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Pagina de rostooooooo


“O vaso dá uma forma ao vazio e a música ao silêncio” (BRAKE) “Dance. Dance, or we are dead” (PINA BAUSCH)


apresentação

Este caderno reúne uma síntese das ideias e produtos apresentados a partir da disciplina introdução ao trabalho de graduação integrado (pré-tgi), cursada durante o segundo semestre de 2011 e culmina no produto final da disciplina trabalho de graduação integrado 1 (tgi 1), apresentado ao final do primeiro semestre de 2012. Ainda, pode ser visto como uma primeira expressão, em menor ou maior grau, das ideias elaboradas ao longo de todos esses anos de formação em arquitetura e urbanismo, que vão sendo balizadas pelas referências não apenas internas à arquitetura mas também externas a ela, e que se manifestam na concepção inicial de um projeto final.


pré-tgi universo projetual referências / croquis ações projetuais área processos pré-projeto


pré-tgi


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pré-tgi

Nas primeiras pranchas (apresentadas na disciplina de pré-tgi), encontrase a união entre arquitetos de gerações distintas (arquitetura moderna, high-tech e contemporânea), mas que se unem a partir da exploração estrutural e formal dos edifícios. Encontra-se, também, uma relação entre a arquitetura, diversos outros campos (literatura, quadrinhos, cinema e música, principalmente) e a presença forte da cidade. A palavra POP foi escolhida como o início de uma pesquisa sobre como a arquitetura se relaciona com a cidade e com a sociedade contemporâneas, que surge a partir da questão: “A arquitetura é feita de fragmentos da cidade. A cidade é feita de fragmentos da arquitetura”. Três personagens serão importantes nesse início: o grupo Archigram e os arquitetos Venturi e Koolhaas.


00 Portanto, a busca é por uma arquitetura que não se mostre como uma obra isolada na cidade, mas que faça parte de um todo muito maior, ainda que possa se constituir como um marco urbano. A palavra POP entra para mostrar a vontade de uma arquitetura que seja acessível, a chamada “arquitetura inclusiva” por Venturi, que apresente elementos de fácil reconhecimento e que seja um reflexo desses fragmentos urbanos. Aqui, então, pode-se adicionar uma influência de Koolhaas, no sentido da procura por uma forma arquitetônica que se configure a partir da união dos sistemas urbanos do seu entorno e do seu contexto a seus próprios sistemas constitutivos. As idéias do Archigram embasam a busca pela inserção da tecnologia nessa arquitetura, uma vez que essa é um elemento chave da contemporaneidade, não apenas por permitir a construção de formas arquitetônicas cada vez mais elaboradas, mas também por permitir novas

experiências espaciais e uma nova maneira dos indivíduos se relacionarem com o mundo. A ideia pós-moderna da mente humana fragmentada, da esquizofrenia que faz com que os indivíduos se relacionem de forma cada vez mais distinta com o presente, se faz muito atual, principalmente através da questão da tecnologia e das redes sociais. As cidades, principalmente as metrópoles, são muito densas de significados, de camadas, de fragmentos. Uma arquitetura que ignore isso não parece mais o caminho a ser seguido. É preciso encontrar uma união entre tudo isso, que resultará numa arquitetura complexa de significados, que será capaz de tocar as pessoas de algum modo. Dessa maneira, a palavra POP e a arquitetura feita de fragmentos da cidade parecem o início de um bom caminho a ser seguido.* *resumo do texto apresentado juntamente com o produto final da disciplina de pré-tgi.


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objeto conceitual final de pré-tgi

“Sou mais pela riqueza de significado do que pela clareza de significado; pela função implícita, tanto quanto pela função explícita. (...) Sou mais favorável à vitalidade desordenada do que à unidade óbvia(...) Mas uma arquitetura de complexidade e contradição tem uma obrigação especial em relação ao todo: sua verdade deve estar em sua totalidade ou em suas implicações de totalidade. Deve consubstanciar a difícil unidade de inclusão, em vez da fácil unidade de exclusão. Mais não é menos”. (VENTURI)


universo projetual


01

universo projetual

O “universo projetual” representa um momento de reflexão sobre arquitetos, conceitos e obras de maior interesse. A partir dele foi possível iniciar um levantamento mais direcionado de referências, sendo um primeiro momento importante para a elaboração conceitual e formal das etapas posteriores.


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fragmentos da prancha de apresentação do “universo projetual”.


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fragmentos da prancha de apresentação do “universo projetual”.


referĂŞncias / croquis


referências/croquis

O momento de busca de referências foi muito importante para dar início ao projeto, tendo continuado durante todo o seu desenvolvimento. Tais referências são aproximações com relação ao projeto, seu tema e suas concepções conceituais e projetuais. Passaram por momentos de análise, leituras, desconstrução, a fim de ajudarem na compreensão de questões e conceitos que foram balizando o trabalho, num esforço de tornar mais consistente o ato de projetar. No entanto, há muitas diferenças e até imprecisões entre as referências, as quais o projeto reconhece o procura expressar. Até o momento, o projeto se coloca como uma síntese inicial desses interesses, que necessariamente será reinterpretada. Esse momento foi registrado num caderno de croquis, e está aqui exposto como um apanhado daquilo que foi mais importante para todo o desenvolvimento do projeto.


ARCHIGRAM O grupo inglês de arquitetos Archigram originou-se no contexto dos anos 1960 e seu desenvolvimento está intimamente ligado à implantação do chamado “estado do bem estar”, implantado nos países industrializados do bloco ocidental que passavam por uma fase de afluência econômica sem precedentes e que, na Europa, marcou um momento de “americanização”. O grupo buscava refletir sobre a questão da inserção da tecnologia no projeto e a incorporação de elementos de massa a fim de se aproximar dos usuário através de uma “arquitetura pop”. Suas reflexões partiam de pautas importantes àquele contexto, tais como a reestruturação do capitalismo fordista e a transformação da cultura industrial numa cultura eletrônica, passando pela explosão da cultura de massa e a ascensão da telecultura. Ainda, as propostas do Archigram buscavam uma arquitetura que não apenas investisse em novas tecnologias, mas que estivesse igualmente envolvida

com as novas circunstâncias sociais e econômicas emergentes naquele contexto do pós-guerra, a fim de encontrar a expressão de uma cultura urbana e industrial e da lógica econômica que a sustentava:

obsolescência, mobilidade e transitoriedade. Recorriam à tecnologia e à cultura de massa, conduzindo um discurso otimista da relação entre o homem e a tecnologia, e buscavam ampliar tal discurso, com o objetivo de produzir uma reflexão profunda e ampla sobre as relações entre a técnica e a arquitetura. Atualmente, o discurso construído pelo Archigram pode ser compreendido como uma representação de toda uma transformação econômica, social e cultural que teve lugar naquele contexto particular.


VENTURI Venturi também está inserido no contexto dos anos 1960, como o Archigram, que vai marcar uma nova chave de leitura, com perspectivas de ruptura, com relação à Arquitetura Moderna. Para ele, a busca moderna pela simplicidade havia implicado numa diminuição de significado e, portanto, deveria ser elaborada uma arquitetura mais densa em camadas e significados, onde o protagonismo fosse do expectador (ao contrário do movimento moderno onde o protagonismo era da arquitetura). Essa nova arquitetura aceitaria a inserção de elementos tradicionais, reconhecendo a história como um elemento fundamental e a necessidade do arquiteto de se imbuir daquilo que está em seu entorno imediato. Dessa maneira, seria originada uma “arquitetura como inclusão”: complexa, contraditória e ambígua se necessário, que não se resolveria em um único olhar.

Ele incorpora em suas obras, ainda, o residual e defende a fachada como elemento principal da arquitetura, como a sua face pública, como ela se mostra à cidade. Também, traz a discussão entre cultura e arquitetura de massa e, contra a ideia moderna de pureza se coloca a favor da contaminação da obra pelo contexto. Venturi faz uma reflexão profunda sobre o contexto urbano de sua época e vê na Main Street a essência da paisagem urbana norte-americana, vendo Las Vegas quase que como uma situação arquetípica, lida através do percurso do automóvel como uma “selva de símbolos, de ícones”, na qual identifica dois tipos de relação da arquitetura: tipo pato, onde toda a estrutura e programa do edifício estão submetidos a uma estrutura simbólica total e onde a forma literalmente segue a função, e tipo galpão decorado, onde os símbolos são autônomos com relação ao espaço funcional e cuja função é comunicar explicitamente.


HERZOG & DE MEURON A arquitetura de Herzog & de Meuron busca uma integração com a arte, mas rompe as convenções modernas na medida em que se provê de elementos tradicionais de forma inusitada. Uma das principais características de suas obras é o tratamento das fachadas na busca de relações harmônicas entre forma e superfície, bem como diferentes efeitos sensoriais através do tratamento dos materiais. Com esses tratamentos da fachada, muitas vezes buscam a “desmaterialização” da tectônica do objeto.

DIFERENÇAS ENTRE AS “CAIXAS DECORADAS” DE HERZOG & DE MEURON E O “GALPÃO DECORADO” DE VENTURI. Na conceituação de Venturi sobre os “galpões decorados”, o “símbolo” é aplicado sobre a arquitetura com a função de se comunicar explicitamente com o usuário. Dessa maneira, são autônomos e não requerem nenhum tipo de “filtro” para sua compreensão. Na arquitetura de Herzog & de Meuron, os símbolos também são aplicados sobre as fachadas, mas não são autônomos. São trabalhados de tal maneira que parecem parte integrante dos próprios materiais, muitas vezes “desmaterializando-os”, e não têm como intuito principal a função de informar. São trabalhados para funcionarem como “peles” e, mesmo não sendo explícitos, não deixam de dialogar com os usuários – numa solução que parte do mesmo princípio mas se resolve de maneira melhor que a de Venturi.


COTTBUS LIBRARY Herzog & de Meuron – Cottbus, Alemanha.

A “Cottbus Library” está localizada na Alemanha, no campus da “Brandeburg Technical University”. Sua forma amebóide se configura a partir de um estudo de fluxos do local e busca uma integração entre paisagem, campus universitário e usuários. - o edifício foi concebido dentro de um conceito de integrar o campus universitário à cidade. A área na qual a biblioteca se situa está “fechada” entre os edifícios da universidade, todos ortogonais e de estilos antigos. Portanto, a inserção de um edifício de formas tão orgânicas pode ser vista como um contraponto, mas conversa com o entorno e, principalmente com seu terreno extenso e arborizado.


A circulação principal é feita através de escadas em caracol coloridas.

Internamente, a cor é um elemento fundamental, responsável por ser um marco visual da divisão da biblioteca por “áreas”, atravessando todos os andares e lhes conferindo uma maior união. http://www.imagodeiblog.com/2010/11/beauty-and-function-meet-in-a-university-library/


O conjunto estrutural da biblioteca recebe como fechamento uma “pele” de vidro serigrafado com textos de diferentes línguas, que se mesclam, perdendo a forma de letras e produzindo um tipo de “véu” na fachada do edifício.

Detalhe do tratamento gráfico do vidro serigrafado. http://www.wicona.com/

efeito “véu” proporcionado pela pele http://another29.exblog.jp/6480946/

efeito das luzes acesas no interior do edifício através da pele à noite http://www.flickr.com/photos/23486348@N03/5537386673


EBERSWALDE LIBRARY Herzog & de Meuron – Eberswalde, Alemanha.

perspectiva do edifício. http://www.flickriver.com/photos/evandagan/3804119201/

O edifício da “Eberswalde Library” se configura como uma forma simples de “caixa” com as fachadas sendo compostas por placas de cimento com fotografias “impressas.”


O “ornamento”, no caso as fotografias, não entram na fachada de maneira autônoma, mas sim participando da arquitetura, como se fosse quase que um outro material. O efeito dessa serigrafia sobre o cimento é de desmaterialização, concedendo-lhe um aspecto muito mais “leve”.

detalhe do concreto serigrafado. http://www.architonic.com /

Se esse edifício fosse uma simples caixa de concreto teria uma aparência muito austera, fria, perante o usuário. Mas com a aplicação das fotografias ele se torna muito mais atraente, trazendo uma maior identificação entre usuário e arquitetura.

detalhe do concreto serigrafado. http://www.flickriver.com/photos/doctorcasino/4909547732


KOOLHAAS Koolhaas propõe uma nova leitura da cidade e da arquitetura, que se mostra como uma resposta a ela. Em seus livros, ensaios e publicações discute as diversas escalas presentes nas cidades e também temas geralmente relativos às metrólolis, como aqueles que chama de "cidade genérica", "grande dimensão" e "espaço-lixo“ O termo "cidade genérica" é discutido a fim de demonstrar sua fadiga perante a superprodução de ícones arquitetônicos, os quais ele propõe combater com edifícios mais genéricos. No ensaio "Bigness ou o problema da grande dimensão" ele enfatiza que a arquitetura já superou uma certa escala e, atualmente, trabalha na escala da grande dimensão, que traz consigo questões como os elevadores, o condicionamento de ar, etc, que originaram um conjunto de mutações na arquitetura, com um potencial paralelo de reorganização do mundo social.

A Grande Dimensão tem a capacidade de transformar a arquitetura e sua acumulação gera um novo tipo de cidade, ao passo que ela mesma é cidade, muitas vezes independente do contexto urbano. Já, no ensaio sobre o "espaço-lixo", Koolhaas volta o olhar para espaços que estão sob o domínio do consumo rápido e do lazer instantâneo, bem como aqueles espaços subutilizados ou ociosos presentes inseridos nas metrópolis, que configuram situações muitas vezes muito distintas daquelas de seu entorno.


CCTV HEADQUARTERS Koolhaas (OMA) – Pequim, China.

CCTV em seu contexto. (fonte: http://www.oma.eu)

A questão do arranha-céu é fundamental para Koolhaas. Mas ele defende uma nova maneira de pensá-lo, que deve ser mais coerente com o contexto contemporâneo e a cidade onde será inserido. Portanto, a CCTV se coloca como uma nova maneira de pensar o arranha-céu para Pequim, aproximando mais o edifício da realidade urbana, partindo da união entre a lógica do arranha-céu tradicional, vertical, e a conceituação de arranha-céu horizontal (wolkenbügel) desenvolvida por El Lissitzky entre 1922 e 1925.


A concepção formal parte de um cubo, que vai sendo modificado e acaba trabalhado de maneira que cada ponto de vista do edifício seja diferente, e ele não seja apreendido da mesmo maneira de nenhum de seus lados.


Maneiras de enquadrar a cidade e de perceber a forma do edifício.

A pele de vidro que recobre a fachada permite uma maior permeabilidade visual entre o edifício e o ambiente urbano, promovendo uma maior relação entre o usuário e o entorno, propondo, assim, a diminuição entre público e privado.


ZKM – CENTER FOR ART AND MEDIA TECHNOLOGY Koolhaas (OMA) – Karlsruhe, Alemanha.

detalhe do “eletronic bilboard”(fonte: http://nait5.com/)

O ZKM, não construído, foi projetado a fim de estabelecer um link entre a cidade alemã Karlsruhe, clássica, e o século XX (o projeto é de 1992) e seria construído numa extremidade da cidade, ao lado de uma via expressa. Koolhaas buscou respostas a uma série de relações entre a cidade, a área e o programa, identificadas por ele como: centro – periferia, clássico-futurista e artistapúblico.


As relações que Koolhaas estabeleceu são organizadas em eixos: eixo x (centro-periferia): organiza um sistema de entradas que orienta os indivíduos afastando ou aproximando-os do centro do edifício à extremidade da cudade, permitindo a compreensão entre o centro da cidade (visto como “relíquia”) e seu futuro (o ZKM); eixo y (artista-público): torna-se a representação entre produção e demonstração; eixo z (clássico-futurista): acontece como uma pilha vertical do programa.

Da inter-relação entre os eixos, formam-se os espaços.


O ZKM pode ser lido como “espaços dentro de espaços”, cuja sequência se dá mais na vertical (eixo z) que na horizontal. Dessa maneira, o edifício não se revela de uma só vez. A organização espacial do edifício é tal que muitas vezes ocorre de maneira abrupta, mas visto de maneira geral, o edifício se coloca como um completo elemento urbano. Similar a uma tira ou filme, onde cada parte seria como um frame, formando o todo quando vistas juntas – dessa maneira há uma interação entre o edifício e intenção que o criou.


O programa se inicia com um teatro e termina num museu iluminado, contendo: museu de arte midiática, museu de arte contemporânea, pesquisa e produção de música, vídeo e realidade virtual, teatro de mídia, biblioteca de mídia e hall de palestras. Segundo Koolhaas, o edifício seria um “laboratório aberto ao público (...) para instigar a conexão (ainda) desencontrada entre arte e tecnologia”.

Diferente da maioria dos edifícios de seu porte, o “core” do ZKM abriga de fato o programa, enquanto os serviços são localizados na periferia – esse método também pode ser lido como uma interpretação centro – periferia na escala da cidade.

Dessa maneira, sob a lógica de Kahn, o core seria o espaço servido e a periferia o espaço servente.


As quatro fachadas do edifício são diferentes e criam um certo grau de relações com o entorno e, também, com seu próprio conteúdo. Ainda, é estabelecida uma conexão visual com a cidade – um escape de toda a tecnologia do edifício. Nesse projeto, além de uma profunda preocupação com o estabelecimento de relações não apenas com o entorno imediato, mas também com a cidade como um todo, inclusive seu caráter histórico, temos como foco a inserção da tecnologia. O que seria, em 1992, ter esse projeto construído, com todas as questões de mídia que ele traz? O edifício também busca estabelecer relações internas, demonstrando toda uma lógica de organização, mesmo que à primeira vista pareça um pouco caótico, e uma coerência na articulação dos espaços.


BIBLIOTHÈQUE MULTIMÉDIA À VOCATION REGIONALE Koolhaas (OMA) – Caen, França.

A implantação da Bibliothèque Multimédia, não construída, busca uma relação com o parque a seu lado, cujos caminhos se originam de sua forma. Mantém relações com o entorno através de eixos que apontam para quatro pontos marcantes da paisagem de Caen, proporcionando vistas e enquadramentos, e com o Rio.


O projeto se organiza a partir de dois eixos pedagógicos interseccionados: eixo de ciências humanas (amarelo) e eixo de artes e literaturas (rosa). A intersecção promove uma maior inter-relação entre eles, originando quatro polos: polo de ciências humanas (amarelo), polo de artes (laranja), polo de ciências e técnicas (verde) e polo de literatura (vermelho)


abadia dos homens

abadia das senhoras

estação

novo centro de desenvolvimento

maquete de edifício. http://www.oma.eu


JEAN NOUVEL Para Jean Nouvel “(...) a arquitetura deve considerar o contexto como uma composição efêmera que deve ser modificada. E esse contexto é tudo que nos rodeia – contexto histórico, urbano geográfico, humano, ambiental, etc.” Ainda, contexto pode ser dividido como: Contexto histórico – o tempo atual; Contexto humano – para quem é o projeto; Contexto urbano, geográfico, ambiental – definição de onde será inserido o projeto; Contexto real – aquilo que pode ser captado no local. Mesmo considerando esse contexto amplo, Nouvel afirma que o edifício ainda deve trazer uma especificidade, algo a acrescentar para o meio urbano no qual estará inserido.


INSTITUTO DO MUNDO ÁRABE Jean Nouvel - Paris, França.

O Instituto do Mundo Árabe é um centro cultural que inclui um museu com exposições permanentes e salas de exposição temporárias, uma cafeteria-auditório, um espaço de recepção, biblioteca com 10 mil livros, cômodos para encontros, workshops, áreas infanto-juvenis e escritórios e administração da fundação.

A implantação do IMA nasce de uma análise precisa do local, sendo que ele está situado entre duas situações urbanas diferentes: a Paris de Haussmann, racional, e um tecido mais atual e descontínuo.


UNIVERSIDADE

EIXO LESTE-OESTE

SENA

O eixo leste-oeste (amarelo) remete à divisão entre os dois tipos de tecido urbano (referentes ao plano de Haussmann e a um tecido mais atual) e divide o edifício em dois blocos, fazendo um alinhamento perfeito entre as torres da Notrè-Dame e o pátio interno do IMA. Essa fenda parece a resposta ideal ao encontro entre o Fauborg Saint German e o Bloco da Universidade ao lado. A torre dos livros da biblioteca se apresenta como um marco, sendo um volume cilíndrico branco, de concreto, “preso” sob vidro e alumínio – pode ser visto como um “minarete” moderno.


FACULDADE DE CIÊNCIAS

N torre dos livros

pátio interno

fachada sul: células fotossensíveis – releitura dos “muxarabis” árabes.

SENA

fachada norte: parede vítrea com o skyline antigo de paris serigrafado.

fachada norte

fachada sul

(fonte http://architetour.wordpress.com/)

(fonte http://www.ocw.unicamp.br/)

No IMA há um conceito de sobreposições que envolve a destruição contemporânea do destino das paredes, sendo que elas tendem cada vez mais a atuar menos como limite do volume e mais com o significado de transição, através de maior ou menor porosidade ou através de informações que transportam o interior às superfícies.


diafragma foto-sensível (fonte http://www.ocw.unicamp.br/)

A fachada sul é composta por uma série de diafragmas, combinando padrões geométricos diferentes, sendo que alguns são foto-sensíveis e outros são fixos. Do interior do edifício é possível observar a cidade através desses dispositivos.

diafragma fixo (fonte http://www.ocw.unicamp.br/)


Através de todo esse processo, o projeto do Instituto do Mundo árabe consegue promover uma interface entre a cultura árabe e a cultura ocidental, bem como uma relação forte com o entorno mais imediato e a cidade onde está inserido.


OUTRAS REFERËNCIAS. Algumas outras referências foram analisadas, além dessas principais, principalmente a partir da elaboração inicial daquilo que era de interesse para o projeto.


CONJUNTO RESIDENCIAL DO PEDREGULHO – BLOCO DE HABITAÇÃO A. Reidy – Rio de Janeiro, Brasil.

A implantação e a forma do bloco de habitação A do Conjunto do Pedregulho nasce como uma resposta exata às curvas de nível do morro no qual se situa. Numa situação aparentemente muito problemática de um terreno num morro que tem mais de 50m de caída, Reidy conseguiu tirar partido e conforma não apenas o bloco A, mas todos os outros componentes do Conjunto da melhor maneira possível,


Tirando proveito da inclinação do terreno, o acesso ao edifício do Bloco A se dá através de um andar intermediário livre, que divide a forma em duas partes.

A partir desse andar, tem-se uma vista privilegiada da Avenida Brasil , da baía de Guanabara e da paisagem do Rio de Janeiro.


ARCHE DE LA DEFENSE Paris, França.

Situado na periferia de Paris, o Arche de La Defènse estabelece relações com o eixo histórico de Paris, enquadrando perfeitamente o Arco do Triunfo, e o eixo que contém as duas maiores construções em altura da cidade, a Torre Eiffel e a Torre Mmonteparnasse.


Partindo de um cubo praticamente perfeito, de 108m x 112m, uma parte central é retirada e a “casca” é trabalhada como um hipercubo.


As suas fachadas são trabalhadas com vidro espelhado e concreto revestido de mármore, que eventualmente podem receber projeções. As aberturas das salas são para o interior da forma.

arche de la defènse. (fonte: http://www.blachford.info/gallery/paris2.html)

arche de la defènse recebendo projeções.

(fonte:www.naturepixel.com/grande_arche_la_defense_illuminee_r eflet_fontaine_5)


CENTRO AQUÁTICO NACIONAL – “CUBO D’ÁGUA”. PTW – Pequim, China.

Internamente, a impressão é de estar embaixo d’água. À noite, essas bolhas têm um sistema de iluminação que é capaz de emitir 16 milhões de tonalidades. Para a apreensão total do edifício é necessário um distanciamento.

maquete do cubo d’água(fonte http://www.brasiliabeijing.com/?tag=cubo-dagua)


TORRE DOS VENTOS Toyo Ito – Yokohama, China.

Na Torre dos Ventos, os fluxos de ar e os ruídos da cidade são transformados em sinais de luz (informação visual) e modificam a fachada conforme sua intensidade – o “contexto” é convertido em informação e compõe a fachada.

TORRE AGBAR Jean Nouvel – Barcelona, Espanha.

A Torre Agbar marca o início do acesso ao distrito tecnológico de Barcelona e se mostra como uma nova maneira de pensar o arranha-céu para Barcelona, remetendo às torres da Sagrada Família. A superfície externa do edifício é revestida por 59619 chapas metálicas pintadas de diferentes cores e que, juntamente com a opacidade do fechamento de vidro, sofre modificações conforme a hora, dia e estação do ano.


CUBO LARANJA – SÍNTESE DE IDEIAS. O Cubo Laranja representa a síntese das ideias, interesses, direcionamentos e conceitos que guiam esse TGI. Através das grandes perfurações, que funcionam como focos ou enquadramentos, ele estabelece relações fortes não apenas com seu entorno imediato, mas também com a cidade. A chapa laranja perfurada é responsável por estabelecer relações mais íntimas com os usuários, através de uma memória coletiva, que remete ao maquinário portuário e, também, através do choque que é visualizar um edifício de cor tão vibrante no meio de uma paisagem predominantemente cinza. Ele requer uma certa proximidade e ao mesmo tempo um distanciamento para que comece a ganhar e transmitir significados – os “símbolos” nele aplicados não têm uma apreensão tão direta.

Para que esse objetivo de trazer coerência ao edifício através da relação com a cidade e o usuário seja alcançado, toda a complexidade da cidade e da arquitetura devem ser consideradas. O manipulação do cubo, sua degradação, traz ainda uma relação muito forte com a história da arquitetura. Para Platão, o cubo representava a terra e, na arquitetura, ele é a forma primária que foi consagrada pela Arquitetura Moderna na forma de um cubo branco. Portanto, a transgressão do cubo relaciona, ainda, a arquitetura passada com a arquitetura contemporânea. AUTONOMIA DA TRANSGREDIDA?!!

ARQ


“CUBO LARANJA”. Jakob + MacFarlane – Lyon, França.

cubo laranja em seu contexto

(fonte: http://www.dezeen.com/2011/03/02/the-orange-cube-by-jakob-macfarlane/

O projeto do “Cubo Laranja” está situado às margens do rio Lyon e faz parte do projeto de revitalização das docas da cidade, que foi um dos centros industriais de maior progresso do século XIX. Rodeado por uma paisagem acinzentada, sua cor laranja é uma referência visual à tinta de proteção utilizada nos equipamentos e maquinários da zona portuária


Quando se observa o edifĂ­cio inserido no contexto, encontra-se entre eles uma coerĂŞncia profunda, mesmo que ele seja um objeto chocante.


O edifício é uma caixa perfurada, com três grandes escavações que dialogam com o rio, num intuito de quase “levá-lo para dentro”.

detalhe da chapa perfurada (http://arquitetablog.blogspot.com.br/2011/03/orange-cube)


O edifício é suportado por uma estrutura de concreto e apresenta duas perfurações cônicas convergindo ao centro – um desce a partir da cobertura e o outro nasce de uma angulação do rio. Essas perfurações também permitem uma melhor ventilação e maior entrada de luz natural.

As duas perfurações cônicas funcionam como um mirante, enquadrando tanto a paisagem do rio quanto o céu. A terceira perfuração se conecta ao passeio público e faz a ligação entre o edifício e uma estrutura vizinha, de um antigo armazém de sal dos anos 20. A curvatura elegante dessa perfuração é uma continuação à curvatura da cobertura ondulada do edifício vizinho.


detalhe de como as perfurações tornam-se mirantes. (http://arquitetablog.blogspot.com.br/2011/03/orangecube)

terraço-mirante na cobertura. (http://arquitetablog.blogspot.com.br/2011/03/orangecube)


perspectiva das perfurações cônicas e mirantes. (fonte: http://www.tripadvisor.com.br)


O aspecto de caixa perfurada é dado através da aplicação de uma pele metálica com perfurações de diversos diâmetros. Esse aspecto é responsável por promover uma maior coerência e consistência ao projeto. É como se o cubo fosse sendo contaminado e corroído pelo contexto portuário, estabelecendo com ele relações mais íntimas. Esse aspecto ainda traz outra questão arquitetônica importante. É o cubo, a forma arquitetônica mais primária, que no modernismo foi consagrado como cubo branco, sendo subvertido, perfurado, contaminado.

Detalhe da chapa perfurada (http://arquitetablog.blogspot.com.br/2011/03/orange-cube)


PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES E INQUIETAÇÕES. Esse texto é um primeiro ensaio de união e síntese das principais referências. Ainda superficial, é válido como dispositivo de entrada para uma reflexão mais aprofundada que acompanhará o processo de projeto até sua conclusão.

Atualmente, temos uma alta especulação imobiliária ocorrendo nas cidades, onde a terra ganha um alto valor comercial, o que muitas vezes acaba gerando espaços urbanos sem qualidade . De maneira geral, podemos dizer que Koolhaas define esses espaços da cidade contemporânea como “espaços-lixo”. Diferentemente do pensamento moderno, onde o arquiteto tinha o domínio da cidade, Koolhaas enxerga a arquitetura como apenas um dos agentes da cidade contemporânea e não como o agente principal – para ele, o arquiteto não controla a cidade. Ele afirma que o arquiteto está subordinado aos fluxos problemáticos do ambiente urbano e que, portanto, a arquitetura é fruto desse espaço-lixo.

Ao admitir isso, Koolhaas reproduz e adere esse espaço-lixo em suas obras, mesmo que com um certo filtro e um pouco de requinte. Jean Nouvel também reconhece essa fragilidade do ambiente urbano contemporâneo e do papel do arquiteto nesse contexto. No entanto, diferentemente de Koolhaas, ele busca dar uma “versão arquitetônica” àquilo que não é arquitetura, incorporando características urbanas como os painéis publicitários em suas obras, buscando recuperar o valor arquitetônico do local e trabalhando no limiar desse “espaço-lixo”. No Cubo Laranja, de Jakob + McFarlane, podemos encontrar, de certo modo, uma colisão entre o pensamento de Koolhaas e Jean Nouvel. Para Platão, o cubo representava a terra. Quando no pós-modernismo Peter Eisenmann intervém e modifica o cubo é como se ele estivesse intervindo e modificando a terra.


Já, na Arquitetura Moderna, a forma perfeita do cubo, com toda a sua racionalidade e perfeição, foi consagrada como um cubo branco. Portanto, a maneira como Jakob e McFarlane trabalham o cubo traz uma reflexão sobre como essa forma platônica, que até certo ponto representa uma autonomia da disciplina arquitetônica, está sendo corroída pela realidade, pois seu contexto portuário é histórico mas a realidade atual é uma realidade mais cruel, “corroída”. Assim, tem-se a visão da fragilidade da arquitetura contemporânea e desses espaços-lixos que constituem a cidade, mas, também, tem-se a vontade da recomposição do repertório arquitetônico que parte da modificação do cubo. Todas as ideias desses arquitetos, que compõem essa revisão arquitetônica e universo projetual, levam a uma reflexão da realidade contemporânea de modo que ela integre a estrutura da obra arquitetônica, de tal modo que essa possa ser projetada.


ações projetuais


ações projetuais ARQUITETURA E CONTEXTO.

A “arquitetura contextualista” que está sendo buscada é aquela que lança um olhar aprofundado para a cidade na qual está inserida, a fim de fazer parte não apenas do seu entorno imediato, mas também de um todo muito maior, estabelecendo com ele relações fortes e particulares, enquanto se afirma como uma nova intervenção. Essa compreensão da cidade é mediada pelo entendimento do ambiente urbano contemporâneo como dinâmico e complexo, baseando-se num estudo que está para além das questões arquitetônicas em si, mas que também considera os quesitos ambientais, antropológicos, artísticos, históricos, culturais, etc, que configuram o seu amplo contexto e são responsáveis pela constante mudança do espaço urbano e de sua experiência cotidiana.


Nesse sentido, a busca é por uma arquitetura que trabalhe em dois níveis: nível arquitetura - cidade e nível arquitetura – usuário, originando uma obra que poderá ser chamada de “inclusiva”, na medida em que relaciona e aproxima essas duas instâncias. Para tanto, algumas frentes de ação serão importantes: no nível arquitetura – cidade temos a implantação e o direcionamento do olhar através de enquadramentos, que de certa maneira estão integrados, e no nível arquitetura – usuário a fachada será tida como a “pele” do edifício, trabalhada como objeto de mediação entre os dois níveis e responsável por imbuir a obra arquitetônica de maiores significados. Portanto, a “arquitetura inclusiva” que está sendo buscada integra cidade – arquitetura – usuário e trabalha em diversos níveis, buscando estabelecer relações e proximidades com o entorno, a cidade e o contexto mais amplo das culturas e

tradições, por exemplo, fazendo parte de um todo muito maior e ainda lançando o olhar sobre questões inerentes à contemporaneidade, como a tecnologia e os meios de comunicação eletrônicos. É uma arquitetura que até pode num primeiro momento parecer confusa e desordenada, mas que aos poucos vai fazendo sentido, ganhando e transmitindo significados. É, enfim, uma arquitetura que busca “consubstanciar a difícil unidade de inclusão, em vez da fácil unidade de exclusão” (VENTURI).


fragmentos do caderno de croquis durante os estudos de açþes projetuais.


IMPLANTAÇÃO / ENQUADRAMENTOS rasgos, escavações, subtrações, manipulações da forma arquitetônica. A arquitetura em questão se coloca contra os ideais modernos de “obra universal”, que poderia ser implantada em qualquer lugar sem perder suas qualidades “a priori”, e do edifício isolado e independente, mesmo quando inserido no ambiente urbano

A implantação da obra nasce não apenas do estudo de características particulares do entorno, mas também da busca por relações e enquadramentos da cidade, que direcionam o olhar e criam focos de interesse. Dessa maneira, a cidade penetra e participa da arquitetura, tornando-se parte constitutiva dela.

estudos de maneiras de enquadrar a cidade.


estudos de maneiras de enquadrar a cidade a partir da forma arquitet么nica.


“PELE” A questão da «pele» do edifício está colocada não apenas como uma reflexão do contexto «simbólico» local, como suas tradições e culturas, a fim de lhe agregar símbolos que funcionem como metáforas, com o intuito de proporcionar um reconhecimento dos usuários com relação à obra, mas também como uma reflexão da maneira contemporânea das pessoas de se relacionarem com o mundo ou como uma maneira de explicitar o fato da obra arquitetônica que vai sendo afetada pelo amplo contexto. Atualmente, vivenciamos todos os dias uma chuva de imagens e informações instantâneas e efêmeras, balizadas pela mídia e meios de comunicação. Portanto, a maneira de trabalhar a pele poderá também transformá-la em algo efêmero e mutável. Assim, a pele será trabalhada a fim de imbuir a arquitetura de uma maior complexidade e significados,

explorados mais na “superfície” que na forma arquitetônica. A inserção da pele ainda traz consigo a possibilidade de permitir um outro olhar para a cidade, partindo de dentro do edifício, que é mediado por ela como um «filtro» - é um novo «olhar através de uma pele». Além de poder criar, por exemplo, novos focos, pode também proporcionar novas sensações ao espaço interno, a partir da incidência da luz solar sobre a superfície.


estudos de duas maneiras principais de inserir a “pele” no edifício: ela mesma como fechamento ou ela colocada à frente do fechamento, como uma camada a mais.

estudos de maneiras de trabalhar a pele: pele transparente que agrega símbolos; pele translúcida; pele translúcida colorida; pele “efêmera”, mutável; pele trabalhada com texturas; pele com rasgos e perfurações.


Imagem “síntese” das ações projetuais..


diagrama resumo das “ações projetuais”.


รกrea


área_zoom out

BARRA FUNDA

O bairro da Barra Funda está localizado na cidade de São Paulo, pertencendo à sua região oeste e sendo um dos mais antigos e tradicionais. Está muito próximo da área conhecida como “centro velho” e atualmente, é um importante nó intermodal da cidade, uma vez que conta com um terminal de ônibus municipais, intermunicipais e estaduais, uma estação de trens da CPTM e estações de metrô. O surgimento do bairro da Barra Funda se relaciona com um novo ciclo econômico, social e político da cidade de São Paulo, que foi percebido a partir de 1870, momento em que ocorreu o aumento da produção de café e a cidade se tornou o centro de ligação entre o interior do Estado e o Porto de Santos. A partir de então, São Paulo passa por transformações que começam a lhe conferir um carater mais urbano.


Em 1875 foi inaugurada a Estrada de Ferro Sorocabana, a fim de escoar a produção de café para o Porto de Santos e o interior e cuja estação foi implantada no bairro da Barra Funda, estimulando sua ocupação. No entanto, esse processo se intensificou com a duplicação da Estrada de Ferro São Paulo Railway (Santos-Jundiaí), em 1892.

Na Barra Funda, naquele momento, havia uma presença massiva de imigrantes italianos. Além deles, os negros, que antes concentravam-se no centro, também passaram a habitar o bairro, que, juntamente com o bairro de Campos Elísios, torna-se o território mais caracterizadamente negro da cidade de São Paulo.

As estradas de ferro foram elementos fundamentais no processo de urbanização da cidade de São Paulo, estimulando a instalação de indústrias em suas margens e, com isso, modificando a paisagem da cidade. A Barra Funda, então, começou a se firmar como bairro operário e industrial. Outro fator decisivo para a ampliação e o fortalecimento do parque industrial de São Paulo foi a chegada dos imigrantes, no início dos anos 1900, mão de obra que foi amplamente utilizada no setor. Esses imigrantes passaram, então, a ocupar os bairros industriais e suas proximidades.

Segundo Raquel Rolnik (2008, p.32), a população negra trouxe uma marca à Barra Funda: a música, sendo o bairro o berço do samba paulistano. Essa marca foi ainda mais exaltada pelos italianos, cujos encontros em bares e cantinas à noite eram sempre animados por conversas e músicas. Mas ao analisar a trajetória de formação da Barra Funda durante o século XX, fica claro que grande parte das intervenções urbanas realizadas no território tiveram caráter regional, o que resultou em limitações ao seu desenvolvimento, configurando um quadro de estagnação da área.


No entanto, a partir de 1990, investimentos intensivos por parte do poder públicos vêm sendo realizados no bairro, a fim de reverter essa situação, sendo que diversos planos urbanísticos já foram propostos para a área e, atualmente, o Plano Urbano Água Branca vem sendo implantado aos poucos. Com isso, atualmente a Barra Funda é um local de profundos contrastes. Seu desenvolvimento industrial concedeu-lhe um traçado irregular, marcado por grandes quadras, que geralmente abrigavam galpões e que, hoje, estão em grande parte desocupadas ou contêm edificações ociosas e abandonadas. Ao lado dessas áreas, grandes edifícios residenciais e comerciais estão sendo construídos, trazendo uma arquitetura que destoa daquela já encontrada no bairro.


proximidade entre a Barra Funda e os bairros do centro tradicional de S達o Paulo

Barra Funda

Bairros do centro tradicional De S達o Paulo.


comparação entre a malha urbana irregular da Barra Funda, de características industriais com grandes quadras, para poder abrigar galpões, e circulações longas, e a malha dos bairros a seu redor, de característica residencial, com traçado regular.

Barra Funda_bairro industrial

bairros residenciais.


A BARRA FUNDA E OS PLANOS URBANOS. A Barra Funda é um local que está em constante mira na elaboração de planos urbanos. No entanto, muito do que foi feito na área até agora teve caráter regional, contribuindo para o processo de estagnação do bairro. Atualmente está em curso uma operação urbana denominada “Operação Urbana da Água Branca”, da qual partes do projeto já foi ou está sendo implantada e que, se finalizada, contribuirá muito para a mudança da situação do local.

OPERAÇÃO URBANA ÁGUA BRANCA. O propósito inicial da Operação Urbana Água Branca é criar um contraponto ao adensamento na região sudoeste (Avenida Berrini e Avenida Nações Unidas) da cidade de São Paulo. Através da operação urbana, busca-se potencializar o uso do solo do bairro, devido à facilidade de acesso ao chamado centro expandido através do transporte público e considerando a proximidade com as rodovias Bandeirantes, Anhanguera e Castelo Branco, propiciando a ocupação ordenada das glebas vazias e dos terrenos subutilizados presentes em grande quantidade na região. Ainda, visa-se uma complementação do sistema viário local e uma melhor solução aos problemas de drenagem da região, além de um projeto básico para a relocação do leito ferroviário.


Como objetivos básicos da Operação, temos: 1. Melhorar as condições de mobilidade para veículos e pedestres; 2. Reurbanização da orla da ferroviária, através de áreas para concessão urbanística e viabilização de habitação de interesse social e habitação de mercado popular. 3. Criação de um sistema de áreas verdes e um sistema de drenagem. 4. Recuperação de referenciais paisagísticos. Quanto às diretrizes gerais da lei, tem-se a elaboração de estudos de impacto ambiental, o alinhamento da operação urbana aos novos parâmetros de uso do solo versus oferta de transporte público, o alinhamento da operação urbana à demanda pelo uso residencial preservando as atividades geradoras de emprego e o oferecimento de incentivos ao padrão residencial médio.

Uma das principais propostas da Operação é obter um maior adensamento da área, sendo que em 2002 a densidade era de 23hab/ha, em 2008, 36hab/ha e a previsão é que em 2025 atinja-se a densidade máxima de 230hab/ha. Outras questões são importantes, como tentar equilibrar a distribuição de usos, aumentando o grau de conforto do usuário e morador nas distâncias a percorrer a pé ou mesclar as faixas de renda, a fim de diversificar os tipos de serviço e aumentar a proximidade entre moradia e emprego.


delimitação do perímetro de área da Operação Urbana Água Branca. fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)


diagrama da proposta de revisĂŁo do sistema de drenagem em toda a ĂĄrea. fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)


diagrama da proposta de novas vias para a รกrea. (fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)


estudo de relocação da orla ferroviária (fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)


áreas de interesse para a implantação de habitação de interesse social fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)


divisão das áreas de proposta de áreas verdes, áreas públicas e áreas particulares. (fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)


divisรฃo das รกreas de proposta de รกreas verdes, รกreas institucionais e รกreas para projetos especiais. (fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)


gráfico da divisão da área em setores. (fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)

A partir da divisão em setores, temos: distribuição de habitação de interesse social e habitação de mercado popular igual em todos os setores; distribuição de comércio e serviços um pouco maior no setor E e igual nos demais setores; distribuição de indústria no setor C, menor em A e B e não incentivada nos setores D e E; distribuição de “institucional de caráter público” igual em todos os setores e distribuição de “outros” maior no setor E, média em A e menor nos demais setores.


área_zoom in

A porção do bairro da Barra Funda onde está localizada a área de intervenção possui características bastante particulares, como o contato com a Marginal Tietê e a proximidade com o Rio Tietê. Também, apresenta muitos terrenos ociosos ou subutilizados, principalmente como estacionamentos, além de galpões industriais preservados e em uso ou degradados e abandonados. Guarda, também, duas situações urbanas distintas, sendo uma a lógica rodoviarista presente na Marginal Tietê e, outra, a lógica mais local das ruas internas do bairro que, ainda, se contrapõe à Avenida Marquês de São Vicente, eixo já bastante particular com relação ao seu entorno e importante avenida paralela à Marginal Tietê, podendo ser uma alternativa à ela.


A Marginal Tietê é uma das avenidas mais importantes da cidade de São Paulo, que faz a ligação oeste-leste, recebendo diversas outras avenidas e rodovias em seu corpo.

Marginal Tietê Avenidas que se ligam ao corpo da Marginal. Rodovias que se ligam ao corpo da Marginal.


Se considerarmos a implantação total da Operação Urbana Água Branca, o entorno da área de intervenção passará por diversas transformações, sendo que a principal delas é o aumento de densidade populacional. Uma questão importante para o projeto é a possibilidade de implantação de implantação de habitações de interesse social muito próximas à área de intervenção.

áreas de interesse para a implantação de habitação de interesse social fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br)

área de intervenção áreas destinadas a habitações de interesse social.


Marginal Tietê Rio Tietê Eixos transversais Eixos longitudinais Linha férrea Ruas importantes

Pontos importantes Estacionamento GRES Camisa Verde_ local em aparente abandono Parque da Água Branca.

Terminal intermodal da Barra Funda


área_zoom +

A área de intervenção está ociosa, possui aproximadamente 17000m 2 e está situada entre a Rua Dr. Rubens Meireles, de caráter mais local, com fluxo predominante de pedestres, e a Avenida Marginal Tietê, via expressa, com alto fluxo de carros. Por estar situada numa esquina de uma das avenidas mais importantes da cidade de São Paulo, a área apresenta grande visibilidade e facilidade de acesso. Ainda, sua localização é estratégica devido à proximidade com o terminal intermodal da Barra Funda, chegada do metrô, de trens da CPTM e de ônibus municipais, intermunicipais e interestaduais.


Na Barra Funda, a Marginal Tietê apresenta um caráter bastante distinto, uma vez que seu entorno se apresenta praticamente como uma sequência de espaços subutilizados, ociosos, vazios ou em estado de abandono, marcada, principalmente, por uma grande presença de estacionamentos.

playcenter

R. José Gomes Falcão

estacionamento

córrego

R. Dr. Rubens Meireles

motel

Estacionamento depósito de “lixo” Do Tribunal de da Mancha Verde Justiça do Estado De São Paulo

“recorte” da Marginal Tietê no entorno da área de intervenção.


entorno da ĂĄrea_vistas a partir da Marginal TietĂŞ.


foto atual da área de intervenção, hoje fechada.

perspectiva da esquina da área de intervenção. (fonte: google street view)


perspectiva da Rua Dr. Rubens de Meireles a partir da Marginal Tietê. (fonte: google street view)

perspectiva da Rua Dr. Rubens de Meireles a partir da Avenida Marquês de São Vicente.


vistas da Marginal Tietê e da Ponte do Limão a partir da esquina e da outra ponta da área de intervenção. (fonte: google street view)


vista da Marginal Tietê e da Ponte do Limão a partir da área de intervenção. (fonte: google street view)

vista da Marginal Tietê a partir da área de intervenção.


vista da área de intervenção contraposta à Marginal Tietê a partir da Rua Dr. Rubens Meireles. (fonte: google street view)

vista da outra margem da Marginal Tietê a partir do fundo da área de intervenção.


A escolha de uma área na esquina parte da vontade de ter uma implantação bastante “aberta” para a cidade, configurando um local de encontros , a partir de uma implantação convidativa e tentando trabalhar uma permeabilidade na área. Ainda, essa esquina abriga duas lógicas diferentes, a lógica rodoviarista da Marginal Tietê e a lógica mais local da Rua Dr. Ruben de Meireles.


percurso na รกrea

vistas principais

vistas secundรกrias


processos


processos

CONSIDERAÇÕES INICIAIS. Para iniciar os estudos de projeto, além das “ações projetuais” algumas considerações e estudos iniciais foram importantes.


ESCOLHA DO PROGRAMA. Durante os anos em que o Brasil recebeu um grande contingente de imigrantes, em São Paulo os italianos dirigiram-se principalmente à Barra Funda, bairro industrial, buscando trabalho nas fábricas e indústrias. Nessa mesma época, os negros, que antes habitavam o centro e viviam geralmente do comércio de produtos diversos, passaram a se instalar na Barra Funda devido à inauguração da Estação Ferroviária, onde viram uma possibilidade melhor de comércio. Dessa maneira, juntamente com o Campos Elísios, o bairro tornou-se a área mais caracterizadamente negra da cidade de São Paulo. Conforme já citado, segundo Raquel Rolnik, a população negra trouxe uma marca à Barra Funda: a música.

(REPETIDO!!!)

Com isso, a partir de uma intervenção contextualista na Barra Funda, foi escolhido inicialmente trabalhar com a música e, portanto, com o projeto de um centro de música. A dança foi vista como uma maneira de aproximar ainda mais as pessoas da música. Com isso, foi escolhido como programa de um centro de música e dança. A ideia é que o centro extrapole o caráter regional e possa também receber pessoas da cidade inteira e, inclusive, de outros locais, funcionando até certo ponto como um polo de atração. Considerando as transformações que estão ocorrendo na Barra Funda, principalmente com o gradual aumento de população, a facilidade de acesso do local e os planos urbanos que estão aos poucos sendo implantados no bairro, um centro de música e dança que funcionasse como um polo de atração e uma alternativa de entretenimento para o bairro, mostrou-se bastante coerente.


DIVISÃO INICIAL DO PROGRAMA. Inicialmente, a elaboração do programa foi pensada priorizando as aulas em turmas, mas também proporcionando a estrutura para aulas individuais, em pequenos grupos e, também, locais para estudos individuais ou em grupo. A distribuição das aulas e oficinas de música e dança se dariam nos diversos andares a partir de suas classificações básicas, sendo, para a música, instrumentos de cordas, sopro e percussão e, para a dança, a cênica, a social e a típica. Uma parte do programa foi pensada de maneira mais “experimental”, podendo abrigar palestras, workshops e oficinas de música e dança, entre outros. O Centro contará, ainda, com um acervo de instrumentos antigos, novos e experimentais, que estaria distribuído nos espaços livres dos diversos andares e, ainda, uma biblioteca com um acervo de partituras, livros sobre música e dança e vídeos de

apresentações, para que o usuário possa estar sempre em contato com a dança e a música de maneiras diferentes. O térreo foi pensado como um andar bastante “aberto” e distinto dos demais, abrigando um palco central para “pocket shows”, que pode ser visto de todos os andares através do átrio central e um café. Ainda, teria a possibilidade de abrigar pequenas exposições mais direcionadas. O anfi-teatro foi pensado a fim de abrigar não apenas apresentações dos próprios alunos do Centro, mas também de grupos externos a ele.


Considerações sobre como organizar os diversos níveis do edifício e sua circulação, a fim de conferir uma maior interface entre os andares, e de maneira que o edifício estivesse sempre em contato consigo mesmo.

estudos de maneiras de “circular” no edifício e de articular o programa para permitir uma maior interface entre os andares:


O princípio de organização do edifício se baseia, então, num pátio central, em torno do qual se organiza o programa.

encontros contato

permeabilidade inter-relação

programa programa programa programa

programa

pátio programa programa central programa

programa

programa programa programa diagrama de como articular a fim de proporcionar encontros, contato, permeabilidade e maneiras de proporcionar uma maior inter-relação entre os andares.


VAZIO

ABERTURA

articulação do programa

“permeabilidade” interna

inter-relação no edifício

contato do edifício consigo mesmo

PALCO

diagrama de articulação dos andares através de um átrio, que permite uma maior iluminação interna, a relação entre os andares e a visualização do céu do interior do edifício.


estudos de como distribuir o programa no edifĂ­cio.


distribuição escolhida para a primeira concepção de projeto.


partido formal

lógica ubana da área

galpão industrial grandes quadras muita circulação

formas racionais

grandes áreas livres

especificação para salas de música: paredes não paralelas forma “caixa” levemente modificada diagrama de concepção formal.


pátio núcleo de circulação vertical administração café sanitários foyer/bar platéia palco camarins/apoio uso múltiplo oficinas de dança oficinas de música depósito térreo e primeiro andar._ o primeiro andar é tido mais como “experimental”, contento locais para o desenvolvimento de oficinas e workshops;


pátio núcleo de circulação vertical aulas/prática de música aulas/prática de dança aulas teóricas depósito sanitários

segundo e terceiro andar


pátio núcleo de circulação vertical aulas/prática de música aulas/prática de dança aulas teóricas depósito sanitários

quarto e quinto andar_o quinto andar é destinado mais ao acervo e a locais para estudo e prática individual da dança e da música.


detalhe da cobertura com a abertura do รกtrio.


Diagramas de circulação no edifício.


“raio-x” do edifício.


“raio-x” do edifício.


A implantação foi pensada de maneira a criar perspectivas do edifício, privilegiando o alto fluxo em velocidade, quando visto de ambos os lados da Marginal Tietê e evitando que a esquina com a Rua Dr. Rubens de Meireles, com fluxo principal de pedestres, se configurasse como uma “quina”.

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diagramas do primeiro estudo da implantação.


implantação final apresentada na banca de interlocução, com as vistas da Ponte do Limão e da Marginal Tietê sendo priorizadas.


estudo de gabarito do edifício em relação com o entorno imediato, considerando a topografia do terreno, sendo visto da Marginal Tietê.

estudo de gabarito do edifício em relação com o entorno imediato, considerando a topografia do terreno, sendo visto da Avenida Marques de São Vicente.


ENQUADRAMENTOS Os enquadramentos principais foram trabalhados, inicialmente, todos na mesma face do edifício, priorizando a vista da Marginal e da Ponte do Limão.

primeiros estudos de enquadramentos, apresentados na banca de interlocução.


PELE Nesse primeiro momento, a “pele” do edifício foi pensada considerando-se a materialidade aplicada em suas fachadas. Como a Barra Funda é uma área com um passado industrial muito marcante, que está sendo cada vez mais perdido, com suas antigas fábricas e galpões tradicionais muitas vezes em estado de abandono, depredados ou sendo substituídos por novos empreendimentos comerciais e resideciais que geralmente não dialogam o seu entorno ou as características tradicionais da área, para o centro de música e dança os materiais principais escolhidos foram o aço, o concreto e o vidro, remetendo tanto ao passado quanto aos galpões industriais ainda presentes na área. Portanto, foram pensadas duas “peles” principais: uma que trouxesse ao edifício a lembrança das

características tradicionais da área, e outra que revelasse para o bairro aquilo que estivesse ocorrendo dentro do A primeira pele seria de aço corten, a fim de revelar para a cidade um pouco da área. A característica do aço corten de, com o tempo, gerar uma camada de ferrugem poderia remeter à passagem do tempo. A segunda pele revelaria aos poucos o que estivesse acontecendo dentro do edifício, através de vultos, funcionando como um “véu”. Essa pele conversaria com as características próprias do edifício, uma vez que tanto a música quanto a dança trazem consigo um “algo a ser revelado”.


Assim, teríamos também o contraste entre as duas peles principais: uma “dura”, enferrujada, e outra delicada, quase efêmera. Ainda, outras “peles” participarão da constituição do edifício, como peles de vidro anti-ruído, que possibilitassem a observação da cidade e da marginal mudas. Também, mas pouco desenvolvida nessa etapa seria uma pele de fato efêmera, que nunca se mantivesse constante. Fica, então, outra questão a ser trabalhada: como seria olhar a cidade através dessas peles?


placa de aço corten

primeiros estudos de brises de aço corten, enquadramentos e maneiras de proporcionar efemeridade à fachada..


pele de aรงo corten com os enquadramentos principais.


estudo do efeito de uma pele translúcida, que trabalhasse como um “véu”.

concreto com efeito translúcido.


pele translúcida, mais “efêmera” e pavilhão do teatro revestido com placas de concreto.


contraste entre as duas peles principais.


prĂŠ-projeto


pré-projeto

Na última fase dessa etapa que encerra o Trabalho de Graduação Integrado 1 (TGI 1), o processo de projeto alcançou um estágio de “pré-projeto”, sendo que todos os conceitos e questões que dão o tom à obra já foram fechados e, a partir de agora, serão aprofundados. Temos, então, uma série de intenções e indicações de implantação e uma primeira concepção formal e de materialidade, que serão trabalhadas no decorrer do segundo semestre, juntamente com detalhamentos, culminando, então, no projeto final.


CONSIDERAÇÕES INICIAIS. Nessa fase de pré-projeto foram adicionados ao programa do Centro de Música e Dança: uma livraria no térreo, onde os usuários podem adquirir além de livros e revistas sobre o tema, também materiais produzidos no próprio Centro, como cds e dvds;, e um espaço de estúdio, podendo ser utilizado não apenas como um local de gravação mas, também, servindo para oficinas de mixagem por exemplo. Os conceitos de organização do edifício se mantiveram, como a busca por promover encontros, permeabilidade física no térreo, inter-relação e contato entre todos os andares, criação de locais de encontro e estares, bem como a organização interna acontecendo ao redor de um pátio central. A concepção formal ainda parte do cubo, manipulado através da consideração da lógica urbana da área, do passado industrial e das especificações para salas de música, conforme apresentado na banca de interlocução.


IMPLANTAÇÃO A lógica de implantação do edifício permanece a mesma da banca de interlocução, a fim de não criar uma quina na esquina e permitir que o Centro seja visto em perspectivas tanto da Marginal quanto da Rua Dr. Rubens de Meireles e, inclusive, da Avenida Marquês de São Vicente e, por que não, do alto dos brinquedos do Playcenter.


A implantação se inicia com uma leitura do Rio Tietê como um grande eixo, que se apresenta como uma barreira física e só pode ser atravessado através de pontes, ao longo da Marginal.


A partir dessa leitura, o espelho d’água é inserido na implantação, criando duas situações: um local com praças de passagem, ligado à Marginal e locais de estar, voltados à Rua Dr. Rubens de Meireles e à rua de acesso criada. O edificio, então, se coloca sobre ele como uma ponte - a única maneira de travessia dessa barreira física presente na implantação.


Assim, são criadas três áreas distintas no terreno: uma praça de entrada pela Marginal Tietê (01), apenas de passagem; uma praça de entrada principal pela Rua Dr. Rubens Meireles (02), mais reservada, devido ao caráter mais local da rua e onde serão trabalhados estares para que se possa assistir às projeções na pele efêmera e uma praça com um maior carater de recolhimento (03), com um palco externo, possibilitada pela amenização do ruído da Marginal, tirando partido da massa construída do Centro e do teatro e, ainda, de um desnivel de 1,5m criado em direção ao teatro, que pode ser acessada diretamente da rua de acesso aberta para o estacionamento.


O espelho d`’agua “entra” no térreo, recebendo um piso transparente, abrindo e conformando o palco central, onde tem sua linearidade quebrada, guiando-se a partir do bloco do teatro e indo “desaguar” no córrego ao lado. O percurso que o espelho d’’agua realiza no térreo constitui um “eixo” interno que liga os núcleos de circulação.


Portanto, o edifício se implanta e vai se organizar a partir do estabelecimento de relações com o entorno e consigo mesmo. A circulação foi pensada com o objetivo de permitir que o edifício, no térreo, seja muito fluido, já que ele pode ser cruzado de diversas maneiras. O palco é central, podendo ser visto de diversos ângulos uma vez que a circulação ocorre ao seu redor, sem que uma plateia principal seja estabelecida. A partir do palco, o átrio começa a se conformar, atravessando todos os andares até abrir uma cobertura transparente na cobertura.

Rua Dr. Rubens Meireles

Marginal Tietê

praça de projeções


Nos andares superiores, essa entrada do espelho d’água no térreo é marcada por um piso transparente que se “abre” e “morre” no átrio.


O bloco do teatro nasce a partir da cota 0,0m do terreno e sobe com uma inclinação de aproximadamente 5,5% em direção do edifício principal. Com isso, é possível caminhar sobre ele e acessar um dos patamares intermediários das rampas de acesso principais, tendo, assim, acesso a todo o edifício, criando um circuito. O patamar intermediário das rampas de acesso ao teatro se liga diretamente com a cota -1,50m do terreno, onde está localizada a área de palco externa, que pode também ser acessada a partir da própria praça, uma vez que o terreno se inclina levemente de todos os lados em direção a essa cota mais baixa.

circuito teatro-rampas acesso à cota -1,50m através das rampas de acesso ao teatro. acessos através da caída do terreno, da cota -1,50m àcota 0,0m e vice-versa.


A circulação no edifício acontece numa hierarquia que remete à lógica urbana, inclusive àquela na qual a área de intervenção está inserida.

avenidas ruas de caráter mais “local”


A chamada “circulação pesada” ou “circulação de abastecimento” remete às grandes avenidas da cidade e às rodovias que a ela se ligam. Nas cidades, esse é um fluxo de acesso muito importante entre bairros e regiões. No projeto, os núcleos de circulação vertical são entendidos como esse fluxo mais pesado, de abastecimento, e é periférico.

circulação periférica, “abastecimento”


Já, a circulação referente ao acesso às salas de aula e que configura os “estares” e “espaços de apropriação” se coloca como a circulação que ocorre nas ruas de caráter mais local dos bairros, abastecendo os locais de recolhimento.

circulação central, “estares”, “espaços de apropriação” quebra de circulação

Na história do bairro da Barra Funda, as “conversas de boteco e esquina”, muito características dos italianos são constantemente citadas, bem como a ideia de “comunidade”’. Essa “apropriação”, a “vida das ruas” está presente no edifício nesses locais de circulação em torno do átrio, que dão acesso às salas e que serão tratados como estares.

Os espaços que contém usos ou situações distintas, apresentam sua circulação quebrada. Essa característica de eventuais circulações quebradas ou interrompidas é bastante presente da Barra Funda.


Assim, podemos dividir os espaços entre espaços serventes (circulação), espaços servidos (salas) e espaços híbridos (pátio interno) que são servidos mas também são serventes.

núcleos de circulação: espaços serventes pátio interno: espaço híbrido - servido e servente salas: espaços servidos


TÉRREO

0 5 1

30 15


térreo “livre” – uso múltiplo núcleos de ciculação: rampas, escadas, elevadores teatro café / bar livraria •todos os andares contam com sanitários.

O térreo se configura como um espaço fluido e aberto de múltiplo uso com um palco central. A ideia é que se possa circular ao redor do palco, assistindo às apresentações de diversos ângulos, sem necessariamente apresentar um local fixo de platéia. Esse espaço pode ser usado para exposições, palestras, workshops e oficinas mas, principalmente, para pocket shows e inclusive shows de maior porte. A livraria se coloca em contato com a Marginal Tietê, marcando a entrada por essa face do edifício, enquanto o café/bar se coloca próximo à praça principal de projeções, em contato com a Rua Dr. Rubens Meireles, bem como próximo à entrada do teatro e ao acesso ao palco externo. O teatro tem capacidade para aproximadamente 400 pessoas com foyer, bar, sanitários, camarins completos e palco italiano.


ANDAR 01

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“experimental”, oficinas, workshops, salas especiais. administração núcleos de circulação: rampas, escadas, elevadores. varanda •todos os andares contam com sanitários.

O primeiro andar acontece em dois níveis unidos por um piso-rampa. Essa configuração marca os andares cujo uso é dividido e até certo ponto requer isolamento. A varanda se coloca como uma continuidade de todos os pisos, permitindo enquadramentos e vistas da cidade de diversos ângulos. O primeiro nível é chamado “experimental”, pois apresenta as salas referentes a oficinas e workshops, bem como um espaço “garagem” para ensaios de bandas e sala especiais que podem ser utilizadas para aulas de danças para cadeirantes. Esse espaço acontece no primeiro nível para poder ter acesso direto ao térreo, podendo até certo ponto estarem interligados. O segundo nível é referente à administração do Centro, com secretaria, sala de reuniões, estar para funcionários e professores e apoio como sanitários e copa.


ANDAR 02

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aulas – música e dança instrumentos de cordas danças sociais núcleos de ciculação: rampas, Escadas, elevadores varanda

` O segundo andar é referente a instrumentos de corda, tais como violão, guitarra, baixo, viola, violino e piano (teclado está sendo considerado nessa categoria) e a danças “sociais”, como dança de salão, bolero, tango e forró.


ANDAR 03

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aulas – música e dança instrumentos de sopro danças cênicas núcleos de ciculação: rampas, Escadas, elevadores

varanda

O terceiro andar é referente a instrumentos de sopro, tais como faluta doce, baixa e transversal, clarinete, saxofone e trompete e a danças “cênicas”, como ballet, sapateado, dança contemporânea e dança do ventre.


ANDAR 04

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aulas – música e dança instrumentos de percussão dança “ritmica”

núcleos de ciculação: rampas, Escadas, elevadores varanda

O quarto andar é referente a instrumentos de percussão, que requerem um pé-direito mais alto, sendo que o instrumento principal desse andar é a bateria e a danças aqui chamadas de “ritmicas”, quer seriam por exemplo funk, zumba (mistura de ritmos latinos) ou danças que misturam estilos.


ANDAR 05

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30 15


acervo / estudo estúdio núcleos de ciculação: rampas, escadas, elevadores

O quinto andar também acontece em dois meio-níveis unidos por um piso-rampa, sendo que o primeiro é referente ao acervo de livros sobre o tema, partituras, cds e dvds com apresentações, etc, contando com tvs, computadores e fones de ouvido, entre outros. O segundo meio nível é relativo ao espaço de estúdio, que poderá ser utilizado para gravações em geral, eventuais ensaios e, também, oficinas de mixagem e produção.


“raio-x do programa”.


“raio-x do programa”.


A leitura do edifício se faz mais na vertical, como uma sequência de espaços que vão se articulando e se inter-relacionando principalmente visualmente.

corte_articulação entre os andares


rampas รกtrio


PELE DE AÇO CORTEN. A pele de aço corten é inserida dialogando com o passado industrial da Barra Funda. A camada de ferrugem, produzida naturalmente por esse tipo de aço entra remetendo-se à passagem de tempo. Essa pele se apresenta de duas formas: como chapas planas e também como uma chapa perfurada, recobrindo a fachada do edifício voltada mais para o interior do bairro. A chapa perfurada traz ainda mais essa ideia do tempo, mas como um elemento que acabou corroendo o passado e as características originais do bairro.


pele de chapa perfurada de aço corten à frente e pele efêmera.ao fundo.


PELE EFÊMERA. A efemeridade é um tema bastante contemporâneo e, portanto, é incorporado e discutido na pele principal do projeto. Essa pele tem a característica de converter o contexto em informação visual, modificando-se.

pele efêmera “original”, num dia ameno de céu aberto.


Durante o dia, ela varia conforme a incidência solar. Portanto, dependendo da hora, do tempo e da estação do ano, por exemplo, ela se modifica. Durante a noite ela se modifica da mesma maneira, mas conforme a intensidade de ruídos da Marginal Tietê.

pele efêmera modificada_dia nublado e mais frio.

pele efêmera modificada_dia de muito sol e calor


Além de variar conforme esse contexto externo, a pele também tem a capacidade de projetar para a cidade aquilo que estiver ocorrendo dentro do Centro, como apresentações.

pele efêmera projetando apresentações de dança.


pele efêmera projetando apresentações musicais.


Cria-se, então, um contraste entre as peles de aço rígidas, enferrujadas, corroída, e essa pele efêmera que, muitas vezes, pode adquirir até características imateriais, levando a um certo nível de “desmaterialização” da tectônica do edifício.


ENQUADRAMENTOS. Percorrendo o Centro, pose-se encontrar diversos locais que possibilitam vistas para a cidade, não apenas locais específicos como no caso das varandas.

As varandas são locais contínuos aos estares internos do edifício, e permitem vistas amplas para ambos os lados da Marginal, enquadrando principalmente a Ponte do Limão e a Ponte da Casa Verde.


Mas outras situações permitem enquadramentos inusitados, como entre as rampas que, ainda, trazem outra característica que é poder ver a cidade ora através das peles, ora livre delas.


Ainda, através do átrio, o edifício não apenas enquadra a si próprio mas tamém enquadra o céu, permitindo que, mesmo onde se estiver mais “confinado”, o edifício ainda seja “aberto”.


bibliografia

VENTURI, R., BROWN, S., IZENOUR, S. Aprendendo com Las Vegas – o simbolismo esquecido da forma arquitetônica. Cosac & Naify, São Paulo, 2003.

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VENTURI, R. Complexidade e Contradição em Arquitetura. Martins Fontes, São Paulo, 2004.

http://www.prefeitura.sp.gov.br

KOOLHAAS, R. Conversa com estudantes, tradução de Mônica Trindade Schramm. Barcelona: Gustavo Gili, 2002.

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http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/uplo ad/hb_barra_funda_1285344976.pdf

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