Corpo a corpo

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Corpo a corpo

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Oduvaldo Vianna Filho Corpo a corpo organização

Maria Sílvia Betti

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8 Apresentação Maria Sílvia Betti

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O meu corpo a corpo

Oduvaldo Vianna Filho 24

Corpo a corpo

68 Posfácio

Rosangela Patriota 92 Anexos

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Fichas técnicas das apresentações

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Sugestões de leitura

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Sobre o autor

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Sobre a organizadora


Apresentação Maria Sílvia Betti


Em 1970, Oduvaldo Vianna Filho escreveu o monólogo Corpo a corpo, que estreou em São Paulo no ano seguinte sob a direção de Antunes Filho. Desde 1965, com Moço em estado de sítio, e 1966, com Mão na luva, Vianna vinha discutindo a situação da intelectualidade de esquerda e de classe média, pressionada por diferentes formas de adesão à ideologia do regime civil-militar instaurado pelo golpe de 1964. Colocar essa classe sob o foco da análise em 1970 continuava a ser uma tarefa urgente, inadiável e desafiadora, já que voltada para setores da sociedade e do mundo do trabalho que continuavam a se transformar. Corpo a corpo põe em cena a longa noite de angústias existenciais, políticas e afetivas de um publicitário (Luiz Toledo Vivacqua), e por meio dela apresenta várias das racionalizações e repactuações implicadas na ascensão profissional que se apresentava para a classe média no pós-golpe. Dentro da concisão estrutural do monólogo, a madrugada de bebida, drogas e solidão do protagonista põe a nu sua angustiante divisão interior e abre a cena (o pequeno espaço interno de seu apartamento) para a vertiginosa verbalização de suas fantasias e tentativas de enfrentamento. Com o golpe, todos os canais de contato entre intelectuais ou artistas de esquerda com os movimentos populares haviam sido sumariamente cortados: os núcleos de trabalho cultural ligados ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE) haviam sido desarticulados. Em 1968, o Ato Institucional número 5 impusera a censura prévia ao teatro e à imprensa. Uma ideologia de “segurança nacional”, voltada para o combate ostensivo às atividades ditas subversivas, levara ao acirramento da repressão, perseguição, prisão, tortura e desaparecimento de militantes. No mundo do trabalho, as campanhas salariais foram abolidas, os sindicatos foram postos sob intervenção militar, e o maior processo 9


de acumulação concentrada de renda da história do país teve início. Em meados da década de 1950, o capital monopolista passara a dominar o processo de industrialização, alterando radicalmente a estrutura produtiva e impondo um enorme salto tecnológico. Nesse contexto, o Estado brasileiro assumiu os grandes investimentos em infraestrutura, enquanto o capital estrangeiro se direcionou para setores industriais que lhe assegurassem um retorno financeiro mais rápido, como a indústria de bens de consumo duráveis e não duráveis. Diante desse quadro, a propaganda foi ganhando importância cada vez maior no Brasil. Entre 1964 e o início dos anos 1970, o próprio governo militar passou a fazer farto uso de propagandas e a divulgar amplamente suas medidas, tornando-se um dos maiores anunciantes do país. O modelo econômico implantado pela ditadura apoiava-se na superexploração do trabalho e no consumo de luxo: era o propalado “milagre econômico”, que, segundo o historiador Emir Sader, tinha como santo o arrocho salarial.1 O termo “milagre econômico” designou o conjunto de medidas implantadas através da política econômica de Antônio Delfim Netto,2 que fomentou o crescimento ao privilegiar o influxo de capitais estrangeiros – criando um índice prévio de aumento de salários que subestimava a inflação – e ao abandonar os programas sociais do Estado.

1.

Emir Sader, “Brasil, de Getúlio a Lula”. Blog do Emir – Site oficial da Central Única dos Trabalhadores (CUT Brasil), São Paulo, 27 abr. 2009. Disponível em: <https://www.cut.org.br/noticias/emir-sader-brasil-de-getulio-a-lula-adab>. Acesso em: 02 set. 2020. 2. Membro do Conselho Consultivo de Planejamento (Consplan), órgão de assessoria à política econômica do governo Castelo Branco (1964–67), em 1965, e do Conselho Nacional de Economia, no mesmo ano. Foi secretário da Fazenda do governo paulista de Laudo Natel entre 1966 e 1967 e ministro da Fazenda de 1967 a 1974. 10


Enquanto a expansão da indústria (principalmente a automobilística) tinha favorecido as classes média e alta, a compressão dos salários atingiu duramente o proletariado,3 e produziu uma elevada taxa de concentração de renda. O “milagre” foi acompanhado pelo crescimento das classes médias, primeiro nos grandes centros, depois nas cidades menores e nos setores rurais modernizados. A essa expansão, ligada ao aumento da produção industrial, do comércio e dos transportes, associavam-se a explosão demográfica e o crescimento das cidades, do comércio e do crédito. A classe média, ao contrário do proletariado, era a beneficiária provisória do crescimento econômico, do modelo político e dos projetos urbanísticos fomentados pelo governo nesse período, e assim desenvolveu uma mentalidade individualista, tornando-se “sócia despreocupada do crescimento e do poder”, no dizer de Milton Santos,4 e apegando-se ao consumo mais do que às perspectivas de transformação da sociedade. Diante desse contexto, a escolha temática de Vianna em seu monólogo não poderia ser mais significativa para a abordagem das questões políticas e ideológicas do país. Corpo a corpo colocava em foco as duas opções inconciliáveis que se apresentavam para a intelectualidade de esquerda nas camadas médias nesse momento: a de aderir às formas de promoção regidas pelo sistema, ou a de repudiá-las mantendo o alinhamento com o pensamento político e cultural do setor de esquerda a que antes se ligavam. Para Vianna, como dramaturgo, o período pós-golpe e pós-AI-5 era particularmente adverso, uma vez que suas 3. Boris Fausto, História concisa do Brasil. São Paulo: Edusp, 1999, p. 269. 4. Milton Santos, Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, 2017, p. 66. 11


Personagens Vivacqua (Luiz Toledo Vivacqua) Suely Radioamador (Alessandro Goméz)

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O texto desta edição foi estabelecido com base na última versão publicada durante a vida do autor, isto é, o texto da Revista da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, op. cit. Optou-se por manter os trechos em espanhol tal como constam na edição original que nos serviu de referência (pp. 56–59), bem como as demais ocorrências em língua estrangeira.


Sala de um apartamento em Copacabana, bem montado. Pequena varanda dá para a rua. Num canto, meio empilhada, a aparelhagem de um radioamador. Abre a cortina. Luiz Toledo Vivacqua está contra a porta. Força-a para fechá-la. Do lado de fora, sem ser vista, Suely resiste. Vivacqua

Vai embora daqui, sai daqui! Não quero mais ver essa sua cara! Não quero mais...

Suely

(Voz) ... deixa entrar, Vivacqua, estúpido! deixa en…

Vivacqua

Polícia! Políííciaaaaa! Você sufoca, Suely! todos sufocam; não quero ver gente e as suas gravatas, não quero e muito prazer, muito prazer! Me diz como é que podem fazer isso com o Aureliano? Querem botar ele na rua assim vai, vai, vai…  Aureliano me ensinou a dizer papai-mamãe: “diz papai-mamãe, isso, isso, Vivacqua, papai-mamãe, papai-mamãe”. Ânsia de vômito, entende quando o estômago embrulha assim? Sabe quantos estômagos eu tenho? Um só! Quando Deus expulsou o homem do paraíso, arrancou todos estômagos dele; deixou um único miserável violáceo estômago “vai por aí, infeliz, com um estômago só pelo mundo…”.

Suely

(Voz) … me deixa entrar, Vivacquaaaaa…

Vivacqua

S’emboraaaaaaaaa…

Suely

(Voz) ... de vez, hein? Vou de vez, vou de vez, vou de vez, vou… 25


Vivacqua

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(Consegue fechar a porta. Dá pontapés) Mas é de vez, Suelyzinha, de vez, de vez, de vez – puff! Não tem mais casamento! Spluft! Acabou! C’est fini. Paris c’est finie! Não vou mais casar, não tem mais casamento. Te detesto, Suely! Detesto. Você é o meu medo, a minha covardia, meu rame-rame. Você não é deslumbrante, quero uma mulher deslumbrante. Que é que você tem pra me dizer? “O Aureliano? Vão mandar ele embora? Ah, que chato, Vivacqua! Ui, que chato, oi, que chato! Mas o que é que se há de fazer?” Não é assim que você termina sempre? “O que é que se há de fazer?” Hein? Não é isso? Não é essa sua mensagem? Não é esse o seu ponto de venda? O seu carro-chefe? “Vida é assim mesmo, Vivacqua! Toca pra frente! Amanhã vou pôr minha saia godê, você põe um foulard e vamos passear por cima dos escombros” – fom-fom! fom-fom! Buzina. Aua-aua. Aua-aua! Você foi buzinada. Não, não, não: Aureliano sai, eu saio também! E tem que decidir hoje! Hoje, Aureliano tem que decidir! Aureliano é meu irmão, ele é meu… cuspo na cara do Fialho, cuspo na sobrancelha dele: Fialho pau mandado dos Tolentino & Tolentino, cuspo na sobrancelha dele!… O Tolentino viaja pro estrangeiro e me telefona pra saber como vão as mulheres da praça! “Como é, tem alguma novidade na praça?” Mas onde é que nós estamos? O que é isso? Mas então o quê? Mas eu sou cafetina? Vou andar de turbante agora? Com brinco e boca pintada? Sou


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) V617 Vianna Filho, Oduvaldo Corpo a corpo: Oduvaldo Vianna Filho Organização e apresentação: Maria Sílvia Betti Posfácio: Rosangela Patriota São Paulo: Editora Temporal, 2021. 104 pp. ISBN 978-85-53092-13-0 1. Teatro brasileiro contemporâneo. 2. Dramaturgia. I. Vianna Filho, Oduvaldo. II. Betti, Maria Sílvia (Organização). III. Patriota, Rosangela (Posfácio). IV. Título.

Índice para Catálogo Sistemático I. Teatro brasileiro contemporâneo: Dramaturgia Bibliotecária responsável: Janaina Ramos CRB-8/9166

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Fundada em 2018, a temporal nasceu a partir do projeto de trazer ao público brasileiro obras da dramaturgia contemporânea, tanto nacional como estrangeira, inéditas ou esgotadas no país. Dada a amplitude do universo teatral, a temporal pretende também publicar textos teóricos e críticos que ajudem a refletir sobre as obras ficcionais desse gênero. Este título pertence à coleção de obras selecionadas de Oduvaldo Vianna Filho e foi composto com a fonte Graphik e impresso em papel Pólen Soft 80 g/m² pela gráfica Margraf em março de 2021.