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Teresina-PI, março de 2013

JORNAL do

Foto: Tertuliano Filho

Os perigos da institucionalização de uma criança Muitas das crianças que vivem hoje nos abrigos de Teresina foram abandonadas, negligenciadas, ou tiveram que sair de casa porque os pais tinham problemas com drogas. Elas carregam consigo uma vivência dura e necessitam de cuidados especiais para amadurecer de forma saudável. No entanto, embora os profissionais dos abrigos sejam capacitados, eles não conseguem substituir o carinho e a atenção individualizada que só uma família pode prover. Entenda na matéria de Lísia Alexandre. Pág. 03

“Adoções Necessárias” para uma nova cultura da adoção Foto: Arquivo do CRIA

O Projeto Adoções Necessárias tem o objetivo de refletir, ponderar e rediscutir as preferências de candidatos à adoção. Saiba mais na matéria de Fillipe Guedes. Pág. 08

Incentivo a Adoção: Projeto Famílias Acolhedoras Foto: Arquivo do CRIA

Conheça o projeto que organiza o acolhimento, na residência de famílias selecionadas e capacitadas, de crianças e adolescentes afastados da família de origem. Pág. 07


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EDITORIAL O processo de adoção no Brasil, apesar de seu histórico de evolução e melhorias, desde sua instituição até o ano corrente, continua a ser demorado, burocrático e pouco acessível. Várias são as razões pelas quais milhares de crianças no país ainda crescem em abrigos, esperando por uma adoção que muitas vezes não chega a acontecer. O Legislativo brasileiro ainda prioriza a família biológica, adiando enquanto possível o processo de destituição do poder pátrio – motivo pelo qual a maioria das crianças nos abrigos não está sequer disponível para adoção. Além disso, a grande maioria dos interessados em adotar somente adotaria uma criança da cor branca, de até dois anos de idade, do sexo feminino e sem irmãos. A falta de informação, a morosidade do processo e as restrições dos próprios interessados em adotar são fatores a ser, respectivamente, reduzidos, discutidos e modificados. Em Teresina, o Centro de Reintegração Familiar e Incentivo à Adoção (CRIA) é referência de trabalho nesse sentido. Além de lutar por uma nova cultura da adoção (em que o perfil de criança preferido nacionalmente deixe de ser mais um empecilho às adoções), essa ONG (organização não governamental) desenvolve projetos que viabilizam a saída de parte dessas crianças dos abrigos e seu acesso ao convívio familiar. O CRIA ainda orienta, acompanha e incentiva pessoas que desejam adotar. Através das atividades desenvolvidas pelo Centro, bem como os debates promovidos, problemas apontados e soluções propostas por essa instituição, a população teresinense, e do Piauí em geral, tem acesso à boa parte das informações e discussões sobre a realidade das crianças e adolescentes em situação de acolhimento no estado – uma vez que o CRIA funciona também como porta-voz e fornecedor de dados sobre o assunto à imprensa estadual. Por essas razões, nós, estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Piauí, decidimos produzir um jornal institucional para o CRIA. Mais que cumprir com exigências de uma das disciplinas do curso, desejamos dar nossa contribuição à ONG e a todos aqueles por ela assistidos, através de uma ferramenta dinâmica, acessível e eficiente de divulgação, informação e conscientização quanto aos problemas relacionados à adoção. O resultado é este exemplar em suas mãos. Boa leitura! Tertuliano Filho.

Expediente Universidade Federal do Piauí (UFPI) Centro de Ciências da Educação (CCE) Departamento de Comunicação Social (DCS) Curso de Comunicação Social - Hab. Jornalismo Disciplina: Laboratório Avançado de Jornal Reitor da UFPI: Prof. Dr. José Arimatéia Dantas Lopes Diretor do CCE: Prof. Dr. José Augusto de Carvalho Mendes Sobrinho Chefe do DCS: Profª. Drª. Jacqueline Lima Dourado

Coordenador do Curso: Prof. Dr. Paulo Fernando de Carvalho Lopes Professora da Disciplina Profª. Ma. Denise Maria Moura da Silva Lopes

Reportagens: Alison Ércules, Anna Thays Silva, Anne Béatrice, Dalila Pereira, Dérek Sthéfano, Fillipe Guedes, João Victor Rolim, Lísia Alexandre e Mariana Duarte

Fotos: Anna Thays Silva, Dalila Pereira, Mariana Duarte e Tertuliano Filho Diagramação: João Victor Rolim e Tertuliano Filho Edição, Revisão e Projeto Gráfico: Tertuliano Filho


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Os perigos da institucionalização de uma criança Por Lísia Alexandre O abrigo é o lugar onde a criança fica sob a tutela do estado, depois de ter sofrido algum tipo de violação do seu direito. É o lugar onde as suas necessidades mais básicas serão atendidas, como alimentação, educação e lazer. Muitas crianças foram abandonadas, negligenciadas, ou tiveram que sair de suas casas porque os pais tinham problemas com dependência química. Ainda que muito novas, elas carregam consigo uma vivência muito dura, e necessitam de cuidados especiais para poderem lidar com seus traumas e se desenvolverem. Embora os profissionais do abrigo sejam capacitados, eles não conseguem substituir o carinho que só uma família pode prover. São muitas crianças para poucos cuidadores, o que impossibilita uma atenção individualizada. A psicóloga do CRIA, Laís Carvalho acredita que a vida nos abrigos não é o suficiente para o crescimento pleno das crianças. “Para o desenvolvimento sadio dessa criança, ela não precisa só de alimentos ou de um teto para morar. Ela precisa de afeto, de carinho, de construções de vínculos realmente significativos e constantes para elas, e não um profis-

Foto: Tertuliano Filho

“Para o desenvolvimento sadio dessa criança, ela não precisa só de alimentos ou de um teto para morar. Ela precisa de afeto, de carinho, de construções de vínculos”, afirma a psicóloga Laís Carvalho.

sional que fica só um turno.”, afirma. A institucionalização de uma criança por um período prolongado, ou mesmo por pouco tempo, acarreta em uma série de comportamentos, como medo de se apegar a uma nova família e depois o medo de uma nova rejeição, reações impulsivas, dificuldade de aprendizagem e baixa auto-estima. As questões genéticas não são as úni-

Foto: Tertuliano Filho

A coletividade necessária para o funcionamento das instituições de acolhimento não é o ideal.

cas que ajudam na formação de uma criança. Ela também é fortemente influenciada pelo ambiente em que ela vive e as interações do dia-a-dia. O ambiente familiar é muito mais diverso, seja em casa, na escola, no bairro, enquanto que a convivência nas instituições é muito limitada às mesmas pessoas. Cada indivíduo deve ser visto como um sujeito único e ter sua individualidade preservada. A coletividade necessária para o funcionamento das instituições de acolhimento não é o ideal. Cada ser possui suas próprias necessidades, bem como deve possuir seus próprios bens materiais. A submissão a regras muito rígidas diminui o poder de negociação e merecimento que uma pessoa teria se convivesse em uma casa, tendo alguém que a ensine o que é certo e errado, a aprender com os erros e a elogiar ao tomar uma atitude correta. Uma instituição familiar é extremamente importante. Não precisa ser um pai e uma mãe, mas alguém que desempenhe o papel significativo na vida dela, dando carinho, atenção e suporte àquela criança que tanto precisa de amparo e cuidados.


04 A criação de uma jovem esperança Por João Victor Rolim

Dezenas de crianças e adolescentes de Teresina estão longe do convívio familiar. Dentre elas, 186 estão alojadas em seis abrigos pela cidade, sendo quatro deles públicos e dois privados. Esses jovens são denominados “acolhidos”, devido ao caráter de resgate que é conferido a essas casas. Esses são dados fornecidos pelo CRIA, o Centro de Reintegração Familiar e Incentivo à Adoção. Essa instituição sem fins lucrativos trabalha junto aos abrigos, para tentar garantir o máximo de convívio familiar aos acolhidos. Faz a mediação entre a vida no acolhimento e uma nova vida em família. Para isso, alguns projetos foram desenvolvidos, como o Família Acolhedora, no qual a criança ou adolescente é inserida em uma família previamente selecionada e capacitada. Sua equipe é constituída por psicólogos, assistentes sociais, pedagogos e outros profissionais liberais com interesse em ajudar. Atualmente é referência nesse tipo de trabalho social. Essa credibilidade foi construída durante seus três anos e meio de existência. Nesse período, o CRIA conseguiu fazer um levantamento consistente sobre o perfil dos acolhidos e desenvolver diversas outras atividades.

Foto: Arquivo do CRIA

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Fachada da sede do CRIA, localizada na rua São Pedro, Centro de Teresina.

comunicação da cidade. Aos poucos o CRIA passou a contar com serviços de pessoas de diversas formações e com doações em dinheiro. Com seis meses de fundação, foi implantado o projeto Família Acolhedora, o qual, de acordo com Francimélia Nogueira, foi baseado em um modelo já existente em outros países. Apesar das dificuldades iniciais de encontrar famílias voluntárias, o projeto cresceu e hoje é o maior do CRIA. Por ele já passaram 52 crianças e adolescentes.

Os número sobre crianças em abrigos no Brasil são controversos. De acordo com o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes, 27 mil vivem nessas instituições. No Levantamento Nacional das Crianças e Adolescentes em Serviços de Acolhimento, realizado pelo Ministério do Desenvolvimento Social em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, em 2010, existiam 36.929 naquele momento. Francimélia Nogueira, presidente do CRIA.

Foto: Mariana Duarte

INÍCIO Tudo começou em 2009, quando a agora presidente do CRIA, Francimélia Nogueira, juntou-se a amigos para fundar uma instituição a fim de conscientizar a sociedade sobre os benefícios de adotar. “A motivação foi uma adoção que eu fiz. E eu já havia trabalhado em abrigo antes”- diz Francimélia. Como esperado, o início foi difícil. Precisou-se do apoio do Governo do Estado na cessão da sede e do financiamento inicial de amigos e parentes. Além de uma parceria com uma empresa de

CONTEXTO ATUAL


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Foto: Arquivo do CRIA

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Voluntários do projeto Famílias Acolhedoras participam de atividades lúdicas realizadas pelo CRIA.

Porém, nem todas elas estão disponíveis para adoção, apenas cinco mil, é o que revela um estudo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em Teresina a realidade não é diferente. Em carta aberta do CRIA à sociedade, é dito que menos de 10% das crianças e adolescentes podem ser adotadas. A preferência por crianças brancas e com menos de dois anos dificulta mais ainda o processo. Os motivos para acolhimento são diversos. Ainda no estudo do CRIA, o maior motivo é o consumo de drogas dos pais das crianças (29,7% dos casos), seguido de abandono (24,4%), negligência (19%), maus tratos (10,8%), violência sexual e psicológica (8,1%), entrega espontânea (2,7%), problemas psicológicos (2,7%) e prisão (1,3%). Assim, um trabalho na questão se mostra mais necessário, pois muitas dessas crianças esperam anos em abrigos por uma liberação para a família de origem, de acolhimento ou mesmo adotiva. Como é o caso de E., que chegou no abrigo com um mês e meio de vida e permanece lá aos 8 anos de idade. Ou de F., há 15 anos acolhido e ainda à espera.

OS PROJETOS

Adoções Necessárias é o nome do projeto destinado à conscientização da sociedade a respeito da adoção. O foco O projeto Família Acolhedora visa é a sensibilização a respeito da grande proporcionar um ambiente familiar ao quantidade em abrigos de irmãos afrojovem, mesmo que temporariamente, descendentes, com mais de dois anos e pois o trabalho do CRIA está pautado no deficientes. Perfis menos procurados pepressuposto de que os jovens só podem las famílias. se desenvolver adequadamente com um METAS convívio familiar. Além do Família Acolhedora, ouO objetivo do CRIA é bastante claro tros programas pretendem minimizar os danos aos jovens. Casos de irmãos, por na fala de sua presidente: “Trabalhar na exemplos, são encaixados no projeto Ca- construção de uma nova cultura de adosas de Acolhimento, pelo qual crianças ção”. A instituição atua para acabar com são acompanhadas por um casal residen- aquilo que é seu ambiente de trabalho: te em uma casa com decisões e respon- os abrigos. Francimélia Nogueira afirma sabilidades compartilhadas entre todos. que se pretende enviar as crianças para São espaços para no máximo 12 crianças, pequenas casas de acolhimento e transa fim de que assim, elas possam ter seu feri-las diretamente às famílias acolhepróprio espaço e individualidade, aspec- doras: “Pode-se dizer que esse é o nosso sonho”. tos quase inexistentes nos abrigos. Quem se interessar em contribuir Outro projeto de destaque é o Apapara o trabalho do CRIA, basta ir à sede drinhamento Afetivo, no qual famílias se dedicam a dar afeto a seus afilhados nos para se inscrever. Os interessados podem abrigos. Cuidam das crianças nos fins ser voluntários em suas áreas de atuação de semana e muitas vezes dão presentes profissional, fazer doações ou se cadasa elas, na tentativa de suprir a frieza da trar em algum dos projetos da instituição. vida institucional.


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Adoção: Criando um processo humanizado... Por Dérek Sthéfano Com o intuito de humanizar e otimizar cada vez mais o processo de adoção, o CRIA desenvolve alguns projetos essenciais para facilitar a criação de um vínculo afetivo entre os envolvidos em cada ponto do caminho à consolidação de um novo lar para as crianças. Na sintonia das músicas infantis do Padre Zezinho: é assim que as crianças do CRIA ficam “Pintando o Sete” e o que mais desejarem, enquanto os pais participam das reuniões mensais do projeto “Família Acolhedora”. Com um ambiente livre para as crianças soltarem a imaginação nas pinturas e exercitarem sua criatividade, a atividade disponibiliza momentos de descontração e muita alegria, durante as tardes da última quinta-feira de cada mês, com ajuda de animadoras do CRIA que estimulam a interação. Já o “Dia de Piscina”, realiUFPI – ADUFPI, visa contrizado no último sábado do mês buir para a vivência coletiva e na Associação dos Docentes da social das crianças numa diversão comunitária. Além de proporcionar também um momento de interação entre os pais, mães e a equipe do CRIA, também se envolvendo em atividades lúdicas. O projeto da instituição visa aproximar não apenas as famílias diretamente envolvidas, mas, também, promover uma sensibilização de toda a sociedade para o acolhimento das crianças no ambiente familiar. Com alerta, inclusive, para as diversas barreiras ainda enfrentadas no processo de adoção. Neste aspecto, a capacitação das pessoas interessadas em colaborar é um elemento importantíssimo para Fotos: Arquivo do CRIA

prepará-los a entrar num ambiente tão delicado, que envolve emoção e vidas, e que é cercado por contradições sociais. Dessa forma, periodicamente, ocorre o “Encontro de Voluntários e Apadrinhamento Afetivo do CRIA”, ação que promove uma discussão mais ampla sobre a adoção e os papeis dos voluntários e padrinhos. Com diálogos e palestras na atividade se contextualiza, por exemplo, a situação dos abrigos e a realidade vivida pelas crianças. Fazer-se presente na vida de uma criança, ou adolescente, acompanhando-a em visitas aos abrigos e momentos de lazer, é a responsabilidade do “Padrinho Afetivo”. A proposta surge como alternativa para as pessoas que querem ajudar, mas não possuem disponibilidade para criar uma criança em sua residência.


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CRIA incentiva a adoção com o Projeto Famílias Acolhedoras

Por Anne Béatrice e Alison Ércules

“A melhor maneira de tornar as crianças boas é torná-las felizes”, é com esse pensamento que o CRIA, há três anos, mantém o Projeto Famílias Acolhedoras. Com o objetivo de oferecer a crianças e adolescentes um ambiente familiar e comunitário estável, o projeto consiste em organizar o acolhimento, na residência de famílias previamente selecionadas e capacitadas, de crianças e adolescentes afastados da família de origem por medidas protetivas. A presidente do Cria, Francimélia Nogueira, foi a responsável pela implantação desse Projeto, que já existe a nível nacional. “Antes de implantar, eu fiquei muito tempo estudando onde é que já existe, de que forma e em que condições existe, ou seja, ele foi só adaptado a nossa realidade”, afirmou a Presidente da Instituição. O Projeto tenta, também, desmitificar a imagem equivocada que as pessoas têm da vida nos abrigos. “As pessoas acham que o abrigo é ‘bom’ e que as crianças não querem sair de lá. A criança que cresce no abrigo, divide o quarto com várias outras crianças, sem individualização nenhuma. A roupa, os brinquedos e tudo mais é compartilhado, sem referência afetiva continuada. Um dos papeis do CRIA é isso, mostrar como é essa vida. Porque mesmo que a criança vá para uma família mais humilde, mas por ela estar em família, se sentir pertencente e querida, ela vai preferir aquela família ao abrigo.”, explicou Tarciana Bastos, assistente social do CRIA. A institucionalização prolongada não oferece um ambiente favorável ao desenvolvimento sadio da criança, por causa da submissão a rotinas rígidas, do con-

vívio restrito, da falta de atenção individualizada e da falta de trocas afetivas e emocionalmente significativas. “Ás vezes, a criança se apega com algum funcionário do abrigo, mas aquela pessoa é um profissional, ela está ali para trabalhar. A pessoa tem seus dias de folga e, vamos supor que a criança tenha um pesadelo nesse dia de folga, quem vai ajudar ela? O convívio familiar é muito importante, nesse sentido”, explicou Laís Carvalho, Foto: Arquivo do CRIA

Reuniões com as famílias ocorrem mensalmente

psicóloga que acompanha as crianças e as famílias cadastradas no projeto. Além de auxílio financeiro (para as famílias de baixa renda que acolhem crianças com mais de 3 anos), o Cria também proporciona para as famílias acolhedoras atendimento psicológico semanal, visitas mensais realizadas por assistentes sociais, atividades voltadas para as crianças, como o Pintando o 7 (momento de lazer e socialização entre as crianças realizado mensalmente), e o Encontro de Formação com as Famílias Acolhedoras. Este encontro ocorre uma vez ao mês e tem como objetivo orientar as famílias quanto ao convívio com as crianças e adolescentes acolhidos, de modo a garantir o desenvolvimento integral da criança. O encontro é realizado pela

equipe psicossocial do Cria e consiste na realização de palestras e debates com as famílias. “O papel do psicólogo nesse projeto é ajudar no desenvolvimento da criança, no desenvolvimento da família com a criança de modo a proporcionar uma melhor qualidade de vida para eles”, afirma Laís Carvalho que destaca também: “O psicólogo trabalha em conjunto com a família. Sozinho ele não pode fazer nada”. “Eu não consigo e nem quero mais imaginar minha vida sem ela”, respondeu Antônio Rodrigues, pai acolhedor, quando questionado sobre a convivência com a sua “filha”. Há oito meses ele e sua mulher, Graça Sousa, se inscreveram no Projeto e já estão acolhendo uma criança. “Já criei filhos e netos, mas sempre quis adotar. A convivência com ela é maravilhosa, ela é muito apegada à gente, muito estudiosa, esperta e carinhosa. Eu estou adorando a experiência”, afirmou a mãe acolhedora. A criança acolhida por eles tem três irmãos, dois dos quais estão sendo criados por uma tia-avó da família de origem, enquanto a situação dos menores não é regularizada, e outra que também está em família acolhedora. Atualmente, o Projeto, tem 27 crianças e dois adolescentes divididos em 25 famílias acolhedoras. Porém, a fila de espera ainda é grande: há crianças à espera de famílias e vice-versa. Esse quadro não muda, pois, ao se inscrever no Projeto, a família escolhe o perfil da criança que ela deseja acolher. “As pessoas chegam aqui e pedem: eu quero menina, com cinco anos e que não tenha nenhum problema de saúde. Assim, algumas famílias estão esperando por crianças com esse perfil, mesmo que nos seis abrigos da capital, tenham 186 crianças.”, afirmou Francimélia Nogueira.


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Projeto Adoções Necessárias: por uma nova cultura da adoção Por Fillipe Guedes O projeto Adoções Necessárias procura fazer ações que passem à sociedade o sentimento de reflexão sobre o assunto. "A primeira exposição fotográfica do CRIA, que foi feita em 2010, intitulada Mães por Adoção, mostrava diversos tipos de adoção, dentre elas a adoção de três especiais feitas por uma mesma mãe, adoções inter-raciais, além de grupos de irmãos e crianças maiores", exemplifica a presidente do CRIA. Quanto ao caso de A., ele ainda não foi adotado, mas Conceição afirma que está tudo sendo encaminhado. Ela e o marido, Francisco Sousa, aguardam ansiosamente o filho, que garante receber muito amor e carinho da família. "Ela (Conceição) me bota na cama na hora de dormir, faz carinho em mim e eu fico muito feliz", diz A.. "Fico feliz por fazer parte da vida dele", finaliza Conceição, que assume o bem enorme que a adoção traz a ela e ao filho.

Com o objetivo de discutir o perfil de adoção de crianças, o CRIA desenvolveu um projeto que visa reavaliar esse estereótipo. Completam três anos que Maria da Conceição Silva acolheu A., de nove anos, em sua casa. Uma visita inesperada da cunhada que trabalhava em um abrigo, Lar João Maria de Deus, no Bairro Vila Operária, zona norte capital, trouxe uma criança que, dali em diante, mudaria a vida de Conceição. Ela, que já era mãe, fala que o menino foi um presente de Deus. "No meu caso eu só tinha filhas mulheres e não pude ter um homem, Deus bateu em minha porta e pude dar e receber carinho e felicidade com a chegada do A.", relata Conceição. A adoção de crianças do sexo masculino e com uma idade avançada, como nesse caso, ainda não são muito comuns, pois existe um tabu quanto a adoção de crianças e adolescentes, já que há um perfil pré-definido para a criança geralmente adotada, sendo ela do sexo feminino, branca e de até dois anos de idade. O estereótipo da criança para a adoção retira a chance de muitas crianças possuírem um lar e uma família, por isso o CRIA lançou uma campanha de adoção em meio a tantos projetos que visa

buscar e dar ao máximo o convívio familiar à crianças que se encontram em abrigos. A presidente do CRIA, Francimélia Nogueira, fala sobre a desinstitucionalização, ou seja, a retirada de criança dos abrigos, "dentro do foco da desisntitucionalização nós temos vários projetos, sendo o carro chefe a Família Acolhedora com o acolhimento de crianças que não estão disponíveis para adoção para a casa de famílias dispostas a cuidar delas, mesmo temporariamente”. Mas existem outros projetos que visam discutir a adoção e permanência de crianças no seio familiar. "Outro projeto que tem o foco diferenciado é o Adoções Necessárias, que tem a idéia e o objetivo de refletir, ponderar e rediscutir as preferências de candidatos à adoção e assim passarem a cogitar a adotar grupos de irmãos, adoções inter-raciais, de especiais e de crianças maiores", ressalta Francimélia.

A maioria dos interessados em adotar busca por bebês. No entanto, este é o perfil menos encontrado nos abrigos e geralmente não disponíivel para adoção.

Foto: Tertuliano Filho

Foto: Tertuliano Filho

É menor a procura por crianças do sexo masculino, negras, com mais de dois anos e grupos de irmãos. Realidade que o Adoções Necessárias visa mudar.


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Nova Lei da Adoção: uma tentativa de acelerar processos e diminuir sofrimentos Por Mariana Duarte Adotar não é olhar, sentir pena e “tentar ajudar”. Essa palavra envolve muito mais. É um significado que poucas pessoas conhecem de verdade. O processo complicado da adoção muitas vezes machuca, outras vezes salva vidas. As famílias ou pessoas que se predispõem a formar uma família com o filho de outra pessoa estão praticando o amor incondicional. No Brasil a adoção é um processo burocrático cheio de detalhes que se faz ainda mais complicado para se finalizar os casos. O resultado de tanta burocracia é uma quantidade absurda de crianças colocadas em abrigos e praticamente sem visualização de futuro. Na tentativa de mudar tal realidade é que no ano de 2009, foi sancionada no dia 03 de agosto a Nova Lei Nacional de Adoção. A lei que nasceu de um projeto da senadora Patrícia Saboya (PDT-CE) prevê, com maior destaque, a redução do tempo em que a criança ou adolescente permanece no abrigo, fazendo com que mais crianças tenham a oportunidade Foto: Tertuliano Filho

Foto: Tertuliano Filho

Segundo pesquisa de serem inseridas em realizada pelo CRIA um novo lar com mais em julho de 2010, o rapidez. tempo de permaEntre várias munência das crianças danças o que se destaca e adolescentes nos abrigos de Teresina nova lei é a criação na era superior a 4 de cadastros nacionais anos. e estaduais de crianças e adolescentes aptos à adoção, fazendo com que exista uma rede de informações mais precisas de pessoas com reais interesses e aptas a adotar; a criação de um cadastro de pessoas que residem em outros países com interesse em adotar; avaliação da situação das crianças que estejam em instituições públicas ou em famílias acolhedoras a cada seis meses, com o intuito de verificar o andamento da convivência entre ambas as partes, para evitar desgaste emocional da indefinido, pois a legislação é no sentido criança e a fixação de um prazo de dois de proteger as crianças e não os pais das anos para a destituição judicial do poder crianças e no máximo em dois anos, na familiar em casos de violência ou aban- forma jurídica, o caso daquela criança dono, fazendo assim com que o processo tem de estar resolvido para ou ficar com a família de origem ou ser encaminhada de uma possível adoção se acelere. Segundo a presidente do CRIA, Fran- à adoção”. Outra novidade da lei é que foi reducimélia Nogueira, fundamentalmente a redução do tempo do processo jurídico zida a idade mínima para adoção, que era é o grande impacto da lei “Fizemos uma de 21 anos de idade. Com a nova legislapesquisa em julho de 2010 e percebemos ção a idade mínima passou a ser 18 anos, que o tempo de permanência das crian- desde que a diferença de idade entre os ças nos abrigos era superior a quatro pais e o adotado seja de no mínimo 16, anos. Fizemos uma nova pesquisa em para que a diferença de modelo “natural” 2012 e percebemos que o tempo redu- da hierarquia familiar seja mantida. A legislação foi reformulada para que ziu, mas não adianessas crianças, que já passam por um ta apenas mudar a lei e não dar condi- processo tão traumático (como a sepações para que o resto ração da família biológica, maus tratos do processo ocorra ou abandono), tenham perspectivas de como previsto. Ago- futuro. Tenham seu sofrimento diminura os abrigos têm de ído, obtenham oportunidades concreCom a Nova Lei da dar respostas rápi- tas de não passar grande parte da vida Adoção, o tempo das, dar determina- esperando num abrigo para que tentem que crianças e adodos prazos. A criança construir uma vida real, estudando, tralescentes permanecem nos abrigos não pode mais ficar balhando e no futuro, construindo suas deverá ser reduzido. no abrigo por tempo próprias famílias.


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CRIA: onde pais encontram seus filhos Por Anna Thays Silva Quando você olha para uma criança em um abrigo, muitas coisas vêm à mente. Os motivos para uma criança ou um adolescente viver em um abrigo são muitos e nos perguntamos muitas vezes quais as histórias por trás daqueles rostinhos. O que aconteceu para que elas estejam em um lugar como aquele? Não é preciso muito para se sensibilizar com a situação. E foi essa sensibilidade que levou Francimélia Nogueira, assistente social, a realizar sua primeira adoção. Para ela, adotar não foi uma coisa planejada, aconteceu quando no período das festas de final de ano ela se candidatou a levar uma daquelas inúmeras crianças para festejar em sua casa. Quando você toma uma atitude dessas de coração aberto é muito provável que aconteça o que aconteceu com a família de Francimélia. A linda menininha que ela levou para sua casa conquistou toda a sua família, daí em diante não era apenas questão de ficar com ela em feriados ou finais de semana, era preciso mais. O desejo de tê-la sempre com eles só aumentava, até chegar ao ponto de a adoção Foto: Tertuliano Filho

Foto: Anna Thays Silva

Alegrias de famílias e crianças assistidas pelo CRIA estampam o mural do instituição.

ser a única saída aceitável. Muitas pessoas pensam que o desejo de adotar uma criança é algo que nasce com você. Mas este desejo pode ser despertado quando menos se espera. Embora a grande maioria deseje um bebê,

há pessoas que optam por uma criança maior. A maioria das pessoas desconhece o fato de que mesmo querendo um bebezinho, com a convivência você pode sim passar a desejar uma criança maior, uma que te conquistou de um modo único, justamente por ser maior e interagir com você. Você pode nunca ter pensado em ter uma criança em casa, mas ao frequentar um abrigo, um orfanato ou um lugar onde as crianças precisam de você, é muito possível olhar pra um rostinho

A maioria das pessoas desconhece o fato de que mesmo querendo um bebezinho, com a convivência podem passar a desejar uma criança maior.


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e filhos encontram seus pais

Ao frequentar um abrigo, um orfanato ou um lugar onde as crianças precisam de você, é possível olhar pra um rostinho e sentir que se pode ajudar aquele pequeno a ter uma vida melhor.

e sentir que pode ajudar aquele pequeno a ter uma vida melhor. É muito importante que as pessoas saibam que quando você decide adotar não são apenas os seus sonhos em jogo. São acima de tudo os sonhos daquela criança, a quem a vida já negou tantas coisas. Quando se entra em uma fila de espera para adotar, na grande maioria das vezes, os candidatos estão pensando no quanto desejam ter um filho, mas nem sempre estão atentos ao desejo que aquelas crianças têm de ter uma família. E que providencias tomar quando esse desejo nasce? Como fazer quando o que mais desejo é aquela criança comigo? É nessa fase que o CRIA entra em cena. Indo ao CRIA você terá todo o auxilio necessário para dar início ao processo de adoção, bem como a possibilidade de ser voluntário nos vários programas desenvolvidos pela instituição. Todos sabem que adotar é um processo burocrático e demorado, entretanto, o CRIA procura durante este tempo incentivar as pessoas a visitarem abrigos, a conviverem com

as crianças, e até mesmo a participar do projeto Família Acolhedora, onde eles podem cuidar da criança em seu ambiente familiar enquanto sua proposta de adoção é aceita ou, se você não desejar adotar, que outra família consiga a guarda da criança. Mesmo sendo uma organização não governamental (ONG) tão nova quanto algumas das crianças com as quais trabalha, o CRIA já ajudou várias famílias que desejavam adotar e várias crianças que por motivos diversos encontram-se vivendo nos abrigos de Teresina. Em julho de 2009, nascia uma instituição que visava proÉ importante saber porcionar uma que, ao decidir adotar, é preciso levar vida melhor em consideração não aos meninos e os próprios sonhos, meninas que se mas os da criança, a encontravam quem a vida já negou nessa situação, tanto. procurando fa-

cilitar o encontro entre estas crianças e suas futuras famílias. A ONG é responsável por vários projetos de incentivo a adoção dentre eles o Adoção Necessária, que tem a função de sensibilizar as famílias dispostas a adotar para que escolham uma criança com necessidades especiais, grupos de irmãos, crianças negras e pardas e maiores de dois anos, diminuindo assim a dor dessas crianças que na maioria das vezes permanecem por muito mais tempo sob a guarda do Estado. O trabalho desenvolvido pelo CRIA não é apenas o de auxiliar na parte burocrática do processo de adoção, é acima de tudo dar suporte psicológico às crianças e as suas futuras famílias. O CRIA é hoje não apenas uma ONG que procura ajudar crianças a encontrar um lar, é também um lugar onde famílias encontram suporte para realizar seu sonho. Desde sua criação o CRIA vem possibilitando que adultos e crianças alcancem o maior objetivo: a alegria de ser uma família completa. Foto: Tertuliano Filho

Foto: Tertuliano Filho


12 Uma pequena ação, um grande gesto Teresina-PI, março de 2013

Por Dalila Pereira Assim como qualquer instituição o CRIA também precisa de fundos para funcionar. Por ser de cunho não governamental, a equipe do CRIA tem que criar suas próprias formas de gerir as contas e gastos do local. Uma das formas encontradas e que tem dado certo, é o Bazar Permanente do CRIA, que funciona de segunda a quinta, das 8:00 da manhã, as 17:00 da tarde. Nas sextas ele é aberto apenas até o meio dia. A ideia foi da própria presidente, e desde agosto de 2010 tem rendido bons frutos. Lá você encontra peças baratas e que são fornecidas por meio de doações. No ano de 2012, a renda do bazar, que é totalmente revertida para as finanças do Cria, chegou a representar 25% dos re-

Há sempre uma grande oferta de jeans em bom estado no bazar.

cursos financeiros da instituição. Boa parte da movimentação na lojinha se dá pela manhã, principalmente ao meio dia. Muitas vezes o que faz as pessoas entrarem é um cavalete que fica do lado do fora. De acordo com a Tia Célia, responsável pelo cuidado do local, já que a lojinha é localizada próxima ao polo de

Fotos: Dalila Pereira

saúde, a grande maioria das pessoas que vão lá são clientes das clínicas médicas que ficam no entorno. Quem busca mais o bazar, são as mulheres, mas os homens também procuram muito, pois sempre há uma grande oferta de jeans em bom estado. Tia Célia, diz que é gratificante cuidar do local, por saber que está ajudando a instituição: “É gratificante, a gente vê cada criança que tira do abrigo, isso dá muita satisfação”. Muitos moradores de rua vão ao bazar, por conta dos preços baixos. Laís Carvalho, psicóloga do Cria, acredita que: “Eles vem bastante, por viverem na rua, usam as mesmas roupas por um tempo, mas logo se desgastam. Então eles vem aqui, compram algumas, por serem baratas, e tempos depois retornam”. O Cria tem outras formas de arrecadar dinheiro. Segundo a presidente Francimélia Nogueira existem os “colaboradores financeiros”, que contribuem com a quantia que puderem. Quem quiser contribuir com a instituição basta apenas entrar em contato com os funcionários, que fornecerão a conta onde o dinheiro pode ser depositado, ou irão à sua casa buscar. Alguns colaboradores são eventuais, e existem aqueles que já são fiéis e ajudam todos os meses. Francimélia acrescenta que para ajudar basta querer, pois além de fazer o bem, a quantia do-

Para ajudar não precisa muito, apenas um pouquinho de tempo e algumas peças em bom estado que não são mais usadas.

ada pode ser abatida do imposto fiscal. Para ajudar não precisa muito, apenas um pouquinho de tempo e algumas peças em bom estado que não são mais usadas. Além de também poder ser um “colaborar financeiro”. Quem ganha à satisfação de ajudar essa entidade que faz um lindo trabalho é você. E abre mais um sorriso no rosto de uma criança.

Jornal do Cria - Março de 2013  

Jornal Institucional do Centro de Reintegração Familiar e Incentivo à Adoção (CRIA), produzido por estudantes de jornalismo da UFPI, por exi...

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