Moço em estado de sítio

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Moço em estado de sítio

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Oduvaldo Vianna Filho Moço em estado de sítio organização

Maria Sílvia Betti


8 Apresentação Maria Sílvia Betti

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Moço em estado de sítio

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Primeira parte

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Segunda parte

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Terceira parte

110 Posfácio

Paulo Bio Toledo 122 Anexos 123

Fichas técnicas das apresentações

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Sugestões de leitura

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Sobre o autor

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Sobre a organizadora


Apresentação Maria Sílvia Betti


Moço em estado de sítio, escrita em 1965, é basicamente uma peça de síntese, um mapeamento crítico inédito das posições da intelectualidade de classe média carioca no contexto imposto pelo golpe militar de 1964. Suas questões centrais abordam, por um lado, os desafios enfrentados pelo teatro de ativismo político, e, por outro, os processos de cooptação inerentes à modernização implantada no período, que caminhava de mãos dadas com a concentração de renda e com o agenciamento dos interesses das multinacionais. Os embates entre personagens como Lúcio Paulo (o protagonista), Bahia, Estelita, Suzana e Jean-Luc dão elementos para que sejam expostos os contrastes entre as linhas de diversas correntes do debate sobre a relação entre arte e política nesse momento. Delineiam-se, assim, em diálogos incisivos e com uso frequente de cortes de espaço e de ação: o ativismo de Bahia, que dirige o grupo de teatro político e defende a organização coletiva do trabalho; o empenho militante de Suzana, afetivamente dividida entre Bahia e Lúcio; o esteticismo de Estelita, que questiona o sentido político da arte e valoriza as chamadas verdades eternas; a ambiguidade ética e política de Lúcio, revestida de forte senso de oportunidade e carreirismo; e o existencialismo irreverente e anárquico de Jean-Luc. Focos críticos importantes são dirigidos à imprensa, ao microcosmo da família e à representação de mulheres de diferentes idades e condições sociais. Personagens como Cota (a mãe), Lúcia (a irmã) e a sonhadora e ingênua Noemia, de cujas expectativas amorosas Lúcio Paulo tira proveito, contribuem para lançar luz crítica sobre a dubiedade de pensamento e de conduta do protagonista, bem como sobre aspectos comportamentais e de classe. No grupo de teatro político, a posição de Suzana é fundamental para que a peça de Lúcio, que disputa seu afeto, bem como a liderança do coletivo, ganhe força 9


mesmo tendo sido desaprovada pelo diretor, levando assim à divisão interna e ao desastroso enfrentamento das tropas policiais no dia da greve geral dos estudantes. Nesse episódio e em outras ocasiões, Lúcio defende posições de maior radicalidade em relação a Bahia, enquanto, paralelamente, busca projetar-se como figura de prestígio também no jornalismo profissional. No jornal em que passa a trabalhar ao desistir da carreira de advogado, ele se torna amante de Nívea, irmã do dono (Galhardo), e a ajuda na execução de projetos estéticos bastante próximos aos dos poetas e artistas ligados ao concretismo. Como se sabe, os concretistas foram críticos acerbos da arte engajada, o que torna clara a ligação direta do personagem a correntes que se chocam entre si por seus pressupostos de pensamento e criação. Galhardo, o dono do jornal, vê no “esquerdismo” do rapaz um atrativo mercadológico para o suplemento cuja direção lhe oferece, sem deixar de alertá-lo, porém, que lhe dará “as notícias de lá de cima”, ou seja, as pautas políticas nacionais e internacionais de grande envergadura. No encadeamento das cenas, ficamos sabendo que Galhardo pretende se tornar acadêmico e que não deseja incorrer no desagrado do governo nesse momento. No interior da família, um relevo crítico particularmente marcante é dado à condição da mulher submetida aos valores sociais dominantes. Vemos assim a situação angustiante de Lúcia, cuja gravidez indesejada é simplesmente ignorada tanto por Estelita, de quem engravidara, como por seu irmão Lúcio, com quem tentara se abrir e dialogar. A imposição do aborto pelo pai, Cristóvão, com a aprovação tácita de Cota, é recebida por ela sem questionamento ou resistência, expondo de maneira cabal uma atmosfera familiar opressiva e conservadora. Além disso, como personagem, Cristóvão antecipa alguns traços de caracterização externos e secundários de 10


Manguari Pistolão, protagonista da última peça de Vianna, Rasga coração (1974), e de Souza, de Nossa vida em família (1972). Assim como Manguari, Cristóvão tem 57 anos, é funcionário público e procura valer-se de favores por parte de superiores e conhecidos de prestígio, ainda que não para qualquer finalidade militante. Como Souza, ele se preocupa com a correção da expressão falada e escrita da língua portuguesa. Ao contrário de Manguari, Cristóvão não tem percepção crítica das condições de vida na sociedade em que vive. A valorização do que lhe parece ter sido um ato de arrojo político no passado leva-o a relatar repetidas vezes o fato: um furo de reportagem dado sobre a morte do presidente Rodrigues Alves. Ao mesmo tempo, seu desejo de encorajar o filho na advocacia o expõe a uma situação constrangedora que, sem que ele se dê conta, é casualmente presenciada pelo rapaz. Cristóvão e Cota representam a mediania conservadora da pequena classe média urbana, cujo valor maior é a estrita observância dos preceitos institucionais que regem suas vidas no microcosmo de relações à sua volta. O olhar hipotético de compaixão e empatia que talvez lhes fosse dirigido pelos leitores e espectadores fica fora de questão pela determinação pusilânime com que ambos induzem Lúcia ao aborto, deixando claro, assim, que a moralidade aparente do cotidiano familiar é para eles o valor maior e a prioridade inquestionável. Dentre todos, Bahia é o personagem de maior coerência, seja por lidar com a realidade concreta do trabalho do grupo teatral, seja por ter de enfrentar criticamente a radicalidade com que Lúcio disputa a direção e o afeto de Suzana, cooptando parte dos outros membros e ela própria para seu projeto. Ao contrário de Lúcio, que vive com os pais e tira proveito da acolhida e do apoio de amigos e de namoradas, Bahia enfrenta a necessidade da sobrevivência, e se vê obrigado a fazer trabalhos avulsos, como a 11



Personagens Lúcio (Lúcio Paulo Bastos Seabra) Lúcia Cristóvão (Cristóvão Paulo Bastos Seabra) Cota Jean-Luc Suzana Bahia (Otaviano Bahia) Nívea Bandeira Estelita Galhardo Noemia Etchevarrieta (Etchevarrieta Guimarães) Velho Velha Sujeito Menino Um (Jorge) Dois (Nicola) Três

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O texto desta edição foi estabelecido com base no original datilografado do autor datado de 06 de junho de 1965.


Primeira parte Bahia, com macacão de operário. Abraçado com Suzana. Os dois tensos. Bahia

Eu tenho de ir embora.

Suzana

Não dá mais, Miro. Eles estão aí, estão aí…  (Bahia tenta dar um passo. Entram mais seis ou sete operários. Lúcio entre eles) Não… (Dirigindo-se a um deles) … ô, Zé Jorge, não… Miro não fez nada, não.

Um

Delatou Otoniel. Otoniel foi preso. Não adiantou delatar que a greve saiu mas ele alcaguetou.

Suzana

Não… não foi o Miro… (Os outros avançam, Um dá uma pancada em Bahia. Suzana procura intervir) Não! Covarde… Deixa o Miro… Não…

(Dão pancada em Bahia. Bahia caído, semidesfalecido) Um

É melhor mudar com ele para o mais longe que tiver daqui. (Suzana vai falar) Razão ele pode ter. Sem dinheiro, apertado na polícia, na fábrica. Pode estar assim de razão. Mas são as dele. Não são as da gente.

(Saem. Luz esmorece. Ruído de palmas – gritos – “Delator! Delator!”. A luz esmorece. Abre. Os atores sentados tiram o macacão, guardam coisas. Lúcio no meio)

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) V617 Vianna Filho, Oduvaldo Moço em estado de sítio: Oduvaldo Vianna Filho Organização e apresentação: Maria Sílvia Betti Posfácio: Paulo Bio Toledo São Paulo: Editora Temporal, 2021. 136 pp. ISBN 978-85-53092-14-7 1. Teatro brasileiro contemporâneo. 2. Dramaturgia. I. Vianna Filho, Oduvaldo. II. Betti, Maria Sílvia (Organização). III. Toledo, Paulo Bio. (Posfácio). IV. Título.

Índice para Catálogo Sistemático I. Teatro brasileiro contemporâneo: Dramaturgia Bibliotecária responsável: Janaina Ramos CRB-8/9166

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Fundada em 2018, a temporal nasceu a partir do projeto de trazer ao público brasileiro obras da dramaturgia contemporânea, tanto nacional como estrangeira, inéditas ou esgotadas no país. Dada a amplitude do universo teatral, a temporal pretende também publicar textos teóricos e críticos que ajudem a refletir sobre as obras ficcionais desse gênero. Este título pertence à coleção de obras selecionadas de Oduvaldo Vianna Filho e foi composto com a fonte Graphik e impresso em papel Pólen Soft 80 g/m² pela gráfica Margraf em março de 2021.