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TERRA LIVRE PARA A CRIAÇÃO DE UM COLECTIVO AÇORIANO DE ECOLOGIA SOCIAL

BOLETIM Nº 22 JULHO DE 2010

- Há 25 anos, Fernando Pereira morto à bomba pelo Estado francês - Rachael Carson: Pioneira na luta para salvar o ambiente - Manifesto anti-ecológico - Os mitos da Incineração - A Impunidade da Indústria tauromáquica


FERNANDO MORTO ÀPEREIRA BOMBA PELO ESTADO FRANCÊS 25 HÁ 25 PEREIRA ANOS, FERNANDO MORTO À BOMBA PELO HÁ ESTADO ANOS FRANCÊS secretos franceses, então chefiadas pelo coronel Jean-Claude Lesquer. Os dois agentes

secretos

directamente

no

envolvidos

afundamento

do

Rainbow Warrior, Dominique Prieur e Fernando Pereira, natural de Chaves,

Alain Mafart, foram condenados a uma

onde nasceu a 10 de Maio de 1950,

pena

vivia na Holanda para onde havia

respectivamente, tendo saído da prisão

emigrado para fugir à Guerra Colonial

ao fim de menos de dois anos.

foi morto a 10 de Julho de 1985 a bordo

Aos responsáveis políticos, o primeiro-

do navio, do Greenpeace, Raibow

ministro, Laurent Fabius, e o presidente

Warrior, no porto de Auckland, na Nova

da República, Francois Miterrant, nada

Zelândia, onde se preparava para viajar

aconteceu e os autores do atentado

para o atol de Moruroa, no Pacífico Sul,

bombista continuaram a fazer as suas

onde a França realizava testes nucleares.

carreiras como nada se tivesse passado,

No referido porto, pouco antes da meia-

de tal modo que, em 1993, Alain Mafart

noite, com um pequeno intervalo,

foi promovido a coronel e Dominique

rebentaram duas bombas, colocadas por

Prieur é, hoje, também coronel na

agentes da DGSE (serviços secretos

reserva.

franceses). Depois de ter sido dada

É caso para dizer que o crime,

ordem para abandono do barco aquando

dependendo do mandante, por vezes

da primeira explosão, Fernando Pereira

compensa.

de

dez

e

sete

anos,

voltou atrás para tentar recuperar o seu material fotográfico e foi apanhado pela

Fontes: PAÇO, A. (2010). Há 25 anos: o afundamento do Rainbow Warrior

segunda bomba que abriu um novo buraco

e

terá

morrido

afogado,

pelo estado francês. Rubra, nº 8, p.30.

deixando a mulher e dois filhos, Marelle e Paul. Depois de ter negado a autoria do atentado bombista, o primeiro-ministro francês foi obrigado a reconhecer que os agentes tinham agido em “cumprimento de ordens”, emanadas dos serviços

http://aosabordamare.blogs.sapo.pt/309 12.html


RACHEL CARSON: PIONEIRA NA LUTA PARA SALVAR O AMBIENTE poderia fazer nada para mudar a situação." Em 1958, a ideia de Rachel Carson de escrever sobre os perigos do DDT, foi retomada

depois

de

ela

tomar

conhecimento da grande mortandade de pássaros em Cape Cod, causada pelas pulverizações de DDT. Porém o seu uso tinha aumentado tanto desde 1945, que Rachel

não

conseguiu

convencer

nenhuma revista a publicar sua opinião sobre os efeitos adversos do DDT. Ainda

que

Rachel

fosse

uma

de

pesquisadora e escritora reconhecida, a

Springdale, nos Estados Unidos da

sua visão do assunto soava como uma

América e fez o mestrado em zoologia

heresia.

Nasceu

em

1907,

na

cidade

na Universidade de Johns Hopkins. Leccionou zoologia na Universidade de

Foi assim que ela decidiu abordar o

Maryland e prosseguiu os seus estudos

assunto num livro que viria a chamar-se

num laboratório de Biologia Marinha

“A

em

de

Spring)”. Neste, além da penetração do

Massachusetts. Morreu com apenas 56

DDT na cadeia alimentar, e da sua

anos, em Abril de 1964.

acumulação nos tecidos dos animais e

Woods

Holo,

no

Estado

Primavera

Silenciosa

(Silent

do homem, (chegou a ser detectada a Em 1945, Carson e o colega Clarence

presença de DDT até no leite humano!),

Cottam ficaram alarmados com o uso

com o risco de causar câncer e dano

abusivo, por parte do governo de novos

genético, Rachel mostrou que uma

insecticidas químicos, como o DDT.

única

"Quanto

os

exploração agrícola, matava insectos

insecticidas, mais consternada eu fico”,

durante semanas e meses e, não só

disse Carson. "Descobri que tudo aquilo

atingia as pragas, mas um número

que eu mais prezava como naturalista,

incontável

estava correndo perigo e que eu não

permanecendo

mais

aprendo

sobre

aplicação

de

de

DDT,

outras tóxico

no

numa

espécies, ambiente

mesmo após a sua diluição pela chuva.


A

grande

polémica

movida

pela

cancro,

de

alteração

genética,

o

“Primavera Sileciosa” foi que não só ele

desaparecimento de espécies... Pela

expunha os perigos do DDT, mas

primeira

questionava de forma eloquente a

regulamentar a produção industrial de

confiança cega da humanidade no

modo a proteger o ambiente foi aceite.

vez,

a

necessidade

de

progresso tecnológico. Dessa forma, o livro ajudou a abrir espaço para o movimento ambientalista que se seguiu. A polémica em torno da publicação deste livro foi tal que a autora para além de ter sofrido ameaças judiciais viu a sua integridade pessoal questionada e ridicularizada,

sendo

mesmo

considerada uma “mulher histérica”. A verdade é que os detractores de Raquel Carson, sobretudo as grandes empresas químicas, não conseguiram calá-la, pelo contrário a “Primavera Silenciosa” tornou-se um best-seller em todo o mundo, sendo ainda hoje

"A beleza da natureza que eu tentava

considerado um marco na história do

salvar”, escreveu a um amigo em 1962,

movimento ecologista moderno.

"sempre foi o mais importante para mim — além da raiva que eu tenho, daqueles

A maior contribuição de “Primavera Silenciosa” foi a consciencialização pública de que a natureza é vulnerável à intervenção humana. Poucas pessoas até então se preocupavam com problemas de conservação, a maior parte pouco se importava

se

algumas

ou

muitas

que são insensíveis e fazem coisas brutais contra ela, sinto uma obrigação solene de fazer aquilo que posso. E sei que ajudei um pouco, ainda que essa ajuda tenha sido pequena. Não seria muito realista pensar que um livro poderia mudar tudo”.

espécies estavam sendo extintas. Mas, o alerta de Rachel Carson era assustador

Adaptado de:

demais

http://holosgaia.blogspot.com/2008/09/rachel-

para

ser

ignorado:

a

contaminação de alimentos, os riscos de

carson-uma-pioneira-do-movimento.html


MANIFESTO ANTI-ECOLÓGICO

O marxista heterodoxo português João Bernardo é autor do livro “O Inimigo Oculto. Ensaio sobre a luta de classes. Manifesto anti-ecológico”, editado em

Nesta obra, que inclui dois aspectos distintos mas interligados, um ensaio sobre a luta de classes e um manifesto anti-ecológico, João Bernardo considera que o movimento ecológico é o inimigo

1979, pelas Edições Afrontamento.

oculto pois não é transformador da sociedade,

mas

sim

defensor

e

legitimador da estagnação económica e não tem em conta o fim da exploração que

é

o

fundamento

do

sistema

capitalista.

Face à apatia em que se encontra a chamada sociedade civil, ao medo em manifestar a sua opinião por parte de alguns cidadãos, ao silêncio cúmplice (porque já estão ou encontram-se à espera de vez para comer à custa do erário público) por parte de outros, ao “regresso” ao naturalismo de algumas organizações, não é por acaso que este ano a moda é a biodiversidade, à absorção pelo “sistema” de algumas outrora vozes críticas, esta obra de João Ao longo do texto são de destacar quatro

temas

principais:

o

desenvolvimento do modo de produção

Bernardo, apesar de editada à 31 anos, merece não só ser lida, mas também alvo de reflexão profunda.

capitalista e a estrutura de classes, as crises do capitalismo e as lutas sociais, a crise da sociedade da abundância e, por último, o movimento ecológico como dado novo e aglutinador das lutas sociais.

Mariano Soares


OS MITOS DA INCINERAÇÃO Tal como tem sido veiculado nas

apresentam a incineração como uma

últimas semanas na comunicação social,

“única

a Associação de Municípios da Ilha de

resolução da problemática dos resíduos.

solução

possível”

para

a

São Miguel (AMISM), com o apoio do Governo Regional dos Açores, tem

O mito da inocuidade tecnológica tem

como objectivo instalar nesta ilha uma

sido

incineradora

políticos, que entre outros absurdos,

de

resíduos

sólidos

explorado

afirmam

urbanos (RSU) até 2014.

por

responsáveis

categoricamente

que

a

incineração é menos poluidora que a Se a AMISM já havia manifestado esta

produção de geotermia ou que ainda

intenção, entretanto “chumbada” pelo

ninguém deu conta dos problemas

Governo Regional em 2004, agora

ambientais das incineradoras em locais

ambas as instituições estão de mãos

onde esta tecnologia se encontra em

dadas pelo objectivo, demonstrando a

laboração.

falta de estratégia do Governo Regional em

matéria

de

ambiente

e

particularmente de resíduos, uma vez que o Plano Estratégico de Gestão de Resíduos, aprovado em 2007, em nada preconizava a incineração e muito menos a integrava na estratégia regional aparentemente definida.

São lamentáveis declarações uma vez que são conhecidos diversos impactes no

ambiente

e

saúde

pública

comprovados por instituições médicas de referência como a British Society for Ecological

Medicine

em

http://www.ecomed.org.uk/publications/ reports/the-health-effects-of-wasteDe mãos dadas surgem agora o poder

incinerators.

local e regional apelando a uma panóplia de mitos, sabe-se lá se

São diversas, em Portugal e noutros

comprados por interesses terceiros, que

países

(recomenda-se

a

visita

a


manifestações

uma população educada para eficazes

públicas das comunidades contra a

reciclagem e compostagem afinal que

incineração de resíduos, receando pela

resíduos ficariam para queimar?

www.no-burn.org),

as

sua saúde com consciência que os problemas ambientais “de que ninguém

A solução da incineração, na óptica dos

dá conta” só vão surtir efeito após

nossos governantes, visa o crescimento

períodos prolongados de exposição, em

exponencial da produção de resíduos,

altura em que os actuais responsáveis

desrespeitando

políticos já estarão longe das cadeiras

população na adequada prevenção e

do

gestão dos resíduos, alimentando um

poder

e,

por

isso,

da

a

contribuição

da

sistema neoliberal capitalista de que até

responsabilidade.

o tratamento de resíduos tem de gerar lucros, de preferência a entidades privadas. Mais não se pode concluir que aos olhos dos nossos governantes, a política dos 3R (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) em muitas das fileiras de resíduos não passa de mais um mito para enganar a população, tal como tem sido até aqui O

mito

de

que

a

incineração

funcionará em pleno com um sistema

pela

falta

de

encaminhamento

adequado.

de reciclagem é também dos mais usados

pelos

mesmos

responsáveis

Como poderão entidades que não têm

que

argumentam

sabido gerir um sistema de recolha

orgulhosamente que 70% dos resíduos

maioritariamente indiferenciado, gerir

produzidos na Europa são incinerados,

um sistema de reciclagem e uma

como

incineradora?

políticos

se

não

reciclados,

existissem

compostados

resíduos ou

que

simplesmente têm de ser colocados em aterro por falta de condições para a queima. Queremos estar na vanguarda da Europa como as regiões que têm de comprar

lixo

investimentos

para numa

manterem

os

tecnologia

dispendiosa como a incineração? Com


O mito da produção de energia

de uma nova matéria-prima e será

através da queima de resíduos é a mais

consumida energia para a transformar e

badalada tentativa de tornar a opção

para a trazer de novo ao mercado onde

pela incineração mais verde e amiga do

será consumida e, obviamente, paga. É

ambiente.

esta a responsabilidade de uma região que aposta na natureza e ambiente no contexto internacional? Não poderemos depreender que os Açores enquanto ilhas sustentáveis não passará de mais um mito (entre muitos outros que poderia continuar a enumerar) difundido mas não praticado?

Para além de todos os malefícios ambientais e de saúde pública que representa a queima de resíduos, os avultados investimentos na instalação de uma incineradora (perto de 100 milhões de euros) acrescidos dos custos de

funcionamento

e

manutenção

garantirão um custo muito elevado à energia produzida, que poderia ser

Deseja que queimem o seu futuro? Não

produzida por fontes renováveis como a

deixe para amanhã, diga hoje “Não à

geotermia. Será tão interessante a

Incineração

produção de energia por uma eventual

www.amigosdosacores.pt/incineracao-

incineradora, que até a eléctrica regional

nao.

demonstrou

desinteresse

nesta

publicamente possível

energia

produzida pela combustão de resíduos? O processo de queima de resíduos não é mais

que

um

processo

de

desvalorização energética. Veja-se que por cada resíduo queimado e não reciclado será necessária a exploração

nos

Açores”

em

Texto de Diogo Caetano Fonte: http://planisferiodasilhas.blogspot.com/


A IMPUNIDADE DA INDÚSTRIA TAUROMÁQUICA Em 2010, foi aprovado o Decreto No dia 21 de Outubro de 1995, na

Legislativo Regional n.º 11/2010/A

Quinta das Casas, no lugar do Rosário,

(Regulamento Geral dos Espectáculos

freguesia da Terra Chã, na ilha Terceira,

Tauromáquicos de Natureza Artística da

na

200

Região Autónoma dos Açores) que no

convidados, entre os quais o então

seu artigo 12º proíbe a realização de

Secretário Regional da Agricultura e

touradas “quando tenha sido decretado

Pescas, Adolfo Lima, foram mortos dois

luto nacional ou regional”.

presença

de

cerca

de

touros durante a lide, o que era proibido pela lei em vigor.

Precisamente a 20 de Junho, dia de luto nacional pela morte do escritor José

Este crime foi denunciado por algumas

Saramago, integrada nas Sanjoaninas,

organizações, como os Amigos dos

realizou-se, na Praça de Touros da ilha

Açores e os Verdes que apresentaram na

Terceira uma tourada.

Assembleia

da

República

um

requerimento, condenando “o bárbaro espectáculo” e exigindo a intervenção do governo face à corrida de touros de morte ilegalmente realizada e tanto quanto apuramos foi apresentada queixa na PSP.

O assunto caiu no esquecimento e pensamos que o crime terá ficado sem castigo. Independentemente de sermos leitores ou não de Saramago, de concordarmos ou não com as suas opções políticas ou outras a lei está em vigor e tanto quanto é nos dado saber os promotores dos eventos

tauromáquicos

dizem-se

respeitadores do chamado Estado de Direito e as forças policiais, os tribunais


e os governantes dizem tudo fazer para que as leis sejam cumpridas por todos. Então, por que nada acontece (tem acontecido)

quando

a

indústria

tauromáquica viola as leis? Por que razão

as

várias

instituições

que

suportam o Estado não mugem nem tugem?

E a chamada sociedade civil, o que tem feito?

Por que se calam os senhores deputados da Região que inutilmente, quanto a nós, perderam o seu tempo, pagos pelo erário público, a debater e a aprovar uma lei que é posta no lixo pouco tempo

Por que não dizem nada sobre o assunto, as associações de protecção dos animais? Será que o reino animal é constituído apenas por cães e gatos?

depois? Por que razão mantêm-se silenciosas as Que diligências fez a PSP, que foi

chamadas ONGA dos Açores?

avisada previamente, para impedir a realização da tourada?

Por dependerem de instituições que também promovem touradas? Por serem

Que medidas tomou (vai tomar) o Sr. Director

Regional

da

Cultura?

Nenhuma?

meros

executantes

das

directivas

estatais? Por não passarem de simples prestadores de serviço à Secretaria Regional do Ambiente e do Mar? Por

O silêncio, a apatia, a cumplicidade só pode ter uma explicação: todas as instituições do Estado estão, não ao serviço do bem comum, como dizem.

acharem que o inútil sofrimento animal nada tem a ver com o ambiente? Por existirem apenas para enverdecer o capitalismo?

Pelo contrário, não passam de serviçais de um sistema que só sobrevive à custa da exploração do homem, dos animais e do próprio planeta, o capitalismo.

Mariano Soares 27 de Junho de 2010

Terra Livre 22  

Boletim para a criação do Colectivo Açoriano de Ecologia Social

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