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Faculdade de Letras da Universidade do Porto Ciências da Comunicação 2º ano, turma 2

Estudar cá e lá... Jessica Martinez é uma das centenas de estudantes da Universidade do Porto que anualmente usufruem do programa ERASMUS, um programa de apoio interuniversitário de mobilidade de estudantes e docentes do Ensino Superior entre estados membros da União Europeia e estados associados, e que permite a alunos estudar noutro país por um período de tempo entre 3 e 12 meses. Aluna da Licenciatura de Línguas e Relações Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e a frequentar o 2º ano do curso, Jessica encontra-se durante este primeiro semestre a estudar na Masarykova Univerzita v Brno, República Checa. Via Skype disponibilizou-se a responder a algumas perguntas sobre esta mesma experiência.

nome das quatro Universidades que mais nos interessam, de acordo com a lista de vagas de cada curso. Isto porque cada curso tem acordos com diferentes Universidades Europeias. As listas de colocados são depois afixadas durante o segundo semestre desse ano. Assim que sabemos que fomos colocados são realizadas algumas reuniões com o departamento de ERASMUS das Faculdades que pretendem esclarecer as nossas dúvidas.

De tantas opções que são dadas, como é que se procedeu a escolha dessa Universidade? Essa foi uma etapa difícil, sempre sonhei viver e estudar em Paris, mas essa cidade acabou por não estar na lista das hipóteses possíveis no meu curso por isso coloquei logo a ideia de parte. Depois fiz alguma pesquisa relativamente às Universidades propostas e aos próprios países e acabei por Como é que surgiu a ideia de ires estudar escolher esta. para o estrangeiro no âmbito do programa E porquê a República Checa? ERASMUS? Um factor que para muita gente não é Desde bastante nova que tinha esta ideia na importante mas que para mim foi um grande incentivo cabeça, primeiro porque sempre fui bastante foi o aprender uma nova língua. Quase todas as aventureira, segundo porque tenho um irmão mais outras hipóteses se incluíam em países que eu já velho que também o fez e acabou por ficar por lá conhecia e dominava minimamente a língua, como é (Inglaterra) e tem uma vida mais estável do que se o caso do espanhol, do francês, do alemão... e o estivesse cá, mas acima de tudo pela experiência e checo era uma novidade. pela vontade de conhecer melhor outra língua e Além disso li boas referências sobre a cultura, algo que no meu curso é também bastante Universidade, conheci outra rapariga que tinha lá importante. estudado no ano passado e me aconselhou E a tua família apoiou-te desde inicio? Sem dúvida, como o meu irmão já o tinha feito, foi muito fácil para os meus pais aceitarem esta ideia. Aliás foram eles que sempre me incentivaram a ir, porque consideravam que esta seria uma óptima oportunidade de aprendizagem tanto a nível pessoal como académico.

vivamente, e era também um país que eu queria conhecer.

A cidade onde estas a estudar é conhecida na República Checa como a “cidade dos estudantes”, consideras um bom cognome para a mesma? Sim, Brno, de facto, resume-se na sua maioria à Universidade e aos estudantes, com um ambiente muito juvenil e festivo. Obviamente que também apresenta vários reflexos da história do país e monumentos imponentes, mas considero que a vida académica acaba por ser a alma desta cidade.

Como é que se desenrola o processo de candidatura a esse mesmo programa? E quando é que são sabidos os resultados? A candidatura é feita no ano lectivo anterior ao que nos queremos ausentar, pela altura das férias de Natal. Para isso é necessário preencher uma ficha Apesar de dizeres que o facto de estares a de pré-candidatura e uma carta de motivação, na aprender uma língua nova é uma vantagem e até qual explicamos as razões pelas quais queremos um incentivo, não tens dificuldade em realizar esta mobilidade. compreender as aulas e os teus colegas? Na ficha de pré-candidatura colocamos o

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Sim, a verdade é que não é fácil. Eu acabei por vir três semanas mais cedo para cá onde frequentei um curso intensivo de checo, e que foi essencial não só para contactar com a língua como para conhecer pessoas. Mas estou longe de falar fluentemente checo. Entre nós (colegas) falamos maioritariamente em inglês ou francês, mas vamos tentando praticar o checo sempre que possível. Relativamente às aulas, uma vez que a maioria das cadeiras que estou a frequentar são línguas, acabo por não ter muita dificuldade. Nas outras cadeiras, os professores vão dando algumas explicações em inglês no decorrer das aulas e quando tenho dificuldades tanto os professores como os colegas costumam estar disponíveis para alguma explicação. Tenho ainda a sorte de existirem apontamentos em inglês de algumas das aulas de antigos estudantes de ERASMUS e que acabam por facilitar bastante o estudo.

A nível de despesas, já referiste que divides casa com colegas, mas continuam a ser os teus pais a sustentar-te? Sim, é verdade, e essa foi uma das razões que mais me fez pensar e repensar se deveria vir ou não, porque apesar de tudo isto não é uma experiência que fique muito barata. Enquanto em Portugal as despesas eram poucas porque vivo com os meus pais, agora tenho de pagar casa e tudo o resto que isso envolve, como a alimentação e os bens de higiene... Os meus pais transferem-me X dinheiro mensalmente, que eu depois acabo por gerir segundo as necessidades que tenho. E o nível de vida, consideras muito diferente relativamente ao nosso país? As diferenças têm mais a ver com as prioridades do que propriamente com o nível de vida. É verdade que a alimentação é um pouco mais cara, mas de resto não sinto grandes diferenças, a verdade é que também desconheço o valor do salário mínimo por exemplo. Tem piada porque ainda à uns dias esse foi tema de conversa num dos jantares com os meus colegas de ERASMUS e acabamos por ter opiniões bastante semelhantes. O que sinto e o que me é dado a perceber é que as pessoas são um pouco mais realistas e poupadas aqui, ou seja gastam aquilo que têm e mesmo tendo mais dinheiro não esbanjam nem fazem questão de demonstrar que o têm. Na minha opinião esta acaba por ser a grande diferença entre os checos e os portugueses.

Sei que foste convidada pela própria faculdade a ensinar português a colegas teus ... Sim, é verdade, a faculdade fez-me essa proposta, e obviamente não recusei. Abri uma pequena turma que se junta semanalmente e onde ensino o básico, pelo menos para já. Tem sido uma experiência muito divertida porque sempre gostei de aprender línguas, mas estar do outro lado, ou seja, ser eu a ensinar a minha própria língua é diferente e muito desafiante. Esta é provavelmente uma das iniciativas que mais gosto nesta Universidade, o aproveitar o facto de ter alunos estrangeiros, para enriquecer a cultura Fazendo uma comparação, quais são as dos outros. Tal como eu ensino português, existem maiores diferenças entre o ensino na Republica mais alguns colegas que ensinam italiano, espanhol... Checa e o ensino em Portugal? E a integração, tem sido fácil? O curso aqui tem uma componente linguistica Sim, como já tinha referido o curso de checo bastante mais desenvolvida e exigente, o que me que fiz antes do começo das aulas acabou por ser dificulta bastante o estudo porque acabo por estar a um óptimo ponto de partida porque estávamos todos estudar matéria bastante mais avançada do que na mesma situação de estar a estudar num país estaria a estudar em Portugal. Se bem que isso estrangeiro, isso facilitou as relações, e agora acaba também por me deixar em vantagem acabam por ser as pessoas com que melhor me dou relativamente aos meus colegas portugueses, porque e com quem partilho casa. no próximo semestre e no ano seguinte Na Universidade as pessoas também são provavelmente terei maior facilidade a estudar as simpáticas, mas acabo por contactar mais com as línguas. pessoas de ERASMUS porque existe muita A nível de créditos também não tem sido fácil entreajuda entre nós tanto a nível académico como conciliar, porque as disciplinas aqui valem bastante pessoal. menos créditos do que aí (Portugal) o que me obriga 2


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a ter um horário muito carregado para que consiga ter equivalência às disciplinas. Em termos de ensino considero que aí (Portugal) existe uma relação um pouco mais aberta entre professores e alunos, enquanto aqui noto uma maior distância e respeito entre os dois grupos. Mesmo assim não considero as diferenças muito significativas. Dizes que as cadeiras que estas a fazer aí são essencialmente linguisticas, o que não aconteceria se estivesses na FLUP durante este semestre, não achas que poderás estar a perder disciplinas importantes durante o tempo que estas fora? Ponderei bastante relativamente às cadeiras a fazer aqui (Brno) mas de facto as línguas eram a melhor opção uma vez que ainda não domino o checo. Alem disso, e como já referi, as línguas são cruciais no meu curso, por isso acabo por me sentir bastante satisfeita com o leque de disciplinas que estou a frequentar. Não duvido, no entanto, que estando na FLUP, não existiriam cadeiras bastante importantes este semestre, mas não se pode ter tudo e esta foi uma opção que eu tomei e com a qual estou satisfeita.

E relativamente a Portugal, e mesmo só estando longe à cerca de 2 meses, de que é que mais sentes falta ou saudades? Sinto imensas saudades da família e amigos apesar das longas conversas pelo Skype. Sinto saudades de ouvir falar português e de ler em português. Sinto saudades das refeições da mãmã e das zangas com os meus irmãos. Sinto saudades de andar de autocarro e ouvir as conversas e soluções dos mais velhos face à crise. Sinto saudades de imensa coisa mas a verdade é que também é estando mais longe que acabo por dar mais valor a tudo isso.

No geral, achas que a experiência está a valer a pena? Sem dúvida alguma, está a ser uma óptima “aventura” mais a nível das vivências e crescimento pessoal do que propriamente a nível académico. Tenho aprendido e gostado das aulas e professores, mas de facto, este tipo de experiências obrigam-nos a ser mais independentes e a desenvolver uma maior autonomia. Ainda só passaram dois meses mas já sinto bastantes diferenças. Sinto-me muito mais responsável, independente e até mais sociável. Acabo por sentir que estou a crescer através das experiências que vou vivendo, das pessoas que vou E a vida académica aí em Brno, como a conhecendo, o que é bem melhor do que crescer descreverias? Considera-la semelhante à que segundo o que nos dizem e transmitem ou o que tinhas cá? lemos nos livros. A experiência académica é, de facto, bastante semelhante à que tinha aí (Portugal), estou Isso quer dizer que recomendarias esta envolvida em algumas actividades da Universidade, “aventura” a outros estudantes? como os encontros semanais entre alunos de Já o faço quase diariamente, até mesmo sem ERASMUS, as aulas de português e estou a pensar me aperceber, porque sempre que falo com amigos experimentar o grupo de canto. através do Skype ou do Facebook acabo por falar de À noite temos os encontros e cafés entre tudo isto, o que os incentiva também a querer amigos essencialmente aos fins de semana e experimentar. jantaradas durante a semana que se prolongam em Aliás a semana passada criei um blogue noites de estudo. Às vezes ainda vamos também a onde vou postando fotografias, curiosidades e algumas festas nas residências universitárias. histórias engraçadas que me vão acontecendo. Uma diferença é que aqui não há a tradição Acaba por ser uma forma de mostrar que estou bem das praxes nem do traje académico, e é deste ultimo e que estou de facto a adorar a experiência. que às vezes sinto falta. Quando o visto aí em Por isso mesmo, considero que esta é uma Portugal, sinto que realmente faço parte da “aventura” que todos os estudantes com comunidade académica, que estou a seguir uma possibilidades para tal deveriam experimentar, acaba tradição com quase um século de existência e acabo por nos abrir bastante os horizontes e, de certo por me orgulhar mais ainda da instituição onde modo, também nos ensina a ser mais tolerantes. estudo.

Teresa Teixeira 3


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