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C A R N A V A L [A ARQUITETURA NA CADÊNCIA BONITA DO SAMBA]


C A R N A V A L [A ARQUITETURA NA CADÊNCIA BONITA DO SAMBA]


UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO DEPARTAMENTO DE ARQUITETURA E URBANISMO

CARNAVAL:

A ARQUITETURA NA CADÊNCIA BONITA DO SAMBA. Projeto de Graduação apresentado ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo como requisito para a obtencão do título de Arquiteta Urbanista Orientadora: Dra. Clara Luiza Miranda

VITÓRIA 2012


FOLHA DE APROVAÇÃO [Thais de Sá Batista]

Projeto de Graduação apresentado em: ___________ Ata de Avaliação da Banca: ______________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________ ______________________________________________________________________________ Avaliação da Banca Examinadora:

______________________________________________________________________________ Data Nota Dra.Clara Luiza Miranda ______________________________________________________________________________ Data Nota ______________________________________________________________________________ Data Nota


AGRADECIMENTOS Se eu fosse sambista, meu agradecimento seria um partido alto. Daqueles em que se improvisam dois ou três versos e se repete o refrão, que diria “Obrigada, obrigada!”. E como eu ousei pisar nesse solo sagrado, vou ousar também esse improviso gauche. À minha mãe, agradeço a verdade. Por mais que às vezes fossem duras as palavras, ela sempre me fez acreditar, levantar e sacudir qualquer poeira e o mais importante, seguir. Obrigada, obrigada! Ao meu pai, agradeço o apreço. Tive com ele a certeza de que eu poderia acreditar em qualquer sonho, pois ele acreditava antes mesmo de mim, e antes mesmo dele perceber que já acreditava. Obrigada, obrigada! Aos meus amigos, agradeço a presença. Hora para tratar meu pranto, hora para rimos sem saber ao certo os motivos. Gato, Tutz, Lets, Jaum, Guaxi, Panda, Tobby, Lari, Lú... Obrigada, obrigada! À Clara guerreira, agradeço os conselhos e a dedicação. Apesar de todo meu percurso embaraçado, acreditou na minha paixão e me ajudou a transformar em projeto. Obrigada, obrigada! E por fim, a todos da Unidos da Tijuca, agradeço a oportunidade. Estar no barracão vendo, ouvindo, conversando e aprendendo aos poucos com cada mestre foi uma oportunidade inacreditável que vocês tornaram real. Obrigada, obrigada!


PODER DA CRIAÇÃO [João Nogueira]

Não, ninguem faz samba só porque prefere Força nenhuma no mundo interfere Sobre o poder da criação Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito Nem se refugiar em lugar mais bonito Em busca da inspiração Não, ela é uma luz que chega de repente Com a rapidez de uma estrela cadente Que acende a mente e o coração É faz pensar que existe uma força maior que nos guia Que está no ar Bem no meio da noite ou no claro do dia Chega a nos angustiar E o poeta se deixa levar por essa magia E o verso vem vindo e vem vindo uma melodia E o povo começa a cantar, lá laia laiá Lá lá laía laiá


ÍNDICE 1. MANUAL [sambista iniciante] ..................................................................................................... 15 2. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 19 3. SEM MUITAS PLUMAS E PAETÊS ............................................................................................. 25 4. OS REDUTOS DO SAMBA ............................................................................................................ 53 5. DESFILE ............................................................................................................................................... 83 6. DIÁRIO DE CARNAVAL ................................................................................................................. 121 7. DISPERSÃO ...................................................................................................................................... 153 8. REFERÊNCIAS ................................................................................................................................. 157


MANUAL [sambista iniciante]


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MANUAL [sambista iniciante] ABRE-ALAS_Primeira alegoria, normalmente motorizada, apresentada no desfile. APURAÇÃO_Dia da contagem da pontuação de cada Escola, revelando-se assim a campeã do Carnaval. Acontece na quarta-feira de cinzas. CADÊNCIA_Repetição de sons ou de movimentos que se sucedem a intervalos regulares. COMPASSO_Sinônimo de cadência, regularidade e ritmo. GINGA_O nome que se dá a uma espécie de remo que faz mover a embarcação, apoiado num encaixe na popa. Está relacionada ao movimento dos malandros e das passistas, pela forma de mexer o corpo no ritmo. MALANDRO_Figura tradicionalmente carioca, boêmia por natureza. PASSISTAS_São sambistas que dizem com o pé o que o samba faz com o coração. Homens ou mulheres com liberdade total de movimentos, sem coreografia predeterminada. Uma passista pode ser a


17 rainha da bateria, mas uma rainha não tem necessariamente que ser uma passista. PAVILHÃO_É o nome que se dá à bandeira da Escola de samba. PROSA_Maneira usual de o homem exprimir-se através da linguagem falada ou escrita. Basicamente, é qualquer expressão linguística escrita ou falada que não seja poesia. Em prosa são escritos romances, peças de teatro, contos, artigos, relatos jornalísticos e ensaios. Conversa informal. PUXADORES DE SAMBA_Que também podem ser chamados de cantores ou como Jamelão preferia, os intérpretes são responsáveis por cantarem o samba da Escola. REDUTO_Sinônimo de refúgio, pode ser considerado um espaço fechado, um recinto demarcado ou um ponto de concentração. VELHA GUARDA_A herança histórica viva de cada Escola. Os baluartes.


INTRODUÇÃO


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INTRODUÇÃO Peço licença aos sambistas para entrar nesse reduto, minha área é a Arquitetura e, por isso não serei de tudo prosa. Mas com todo respeito peço passagem, para trazer as Escolas de Samba para as páginas de um Projeto Final de Graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo que tenta descrever a preparação para o evento e o desfile de Carnaval com o olhar de arquiteto. Vou tentar não ser tão dura em minhas palavras, mas confesso que faltará um pouco de ginga, afinal não nasci malandro, tampouco passista. Mas arriscarei acompanhar a cadência do samba e da teoria, sem atravessar ou perder o compasso.

F1: Cartola


21 Meu Brasil é sinônimo de Carnaval, não só pela malandragem, mas pela alegria e pela criatividade. Segundo a professora Helenise Monteiro Guimarães, vice-diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora de cultura popular e Carnaval, a festa carnavalesca é um dos eventos que melhor traduz a riqueza e a multiplicidade das manifestações culturais do Brasil (apud MUNIZ, 2012). O brasileiro tem a capacidade de se unir e transformar quando quer ver algo se concretizar, principalmente quando isso diz respeito a uma festa popular. Isso se torna explícito no Carnaval, pois não importa sua origem desde que ajude a tornar viva essa cultura, que cá entre nós, pode não ter nascido aqui, mas que aqui quis morar. Mas que raios Carnaval têm a ver com Arquitetura? Tudo. A verdade é que tudo pode ser visto com um olhar de arquiteto, ainda mais o que provoca construção, movimento e transformação. E Carnaval não seria exatamente isso? Um projeto de espetáculo com proposta ou enredo, construção ou desenvolvimento, detalhamento ou alegorias e adereços, composição ou conjunto, enfim. Não importa que nomes dêem, Carnaval é um projeto de arquitetura que deve ser executado em movimento, com tempo limite de passagem, com plano diretor urbano próprio e habitantes específicos, que possui Cidade de Criação e Cidade Desfile, e que tem uma única chance de se materializar exatamente como foi projetado no papel, caso contrário não repete seu desfile na avenida.


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METODOLOGIA O trabalho tenta entender os espaços em que o Carnaval carioca habita e como ele se constrói projetualmente. Para isso buscou-se atingir o Carnaval de distintas formas, com bibliografias das diversas áreas que o espetáculo compreende, com visitas periódicas ao barracão da Unidos da Tijuca na Cidade do Samba no Rio de Janeiro e com analise dos desfiles das Escolas de Samba, como os caminhos principais de busca. A bibliografia mais influente na contextualização histórica do trabalho é o livro “Carnaval: seis milênios de história” do autor Hiran Araújo, que é diretor cultural da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA). Com relação à arquitetura, a bibliografia foi focada no “movimento” de corpos e de espaços. Foi escolhido falar apenas sobre o desfile do Rio de janeiro por causa do tipo de territorialização que o Carnaval de lá desenvolveu. O motivo de apenas uma Agremiação ser acompanhada em seu processo de produção se deve a constatação prévia de que o processo é parecido independente da Escola, mas a escolha da GRES Unidos da Tijuca está relacionada aos projetos finais dessa Escola de Samba, responsável pelas inovações criativas mais impressionantes nesses últimos anos e, particularmente, o que foi visto no ultimo Carnaval (2011). Para que


23 essa analise do processo fosse registrada, foram feitas viagens periódicas de outubro de 2011 a fevereiro de 2012 para o Rio de Janeiro, que se transformou em um “Diário de Visita” onde constam descrições do que foi visto, sentido e aprendido. Por fim, foram acompanhados e analisados desfiles e imagens do Carnaval carioca em anos diversos, para que por meio desse material fossem utilizados exemplos que constatassem as suposições feitas. É importante lembrar que esse trabalho permeia duas áreas que parecem distintas, mas que serão correlacionadas constantemente tentando atingir mais de um público seja com linguagem coloquial, com música ou imagens.

F2: Nelson Cavaquinho e Cartola


S E M M UI T A S P LUMA S E P A ÊTES


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INÍCIO Não existe uma data para o nascimento do carnaval, ele existe desde que nos lembramos. Trata-se de algo que nos acompanhou através da história, mas com outros nomes, festividades que tem sua memória preservada no inconsciente coletivo1 dos povos. Mas se tentarmos datar, podemos deduzir que o que chamaríamos de Carnaval teve sua origem com os cultos agrários, a seis mil anos atrás, com os povos que habitavam as margens do Rio Nilo (ARAÚJO, 2003, p.4). É bom lembrar que seis mil anos é o tempo de existência da cidade (CACCIARI, apud MIRANDA, 2011), e que esta festa de que estamos tratando está conectada à cidade. Além de ter o mesmo tempo de evolução, persistiu às suas transformações com inúmeras adaptações ao longo do tempo. É no Egito que surge o que chamamos de “carnaval originário”, que nasceu de adaptações dos diversos cultos agrários lá realizados. Eram festejos simples com danças e cânticos em torno de fogueiras e, mais tarde, máscaras, adereços, orgias e libertinagens, ligados às crenças egípcias e povoada por cerca de setecentas divindades (ARAÚJO, 2003, p.4). Isso com certeza já nos faz, de alguma forma, lembrar a descrição de um carnaval bem atual, mas sem a fogueira porque viraria aquela outra festa popular.


27 Tem-se registro de cultos agrários e festejos semelhantes aos do Egito na Pérsia, Hidia e Armênia, relacionada à festa da deusa da fecundidade, Anaitis, e do Deus Mitra, o “Sol Invicto”. Deus este que também era venerado em Roma no dia 25 de dezembro e aos domingos (ARAÚJO, 2003, p.5). Na Babilônia, as Sáceas, festas com cinco dias de duração, eram marcadas pela licença sexual e pela inversão de papéis. Chega a ser interessante como esse costume perdurou. Porém, naquela época a inversão se dava entre servos e senhores, e não era nada boa para o “escravo rei”, que era sacrificado ao fim do rito (ARAÚJO, 2003, p.5). 1.INCONSCIENTE COLETIVO_O homem carrega uma espécie de memória da humanidade, forma de guardar no inconsciente experiências ancestrais da espécie. (JUNG,2002,p.54).

F2: Ala Egito_Beija flor 2009


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FESTA PROFANA É bem provável que a origem do nome Carnaval tenha surgido na Grécia com o culto a Dionísio2 . Teria sido Pisístrato, governante de Atenas (605 – 527 a.C) o responsável pela oficialização do culto e das procissões dionisíacas, em que a imagem do deus Dionísio era transportada em “embarcações com rodas” ou carrum navalis. Com homens e mulheres nus em seu interior, puxadas por sátiros3 , o cortejo era seguido por uma multidão de mascarados e só terminava com a chegada no templo sagrado, onde se consumava a hierogamia4 (ARAÚJO, 2003, p.10). A maior e mais antiga festa Dionisíaca era celebrada nos dias 11, 12, 13 do mês Anthestérion, que corresponderia ao final de fevereiro e início de março, exatamente o período do nosso Carnaval. No primeiro dia, abriam-se os tonéis de terracota, onde era guardado o vinho da colheita de outono e dava-se início à bebedeira. O segundo dia era dedicado ao concurso dos beberrões. O terceiro e último dia consagrado aos mortos (ARAÚJO, 2003, p.12). Quando Atenas perdeu sua hegemonia artística já se pôde notar a infiltração do culto a Dionísio em Roma, porém com o nome Baco. Ah esse sim é popular! Quem nunca ouviu falar das famosas bacanais?


29 As bacanais romanas chegaram a ser proibidas pelo Senado em 186 a.C., entretanto, não perdurou (ARAÚJO, 2003, p.13). As bacanais foram retomadas com ainda mais licenciosidade. Evoé Baco! Evoé Baco!

2.DIONÍSIO_Deus grego do vinho, das festas, do lazer, do prazer, do pão e mais amplamente da vegetação. Equivalente a Baco na mitologia romana. 3.SÁTIRO_Na mitologia grega, era a entidade da natureza com corpo metade humana e metade bode. Equivalente ao fauno da mitologia romana. 4.HIEROGAMIA_Derivado do termo grego hieròs gamos, que significa “bodas sagradas”. Um modelo fundamental da história das religiões, expresso por crenças de que mortais e imortais podem unir-se sexualmente.

F3: Alegoria Dionísio_Mocidade 2011


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IMPÉRIO DO DIVINO No momento em que o cristianismo instaura-se, as festas já faziam parte dos costumes populares. A Igreja Católica até tentou impor cerimônias com um tom sério e controlador, com o objetivo de combater a alegria tradicional dos festejos, mas o povo respondeu com uma conduta indiferente. A conduta da igreja fica clara segundo Peter Burke (apud ARAÚJO, 2003, p.21), Claude Lévi-Strauss nos ensinou a procurar pares de opostos ao interpretarmos os mitos, rituais e outras formas culturais. No caso do carnaval, havia duas oposições básicas que fornecem o contexto para interpretar muitos aspectos nos comportamentos, oposições essas de que os contemporâneos tinham clara consciência. A primeira delas é entre o carnaval e a quaresma, entre o que os franceses chamavam de jours gras e jours maigres, geralmente personificados com um gordo e uma magra. Segundo a Igreja, a Quaresma era uma época de jejum e abstinência – não só de carne mas de ovos, sexo, ir ao teatro e outros entretenimentos. Portanto, era natural apresentar a Quaresma como uma figura emaciada (a própria palavra Quaresma – Lent – significa tempo de


31 privação – lean time), desmancha prazeres associada aos peixes da dieta de Quaresma. O que falta na Quaresma era naturalmente o que abundava no carnaval, de modo que a figura do carnaval era representada como um comilão e beberrão jovem, alegre, gordo sensual como um Gargântua ou Falstaff shakespeariano. A Igreja, ao constatar que era inútil proibir as festividades consideradas pagãs, que já se encontravam nos costumes populares, tratou de inserí-las no calendário eclesiástico. Após o I Concílio de Nicéia, em 325 d.C., foram permitidas algumas comemorações desde que fossem ausentes de orgias e permissividades. Essa conduta da igreja tinha a intenção de cristianizar as festas pagãs e foi Gregório I, O Grande, que no século VI d.C. incorporou o Carnaval ao calendário eclesiástico (ARAÚJO, 2003, p.28).

F4: Mesmo proibido olhai por nós – Beija flor 1989


32 A data do Carnaval passou a obedecer às regras que determinam a páscoa para os católicos. A quarta-feira de cinzas, que é considerada o último dia de Carnaval, que sempre ocorre quarenta dias antes da páscoa. E para os que sempre quiseram saber o motivo da data não ser fixa, eis o grande momento: a páscoa dos cristãos não possui uma data fixa para que não coincida com a páscoa judaica fixada a 15 de Nissan (ARAÚJO, 2003, p.28), primeiro mês do calendário judaico. Sendo assim, o nosso Carnaval se torna uma data móvel, passiva de alteração entre 5 de fevereiro a 3 de março. Então, na teoria o Carnaval é uma festa do calendário cristão, isso não é incrível e quase inacreditável? Mas na realidade, pra ser bem sincera, apesar da data fixada pelo calendário cristão ainda ser respeitada, de fato não há nada mais sincrético que o nosso Carnaval! Graças a Deus ou a Olorum5 , como você preferir!

F5: Calendário Hebraico


33 Porém, é desta relação com o catolicismo e, mais precisamente com a quaresma, que surge a segunda possibilidade da origem do nome carnaval que seria: dominica ad carne levandas, expressão que significa “tirar a carne” e teria sucessivamente se abreviado até o nome que já conhecemos (ARAÚJO, 2003, p.34). O Carnaval tornou-se uma das poucas festas que mantiveram suas origens pagãs mesmo após indexação Católica.

5.OLORUM_Um dos nomes dado ao Deus supremo do Candomblé e da Umbanda.

F6: Comissão de frente representando o sincretismo baiano – Portela 2012


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A FOLIA DO MUNDO Mas que tal uma volta à Europa para descobrir como se festejavam e ainda festejam os dias de folia além de nossas fronteiras? Os Carnavais mais famosos do mundo se encontravam lá e foram se espalhando com seus colonizadores. Então prepare máscaras, confetes e serpentinas porque a mais famosa banda européia vai passar!

CARNEVALE A Itália chegou a ter o mais famoso Carnaval da Europa, onde por mais de um mês as pessoas usavam máscaras e transformavam as ruas em um grande palco. Era como se surgisse um teatro sem paredes, onde os habitantes eram atores e espectadores (ARAÚJO, 2003, p.66), e não é que isso ajudou mesmo a criar teatro! A Commedia dell’arte surge como um teatro diferente dos demais, uma forma de teatro popular improvisado que até hoje é referência para as diversas linguagens teatrais. Nela, os personagens são fixos, caracterizados por máscaras, comportamentos e atitudes corporais e são divididos em duas categorias: patrões e criados. Mas adivinhem como surgiram esses personagens? Eram personagens do Carnaval italiano,


35 ora vejam só... Já estamos nós de volta ao Carnaval! Bem, então talvez seja bom explicar que as máscaras do Carnaval italiano foram criadas a partir de caricaturas dos rostos dos habitantes das mais diversas regiões da Itália. A figura de Pulcinella é um exemplo disso, com o nariz adunco e uma corcunda, vestido de branco com uma máscara preta, é uma típica figura da região de Nápoles, enquanto o famoso Arlecchino com seu macacão com losangos coloridos é a representação do bobo e falante serviçal de Veneza (Radio italiana, 2011).

F 7: Figuras tradicionais do Carnaval italiano5


36 Mas na Itália não é só Veneza que impera. A pátria do Carnaval de rua italiano é Viareggio, na região da Toscana, com seus desfiles de carros alegóricos satirizando governantes, isso não te soa familiar? Pois então, assim como em nossos desfiles, os carros alegóricos são obras de arte que muitos dos habitantes de lá dedicam quase o ano todo para preparar (Radio italiana, 2011). Dizer que nosso Carnaval foi importado seria um completo absurdo, mas ele recebeu idéias de várias partes do mundo até se aprimorar com um tempero próprio.

F8: Comissão de frente_Commedia dell’arte – Vila Isabel 2009


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MARDI GRAS Na França, em 1815, os bailes de carnaval do teatro Ópera de Paris ficaram famosos com damas e cavalheiros fantasiados sem qualquer desordem ou distorção de costumes (ARAÚJO, 2003, p.66). Porém é em Nice, a quinta maior cidade francesa, que acontece o mais famoso Carnaval francês e um dos mais animados carnavais da Europa. Uma das mais belas tradições do Carnaval francês é a Batailles de Fleurs (“batalha de flores”), onde moças e rapazes fantasiados em gôndolas enfeitadas arremessam flores aos observadores do cortejo (COSTA, online). A primeira batalha carnavalesca ocorreu em 1876, mas por várias vezes os carnavais franceses foram suspensos por conta de reviravoltas políticas: na época de Napoleão (entre os séculos 18 e 19), durante as duas Guerras Mundiais (de 1914 a 1918 e de 1939 a 1945) e durante a Guerra do Golfo (1991) (COSTA, on-line).


38 Hoje em dia, o coração da Cotê d’Azur atrai milhares de turistas todos os anos, a diversão se intensifica nos últimos dias de folia, graças aos bailes à fantasia espalhados por toda a cidade e ao grande desfile de carros alegóricos. O Carnaval francês se encerra com o incêndio do carro do Rei do Carnaval e das máscaras dos foliões, um final um tanto dramático que é recebido com muita alegria pelos foliões (ÁVILA, 2011). Lembra quando falei sobre colonizadores? Então, por isso não poderia deixar de citar o Carnaval de Nova Orleans que é uma pequena herança francesa deixada lá nos Estados Unidos, a começar pelo nome Mardi Gras, mas que criou originalidade tornando-se ainda mais famoso do que os Carnavais franceses.

F10: Alegoria representando A obra de Delacroix “A liberdade guiando o povo” – Grande Rio 2009


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FASTNACHT Oficialmente a “quinta estação do ano”, como os alemães gostam de chamar a época do Carnaval, começa sempre em novembro, no dia 11/11 às 11 horas e 11 minutos. É nessa data que as associações e clubes de Carnaval iniciam suas festividades, com a intenção de fazer um aquecimento até quando os foliões finalmente saiam às ruas (RIFFEL, 2011). Deu inveja porque eles parecem ter o Carnaval bem mais longo que o nosso? Mas é que esse aquecimento funciona como os ensaios das Escolas nas quadras, não é Carnaval ainda, mas tudo já está sendo preparado! Os festejos alemães mudaram de cara ao longo dos séculos e deram origem a diversas formas regionais: Karneval, Fastnacht ou Fasching são apenas alguns dos nomes. Mas seja lá qual for o nome (complicado de se falar) dado ao Carnaval, nos países de língua alemã a festa é originalmente o período anterior à abstinência, ou seja, aqueles quarenta dias que precedem a páscoa (SCHOLZ, 2009). As principais festas, hoje em dia, acontecem mesmo em Colônia, Düsseldorf e Mainz. Mas independente da cidade, oportunidades para se fantasiar não faltam, logo depois do Natal as lojas começam a suprir o estoque de fantasias porque na Alemanha é difícil ver um folião sem fantasia (RIFFEL, 2011)!


40 O Carnaval em Colônia é quase tão antigo quanto à cidade, que foi fundada pelos romanos, mas da forma atual as comemorações já acontecem desde 1823. Sem querer puxar a sardinha para o nosso lado, bom mesmo são as sextas-feiras de Carnaval por lá, isso porque acontece em Colônia o tradicional Baile Brasileiro, com direito a concurso de fantasias e tudo (RIFFEL, 2011). E são vários os ritos que se eternizaram com as festas, queimar bonecos, usar máscaras, mas o principal é a sátira dos políticos através dos bonecos gigantes (SCHOLZ, 2009). A verdade é que até que chegue a quarta-feira de cinzas, quem comanda são os jecken. Essa palavra tem várias traduções possíveis: fã, maluco, doido e até folião, então fica a seu critério o que melhor descreve nosso protagonista carnavalesco (RIFFEL, 2011).

F11: Influências do Brasil no Karneval


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MEU BRASIL BRASILEIRO


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MEU BRASIL BRASILEIRO Devo dizer que foi uma grande surpresa descobrir que uma das primeiras festas notificadas no Brasil aconteceu justamente bem aqui, no Espírito Santo. Salve José de Anchieta, que nos colocou na história do Carnaval brasileiro! Anchieta em comemoração à chegada de uma relíquia encenou em 1579 O Alto das Onze Mil Virgens, e acredite se quiser, onde houve até carro alegórico (ARAÚJO, 2003, p.51). A cá no Quinto , todas as primeiras festas com intuito carnavalesco tinham cunho político ou religioso, sendo festas para santos padroeiros ou para homenagear Portugal.

Figura 12: Entrudo – Rua do ouvidor, 1884 – retratado por Angelo Agostini


45 Falando em Portugal, o Carnaval por lá era conhecido como “Entrudo” e quando os portugas aqui chegaram trouxeram com eles o seu jeito de comemorar o Carnaval. A forma de brincar era jogar nos outros água, limões de cheiro, farinha de trigo, pó branco, polvilho, até lama ou lixo (ARAÚJO, 2003, p.57). Inicialmente os escravos não podiam participar, porém Debret pintou uma série de ilustrações que fazem a festa parecer comum a todos. Por três séculos essa foi à manifestação característica do carnaval brasileiro, mas o “Entrudo” se transformou em uma manifestação agressiva e bárbara, e com isso foi necessário achar outra forma de brincar (ARAÚJO, 2003, p.58).

F13: O entrudo no Rio de Janeiro, 1823 – retratado por Debret


46 E eis que então a burguesia em ascensão achou uma nova forma de brincar o Carnaval, importou de Paris o que estava na moda por lá: o Carnaval elegante, civilizado e formal, com regras e etiquetas, o Baile (ARAÚJO, 2003, p.67) (vocês sabem né? Houve uma época que tudo que era francês era chic aqui e até pão brasileiro virava made in France). Em 1855 é realizado o primeiro desfile pela cidade do Rio de Janeiro, calma que ainda não tem nada a ver com Escolas de Samba! Um grupo de amigos, todos fantasiados e com algumas carruagens, se deslocou de um ponto a outro da cidade numa brincadeira que antecedia ao baile, trazendo a festa de novo para a rua (ARAÚJO, 2003, p.91). Com a Avenida Central aberta em 1907 vieram as fantasias estilizadas, os desfiles Dos Ranchos e os automóveis conversíveis de capotas arriadas das Grandes Sociedades (ARAÚJO, 2003, p.100).

F14: Carnaval na Avenida Central


F15: As Grandes Sociedades e Os Ranchos

As Grandes Sociedades desfilavam com enredos de crítica social e política, ao som de óperas (é você não leu errado, caro leitor. Óperas!) com carros alegóricos e luxuosas fantasias, eram organizadas pelas camadas sociais mais ricas. Os Ranchos eram organizados pela pequena burguesia urbana, desfilavam com um enredo assim como as escolas de samba, porém com seu ritmo característico, além de fantasias, estandartes e carros alegóricos (CAVALCANTI, 1995, p.23).

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48 Nas primeiras décadas do século XX os Ranchos Carnavalescos e as Grandes Sociedades eram as atrações do carnaval carioca, onde faziam de seu palco principal a Avenida Rio Branco (ARAÚJO, 2003, p.124), mas esse tipo de Carnaval estava com os dias contados porque passariam nas avenidas do Rio sambas populares , e isso mudaria completamente a história. Estou dizendo isso porque segundo Edison Carneiro , o samba é a única grande diferença entre os Ranchos e as Escolas e ele se refere ao surgimento das Escolas de Samba de forma muito feliz (apud CAVALCANTI, 1995, p.24): Tendo chegado tarde ao Rio de Janeiro, com as atenções populares já monopolizadas pelo rancho, o samba, ao se organizar em escolas – ou seja, deixou de ser uma diversão do morro e da favela para percorrer ensurdecedoramente as ruas cariocas – Não se deu o trabalho de criar para si uma forma especial de cortejo. Desenvolvimento do rancho em sua estrutura processional, somente o samba faz diferença fundamental entre ranchos e as Escolas: diferença de ritmo, de ginga, de evoluções, e demonstrações de preferência popular, de número de figurantes. No fim da década de 20, os participantes dos blocos da Praça Onze sentiram necessidade de transformar o seu Carnaval e inspiraram-se nos carnavais que já desfilavam no Rio (ARAÚJO, 2003, p.101).


49 Precisavam de um nome. Um nome para esse novo conjunto que surgia, e então o sambista sugeriu! Muito provavelmente, quando Ismael Silva sugeriu o nome “Escola de Samba” fazendo menção a uma escola normal, não fazia idéia de que sua brincadeira debochada se tornaria um dos maiores espetáculos da terra (ARAÚJO, 2003, p.219): Somente o Samba faz diferença fundamental entre Os Ranchos e As Escolas, inicialmente. Mas, como já disse, diferença fundamental. Diferença de ritmo, de ginga, de evolução na avenida. A declaração de Ismael Silva explica claramente isso, de maneira que só um sambista saberia explicar (ARAÚJO, 2003, p.220): Quando comecei o samba, na época, não dava para os grupos carnavalescos andarem na rua conforme a gente vê hoje em dia. O estilo não dava para andar. Eu comecei a notar que havia essa coisa. O samba era assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar na rua assim? Aí a gente começou um samba assim: bum bum paticumbum prugurundum. Estava descoberta a fórmula. Sim, sim, sim mais novo sambista! Isso é um som mais do que familiar. Foi o samba que ganhou o título do Carnaval de 1982, para a Escola Império Serrano.


50 BUM BUM PATICUMBUM PRUGURUNDUM IMPÉRIO SERRANO - 1982 Bum bum paticumbum prugurundum O nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí Bum bum paticumbum prugurundum, Contagiando a Marquês de Sapucaí (Eu enfeitei) Enfeitei meu coração (enfeitei meu coração) De confete e serpentina Minha mente se fez menina Num mundo de recordação Abracei a coroa imperial, fiz meu carnaval, Extravasando toda a minha emoção Oh, Praça Onze, tu és imortal Teus braços embalaram o samba A sua apoteose é triunfal De uma barrica se fez uma cuíca De outra barrica um surdo de marcação Com reco-reco, pandeiro e tamborim E lindas baianas o samba ficou assim Com reco-reco, pandeiro e tamborim E lindas baianas o samba ficou assim E passo a passo no compasso o samba cresceu Na Candelária construiu seu apogeu


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As burrinhas, que imagem, para os olhos um prazer Pedem passagem pros moleques de Debret As africanas, que quadro original Iemanjá, Iemanjá, enriquecendo o visual (Vem meu amor) Vem, meu amor, manda a tristeza embora É carnaval, a folia, neste dia ninguém chora Super Escolas de Samba S/A Super-alegorias Escondendo gente bamba Que covardia!

Em suma, essa é parte da origem da festa que transmite o Brasil para o mundo. Então andemos, porque como diria Giovanni Improtta “o tempo urge e a Sapucaí é grande”.

F16: Imagem do desfile de Bum bum paticumbum prugurundum – Império Serrano 1982


OS REDUTOS DO SAMBA


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OS REDUTOS DO SAMBA Costumo dizer, desde que comecei essa pesquisa e vivência do Carnaval, que o nosso Carnaval carioca possui duas cidades, Cidade de Criação e Cidade Desfile. E sempre foi assim! O que foi modificado, com o tempo, foram as características desses locais. Locais que são por excelência, completamente diferentes em relação a tipos de habitantes, número de habitantes e objetivos. Mas o que define uma cidade? Segundo Françoise Choay, a cidade é um lugar ou um suporte estático de uma tripla comunicação concernindo à troca de bens, informações e afetos (CHOAY, apud MIRANDA, 2011, p.2), mas o sentido institucional de cidade varia de país para país e constitui um instrumento administrativo, jurídico e fiscal. Porém, a partir de Massimo Canevacci podemos pressupor que a Cidade de Criação se parece com a civitas (romana), que significa reunião de pessoas sob a mesma lei independente de suas etnias ou religião. Enquanto a Cidade Desfile, nos dias de desfile e apenas nesses dias, é a união indissociável entre aquilo a que os romanos chamavam de urbs (território físico da cidade) e civitas (comunidade dos cidadãos que a habitam) (apud MIRANDA, 2011).


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Mas isso ficou complicado para os boêmios entenderem, então tentarei simplificar a teoria: O conceito de cidade para os gregos era a polis enquanto para os romanos era a civita, conceitos muito diferentes de cidades. Na polis, para ser considerado cidadão com direitos era necessário ter nascido na lá, enquanto na civita qualquer um que chegasse e respeitasse a lei do recinto era considerado cidadão. Por isso a Cidade de Criação pode ser comparada a civita romana, porque estando lá não importa sua origem desde que respeite suas regras de conduta.


CIDADE DE CRIAÇÃO


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CIDADE DE CRIAÇÃO As Cidades de criação já existiam desde que as Escolas de Samba foram inventadas, quando essas ainda se confundiam com blocos carnavalescos e não tinham nem técnica nem um objetivo chave. Cada Escola era responsabilidade de uma comunidade, por exemplo: A Estação Primeira de Mangueira, era responsabilidade da Comunidade do morro da Mangueira; a Unidos da Tijuca era responsabilidade da comunidade do Morro do Borel. Isso não era obrigação, mas acontecia quase como uma regra, assim como você não encontra um carioca da gema que torça para o São Paulo. À medida que o Carnaval foi ficando cada vez mais profissional, cada comunidade foi adquirindo recursos próprios para a concepção de suas respectivas Cidades de Criação. Os barracões de criação das Escolas se encontravam no berço de suas comunidades e isso fazia com que a comunidade se voltasse para a Escola e se envolvesse. Assim, cada Escola de Samba acabou tornando-se responsável por diversos acontecimentos artísticos dentro da comunidade, coisa que acontece até hoje, pois os vínculos estabelecidos entre a comunidade e a Escola não se dão apenas nos momentos festivos e comemorativos, mas são reafirmados diariamente (SANTOS, 2007, p.134).


59 Quanto mais competitivo o Carnaval, maior a mistura e a integração dos profissionais de cada comunidade, afinal cada comunidade funcionou como uma escola profissionalizante do Carnaval. Como se colocasse em vigor aquele samba:

NÃO DEIXE O SAMBA MORRER [Edson Conceição e Aloísio Silva] Quando eu não puder pisar mais na avenida Quando as minhas pernas não puderem agüentar Levar meu corpo junto com meu samba O meu anel de bamba Entrego a quem mereça usar Eu vou ficar no meio do povo esperando Minha escola perdendo ou ganhando Mais um carnaval, antes de me despedir Deixo ao sambista mais novo O meu pedido final Não deixe o samba morrer Não deixe o samba acabar O morro foi feito de samba De samba pra gente sambar


60 Porém, quanto mais profissional o Carnaval, maior a divisão dos habitantes da Cidade de Criação entre habitantes da Cidade Desfile. Podemos dizer até que a Cidade de Criação sofreu uma subdivisão, pois lá se formavam profissionais que produziam o Carnaval que iria para a Avenida (ferreiros, marceneiros, pintores, etc.), e profissionais que desfilariam na mesma (mestre-sala, porta-bandeira, passistas, etc.). Os profissionais que desfilam, em sua grande maioria, ainda são formados pela comunidade em que vivem, entretanto os profissionais que criam o Carnaval dentro dos barracões já não vêm apenas das comunidades de cada Escola. Podemos dizer que essa divisão ficou bem clara há poucos anos, quando as Escolas do grupo especial ganharam uma legítima Cidade do Samba. Uma cidade com barracões inspirados em fábricas, acompan-

F17: Localização das Escolas de Samba do Rio


61 hando o crescimento visível do Carnaval carioca. Mas porque chamá-la de cidade ao invés de “empresa do Carnaval” ou “fábricas de Carnaval”? Porque na Cidade de Criação foram construídos quatorze barracões e cada barracão representa uma Escola que representa uma comunidade carioca. Criou-se nesse lugar um “mosaico” com diversos territórios culturais que carrega uma história própria, mas que continua a ser construída também como parte da história da comunidade em que nasceram (SANTOS, 2007, p.13).

A CIDADE PARA O SAMBA A Cidade do Samba foi um projeto sonhado pelos criadores das Escolas de Samba, porém só foi inaugurado no ano de 2005 para a execução do Carnaval de 2006 (SOUSA, 2006). Com relação aos aspectos técnicos dessa cidade, podemos começar com a escolha do terreno. Esta, certamente, tem uma razão clara: local de “solo sagrado”. O triângulo formado pelos bairros Saúde, Santo Cristo e Gamboa concentra grande tradição da cultura popular carioca, inclusive o fato de ser o solo onde nasceu o samba carioca, “O solo sagrado”. O projeto foi realizado pelo escritório Ciclo Design, dos arquitetos Vitor Wanderley e João Uchoa, que venceram uma concorrência públi-


62 ca organizada pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA). Mais tarde o projeto também foi incorporado pela prefeitura do Rio, através da RioUrbe. O Arquiteto descreveu o projeto como uma “fábrica de carnaval” e desta forma foi concebida, com a lógica, os ciclos e os fluxos de uma indústria (SOUSA, 2006). A Cidade do samba ocupa uma área de 92 mil m² e toda a estrutura projetada teve como objetivo principal garantir a qualidade, segurança e eficiência na montagem do Carnaval carioca (WANDERLEY, 2008). O complexo arquitetônico reúne quatorze barracões, depósito de instrumentos, salas de ensaios e outros equipamentos para a preparação dos desfiles, além de uma grande área central de lazer e entretenimento.

F18: Cidade do Samba


63 Os barracões possuem quatro pavimentos. No pavimento térreo, onde são montados os carros alegóricos, existe toda uma estrutura para a realização dos serviços de serralheria, carpintaria, vidraçaria e borracharia, estando todos os espaços interligados por um depósito de materiais, almoxarifado vertical e um monta carga. Ainda no primeiro piso encontram-se recepção, loja, elevador, escadas de acesso e subestação elétrica. O primeiro pavimento é reservado para refeitório e vestiários, projetados para receber diariamente até cento e cinquenta pessoas. O segundo pavimento é onde ficam as salas administrativas, salas de criação, sala de reunião, diretoria, marketing e presidência. E o

F19: Cidade do Samba


64 Terceiro Pavimento Montagem de adereços Esculturas de isopor Almoxarifado Pintura Fibra de vidro

Segundo Pavimento Selas administrativas Salas de criação Sala de reunião Diretoria Marketing Presidência Primeiro Pavimento Refeitório Vestiários

Pavimento Térreo Serralheria Carpintaria Vidraçaria Borracharia Depósito de materiais Almoxarifado vertical

Gancho para deslocamento de alegoria

Elevador Monta carga 3m x 3m

Local pra emblema e bandeira da Escola

Passarela de visitação externa

Portão para área interna da Cidade do Samba

F20: Esquema do barracão


65 terceiro é último pavimento, com área aproximada de 2.700 m² recebe a montagem de adereços, esculturas de isopor, almoxarifado, pintura e resina, tudo feito segundo normas da ABNT para que houvesse uma boa filtragem do ar devido aos tipos de materiais utilizados, porém essa filtragem não funciona de forma eficaz. Todas as edificações possuem escadas de emergência, sistema contra incêndio e banheiros (WANDERLEY, 2008). É claro que os aspectos técnicos em que o projeto se desenvolveu tornam os barracões da Cidade do samba muito melhores do que os antigos barracões das Escolas, isso no sentido de estarem mais apropriados e equipados para o desenvolvimento de um projeto de Carnaval e também em relação a logística, porque carro alegórico não é carro de passeio, ou seja, ficou mais fácil chegar ao Sambódromo e independente da origem de cada Escola todas partem do mesmo lugar. Porém, o projeto arquitetônico só seria perfeito se os arquitetos tivessem acompanhado uma concepção inteira de Carnaval dentro do barracão e ainda assim corriam risco de não atender, porque o Carnaval do Rio não tem limites para criatividade e nem para tamanho! Mas a criatividade também faz com que os “arquitetos carnavalescos” e “ferreiros engenheiros” dêem alguns jeitinhos para que o carro alegórico que tem que ultrapassar um portão de 10 metros de altura passe e se transforme em um carro de 15 metros de altura na avenida. Se pensarmos como urbanistas, a Cidade do samba passou a concentrar


66 em um só lugar todos os profissionais, das mais diversas comunidades cariocas e das mais diversas partes do país, responsáveis pela construção do Carnaval desfile. E estando todo mundo no mesmo lugar, os profissionais passaram a trabalhar em equipes e em mais de uma Escola ao mesmo tempo. Mas não se preocupem meus caros, é uma questão que envolve ética profissional e por isso o segredo de cada escola está muito bem guardado mesmo com toda essa permuta. Para esse grupo de habitantes, por mais que alguns tenham uma Escola do coração e até saiam na Avenida, o Carnaval acontece onze meses do ano no barracão e não apenas dois dias na Sapucaí. Muitos deles participam da fabricação do espetáculo há anos, começou como aprendiz e se torna mestre como acontecia nas escolas renascentistas, outros são graduados em moda, arquitetura, história, escultura, design,

F21: Bandeiras das Escolas que estão na Cidade do Samba em 2012


67 são diversas as áreas que o Carnaval integra no barracão. A preocupação da maioria desses profissionais é que a Escola complete a Avenida, e que nada saia do lugar. Porém depois que a Escola percorre seu caminho, acaba o ano para eles e só recomeça quando forem chamados para o próximo Carnaval. O Carnaval dos barracões, claro! Ah, mais uma coisa! A Cidade de Criação tem ao longo do seu ano um crescimento populacional mensal que não segue uma regra comum de crescimento urbano, segue a regra do Carnaval, não é lógico? Quanto mais próximo do Carnaval mais gente no barracão, e esse número pode ultrapassar as previsões dos idealizadores do projeto, chegando a ter mais de duzentas pessoas trabalhando diariamente. Mas se tentarmos enxergar como arquitetos, conseguiríamos sim achar uma convenção: acabamento minucioso em objetos grandiosos, com proximidade da data de entrega necessita de mais gente trabalhando no projeto! Mas há uma diferença essencial, se trabalha em ritmo de samba, esquentando os tamborins para a entrada na avenida, e isso com certeza é o máximo!


CIDADE DESFILE


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CIDADE DESFILE É mesmo incrível! Essa cidade toma a cena. Ela existe para o mundo por apenas três dias do ano (pois são os dias de transmissões ao vivo), mas é como se ela tivesse o poder de materializar todo o Carnaval. Tudo que foi construído na Cidade de Criação, por onze fatídicos meses, parece ser construído ali, na frente de milhares de espectadores e milhões de telespectadores, como mágica. O desfile é o apogeu do ciclo anual, onde os diferentes elementos e componentes da Escola reúnem-se pouco a pouco na concentração. É onde o conjunto que se apertava nos barracões é devidamente montado de forma linear pela qual foi projetado. É aonde todos os projetos fazem sua passagem. A Cidade Desfile, não é um conceito de cidade comum, digamos que essa cidade foi por anos uma “cidade provisória”, pra ser mais exata, por cinquenta e seis anos a cidade era montada e desmontada com o objetivo de atender ao público dos desfiles e formar uma passarela. Mas antes que a Sapucaí virasse sinônimo de samba e fosse endereço SAPUCAÍ_Avenida Marquês de Sapucaí, onde foi construída a “Passarela do Samba”


F22: Desfile em frente à Igreja da Candelária.

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F23: Desfile Marquês de Sapucaí, antes da construção da passarela.


72 fixo do espetáculo, o samba das Escolas marcou compasso pela praça onze, pela Avenida Presidente Vargas e até mesmo no Estádio São Januário (CAVALCANTI, 1995, p.27). Mas tem que ficar claro, que a cidade que nomeei “Cidade Desfile” só pode ser considerada uma cidade quando sofre interferência de algum evento como os ensaios técnicos ou os desfiles. Isso porque ela adquire esse status, pela complexidade que à cerca nesse período, tendo em vista que toda a problemática existente em uma cidade como as que conhecemos, é visível e indiscutível na Cidade Desfile. Os números, gastos, consumo, comércio, comunidades, etc., mas talvez o mais importante, o fato de que a cidade historicamente existe em função de uma circulação, de entradas e saídas, cuja incumbência é fazer passar os fluxos (PELBART, 2000, p.46), e estamos falando aqui, justamente de uma cidade que se desenvolveu pra ver o samba passar. Inicialmente a passagem era constituída com os cordões, barreiras quase que imaginárias, que separavam os espectadores dos foliões. Mais tarde, com as arquibancadas além de fazer uma separação mais rígida entre espectador e folião, elas tiveram participação fundamental para mudar a cara do evento, trouxeram um diferente ângulo de observação (CAVALCANTI, 1995, p.28). Não pense você, meu nobre sambista que a única coisa que as arquibancadas fizeram foi tirar umas cabeças da frente, as arquibancadas verticalizaram o nosso Carnaval! Elas foram responsáveis pelo aumento gradativo na altura das alegorias.


73 Mesmo sem “endereço fixo”, depois de 1952 com a montagem das arquibancadas ficou muito claro que o espaço precisava crescer, porque já não comportava mais a quantidade de espectadores que o evento atraía. Mas só depois de muito “monta e desmonta” de arquibancada que em 1984, no governo de Leonel Brizola, quase 60 anos após a formação da primeira Escola de Samba que se consolida o lugar fixo do espetáculo (CAVALCANTI, 1995, p.28).

F24: Desfiles do Salgueiro nas ruas do Rio.


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O SAMBA PEDE PASSAGEM Para que fique claro aos arquitetos passantes, a construção chamada de Passarela do Samba tem mais de um nome popular. Sambódromo, Sapucaí e o próprio nome Passarela do Samba são nomes que se referem ao mesmo lugar, que possui como nome oficial “Passarela professor Darcy Ribeiro” (e essa notícia é nova não só para os arquitetos, mas acredito que para maioria dos sambistas). Darcy Ribeiro, que era na época da construção secretário da cultura do Estado, foi o responsável por reunir o traço de Oscar Niemeyer com a decisão de Leonel Brizola (CAVALCANTI, 1995, p.28). Niemeyer é um dos arquitetos mais importantes do nosso país, se não o mais popular. E podemos dizer sem pestanejar, que ele foi res-

F25: Croqui de Niermeyer 5


75 ponsável por concretizar o Sambódromo, isso no sentido literal mesmo, porque o estilo desse arquiteto é principalmente o concreto armado! E esse estilo é o exato motivo da velocidade na construção da primeira etapa da Passarela (quatro meses) que atendeu aos desfiles até o ano de 2012, quando foi finalmente concluído o projeto original do Sambódromo e reinaugurado. Assim como a Cidade de Criação, a Cidade Desfile possui aspectos técnicos, mas o projeto dessas duas cidades tem diferenças cruciais. Uma foi projetada pra ser o mais funcional possível, para que atendesse da melhor forma a construção do Carnaval (Cidade de Criação). A outra foi projetada para que atendesse a passagem da Escola, mas fica muito claro que a atenção do projeto é maior para os espectadores e para outros fins (Cidade Desfile). Mas pense bem, se não acontecesse mais nada no espaço da Passarela o espaço se transformaria num grande vazio urbano, que seria utilizado após janeiro até pouco depois do Carnaval apenas. Mesmo que a Cidade desfile não tenha seu espírito à maior parte do ano incorporado ele ainda assim se faz presente, e sabe o que mais, o outro fim que ocupa a cidade do espetáculo é exatamente uma escola normal que deu a idéia para Ismael Silva de brincar com esse nome. Niemeyer disse o seguinte sobre o projeto (http://www.niemeyer.org.br/):


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No que concerne a arquitetura, o mais importante foi, primeiro, encontrar uma solução inusitada para a integração das salas de aula e das tribunas. Uma solução simples e funcional com o objetivo de não comprometer a unidade. Em seguida, dar ao conjunto um sentido plástico inovador, qualquer coisa capaz de marcá-lo como o novo símbolo dessa cidade. Isso explica o Museu do Samba, o painel de Marianne Peretti, os mosaicos de Athos Bulcão, o grande arco, esbelto e elegante, lançado no espaço como o concreto armado permite. E tudo isto conferiu à Praça da Apoteose, que os grandes espaços tornam monumental, uma nova dimensão arquitetônica, e esse nível de bom gosto, fantasia e invenção inerente a toda obra de arte.

A Passarela que dispõe de lugares para uma plateia de 72.500 pessoas, é a consagração de uma rua para o desfile, rua esta localizada no centro da cidade, a Avenida Marquês de Sapucaí. A atribuição permanente de 700 metros da avenida se dá com a construção dessa estrutura arquitetônica monumental. Desfilar no Carnaval sempre foi apresentar-se num local prestigiado, torna-se dessa forma visível se possível para toda cidade, e na Cidade Desfile isso se faz possível.


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F26: Etapas da construção do Sambódromo


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F27: Passarela do Samba


79 A Cidade Desfile é formada por 13 setores, dentre eles arquibancadas, cadeiras, frisas, camarotes e pista. As arquibancadas são espaços descobertos que alcançaram a altura de 15 metros e 80 centímetros, e são acessados por escadas. As Cadeiras podem ser divididas entre cadeiras de pistas ou cadeiras numeradas e estão dispostas em degraus em frente ao setor 12 e 13. As Frisas, são boxes descobertos, lateralmente fechados com entrada e lugares privativos que estão divididas em quatro filas (A, B, C e D), sendo a fila A no mesmo nível da passarela e as demais sucessivamente um degrau mais alto e uma fila atrás (as frisas ficam localizadas na frente das arquibancadas, recebendo a mesma numeração de setores). Os camarotes são espaços privativos que oferecem uma ótima visão em função da proximidade com a avenida e da altura mediana em que estão instalados, além dos comes e bebes liberado, mas é um luxo com um custo nada baixo. A área de desfile é a pista, por onde passam todas as Escolas de Samba com todos os seus componentes que podem chegar a cinco mil por Escola. O Desfile inicia-se na altura do setor três, onde se encontra o portão de abertura que marca o início da cronometragem e termina na altura do setor 13 com a chegada na Praça da apoteose. Mas antes que as alegorias entrem na avenida, elas são obrigadas a fazer uma curva de noventa graus, saindo da Avenida Presidente Vargas para entrar na Sapucaí. Esse momento é o mais ariscado no trajeto das alegorias, pois não é nada simples manobrar carros de mais de 20 metros de comprimento com uma altura razoável além de pouca visibilidade para o mo-


80 torista, e talvez essa seja a questão em que o projeto da Cidade Desfile deixa mais a desejar. Mas temos também que levar em consideração que sem essa Cidade Desfile monumental, talvez os carros alegóricos não tivessem crescido vertiginosamente, então esse crescimento das alegorias tem influência direta dessa mega cidade para o samba. Faltou falar da praça da apoteose, a famosa dispersão que finaliza o desfile. A ideia de uma “apoteose” dos desfiles, executada na respec-

F28: Carro King Kong - Salgueiro 2011


81 tiva praça, criou um efeito contrário ao caráter processual e linear da narrativa do desfile, isso no projeto original, mas não colou! O uso se impôs determinante do espaço, pois dispersar antes de acabar o desfile desconfiguraria o enredo. Dessa forma, tiveram que achar uma solução prática para o problema, que foi o preenchimento dos excessos laterais da suposta “praça” por cadeiras de pista de ambos os lados, de forma que o desfile percorresse esse trecho com sua evolução linear. O Desfile terminou por impor sua estrutura a Cidade de concreto e aos habitantes da mesma.

F29: Croqui de Niemeyer

F30: Apoteose


DESFILE


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DESFILE A melhor frase que encontro, nesse momento, para descrever o desfile vem de Paulinho da Viola, “foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar”. De verdade não poderia encontrar nada tão poético na arquitetura ou no urbanismo para conceituar todo o movimento do espetáculo quanto o samba, mas o conceito de espaço-movimento é inegavelmente o que melhor traduz esse evento. Segundo Paola Berenstein, o conceito de espaço-movimento sugere que não se pode museificar de forma tradicional as favelas (JACQUES, 2003, p.149), através da conservação, como é feito nas cidades que são patrimônios históricos: Ouro Preto, São Luis ou Veneza. O estado natural dessa forma urbana é o movimento, então o que deve ser conservado é o movimento, que está ligado diretamente aos sujeitos da ação, que são tanto aqueles que percorrem esses espaços quanto aqueles que os constroem e os transformam continuamente (JACQUES, 2003, p.149). O espaço-movimento não seria mais ligado somente ao próprio espaço físico, mas, sobretudo, ao movimento do percurso, à experiência de percorrê-lo, o que é da ordem do vivido e, simultaneamente, ao movimento do próprio


85 espaço em transformação, o que é da ordem do vivo. Diante disso, só podemos considerar a favela como um espaço-movimento (JACQUES, 2003, p.150). Bem, é sabido por qualquer sambista que a origem da maioria das Escolas de Samba do Rio foram as comunidades ou favelas, e muitas delas trazem inclusive sua origem no nome da Escola: Mangueira, Estácio, Padre Miguel, Vila Isabel, Nilópolis. E mesmo quando a origem não aparece no orgulho do pavilhão, se faz presente nos sambas. O que quero dizer com isso é que a essência do movimento constante das Escolas de Samba vem de suas origens. Assim como as comunidades, o que diferencia esse teatro ópera desfile e o torna único é o fato que o momento que o faz, na expressão de Edson Carneiro, “uma Escola é o samba quando ele desce o morro” (CAVALCANTI, 1995, p.28).

F31: Clipe da mangueira 2010, “o samba descendo o morro”


86 O Samba desceu o morro sim, mas o público subiu nas arquibancadas. O desfile era visto do chão, porém hoje em dia temos que considerar, visto que aconteceu essa verticalização, que o Carnaval é produzido para ser visto de pelo menos três horizontes principais: arquibancada, camarote e chão. Ah... Mas que fique claro, isso quando o folião se encontra dentro da Cidade Desfile, porque boa parte dos foliões assistem pela televisão e isso nos dá o privilégio de mais um ponto de vista, o de topo.


87 E aos poucos, os vários pontos de vista foram responsáveis por uma melhor analise do que deveria constar em cada critério de julgamento. Hoje existem dez critérios e alguns deles são subdivididos em duas partes para que não haja grandes distorções em julgamentos técnicos, mas como todos nós sabemos ainda não há como julgar criatividade, gosto e emoção de forma consensual. Os critérios de julgamento segundo a LIESA são (Manual do julgador, 2012):

Bateria_A percussão deve manter o ritmo durante todo o desfile. Os

quatro juízes julgam a regularidade e a continuidade da batida, uma batida firme com uma marcação constante, além de um som equilibrado do conjunto. O ritmo deve ser variado e diversificado, mas deve ser mantido perfeitamente, especialmente quando os instrumentos reiniciam após uma parada. É proibida a utilização de instrumentos de sopro no conjunto.

F32: Bateria da Mangueira 2012


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Samba enredo_Esse quesito é dividido em letra e melodia do samba apresentado, respeitando-se a licença poética. O samba deve conter a essência do tema central apresentado pela Escola, alem de riqueza poética, beleza e bom gosto.

Harmonia_Em desfile de Escola de Samba, harmonia é o entrosamento entre o ritmo, canto e dança pela totalidade dos componentes da Escola em consonância com o “puxador”.

Evolução_O desfile deve manter um fluxo constante, sendo espontâ-

neo e criativo ao mesmo tempo, expressar paixão, agilidade e vigor dos participantes. A abertura de buracos no desfile, retrocesso de alas ou embolação entre alas pode acarretar em penalização.

Enredo_É uma criação artística literária, onde deve ser considerada a

força da idéia como um todo e seu desenvolvimento nas várias alas e alegorias. E nesse quesito a penalização pode vir por falta de uma alegoria ou ala, ou por dificuldade de entendimento do conjunto.

Conjunto_É o “todo” do desfile, a forma geral e integrada como a Escola se apresenta. O equilíbrio artístico do conjunto.

Alegorias e Adereços_Neste Quesito estão em julgamento as Ale-

gorias (entendendo-se, como tal, qualquer elemento cenográfico que


89 esteja sobre rodas, incluindo os tripés) e os Adereços (entendendo-se, como tal, qualquer elemento cenográfico que não esteja sobre rodas). O valor do quesito é subdividido em concepção e realização. A concepção e a adequação das Alegorias e dos Adereços ao enredo que devem cumprir a função de transmitir as diversas partes do conteúdo desse enredo além de serem criativas sem sair do contexto. Pelo que diz respeito à realização leva-se em consideração a impressão causada pelas formas e pelo entrosamento, utilização, exploração e distribuição de materiais e cores, os acabamentos e cuidados na confecção e decoração, e no que se refere ao resultado visual, inclusive das partes traseiras e onde se encontram os geradores. As fantasias dos destaques também são avaliadas nesta categoria.

F33: Alegoria da Beija-flor 2012


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Fantasias_Este quesito também tem seus valores subdivididos em concepção e realização. A concepção é a adequação das Fantasias ao Enredo as quais devem cumprir a função de transmitir as diversas partes do conteúdo desse Enredo assim como as alegorias. A realização concerne à impressão causada pelas formas e pelo entrosamento, utilização, exploração e distribuição de materiais e cores, os acabamentos e os cuidados na confecção das fantasias que deverão também possibilitar uma boa evolução dos componentes, a uniformidade de detalhes dentro das Alas (igualdade de calçados, meias, shorts, biquínis, chapéus e outros complementos, quando ficar nítido esta proposta).

F34: Fantasia da Unidos da Tijuca 2012


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Comissão de frente_É o primeiro contingente humano, a pé ou so-

bre rodas, que poderá se apresentar fantasiado, dentro da proposta do Enredo, ou tradicionalmente. Esse foi o quesito que mudou a forma de julgamento dos últimos anos, subdividindo em concepção/indumentária e apresentação/realização. A concepção da comissão de frente e a sua capacidade de impactar positivamente o público, juntamente com toda a indumentária é a primeira parte do julgamento. Enquanto a segunda parte do julgamento, apresentação e realização, resguarda o cumprimento da função essencial de saudar o público e apresentar a Escola, sendo obrigatória a exibição em frente às cabines de julgamento deste quesito.

F35: Comissão de frente da Vila Isabel 2012


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Mestre Sala e Porta Bandeira_ A indumentária do casal é julga-

da, verificando sua adequação para a dança e a impressão causada pelas suas formas e acabamentos, beleza e bom gosto. A exibição da dança do casal é julgada, considerando que eles não “sambam” e sim executam um bailado ao ritmo do samba, com passos e características próprias, com meneios, mesuras, giros, meias-voltas e torneados, sendo obrigatória a sua exibição diante dos Módulos de Julgamento. A função do Mestre Sala é cortejar a Porta Bandeira, bem como proteger e apresentar o Pavilhão da Escola, devendo desenvolver gestos e posturas elegantes e corteses, que demonstrem reverência à sua dama (Porta Bandeira). Enquanto a função da Porta Bandeira é conduzir e apresentar o Pavilhão da Escola, sempre desfraldado e sem enrolá-lo em seu próprio corpo ou deixá-lo sob a responsabilidade do Mestre Sala.

Figura 36: Mestre sala e Porta bandeira da Mangueira 2012


93 Esses quesitos são de máxima importância, porque a Escola após escolher o enredo trabalha seu projeto de desfile em cima de cada quesito. É como se fosse um concurso, assim como os concursos para selecionar o projeto que melhor se adéqua a consolidação de equipamentos urbanos em arquitetura. O Carnaval carioca é um concurso anual que possui os mesmos quesitos julgadores para cada Escola, mas esses quesitos têm que julgar diferentes enredos, o que de alguma forma dificulta o processo e sempre dá confusão! Porque, de fato, há como julgar os aspectos técnicos, mas é muito difícil julgar o criativo ou o artístico. Um desfile recente que deixa claro o quanto é difícil julgar a emoção de um enredo e a criatividade, além de nos remeter de novo ao conceito de espaço-movimento, foi o desfile da Estação Primeira de Mangueira de 2011. Nesse desfile a bateria parou de tocar por trinta e dois segundos, e fez toda a marcação com o pé marchando feito soldados com sapatos especiais para sapateado, para que o som da marcação fosse ouvido. Foi a primeira vez que uma bateria parou por tanto tempo e foi lindo, inesquecível e marcante, mas com certeza, não há vídeo que reproduza o momento, apesar de mesmo em vídeo arrepiar. Ainda assim a bateria da Mangueira tirou uma nota nove, que equivalia à metade da pontuação naquele ano, não houve sambista entendesse esse despautério e concordasse com essa avaliação.

Mas o Carnaval é assim como a arquitetura mesmo, em muitas


94 ocasiões o projeto mais marcante e empolgante não vence na apuração, às vezes por falhas técnicas no desenvolvimento ou, por mais triste que seja, por desvio de quem tem o poder de avaliar e definir o vencedor. Só que no caso do Carnaval, todos os projetos são mostrados ao publico, levando em consideração que cada desfile é um projeto, então só permanece a lembrança do que mais emocionou, ousou e transformou e mesmo que não venha a ser o vitorioso, é assim que os melhores desfiles se eternizam! E foi por isso que para deleite do público, com todo o orgulho, a Estação Primeira ousou de novo e nesse ano de 2012, parou a bateria por mais de um minuto, tocou pagode, mudou de interprete várias vezes e sambou em cima da nota do ano anterior, porque o Carnaval é um espetáculo e insiste na emoção. Já na arquitetura fica na lembrança o que é construído, edificado, e muitas vezes os projetos concorrentes nem são vistos pelo público que vai utilizá-lo, não é consentida essa participação.


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ALEGORIAS E ADEREÇOS


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ALEGORIAS E ADEREÇOS Para a maioria dos arquitetos e para muitos dos sambistas, os carros alegóricos seriam a conexão mais concreta entre o Carnaval e a arquitetura. Porque o que acontece é o seguinte: em geral quando se pensa em arquitetura, se pensa em construções, estruturas, marcenaria e os carros são tudo isso além de se moverem, de maneira geral, andando para frente. Estou afirmando com certa precisão sobre o pensamento comum, pois fui por diversas vezes indagada sobre esse projeto por curiosos, e por diversas vezes leigos ou arquitetos chegaram à conclusão precipitada de que um projeto sobre arquitetura e Carnaval se resumiria a carros alegóricos e suas estruturas. Mas é claro que a arquitetura do Carnaval não se resume a isso, como já vimos até aqui, porém a questão agora são os carros mesmo, ou alegorias como são chamadas nos desfiles de Carnaval. Essas alegorias foram se transformando juntamente com a estrutura da Cidade Desfile, que foi se verticalizando ao passar dos anos, como já foi dito. Mas o aumento no tamanho da alegoria foi geral, todas as Escolas acompanharam esse crescimento, de forma que tamanho da alegoria não é mais comparativo. As alegorias tiveram que sofrer um


99 refinamento com relação a acabamento e criatividade, tinham que ter um “algo mais” para que se diferenciassem umas das outras. Levando em consideração essas diferenciações entre os tipos de alegorias, posso afirmar sobre existência de três estilos principais: As alegorias que se movem com o curso do desfile, apenas andando para frente com seus destaques (Alegorias Estáticas); As alegorias que percorrem o curso e possuem algum movimento próprio além dos destaques (Engenharia ou Engenhocas); E por fim as Alegorias Vivas.

ALEGORIAS ESTÁTICAS Mesmo que estas alegorias que não possuem qualquer movimento, comparadas às outras, pareçam de certa forma menos importantes, isso seria um engano. Cada alegoria tem um motivo para estar no desfile, compõem o projeto do enredo e fazem a abertura ou o fechamento de um capitulo do mesmo. As alegorias que não possuem qualquer movimento costumam caracterizar a arquitetura estrutural com mais clareza, e dessa forma normalmente são representações de estruturas existentes, como: Castelos franceses, o teatro municipal do Rio, Igrejas Mineiras ou Baianas. É claro que a escolha da estrutura a ser representada depende


inteiramente do enredo, e quando muito importante no enredo, normalmente essa estrutura é representada de forma fidedigna com riqueza de detalhes. Mas há também outra forma de representar um lugar existente, com uma leitura própria e muitas vezes lúdica do carnavalesco sobre o lugar a ser representado. Lembro-me bem de dois exemplos: A alegoria inesquecível da Unidos da Tijuca, que cantava o enredo “É segredo”, representava “Os jardins suspensos da Babilônia” com cerca de cinquenta metros de comprimento e mais de três mil mudas de plantas verdadeiras, para orgulho de qualquer paisagista, um dos carros alegóricos mais exuberantes de 2010;

F37: Alegoria “jardins suspensos da Babilônia” da Unidos da Tijuca 2010


101 Em 2012 a Vila Isabel cantou um enredo sobre Angola e as alegorias independentemente de representarem savanas ou embarcações recebeu um tratamento de acabamento parecido umas com as outras, todas as alegorias vinham decoradas com um mosaico de tecido similar aos tecidos tradicionais angolanos, forma lúdica de representar a vegetação e a história local. Mas estamos falando de Carnaval, então temos que levar em consideração que uma alegoria não é uma típica estrutura arquitetônica, às vezes elas representam uma arquitetura única, mas isso acontece

F38: Alegoria da Vila Isabel 2012


F39: Alegoria ZiCartola da Mangueira 2011

somente se a importância dessa arquitetura no enredo for verdadeiramente grande. Normalmente essas alegorias são representações de várias arquiteturas e figuras compiladas, que somadas aos destaques dos carros, criam um conjunto, um exemplo foi a alegoria da Mangueira de 2011 representando o bar “ZiCartola”.


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ENGENHARIA OU ENGENHOCAS Estando lá dentro dos barracões é perceptível que, apesar de toda a técnica exigida para um Carnaval perfeito na avenida, muito do Carnaval é produzido no feeling. Não desmerecendo qualquer trabalho feito pelos mestres dos barracões, pelo contrário, eles estão tão acostumados com esse tipo estrutural que qualquer invenção de ultima hora do carnavalesco, eles são aptos a fazer. Mas muito do que é feito é construído de forma experimental e não há tempo hábil para desenvolver algumas estruturas dessa forma. As alegorias foram ganhando aos poucos movimento, seja este mecânico ou manual. Mas não pense você, nobre arquiteto, que os movimentos mecânicos são todos produzidos cheios de projetos executivos por empresas especializadas e que apenas os movimentos manuais ficam por conta das equipes do barracão. A maioria dos arquitetos cairia duro quando adentrassem num barracão e descobrissem com quantas plantas baixas e cortes é feita uma alegoria (resposta extraordinária: uma planta baixa e duas fachadas e corte nenhum). No ano de 2012 a Unidos da Tijuca apresentou oito alegorias na avenida, duas delas possuíam movimentos mecânicos e apenas um carro teve auxilio de uma empresa especializada de engenharia. O car-


104 ro representava a “missa do vaqueiro� em um enredo sobre Luiz Gonzaga. Na parte dianteira da alegoria se localizava um eixo principal que rotacionava outros quatro eixos que giravam em torno de si.

F40: Missa do Vaqueiro

F41: Missa do Vaqueiro


105 E agora que falamos no assunto “movimento de alegorias” aposto que você, querido leitor, já começou a lembrar de algum movimento de alegoria que tenha visto, imagens de grandes animais batendo asas ou mexendo a cabeça. Esse tipo de movimento, normalmente, é manual, com mais de uma pessoa que vai dentro da escultura da alegoria manuseando o esqueleto e nos fazendo crer que aquilo está vivo! Essa técnica veio para o Carnaval do Rio através de um intercâmbio cultural com Parintins, que brinca com esses movimentos na Festa do Boi Bumbá, e desta forma profissionais de Parintins vem todos os anos para contribuir de alguma maneira com o Carnaval do Rio. De oito carros da Unidos da Tijuca esse ano (2012), dois possuíam movimentos manuais significativos. Um deles representava uma sanfona gigante que ao se abrir se transformava em uma grande quadrilha, o outro possuía gangorras que se movimentavam com o peso dos foliões. Porém, o carro com movimento mais intrigante que já vi na avenida até hoje, é um mistério. No Carnaval de 2011 a alegoria da Tijuca que representou o filme Tubarão, em um enredo sobre “Medo”, possuía uma “piscina” de onde surgia um tubarão (cenográfico, é claro!) que engolia o mergulhador (uma pessoa, não cenográfica!) na avenida, o truque era o seguinte: o mergulhador quando “engolido” entrava por um túnel e saia no final da alegoria, mas esse não é o mistério. O mistério é: quem construiu o carro que carregava cerca de quinze mil litros de água e possuía um túnel dentro do tubarão, uma empresa de engenha-


106 ria ou o ferreiro da Unidos da Tijuca? O diretor de Carnaval da Tijuca me disse que engenheiros fizeram os cálculos do carro, mas o ferreiro Élcio me garantiu que ele que fez tudinho! Então, que me desculpem os engenheiros, mas o ferreiro foi muito convincente! Parabéns à engenhoca mais incrível já construída para o Carnaval carioca!

ALEGORIAS VIVAS Pode parecer tolo a princípio dar o nome de “Alegoria Viva” para uma alegoria, como se todas as outras não fossem “vivas”, com foliões, destaques, movimento. Mas nessas alegorias a vida é a arquitetura,

F42: Alegoria Tubarão da Tijuca 2011


107 sem qualquer demagogia. Os adereços são pessoas e dessa forma a alegoria fica passiva de modificação no desenvolver do desfile, pois os corpos permitem esse tipo de mudança. Em uma alegoria tradicional as pessoas que desfilam na mesma são consideradas composição, ou seja, se retirarmos qualquer folião do carro, ou em algumas ocasiões se retirarmos todos, ainda assim não descaracterizaria a alegoria (SANTOS, 2009, p.20). Porém, se isso fosse feito em uma Alegoria Viva, a falta de um componente que seja se transforma em um buraco na tela, e a falta dos corpos faz com que a alegoria pareça nada além de um amontoado de ferragens (SANTOS, 2009, p.20). Mas tem outra obrigatoriedade para nomearmos uma alegoria de “Alegoria Viva”, o conjunto. Essas alegorias normalmente são coreografadas e formadas por um grupo de pessoas com uma mesma customi-

F43: Alegoria Viva da Tijuca 2012


108 zação, e é justamente essa repetição e sincronia que causa esse efeito de “arquitetura viva”, é como se o revestimento se modificasse continuamente. É por causa de todo esse movimento feito em conjunto que fica impossível capturar em fotografia tudo que acontece nesse tipo de alegoria, seria o mesmo que tentar capturar com imagem uma paisagem onde o movimento é fundamental para o entendimento, mas depois da captura o movimento desaparece. Essas alegorias foram admiradas, de fato, pela primeira vez no Carnaval de 2004, quando o carnavalesco Paulo Barros representou o DNA com uma alegoria que formava uma pirâmide humana de corpos azuis. Até hoje alguns críticos reclamam desse tipo de alegoria, porque acham que essa sincronia tira o espírito espontâneo do Carnaval. Porém, o que seria de fato espontâneo? Carnaval é ensaio atrás de ensaio por meses, seja para sincronizar uma Alegoria Viva, uma comissão de frente ou os ritmistas da bateria, e até mesmo para fazer os foliões que não possuem qualquer coreografia cantar todo o samba, isso é um tipo de sincronia. Na Alegoria Viva a música é quase um dispositivo para a movimentação dos corpos, ela dá o sinal para criar uma “nova cara” para a estrutura com um pequeno movimento, isso faz com que no decorrer da avenida uma única estrutura pareçam duas, três, mudando constantemente sua arquitetura.


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F44: Alegoria DNA da Tijuca


FANTASIAS


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FANTASIAS Talvez arquitetos e sambistas entrem em um consenso antes de lerem, e achem que é pura invenção de moda minha comparar corpo e fantasia à estrutura. Porém, não posso me intimidar e deixar de fazê-lo. Isso porque foi justamente uma fantasia que desencadeou todo esse processo de analise. O corpo é a arquitetura que aloja o movimento, e nesse caso, a fantasia se soma a estrutura chamada corpo ou torna-se adereço dela. Segundo Heloisa Domingues Neves (NEVES, 2004, p.3): O corpo é a única arquitetura capaz de ser tão mutável e contemporânea como nenhuma outra já conseguiu ser, o melhor exemplo de arquitetura que contamina e se deixa contaminar e algo que consegue sentir e se adaptar a todo movimento do universo. O corpo é a arquitetura que aloja e entende a lógica do movimento, criando conexões. Ao interagir com o movimento apreende a lógica do fluxo e passa a movimentar-se coordenadamente com outros objetos e com outros corpos; passa a ser lugar de transferência e recebimento de informação, lugar de interação e troca, chegando a ser confundido com o próprio movimento.


113 Um ótimo exemplo da interação entre a “estrutura corpo” e a “estrutura fantasia” é a comissão de frente da Tijuca de 2011 que fazia uma performance curiosa, perdia a cabeça diversas vezes na Avenida. Mas para que esse efeito de “tirar a cabeça” parecesse legítimo era preciso um projeto estrutural para a fantasia, que funcionou da seguinte forma: A roupa que os zumbis vestiam, um grande casaco preto, continha uma armação por baixo para que ela sustentasse a roupa quando os zumbis agachassem, e desta forma o “esqueleto” da roupa (no caso, a armação) se mantinha de pé com a roupa enquanto os corpos dos bailarinos se agachavam e faziam o efeito de “perder a cabeça”.

F45: Comissão de frente da Tijuca 2011


114 Mas antes que uma fantasia vire a atração do Carnaval ela tem todo um processo de produção, seja ela uma fantasia de ala, um destaque ou uma fantasia especial, como é o caso da porta bandeira, da comissão de frente, da bateria, etc., o que muda com cada tipo de fantasia é a analise processual, o que deve ser levado em consideração para a criação de cada tipo específico de fantasia. O início do processo projetual de uma fantasia começa a partir de um croqui, tal como na arquitetura, desenvolvido pelo carnavalesco ou pelos designers que trabalham com o carnavalesco nessa produção, e talvez esse seja o processo mais demorado da criação, porque são cerca de cento e vinte fantasias diferentes em um desfile, não tendo um padrão numérico para a quantidade de fantasias diferentes por desfile. E antes que comece de fato a produção em larga escala de fantasias, o croqui tem que virar projeto executivo (desenho pintado detalhadamente, nesse caso), depois disso é desenvolvido um protótipo dos modelos para a escolha de materiais (excluindo dessa etapa as caras fantasias de destaque, e as fantasias de mestre sala e porta bandeira, que não possuem protótipo), após a escolha de materiais começa a reprodução em larga escala das fantasias. Parece simples, mas uma escola pode ter até cinco mil componentes divididos em alas, ritmistas, destaques e fantasias especiais, é muita fantasia há ser elaborada e produzida em pouco tempo.


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Figura 46: Desenhos de fantasia


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FANTASIAS ESPECIAIS Podemos titular como “Fantasias Especiais” todas as fantasias que entrem em algum quesito julgador específico (bateria, mestre sala, porta bandeira, comissão de frente) e fantasias que tenham algum destaque no desfile (baianas, destaques de carro ou de chão, rainha de bateria). As fantasias que entram em algum quesito julgador, não podem ter qualquer problema no que se refere à evolução do profissional da passarela. A roupa do mestre sala tem que ter o tamanho adequado, não pode atrapalhar a visão muito menos o desenvolvimento motor, assim como as roupas dos ritmistas não podem impedir ou atrapalhar o movimento de ritmo, então independente da estrutura que seja pensada ela tem que se adequar ao motivo daqueles profissionais.

Figura 47: Baianas da Mangueira


117 Outras fantasias que apresentam aspectos estruturais fundamentais são as das baianas e a das porta bandeiras, fantasias que podem pesar mais de vinte quilos, e que precisam desenvolver na avenida de forma completamente diferente dos demais foliões. Boa parte da avenida é cruzada girando simultaneamente com o caminhar, então essas fantasias devem ser projetadas para que enobreça esse movimento rotacional e estruturadas para que não percam a silhueta durante o desfile, por isso o peso é tão superior as demais.

ALAS As alas são o contingente populacional mais elevado do desfile, mas não é por menos, ala é sinônimo de série, então fantasia feita para ala é fantasia construída para atuar em conjunto. O movimento de cada corpo produz um efeito no sistema (NEVES, 2004, p.3), um balanço, uma ginga que só tem resultado por agir em conjunto. Uma das regras básicas do desfile é “não haver buraco na avenida” e essas fantasias devem ser bem projetadas para que cumpram esse papel, de cima forrar a avenida como se formasse um longo tapete, podemos inclusive comparar esse processo com o processo projetual do paisagismo, seja com os maciços de plantas ou com os mosai-


118 cos de Burle Marx. É também por ter esse propósito que a maioria das fantasias de ala possui aquele adorno nas costas, para que ajude no preenchimento da avenida. As alas podem inclusive se movimentar de forma especial no desfile, ter sincronia ou serem espontâneas, podem mudar de lugar, encenar, podem completar uma alegoria. Bons exemplos de movimentações inesperadas de alas foram: No desfile da Mangueira de 2003 que falava sobre “as pragas do Egito” onde uma ala que representava o mar vermelho se abriu permitindo a passagem da ala seguinte que representava o povo Hebreu, e após o ultimo Hebreu cruzar o “mar” toda ala se fechou; Em 2007 a Escola Viradouro, coordenada por Paulo Barros, levou para o Sambódromo a bateria em cima de uma alegoria, e quando a bateria desceu da alegoria para entrar no recuo uma ala igual à bateria substituiu a mesma em cima do carro, que representava um tabuleiro de xadrez em um enredo sobre “jogo”.

F48: Bateria da Viradouro 2007


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DIÁRIO DE CARNAVAL


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A IDEIA A PARTIR DA PAIXÃO Antes de pisar na Cidade “sagrada” do Samba, me senti no desejo de explicar o motivo pelo qual escolhi analisar o processo de produção da GRES Unidos da Tijuca. Lembro-me de ter criado gosto por assistir desfiles de Carnaval em 1998, quando a Estação Primeira de Mangueira apresentou um enredo sobre Chico Buarque de Holanda, ainda me lembro do samba: “É o Chico das artes, O gênio./ Poeta Buarque, Boêmio./ A vida no palco, teatro, cinema./ Malandro sambista, carioca da gema”. Justamente quando a Mangueira ganhou o Carnaval homenageando o Chico, que também é arquiteto, surge esse meu interesse pelos desfiles! Mas então, seguindo com a história, eu não prestava muita atenção na Unidos da Tijuca, apenas a assistia, enquanto esperava minhas Escolas favoritas. Porém, o Carnaval do Rio viu em 2004 algo novo surgir, “o movimento dos corpos”... As alegorias vivas. Podemos atribuir isso ao carnavalesco Paulo Barros, pois mesmo sob críticas, permitiu que entrasse na avenida um carro alegórico com as estruturas totalmente aparentes e com pessoas pintadas de azul fazendo o papel de adereço. Foi sensacional! Porque era completamente


123 diferente do tradicionalmente usado por muitos outros carnavalescos, que abusavam do rococó. Foi de um movimento e de uma beleza, difícil de expressar com fotografias ou descrições. Desde então passei a prestar enorme atenção nos desfiles de Paulo Barros, esperando o que viria de novo, curioso e as alegorias vivas, que são um espetáculo a parte. Não posso deixar de dizer que foi justamente esse carnavalesco que me estimulou, involuntariamente, a fazer um projeto que vislumbrasse os desfiles das Escolas de Samba, pois este ano (2011) com o enredo sobre o “Medo” ele tirou a comissão de frente do chão! Foi o seguinte: A comissão de frente tinha um efeito de “perder a cabeça”, mas na última hora, Paulo percebeu que esse efeito visto de cima não vingava, e por esse motivo foi construído às pressas uma alegoria que elevava a comissão a 8 metros para que os jurados, camarotes e arquibancadas pudessem acompanhar o truque de frente. Genial, não? A partir desse momento comecei a pensar em como fazer um projeto que juntasse a minha paixão pelo Carnaval com a criatividade, para fugir do óbvio. Criatividade essa que as Escolas de Samba usam, abusam e ousam todos os anos!


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12/OUTUBRO/2011 a 19/OUTUBRO/2011 Eu imaginava que a Cidade do Samba fosse um lugar grande, afinal tem que caber lá dentro cerca de doze desfiles, mas eu só percebi sua real grandeza quando o taxi me deixou do lado oposto do que eu tinha que ficar, e assim eu fui obrigada a dar a volta pelo lado de fora da Cidade do Samba, até sua entrada para visitantes. Mas quando entrei no barracão da Tijuca tive a impressão inversa, não que ele fosse pequeno, mas grande a ponto de caber um desfile de Carnaval de uma Escola inteiro? Acho que não, não era possível! Quando cheguei ao barracão, entrei pelo primeiro piso, onde ficam a produção e montagem dos carros alegóricos, mas não pude ficar muito tempo lá desbravando, tive que subir e pedir permissão para fotografar o processo, além de me apresentar para os “grandes” da Tijuca, então fui para o terceiro andar onde ficam a recepção, as diretorias, o marketing e a criação. O responsável pelo marketing da Unidos da Tijuca (Bruno Tenório) tentou me explicar à forma de trabalho da Tijuca. A Tijuca é a Escola com a estrutura mais empresarial do Rio de Janeiro, mudou seu perfil e se organizou como uma empresa para que seu Carnaval desse certo, sem jogo do bicho ou tráfico, que infelizmente ainda tem vínculo com


125 algumas Escolas. Desta forma ela tem se mantido no páreo juntamente com a criatividade de Paulo Barros. Bruno me apresentou a todos: ao Presidente da Escola (Fernando Horta), ao Diretor de carnaval (Ricardo Fernandes), ao Diretor de harmonia (Fernando Costa), ao Ferreiro (Élcio), ao Marceneiro (Edgar) e ao carnavalesco (Paulo Barros). Aí deu aquele friozinho na barriga! Paulo Barros me mandou sentar para conversar sobre o meu projeto. Eu tinha que falar coisas contundentes sem parecer tiete, para não perder a credibilidade e para que ganhasse a confiança para fotografar as várias etapas do projeto dele. Consegui! O “carnavalesco do segredo” me permitiu acompanhar sua produção. Vitória número um, como ele mesmo disse “o ‘não’ você já tinha, o que custava tentar?” realmente, não custava nada. Nessa minha primeira visita não tinha muita coisa pronta que ocupasse espaço no barracão, porque as alegorias estavam praticamente no chassi, muitas delas aproveitamento do Carnaval passado (2011). Apenas dois carros estavam começando a montagem da marcenaria, o que já dava uma aparência impressionante, pela grandiosidade. Um deles era inclusive mais alto do que a altura do portão de saída do barracão, mas Edgar, mestre de marcenaria que trabalhava no carro, explicou que “... normalmente é assim mesmo, ai a alegoria tem um mecanismo de roldana para que diminua o tamanho para sair e aumente lá na hora...”


126 Mas como nós aspirantes a arquitetos ou arquitetos sabemos muito bem, antes de montar qualquer coisa é necessário PROJETO! Os designers coordenados pelo carnavalesco estavam em pleno vapor, desenhando os carros alegóricos e as fantasias. Mas devo deixar claro que nessa minha primeira visita, a maior parte das fantasias das alas já tinham sido projetadas, já tinham seus materiais escolhidos e seus protótipos prontos e algumas já estavam inclusive sendo penduradas no barracão. Ah! Devo dizer que essa foi uma das inúmeras descobertas da minha primeira visita, onde ficam as fantasias prontas até fevereiro? Ficam penduradas em cabos de aço no ultimo andar do barracão, e foi por esse motivo que no ano de 2011 poucas fantasias se salvaram nas Escolas incendiadas.

F49: Burrinho em isopor


F50: Mosaico de fotos da visita 1


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15/OUTUBRO/2011 – A escolha do Samba! Fui convidada, após a primeira visita ao barracão, para ir ao concurso final da escolha do samba enredo da Unidos da Tijuca de 2012. Não é um privilégio para poucos, essa festa é aberta ao público, mas dessa vez eu era VIP e tinha direito a camarote! Essa festa aconteceu na quadra oficial da Tijuca no centro do Rio, que não é usada mais para produção do Carnaval, apenas para os eventos. Inclusive, nem sei se essa quadra já foi usada para a construção do Carnaval, ela é relativamente nova e a Tijuca possui outra quadra no Morro do Borel, que hoje em dia é utilizada para projetos com a comunidade (o Obama até chegou a ir lá, Que chique!) Voltando ao samba, cheguei à quadra perto das 20h, ainda estava vazia e só começou a chegar gente após as 21h. Tinha um palco que tocava forró, em homenagem a Luiz Gonzaga e o palco principal que estava sendo preparado para que os sambas chegassem. E quando chegou, chegou chegando. A bateria da Tijuca, com o mestre Casagrande, abriu a noite de samba tocando o samba de 2011 e sempre que a quadra cantava “... apague a luz, a festa começou!...” apagavam mesmo, apagavam toda quadra! Desse jeito não tinha pessoa certa do juízo que não se animasse, samba é contagiante!


129 E fomos (eu e minha mãe) recebendo as letras dos sambas que concorriam na noite, analisamos um pouco, mas não tem jeito... Samba tem que ser tocado, para saber se vai vingar! E tem outra coisa, samba enredo bom, é samba enredo fácil de aprender! Tocaram os sambas. Cada um tinha toda uma apresentação, com interprete contratado e tudo, e não sei se foi o interprete magnífico da Mangueira que deu sorte ao samba vencedor... Só sei que sai da quadra às 7h da manhã cantando samba escolhido incansavelmente! Unidos da Tijuca 2012 A minha emoção vai te convidar Canta Tijuca vem comemorar “Inté Asa Branca” encontra o pavão Pra coroar o “Rei do Sertão” Nessa viagem arretada Lua clareia a inspiração Vejo a realeza encantada Com as belezas do sertão! “Chuva, sol” meu olhar Brilhou em terra distante Ai que visão deslumbrante, se avexe não! Muié rendá é rendeira E no tempero da feira


130 O barro, o mestre, a criação! Mandacaru a flor do cangaço Tem “xote menina” nesse arrasta pé Oh! Meu padim, santo abençoado É promessa eu pago, me guia na fé Em cada estação, a “triste partida” Eu vi no caminho vida severina Á margem do Chico espantei o mal Bordando o folclore raiz cultural... Simbora que a noite já vem, “Saudades do meu São João” “Respeita Véio Januário, seus oito baixo tinhoso que só” “Numa serenata” feliz vou cantar No meu pé de serra festejo ao luar... Tijuca a luz do arauto anuncia Na carruagem da folia, hoje tem coroação!


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14/NOVEMBRO/2011 a 22/NOVEMBRO/2011 Logo que cheguei ao barracão da Tijuca, já deu para ver a evolução do trabalho em relação à marcenaria. Muitos carros já estão forrados com marcenaria, para ser mais exata, o carro abre-alas estava com a marcenaria quase finalizada - vale escrever aqui que toda a base desse carro, de mais de 40m, foi reaproveitamento do abre-alas do Carnaval de 2011 – faltava pouquíssima coisa a ser feita. O carro que irá representar o mercado popular, acredito que já está com a marcenaria finalizada, pois já começou a receber um forro que o aprontará para receber o tecido ou qualquer outro material. Há um terceiro carro com a marcenaria pronta em quase toda sua parte fixa, porém sua parte superior que aparenta um visível movimento está só na estrutura ainda. Não consegui entender ainda o que esse carro irá representar na avenida, talvez na próxima visita fique mais claro... ou que sabe, alguém me conte antes disso. No momento em que eu circulava pelas alegorias vi uma cena curiosa, um processo de nivelamento no melhor estilo carnavalesco, no feeling. O mestre ferreiro Élcio, o braço direito do carnavalesco, estava pê da vida porque o nivelamento de um ferro tal estava errado. Ele chamou o rapaz que estava soltando a peça e falou: “Olha aqui da frente...


132 isso ta retinho? Claro que não rapaz...”, mas pergunte você se eles estavam usando um medidor de nível ou algo parecido? Sim, claro, o olho! O quarto andar, onde funciona a montagem das fantasias, esculturas de isopor, fibra de vidro, pintura de esculturas, estava a todo vapor. A fantasia que estava sendo produzida no mês passado já está toda ensacada e pendurada, e outra já está na linha de produção, corte, armação, montagem. Fiquei bastante tempo no quarto andar conversando com o pessoal responsável pelas esculturas de isopor (Simone e Marcelo) e com o responsável pela fibra (Nino). As esculturas de isopor são feitas por esses dois escultores principais e coordenada por Flávio (o mestre) que ainda não encontrei aqui no barracão da Tijuca, isso porque são várias equipes em outros barracões e ele tem que se dividir para coordenar cada uma delas. Mas esses dois escultores que trabalham na Tijuca são incríveis, a Simone é formada pela Faculdade de Belas Artes com especialização em escultura e o Marcelo é salva-vidas quando não está no Carnaval. Mas aqui eles são responsáveis por transformar blocos de isopor em figuras com uma destreza e com uma facilidade que faz parecer o processo simples. Mas a maioria das figuras de isopor são destruídas antes mesmo de sair do barracão, ou doadas para Escolas menores, isso por que só é aproveitada uma figura de isopor se for uma figura única, caso contrário ela vira molde para replica em fibra de vidro.

A sequência é a seguinte: São feitas as esculturas de isopor, que


133 recebem uma camada de papel Kraft, depois são emassadas e lixadas para que recebam a fibra de vidro e não derretam com o calor. A fibra que entra em contato com o isopor vira o molde para as peças que serão colocadas no desfile, que deve ser uma replica do que foi feito no isopor, depois de pronta a escultura e emassada e pintada. Normalmente essas pessoas que esculpem e moldam trabalham em mais de uma Escola, as equipes podem trabalhar em três até quatro Escolas num mesmo Carnaval. Conversando com Nino ficou claro quanto o número de pessoas pode crescer dependendo da quantidade de trabalho: “... Os moldes de fibra de vidro são feitos por uma equipe que por enquanto possui umas quinze pessoas, mas que pode chegar a cinquenta pessoas num pico de produção...”.

F51: Escultura com Kraft e Massa


F52: Mosaico de fotos da visita 2


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12/DEZEMBRO/2011 a 17/DEZEMBRO/2011 O trabalho está a mil! O espaço que conheci há dois meses é quase irreconhecível hoje. O primeiro piso está cheio de alegorias se apertando, tem alegoria se sobrepondo em alegoria, por falta de espaço. O carro que estão chamando de “segredo desse ano” vai representar a missa do vaqueiro, mas ainda não sei direito como, só sei que o movimento do carro foi feito por uma empresa de engenharia e que tem um caminhão encaixando as peças na alegoria nesse exato momento. Três chassis de carros alegóricos do Carnaval passado (2011) estão sendo reutilizados, um deles é inclusive o que está sendo montado pela empresa de engenharia. É muito interessante ver como é todo o processo de produção, há dois meses vi um burrinho e uma carranca sendo moldado no isopor, quando voltei em novembro a carranca já estava na fibra de vidro e agora essas duas peças já estão em outro estágio que envolvem outras pessoas... e assim por diante. No quarto piso as esculturas invadiram o espaço e formaram um “Nordeste branco” com cactos, cavalos e cangaceiros de isopor. Além de várias esculturas que estão em fibra multiplicadas, bonecos gigantes do mestre Vitalino (e quem não sabe quem é Vitalino faça o favor de


137 procurar no Google) já estão sendo “transformados em barro”, com tinta é claro! Já vi também protótipos de fantasias que vão imitar os bonequinhos do mestre Vitalino, mas o que elas serão ainda é só um palpite que eu talvez possa confirmar na próxima visita.

F53: Esculturas pintada a mão


F54: Mosaico de fotos da visita 3


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29/DEZEMBRO/2011 a 04/JANEIRO/2012 Entrei, cá estou novamente no barracão. Todos já sabem quem é a intrometida que pode sair fotografando tudo, por que normalmente não pode fotografar no barracão, ainda mais na Tijuca, há não ser que você esteja em um grupo de turistas. Mas como eu tenho o passe livre... cá estou. Mal cheguei e vi o carro do mercado popular pintado, todo decorado, se não está pronto falta muito pouco, pouquíssimo. Tem várias peças nesse carro que foram trazidas de Pernambuco, para ficar o mais fidedigno com um mercado de lá, mas com um toque carnavalesco é claro! Tem uns queijos (estrutura lateral do carro, onde podem ir foliões ou adereços) sem nada em cima ainda, mas algo virá. Outro carro interessante aqui é o que representará “o rio São Francisco”, foi feito um retângulo que possui um barquinho no centro, e em todo o carro foi passado uma manta para que seja colocada água dentro da alegoria. Vale lembrar que o motor, gerador, ou seja lá que outra coisa feia de se mostrar, tem que ficar escondidos na alegoria, não pode ser visto pelo jurado. Nesse carro, da pra entender onde ficam essas maquinas e como é feito para escondê-las.


141 O carro da “Missa do vaqueiro” tava girando quando passei por ele, acho que eles estavam testando o processo ou fazendo alguma ligação para que haja como comandar o movimento no momento do desfile. A alegoria que eu não sabia ao certo o que era é meu palpite para a grande atração do Carnaval esse ano. Ficou obvio agora com ela decorada, que ela será uma gigantesca Alegoria Viva, bem no estilo Paulo Barros. É um carro que parece uma grande construção de pau-a-pique, toda na cor de barro... então só consigo imaginar um monte de “bonequinhos” do mestre Vitalino em cima dele. Lindo! Pode esperar. Agora existem poucas coisas no quarto andar, referente a isopor e fibra. Essa parte já está quase finalizada, por que a vez agora é do acabamento e da ornamentação... então vamo que vamo, porque só falta pouco mais de um mês para o maior espetáculo da Terra!

F55: Imagem do Carro do mercado popular


F56: Mosaico de fotos da visita 4


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05/FEVEREIRO/2012_ Ensaio Técnico na Sapucaí. Chegamos à Marquês de Sapucaí as 18h40. É difícil acreditar que o maior espetáculo da Terra acontece aqui. Esse lugar perde seu espírito sem ter uma bateria tocando, parece pequeno. Logo que chegamos (eu e minha mãe) conseguimos que nos colocassem para dentro, na conversa. Hoje o dia é gratuito, qualquer um pode vir e assistir o ensaio técnico, mas para entrar nas frisas e ficar bem pertinho da pista, tem que ter contato ou ser muito bom no papo... e diga-se de passagem, minha mãe é ótima. A Sapucaí não é tão grande como parece na televisão, mas atravessá-la andando é tarefa fácil, difícil é atravessá-la com uma fantasia de 15 kg, sambando, cantando e sorrindo ao mesmo tempo. Ao passar das horas tem cada vez mais gente aqui, de verdade, desde que entrei na Sapucaí tenho a sensação de estar na praia... tem vendedor de tudo que coisa aqui, chapéu, faixa, camisa, cerveja, água refrigerante e o famoso “biscoito Globo” pra lá e pra cá. Há pouco um homem com a farda dos ritmistas da Mangueira passou por mim, abri um sorriso involuntário que me deu um sorriso em


145 troca e pensei: A alma desse lugar está chegando, “... chegoou ô ô ô, a Mangueira chegou...”. Não só pelo crescimento populacional, mas sim porque a bateria chegou, ainda que silenciosa, mas está aqui. A parte nova do sambódromo ainda não está pronta, mas continua a todo vapor mesmo no dia de hoje, estão garantindo que estará tudo pronto para o Carnaval. A modificação feita em um ano é inacreditável. Os habitantes que se encontram nos caros camarotes, no dia de hoje, são os gesseiros, marceneiros, pintores, todos os responsáveis para o conforto no dia do desfile vão para ver a Mangueira e a Tijuca passar, e quem não olhar é ruim da cabeça ou doente do pé. Mas esse ano, devido à modificação estrutural feita no sambódromo, quem mais vai aproveitar e corrigir erros no ensaio técnico será cada bateria, porque a estrutura modificada mudou a amplificação e o retorno do som. De verdade, o desfile técnico funciona muito mais como um ensaio geral ou um teste de harmonia. No ensaio técnico não dá nem pra treinar o tempo de passagem de fato, isso porque os componentes estão sem quaisquer fantasias (que podem pesar até mais de 20kg no caso das baianas), além disso as alegorias imensas (de até 40m ou mais) não se fazem presentes, são substituídas pelos integrantes da


146 mesma no chão como se fossem uma minúscula ala. Também temos que levar em consideração que a maioria das Escolas quer surpreender na avenida, portanto não mostram nada além da bateria tocando e dos componentes cantando e dançando... Ah! E algumas poucas alas coreografadas. No caso da Tijuca, a Escola do segredo, nem as coreografias se fazem presentes. Mas é lindo mesmo assim, mesmo incompleto já emociona, só de cantar o samba já emociona. E para fechar esse dia, eu me permiti o que nunca fiz no barracão, uns momentos de tietagem com direito a foto com Paulo Barros.

F57: Baiana da Cubango


F58: Mosaico de fotos do Ensaio tĂŠcnico


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07/FEVEREIRO/2012 Para chegar a Cidade do Samba eu precisava pegar o metrô na Bulhões de Carvalho em Copacabana, para saltar na Central do Brasil. Após saltar na Central, eu tinha que seguir em direção a um túnel (que nem sei o nome), que era a pior parte do trajeto, porque além de escuro ele tinha um barulho absurdo de trepidação. Mas dessa vez tinha algo incomum nessa parte do trajeto, que infelizmente não pude fotografar, várias pessoas atravessavam o túnel no sentindo contrário a Cidade do Samba carregando sacolas pretas (aquelas de lixo)... Ao chegar à Cidade do Samba tive certeza, as fantasias começaram a ser entregues! Ao entrar no barracão da Tijuca as mudanças já impressionavam. A fase final é o acabamento, o detalhe. Os carros antes na marcenaria ou apenas na pintura grosseira, agora já estão recebendo os menores detalhes. Subi logo ao quarto andar onde ficava o pessoal da escultura, mas eles já não estavam mais lá. Escultura de isopor é processo primário, começa primeiro para acabar primeiro e não atrasar os demais processos. O quarto andar estava tomado por fantasias em estágio de finalização, esculturas de fibra de vidro em fase de pintura artesanal (pintura feita à mão, por uma artista plástica chamada Paula), um pro-


149 cesso delicado e de muita paciência. Aquele carro que eu havia dito que teria água representando o “rio São Francisco”, não terá mais, não sei o motivo ao certo. Colocaram nele uns peixinhos que terão movimento e irão forrá-lo com um tecido. Mas nessa ultima visita tive resposta de como eu vejo que é o Carnaval. Não basta idealizar e desenhar o carnavalesco e os designers tem que colocar a mão na massa, no isopor e no que mais precisar... É muito bonito de ver! Eu estava no terceiro andar quando vi lá no primeiro Paulo Barros adereçando uns burrinhos, aqueles burrinhos que registrei ainda no isopor. No mesmo andar em que eu me encontrava, a “moça do cafezinho” recortava peixes, ou seja não importa o que você é na Escola, todos querem ver acontecer, ver dar certo... até minha mãe quando entrou no barracão se sentiu contagiada e disse: “tínhamos que ter um tubo de cola para irmos acertando o que encontrássemos descolado ou fora do lugar...”. É uma paixão que move a grande maioria e que contagia quem se aproxima de lá, quem entra acaba se sentindo parte do meio e necessidade de contribuir.


Figura 60: Mosaico visita 5


DISPERSテグ


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DISPERSÃO O Carnaval vem sendo estudado por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, antropólogos, sociólogos, historiadores, mas há pouco no que diz respeito à Arquitetura e Urbanismo do Carnaval. Sua história se mistura com a história do samba e se envolve com a dança, mas o espaço em que isso ocorre, normalmente é tratado como dado secundário. Ao alçar o espaço a um nível de importância maior, revelam-se outras formas de compreender seus significados na cidade. A importância dessa manifestação cultural, não apenas para as comunidades, se fez tão forte que modificou a configuração espacial da paisagem urbana do Rio de Janeiro, não é por acaso que o Carnaval brasileiro possua tamanha repercussão. Algumas comunidades, como a Mangueira e o Salgueiro, devem sua existência às suas Escolas de Samba, que funcionaram como centros de resistência em suas comunidades, contra os processos e as políticas de remoção. “Muitos destes bairros e favelas não se explicam sem suas escolas de samba...” (FERNANDES apud SANTOS, 2007, p. 133), assim como muitas das Escolas do Samba não se explicam sem seus bairros de onde se origina todo esse movimento, capaz de moldar a Arquitetura e o Urbanismo, seja ela barracos de zinco ou carros alegó-


155 ricos. O Carnaval, por mais técnico que tenha que ser na avenida, não abriu mão da ousadia e da criatividade, mesmo que para isso haja uma gambiarra. Ele é produzido para tentar ser perfeito em sua passagem, mas não nega suas origens e por isso sempre tem um jeitinho de fazer funcionar. O aspecto “comunidade” sempre estará presente mesmo que ele ganhe um novo lugar ou uma nova cidade, o urbanista de ser capaz de entender e respeitar esse território onde nasceram as Escolas e manter o estreitamento dos laços entre a população e o território, além de conservar a ligação dessa população com seus novos espaços. O aprofundamento do trabalho feito pela forma de inserção no ambiente do Carnaval nos implica em outra forma de pensar, uma forma fluida e muito menos metodológica, assim como é produzido o próprio Carnaval. O corpo que deveria ser indutor e contaminador na Arquitetura estrutural, consegue atingir no Carnaval o auge desse propósito, onde transforma constantemente o meio e se faz tão presente que moldou as Cidades à sua produção e sua passagem. O Carnaval tem diversos projetos a serem apresentados por ano. O Rio respira Carnaval e produção arquitetônica pura, dinâmica e criativa. As diversas áreas de influência do Carnaval ensinam uma nova forma de olhar o meio e projeto, com a capacidade incrível de se reinventar a cada ano.


REFERÊNCIAS


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REFERÊNCIAS ARAÚJO, Hiran. Carnaval: seis milênios de história. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003. ÁVILA, Janaína. Carnaval ao redor do mundo: na França é “Mardi Gras”. 2011. Disponível em: <http://www.viajandoblog.com/post/3549/carnaval-ao-redor-do-mundo-na-franca-e-mardi-gras > Acesso em: 23 fev. 2012. CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. CARNAVAL CARIOCA: dos bastidores ao desfile. 2ª Ed.Rio de Janeiro: Editora UFRJ MinC/Funarte, 1995. COSTA, Cíntia. Como funciona o Carnaval. Disponível em: <http://pessoas.hsw.uol. com.br/carnaval7.htm > Acesso em: 23 fev. 2012. DA MATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? 8ª Ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. HAZAN, Vera Magiano. As passarelas urbanas como novos vazios úteis na paisagem contemporânea. Arquitextos, São Paulo, 114.02, Vitruvius, nov. 2009. Disponível em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.114/11 >. Acesso em: 02 jun. 2011. JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticíca. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.


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160 SANTOS, Juliana Maria Jabor Garcia. TERRITÓRIOS DO SAMBA SOB ENFOQUE URBANÍSTICO: A Mangueira e sua territorialização. 2007. 161 f. Tese (Mestrado em Urbanismo) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. SCHOLZ, Dieter David. O Carnaval alemão. DW, São Paulo, 2009. Disponível em: <http://www.dw.de/dw/article/0,,4042694,00.html > Acesso em: 25 fev. 2012. SOUZA, Cássia Helena Glioche Novelli de. O DESFILE DAS ESCOLAS DE SAMBA NA TELEVISÃO: VINTE ANOS DE SAMBÓDROMO. 2004. 54 f. Monografia (Graduação em Comunicação Social) – Universidades Estácio de Sá, Rio de Janeiro. SOUSA, Marcos de. Uma cidade para o samba. Revista Prisma, Rio de Janeiro, 2006. Disponível em: < http://www.arweb.com.br/cassol/php/clipping.php?id=155 > Acesso em: 22 nov. 2011. WANDERLEY, Vitor. Cidade do Samba. Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: < http:// vwy-obras.blogspot.com.br/2008/12/cidade-do-samba.html > Acesso em: 10 fev. 2012. __________. Carnaval. Radio italiana, 2011. Disponível em: <http://www.radioitaliana. com.br/content/view/200/28/ > Acesso em: 25 fev. 2012.


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DIVERSOS ARTIGOS EM PERIÓDICOS: ENSAIO GERAL, Informativo Oficial da LIESA. Rio de Janeiro, 2010, Ano XVI, nº 25. ENSAIO GERAL, Informativo Oficial da LIESA. Rio de Janeiro, 2011, Ano XVII, nº 26. LIESA NEWS. Rio de Janeiro, 2011, nº 10. Manual do Julgador, LIESA. Rio de Janeiro, 2012. Regulamento, LIESA. Rio de Janeiro, 2012. Revista Plumas e Paetês cultural. Rio de Janeiro, junho de 2011, nº 1. Revista Unidos da Tijuca. Rio de Janeiro, 2011. Revista Unidos da Tijuca. Rio de Janeiro, 2012. SIMPATIA TIJUCANA, Boletim informativo do G.R.E.S Unidos da Tijuca. Rio de Janeiro, novembro 2011, nº 7. SIMPATIA TIJUCANA, Boletim informativo do G.R.E.S Unidos da Tijuca. Rio de Janeiro, Dezembro 2011 / janeiro 2012, nº 8.


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LISTA DE FIGURAS Figura 1: Cartola http://revistacatorze.com.br/2010/hoje-e-dia-de-cartola-no-buraco-da-catita em: 22 mar. 2012

Acesso

Figura 2: Ala sobre Egito – Beija flor 2009 http://extra.globo.com/noticias/carnaval/beija-flor-uma-escola-com-mania-de-egito-960165.html Acesso em: 12 mar.2012 Figura 3: Alegoria Dionísio – Mocidade 2011 http://www.flickr.com/photos/riotur/5508112447/ Acesso em: 14 mar. 2012 Figura 4: Mesmo proibido olhai por nós – Beija flor 1989 http://observadorespirita.blogspot.com.br/2011/02/chico-xavier-na-sapucai-olhai-por-nos.html Acesso em: 12 mar. 2012 Figura 5: Calendário Hebraico http://claudinei-cgm.blogspot.com/2010/07/calendario-lunar.html Acesso em: 14 fev. 2012 Figura 6: Comissão de frente representando o sincretismo baiano – Portela 2012 http://www.flickr.com/photos/riotur/6907280867/sizes/l/in/set-72157629393856553/


163 Acesso em: 12 mar.2012 Figura 7: Personagens tradicionais do Carnaval italiano http://cocada-preta.blogspot.com/2012/01/origem-do-carnaval.html Acesso em: 23 fev. 2012 Figura 8: Comissão de frente representando a Commedia dell’arte – Vila Isabel 2009 http://estilodna.blogspot.com.br/ Acesso em: 23 fev. 2012

Figura 9: “The Mardi Gras March & Two-Step”, capa de um livro de partituras, publicada em 1897 por E.T. Paull Music Co, Nova Iorque. http://cocada-preta.blogspot.com/2012/01/origem-do-carnaval.html Acesso em: 23 mar. 2012 Figura 10: Alegoria representando A obra de Delacroix “A liberdade guiando o povo” – Grande Rio 2009 http://www.literaturaeshow.com.br/2011/08/postagem-42-liberdade-guiando-o-povo. html Acesso em: 26 mar. 2012 Figura 11: Influências do Brasil no Karneval http://papodesamba.com.br/noticia.php?id=2055 Acesso em: 29 mar. 2012 Figura 12: Entrudo – Rua do ouvidor, 1884 – retratado por Angelo Agostini


164 http://www.ufmg.br/boletim/bol1597/8.shtml Acesso em: 29 mar. 2012 Figura 13: O entrudo no Rio de Janeiro, 1823 – retratado por Debret http://peregrinacultural.wordpress.com/2011/02/21/o-carnaval-no-rio-de-americo-fluminense-texto-integral-revista-kosmos-1907/ Acesso em: 25 fev. 2012 Figura 14: Carnaval na Avenida Central (hoje Av. Rio Branco no centro do Rio) http://peregrinacultural.wordpress.com/2011/03/08/tradicoes-mario-pederneiras-texto-integral-revistas-kosmos-1907/ Acesso em: 29 mar. 2012 Figura 15: As Grandes Sociedades e Os Ranchos Arquivo digital da LIESA, Rio de Janeiro – Acesso em: 17 Out. 2011 Figura 16: Imagem do desfile de Bum bum paticumbum prugurundum – Império Serrano 1982 http://www.sambariocarnaval.com/frames/index.php?sambando=fotos1982 Acesso em: 02 Abr. 2012 Figura 17: Localização das Escolas de Samba do Rio Figura 18: Cidade do Samba http://sonhodecarnaval.blogspot.com.br/2011/02/cidade-do-samba.html Acesso em: 07 fev. 2012. Figura 19: Cidade do Samba


165 http://cidadedosambarj.globo.com/ Acesso em: 25 jan. 2012 Figura 20: Esquema do barracão (Arquivo digital da LIESA, Rio de Janeiro) Acesso em: 17 out. 2011 Figura 21: Bandeiras das Escolas que estão na Cidade do Samba em 2012 http://liesa.globo.com/ Acesso em: 13 fev. 2012 Figura 22: Desfile em frente à Igreja da Candelária. (Arquivo digital da LIESA, Rio de Janeiro) Acesso em: 17 out. 2011 Figura 23: Desfile Marquês de Sapucaí, antes da construção da passarela. (Arquivo digital da LIESA, Rio de Janeiro) acesso em 17 out. 2011 Figura 24: Desfiles do Salgueiro nas ruas do Rio. (Arquivo digital LIESA, Rio de Janeiro) Acesso em: 17 out. 2011 Figura 25: Croqui de Niermeyer http://www.archdaily.com.br/32045/passarela-professor-darcy-ribeiro-sambodromo-do-rio-de-janeiro-oscar-niemeyer/ Acesso em: 10 jan. Figura 26: Etapas da construção do Sambódromo. (Arquivo digital da LIESA, Rio de Janeiro) Acesso em: 17 out. 2011


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Figura 27: Passarela do Samba http://www.temmaistudo.com/carnaval/reinauguracao-da-marques-da-sapucai-carnaval-do-rio-de-janeiro/ Acesso em: 10 jan. 2012 Figura 28: Carro King Kong - Salgueiro 2011 http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/?attachment_id=10158 Acesso em: 13 fev. 2012 Figura 29: Croqui de Niemeyer http://www.archdaily.com.br/32045/passarela-professor-darcy-ribeiro-sambodromo-do-rio-de-janeiro-oscar-niemeyer/ Acesso em: 10 jan. 2012 Figura 30: Apoteose http://carnaval.uol.com.br/2012/noticias/redacao/2012/02/08/reserva-de-ingressos-populares-para-o-carnaval-do-rio-acaba-em-meia-hora.htm Acesso em: 10 jan. 2012 Figura 31: Clipe da mangueira 2010, â&#x20AC;&#x153;o samba descendo o morroâ&#x20AC;? http://www.youtube.com/watch?v=-LWNemMExcg Acesso em: 13 fev. 2012 Figura 32: Bateria da Mangueira 2012 http://fotos.noticias.bol.uol.com.br/carnaval/2012/02/21/mangueira-desfila-no-segundo-dia-de-carnaval-no-rio.htm#fotoNav=1 Acesso em: 13 fev. 2012 Figura 33: Alegoria da Beija-flor


167 http://www.blogdodecio.com.br/tag/laila/ Acesso em: 13 fev. 2012 Figura 34: Fantasia da Unidos da Tijuca 2012 http://www.flickr.com/photos/riotur/6784772868/sizes/l/in/set-72157629090070082/ Acesso em: 13 fev.

Figura 35: Comissão de frente da Vila Isabel 2012 http://www.flickr.com/photos/riotur/6930672637/sizes/l/in/set-72157629090070082/ Acesso em 13 fev. 2012 Figura 36: Mestre sala e Porta bandeira da Mangueira 2012 http://fotos.noticias.bol.uol.com.br/carnaval/2012/02/21/mangueira-desfila-no-segundo-dia-de-carnaval-no-rio.htm#fotoNav=35 Acesso em: 13 fev. 2012 Figura 37: Alegoria “jardins suspensos da Babilônia” da Unidos da Tijuca 2010 http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=256&postId=21831&permalin k=true Acesso em: 30 fev. 2012 Figura 38: Alegoria da Vila Isabel 2012 http://www.flickr.com/photos/riotur/6908666763/sizes/l/in/set-72157629398488323/ Acesso em: 30 fev. 2012 Figura 39: Alegoria ZiCartola da Mangueira 2011 http://www.flickr.com/photos/riotur/5521440575/sizes/l/in/set-72157626127567275/


168 Acesso em: 30 fev. 2012 Figura 40: Missa do Vaqueiro Arquivo pessoal 2011 Figura 41: Missa do Vaqueiro Arquivo pessoal 2012 Figura 42: Alegoria Tubar達o da Tijuca 2011 http://oglobo.globo.com/fotos/2011/03/07/?p=6 Acesso em: 14 fev. 2012 Figura 43: Alegoria Viva da Tijuca 2012 http://saraiva13.blogspot.com.br/2012/02/unidos-da-tijuca-e-campea-do-carnaval. html Acesso em: 14 fev. 2012 Figura 44: Alegoria DNA da Tijuca (Arquivo digital da LIESA, Rio de Janeiro) Figura 45: Comiss達o de frente da Tijuca 2011 http://carnaval.uol.com.br/2011/album/desfile-das-campeas-rj_album.htm em: 14 fev. 2012 Figura 46: Desenho de fantasias Arquivo pessoal

Acesso


168 Figura 47: Baianas da Mangueira http://www.estacaoprimeira.org/mangueira/eu-exalto-48-anos-da-ala-das-baianas-da-mangueira/ Acesso em: 14 fev. 2012 Figura 48: Bateria da Viradouro 2007 http://entretenimento.br.msn.com/monumentos-do-carnaval?page=6 Acesso em: 14 fev. 2012 Figura 49: Burrinho em isopor Arquivo pessoal Figura 50: Mosaico de fotos da visita 1 Arquivo pessoal

Figura 51: Escultura com Kraft e Massa Arquivo pessoal Figura 52: Mosaico de fotos da visita 2 Arquivo pessoal Figura 53: Esculturas pintada a m達o Arquivo pessoal Figura 54: Mosaico de fotos da visita 3


170 Arquivo pessoal Figura 55: Imagem do Carro do mercado popular Arquivo pessoal Figura 56: Mosaico de fotos da visita 4 Arquivo pessoal Figura 57: Baiana da Cubango Arquivo pessoal Figura 58: Mosaico de fotos do Ensaio tĂŠcnico Arquivo pessoal Figura 60: Mosaico visita 5 Arquivo pessoal


Arq_Carnaval  

Projeto de Graduação em Aruqitetura e Urbanismo que tenta compreender o Carnaval carioca.

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