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intimamente ligadas ao contexto, ambiente (formal ou informal) e condições de aprendizagem. É um processo criativo natural, que permite ao aluno comunicar enquanto aprende, pois é irrealista pensarmos que, num ambiente de aprendizagem formal, um aluno passa directamente da língua materna para a língua estrangeira. Mas o mesmo já não se pode dizer de uma criança inserida num país estrangeiro, num ambiente totalmente estranho ao seu. Foi o que aconteceu comigo, quando pela primeira vez na vida frequentei uma escola. Uma escola inglesa, nos arredores de Londres. Para além do verdadeiro 'suplício' das primeiras semanas, por ter de ficar num sítio onde não entendia nada do que se passava à minha volta, mas onde me deixavam fazer quase tudo na esperança de me 'cativarem', o facto é que em três meses compreendia muito do que se dizia, pelo menos o suficiente para pôr fim ao pranto sentido com que todas as manhãs me separava da minha mãe. E também já papagueava imensa coisa. Tinha cinco anos!

Interlingua (James), approximative system (Nemser), transitional competence ou idiosyncratic dialect (Pit Corder) são outras denominações do conceito interlanguage, embora com ligeiras diferenças entre si. Interlanguage e interlingua sugerem um sistema misto ou intermédio entre a L2 e outra língua, que não tem forçosamente de ser a L1. Approximative system realça o facto de o aluno querer desenvolver um sistema semelhante ao da L2. De todas elas, destaco a expressão de Pit Corder, transitional competence, visto que ela realça um aspecto extremamente importante − a natureza instável e provisória, porque em permanente evolução e desenvolvimento, dos conhecimentos do aluno. Mal de nós, professores, se assim não fosse, embora o progresso deles fique frequentemente (muito) aquém do que desejaríamos. Mas o facto é que, na grande maioria dos casos, ele existe e é palpável, por (muito) ténue e lento que seja.

Não sendo autoridade em matéria de escolha deste ou daquele vocábulo, adoptei o termo interlanguage e foi nele que me fixei, talvez porque tenha sido um dos meus cartões de visita para o aprofundar deste tema (até certo ponto, uma questão sentimental!) e porque a minha experiência lectiva me leva a crer que a interlanguage de Selinker é o que mais claramente exprime (embora

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Reflexões sobre a problemática do erro  

Trabalho pesquisado e escrito em 1995, mas só agora (Out10) publicado por mim