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contos crus por marco ant贸nio


As personagens constantes nestes contos, tal como os acontecimentos retratados, são totalmente fictícias e qualquer semelhança com factos verídicos é pura coincidência. Everybody Knows - escrito por Leonard Cohen e Sharon Robinson. Publicado por Stranger Music / Robinhill Music, 1998 The Good Son - escrito por Nick Cave. Publicado por Mute Song, 1991 Know Your Rights - escrito por The Clash. Publicado por Nineden Ltd., 1982 The Magnificent Seven - escrito por The Clash. Publicado por Nineden Ltd., 1980 Ilustrações da capa e de “ódio” por Francisco Chaveiro Grafismo por Inês Costa


índice 4, equívoco

I

1O, a marca de caim

II

18, LX MMI DC

III

28, entre a hóstia e o cálice

IV

38, raízes

V

66, ódio

VI

«Lavai–vos, purificai–vos, tirai a maldade dos vossos actos de diante dos meus olhos: cessai de fazer mal.» Isaías 1:16


equívoco

Este conto é dedicado a Paula Luz e Estrela “Dumar” Pissarra. Nem vocês sabiam o que vos esperava. Obrigado.


I


Consigo lembrar–me de todas as coisas boas que aconteceram ao longo de toda a minha vida. Lembro–me de todas as benções recebidas. Porquê? É fácil, contando as benções que o Altíssimo me deu, mesmo até à última, chego ao estrondoso resultado de uma. Uma mísera benção que acabou por se tornar numa maldição. Agora que estou aqui sentado, neste quarto barato, perante uma mesa com as minhas únicas possessões terrenas, os meus três tesouros, sei que realmente aquilo que julgava ser uma benção não o era. Vou contar tudo do principio. Nasci numa pobre desculpa de bairro. Foi num amontoado de barracas, por detrás da Lixeira Municipal, que numa tarde quente de Agosto uma rapariga de dezasseis anos teve o seu primeiro e único filho; morreu após o parto devido a uma hemorragia que se recusava a parar, apesar dos seus gritos de dor. Assim fui eu cuspido para este mundo que não me queria receber. Fui criado pelos vizinhos até aos sete anos. O meu pai? Nunca o vi, mas toda a gente me dizia que era má peça. A partir dos sete anos fui–me safando como pude, roubando comida onde podia e vivendo na Lixeira, que se tornou para mim uma casa. Conhecia todos os seus sórdidos segredos. Ainda existe, mas está tão mudada que já não a reconheço. Foi lá que descobri Deus, nas páginas sujas e amarrotadas de uma bíblia e foi lá que decidi andar no seu caminho. Não escondo as minhas origens, sei que sou filho da Lixeira, nascido de uma relação pecaminosa e indesejada e carrego um fardo enorme de dor e sofrimento. Mas se me encontro agora a um passo apenas do meu Criador não é por nada disso. Everybody knows that the dice are loaded Everybody rolls with their fingers crossed Everybody knows the war is over Everybody knows the good guys lost... A voz parece vir de um rádio que se encontra no quarto ou talvez esteja noutra dimensão. Numa dimensão onde a música ainda tem significado e a dor não é insuportável. Estou perdido num furacão de pensamentos e todos eles me levam a um só sitio, a uma só coisa. Aquilo que fez com que eu, ao fim de vinte e três anos, percebesse a razão da minha existência. A vida é uma pequena ironia; quando finalmente compreendo a razão de um homem existir, vejo que essa é também a única razão que o leva à morte. Já falei do pecado? Não? Então vou falar. Toda a minha juventude foi passada entre marginais, conheci pessoas que se afundavam todos os dias num mar negro de pecado, prostitutas, mulheres adulteras, homossexuais, violadores e assassinos. 6 I


Quis o Senhor que eu não me tornasse num deles, o Senhor tinha para mim um plano maior, mais elaborado, mas eu falhei em compreendê–lo e Ele falhou em explicar–me. Fui vivendo como um estranho entre os marginais. Enquanto todos se afundavam no pecado, aquele lago de alcatrão negro e borbulhante, eu ia passando por cima, equilibrado num fino fio de nylon. Até que um dia o fio se partiu e eu caí... não. O fio não se partiu e eu não caí, cortaram–mo e puxaram–me para baixo. Mas falar tanto faz–me sede. Ah! Esta garrafa de Scotch, um dos meus três tesouros, dos quais em breve me separarei. O melhor é beber e tentar esquecer. Everybody got this broken feeling Like their father or their dog just died... Mas como posso eu esquecer a única coisa boa da minha vida? Aquilo que me fez dar graças a Deus por viver? Já disse que sempre segui o caminho de Deus? É verdade, sempre segui o caminho que pensava que Deus havia traçado para mim, até encontrar aquela que pensava que Ele tinha escolhido para mim. Patrícia. De uma beleza sobrenatural, esta era uma rapariga que faria qualquer homem perder a noção da realidade. Uma tez pálida, olhos azuis profundos como duas lagoas e uma língua que falava de traição e engano em tons doces e pegajosos como o mel. Como é que a conheci? Já nem me lembro; acho que todas as noites que passei a beber e a pensar nisso me fizeram esquecer. Ela foi como uma calmaria no meio da tempestade da minha vida. Quando surgiu, foi como um colete salva-vidas para um náufrago perdido no mar. Interessou-se por mim. Por mim??! Ela era tão diferente de todas aquelas fêmeas saídas da sarjeta que eu estava farto de conhecer, aquelas que se atiravam para cima de ti desde que tivesses algo que lhes interessasse. Essas são como cadelas com cio permanente e nunca estão satisfeitas. Mas ela não. Era tão diferente que me fez pensar que era a mulher da minha vida, aquela que tinha sido escolhida para mim por Deus, uma dádiva ao seu servo por se ter mantido fiel e limpo no meio da sujidade. Mas por vezes o diabo também nos suborna com presentes para ver se caímos nas suas artimanhas. Sim, eu caí. Vivemos felizes durante algum tempo. Quanto? Não sei, uma eternidade ou um segundo. Fiz por ela coisas que não faria por ninguém... ah, este dourado líquido do esquecimento está tão doce que é irresistível. Everybody knows that it’s now or never Everybody knows that it’s me or you Everybody knows you can live forever When you done a line or two... Mas, e existe sempre um mas nas histórias, o amor dela era I 7


venenoso e as lágrimas que ela chorava, quando jurava que eu era o único, corroíam–me como gotas de ácido; as suas juras deixaram golpes profundos no meu coração, alguns ainda não estão cicatrizados e creio que nunca estarão. Apesar da dor e do sofrimento que se alimentavam das minhas dúvidas, eu sempre fui acreditando nela. Se calhar é mesmo verdade que um coração apaixonado não vê... mas sente, sente. Nem queiram saber como sente. A única palavra que posso empregar para descrever o que por ela senti — sinto — é Amor. Não gosto desta palavra, toda a gente a utiliza como se fosse algo de banal, como se fosse um cigarro que se fuma e se deita fora. Todos utilizam esta palavra sem sequer pensarem no que estão a dizer. Estúpidos, utilizam-na tanto na prostituta como na virgem. Por isso prefiro usar outras palavras; mas com ela não dá, com ela tem de ser Amor, pois o que eu por ela senti — sinto — é tão forte e tão poderoso que só pode ser comparado ao Amor que o Senhor dos Exércitos tem pelos seus servos. Amei-a. Oh! Como a amei e não nego que ainda sinto qualquer coisa... não, não é qualquer coisa. Ela está comigo, até neste momento. A sua foto, o segundo dos meus tesouros terrenos, aqui na mesa, é a prova disso. Quando vejo o seu olhar inocente nesta foto, vejo que no fundo ela era como uma aranha convidando a mosca para a sua teia. Uma teia de pecado e imundice, onde os cadáveres em decomposição exalavam um odor fétido que bloqueava os sentidos e os punha numa espécie de transe. Uma luxúria inebriante, era o que ela tinha para dar; fazia um anjo cair dos céus para o mais profundo abismo do inferno. Eu entreguei–lhe tudo o que tinha e ela destruiu–me como se eu fosse uma construção na areia. Mostrou–me prazeres que eu desconhecia, coisas que me tornaram abominável aos olhos de Deus. Sexo, álcool, droga, mentira e crime. E já falei do sexo? Sim, já falei de certeza, como poderia eu falar nela e não falar na sua melhor qualidade. Não sei como me meti naquela situação, mas depois de lá estar não conseguia sair, acho que ainda não consegui, mas está quase. Era como se me encontrasse dentro de um poço fundo e as paredes em volta fossem demasiado escorregadias para subir; mas agora estou a chegar ao topo. Porque é que matei aquele homem? Não sei, mas não foi minha intenção fazê–lo. Estava escuro e ele estava a agarrá–la e ela queria afastá–lo, tudo foi tão rápido que eu nem percebi o que se tinha passado até ele estar no chão, imóvel numa poça de sangue... sangue. Essa marca negra que manchou a minha alma. Nestas últimas noites surgiu–me uma ideia que creio agora já não ter importância, mas é mais uma prova da ironia que a vida é. Provavelmente aquele pobre coitado era mais um que, tal como eu, tinha sido enfeitiçado por aquela doce criatura e estava a ser levado à loucura devido aos estranhos jogos de mórbida sedução que ela jogava. Um pouco como eu me sinto agora. 8 I


Se esta era a situação vivida por ele, então eu devia ser louvado, pois salvei-o. Quem me salva a mim? Everybody knows the scene is dead But there’s gonna be a meter on your bed That will disclose What everybody knows... O que é que resultou mal entre nós? Não sei. Um dia estávamos bem e, subitamente, no dia seguinte, ela queria mais e mais e mais e mais, até ser impossível eu aguentar a situação, que me drenava até a vontade de viver. Foi aí que lembrei, nem sei bem como, de uma passagem na bíblia que diz que o ladrão vem apenas para roubar e destruir e foi aí que eu me apercebi como estava enganado e ela não era uma dádiva dos céus, mas sim uma meretriz das hordas demoníacas do inferno, enviada para sujar aquele que se tinha mantido limpo e fiel. Um dia saí do sítio onde morávamos, de manhã, para ir ao pão, e continuei a andar. Devo ter andado uns quinze quilómetros, mas consegui libertar–me do que me prendia . Pensava eu! Muitas noites passei pelas ruas chorando quando olhava a sua foto. Apesar de tudo, foi a única pessoa que amei neste mundo. Muitas vezes tive vontade de voltar para trás, de voltar para ela, mas nunca o fiz. Agora, um mês depois, sou apenas uma sombra do que era antes, estou magro, sujo, tenho perdido o cabelo às mãos cheias e os meus olhos contam histórias de noites sem dormir, noites em que a única companhia era uma garrafa, a lua e a dor. Agora estou aqui neste quarto mal arejado, com tudo o que tenho neste mundo mesmo à minha frente. Os meus três tesouros, uma garrafa já vazia, uma foto manchada de lágrimas e... Sinto a sua falta e é uma dor tão forte que não consigo suportar. Sinto–me vazio. Mas o pior nem é eu sentir–me vazio, o pior é que, se por alguma obra de magia, ou intervenção divina, o tempo voltasse a trás, eu acho que faria tudo de novo...sim, tudo. Porquê? Tal como já disse, ela foi o único amor que tive na vida. Ao longo destes vinte e três duros Invernos, foi a única pessoa que de facto me fez conhecer o amor humano. E embora me tenha provocado um sofrimento indescritível e uma miséria destruidora, foi a única pessoa por quem eu sou capaz de fazer tudo... tudo. O terceiro dos tesouros que possuo é negro como a noite e de aço como a solidão e é implacável como a ira de Deus. É a única maneira de esquecer quem amei. Senhor, este teu servo vai para casa. Everybody knows it´s coming apart Take one last look at this sacred heart Before it blows, And everybody knows. Agosto 1995 I 9


a marca de caim

Para o Kiko, o melhor amigo “One more man gone One more man gone One more man... ...is gone The good son now is gone� Nick Cave & the Bad Seeds


II


Ao ver o caixão contendo o corpo do seu melhor amigo ser descido à terra, na qual descansaria eternamente, Pedro chorou. Chorou como um bebé, pois assistia à partida de alguém que sempre tinha sido como um irmão, alguém com quem havia partilhado a alma, alguém com quem sentia uma união muito forte. Não estava muita gente no funeral, alguns familiares e amigos, os pais, ele próprio e Leonor, a sua namorada, aquela que ele amava acima de todas as coisas, a única que podia atenuar a sua dor neste momento. Após o final do serviço funerário todos se afastaram do local e foram para casa; todos menos Pedro e Leonor. Ela encontrava–se um pouco recuada em relação à sepultura, estava vestida de negro e o seu longo cabelo castanho esvoaçava com o vento. Os olhos cor de mel encontravam–se afogados em lágrimas, não só por Abel, que jazia no chão frio e húmido para nunca mais se levantar e animar todos com o seu bom humor, mas também por Pedro, que havia perdido uma pessoa muito importante na sua vida. Leonor amava Pedro e por isso não o podia deixar ali apanhando frio e chuva, de joelhos sobre a terra que cobria o seu amigo. Aproximou–se. — Vamos, amor... — Eu sei, mas deixa–me despedir mais uma vez. — A sua voz soava rouca e as palavras saiam a custo. — Meu irmão, nunca ninguém vai preencher este grande vazio, vou recordar–te sempre. Dizendo isto, levantou–se e sacudiu as mãos e as calças, penteando depois o curto cabelo loiro com as mãos e limpando os olhos vermelhos do choro. Leonor deu–lhe o braço e levou-o até ao carro sem proferir uma palavra. A viagem até casa foi pequena e ao chegarem ao apartamento que Pedro e Abel tinham alugado juntos há sete meses, Pedro começou a tremer incontrolavelmente e ela abraçou-o. Leonor fez os possíveis para que Pedro se instalasse confortavelmente no sofá, enquanto ia buscar um Valium à cozinha. Depois sentou–se junto dele e fê–lo tomar o comprimido. — Queres falar? — A voz dela deixava transparecer a preocupação. — Falar do quê? De que a dor vai passar e que foi o destino e que Deus o levou para um sitio melhor? Que se foda Deus. Eu queria que o Abel estivesse vivo. — A voz de Pedro elevava–se e tremia. — Pois eu não quero falar de nada. Deixa–me em paz! Leonor não disse nada. Apenas mudou de lugar, saindo do sofá e sentando–se numa cadeira junto da janela. Compreendia a dor dele e, como qualquer outro nesta situação, sentia–se completamente impotente para o ajudar. Ele sofria e a blasfémia era a prova disso. Pedro tinha uma educação católica rígida. Ele virou–se para ela e falou–lhe com humildade: — Desculpa, mas não estou muito bem... tenta compreender. Leonor aproximou–se e, afagando–lhe o cabelo, falou–lhe num tom de voz com o qual sabia confortá–lo: 12 II


— Eu sei, amor, tenta descansar e não te preocupes, porque eu fico aqui a fazer–te companhia. — Obrigado... eu amo–te. Beijaram–se e Leonor deixou-o deitado no sofá, enquanto se aproximou mais uma vez da janela. Lá fora o tempo continuava mau, como se também a Natureza chorasse a morte de Abel. Sentou–se e tirou da sua mala um livro: Ecce Homo. Em poucos segundos mergulhou no universo de Nietzsche. Deitado no sofá, Pedro não parava de pensar no que Leonor tinha dito. Tenta descansar e não te preocupes. Como é que ela podia dizer aquilo? Sabia por acaso o que era perder um amigo com o qual havia partilhado vinte anos de vida, alguém que conhecia desde a primeira classe, com o qual tinha vivido momentos incríveis? Não, claro que não sabia, se soubesse, teria ficado calada. Mas perdoava-a devido ao amor que os unia. Mais umas lágrimas rolaram pelo rosto de Pedro. Abel tinha sido um companheiro de armas, alguém com quem se podia contar. Já desde pequeno era Abel que o salvava das situações mais embaraçosas. Embora a diferença entre os dois fosse apenas de um ano, Abel sempre fora mais desenvolvido fisicamente e já com sete anos o salvara de levar uma tareia dos gémeos Fernandes, Mito e Zézinho, dois rufias da escola. Aliás, tinha sido assim que se haviam conhecido. A partir desse dia começara uma amizade que nem o tempo nem a distância nunca prejudicaram, muito pelo contrário; o tempo servira apenas para consolidar a relação e os momentos em que tinham estado afastados para desejarem estar juntos. Abel era mais extrovertido, tinha um enorme sentido de humor e onde quer que estivesse as raparigas pareciam materializar–se junto dele. Tinha uma personalidade que atraía as pessoas e que fazia dele o centro das atenções. Pedro era pouco sociável, mas não se importava de ficar na sombra do amigo. Juntos, sempre se haviam divertido muito. Nunca tinham deixado nada interferir na sua amizade, nem futebol, nem política, nem raparigas. Tinham, aliás, gostos diferentes em relação a estas e as poucas vezes que haviam escolhido a mesma nunca discutiram, partilhavam sem problemas. Os melhores tempos tinham sido durante a adolescência. Ainda se lembrava de como haviam entrado em pânico uma vez ao serem apanhados no cinema com duas amigas mais interessadas no que eles tinham nas calças do que no filme. Essa fora uma tarde inesquecível e um sorriso aflorou os lábios de Pedro ao recordar a atrapalhação de ambos quando se acenderam as luzes no intervalo do filme. Levantou–se e foi até à janela onde Leonor ainda estava sentada, segurou–lhe a mão e beijou-a. Fazia tenção de lhe falar para se desculpar, mas rapidamente ela lhe colocou a mão nos lábios, como que dizendo que no amor não são precisas desculpas. II 13


LX MMI DC flirt

Para a minha Cle贸patra.


III


1 O som estava alto de mais para aquela hora da noite. Em breve haveria vizinhos a tocar à campainha, ameaçando chamar a polícia, mas isso não lhe interessava; naquele momento, a única coisa que lhe apetecia era mesmo rebentar com os tímpanos. Sim, se deixasse de ouvir, tudo correria bem. As guitarras gritavam furiosas, a bateria demolia o mundo todo e alguém berrava. You have the right to free speech as long as you’re not dumb enough to actually try it. Viva o mundo ocidental. A luz do atendedor de chamadas continuava a piscar, como que implorando a atenção daquele que sempre tinha como primeira preocupação dirigir–se–lhe e ouvir as suas mensagens. Tudo tinha sido rápido de mais; o encontro, a noite em sua casa, acordar abraçado, enfim... aquilo que afinal constituiu durante muito tempo o seu estilo de vida. Novas caras, novas camas, novos jogos. Mais uma marca na coronha da pistola e mais uma noite em busca de um novo duelo. Mas a vida, ou Deus, ou seja lá o que for que lhe quiserem chamar, tem uma maneira muito estranha de funcionar. Por vezes é preciso mais do que um tiro para eliminar a oposição. Não que isto o incomodasse; aliás, era um prazer, mas não era o seu género. Devia ter ouvido o seu instinto. Ou talvez não. Know your rights, these are your rights. Os vizinhos começaram a tocar à campainha, praguejando. A vizinha de cima batia no chão com um objecto incomodativo e fora de tempo. Aquela vontade sempre o tinha atormentado. Já desde miúdo que corria atrás de tudo o que era raparigas, tentando agarrá–las e beijá–las. Com o tempo, o método foi mudando; porém, o objectivo era o mesmo e com resultados surpreendentemente positivos. As mulheres gostavam daquele ar de duro. Mas com conversas interessantes que a profissão lhe permitia, emitindo sempre uma opinião sensível e carente. Era tiro e queda, nunca falhava. E com a ruiva também tinha resultado; talvez até bem de mais. A ideia tinha sido sempre amar e ser amado. Amar não era a palavra certa, mas o acto era o mesmo. De qualquer modo, um latino é sempre um latino. E como tal, tem várias incumbências; ele cumpria as suas. A ruiva tinha–se revelado um caso complicado. Após a primeira noite continuou a existir e a insistir para que saíssem juntos. Fisicamente, era algo de extraordinário, enchendo bem os justos vestidos que usava, tornando–se assim difícil recusar tais convites. Principalmente, porque em geral terminavam com uma maratona sexual que tanto lhe insuflava o ego. Sempre se tinha considerado um galã, um metro e noventa bem musculado e bronzeado e olhos, ou lentes, verdes. 20 III


Por vezes alguns amigos diziam–lhe que era demasiado superficial, mas o que sabiam eles, casados com as suas mulheres normais de depilações incompletas e estrias. Poderiam alguma vez entender o que o motivava. Um corpo brilhante, bem modelado e quente? Obviamente que não. E, como tal, não tinham voto na matéria. Olhou para o atendedor. A luz vermelha piscava e sentiu um arrepio percorrer–lhe o corpo. Desviou rapidamente o olhar e dirigiu–se à janela, acendendo mais um cigarro. Lá fora a noite ia avançada e a rua estava quase vazia. Sempre fora uma pessoa calma e inabalável, mesmo no emprego, onde constantemente enfrentava deadlines. Era repórter num jornal de grande tiragem. Não se deixava incomodar pelo stress que, aliás, dizia ser fruto da imaginação das pessoas que não conseguiam ter a serenidade para enfrentar todas as pressões inerentes à profissão. Era inabalável nas suas convicções. Estas, no entanto, resumiam–se a uma: enfrentar todas as dificuldades com calma e nunca agir de forma precipitada. Era a base da sua vida e até agora tinha resultado. Era simples, bastava manter a cabeça fria. A campainha continuava a tocar e os vizinhos pretendiam, pelo menos pelo tom de voz, um linchamento. Mas a música sobrepunha–se violentamente. Ring! Ring! It’s seven am. Move yourself to go again. Cold water in your face Brings you back to this awful place. Tinha sido sempre o mesmo modo de vida. E agora, de repente, estava preso na teia que havia construído. Ela tinha começado por telefonar para combinarem qualquer coisa. E ele aceitara. Depois começaram os encontros «por acaso», quando saía do trabalho ou estava no café. Estranhamente, ela aparecia nos sítios que frequentava. A sensação de aperto começou a instalar–se quando se encontraram no supermercado ao lado da casa dele. Procurava um frasco de Ketchup que os gajos do supermercado insistiam em mudar de sítio cada vez que lá ia, fazendo com que o que deveriam ser umas compras rápidas se transformasse numa autêntica caça ao tesouro. Subitamente, lá estava ela também. A surpresa do encontro não lhe deu tempo para pensar muito e reduziu-o pura e simplesmente a uma coincidência. Ela informou-o distraidamente que por vezes fazia ali compras e ele aceitou tudo com naturalidade. O facto de ela morar do outro lado da cidade e de ter uma mercearia à porta de casa nem lhe passou pela cabeça. Dois dias depois, voltaram a encontrar–se no supermercado; desta vez, ele andava à caça de pacotes de batatas fritas. Após a troca de sorrisos e os olhares devoradores saíram para tomar um café. E foi quando ela pediu «Dois cafés, um deles curto, III 21


entre a hóstia e o cálice

Para os Tomás(es), Catarina, Filipa e os que ainda virão. “E só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada, será realmente pública a lei que as leis encerram.” Jorge Palma


IV


Vou contar–lhe por que não gosto de mulheres com o cabelo curto, e embora o senhor possa pensar que tal opinião não tem qualquer relação com o motivo pelo qual eu me encontro aqui, verá que tem. No fundo, tudo está relacionado, mesmo que só daqui a cinquenta anos se consiga ver essa relação. É uma questão de perspectiva. Não gosto de mulheres de cabelo curto. É uma opinião pessoal que não consigo deixar de manifestar quando vejo alguma e ultimamente tenho visto bastantes. Parece que a moda optou por esconder os corpos dentro de roupas que se assemelham a sacos de batatas e, como não consegue esconder os cabelos, eliminou–os e pôs–lhes bonés por cima. Tenho amigos que acham fascinante uma mulher de cabelo curto, a skinhead O’connor por exemplo. A mim simplesmente me aborrecem, não porque não tenham algum valor, a Rosa Mota sem dúvida que tem mérito. Mas eu não conseguia imaginar–me perto dela. Não me dá tesão, percebe? Seria possível arranjar–me um copo com água? Esta sala está um bocado quente. Talvez o possa pedir a um dos agentes que decerto se encontram ali na sala do lado, por detrás do espelho... sorri?... apanhei-o! Sabe, é a influência de todos aqueles filmes de Hollywood, ensinam–nos tudo. Não se aflija, eu não fujo, nem me esqueço de onde ia. Creio que vai achar interessante. Bem, enquanto não chega a água, vou continuar. Eu creio que uma mulher de cabelo curto não está a mostrar uma forma de radicalismo, como se pensa. Não, o que ela está a fazer é tentar dizer a todos que cortou com a tradição. É uma mulher independente, igual ou melhor que muitos homens, e capaz de assumir qualquer cargo. Isso não me aflige, aborrece–me. As mulheres não devem cortar com a tradição, pois sempre foram alvo de adoração por parte dos homens, inspiradoras de grandes obras e feitos, as musas... enfim, deram origem às mais variadas loucuras. E será que existe algo mais importante que a loucura? Não, as mulheres devem ser elas próprias, sem sentirem a necessidade de lutar para impor a sua ditadura. Sim, porque o que buscam agora já não é uma igualdade de direitos, é antes uma afirmação da sua superioridade, e supremacia, sobre o defeituoso e incompetente homem. No fundo, afirmam que chegou a hora da mudança, o seu momento de triunfo. Pessoalmente, não entendo como é que alguém que combate a supremacia opressora do outro queira criar exactamente o mesmo tipo de opressão. Eu gosto de poder mexer nos cabelos, cheirá–los, vê–los a esvoaçar com a brisa e a chicotear a face com os ventos fortes. Gosto de ver uma mulher acordar despenteada, faz–me sentir o sangue a correr, a adrenalina a subir... a adrenalina e não só. Café? Muito obrigado. A sua simpatia supera sem dúvida a 30 IV


dos seus colegas da P.S.P. Espero que não se ofenda por considerá–los colegas; no fundo, têm os mesmos objectivos. Claro que eles se encontram ainda num estado civilizacional primitivo. Como pode ver pelas minhas mazelas. Esqueceram–se de quem deveriam proteger e tratam o cidadão comum como se fosse culpado até prova da sua inocência. Está bom, o café. Decerto que vocês aqui na Judite se tratam melhor do que aparenta. Podia era arranjar–me um cigarrinho. Gigante? Não podia deixar de ser. Aposto que bebe Sagres. Não me engano. Sabe que, apesar das devidas diferenças de profissão, o senhor partilha do gosto dos pedreiros nos seus prazeres. Um Gigante e uma Sagres, por acaso não costuma ir ao 2001? Não conhece? É pena. Não quero que fique com a ideia que sou um machista e que penso que o lugar delas é na cozinha. Estou–me nas tintas para tudo isso. Não é por ser homem que as coisas me caem do céu. Tenho exactamente os mesmos problemas. Está a ficar impaciente. Não se aflija que eu não me esqueço da razão que me trouxe aqui ou porque fui trazido. Mas existem coisas que tem de saber para melhor compreender a situação. Sabe que eu não acredito no 25 de Abril. Não acredito que tenha sido uma coisa a sério. Penso que houve de facto uma tentativa, meio séria, para mudar um sistema que estava a arruinar um país e que acusava de comunista qualquer um que se atrevesse a ter uma opinião, fosse ela qual fosse. Não havia liberdade e as condições de vida eram, em geral, más. Não mudou muito. O senhor inspector deve pensar que eu sou um teórico, que não sei nada do Antigo Regime, que não passei por isso. Bem, na verdade, não deixa de ter razão, a minha experiência do Antigo Regime limita–se a uma vivência privilegiada. Davam–me comida, punham–me a dormir e limpavam a merda que eu fazia; a vida típica de um bebé. Pode dizer que muita coisa mudou, mas no fundo sabe que só mudaram as moscas. A verdadeira revolução implica a morte de todos os líderes do governo deposto. Sorri?... Não me diga que pensa que era isso que eu ia fazer: uma revolução. Está completamente enganado. Estou apenas a falar do que deveria ter acontecido. Sabe qual é o problema dos Portugueses? É o trauma do desconhecido, temos medo do que não conhecemos. Temos medo de um regime de esquerda, porque nunca o tivemos e caímos repetidamente em regimes de direita, por muito disfarçada que nos surja, pois sentimos que, pelo menos com esses, sabemos o que nos espera. Mas no fundo nada disto interessa, são apenas deambulações. O que interessa realmente é o porquê de eu estar aqui. O senhor espera que, de alguma forma, eu contribua para a sua investigação. O que sem dúvida lhe traria benefícios pessoais, mas ainda mais importante que isso, mostrava que as forças de IV 31


raízes

Embora eu não seja a imagem que ela queria, sempre me soube aceitar. Mãe.


V


Prólogo O meu nome é Porfírio M. e durante... toda a minha vida fui moleiro em Mata Cães, a 15 km de Braga. Quando se vive na aldeia, uma profissão é para sempre, mesmo quando já não temos força para pegar nos nossos bisnetos ou trinetos ou até para partir o nosso próprio pão. As aldeias têm algo de especial. Embora haja sempre muitas rixas, as pessoas unem–se quando é mesmo preciso. No Verão de 2001 foi mesmo preciso. Em Agosto desse ano, estávamos todos reunidos à cabeceira da Mariquinhas à espera que ela morresse. Eu e a irmã da Mariquinhas éramos da mesma criação. A Mariquinhas era dez anos mais nova e rija como uma mula. Desde pequena que era diferente. Lembro–me que com apenas dez anos surpreendeu todos quando, após a missa de domingo, foi ter com o meu pai e lhe disse para não se preocupar com o corvo que o seguia noite e dia há mais de três anos. Por essa altura o meu pai, que sempre foi um homem forte e nunca teve problemas de saúde, andava um farrapo. Mal comia e não dormia de tão afectado que andava pela presença constante do estranho pássaro negro. A Mariazinha, como lhe chamavam na altura, apenas disse: — Senhor Joaquim, não tenha medo que o corvo é o seu primo Nuno e só lhe quer fazer companhia. O primo Nuno era o melhor amigo do meu pai e tinha morrido afogado no Cávado, talvez há cinco anos, quando tentava arranjar uma das pás da azenha. O Cávado é um rio muito traiçoeiro, principalmente no Inverno. Eu que o diga, pois durante a minha longa vida caí duas vezes e por pouco não ficava lá também. A partir daí todos sabíamos que seria a Mariquinhas a substituir a tia Glória, já cega, doente e muito velha. A tia Glória era a «vidente» da aldeia, tratava dos males das pessoas. No fundo, era uma necromante, embora nunca tivesse conhecido a palavra; eu próprio aprendi-a muito recentemente. Os mortos falavam através dela, mostrando o que os vivos deviam fazer para que tivessem descanso eterno. Fazia também umas mezinhas com que afastava o mau olhado. A sua casa era das mais frequentadas da aldeia, mas a tia Glória não era alguém de quem as pessoas se aproximassem na rua. Não acredito que tivesse muitos amigos, acho que no fundo a temiam. A partir daquele dia na igreja, o meu pai voltou a ser ele próprio e lembro–me de o ouvir à noite, em geral já com uns copos no bucho, a falar com o primo Nuno na rua. Como se ele e a ave agoirenta estivessem a rever as peripécias de mais um dia de trabalho. O meu pai morreu em 1930, do cansaço de uma vida de trabalho duro. Nessa altura eu tinha trinta e cinco anos, seis filhos e há muito que lhe seguira as pisadas de profissão. 40 V


Mata Cães é uma aldeia especial — não sei como vos explicar; mas é daqueles sítios em que a fronteira entre o mundo invisível e o visível não é muito definida. Esta é a história do que aconteceu naquele Verão de 2001. No primeiro Verão do novo milénio, a vida em Mata Cães continuava como sempre fora. Tirando a bomba de gasolina que existia há sete anos, telefone e luz há trinta e o moinho que tinha deixado de funcionar há muito. De resto, vivia–se como sempre se vivera: a mercearia do Zeca continuava a vender a roupa que vestíamos, servindo também de posto de correios e de tasca, onde nos juntávamos a jogar dominó ou malha e a beber o bom vinho que se produz nesta zona. Existia apenas um carro praça, ou táxi, que nos levava ao posto médico, ao banco ou ao mercado da Feira Nova, a 5 km. Mas depois desse Verão tudo mudou. A primeira mudança foi as trancas nas portas e janelas. O Zeca fez um grande negócio a vendê–las, todos começaram a trancar portas e janelas à noite e quando saíam de casa. Só vos vou contar o que aconteceu, pois os poucos que sabem a verdade (todos os que assistiram) já morreram há mais de vinte anos e mesmo que ainda vivessem não teriam coragem para o fazer. Eu já não tenho medo, bem talvez um pouco, mas sinto–me na obrigação de vos deixar este legado, de passar o fardo, pois já estou muito velho e a minha hora aproxima–se e ninguém conhece a história tão bem como eu. Afinal, eu sou o moleiro e, como tal, conheço toda a gente da aldeia. 1 Mata Cães é uma aldeia pequena e apesar de todo o progresso não deixa de estar um pouco isolada do resto do país, como parece estar tudo o que se encontre a mais de 100 km de Lisboa. O nosso hospital mais próximo é o de Vila Verde, a 7 km. Não é muito, mas a maioria da população da aldeia é velha... muito velha. Os nossos corpos parecem ter ruído, desistiram de funcionar; muitos de nós têm artrite e reumático desde os trinta anos. A vida era muito dura antes e não acredito que algum dos que me ouve o consiga imaginar. Então, para muitos dos nossos problemas, o hospital mais próximo é o do Porto, a duas horas de autocarro. Todos se conhecem pelo primeiro nome e existem várias famílias ligadas entre si; parece que todos são primos e tios. Os jovens rapidamente se mudam para outro lugar, Braga, Porto, Lisboa, até a Feira Nova parece ser mais atractiva do que a nossa aldeia. Cá ficam sempre os mais velhos e os poucos jovens que se decidem a ficar, ligados a um empreiteiro que sabe onde encontrar mão de obra barata e fiel, em breve também estarão velhos. V 41


贸dio

Para o NVCLEO DVRO, os meus companheiros de armas.


VI


I

Transcrição da última entrada do diário de Raul Vafanculo. Um notório entusiasta de causas perdidas. Escrito num quarto alugado em Berlim, quatro dias antes da sua trágica morte no World Trade Center, a 11 de Setembro. 07.09.2001 “É meia noite e já estou a escrever. Cada vez começo mais cedo. Ainda há bem pouco tempo só começava lá para as 2:30 h. Deve ser a ansiedade. A vontade de contar aquilo que se passa. É como uma confissão diária, algo que tenho de descarregar para não enlouquecer, para poder continuar a viver. Sinto que nas páginas deste diário posso escrever tudo o que quiser, pois só a mim me dizem respeito e só eu as conheço. Hoje foi mais um dia como os outros: perder tempo com coisas estúpidas, levar encontrões de estranhos que nem sequer levantam os olhos para pedir desculpa e a inutilidade dos balcões de atendimento. Passei duas horas numa sala cheia à espera de ser atendido na embaixada dos E.U.A . Quando finalmente fui atendido, disseram–me que não precisava de ter esperado, podia ter pedido na secretária do segurança o meu passaporte de volta, o meu visto já tinha sido emitido ontem. Fico louco com estas merdas. Perder tempo inutilmente dá–me cabo do sistema, é como se o tempo perdido nunca mais possa ser recuperado. Aquelas duas horas já lá vão e não voltam mais. É aí que eu sinto vontade de partir tudo. É engraçado que tenha acontecido na embaixada do país mais «evoluído» do mundo. 68 VI


Mas podia ter acontecido numa qualquer repartição, hospital, gelataria e até no quiosque onde compramos o jornal e o tabaco. Perder tempo. Quando estas merdas me começam a lixar o dia e me fazem desperdiçar tempo, fico doido. Dá–me vontade de agarrar no pescoço da gaja da embaixada e apertá–lo até ela ficar roxa e os seus olhos saltarem cá para fora. E ao segurança, que me disse que tinha de esperar na fila como os outros, arrancava–lhe os tomates e depois levava-o lá para fora pelo colarinho e fazia-o pôr–se de joelhos, como se fosse dar uma dentada no lancil do passeio, depois deixava cair a bota. CRACK! Assim sairia satisfeito. Mas, como todos os outros, não tenho coragem para fazer isso e limito–me a rosnar sem nunca chegar a morder. Ao sair descobri uma multa no pára-brisas; tinha–me esquecido do carro e o tempo do parquímetro também já lá ia. Fiquei mesmo lixado. Olhei para a esquerda e vi o bófia, o porco. Dirigi–me a ele e dei–lhe um encontrão pelas costas, enquanto lhe tirava a arma do coldre. Ele virou–se, eu apontei à cabeça. BANG! Menos um porco. Na minha imaginação, claro. Rasguei a multa e vim–me embora. São estes dias que me fazem ficar louco. Toda esta cidade está podre. A Berlim dos espiões transformou–se numa cidade de animais, marginais e todo o tipo de freaks. Fazem–me perder o meu tempo e a paciência. Acho que o Charles Manson dizia algo como: se começasse a matar, mataria todo o mundo. Há dias em que me sinto assim. Por vezes, a vontade é irresistível, mas no fundo acaba por ser como diz o Rollins: “It’s one thing to hold the hammer in your hand, but do you have it in you to pound the nail?”. Eu não. Creio que muitos de nós não o têm. Passei por um agarrado esta tarde na Potsdam Platz. Reconheci-o, passado um momento, da escola onde andámos juntos. Perguntei–lhe o que é que tinha acontecido para estar assim. Respondeu–me que não se passava nada, que estava tudo controlado. Tudo controlado. Que piada. É mais um daqueles que embora dê na fruta frequentemente não acha que tem um problema. Tudo controlado. Um ou dois caldos por dia, mas não se passa nada. Mais um daqueles casos em que chove mas não molha. Ofereci–me para o ajudar, fiz–lhe o garrote, mas não consegui mais e vim–me embora. Apanhei duas baratas no chuveiro. A puta da senhoria continua sem arranjar a canalização. Acho que se estavam a comer, pelo menos estava uma em cima da outra. Lamentei pelas gerações que se perderam, mas tive de as matar. Foi mais forte que eu. VI 69


Literatura | Contos Crus, de Marco António (amostra)  
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