uma missão. A minha missão aqui na terra é trabalhar pela diversão e

entretenimento das pessoas e sinto que estou cumprindo este papel. Os prêmios são resultados da dedicação ao trabalho e a profissão. Você

acredita seu

pai

te influenciando e te levando para os palcos?

Meu pai foi meu maior incentivador. Ele é o meu maior fã e eu sou o seu maior fã. O palhaço Agito é um grande artista. Divulgação

carreira de Antonio Carlos Crivelaro Lopes começou cedo. Aos 9 meses estreou nos palcos, atuando como o bebê Jesus na montagem “Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, com direção de seu pai, José Lopes Netto, o palhaço Agito. Natural de Tupã (SP), Ton carrega no currículo mais de 20 trabalhos em novelas, seriados e filmes, além de mais de 50 produções no teatro. O também diretor se prepara para o lançamento do seriado “Politicamente Incorreto” junto com Danilo Gentili, no qual interpretará um deputado corrupto. O ator também se prepara para iniciar as gravações do novo filme da Globo Cine “O Mundo de Harppy”, onde interpretará o Sr. Das Mentes, um típico “nerd”.

blico reconheceu meu trabalho e prestigia sempre. Mas, infelizmente o poder público ainda deixa muito à desejar quando se trata de valorizar os artistas daqui.

Por Victoria Ghiraldi

Qual a história do filme? Qual o perfil do seu personagem? A fábula rock o mundo de Harppy fala sobre a vida desde a concepção até a morte. Mostrando a mesquinhez da vida e seus bonequinhos adestrados! Farei o papel do Senhor das Mentes. Ainda não sei os detalhes, mas sei que será um “Nerd”. Já

alguma

pre-

visão para o início das gravações e estreia?

Passaremos por um processo de preparação dos atores e só depois começarão as filmagens. Ainda não sei para quando está prevista a estreia. Sei que me dedicarei muito. Você

já ganhou o prê-

mio de melhor ator da região metropolitana de

Campinas, em 2010, pela Organização das Artes e também, em 2012, o prê-

Ton Crivelaro durante espetáculo “Raul Seixas e o fã”


15 de setembro de 2014

Página 5

Perfil

Torcedora símbolo da Ponte Preta relata paixão pelo clube mais antigo do País Aos 70 anos, Dona Conceição Rodrigues, fanática pelo Alvenegro, relata sua história e relembra tudo o que passou para acompanhar a macaca Divulgação

Por Bruna Mascarenhas e Isadora Cipola

U

“A melhor coisa do mundo é o futebol. Eu vi os jogos do Brasil e achei muito bonito o respeito da torcida. Foi a coisa mais linda”, relata Dona Conceição sobre sua paixão

à Amazônia, passando por Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, Dona Conceição viajou o Brasil inteiro e é reconhecida por isso. “Eu estive em uma cidade aqui perto, estava umfrio, e você não acredita: só tinha eu no campo! Ainda voltei com a delegação da Ponte. Eu posso voltar no ônibus, eles têm um respeito comigo”, orgulha-se. Segundo Dona Conceição, Canela e Gramado, no Rio Grande do Sul, foram os lugares mais bonitos aos quais já compareceu. E quando questionada sobre o pior lugar onde já assistiu à Ponte, a torcedora não hesita: “é aí no ‘chique-

iro’, no Guarani”. Apesar disso,seu semblante se entristeceao constatar que há muito tempo não vai ao campo adversário, porque não há mais os famosos Derbys campineiros, clássico entre Ponte Preta e Guarani, já que os times não estão mais na mesma divisão do Campeonato Brasileiro. Ela afirma que os melhores jogos eram contra o Guarani e ironiza: “a Ponte pode perder de todo mundo, menos do Guarani”. Sobre uma das maiores polêmicasdo futebol, as torcidas organizadas, Dona Conceição é categórica: “Eu coloco a minha camisa e mais nada”. Apesar de

já ter organizado inúmeras caravanas eter conseguido juntar mais de 20 ônibus de torcedores de uma vez, ela deixa claro que não se tratava de torcida organizada. “Antigamente não tinha isso, não”, afirma. A paixão pelo futebol também fez com que Conceição colecionasse camisas de outros times além da Ponte. “Sabe aquele jogador do Fluminense que a turma queria bater? O nove, que jogou na seleção?”, referindo-se ao Fred, “Ele me deu a camisa dele, do Fluminense! Você precisa ver a educação dele”, completa. No que diz respeito a jogadores famosos, Dona

Arquivo Pessoal

ma paixão que começou quando o Moisés Lucarelli, estádio da Ponte Preta, era apenas um chão de terra e não estava nem perto de receber o apelido de Majestoso, pelo qual é conhecido. Foieste o momento em que a personagem símbolo do time decidiu: “isso aqui vai ser a minha vida”. E é assim até hoje. Maria Conceição Rodrigues, mais conhecida como Dona Conceição da Ponte Preta, é considerada a torcedora “ícone” do time campineiro. Não teve pai nem mãe presentes, mas, com o time, ganhou uma grande família. “Com uns 12 anos eu fui ver o que era esse mundo. Eu não sabia o que era futebol”, recorda. Quando questionada sobre outra conhecida torcedora, também símbolo do time, Conceiçãoindigna-se: “Donana nem era daqui (...) Vai acompanhar a Ponte como eu acompanhei”.Ela lembra-se das vezes em que o time caiu para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e foi abandonado pela torcida. “Eu carreguei a Ponte sozinha. Eu ia aos estádios de fora e só tinha os radialistas, o juiz e o time que ia jogar contra”, relembra. Aos 78 anos, a torcedora não sabe dizer a quantos jogos da Ponte assistiu, mas afirma que, acompanhando o time, conheceu inúmeros lugares. E engana-se quem pensa que ela passou horas na estrada. Para chegar aos estádios, afirma contente “Eu vou de avião”. Do Rio Grande do Sul

Conceição conheceu vários, inclusive Cristiano Ronaldo e Pelé, doqual se lembra com olhos marejados. “Eu guardo essa fotografia que é minha vida”, afirma mostrando uma foto do jogador com seu filho. A torcedora é reconhecida por admiradores por onde passa, sempre com seu carrinho – apelido carinhoso para sua cadeira de rodas. Quando ficou internada, o carinho se manteve. “Teve uma reunião de médicos e eles fizeram uma vaquinha para me ajudar”. Sobre a festa de 114 anos da Ponte Preta, completados este ano, Conceição descreve “Tinha 1.200 pessoas. Coisa fina, lá na hípica, muito social”, e completa “Eu estava bem arrumadinha. Mas o meu negócio é Ponte Preta”. A paixão pela Ponte causou também algumas brigas. Dona Conceição confessa que chegou a ser presa por causa do time. “Era um jogo contra o Juventus e o juiz estava roubando. Eu xinguei ele e deu a maior confusão”, conta, em meio a risadas. Apesar das situações de risco, a torcedora fanática afirma que faz de tudo pelo time do coração. “Eu dou um jeito para tudo”, conta, referindo-se principalmente à locomoção. Atualmente, ela vai aos jogos de táxi. Dona Conceição deixa claro que não faz promessas para a Ponte ganhar, mas que tem muita fé. “A melhor coisa do mundo é o futebol. Eu vi os jogos do Brasil e achei muito bonito o respeito da torcida. Foi a coisa mais linda”, conclui, com os olhos brilhando, sobre a Copa do Mundo deste ano.

Entre alegrias e tristezas, Dona Conceição da Ponte Preta viajou os quatro cantos do Brasil com a macaca e conheceu ídolos nacionais, como Figueiredo e Pelé


15 de setembro de 2014

Página 6

Grupo de mulheres em Campinas foge dos esportes tradicionais e se dedica ao hockey Se equilibrando em patins enquanto guiam discos (pucks) e tacos, atletas da Sociedade Hípica provam que não existe “esporte pra macho” Por Ricardo Andrade

O

hockey in-line é um esporte pouco comum nas quadras brasileiras, principalmente em sua modalidade feminina. Entretanto, um grupo de 19 mulheres da Sociedade Hípica de Campinas se opõe a essa realidade. Todas as segundas e quartas-feiras elas se reúnem no clube campineiro durante a noite para praticar esse esporte. Se engana quem pensa que a feminilidade dessas mulheres interfere na prática desse esporte de forte contato. Dentro de quadra elas jogam normalmente contra todos os marmanjos, que também participam dos treinamentos. As praticantes que se destacam na Sociedade Hípi-

ca são convocadas para a seleção brasileira, passando a disputar campeonatos internacionais. Como é o caso de Amanda Mellilo, de 25 anos, que em junho participou

do seu segundo mundial da modalidade, realizado na França. “Foi uma experiência inesquecível por se tratar da Europa, mas indiferente do país é sempre um prazer poder rep-

resentar o Brasil”; avalia. Amanda também destaca o prazer que sente ao participar dos treinamentos na Sociedade Hípica, a estrutura do local e a relação com as outras Ricardo Andrade

Vestidas com pesados equipamentos, atletas se reúnem duas vezes por semana para treinar

praticantes são um ponto alto da sua relação de amor com o esporte. “O hockey é mais que um esporte, é uma paixão. Não tem meio termo, ou você é louco por ele ou você desiste”; conclui. Em meio a forte presença feminina uma liderança masculina também se destaca. Se trata do treinador Luiz Roberto Custódio, conhecido como Fifo. Com 22 anos de dedicação à modalidade, o treinador garante ter uma ótima relação com suas atletas e ressalta que quando o assunto é empenho, elas não ficam atrás dos homens: “Elas com certeza se dedicam muito mais que os homens e se estão focadas, sai de perto que se doam ao máximo por este objetivo”, analisa o treinador.

Campinas integrará projeto esportivo Objetivo inicial é beneficiar cerca de 1.200 crianças de até 10 anos na prática de tênis, em seis cidades, com pretensão de expansão Por Fernanda Lagoeiro

C

apacitar professores e incentivar o esporte na vida de crianças carentes da região, descobrir novos talentos e abrir novas portas para o futuro. Esses são os objetivos principais do Projeto Massificação do Tênis, segundo Marcelo Mota, coordenador do projeto. A ideia é uma iniciativa do Instituto Tênis, sem fins lucrativos, em parceria com o Ministério do Esporte, Tetra Pak, Itaú, prefeituras e centros de treinamento da cidade. A previsão é de que, inicialmente, mais de 1.200 crianças sejam beneficiadas em seis diferentes cidades (Araçariguama, Santana de Parnaíba, Itapevi, Campinas, Belém e Fortaleza), para que depois o alcance seja nacional, beneficiando até cerca de 500 mil crianças na faixa de 6 a 10 anos.

O Projeto Massificação do Tênis em Campinas recebe o apoio do Instituto Ricardo Mello, que logo se interessou pela ideia. “O Brasil é bastante conhecido pelo futebol, vôlei, e porque não expandir para o tênis?”, explica o responsável pelo Instituto, Ricardo Mello, tenista brasileiro. Além disso, Ricardo destaca outros benefícios. “Os professores e as crianças envolvidas terão mais perspectivas de futuro no mercado de trabalho, não apenas como jogadores de tênis ou treinadores. A prática do esporte proporciona características de empreendedorismo, como equilíbrio para decisões e capacidade de trabalhar em grupo, essenciais para qualquer carreira”, explica. Os professores também serão auxiliados pelo projeto. Para isso, a Federação Internacional do Tênis (ITF) criou uma platafor-

Divulgação

Atletas do Instituto Tênis treinam em uma das quadras cedidas para o projeto

ma online de treinamento especializada, na qual os profissionais desenvolvam uma noção exata de como começar e que direcionamento tomar durante os treinamentos. Além disso, a ITF fiscalizará o projeto, oferecendo bolsas de estudos

e oportunidades internacionais em sua pré-equipe para os alunos de maior destaque, uma vez que o projeto também tem a intenção de levar o país aos rankings mundiais das principais competições de tênis. Ainda em fase de planejamento, o Projeto de Massi-

ficação do Tênis, que pode ainda se chamar Tênis para Todos, não possui data definida, mas já possui uma quadra no Parque do Taquaral. A iniciativa deve ser aplicada em breve e promete proporcionar grandes oportunidades para a cidade de Campinas e região.


15 de setembro de 2014

Página 7

Hospital de Campinas faz parte de pesquisa internacional sobre o câncer O estudo pretende associar as condições de exposição de crianças e adolescentes e as chances de desenvolvimento do diagnóstico Por Isabela Lino

O

Centro Infantil Boldrini, hospital filantrópico de Campinas especializado em oncologia e hematologia pediátrica, foi selecionado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para realizar uma pesquisa que tem como objetivo estudar os possíveis fatores ambientais de risco associados com o aparecimento dos cânceres pediátricos. O estudo será feito em vários países, mas no Brasil o Boldrini deve ser a única entidade a participar dessa pesquisa.

A previsão é de que até outubro deste ano, mais de 100 mil crianças e mães comecem a ser monitorados e acompanhados pelo centro. A pesquisa visa acompanhar o desenvolvimento dessas crianças. “Elas serão acompanhadas desde o momento do nascimento até completarem 18 anos de idade”, afirma a presidente do hospital, Silvia Brandalise. Dessa forma, é possível verificar a que condições essas crianças foram expostas durante todo o período de pesquisa. Quatro questionários deverão ser respondidos pe-

las mães envolvidas, sendo o primeiro realizado ainda no primeiro trimestre da gravidez e o segundo no último trimestre da gravidez. Depois do nascimento da criança, outros dois questionários devem ser respondidos pela mãe: um quando o bebê completar seis meses e outro quando a criança tiver um ano. Além disso, logo no período gestacional, um material sanguíneo e amostras da placenta serão recolhidos para o início do estudo e após o nascimento, o famoso “teste do pezinho” também entra na amostragem.

Na etapa seguinte do estudo, o Boldrini contará com a ajuda das Unidades Básicas de Saúde (UBS). “As UBS farão o seguimento destas crianças e nos casos de suspeita ou diagnóstico de câncer, as crianças serão encaminhadas ao Centro Infantil Boldrini”, explica Brandalise. A estrutura física para realizar a pesquisa já existe, O laboratório já foi equipado com freezers onde serão colocadas as amostras das mães e dos recém-nascidos que serão acompanhados, no entanto infraestrutura de informática está na etapa da tomada para

de preço para contratação. Também já foram contratados de um epidemiologista e uma bióloga, além da tradução e validação do questionário produzido por grupo internacional. No total, o projeto deve chegar ao redor de R$ 35 milhões, sendo que o Hospital assumirá R$ 3,5 milhões do custo do projeto e outras fontes de financiamento se encontram em fase final de deliberação, segundo Brandalise. A OMS pretende disponibilizar as informações da pesquisa em um banco de dados mundial.

Paula Rodrigues

Doação de cabelo O projeto “Tesoura Sem Ponta”, idealizado pela jornalista Larissa Dias, tem como objetivo ajudar pessoas com câncer através de doações de cabelo. Ela conta que estava editando uma matéria no trabalho sobre uma menina de dez anos que resolveu doar seu cabelo porque viu que outras crianças sofriam essa perda. “Nisso eu me comovi e resolvi doar o meu próprio cabelo. Quando pesquisei, percebi que nem em Campinas nem na região existem ONGs ou projetos que fizessem esse tipo de trabalho”, conta Larissa. Além da carência da cidade, a jornalista considerou que a maioria das doações vai para outros lugares, principalmente São Paulo. “Então resolvi criar o projeto para que as pessoas de Campinas e região pudessem doar e para que as pessoas de Campinas e região pudessem se beneficiar”, explica a jovem. Dessa forma, o nome foi criado pensando exatamente nas crianças e na ideia de proteção. “A tesoura sem a ponta foi criada para a criança tomar cuidado na hora de usar, para não se machucar. O projeto tem esse nome porque a peruca é uma proteção para a criança, para ela andar na rua sem ser percebida, sem ninguém ficar morrendo de só”, exemplifica. Atualmente, o projeto já chegou a 255 doações. Entre os doadores, está Maria Clara, de apenas 13 anos. Apesar de já ter feito outras doações, como, por exemplo, na campanha do agasalho, essa é a primeira doação significativa para Maria Clara. Ela conta que apesar de ter apego ao cabelo, não se importa em cortá-lo, já que estará fazendo o bem para outra pessoa “É muito legal pensar que estou doando meu cabelo para uma pessoa que não tem. Eu sinto que não estou fazendo bem só a mim mesma, mas a outra pessoa. Ela não tinha isso e, ás vezes, se sentia reprimida por não ter”, reflete. Na última semana de agosto aconteceu o “Corte Solidário” na cidade de Indaiatuba. O projeto levou cabeleireiros parceiros do projeto até uma faculdade da cidade e quem tivesse vontade de fazer a doação poderia fazer. No total, o evento arrecadou 26 doações.

Isabela Lino

Maria Clara se desapega de seu cabelo comprido por uma boa causa


15 de setembro de 2014

Página 8

Marina Zanaki

Valor para quem descumprir a lei é de um salário mínimo – R$ 724,00

Falta de registro renderá multa Sindicato dos Empregados Domésticos registrou um aumento na procura por informações após a determinação ter entrado em vigor

L

ei Áurea – 1888. Consolidação das Leis do Trabalho – 1943. Lei 5859 – 1972. PEC das domésticas – 2014. E agora Lei 12.964 – 2014. Mesmo após todo esse caminho percorrido na legislação brasileira, os direitos trabalhistas dos empregados domésticos ainda não são totalmente respeitados pelos empregadores. Isso é o que indica o Sindicato dos Trabalhadores Domésticos de Campinas e Região: a diretora Dorceni José de Souza estima que nos dias logo após a lei 12.964 ter entrado em vigor, em 8 de agosto, cerca de 30 pessoas entraram em contato diariamente com a entidade para sanar dúvidas com relação ao registro trabalhista – e a maioria eram patrões. A obrigatoriedade, contudo, existe desde 1972. A novidade é que a legislação dos domésticos agora prevê multa a quem não registrar, em sintonia com a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). O que estimulou a procura por informações não é um desconhecimento sobre as obrigações enquanto patrão, na opinião de Dorceni, mas a inserção da multa no cenário. A categoria estima que existam oito milhões de empregados domésticos no Brasil, mas apenas pouco mais de dois milhões são registrados. A diretora afirma que para modificar essa realidade é necessária uma mudança de postura dos próprios trabalhadores. “O sistema diz que o trabalho doméstico não gera lucro e isso é usado para fugir da responsabilidade. A tra-

balhadora acaba não tendo firmeza para exigir seus direitos”, explica Dorceni. “Quando conversa com a gente (do sindicato), ela fala que o serviço é importante, mas que não tem coragem de chegar no patrão e dizer isso. Quando ela não falar pra gente, e falar pro patrão, ela vai ser reconhecida”, conclui a diretora do Sindicato. Já a Coordenadora de Autonomia Econômica das Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Glaucia Fraccaro, acredita que a valorização do trabalho doméstico precisa começar com políticas públicas. “Está em plena construção a ideia de que o emprego doméstico deve receber os mesmos direitos que os demais”, diz. A advogada trabalhista Suely Mulky disse que o grande desafio dessa lei, e de toda a legislação que trate do trabalho realizado em residências, está na impossibilidade de fiscalização. Por se tratar de local privado, a entrada só pode ser solicitada por meio de determinação judicial, após denúncia do trabalhador – atitude que dificilmente será tomada por aqueles que ainda tiverem vínculo empregatício, justamente para evitar constrangimento e possível demissão. “Na verdade essa lei vem muito mais para conscientizar do que punir, pois a punibilidade dela é de execução muito difícil”, explica Suely. A empregada doméstica Claudenir de Souza disse que trabalha há 17 anos em uma casa campineira, sendo que durante cinco deles ela passou sem registro. A

iniciativa da legalização foi tomada pela patroa, mas hoje Claudenir afirma que o registro é essencial para o futuro da trabalhadora, por conta da contribuição previdenciária, e também para o presente, garantindo-lhe segurança em casos de acidentes. Atualmente, Claudenir também trabalha no Sindicato das Empregadas Domésticas de Campinas, atuando pela valorização das trabalhadoras e orientando-as sobre seus direitos. Ela afirma que a desvalorização do trabalho doméstico está ligada a fatores históricos e culturais: a maior parte da categoria é composta por mulheres negras. Claudia Mansi tem uma empregada doméstica há um ano e meio, e, desde o início da admissão, registrou-a. Claudia disse que a atividade da trabalhadora é essencial, pois todos na residência trabalham fora e não têm tempo para realizar os afazeres de casa. Sobre o registro, ela afirma: “Ampara tanto a ela quanto a mim, para não correr risco de sofrer nenhum processo ou enfrentar nenhum problema. Hoje, a empregada tem que trabalhar com tudo certo”.

Mariana Maia

Por Marina Zanaki

Questão de gênero O trabalho de casa normalmente é encarado como uma responsabilidade feminina – mesmo quando é contratada uma empregada doméstica. Dorceni José de Souza afirma que a maioria dos empregados e dos patrões que procuram o Sindicato são mulheres. Glaucia Faccaro explica: “Na verdade, este é um tema ligado à vida das mulheres. Existe uma grande massa de trabalho que é exclusivo das mulheres: o cuidado das crianças e das pessoas mais velhas e a limpeza da casa. Muitas vezes as pessoas ligam este trabalho ao afeto”. O IBGE estima que as mulheres gastam cerca de 24 horas semanais em trabalho doméstico não remunerado; os homens declaram se dedicar apenas 9 horas nas mesmas funções. “As mulheres trabalham o tempo todo, antes e depois de entrarem no mercado de trabalho”, afirma Faccaro.


15 de setembro de 2014

Página 9

Expoflora mobiliza 300 mil visitantes Em sua 33ª edição, exposição abre a primavera do hemisfério sul com festa e cenários diferenciados na cidade de Holambra Por Isadora Cipola

A

a natureza na decoração. Com o tema “Jardins em Festa”, este setor leva ao público projetos simples, que podem ser adaptados a diversos tamanhos de ambientes. Entre as atrações, a mais aguardada é a chuva de pétalas, gerada por um equipamento que lança pétalas de cerca de 150 quilos de rosas sobre a multidão. Durante os fins de semana, a chuva acontece em todo o parque, já que as pétalas são lançadas por um helicóptero. Segundo a organização do evento, há uma lenda que diz que “aqueles que

pegarem uma pétala antes que ela toque o chão terão seus desejos realizados”. Além das atrações visuais, há também as gastronômicas. Nesta edição, a confeitaria Oma Beep apresenta o speculaaswafel, uma mistura entre o recheio de caramelo do stroopwafel e as especiarias do speculaas, duas famosas bolachas holandesas. Holambra era uma colônia da Holanda e ainda é cercada por características típicas do país europeu, lembradas na Expoflora por grupos de danças típicas, vestimentas e o Museu

Histórico Cultural de Holambra, cuja entrada é gratuita e a localização, dentro do parque do evento.

Serviço Data: de 29 de agosto a 28 de setembro, de sexta-feira a domingo. Horário: das 9h às 19h Localização: Holambra, SP 340, rodovia Campinas-Mogi Mirim, saída 140 Ingressos: R$ 34,00, na bilheteria Informações: (19) 38021421 ou expoflora@expoflora.com.br

Isadora Cipola

maior exposição de flores e plantas ornamentais da América Latina dá as boas-vindas à primavera e traz novidades durante o mês de setembro. A Expoflora é realizada anualmente em Holambra e espera, nesta 33ª edição, cerca de 300 mil visitantes. Além de atrações fixas, há também novidades que serão mostradas ao público por mais de 400 produtores atuantes na cidade. A exposição de flores e plantas ornamentais tem

o tema “Flores, Magia e Alegria” e investe em cenários como o circo, o cinema e o clássico “Alice no País das Maravilhas”. Para apresentar as novidades do setor, são utilizadas 250 mil hastes de flores de corte e mais de mil espécies diferentes de flores e plantas de vasos. No setor de lançamento, a tendência fica por conta das mini-flores e plantas ornamentais. A mostra de paisagismo e jardinagem completa 10 anos em 2014 e, para comemorar, oferece opções de celebração ao ar livre, utilizando principalmente

Malabaristas apresentam o encanto da exposição de flores e da mostra de paisagismo

Chuva de papel picado encanta e diverte visitantes da 33ª edição da Expoflora

Com a temática festa, magia e alegria, personagens entretém o público pelo parque

Santo da casa faz milagres, mostra exposição Por Rayssa Iglésias

A

exposição “Santo de Casa Faz Milagre”, no bairro de Joaquim Egídio, em Campinas, revive os valores culturais do distrito que mantém a tradição de fazer uma festa cultural religiosa há mais de oitenta anos. Para ilustrar essa festa, a mostra resgata tradições religiosas, cultura de procissões e imagens de fé dos moradores da região. A região rural, que teve suas tradições religiosas introduzidas por imigrantes italianos, é representada através de imagens de andores enfeitados que resgatam a memória do povo e da família. Para Iracema Salgado, curadora da exposição, é uma forma de trabalhar com o imaginário religioso. “Cada pessoa, cada família tem uma história religiosa, tem um santo que é devoto. A exposição foi feita para resgatar essa história religiosa”, explica a curadora. Devota de Santa Rita de

Cássia, Silvia Ferreira, 51, tinha olhos admirados para a exposição. Ela afirmou que a religiosidade da região já foi mais forte, mas que a tradição permanece. “Santa Rita me liga a uma força maior, por ela ter sido uma mulher muito forte, ela me passa força. Vou à capela de Santa Rita, sempre que acho que alguém precisa de luz”, conta Silvia, erguendo os olhos para o céu. Para a exposição não foram realizadas pesquisas religiosas, os organizadores basearam-se em relatos e manifestações culturais do distrito. “Nessas comunidades são feitas festa religiosas que reúnem a população para uma manifestação cultural em que eles vivenciam atividades culturais”, ressalta Gabriel Rapassi, diretor de Cultura de Campinas. A mostra conta também com a ajuda de colecionadores de imagens, da igreja e também de famílias que levaram os seus próprios santos. A decoração foi inspirada

nas fotos dos andores enfeitados, foram feitas flores de papel crepom e usado tecido de chita para que seja uma exposição duradoura, tudo feito manualmente. A exposição é dividida em dois ambientes, o primeiro com a réplica de um andor e o segundo com oratórios e fotos das famílias nas procissões. “Santo de Casa Faz Milagre” começou no dia 16 de agosto e segue até o dia 30 de novembro, no Centro de Cultura Caipira e Arte Popular de Joaquim Egídio. A visitação é gratuita.

Rayssa Iglésias

Exposição cultural em Joaquim Egídio é formada por fotos de moradores e crenças religiosas da região há mais de oitenta anos

Serviço Exposição: de 16 de agosto a 30 novembro de 2014 Horários: 5ª e 6ª das 17h às 21h Sábados, domingos e feriados: das 10h às 18h Endereço: Centro De Cultura Caipira E Arte Popular De Joaquim Egídio Casarão – subprefeitura de Joaquim Egídio

São Roque um dos padroeiro de Joaquim Egídio


15 de setembro de 2014

Página 10

Festival de música independente reúne 51 bandas em Campinas De 11 a 21 de setembro, a oitava edição do Autorock Por Luiza Aguiar

A

oitava edição do Festival Autorock de música independente vai ocorrer entre os dias 11 e 21 de setembro, em diferentes locais da cidade de Campinas. Neste ano, serão 49 bandas que se apresentam em bares e espaços públicos, além da mostra de curtas e filmes Autotrash, com curadoria de Petter Baiestorf, que será realizada no Museu da Imagem e do Som (MIS), e a exposição sobre o festival, realizada na loja Disorder. Bandas como Dead Fish, Lisabi, Instrumentália, Topsyturvy, Camarones Orquestra Guitarrística vão participar do Autorock, que recebe também o grupo espanhol Belgrado. Os principais bares e casas de shows de Campinas, como o Bar do Zé, Kabana Bar, Sebastian Bar e Echos, vão abrigar os shows do evento, além de espaços públicos como a Concha Acústica do Taquaral e a pista de skate do bairro Padre Anchieta. A exposição Autorock terá abertura no dia 11 de setembro, na loja Disorder, a partir das 19h, com entrada gratuita. Fotografias, pôsteres, flyers e materiais de todas as edições do festi-

val vão compor o acervo da mostra, que ficará exposta durante o festival e por mais um mês. Já a mostra Autotrash, com curadoria de Petter Baiestorf, vai exibir curtas e filmes de produção independente, com temas que vão do “terror podrão” ao experimental. A entrada será gratuita. Daniel Pacetta Giometi, mais conhecido como Etê, é um dos organizadores do evento, junto com Héctor Vega e Renan Fattori. Além dos três, o Autorock possui diversos colaboradores e produtores que ajudam na escolha das bandas, além de ajudar na organização geral do festival. Não há um critério de escolha dos grupos e shows. “Banda que está tocando bastante, viajando bastante, divulgando o próprio trabalho, a gente já chega a dar um apoio” comenta Daniel. Na primeira edição do festival, em 2003, foram cerca de 22 grupos que participaram, e a terceira edição, realizada em apenas um dia, contou com 9 bandas. A edição de 2014 é a que terá o maior número, com 49 bandas. “A gente não quer fazer um festival só com banda daqui (de Campinas), nem de fora e nem só de rock. A gente quer tudo misturado” comenta Daniel, quando per-

guntado se há preferência por grupos locais. A Lisabi, quinteto campineiro que já possui quatro EPs e duas turnês internacionais, participou da edição do ano passado e, neste ano, vai dividir palco com Dead Fish, Muzzarelas, Aqueles, Slag, Don Ramon, Iodo e Dona HxCélia, na Concha Acústica do Taquaral. André Cardoso, baixista e vocalista, explica que o Autorock é importante porque chama atenção culturalmente e coloca Campinas no mapa. “O Autorock é um passo fundamental pra fomentar a música independente em Campinas. Ele coloca bandas campineiras em destaque e assim a gente celebra as bandas daqui. Se você visitar um dos principais estúdios de Goiânia, não verá quadros do Pink Floyd ou dos Beatles na parede. Verá quadros do Black Drawing Chalks, do Boogarins e do Hellbenders, que são bandas locais ou de eventos e festivais que foram produzidos por aquela turma. Eu sinto que pros goianos, por exemplo, as bandas mais importantes são as bandas da cidade”, explica o baixista. Segundo ele, esse tipo de festival dá relevância para cena local e ajudam suas respectivas cidades a virarem ponto de referência para todo Brasil.

Saiba + Rápido Cá entre nós O espetáculo de dança contemporânea “Cá entre nós” é inspirado nas obras de Adélia Padro e mescla literatura, fotografia e dança. A obra parte da literatura que inspira estados corporais explorados pela coreografia. Fotografias são projetadas nos espaços cênicos resultando em um jogo poético de percepções. A apresentação é livre. Serviço: Data: 28 de setembro Horário: às 19h Preço: Gratuito Endereço: Jussara Miller - Salão do Movimento (Rua Abílio Vilela Junqueira, 712 – Guará – Barão Geraldo)

Cem anos depois Os efeitos da Primeira Guerra Mundial sob a música é o tema das apresentações que acontecem todos os sábados do mês de setembro pela Música Erudita da CPFL Cultura. Serviço Música: “100 anos depois - A música da Grande Guerra” Local: Instituto CPFL - Auditório Umuarama. Rua Jorge Figueiredo Corrêa, 1.632, bairro Chácara Primavera - Campinas. (19) 3756-8000 Data: 6, 13, 20 e 27 de setembro Horário: às 20h Entrada: gratuita por ordem de chegada, uma hora antes de cada apresentação

Ana Cañas, Augusto Cury e Bira Dantas na Fnac Nessa quinta-feira a Fnac Campinas recebe três atrações importantes. A programação especial conta com um show da cantora Ana Cañas, uma conversa com o escritor Augusto Cury sobre seu livro de lançamento “As Regras de Ouro dos Casais Saudáveis” e a participação da cartunista Bira Dantas fazendo desenhos ao vivo. As atrações fazem parte da programação especial “Noite do Associado”, realizado anualmente pela marca no Brasil. Programação: Das 19h às 20h - Desenhos ao vivo com o cartunista Bira Dantas Às 20h - Bate-papo com Augusto Cury Às 21h - Show de Ana Cañas Serviço: Noite do Associado Fnac - programação especial de aniversário Local: Fnac Campinas. Parque D. Pedro Shopping. Av. Guilherme Campos 500, loja A17 - Campinas. (19) 21012000 Data: 18 de setembro Horário: a partir das 19h Entrada: gratuita

Tiago Iorc no Teatro Brasil Kirin

Divulgação

O cantor marcará presença no Teatro Brasil Kirin na próxima semana diculgando sua turnê “Voz + Violão”. Tiago Iorc já passou por mais de 30 cidades pelo Brasil e pretende, nesse semestre, passos por mais 30 municípios diferentes. Serviço: 25/Setembro Horário: Quinta – 21h Valores:R$ 80,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia) Teatro Brasil Kirin 3º piso do Iguatemi Campinas End: Av Iguatemi, 777 – Vila Brandina Telefone: (19) 3294-3166 – www.teatrogt.com.br


Página 11

15 de setembro de 2014

Histórico: Palácio da Justiça já abrigou até palco de cinema Segundo Edifício da cidade foi criado após a ditadura, prédio ilustra o centro há mais de 70 anos, sendo considerado patrimônio Rafaela Barbosa

Por Rafaela Barbosa

M

arco histórico de Campinas, construção sóbria e ao mesmo tempo romântica, o Palácio da Justiça guarda, em suas salas e corredores vetustos e severos, a memória da primeira expansão da malha urbana central da cidade. Construído para abrigar a estrutura judiciária local, compartilhou por anos seus espaços com as mais diferentes atividades, abrigando a Câmara Municipal, e tendo servido de palco para filme nos anos 1950. Localizado na Praça Guilherme de Almeida, foi o segundo prédio de andares de Campinas. Suas obras e construções cessaram em 1943. Eis o Palácio da Justiça, símbolo que trouxe traços robustos do Plano Prestes Maia – prefeito que nos anos 30 modernizou a cidade e planejou traçados e avenidas – implantado entre as décadas de 1930 e 1960. Projetado pelo engenheiro e arquiteto José Maria da Silva Neves e finalizado pelo engenheiro Lix da Cunha, o Palácio abrigou, em seu quinto andar, o Legislativo Campineiro de 1948 a 1970, período conhecido como o do romantismo político da cidade. Segundo o jornalista Zaiman de Brito Franco, foi a primeira Câmara Municipal após a Era Vargas, período ditatorial encerrado em 1945. Franco, ainda menor de idade, trabalhou como ex-

O Palácio da Justiça está localizado na Rua Regente Feijó, S/N, no centro de Campinas

tranumerário, o que hoje conhecemos por office boy. Ele conta que o prédio acanhado escondia sua beleza envolta em tapumes. “Era uma entradinha escondida entre o tapume que cobria todo aquele esqueleto. Não tinha elevador,

Importância histórica, cultural e arquitetônica O Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas, Condepacc, tombou o prédio do Palácio da Justiça, bem como a praça, que permite a visibilidade do prédio, por meio da Resolução N° 103 de 12 de Agosto de 2010. Dentre as características que levaram ao reconhecimento do Palácio da Justiça como patrimônio cultural, contidas na Ata 387, que aprova o tombamento, estão presentes seus traços do estilo Art Deco, sua construção em pleno período varguista, e o fato de se tratar de um dos prédios mais luxuosos da fase.

subíamos cinco andares a pé”, recorda. O elevador só chegou à Câmara em 1950. “Na emergência, eu fui o primeiro ascensorista. Era muito simples, bastava tocar a manivela que ele subia”, conta Franco. Ele lembra que o prédio ficava

um tanto oculto, em razão da presença da Igreja do Rosário. Em 1956, a igreja foi demolida para as obras de alargamento da Avenida Francisco Glicério. Nesse período, o Palácio ficou exposto de maneira mais

visível, o que fez com que o arquiteto Renato Righetto elaborasse uma marquise, espécie de passarela no alto, em torno do Largo. Franco relembra as indagações das pessoas quanto às obras, que se faziam necessárias justamente para quebrar tal agressividade. O edifício chegou a ser palco de cinema. Em 1952, o italiano Maximo Sperandeo dirigiu o filme “Sós e Abandonados” na cidade de Campinas, onde utilizou de vários espaços como o jardim da Casa de Saúde e a Catedral como cenários. Na época, a Câmara Municipal cedeu o espaço para a filmagem de uma cena de Tribunal de Justiça. Com o passar do tempo, a Câmara transferiu-se para o Paço Municipal, a nova sede da Prefeitura, inaugurada em 1970. Com maiores espaços, o prédio que já abrigava a estrutura judiciária recebeu os cartórios, que para lá se mudaram, deixando imóveis alugados na região central. “Aquilo que era um monstro, que parecia um dinossauro, ficou até pequeno” salienta Franco. Era preciso modernizar ainda mais, afirma Franco, que se lembra da transformação do Largo do Rosário. “Quando o Edivaldo Orsi assumiu a prefeitura em 96, resgatou o Largo do Rosário. Tirou as marquises, plantou árvores e colocou bancos. Tanto o Palácio quanto a praça, fazem parte da paisagem, são referência na cidade”, salienta.

Perspectivas futuras Em 2013 foi firmado um convênio entre o Tribunal de Justiça de São Paulo e a Ordem dos Advogados do Brasil, OAB-Campinas, o qual permite a instalação do protocolo integrado de petições no Palácio da Justiça de Campinas. Quando instalado, os advogados passarão a contar com mais um local para a realização de seus protocolos. Segundo a OAB, o mesmo se encontra em andamento e não tem previsões de instalação. Até o fechamento desta reportagem o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo não concedeu nenhum parecer sobre o caso. Com a inauguração da Cidade Judiciária, na região Norte da cidade, o Palácio da Justiça ficou praticamente vago. Atualmente abrange a 1ª e a 2ª Vara do Tribunal do Júri, o Juizado Especial Criminal (Jecrim), o Núcleo Especial Criminal (Necrim), as Zonas Eleitorais e um anexo junto à PUC do Juizado Especial Civil.


Página 12

15 de setembro de 2014

A Lisístrata de Campinas Para dimuniur os altos índices de agressão em sua comunidade, mulher implanta greve de sexo Gabrielle Albiero

Por Ciro Oliveira e Gabrielle Albiero

A

comunicação fluida e plena se funda na realidade compartilhada. Eu já sabia ao ouvir, ainda criança, minha avó contar sobre seus anos dourados. Eu não poderia, por mais elementos que me fossem dados através da narrativa, viver aquela cidade que não existe mais, aquele tempo que não existe mais. Eu era estrangeira àquela história. Era o mesmo que acontecia ali na minha frente: Jan, um repórter alemão, perguntava à Maria do Carmo Pereira Sousa (Dona Carmem), líder da comunidade Menino Chorão em Campinas, que tinha altos índices de agressão à mulher, por que a solução para este problema teve que ser inventada por ela, por que não chamar a polícia? Eu sabia que tom aquela pergunta tinha, tom fundado nesse abismo entre duas realidades. Dona Carmem também sabia. A demora da resposta fez Ian acrescentar: “no meu país, a gente chama a polícia”. Dona Carmem enfim disse: “Aqui, a polícia só vem se tiver homicídio”. Então eu reconheci o abismo da realidade que também me separava daquela mulher. Eu, que nem vinha de tão longe quanto da Alemanha. Eu, que nasci longe de Dona Carmem, não em distância física, mas em um abismo entre duas realidades. Se tivesse nascido no Ceará, no lugar dela, conheceria o sofrimento desde o nasci-

Em um caso extremo, as mulheres da comunidade recorreram à agressão utilizando-se do pau “Amansa Valente”

mento e teria sido rejeitada por meu pai por nascer mulher, e aos três anos, rejeitada por minha mãe que me culparia pela rejeição do meu pai. E iria morar na rua, e nunca aprenderia a ler, e apanharia de um marido durante 13 anos, e perderia dois filhos no ventre de tanto apanhar, e fugiria para Campinas, e seria traficada e quase prostituída e um dia, como o operário de Vinícius de Morais, resolveria dizer não. Eu não nasci nessa realidade, mas os 300 moradores da comunidade nasceram com realidades semelhantes. A comunidade localizada no bairro Jardim Columbia na cidade de Campinas é afastada fisicamente e socialmente do centro urbano. Localizado

perto do aeroporto de Viracopos, o terreno é resultado de uma ocupação e uma intensa luta contra a Infraero para não perder o espaço. São cerca de 200 famílias e mais de 200 mulheres nasceram com essa realidade tão diferente da minha. Naquele lugar, eu era tão estrangeira quanto Jan. E por mais que Dona Carmem fosse aberta e sua narrativa generosa, nós nunca entenderíamos de verdade aquilo que ela contava. O complexo fato de não saber o porquê apanhava desgastava Dona Carmem, não que haja na violência alguma sustentação. Na comunidade, violência não era mais notícia, mas fato corriqueiro e dor acostumada. Como entender, que só depois de 40 anos, Dona

Carmem foi descobrir que estupro é crime? Como não se admirar que Dona Carmem, com sua origem humilde, tenha tido a ideia que teve Lisístrata na comédia grega de Aristófanes? A ideia que mudou a vida da comunidade era que a mulher que apanhasse faria greve de sexo de no mínimo 15 dias. O marido agressor também ficaria sem poder beber, jogar futebol ou sinuca. O homem que acompanhasse algum outro que estivesse em disciplina (nome dado à punição) seria punido também. O êxito dessa prática foi tão grande, que os próprios homens evitam andar com aqueles que estão em período de disciplina. A violência é colocada para fora da porta de casa e o agressor reconhecido por qualquer um na comunidade. Em casos de reincidência o homem pode chegar a ser expulso do local, deixando a opção para sua mulher de ir com ele ou permanecer. Mas todas as imagens que saíam da boca de Dona Carmem e me chegavam aos olhos me mostravam uma história bonita. A dor mesmo era pesada demais para ser transportada por uma combinação de vogais e consoantes. Porque, antes da paz, aquela mulher fora ameaçada. Porque antes da paz, Dona Carmem e mais 11 mulheres tiverem que usar da violência e bater a pau em um homem que não queria largar daquela mesma violência. Porque antes da paz, homens foram expulsos da comunidade para que suas mulheres ficassem longe de sua agressividade

incontrolável, e algumas os seguiram. Porque eu sabia da violência e dos seus índices, mas não sabia do sangue. Porque eu havia chegado depois. Eu não entenderia, porque era estrangeira e aos estrangeiros são expostas as paisagens bonitas. Mas diferente de Jan, minha fronteira não era de terra e alguma coisa nisso me acusava. O que me separa de Dona Carmem não é o destino de eu ter nascido uma e ela outra, eu no Sul, ela no Norte. O que me separa de Dona Carmem vive mesmo é nos meus olhos que só viram a violência de sua comunidade por ela ter inventado um caminho até a paz. Como se a paz é que fosse para ser vista. À violência vira-se o rosto até que tenha se tornado grande demais ou outra coisa. E quando vemos, não é para ver, é só uma busca por uma história bonita, um pouco igual à grega. Para fingir que é melodia um grito que penetra por entre os muros da nossa realidade forjada. Porque a melodia não nos acusa. Porque um estrangeiro quando vê uma paisagem bonita, não vê um país, mas compra uma ilusão. E por isso, o Menino Chorão tem muito mais a dizer do que é dito aqui. Diferente das histórias de minha avó, os elementos da história de Dona Carmem não foram apagados pelo tempo, são elementos presentes, reproduzidos e multiplicados no passado e no futuro. Eu poderia dizer que estão em todo o lugar, e de fato estão. Mas estão, para ser mais específica, onde a gente não olha.

Gabrielle Albiero

Lisístrata

Ciro Oliveira

Lisístrata é uma peça da Grécia antiga escrita por Aristófanes e foi apresentada nos últimos anos da Guerra do Peloponeso (411 a.C). O conflito era entre Atenas e Esparta, devido ao crescimento do poder de Atenas que assombrava os espartanos. Na peça, as mulheres de Atenas, Esparta, Beócia e Corinto, chefiadas pela ateniense Lisístrata, exaustas de uma guerra que durava mais de 20 anos decidiram impor uma tática para tentar acabar com as hostilidades do período: uma greve de sexo. Os maridos, por fim, acabaram cedendo e concluíram um tratado de paz entre as partes envolvidas na guerra.

Casas com tijolo exposto e base de madeira compõem o cenário da comunidade

Saiba setembro  
Saiba setembro  
Advertisement