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12º JOGOS FLORAIS 2012-2013 “O mar-da descoberta à construção da nossa identidade espalhada pelos continentes”

O pequeno grumete

Raios e coriscos cruzavam os ares e enormes vagalhões, quais paredes gigantescas, agigantavam-se para os céus ameaçando tragá-los. Lá, em baixo, junto da praia, a pequenina estrela-do-mar refugiara-se debaixo de um rochedo, tremendo como varas verdes. Nunca vira tamanha fúria dos elementos e também não conseguia ver onde se encontrava com a água toda turva da agitação desacostumada. Era ainda uma estrelita e só nesse ano estava prevista a sua inscrição na Escola dos Animais Marinhos. Uma lapa que, por acaso, partilhava o mesmo abrigo, procurou transmitir-lhe uma calma que não sentia: -Ó pequena, nada receies. Quando os irmãos se zangam, anda tudo numa revoada. E coitado de quem for apanhado no meio da briga. Desaparece num abrir e fechar de olhos. - Os ir-irmãos? – gaguejou a pequenita. A lapa olhou-a e respondeu com ar de superioridade:


- Sim. Júpiter, o deus dos céus e das terras, e Neptuno, o rei dos mares e rios, são irmãos. Posso dizer-te que têm cá um geniozinho… Só o de Hades se lhes compara. - E quem é esse? – quis saber a estrelita que era muito curiosa. -O outro irmão, o deus dos mundos subterrâneos e dos mortos. Quando lhe chega a mostarda ao nariz, estamos perdidos. Começa a tremer a terra e lá vêm os terramotos, os maremotos e os tsunamis por arrasto e, se estiver mesmo agressivo, expele lava por todos os buracos que encontra e… temos os vulcões a destruírem tudo quanto vive… - Mas esse não está zangado, pois não? – perguntou ela, olhando para todos os lados como se um vulcão estivesse mesmo para surgir. - Não, e ainda bem. Quando esse também se zanga, a destruição é tanta que a humanidade bem pode recear pelo seu fim. Agora, os outros dois andam sempre às turras. Talvez por se verem mais assiduamente, enquanto o outro está lá nas profundezas onde ninguém o vai incomodar… BOOM… BRROOOOMMM… BRROOOMMMM… E os relâmpagos continuavam a cruzar enraivecidamente os ares.

Enquanto

as

coisas

se

passavam assim aqui, lá nos confins do horizonte, numa praia lusitana, um azul vivo e atrevido espelhava-se noutro azul-marinho, afoito e travesso, e embalavam-se ambos ao som do marulhar… para cá, para lá… para cá, para lá… A pequena onda deliciava-se na brincadeira com o pequenito que a queria apanhar e ela corria para a frente e para trás, para a frente e para trás, sempre seguindo os pezitos da criança. E gargalhadas cristalinas soavam sempre que a água, mais atrevidota, lhe subia pelas


pernas até aos joelhos. Ele não esmorecia e, aventureiro e desafiador, lançava-se novamente na aventura molhada e salgada. Excitado, o pequeno via o que a ama, meio distraída e ensonada, não conseguia sequer sonhar. No bordado infindável da toalha escondia os seus sonhos de maternidade frustrada. Ficava-se por olhar pelo filho dos outros que, mais afortunados, tinham quintas e rendas fartas e um brasão a encimar o casarão onde habitavam. Os olhos azuis brilharam mais e responderam ao apelo daqueles outros que o tentavam. Sorte o pescador estar atento e tê-lo arrebatado a tempo à onda traiçoeira que se alçara repentinamente pronta para o abraçar. - Que fizeste? – choramingou a ondinha, muito sentida. – Será que não posso ter um amigo com quem brincar? - Deixa lá. Desta vez escapou. Da próxima, levá-lo-ei. -O quê? Que dizes? – inquiriu, aflita, a pequenita. A outra, porém virou-lhe arrogantemente as costas e desapareceu no oceano, deixando a onda a pensar na estranha profecia. E jurou que havia de proteger o seu amigo.

Uma dezena de anos se encadearam na cadeia do tempo e, tal como os ciclos de vida se repetiram, também as querelas entre os dois irmãos se mantiveram sem que os homens as entendessem. Como podiam, se não eram deuses?Apenas alguns privilegiados alcançaram tal conhecimento e as narraram e cantaram nuns poemas a que chamaram epopeias: a Odisseia, a Ilíada, a Eneida… os Lusíadas.


Naquele dia, a fúria da natureza era tal que a nau em que viajava ameaçava ser engolida pelo mar revoltoso e cair nos abismos que as ondas alterosas e os ventos indómitos originavam. O mestre deu ordem para recolherem as velas, mas logo os ventos as desfizeram. No local onde se refugiara, o guerreiro, cansado e desalentado, olhava o livro que apertava ansiosamente contra o peito e uma agonia enchia-lhe os sentidos, enquanto ia declamando à procela:

O céu fere com gritos nisto a gente, Cum súbito temor e desacordo; Quem no romper da vela, a nau pendente Toma grão suma d’água pelo bordo. “Alija – disse o mestre rijamente, Alija tudo ao mar, não falte acordo! Vão outros dar à bomba, não cessando. À bomba, que nos imos alagando!”


Correm logo os soldados animosos A dar à bomba; e tanto que chegaram, Os balanços que os mares temerosos Deram à nau, num bordo os derribando. Três marinheiros, duros e forçosos, A menear o leme não bastaram, Talhas lhe punham, duã e doutra parte, Sem aproveitar dos homens força e arte! *

E mais não pode dizer, porque, de repente, se viu projetado para o oceano. Quando já desesperava por não se conseguir manter à tona, João, o pequeno grumete de apenas dezasseis anos, que a ele se afeiçoara, deitou-lhe a mão e ajudou-o a dar à costa a nado, salvando assim o seu precioso manuscrito. Tempos de glória trouxe ao país esse longínquo século XVI, que, no entanto, assistiu, insensível, à morte do seu poeta na miséria. Quanto ao rapaz de belos olhos azuis, que adorava o mar, as crónicas são omissas. Há quem diga que se tornou num grande navegante, com uma bela carreira e uma família numerosa; há quem diga que a profecia da vaga se cumpriu e que, numa das suas inúmeras viagens, a sua nau naufragou e a vaga o arrebatou; há quem diga que, quando a outra o levava, uma outra vaga de olho azul o salvou. *Estâncias 72 e 73, canto VI, Os Lusíadas

Teresa Portal – Prof. Dep. Línguas


O Pequeno Grumete  

Texto no âmbito do Projeto Curricular e dos Jogos Florais "Descobrir a Identidade. Desafiar o Futuro".

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