Revista Portuguesa de Grupanálise 2010 (amostra)

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REVISTA PORTUGUESA DE GRUPANร LISE 2010 SPG Sociedade Portuguesa de Grupanรกlise



REVISTA PORTUGUESA DE GRUPANÁLISE 2010 SPG Sociedade Portuguesa de Grupanálise

Estrutura Editorial DIRECTOR

Sara Ferro

COMISSÃO EDITORIAL

António Surrador, Francisco Salgado, Lara Caeiro, Mário David, Teresa Bastos Rodrigues, Vasco Inglez

CONSELHO EDITORIAL

Ângela Ribeiro, Domingos Silva, Francisco Salgado, Isaura Manso Neto, Sara Ferro

CORRESPONDENTES NACIONAIS E INTERNACIONAIS DO CONSELHO EDITORIAL

Aucíndio Valente (Portugal) Beatriz Fernandes (Brasil) David Zimerman (Brasil) Ivan Urlich (Croacia) Kristian Valbak (Dinamarca) Maria L. Keating (Portugal) Paula Carvalho (Portugal) Waldemar Fernandes (Brasil) Werner Knaus (Alemanha)

COMISSÃO DE REVISORES

Álvaro Carvalho (Portugal) Ângela Ribeiro (Portugal) Aucíndio Valente (Portugal) Beatriz Fernandes (Brasil) César Vieira Dinis (Portugal) Carlos Góis (Portugal) Graça Galamba (Portugal) Guilherme Ferreira (Portugal) Harold Behr (Inglaterra) Isaura Manso Neto (Portugal)

João Azevedo e Silva (Portugal) João Carlos Melo (Portugal) José Abreu Afonso (Portugal) Luc Michel (Suiça) Luís Barbosa (Portugal) Maria Alice Gameiro (Portugal) Manuela Porto (Portugal) Paula Carvalho (Portugal) Robi Friedman (Israel) Waldemar Fernandes (Brasil)


DEPÓSITO LEGAL

235312/05 EDITOR

Sociedade Portuguesa de Grupanálise www.grupanalise.pt R. Carlos José Barreiros, 25 R/c Dto., 1000-087 Lisboa e-mail: spgrupanalise@netc.pt Lisboa, 2010 DESIGN

Layout e paginação: Inês Costa Montagem da capa: Vasco Inglez; Fotografia da capa: Sara Santos | http://fotografia.sarasantos.com Imagem de pormenor na capa: pormenor do rosto do frade em "Paineis de São Vicente - Painel dos Frades", do pintor Português Nuno Gonçalves, Séc. XV, MNAA, fotografia de José Pessoa, Instituto dos Museus e da Conservação, I.P. ISSN

1654-0078


REVISTA PORTUGUESA DE GRUPANÁLISE | 2010

SPG

Índice Editorial

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A Identidade do Grupanalista (e/ou Psicanalista) em Tempos de Mudança

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JOÃO AZEVEDO E SILVA

A Identidade Grupanalítica em Questão

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SARA FERRO

Novas Contribuições Sobre a Comunicação Emocional e a Interacção Interpessoal nos Grupos

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MÁRIO DAVID

Fatores de Crescimento no Grupo

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BEATRIZ SILVÉRIO FERNANDES

Narcisismo: Efeitos e Perspectivas Vinculares - Conviver é Preciso?

39

WALDEMAR JOSÉ FERNANDES

Sobre a Presença e a Angústia do Terapeuta na Sessão

47

CARLA LAM

Nós e os Outros - o Fundamentalismo como Sintoma de uma Interação Grupal Primitiva

59

SEBASTIÃO MOLINA SANCHES

Neuro-Concepções Integrativas Sobre o Desenvolvimento da Emocionalidade

71

MÁRIO DAVID

O Mal, a Maldade, Violência e Terrorismo

87

ISAURA MANSO NETO, FRANCISCO VIEIRA DINIS

Transferência na Relação Terapêutica - A Trabalhar a Favor ou Contra?

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JOÃO G. PEREIRA

Leituras

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Normas de Publicação

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EDITORIAL

SPG

Editorial Com um percurso já longo, a Revista da Sociedade Portuguesa de Grupanálise tem sido, desde sempre, um órgão fundamental de divulgação da actividade científica promovida pela Sociedade Portuguesa de Grupanálise (SPG). Objecto de algumas descontinuidades no tempo tem sabido adaptar-se a uma sociedade cada vez mais exigente, em matéria de necessidades de informação. Numa era caracterizada pelo incremento da digitalização, esta nova série da Revista Portuguesa de Grupanálise, apresenta uma estrutura muito semelhante à Revista Online. Com uma periodicidade anual, faz, em língua portuguesa, uma compilação de artigos, já editados online, a que acrescenta dois espaços: um reservado à apresentação de recensões de livros e um outro, reservado a trabalhos biográficos, de membros didactas da SPG, em suporte DVD. Os artigos acompanham-se de um resumo em língua inglesa, podendo ser consultados nessa mesma língua, na Revista Online. Trata-se, portanto, de duas revistas que se articulam entre si, uma em formato de papel e outra em formato digital, com o mesmo propósito de disseminação da actividade científica da SPG. O presente número, desta nova série da Revista Portuguesa de Grupanálise, integra um conjunto de artigos, correspondentes a comunicações efectuadas no X Congresso Nacional da Sociedade Portuguesa de Grupanálise e X Encontro Luso-Brasileiro de Grupanálise e Psicoterapia Psicanalítica de Grupo, que se realizou de 19 a 21 de Novembro de 2009 em Lisboa e cujo tema central foi: “Identidade Grupanalítica em Tempos de Mudança”. De forma um pouco aleatória, são apresentados os artigos do Dr. João Azevedo e Silva, da Dra. Sara Ferro, do Dr. Mário David e dos colegas brasileiros, da Dra. Beatriz Silvério Fernandes, do Dr. Waldemar José Fernandes e da Dra. Carla Lam, que enfatizam diferentes aspectos ligados às características das sociedades actuais e suas implicações ao nível da técnica e procedimentos terapêuticos. Seguem-se um conjunto de artigos avulsos, dos quais o primeiro é da autoria do Dr. Sebastião Molina Sanches, com o tema: “Nós e os Outros – o Fundamentalismo como Sintoma de uma Integração Grupal Primitiva”, onde faz uma reflexão sobre a necessidade de intervenção da psicoterapia analítica de grupo/Grupanálise na diminuição da violência decorrente de grupos ou ideologias tidas como fundamentalistas; o segundo do Dr. Mário David, com o tema: ”Neuro-Concepções Integrativas sobre o Desenvolvimento da Emocionalidade” onde, de entre outros aspectos, a questão da emocionalidade cerebral é contextualizada em termos neuro-bio-psicológicos; o terceiro, da Dra. Isaura Neto e do Dr. Francisco Dinis sobre: “O Mal, a Maldade, Violência e Terrorismo”, denuncia a escassa conceptualização destes temas, apontando a importância da Psicanálise e da Grupanálise 5


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no seu diagnóstico, tratamento e prevenção; e o quarto é da autoria do Dr. João G. Pereira com o título: “Transferência na Relação Terapêutica – A Trabalhar a Favor ou Contra?”, onde após uma contextualização do conceito de transferência, se questiona a sua utilidade como instrumento terapêutico. São apresentadas duas propostas de leitura, a cargo das Dras. Ana Luísa Teixeira e Margarida França e uma entrevista sobre o trabalho desenvolvido pelo membro titular didacta, mais antigo da SPG, Dr. João Azevedo e Silva, em formato DVD, assegurado pelas Dras. Teresa Bastos Rodrigues e Lara Caeiro e pelo Dr. Vasco Inglez. Iniciamos assim uma nova série da Revista Portuguesa de Grupanálise, e com ela um novo desafio, na constante procura de ampliar e consolidar as actividades editoriais da SPG. A Comissão Editorial

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A IDENTIDADE DO GRUPANALISTA (E/ OU PSICANALISTA) EM TEMPOS DE MUDANÇA

SPG

A Identidade do Grupanalista (e/ou Psicanalista) em Tempos de Mudança JOÃO AZEVEDO E SILVA

Médico Psiquiatra. Membro Didacta da Sociedade Portuguesa de Grupanálise.

Minhas Senhoras, Meus Senhores, Estimados Congressistas Brasileiros e Portugueses: O tema “Tempos de Mudança” e suas repercussões sobre as Psicoterapias Psicanalíticas, Grupanálise e Psicanálise e nos seus cultores é um tema escaldante que me interessa desde há longos anos. Recordo, por exemplo, o meu escrito de 1985 “Psicoterapia de Grupo e Grupanálise - Um Discurso de Método (Palestra na SPG, Auto-Clube Médico, 31/05/85 Lisboa) e também a minha intervenção no nosso V Congresso Luso-Brasileiro sobre Sociedades Espectáculo e Grupanálise e o reflexo destas sobre a nossa maneira de trabalhar (V Congresso Luso-Brasileiro de Grupanálise e Psicoterapia Psicanalítica de Grupo - Rio de Janeiro ; 12/13/14 Nov.99). E como tema escaldante que é daria margem tanto para longas e densas intervenções como ricas controvérsias, etc..! Provavelmente será o que irá acontecer neste Congresso - embora a leitura do programa me dê a impressão de que o assunto periga por ficar um pouco marginalizado. Mas havendo vários prelectores, por força das imposições programáticas e gosto de não aborrecer vou tentar ser tão breve e lúdico “quanto me seja possível”, socorrendo-me, para o conseguir, de uma espécie de processo de “rêverie” a que tenho recorrido muitas vezes e que alguns de Vós, provavelmente, já conhecem de outras participações minhas em Congressos e Encontros: é ele o de deixar quando me proponho abordar um tema que me sugestiona deixar, dizia que aquilo que me apetece chamar de “meu inconsciente preconsciente lúdico” venha à superfície e se manifeste, trazendo-me à Mente conteúdos que não raras vezes causam uma certa surpresa ao meu próprio consciente. Por exemplo: foi o que aconteceu, quando ao tentar elaborar certos escritos me socorri do “ Meu Pé de Laranja Lima” de J. Mauro de Vasconcelos; ou da canção “O Cais” de Elis Regina e Milton Nascimento; ou de um bailado e cantares do Grupo River Dance; ou da Personagem do General Kutuzov da “Guerra e Paz” de Leon Tolstoi... etc... etc. Desta vez igualmente apelei para essa forma - chamaremos lhe de inspiração, mas o impulso de “rêverie” vindo do inconsciente foi-me bastante surpreendente e mesmo inquietante: “As Fábulas de La Fontaine”, especialmente uma delas, a do Leão que vai à caça com um burro. Segunda surpresa (para mim): Numa terceira edição das obras completas de Bocage (1851), descobri que esse grande Poeta Português (15/09/1765 - 21/12/1805; 40 anos) traduzira várias fábulas de La Fontaine (1668-1694). Conferência apresentada no X Congresso Nacional da SPG e X Encontro Luso-Brasileiro de Grupanálise e Psicoterapia Psicanalítica de Grupo, Lisboa, 19-21 de Novembro de 2009, Lisboa.

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Terceira surpresa acompanhada duma certa inquietação foi: porque razão o inconsciente me trazia à Mente uma das fábulas saída da pena de La Fontaine, por Bocage: A do Leão que vai à caça com o burro. Esta fábula da dupla La Fontaine-Bocage, e “arranjada” por mim, põe em causa o que são mudanças válidas frente a pseudo-mudanças alienatórias. Na realidade ela reza assim, sumariamente: O leão resolve ir a caça e convidou o burro porque este, com o seu zurrar altissonante, aterrorizaria os animais que, fugindo apavorados iriam cair nas garras do Rei da Selva em Espera. Ora os proveitos da caça teriam sido grandes levando o Burro a vangloriar-se, pensando que os seus zurros eram a substância fundamental dos sucessos conseguidos e não apenas um episódio que equivocara os fugitivos brutos e alienados. É esta a essência dos conceitos alternativos que podem ser atribuídos ao epíteto “Tempos de Mudança”. De facto a frase “Tempos de Mudança” tem sinteticamente, no mínimo, duas leituras possíveis: Uma revolucionária, adoptando para o termo a formulação do nosso estimado D. Zimerman (1999), a saber: “re-evolucionário” , é aquilo que estimula e activa o evoluir positivo dum processo que esteja algo estagnado. A outra leitura abarcaria propostas de aparente mudança de Forma e Conteúdo mas que na realidade são proposições coloridas, de manutenção do status quo sócio-cultural se bem que com novas mascaras; alguma coisa como o zurrar do Burro que julga que o seu zurro é a essência primeira de sucesso-matança (ou pseudo mudança). Para melhor me explicar vou dar alguns exemplos simples: Verbi-gracia - Barak Obama, Presidente actual dos E.U.A e sobre o qual caem os olhares esperançados duma grande parte do mundo. Bom! Pergunto: vai ele conseguir introduzir no seu pais-e-noutros-alterações de fundo ou terá de se ficar apenas por uma mudança de cor, sem tocar verdadeiramente na estrutura socio-económica ali imperante o sacrossanto liberalismo de mercado; ou seja: conseguirá ele uma mudança re-evolucionária ou apenas colorida? O que me recorda as reflexões de Jean Paule Sartre em “A engrenagem”; ou de Eduardo Galeano no livro “ De pernas para o ar a escola do mundo às avessas”; como não deixo de ter curiosidade sobre o que dirá Luís Racionero em “O Progresso Decadente”; e já agora lembro o clássico “Admirável Mundo Novo” de H.J.Wells. Mas adiante... Outro exemplo - O Mito da Virgindade sobretudo feminina nas formulações culturais predominantes nas civilizações ditas ocidentais (e Portugal em particular); isto para não ir mais longe até ao “Oriente” dos muçulmanos ortodoxos e talibãs, entre outros. Parece hoje haver realmente um abalar revolucionário do mito da virgindade a nível sócio-cultural; mas ao nível da rapariga concreta que o vive, bem como dos seus familiares próximos, o que é que se passa? E com que pertinência este abalar revolucionário será? - Se nos impõe: ainda recentemente uma jovem cliente minha que me punha a problemá8


A IDENTIDADE DO GRUPANALISTA (E/ OU PSICANALISTA) EM TEMPOS DE MUDANÇA

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tica de passem a expressão - transitar de cama para cama sendo logo abandonada; de tal modo o fazia que me levou a perguntar-lhe: mas estas passagens e abandonos não terão a ver com a Alice ser “um pouco pastelona” na cama? Ao que ela me respondeu: O Dr. está a ser um pouco antiquado, não lhe parece?! Pensei, Será? O que me exigiu reflexão assumida quanto ao meu contra-transfer e preconceito. Mas não me impedi de lhe comentar e isso é que era o importante ali: Se estou a ser antiquado ou não, não é o principal pensei; o importante é a Alice saber se está a ser reactiva em relação àquilo que acha antiquado... ou se, amadurecendo está lidando com a sua sexualidade de modo realmente livre e sem sofrimento e culpabilidade? Perguntas que a mim mesmo me ponho também. E o que dizer sobre o Mito e Mistificação da problemática homossexual e casamento gay? Mas, adiante... E ainda - Todos os dias ouvimos frases como esta: “ Os desafios que a entrada na Europa nos põe...” O próprio Obama usou a palavra chalenge que é muito semelhante a desafio para referir as suas inquietações propostas à data da eleição como Presidente dos E.U.A. Pois “desafio” significa segundo o clássico dicionário de Cândido Figueiredo Provocação; e Chalenge - segundo o Dicionário de Carolina Michaelis - Desafio, disputa de concorrentes... Ora as relações entre os Europeus e as de Obama com o Mundo não deveriam pôr “desafios” mas sim levantar problemas reais muito difíceis de resolver com acerto. Parece sem importância mas não é: passar da palavra “Problemáticas” para “Desafios” é mudar caprichosamente e sem ingenuidade os “Conceitos” normativos da acção. É deixar de enaltecer a necessidade e vantagem da reflexão sobre o inter-câmbio socio-cultural dos Povos para sublinhar “o desafio, a competitividade, a querela entre as nações as quais se afirma desejar pôr em convívio fraterno. É pois alienar intencionalmente. Alguém disse um dia: dividir para governar. Pois bem!! Neste tempo, nós - e não apenas Nós - Grupanalistas, Psicanalistas, Psicoterapeutas de Inspiração Psicanalítica, encontramo-nos debaixo dum fogo cerrado destes ditos Tempos de Mudança... Como Freud o esteve, como M. Klein, como Bion (que chegou a ser rotulado de “esquizofrénico”) ....como Eduardo Luís Cortesão, acusado de cultivar com os seus grupos, “o chá pornográfico das cinco”; como tantos outros... Portanto a problemática actual - mas talvez de todos os tempos - que se nos põe será: Quando é que estamos face a propostas de mudança re-evolucionárias como as define Zimerman (1999) e então temos e devem adaptarmo-nos e colaborar activamente na prossecução do Processo... Ou quando estamos frente a propostas alienatórias de pseudo-mudanças que não tocam o fundo essencial das questões... 9


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Em suma: temos a necessidade de ajuizar quando estamos frente a projectos de acção, no sentido psicanalítico do termo, ou face a face com passagens ao acto de descargas ab-reactivas cunhadas por modas pouco substanciais. É isto que proponho para vossa reflexão. E disse Sto. Est.

BIBLIOGRAFIA Galeano E (2002) De Pernas para o Ar a Escola do Mundo às Avessas. Ed. Caminho. La Fontaine J (1668-1694) As Fábulas de La Fontaine. In Rimas de Manoel Maria de Barbosa Du Bocage. Tomo 1, 1851, Lisboa. Michaelis C (1932) Dicionário da Língua Portuguesa. Leipzig/FA Brockhaus. Racionero L (2009) O Progresso Decadente. Fim de Século; Lisboa Sartre JP (1964) A Engrenagem. Editorial Presença. Zimerman DE (1999) Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica e Clínica. Artmed, Porto Alegre. Wells HJ. Admirável Mundo Novo. 10


LEITURAS

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Leituras

“Group and team coaching: The essential guide” CHRISTINE THORNTON (2010)

Group and team coaching: The essential guide London and New York, Routledge

Christine Thornton publicou recentemente o livro “Group and team coaching: the essential guide”. Christine Thornton tem vasta experiência de condução de grupos terapêuticos e de coaching e acredita que há similitudes na forma como as pessoas aprendem e mudam, independentemente da natureza ou do foco dos grupos. Começa o seu livro por apontar a importância e riqueza do grupo na vida e na aprendizagem humana e consequentemente por abordar a importância do coaching de grupo. No segundo, terceiro e quarto capítulos a autora partilha com o leitor os conceitos teóricos grupanalíticos que servirão de base ao modelo de intervenção em coaching e alerta para o facto de que o coach de grupo deve estar preparado para lidar com certos fenómenos complexos, os quais irão sendo aprofundados ao longo do livro. Explora assim o processo de aprendizagem humana e a sua aplicação ao coaching de grupo recorrendo a conceitos tais como: memórias implícitas e como estas podem ser potenciadas num contexto de grupo; projecção ou mecanismo de defesa inconsciente através do qual atribuímos parte de nós aos outros, sobretudo as partes de nós de que não gostamos; transferência ou padrão de relacionamento com os outros no presente influenciado por projecções resultantes de padrões de relação passadas; contenção ou Holding; continente, baseando-se no conceito desenvolvido por W. Bion e finalmente troca ou Exchange. A autora sublinha os dois processos de Holding e Exchange como sendo fundamentais num processo de coaching pois, segundo crê, é o balanço entre segurança e risco que nos permite aprender. Articula seguidamente nove processos fundamentais que ocorrem nos grupos, baseando-se sobretudo nos conceitos de Foulkes, a saber: matriz grupal; comunicação; tradução; reacções de espelho; troca; ressonância; fenómenos de condensação; localização, e finalmente o processo de reflexão. No quarto capítulo, o terceiro dedicado aos conceitos grupanalíticos, a autora explora oito factores que afectam a forma como aprendemos em grupos e sintetiza o papel do coach 113


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de grupo ou de equipa. Identifica neste âmbito os factores: ligação e pertença; aprendizagem interpessoal; competição, inveja e admiração; idealização e emulação; coragem para pôr em prática e liberdade de agir; ser testemunha e ser testemunhado; encorajamento; desempenho do grupo de coaching. Nos dois capítulos seguintes a autora fala da teoria sistémica e de como a mesma nos ajuda a perceber a complexidade das empresas, e do coaching de equipa. Se Thornton intervém no grupo socorrendo-se da abordagem grupanalítica é na teoria sistémica que encontra o modelo para olhar e compreender a empresa que geralmente solicita a sua intervenção pois, refere, esta teoria ajuda a reflectir sobre a complexidade das organizações contemporâneas e oferece um mapa de leitura para observar a realidade das empresas já que sem recorrer a uma certa simplificação ficaríamos paralisados ante tanta complexidade. Vistas à luz da sistémica as equipas são sistemas sociais, ou subsistemas de um sistema maior. As equipas podem ser afectadas por mudanças noutros subsistemas interligados ou por mudanças no sistema como um todo, mas não são afectadas de forma idêntica por todas as mudanças. Ao trabalharmos com uma equipa os seus membros são subsistemas interagindo uns com os outros. No coaching de equipa o coach tem de prestar atenção a cada um dos indivíduos bem como à equipa como um todo. Cada membro interage horizontalmente com outras equipas dentro da organização e com outros contactos fora da empresa. Os membros interagem também verticalmente com o chefe de equipa, o qual pode também ser parte de uma outra equipa. Como definir as fronteiras dos sistemas e das equipas é um exercício do grupo-coach nem sempre fácil pois quando falamos de empresas, grupos ou equipas, as fronteiras são algo de arbitrário. Por exemplo, quando trabalhamos com a equipa de gestão de topo, o sistema é esta equipa ou é a companhia como um todo? Esta é uma questão muito pertinente já que a gestão de topo é também responsável pela estratégia da companhia e se acontece algo relevante a este nível afecta o seu trabalho. Neste caso as fronteiras do sistema podem ser difíceis de definir. O pensamento sistémico na gestão tem sido também influenciado por novas descobertas na física, biologia, ecologia e antropologia, sobretudo elevando a sua aptidão para lidar com a complexidade. As teorias do caos e complexidade têm dado uma ajuda fundamental neste entendimento. A autora fala também do paradoxo nas empresas como outro dos aspectos a ter em conta. Os grupos são bons para criar segurança para encarar o paradoxo. O papel do grupo-coach é ajudar os membros do grupo a reconhecer e identificar as posições paradoxais que contêm em si e torná-los conscientes da tensão que isso gera. Com a tomada de consciência do paradoxo, este não desaparece mas foi quebrado. Para o grupo-coach acolher a possibilidade de várias posições aparentemente contraditórias sobre uma situação poderem ter mérito e coexistir é uma competência chave. A autora mostra ainda que o coach organizacional é também parte do sistema, e como é difícil avaliar o impacto da sua intervenção pelo facto de tudo estar inter-relacionado. 114


LEITURAS

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Também mostra como é difícil trabalhar com mais de uma parte do sistema e os riscos envolvidos. Christine Thornton identifica as empresas com large groups onde os membros nunca se encontram cara a cara, a não ser quando há encontros formais com todos juntos. A autora refere que o coaching de grupo ou equipa nas empresas pode tornar-se num recurso para a gestão da mudança e refere novos métodos de trabalhar com large groups tais como o world café e o open space technology. As intervenções em equipas estão ligadas à relação entre os objectivos da equipa e à capacidade da mesma para os alcançar. Segundo Christine Thornton há três possíveis áreas de actuação nas equipas: ajudar a planear os objectivos da equipa; intervir na capacidade da equipa para colaborar e alcançar objectivos, sendo que neste contexto o coaching de equipa tem clara vantagem sobre outras técnicas de intervenção; ajudar a incrementar a capacidade dos membros da equipa para fazerem o trabalho. Esta última intervenção pode passar por um misto de coaching e de formação. Fazer coaching a uma equipa é ajudar a equipa a alcançar uma meta comum, tomando em atenção a realização individual e a realização e colaboração da equipa. Para se poder trabalhar e obter resultados a dimensão do grupo deverá andar entre três a dez pessoas. Neste contexto as metas devem ser partilhadas e é importante que o coach perceba como e se as metas individuais diferem das colectivas. Christine Thornton refere que por vezes se pode recorrer a exercícios, testes ou outras ferramentas para trabalhar com equipas mas adverte para cuidados e preocupações a ter e essencialmente, para o facto de se ter consciência que cada equipa é uma equipa e que aquilo que funciona num contexto e numa equipa pode não funcionar com outra. O coach deverá ter tacto ao explicar quer à empresa quer ao líder que a equipa deverá considerar as metas como suas, o que deverá apontar para uma atitude de flexibilidade e negociação por parte dos intervenientes, nomeadamente também por parte da empresa, aquando da sua determinação. Segundo a autora o coach de equipa deverá manter dupla lealdade para com a equipa e seu líder, caso contrário as mudanças não serão duradouras. Depois de abordar as especificidades do team coaching ou coaching de equipa a autora começa a introduzir o conceito de learning group coaching. Coaching learning groups são grupos que se constituem com o propósito de aprendizagem individual de cada um dos seus membros. Não são equipas. Learning group coaching trabalha com processos de aprendizagem e focaliza-se nas necessidades de indivíduos e não de equipas. Ao desenvolver o conceito de learning group coaching Thornton vai dando exemplos de vários tipos de learning groups tais como os action learning groups, os grupos Balint, os grupos de coaching telefónico e os grupos de supervisão. Para todos estes tipos de 115


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intervenção a autora apresenta um protocolo de intervenção bem claro e definido, transportando o leitor para a prática do coaching em grupo. O Learning group coaching, quer seja ou não desenvolvido em empresas, utiliza o grupo como forma de intervenção mas esse grupo não corresponde a uma equipa funcional da empresa. Por exemplo estes grupos de coaching podem decorrer em paralelo a programas de formação em gestão de forma a ajudar que os conceitos sejam melhor integrados pelos participantes. O coaching de equipas, tal como o nome indica, tem na equipa o seu foco de intervenção, actuando nas equipas. A grande diferença entre os dois contextos é que no caso de coaching de equipas há (pelo menos!) três entidades envolvidas, o coach, a empresa e a equipa, o objectivo a alcançar através do coaching é partilhado pela equipa e a intervenção é na equipa como um todo. Nos learning groups o contrato de coaching é estabelecido individualmente com cada elemento bem como os objectivos são individuais, mas o grupo é utilizado como ambiente propicio para o insight e ensaio de novas aprendizagens. Os learning group coaching podem ser desenvolvidos em contexto Institucional mas não em contexto de equipa. Thornton dedica seguidamente alguns capítulos a descrever os vários formatos de learning groups, de forma bastante precisa e detalhada, sendo que apresenta o protocolo de intervenção sistematizado para cada um. Como vimos um dos formatos de learning groups é o action learning. Este é o modelo que a autora utiliza em coaching de grupo. Segundo Christine Thornton, action learning coaching, é um método rigoroso que permite que a aprendizagem de um indivíduo ocorra por recurso à interacção com outros indivíduos num grupo. È muito válido em situações em que não há uma única resposta certa e as pessoas podem escolher entre múltiplas formas de actuar. O conceito de action learning foi inventado por Reg Revans em meados do século XX, baseado na convicção de que a maior parte dos métodos educativos da época não eram eficazes. Reg Ravans descrevia a aprendizagem como “reinterpretação do conhecimento adquirido pelo sujeito, incluindo o conjunto das suas experiências passadas”. Esta reinterpretação é um processo social levado a cabo por dois ou mais alunos que, pela aparente discordância ou diferença entre as suas trocas, frequentemente proporciona que reexaminem as ideias que até aí davam como garantidas, apesar de falsas ou mal equacionadas. Para Raven os dois elementos chave da aprendizagem eram a pergunta que pode produzir insight e o conhecimento teórico ou programado, no qual o material a ser aprendido é apresentado em pequenas quantidades, em pequenos passos. Este paradigma tem sido flexivelmente usado e aplicado ao longo dos tempos pelo que há muitas variantes da metodologia mas a investigação sugere que no Reino Unido 75% dos adeptos da metodologia concordam nos seguintes elementos nucleares: grupos com aproximadamente seis elementos, acção centrada em tarefas reais ou problemas no trabalho com aprendizagem resultante da reflexão sobre as acções tomadas, as tarefas e problemas são individuais e não colectivas e escolhidas pelos participantes, a pergunta é o meio mais importante para ajudar os participantes a prosseguirem. 116


LEITURAS

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Segundo Christine Tornthon esta unanimidade reflecte a robustez do método. Ela contudo acrescenta certos elementos provenientes da sua experiência com Action Learning Groups a saber: um contrato de regularidade de sessões, apresentação em turnos de forma que o foco é partilhado pelos membros do grupo, uma abordagem aberta dos problemas, uma abordagem reflexiva expressa num local que proporciona “tempo para pensar”. Action Learning groups introduz reflexão regular no processo de trabalho com foco nas preocupações e necessidades correntes dos participantes e não em conteúdos fixados e rígidos, como ocorre na formação tradicional. As competências interpessoais são desenvolvidas como consequência deste processo, mesmo em pessoas que partam de um nível elevado aquando do início do processo. Um outro benefício lateral é que ao desenvolverem-se competências de escuta e formulação de perguntas se melhora o entendimento da complexidade de situações existentes nos contextos laborais actuais. É esta multiplicidade de perspectivas oferecida pela totalidade dos membros do grupo que enriquece o processo de reflexão oferecendo múltiplas perspectivas e consequentemente opções, muito para além do que será possível em contexto de coaching individual e ainda de forma mais rigorosa e desafiante que a possível em grupos de discussão. Além do mais cada elemento do grupo adquire profundo insight através dos desafios oferecidos pelos outros membros do grupo, expandindo o seu entendimento sobre o papel do líder. O action learning foi inicialmente usado como poderoso recurso para proporcionar aprendizagem individual através de um processo de grupo fortemente estruturado. O seu propósito é proporcionar o uso de toda a informação disponível ao lidar com problemas complexos, desenvolver o pensar e proporcionar o insight. Proporciona aos executivos oportunidade regular para reflectir, colocar questões, especular, deduzir e explorar dentro do grupo (de uma matriz grupal) para chegar a novas hipóteses de trabalho sobre como atingir metas. Novas ideias são testadas face à realidade (teste da realidade) e planos refinados à luz da experiência. Em vez de ser uma aprendizagem momentânea ou de curto prazo, torna-se uma experiência contínua, mais produtiva e profunda, e por isso mais duradoura. Versões de Action Learning groups são usadas em muitos programas de desenvolvimento de liderança e de gestão. Finalmente o livro “Group and team coaching: the essential guide” oferece-se também como um manual prático de condução de grupos ao abordar situações problemáticas com que o condutor de grupos se irá irremediavelmente confrontar e apresentar estratégias para lidar com problemas de comportamento. Assim refere que quando o trabalho do grupo é perturbado por questões de comportamento do grupo, é uma oportunidade para analisar o que se passa, o processo. Uma pausa no trabalho permite ao grupo rever o que se passou, falar sobre emoções, analisar o não consciente, e perceber o que sentiram. O objectivo é explorar hipóteses e não encontrar soluções. Lidar com a agressividade no grupo é um desafio técnico também abordado. Mais uma vez Thornton dá sugestões pragmáticas, quase que exaustivas, para lidar com a situação, quer se trate de intervenção em grupo ou com equipas. Conclui que alguns grupos são mais fáceis de conter que outros. Alguns resolvem o conflito entre si sem intervenção do coach, outros necessitam de pulso firme do coach. Estas diferenças remetem não só para 117


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a maturidade dos grupos bem como para as características individuais de cada um dos seus membros. Christine dá também algumas dicas, mais uma vez de forma muito pragmática, sobre como lidar quando um dos elementos do grupo chora ou está angustiado ou demonstra comportamento de zanga. Dá-nos também dicas sobre como lidar com dominantes. Lidar com pessoas muito dominantes também é um desafio para o condutor de grupos de coaching. As pessoas que falam demais necessitam da ajuda activa do coach e do grupo de forma a ficarem com uma visão realista do efeito que este comportamento tem nos outros e poderem modificar o seu comportamento. Mas o contrário também pode ser um problema no grupo: os silenciosos. O silêncio, tal como outro comportamento no grupo, é comunicação. Significa algo. As pessoas estão caladas por várias razões. O condutor deve estar o mais conectado possível com o significado do silêncio, o qual pode também variar ao longo do tempo, prestando atenção ao não verbal. Ter coragem de falar num grupo é uma competência muito importante, que o membro silencioso terá necessidade de desenvolver. Christine Thornton desenvolve igualmente no seu livro estratégias a adoptar para quando um membro do grupo não consegue abordar as situações a não ser pela lógica e também quando alguém é tão auto-centrado que não consegue realizar a tarefa. Christine Thornton disserta também sobre a temática dos grupos que não funcionam por razões ligadas a estados de ansiedade, atrasos e ausências ou quando parte dos elementos do grupo parecem entediados, desligados ou agitados. Também os pressupostos básicos de W. Bion, luta e fuga, dependência e emparelhamento, são revisitados como contributos importantes na compreensão de alguns fenómenos no grupo. Christine Thornton reflecte também sobre como trabalhar com o inconsciente e conflitos latentes, não falados, como lidar com equipas declaradas disfuncionais e por fim de como lidar com o começo de um grupo, com o decorrer de um grupo e com o término de um grupo de coaching. Como nota final diria que este livro pode ser muito útil não só a todos aqueles que queiram trabalhar em coaching utilizando o grupo como ferramenta de trabalho mas também, pela sistematização dos conceitos e dicas práticas face a situações problemáticas, para todos os iniciados na técnica do trabalho com grupos terapêuticos pois tal como a autora revela no inicio do seu livro, há similitudes na forma como as pessoas aprendem e mudam, independentemente da natureza ou do foco dos grupos. No meu caso específico que já trabalhava com grupos de coaching e de psicoterapia antes da leitura do livro considero que o mesmo se pode constituir como um bom manual geral de intervenção em grupos. ANA LUISA TEIXEIRA

Psicóloga. Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Grupanálise E-mail: ana.teixeira@mrinetwork.pt 118


LEITURAS

SPG

“Unfree Associations: Inside Psychoanalytic Institutes” DOUGLAS KIRSNER (2000-2009)

Unfree Associations: Inside Psychoanalytic Institutes New York, Jason Aronson

CRISE NAS SOCIEDADES ANALÍTICAS: QUE RAZÕES? O decréscimo acentuado da procura de tratamento psicanalítico e do impacto social da Psicanálise, sobretudo nos últimos anos, tem sido abordado por vários psicanalistas. Douglas Kirsner, Professor e Director do Curso de Estudos Psicanalíticos da Universidade de Deakin em Melbourne, Austrália, adopta uma isenção notável na sua profunda abordagem do tema. Não só porque este livro - inicialmente publicado em Londres em 2000 e só em 2009 revisto e publicado nos EUA - apresenta um extenso trabalho de investigação empírica com cento e cinquenta entrevistas a psicanalistas de várias gerações e a consulta e análise de documentos da IPA e da ApsaA, como também, porque o autor se tem dedicado, em muitos outros artigos publicados ao longo da sua carreira académica, à evolução do movimento psicanalítico. Como refere Otto Kernberg no prefácio da edição revista publicada nos EUA, as apreciações de Kirsner distinguem-se das de “muitos autores quedescrevem as suas experiências pessoais nos institutos psicanalíticos e produzem generalizações acerca do treino psicanalítico, a partir dessas experiências” (Kirsner 2009, p vii). Apesar de enunciar os factores externos que podem influenciar a diminuição de pacientes em psicanálise, esta obra coloca uma interrogação central: como é que os psicanalistas contribuiram para a situação actual? Para responder à questão, Kirsner analisa a história de quatro dos mais importantes institutos nos EUA: o Instituto de Psicanálise de Nova Iorque; a Sociedade e o Instituto Psicanalítico de Boston; o Instituto de Psicanálise de Chicago e a Sociedade e Instituto Psicanalítico de Los Angeles. A forma como relata os acontecimentos e as impressões dos envolvidos, permite-nos seguir uma linha de racíocinio clara e objectiva sobre as causas dos problemas das sociedades analíticas no presente. Em todas as instituições estudadas, é salientado o modo de acesso à categoria de analista didacta como fonte de disputa, uma vez que quem assume essas funções é quem detém o poder de influenciar futuras gerações. Refere Joyce McDougall para responsabilizar os analistas pela tendência seminarista e quase religiosa dos institutos: “(...) esta pode ser a maior perversão dos analistas: acreditarmos que temos a chave da verdade. (...) qual é a nossa insegurança? Talvez seja parcialmente determinada pela formação e treino analíticos largamente baseados na transferência: a vinculação ao analista, ao supervisor e professores, é permeada de forte afecto transferencial. Isto pode resultar na idealização dos pensadores e teorias ou derivar no seu oposto - no desejo de os denegrir.” (Kirsner 2000, p. 236). Deste questionamento surgem outros como o da ambiguidade dos conceitos. O autor repudia a ideia de que a Psicanálise se possa sustentar como uma ciência seguindo o modelo sintomatologia-etiologia-patologia, adaptado das ciências naturais, já que não existem 119


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REVISTA PORTUGUESA DE GRUPANÁLISE

dados empíricos susceptíveis de serem testados e reproduzidos. Neste sentido, também é infértil a discussão teórica que radicaliza e opõe diferentes “escolas”. Por vezes, trata-se do mesmo fenómeno, a que se aplicam diferentes designações. “Um acordo sobre as definições dos conceitos básicos não é condição suficiente para o desenvolvimento da Psicanálise, mas é um factor necessário.” (Kirsner 2000, p. 244). É sobre o aspecto da “institucionalização das ideias psicanalíticas” - afastando-as da sua essência criativa produzida no encontro único entre analista e analisando - que, para Kirsner, recai grande parte da responsabilidade pela situação actual. Segundo o autor, seria vital que a questão da competência/qualificação dos analistas fosse reconhecida pelos próprios como central. A reorientação da Psicanálise para a pesquisa e investigação, tornando os institutos mais próximos do funcionamento das universidades, no sentido preconizado por Kernberg (Kirsner 2000), e para uma cultura de avaliação mais crítica, seria um passo decisivo na diminuição do clima de desconfiança. Isto também significa, como Kirsner reforça no seu epílogo à edição de 2009, que há que mudar a mentalidade de grupo dos psicanalistas. O que, provavelmente, não se fará mantendo uma ortodoxia que fecha esta disciplina às pessoas, em nome da preservação de padrões que podem não fazer sentido perante a mudança constante dos novos tempos. “A própria ideia de ortodoxia, (...) contrasta com a criatividade, que depende de procurar suplantar o Pai” (Kirsner 2009, p. 261). O título da obra - “Unfree Associations: Inside Psychoanalytic Institutes” no original - é a síntese do que o autor nos quer transmitir, pois contém as duas ideias fundamentais da sua explanação: a falta de liberdade dos institutos de Psicanálise e a contradição essencial entre esse estado de coisas e o caminho de liberdade que o paciente deve seguir para aceder à própria mente, representado no preceito fundamental que é a associação livre. Como membro da Sociedade Portuguesa de Grupanálise, a leitura deste livro produziu uma inquietação e consequente necessidade de reflexão, que penso poderem ser comuns a quem acredita na validade da Psicanálise/Grupanálise como meio de tratamento. BIBLIOGRAFIA Kirsner D (2000) Unfree associations inside psychoanalytic institutes, Process Press Ltd., Londres, pp. 1-324. Kirsner D (2009) Unfree associations: inside psychoanalytic institutes, Foreword, New York: Jason Aronson, Lanham, pp. vi-viii. Kirsner D (2009) Unfree associations: inside psychoanalytic institutes, Epilogue, New York: Jason Aronson, Lanham, pp. 257-261.

MARGARIDA FRANÇA

Psicóloga Clínica. Membro Candidato da Sociedade Portuguesa Grupanálise

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