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Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Reportagem de Acção Acompanhamento da representação de uma peça de um grupo de teatro amador juvenil

Telmo Romeu Simões Turma 2 24 de Maio de 2013


Está um início de tarde de sol intenso, a tentar enganar uma primavera que não se quer deixar mostrar. Na entrada principal do teatro está um grupo de adolescentes, protegidos pela sombra criada pelo edifício. Sentados nos pequenos muros que rodeiam o passeio, relembram as suas falas, mecanicamente. Uma pequena discussão bem-disposta provocada por um engano interrompe o chilrear dos pássaros e o som ocasional de um carro a passar na estrada ao lado. Tem de ser resolvida com recurso ao guião, e provoca um sorriso na cara de quem tinha razão. Estão-se a preparar para a segunda representação, que por vezes é a mais perigosa. A estreia tinha sido no dia anterior, e “correu bem”, afirmava a Tatiana. A peça "Bang, Bang, estás morto!", pelo grupo de teatro da Escola Básica D. Afonso IV Conde de Ourém, vem no âmbito da Cenourém, um festival de teatro amador criado pela Câmara Municipal de Ourém. As professoram Cristina e Mafalda, que estavam atrasadas, chegam finalmente. Buzinam o jipe onde vêm e acenam com um grande sorriso na cara. Todos se levantam contentes: já podem começar a ensaiar devidamente no cineteatro.

Grupo discute, em roda no palco, a estreia do dia anterior


A sala de espectáculo, fria e silenciosa, contrasta imediatamente com o exterior. O sol ofuscador dá lugar à penumbra das luzes artificiais vindas da teia. As cadeiras vermelhas, ainda vazias, estão todas viradas para o palco, confundindo-se com vestidos glamorosos sedentos de espectáculo. O sol penetra apenas pelas fendas nas cortinas pretas das pequenas e escondidas portas laterais. Elas fazem a divisão entre o mundo real e este mundo imaginário. Ainda não começou o teatro, mas parece já uma realidade diferente. Ouvem-se apenas distantemente os gritos das crianças – “Já me elogiaram nas redes sociais! Quem foi? Não sei, era anónimo…”. Sentam-se finalmente todos em roda no meio do palco. “O meu objectivo deste ano era fazer uma representação em que o dinheiro da bilheteira revertesse a favor de uma instituição de caridade aqui da zona.” – A proposta, vinda da professora Cristina, deixa um ar de espanto na cara dos jovens. Nunca pensaram que poderiam ajudar os mais desfavorecidos ao fazerem aquilo de que gostam. Falam também da estreia: o que não correu tão bem, o que podem melhorar. A professora Mafalda, que já não dá aulas na escola, desabafa “Ontem senti-me um dos vossos”. Terminadas as análises, passam todos rapidamente para o ensaio geral. O cenário é minimalista: no palco vê-se apenas um caixão preto no centro. O teatro puxa pela imaginação dos espectadores. As professoras sentamse no meio da plateia, atentas a todos os pormenores, e dão ocasionalmente uma ou outra indicação. Os que estão fora de cena falam aos sussurros, atirando observações e conselhos frequentemente. Alguns levam já adereços para os camarins. O ensaio vai avançando aos soluços, com bastantes pausas. “Quem é que falta?!” pergunta o Pedro, que vai ser hoje o protagonista. Salta rapidamente um rapaz do banco para fazer a vez do desaparecido. Com os guiões na mão, sempre bem-dispostos e sorridentes, o sentimento é de descontracção, e não de nervosismo como seria de esperar, o que revela um trabalho preparado com antecedência.

No ensaio geral, todos os aspectos técnicos da peça têm que ficar resolvidos


Mesmo nos ensaios, o teatro juvenil tem a característica de nos surpreender muito facilmente. “És um Deus” – diz a Mónica com um tom sarcástico e ao mesmo tempo provocador. Encaixada entre outras frases, a dela destaca-se. Faz levantar os pêlos do braço. Uma afirmação de três palavras vinda de uma pequena e inocente rapariga de 12 anos baralha todas as concepções que temos de arte: como pode uma pessoa que nunca vimos, praticamente sem experiência, transmitir tanto sentimento? Como pode um pequeno momento como este mexer tanto connosco? Mas analisando mais profundamente, este não é um caso isolado. Esta peça coloca crianças a fazer o papel de adultos, mas fá-lo melhor que qualquer outro grupo de teatro da região conseguiria fazer. Crianças a fazer de adultos, melhor que adultos. No cimo da sala, o João, com a sua mesa iluminada no meio da escuridão apenas por um pequeno candeeiro, vai ajustando as luzes do palco. Um funcionário do edifício traz uma enorme escada de alumínio, que encosta numa parede lateral ao lado de uma torre de luzes. Depois de uma breve verificação, adverte as professoras: “Este problema pode acontecer durante o teatro”. Já perto do fim do ensaio, a professora desce a sala em direcção ao palco em passo de corrida. Corrige milimetricamente as posições dos atores, já que esta é a cena mais importante da peça. Um tambor ecoa por todos os cantos da sala para assinalar o disparo da arma imaginária que o Pedro constrói com as mãos. “Morto! – BANG” “O teatro já acabou? Há tempo para ensaiar mais uma vez?” Dão um intervalo de 5 minutos, para fumar um cigarro, desculpa a Guida, ajudante das professoras. Todos aproveitam esta pausa para relaxar – o ensaio geral coloca tanta pressão nos autores como a própria representação. Ouvem-se gritos de brincadeiras vindos dos camarins, e aproveita-se para pôr a conversa em dia, não sobre a peça nem sobre a estreia, mas sobre os amigos, tempos livres, pessoas; ocasiões destas são excelentes para reavivar laços fora do ambiente formal da escola.

Este é aliás um dos principais motivos para que tantos alunos queiram participar. O palco, depois, faz o resto. Helena tem 15 anos e decidiu participar depois de ter assistido aos ensaios das amigas. Ficou por “aquela adrenalina que sentimos lá em cima”, motivo semelhante que leva Ana, já com 17 anos, a participar, mesmo depois de ter saído da escola em questão. “O coração bate mais depressa, é difícil explicar a quem nunca fez algo do género”, afirma, com os cabelos a esvoaçarem ao vento e olhando com as pálpebras semicerradas para o sol no horizonte, que se vai pondo entre os baixos prédios da cidade. Está provavelmente a relembrar as suas actuações passadas, em que foi protagonista por mais que uma vez. Os dias de representação são acima de tudo uma celebração. Vão aparecendo actores de anos anteriores, que cumprimentam as professoras com abraços. “Vamos começar a ensaiar”, ouve-se no sistema de som do teatro. Regressam todos lentamente aos seus postos para o último ensaio antes da representação. “Não há barulho nos bastidores!” Grita a professora Cristina. Com o aproximar da hora de jantar, os nervos aumentam. A professora Mafalda lembra que o tempo está a passar, e que é preciso concentração. No entanto, é difícil para os que não estão em cena a conseguirem. Vão falando aos sussurros. Nas cenas mais dramáticas, ouve-se um aparelho de luzes a zumbir debaixo de uma ténue luz vermelha, quebrando o silêncio. “Vamos despachar que já está ali a comida!”. Terminado o ensaio, todos descem em tom festivo, num misto de nervos e de alívio.


A confusão instala-se agora nos camarins, com todos a correr de um lado para o outro, à espera da sua transformação. O vestuário das raparigas é uma mistura caótica de roupas, laca a voar e tranças a serem feitas. Já o dos rapazes é bastante mais austero e tranquilo. Lembram chefes de família a prepararem-se vagarosamente para irem trabalhar numa Segunda de manhã. Ao lado deste é o sítio mais hollywoodesco presente: uma pequena sala com uma mesa composta com todo o tipo imaginável de maquilhagem, reflectida em dois enormes espelhos de parede. No entanto todo o seu glamour é estragado por um grande cilindro de água no canto. Paira no ar um cheiro característico de camarim, resultante da mistura de cosméticos e de suor de balneário abandonado. Vão-se jantando kebabs apressadamente. Em cima, a plateia está tranquila. Um rapaz entra de rompante pela porta de cima, e desce a correr as escadas; está atrasado para a maquilhagem. Ouvem-se gritos abafados vindo dos camarins, que estão debaixo do palco. Vão chegando a conta-gotas, com espírito festivo, os actores que são agora personagens, crianças que são agora adultos – apenas uma hora os separa do seu grande momento. Ouve-se fado a sair das colunas, e depois música brasileira. Dança-se, ensaia-se, decora-se texto. Há uma t-shirt da sessão da noite anterior a ser assinada para se guardar como recordação. Até se dão cambalhotas. Tudo serve na batalha entre o nervosismo e o relaxamento. Entra um homem com um enorme tripé e uma câmara de filmar igualmente volumosa. Monta o seu equipamento em diferentes pontos da sala e testa o melhor enquadramento para filmar a peça.

Mesmo num teatro amador, há o recurso a maquilhagem para dar expressão às personagens


Na sala de espera começaram entretanto a chegar os pais dos jovens actores. Tão ou mais nervosos que os seus filhos, vão formando fila para comprar bilhete. Olham para as paredes, para o relógio ou para o telemóvel, à espera que o tempo passe. A sala rapidamente se enche de pessoas que criam um barulho de conversa incaracterística. Num ponto completamente oposto do edifício, os camarins estão agora praticamente vazios. Dão-se retoques nas duas últimas pessoas. De olhos fechados e de mãos dadas, passam sombra nos olhos. Ao lado, em frente de um lavatório semeado de ganchos e elásticos, alisa-se cabelo. “Auch, queimaste-me!” – os sacrifícios de se ser alguém que não se é. Está finalmente na hora, mas as portas da sala de espectáculo ainda não abriram. Todos andam de um lado para o outro, como formigas atarefadas, até ao ponto em que já não dá para adiar mais: já passa da hora do início.

Convergem para o palco e formam um círculo, de mãos dadas. Todos os que têm algo para dizer falam: “Queria agradecer...”, “Dar os parabéns...” ou “Vocês são os maiores!”, todas elas frases de motivação. É um momento fortemente emotivo, pois este é o flagrante alarme de que a representação está para começar. Mas ainda mais do que isso, é aquela criança que pisa finalmente o palco, com toda uma plateia a olhar para si. É aquele jovem que, pela primeira vez na sua vida, sente que está a envelhecer. Esta é a sua última representação, e estes são os seus últimos dias nesta escola. Todos estes indescritíveis sentimentos, vividos pela última vez. E tentam-nos agarrar, com toda a força, abraçados aos seus melhores amigos, com lágrimas nos olhos, que tentam secar cuidadosamente para não borratar a maquilhagem. Engolem em seco, como alguém que ganhou finalmente coragem para fazer algo que não quer fazer. Todos gritam um sonoro “Muita merda!”, disparando de seguida em direcção aos seus postos designados.

Tal como uma equipa de futebol, todo o grupo se reúne em roda antes da representação para solidificar a união e a motivação


Josh, representado por Pedro (atrás), é atormentado pela imagem dos cinco amigos que assassinou. (Da esquerda para a direita, Jéssica, João, Márcia, Tatiana e Roberto)


Nas laterais do palco, atrás das cortinas, guardam-se os adereços necessários. “Não mexam neste casaco que eu vou precisar dele”, “Cuidado que deixei aqui o meu guião” - todos se preocupam com aquilo que vão precisar. As cortinas do palco fecham-se finalmente, e ouve-se uma enchente de pessoas a inundar a plateia. Os mais curiosos abrem uma minúscula abertura no pano para espreitar, mas viram-se imediatamente, estupefactos e arrependidos de terem a noção do que vão enfrentar dentro de momentos. Dão os últimos retoques e conselhos. Cada um cria um jardim zen na sua própria mente, na tentativa de ignorar o número crescente de vozes do outro lado da cortina. As luzes apagamse. Todos congelam, e retiram-se para as laterais. Ouvem-se as pancadas de Molière. O teatro vai começar. Um vídeo projectado numa tela dá o mote da peça: o contorno de um corpo em giz branco no chão. O argumento, que se baseia nos atentados de Columbine e Newport nos EUA, foca-se nas relações que um jovem tem com a família e com os amigos. Põe a cru a violência física e psicológica sofrida na adolescência. Põe a cru a psicose que assola a mente das pessoas que menos esperamos, mais frequentemente do que estaríamos à espera. Põe a cru a morte, aquela que infligimos aos outros, e aquela que infligimos a nós mesmos. Há três atores normais, Josh e os seus pais, vestidos de pessoas normais. Mas depois há os cinco amigos que Josh assassinou, que são agora os seus pesadelos, de cara branca e aspecto surreal. E depois há uma dança, uma dança entre o controlo e o poder, e a fraqueza e o desespero. É assustadoramente bela a ironia de ver jovens a batalhar sobre a morte e sobre os sonhos que não concretizaram. Leva-nos a meditar se fizemos até agora tudo o que queríamos ter feito quando tínhamos 15 anos. Apesar de tensos, os espectadores não deixam escapar nenhuma fala mais descontraída para se rirem. “Não estão habituados a este tipo de peça”, declarava a professora Cristina à tarde. Isto é com certeza algo que

quase todos os pais a assistirem não esperavam ver os seus filhos fazer. “Se me dissesses que a peça era sobre morte, se calhar nem tinha vindo” declarava uma mãe no final da peça. Aplausos estrondosos e assobios inundam o silencioso edifício quando as cortinas se fecham, no fim da peça. Abrem-se novamente, instantes depois, com todos os atores alinhados para receber a honra que merecem, com uma vénia. Entra de seguida o presidente da escola para elogiar os seus alunos, seguido do representante da câmara municipal. Mas os elogios não fazem jus às peças de teatro. Os elogios são sempre iguais, enquanto que as representações são sempre diferentes. O maior elogio que uma peça pode receber é ser vista. Os alunos podem para falar, e elogiam as suas professoras, ordenando-lhes que desçam ao palco. Quando elas chegam, todos se abraçam. Segue-se a distribuição dos diplomas, com uma salva de palmas entre cada chamada. Há sorrisos em todas as caras, e sussurros na fila traseira, alheios aos discursos que falam sobre tudo, menos sobre eles. Terminam finalmente as declarações. Ouve-se um novo aplauso, ligam-se todas as luzes, e a multidão levanta-se para sair. Ficam apenas pequenos grupos de pessoas, que cumprimentam, elogiam ou abraçam os actores e as professoras. Vêm-se agora rostos melancólicos. O sentimento de que o melhor já passou. Os actores deslocam-se novamente para os camarins, agora para voltar à realidade. Toalhetes limpam maquilhagem, malas voam dos vestuários, adereços voam do palco. Lá fora, já noite cerrada, carregam-se as coisas mais pesadas para uma carrinha. Numa questão de minutos parece que nada disto aconteceu. O palco vazio e triste, a plateia deserta. A única coisa que fica é a recordação na mente das pessoas. No fim, todos vão para um café conviver. Porque isto, acima de tudo, é uma celebração.

Telmo Romeu Simões


Reportagem de Acção