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o modo como somos postos em contacto ou expostos à L2 pode igualmente influenciar o tipo de sistema que cada um de nós desenvolve. O modo pode provocar grandes confusões a nível fonético, porque a distinção entre determinados sons não é bem definida (was e has/ has e is). Mas porque frequentemente ouvimos uma coisa e produzimos outra, podemos até desenvolver dois sistemas sobrepostos, o que nos leva ao factor seguinte;

as séries sucessivas de sistemas aproximativos geradas pela instabilidade do próprio sistema, instabilidade que se deve à permanente evolução na aprendizagem. Como acabámos de ver, o modo de exposição à L2 pode influenciar o sistema criado, daí que por vezes seja útil distinguir entre competência receptiva (regras que o aluno entende) e competência produtiva (regras que o aluno usa) a fim de tentarmos perceber que regra existe de facto na gramática do sistema do aluno quando ele produz, por exemplo, I has a computer at home, mas entende, quando ouve, I have a computer at home;

a idade: se para uns autores não há relação directa entre a idade e a aprendizagem duma L2, outros dizem que à medida que a idade avança, temos menos elasticidade mental para empreender novas tarefas − lembro o nosso provérbio 'burro velho não aprende línguas'23;

a hierarquia universal de dificuldade: dificuldade provocada por certos itens ou estruturas fonéticas, sintácticas e semânticas, qualquer que seja a background do aluno. São inúmeros os exemplos que se podem citar - distinção entre e pronúncia do som th − /θ/ como em thin e /δ/ como em that; ordem dos elementos mais simples duma frase, como a inversão do sujeito nas interrogativas ou a ordem de determinados complementos; confusão entre he e she;

a facilidade e a economia de esforço, ou o factor cronológico (como lhe chama Nickel), podem explicar o uso abusivo de palavras e estruturas aprendidas de início, porque a produção do aluno pode estar organizada de acordo com o que para ele é mais fácil dizer. Muitos alunos insistem em perguntar What is her job? quando o seu nível já os devia levar a perguntar What

23Considero que quanto mais cedo aprendemos uma língua estrangeira (caso das crianças), mais depressa e mais facilmente (com menor esforço, sem darmos por isso) a aprendemos. Talvez porque ainda não temos determinados vícios, nem a necessidade de saber os porquês, nem tão pouco nos preocupamos em identificar pontos de identidade ou convergência entre a L1 e a L2. O adulto tem tendência para transferir formas e sentidos, e a distribuição das mesmas, da L1 para a L2, não só do ponto de vista produtivo como do receptivo. Quantas vezes ouvimos alunos mais velhos dizer: 'Mas em português não é assim!' 'E por que razão tem de ser?' pergunto logo eu. A meu ver, tudo isto dificulta e emperra uma aprendizagem que se deseja o mais espontânea possível, sem interferências desta ou daquela natureza. Por outro lado, a criança preocupa-se muito mais em compreender e falar, que é a maneira mais natural de aprender uma língua, enquanto que o adulto se prende mais ao aspecto vocabular. A criança é mais adaptável e moldável. A criança é mais intuitiva, o adulto mais racional. A criança aprende inconscientemente, sem esforço, o adulto tem de ter consciência de tudo ou quase tudo, e tem consciência das suas dificuldades. A criança é mais rápida, mais espontânea, o adulto mais lento, porque mais ligado a processos mentais.

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Reflexões sobre a problemática do erro  

Trabalho pesquisado e escrito em 1995, mas só agora (Out10) publicado por mim

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