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© 1997-2009 www.guiarioclaro.com.br - 20.000 exemplares - distribuição gratuita

ano 3 número 26 - dezembro 2009


Vivendo....

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E-mails Pelo conjunto da obra

Editor-executivo: Carlos Marques MTB 56.683 marques@guiarioclaro.com.br Editora-assistente: Lilian Cruz lilian@guiarioclaro.com.br Redação: Daniel Marcolino, Gilson Santulo, Marcos Abreu e Rafael Moraes redacao@guiarioclaro.com.br Criação: Leonardo Hutter e Silvia Helena criacao@guiarioclaro.com.br Atendimento: Angela Amaral, Otília Zanini atendimento@guiarioclaro.com.br Tecnologia da Informação: Elton Hilsdorf Neves desenvolvimento@guiarioclaro.com.br Financeiro: Neliane Favaretto neli@guiarioclaro.com.br Cadastro: Jair Senne jair@guiarioclaro.com.br Edição e Produção:

enfase - assessoria & comunicação Avenida Sete, 540 - Andar Superior 13500-370 - Rio Claro/SP Fone: 19 2111.5057 Impressão: Gráfica Mundo www.graficamundo.com.br Tiragem: 20.000 exemplares Distribuição gratuita nas cidades de Rio Claro, Araras, Piracicaba, Santa Gertrudes e Cordeirópolis.

Quero cumprimentá-los pela revista, sou designer na Riclan e não tenho perdido nenhuma edição da revista Drops, que considero de muito boa qualidade. É um presente de muito bom gosto para Rio Claro. Parabéns mais uma vez, sucesso e crescimento a vocês! Danilo Rodrigues – Rio Claro

Anorexia Fiquei indignada quando abri a revista Drops de novembro. O ensaio feito no Unicirco traz fotos de “modelo” visivelmente anoréxica. Uma atitude como esta estimula crianças e jovens a buscarem um corpo cadavérico como o da garota, mesmo que isso extrapole os limites da saúde. Com o combate da mídia à doenças relacionadas com a saúde de modelos, como a bulimia e a anorexia, a Drops não deveria incentivar tais atitudes. Analice Demarchi Costa de Macedo - Rio Claro Posicionamento da redação Cara leitora, a Carolina é uma menina normal. Magra, é verdade, mas não anoréxica. Prova disso é que durante o almoço no dia do ensaio ela comeu como todos nós, além de comer 6 (repito, seis) trufas de chocolate. Pela idade que tem,14 anos, ela simplesmente é magra e linda. Seu metabolismo parece não reter calorias. Por favor, não precipite seu julgamento pelo que se vê nas fotos. Aliás, ela é modelo sim, acabou de ser contratada pela agência Elite - São Paulo. Fique tranquila, não incentivamos a anorexia. Agora, porque as pessoas não podem ser magras e bonitas? Devemos tomar cuidado com o preconceito, que funciona dos dois lados. Escreva para a Drops. Envie sugestões para novas pautas e temas a serem abordados nas próximas edições. Queremos uma revista com a sua cara. FALE CONOSCO - redacao@guiarioclaro.com.br


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Editorial

2009 com chave de ouro Sumário Bazar.................................................8

Entrevista.........................12 a 22

Tecnologia..................................24 Negócios......................................28 Esportes .....................................34 Saúde.............................................38 Cinema.........................................43

Especial Moda.............46 a 58 Estética............................62 a 70

Casa & Cia............................... 73 Gastronomia................82 a 87 Contraponto........................... 90 Capa Thaís Ferreira Cuba. Foto: Telmo Keim

A partir desta edição são 20.000 mil exemplares da ‘revistinha’. Uma tiragem significativa se considerarmos que este é um produto editorial independente e ousado. Independente pois respeita a sua inteligência ao distinguir redação do comercial, e ousado porque aposta muito mais em ideias do que em veleidades. Para este crescimento, em março conquistamos novos leitores em Araras. Maio foi a vez de Piracicaba e, ao longo do ano, assistimos ao surgimento de outras revistas de distribuição gratuita na região. Quer coisa melhor para o leitor e para o mercado? Mas não pense que é fácil conquistar sua companhia e credibilidade editorial com as pessoas com quem tivemos oportunidade de conversar ao longo do ano. Mais uma vez fomos ao Rio de Janeiro. Agora para bater um papo com o pai do rock´n roll no Brasil. E como é bom conversar com gente inteligente, para quem a fama não foi capaz de subjugar a simplicidade. Erasmo nos recebeu em sua casa para falar do seu último trabalho e contar como cultiva as pessoas que admira. Por falar em rock´n roll, montamos um editorial de moda inspirado no festival que marcou as gerações pelas ideias contestadoras com que desafiaram os senhores da guerra com músicas pela paz, pelo reconhecimento da mulher e por defender a igualdade dos negros. Para as mulheres, trazemos penteados que podem ajudar nos compromissos de final de ano. Para quem vai reunir a família e amigos para celebrar o Natal, conversamos com a chef Patrícia Fontana e trazemos sugestões para uma ceia elegante e de rápido preparo. Se você acha que ao substituir o açúcar está evitando ganhar algumas gramas no seu peso durante as ceias de final de ano, cuidado. O que virou moda em produtos diet e ligth podem conter armadilhas que mais prejudicam do que ajudam. Se você é fã de novas tecnologias, fizemos um test drive com o carro ícone da Fiat. Prepare-se para conhecer um compacto onde sobra performance, design e conforto. Então, estamos conversados. Boas festas, muita saúde e realizações no ano que inaugura a segunda década deste século. Ah, ia me esquecendo, boa leitura! Carlos Marques


Bazar Boas vindas

Já que o final do ano não é o final dos tempos, nada melhor que aplicar detalhes de bom gosto às celebrações dos outros dias que virão.

Receba o Natal pela porta principal de sua casa. A guirlanda, símbolo natalino de um ciclo que se renova, ganha decoração especial com fitas de veludo e bonecos de neve. Preço: R$ 74,00 Rose Detalhes Interiores 19 3524.3075

Luzes na noite A decoração ganha ares de sofisticação sob as luzes de velas. Se a ocasião permite, as cores quentes anunciam a noite peculiar que se celebra. A variedade de desenhos e tamanhos, sob encomenda, atende aos requisitos da ocasião. Preço: R$ 10,00 a unidade Velas Clara 19 3557.4654

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Delicadeza para brindar Há quem diga que o beijo com sabor do champagne de Reveillon tem um sabor inesquecível. Tire a prova com o par de taças de cristal com detalhes prateados. Preço: R$ 35,00 o par Gallo Decorações, Móveis & Presentes Fone: 19 3524.4111 - Rio Claro 19 3422.8915 - Piracicaba

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Bazar Reflexões férteis Os três dias de “Peace and Music” influenciaram a música popular mundial e as reflexões dos movimentos de contracultura da época. O repertório do lado B do Festival de Woodstock ganha caixa comemorativa com quatro CDs e livro ilustrativo da exposição aquariana que reuniu quase meio milhão de pessoas em 1969. Preço: R$ 150,00 (exemplar único) Outras Estórias Sebo e Livraria 19 3524.6636

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Todo mundo no clima As emoções do final do ano podem inspirar todos os componentes da família, inclusive os animais de estimação. Deixá-los prontos para as festas será um dos assuntos mais comentados da ocasião, acredite! A partir de R$ 17,00 T & R Shopping Animal 19 3024.1894

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“No mínimo, Roberto Carlos, como compositor, seria metade. Se Erasmo não existisse, eu não teria conhecido um dos melhores seres humanos de minha longa vida no meio artístico. ” Nelson Motta


Entrevista

Pra não dizer só da fama de mal por Carlos Marques | Fotos: Telmo Keim

“A mulher é a mola que move minha vida ” Nos encontramos por volta das seis e meia, numa tarde quente na Barra da Tijuca. Pouco antes, ao nos receber, a assessora nos deixou à vontade para conhecer a casa e escolher os locais para fotografias, sem frescuras. Logo no hall de entrada, entre discos de ouro e platina, uma foto com um dos netos; no patamar da escada, mais discos e uma foto em preto e branco – Erasmo e Narinha, sua mulher, treinam arco-e-flecha. Enquanto isso, Erasmo termina a entrevista para a revista do Fantástico, logo ali, na varanda que dá para o jardim e para a piscina. Difícil foi controlar a ansiedade que se manifestava no estômago e manter a concentração. Afinal, estávamos na casa de um compositor ímpar, pai do Rock’n Roll no Brasil e responsável por, pelo menos, metade das muitas músicas que fizeram sucesso nos últimos 50 anos. Feitas as fotos, começamos a entrevista que você lê a seguir. Depois de desligar o gravador e relaxar, a conversa seguiu por um bom tempo. Deixamos a sua casa por volta das dez e meia. Antes de afirmar que estivemos tão próximo a um músico que é inspiração e ídolo para tanta gente, podemos dizer que Erasmo é um ‘baita cara, bicho’!

Erasmo já foi Jovem Guarda, foi romântico, soul, hippie. Hoje, Erasmo é puro Rock’n Roll. Esse trabalho é uma síntese de tudo que você já fez ou uma afirmação do que você nunca deixou de ser? Essa é sua vocação? Fico com a segunda opção. Apesar de sempre fazer rock’n roll, me deu uma saudade de fazer uma coisa mais raiz. Durante os anos andei por muitos caminhos. Tentando modernizar e de repente você se perde um pouco. Você começa a colocar muito teclado, arranjo, um violino aqui, outro ali, influências eletrônicas. Você vai misturando seu trabalho e aí sente saudade da sujeira do início, que é guitarra pura. Eu ‘tava’ me devendo fazer um disco voltado pra isso. Calhou de fazer 25 músicas, pedi ajuda aos parceiros, Nelson Motta, Chico Amaral, Nando Reis e Liminha, que fizeram as letras pra mim e saiu Rock’n’Roll.

Pesquisando sua biografia, você já fez parceria com muita gente, gente famosa, outras nem tanto. Embora você tenha cultivado uma fama de mal, título de seu livro, ficamos com a impressão que você é muito generoso e trabalha muito facilmente essas parcerias. É isso mesmo, Erasmo é um cara sem fronteiras? Sou muito sincero com o que faço, muito espontâneo e tenho influências de várias coisas. Sendo um compositor brasileiro, sofro influências de muitas coisas. É diferente de um compositor americano, ou inglês. Eles têm influências só deles mesmos. Aqui não; tenho samba, maracatu, baião, um monte de influências africanas, as próprias influências europeias. Tudo aqui, junto, misturado. Às vezes me dá saudade de MPB, por exemplo, aí pego Marisa Monte, Celso Fonseca ou Bossa Nova,

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e por aí vou. Daqui a pouco, rock de novo. Sou um compositor brasileiro. Embora por opção e gosto seja roqueiro, pois foi a música que mais me arrepiou. Fale um pouco desse roqueiro. Você cultua isso, trabalha isso no dia-a-dia, mantém-se em estúdio. Como é isso? Música pra mim é um estado de espírito. Se acordo, quero fazer uma valsa, faço, ou um baião, depende da necessidade. Às vezes você tem que fazer um baião porque vai entrar em um filme. Também trabalho por encomenda, mas sempre que posso, volto para o rock’n roll. Os discos que ouço são de rock e bossa nova, basicamente João Gilberto, Carlos Lira e Marcos Valle. De rock, os grupos vocais por quem sou apaixonado – meu primeiro grupo, os Snakes era um grupo vocal. Sou apaixonado pelos vocais americanos como Beach Boys, os Diamonds e também os roqueirões bravos de sempre, Chuck Berry, Jerry Le Lewis, Elvis Presley e Bill Halley. Esses são os caras que fizeram minha cabeça no rock’n roll. E a escolha dos parceiros para esse trabalho. Liminha, Nelson Motta, Nando Reis, Chico

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“Ser parceiro do Erasmo é um

privilégio de raros. Fiquei honradíssimo com a escolha e ainda senti a cadeira o Roberto Carlos quentinha ... Noturno carioca”, uma das nossas musicas, é uma das melhores de minha carreira de compositor e uma nas dezenas de clássicos e grandes sucessos de Erasmo.” Nelson Motta Amaral, como aconteceu? Já tinha trabalhado com o Liminha, conheci ele no tempo dos Mutantes. Nos anos 70, ele tocou numa porção de discos meus. A gente já teve uma banda juntos, o Cia Paulista de Rock, também nos anos 70. Mas como produtor, nunca tinha trabalhado com ele. Liminha não faz letra, mas ele pediu ajuda à mulher, Patrícia Travassos, e eles fizeram uma letra pra mim. Os outros parceiros, o Nelson, Nando e Chico são pessoas que admiro, mas que até então nunca tinha tido a oportunidade de trabalhar junto. Sempre que nos encontramos em festas, nas


Entrevista

quebradas, tem aquelas trocas de gentilezas, palavras de carinho e sempre tem aquele negócio ‘um dia vamos fazer alguma coisa juntos’. Os convites estão sempre em aberto. Então, me lembrei deles e como nunca fiz música com Nelson Motta, disse: vou fazer. A Rita Lee fez o texto de apresentação do seu último CD e que está no seu site. Ela começa o texto com “Rock não é para maricas” e afirma que você é o pai do rock no Brasil. Como é essa afinidade com a mãe do rock brasileiro... (Erasmo interrompe a pergunta) É você quem tá dizendo isso, eu nunca tive nada com a Rita. Olha que você está me botando numa arapuca, sou amigo do Roberto Carvalho.... Mas nunca teve um espaço para vocês fazerem um trabalho em parceria? A gente alimenta muita coisa, com ela e outras pessoas. Projetos que nunca foram feitos e que um dia serão. Em cada encontro sempre tem um papo assim, sempre fica em aberto um monte de coisas. Já gravamos duas vezes juntos em discos meus, em Minha Fama de Mal e no

Erasmo Convida I. Já gravamos no disco do Lulu Santos, Ronca Ronca, eu, Lulu, Rita, Evandro Mesquita e Roberto Carvalho, quase ninguém sabe. Todo mundo junto numa faixa só. Um ‘rockão’ da pesadíssima, uma coisa linda. Desde então ficou aquela coisa de um dia fazer um disco em parceria. Quem sabe, de repente esse dia vai chegar. Eu tenho uma afinidade com a Rita muito grande, ela é parecida comigo em seu trabalho. Ela é romântica quando quer, felina quando quer, crítica ou irônica e, quando quer, tem um humor. Me identifico com o trabalho dela. Erasmo, observamos seus discos de ouro e de platina nas paredes. Muitos deles, creio, entregues em programas de auditório. Hoje, você tem sua própria gravadora, a Coqueiro Verde. Como você vê o mercado da música profissional. Lobão estava certo ao propor um trabalho independente? Acho que é uma tendência. O Lobão apenas anunciou uma tendência que era inevitável e todos já vinham sentindo. Na época o sistema mundial da indústria fonográfica mudou e foi

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Entrevista mudando aos poucos, cada um foi sentindo suas necessidades. A internet chegou e as gravadoras não deram o devido valor a ela e acordaram tarde, perderam o trem da história e não se associaram aos recursos da rede. O público se acostumou com ela e já não dá mais pra mudar. Tem que ser assim. Mas se desde o início as gravadoras tivessem criado formas de parcerias, talvez hoje o cenário seria diferente. Então, quando o Lobão anunciou isso, lutou pela numeração dos discos, o Juca Chaves já lutava por isso também. São consequências que vão indo. Quanto à independência dos artistas, isso já vinha sendo exigido. Como Milton Nascimento, Marisa Monte, o próprio Roberto Carlos com o selo Amigos. Eu só segui a tendência de criar meu próprio selo, nasceu a Coqueiro Verde. Você pensa em promover outros artistas? Com o tempo. Nada de coisas grandiosas, sonhos malucos, elocubrações. Tudo com o pé no chão. Mas pretendemos sim! Com tanta liberdade de exposição, o eixo Rio-São Paulo a um toque do You Tube, postado sabe-se de onde, o solo é mais fértil hoje? Quem lhe impressiona na música? Quanto à Internet, é difícil você dizer porque é tanta gente que você não para em ninguém. Não para no trabalho de ninguém. Os trabalhos são da maior dignidade, tudo perfeito, cantores e cantoras afinadíssimos e isso me assusta um pouco. Ninguém mais desafina, são méritos da tecnologia. E a emoção? Sinto falta da emoção nos trabalhos novos onde tecnicamente é tudo perfeito. Pra guardar o nome de uma pessoa, preciso que a pessoa esteja no segundo, terceiro disco, que essa pessoa seja super comentada por aí. Agora, o que está surgindo, é difícil de dizer porque são muitas informações. Estou ligado em tudo, ‘bicho’. Em rádio, tv, cinema, jornal, livro. Tenho que ser antenado para sobreviver. Gosto de sobreviver assim. Tenho que saber o que acontece no Irã pra discutir com pessoas que trazem esse assunto à tona. Tenho que saber também do Bob Esponja pra discutir com meu neto quando ele traz o assunto à tona.

“Sendo um compositor brasileiro, sofro influências de muitas coisas. É diferente de um compositor americano, inglês, que eles têm influências só deles mesmos. ” Hoje percebesse um revival dos anos 60 e 70. Bandas dizem gostar de artistas desse período. Como você se sente quando um músico mais jovem diz adorar um disco feito há mais de 30 anos, como Carlos, Erasmo ou Sonhos e Memórias? Isso acontece toda hora. Fico feliz, gratificado e me leva a pensar que o que foi feito é bom pra ‘caramba’. E, por outro lado, soa também como ausência do novo, então a pessoa consome o antigo como se fosse novo. Uma coisa antiga, pra quem nunca ouviu e ouve agora e acha novo. É uma volta não por saudosismo e sim porque o que foi feito é bom. A Internet, de certa forma, facilita muito isso porque ela tem permitido que as pessoas

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Entrevista troquem esse tipo de informação. Seu disco está todo disponível na grande rede? Fazer download pra ficar ouvindo no Ipod e correndo na praia é sacanagem. Então um monte de babacas trabalhou pra ele queimando as pestanas, horas de estúdio, um trabalho imenso pra ele ter a música de graça? Mas não é sacanagem se for para ouvir uma, duas vezes. Se gostou, compre; se não, não ouça nunca mais. Você não fica escravo, como antigamente, daquela música que tocava no rádio e até ‘encher o saco’, e não se ouvia as outras. Você comprava o disco por uma música. Hoje você tem a opção de ouvir o disco todo e ver se vale a pena. O Arnaldo Antunes lançou Iê Iê Iê, onde usa e abusa da música dos anos 60. O que você diz desse trabalho? Até escrevi um artigo para a Folha de S.Paulo. Achei bom ‘pra caramba’. Ele fez uma relação boa. No final do texto cito a coincidência do lançamento. Por ter e por não ter a ver. Iê Iê Iê pra mim é um dos apelidos do rock dos anos 60 e que surgiu no mundo inteiro. Na Inglaterra chamou-se Beatlemania, aqui no Brasil Iê Iê Iê, na Argentina Nueva Hola. Com o tempo, trocaram Iê Iê Iê por Jovem Guarda, como estilo de uma época, mas Jovem Guarda eram programas de televisão. Roni Von tinha o programa dele, Marcelo Araújo o seu, mas todos cantavam Iê Iê Iê. O que era nome de programa de televisão virou nome de manifestação e todo mundo foi parar no mesmo saco. Fiquei feliz tanto com o meu disco quanto com o dele. Assumimos a mesma raiz sem saudosismo. É rock’n roll e Iê Iê Iê de agora. Músicas modernas, contemporâneas, sem ranços. Gravei porque eu sou assim, tenho a raiz do rock dentro de mim. E ele, de alguma forma, tem o Iê Iê Iê dentro dele, acho que ele foi criado ouvindo a Beatlemania. Em 1978 você compôs “Panorama Ecológico” contrapondo as lagostas afogadas aos homens inteligentes. E hoje, como você observa a questão ecológica? Ah, ‘bicho’, vejo que a superpopulação das cidades está piorando cada vez mais. Os governos, as indústrias sem limites, sem freio,

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“Choro até com Simpsons. Todo

episódio tem o momento ternura. No fim, lá, quem ta encarando como desenho animado, não sente. Mas quem está concentrado no episódio sente o momento ternura. ” estão piorando, isso parece ser uma tendência. É preciso que as pessoas se conscientizem, tomem providências, principalmente as altas cabeças do mundo. Eu até brinco nos shows dizendo que o que eu e o Roberto falamos nos anos 70 em várias músicas ninguém ouviu. Ninguém entendeu porque falávamos em português. Hoje todo mundo entende o Sting e o Bono Vox, que falam inglês. É uma ironiazinha que faço nos shows e estou fazendo agora também. Se não tomarem providências e digo providências drásticas, vamos ter problemas sérios. Sei que isso envolve milhões, bilhões, trilhões de dólares. Sei que isso é difícil, mas vai chegar um tempo que vão ter que pôr a cabeça no lugar e discutir. Se cigarro é ruim e faz mal, parem de fabricar cigarro. Agora, como o governo vai proibir a indústria do cigarro se ele obtém um bom quinhão de impostos com elas. Por outro lado, se não há interesse em acabar com o cigarro, por que ‘enchem o saco’ dos fumantes? (Erasmo olha para o cigarro que tem entre os dedos.) Porque é mais fácil, são medidas que não levam a lugar nenhum, apenas botam um ‘bandaid’ em uma ferida que precisa de operação. No final dos anos 60, lá fora, Woodstock. Por aqui, o pau de arara comendo solto. Você que viveu esse período, como o que aconteceu lá fora chegou ao Brasil? Woodstok teve reflexos aqui logo depois que aconteceu? Você viveu isso? Vivi informações de Woodstock, do que tinha acontecido. Na verdade pouca informação na época, mas além da beleza do evento, as músicas chegaram também, junto com a contracultura, a filosofia hippie da ‘paz e amor’. Aquilo tudo foi envolvente e muitos tomaram

conhecimento. Naquela época a repressão era ‘braba’ e por isso, creio, ficou o sonho de se fazer o Woodstock brasileiro, como sempre copiando as coisas americanas. O Brasil adora copiar os exemplos americanos, bons e ruins. Tiveram várias tentativas que não deram certo por amadorismo, por falta de estrutura e pela repressão das autoridades. A coisa nunca deu totalmente certo, deu um pouco aqui, outro ali. Isso só veio mesmo a acontecer profissionalmente, com estrutura, no Rock’n Rio I, em 1985, que não era uma estrutura como a de Woodstock, tinha muita mídia, vários patrocínios, etc. Mas a cópia do que seria o Woodstock se resumiu às tentativas de Águas Claras e Guarapari. Conto no meu livro passagens de certas coisas, como João Gilberto em Águas Claras com Raul (Seixas), passagens com meus amigos na praia de Guarapari, que também não deu certo como festival.

Mulher (sexo frágil) é uma música feita por você a partir de um verso de sua esposa Narinha. No seu último trabalho, você identifica a mulher como uma guitarra. É isso mesmo, a mulher é um elemento na sua formação musical? A mulher é a mola que move a minha vida. ‘Pô’, não sou nada sem mulher. Uma mulher me deu a luz, outra me deu a maravilha de ter filhos. As mulheres me ensinaram coisas belíssimas. Elas me deram prazeres inigualáveis. Vivo em função da mulher. Meu tema preferido é a mulher. Sempre que posso homenageá-las, o faço em nome de todas, porque devo muito à elas. O que você buscou com o livro Minha fama de mal? É uma autobiografia? Não é autobiografia não. Surgiu a partir da ideia de fazer contos engraçados a partir de histórias que aconteceram comigo, com minha família, com os amigos e pessoas do meio. Contos aleatórios. Fui escrevendo, escrevendo, e como um conto puxa outro, são coisas curiosas e engraçadas. Com o tempo vi que tinha escrito muitas coisas. Comecei a separar infância, adolescência, Jovem Guarda, etc. e tal. A editora sugeriu que eu fizesse um fio

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Entrevista

“Sou um compositor brasileiro.

Embora por opção e gosto seja roqueiro, sou porque foi a música que mais me arrepiou ” condutor e .mostrasse os vários seguimentos que compõem a história da minha vida. Achei interessante e, inclusive, assumi o termo memórias. São memórias da minha vida. Agora, o termo biografia é coisa séria. Você ainda “sofre” assédio de fãs atiradas? Aquelas que perseguem artistas e entram em quarto de hotel rasgando a camisa... Não sofro assédios como antigamente. Não sou mais garotão, nem galã. Hoje sofro assédio pelo meu trabalho, pela minha sabedoria, pelo status de artista, de compositor, pela seriedade e dignidade do meu trabalho e não mais por ser bonito. Essas fãs me acompanham. Quem gostou de mim, não deixou de gostar. E tenho formado fãs em novas gerações. Hoje não mais com conotação sexual. Acho que é coisa de admiração pelo trabalho como artista. Tomara que eu esteja enganado! Como é a experiência de ter três filhos e quatro netos? Como é a experiência de um roqueiro, um cara da mídia ser pai e avô? Foram experiências muito bonitas. Cada coisa em sua época. Quando casei com a Narinha ela já tinha um filho de sete anos, que considero meu primeiro filho. De lá pra cá, vieram outros dois e os três me ensinam muita coisa. Aprendo com eles sempre. Agora estou aprendendo ainda mais com os netos. Me deixa feliz estar atualizado. E eu tenho que estar atento para participar, para ser um igual a eles. Aqui em casa a hierarquia se faz pela sabedoria e não pelo tamanho ou pela cor. E tenho que me fazer admirado. Faço questão de manter a igualdade entre a gente. Sou um pai amigo.

Cara, coisa marcante, não. É claro devo ter um monte de arrependimentos, umas magoazinhas. Costumo dizer que descarrego as mágoas no Imposto de Renda. Não sou rancoroso, nem tenho ódio no meu coração. Por eu ser um cara do bem, sou muito positivo na minha vida. Negativismo não tem vez comigo. Sou um cara positivo. Talvez, por ser assim não alimento mágoas, nem ódios. Não é que nunca tive mágoas de ninguém. Já tive, mas foram coisas passageiras. Ainda deixo rolar, sigo minha vida. Tudo o que faz você perder tempo na vida, coisinhas, fazem você perder seu caminho. Vou citar um arrependimento: se eu tivesse aprendido a tocar guitarra, seria um guitarrista ‘fodaço’ hoje em dia. Mas não sofri por causa disso, não aprendi, não aprendi. Estou satisfeito com o compositor que sou. De repente, se soubesse tocar guitarra pra ‘caramba’, talvez não faria as músicas que faço, porque ia sofisticar demais a minha música. Estou muito satisfeito com a música que faço hoje. Quando o Erasmo chora? Choro até com Os Simpsons. Todo episódio tem seu momento ternura. Quem encara como desenho animado, talvez não sinta. Mas quem está concentrado no episódio sente seu momento ternura. Um arrependimento do

Você faz 50 anos de carreira no ano que vem e diante da frase “o diabo é ingênuo se acha que pode piorar os seres humanos”, de Oscar Wide, você tem ressentimentos, mágoas e arrependimentos desse período?

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Entrevista Barth com o pai, um arrependimento do Homer com a Margie, coisas de casal. Os momentos de ternura me levam às lágrimas. Eu sou chorão mesmo, graças a Deus que sou assim. Mais um bom motivo pra não precisar de psicanalista. Erasmo homem e Erasmo mito, onde você se sente mais confortável? Erasmo mito é você quem ‘tá’ falando; eu gosto do Erasmo pai, do Erasmo amigo, do compositor. Analiso a vida assim. Me acho um cara comum, normal, apenas tenho o dom de fazer música. Sou muito consciente do que faço e faço com amor. Procuro ter dignidade e sou honesto no que faço. Sou até grato à vida por isso. Não me acho isso, nem aquilo. Me acho apenas um cara que tem esse dom. No mais, faço questão de ser sempre amigo, pai, agora avô. Quero ser e sou, consigo ser um cara legal. Sem holofotes e adereços. O dia em que for mito, o Alcides (produtor) não trabalha mais comigo, a Priscila (assessora) vai deixar de trabalhar comigo pois vou virar um cara ‘chato pra caramba’. É difícil não citar sua parceria com o Roberto. Mas você é o Erasmo, o Roberto é o Roberto. Você se irrita quando te perguntam sobre o Roberto? Não dá vontade de dizer “pergunta pra ele, ‘caramba’!” Não se você perguntar algumas coisas. Bicho, na quinta ou sexta pergunta, vou sim dizer, vai perguntar a ele que é melhor. Mas uma, duas ou três, sobre nossa parceria, nada me impede de falar. O Roberto faz parte da minha vida, apenas me irrita quando sinto que estou sendo usado de tabela. E depois desse trabalho, você já tem algo em mente? Nem me passa pela cabeça compor agora. Fiz duas músicas pra Simone, uma com o Marcos Valle e outra sozinho, Migalhas, que estão tocando na novela. Ah, ‘bicho’, fiz pros Mutantes, Singing the blues (Cantando as tristezas), que está sendo gravanda na

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França. Agora ‘tô’ trabalhando na divulgação do Rock’n’Roll e com a turnê que deve se estender no ano que vem. Acredito que vire um DVD, porque é a ordem natural das coisas. Se você tivesse que olhar para o futuro e falar com essa moçada que está chegando e que se deixa levar pelo sucesso fácil, tendo vivido o que você viveu, com um trabalho reconhecido no país e fora dele, você que trabalhou muito pra isso, o que você diria? Semana passada vi um cara falar uma coisa importante no programa do Jô Soares. Segundo ele, tem músicos que duram até os 25 anos e tem outros que duram a vida inteira. Se o cara toca porque as meninas ficam mais fáceis, os amigos mais chegados, festinhas e coisa e tal, que ele vá fazer outra coisa pra sobreviver. Para os outros, que estão dispostos a enfrentar os problemas da estrada, boa viagem. Acho importante saber que cada pessoa é um universo diferente. O que você fez, de repente, não serve para outras pessoas. Mas em qualquer universo que você esteja, acredite nos seus sonhos, porque não espere que os outros acreditem. Acreditando em seus sonhos, vá atrás deles. Mas você também tem que ter o bom senso de se perguntar se realmente tem vocação e o quanto é bom no que está fazendo. É muito comum no meio artístico a pessoa pensar que é cantor ou compositor e no fundo não é nada disso. Para ouvir Rock’n’Roll, último disco do Erasmo acesse www.erasmocarlos.com.br


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Tecnologia

Cinquecento por Carlos Marques | Fotos: Telmo Keim

Retrô no nome, contemporâneo no design e na tecnologia. A pegada é de um compacto esperto e os acessórios não deixam a desejar se comparados aos sedans de luxo

Cinquenta anos depois de lançada a versão original, a Fiat entra no segmento dos compactos retrôs e coloca no mercado brasileiro o Cinquecento (em italiano, pronunciase “tchinquechento”). Convidada pela concessionária Viviani, a Drops colocou o carro nas ruas de Rio Claro e na pista para conhecer o que a montadora está propondo ao importar o seu modelo ícone para concorrer com o Smart ForTwo da Mercedez-Benz, o Mini Cooper da BMW e os veteranos VW New Beetle e Chrysler PT Cruiser. Com um motor 1.4 L de 16 V, ao sair da concessionária com o câmbio no modo automático, a primeira impressão é que se está dirigindo um carro urbano, com o conforto da direção elétrica e motor adequado para as retomadas típicas do trânsito. Chama atenção o espaço interno e a praticidade para se adequar os bancos em couro às condições do motorista, passando pelo ajuste de altura da direção e pelo conforto do som digital, com todos os controles no volante, também de couro e que inclui as aletas do câmbio na versão Sport com câmbio Dualogic. Ao entrar na pista, ainda no modo automático, um toque no botão Sport faz com que o motor alongue as marchas e aumente seu torque. Com facilidade, o aces24


so em aclive acentuado é superado. Com o propósito de fazer 17 km/l na estrada e 13 na cidade, segundo o fabricante, o que se percebe a 120 km/h é um carro estável nas curvas, com frenagens precisas e boas retomadas, inclusive com a possibilidade de se reduzir a marcha manualmente mesmo com o câmbio no modo automático. Ao assumir o câmbio com o motor no modo Sport, o carro ganha outra personalidade. Percebe-se um motor rápido e ágil nas reduzidas e retomadas, fazendo sobressair a diferença das 16 válvulas em um motor de 1.4 litros e 100 cavalos de potência (a 6.000 giros). Facilmente atinge-se 180 km/h e, novamente, chama a atenção a estabilidade do compacto – 3,55 m de comprimento, 1,63 m de largura e 2,3 m entre eixos – , que parece se agarrar ao chão quando se aciona os freios ABS. O dispositivo EBD (distribuição de frenagem) acionado na entrada das curvas,

compensa a frenagem e oferece conforto e segurança para o piloto. Na cidade, o câmbio manual também é prático. Depois de se habituar às aletas no volante, o motorista se esquece da alavanca, exceto para acionar a marcha-à-ré. Dirigir o carro no modo manual pareceunos muito mais interessante do que no modo automático, muito embora as praticidades do Dualogic só acrescentam, principalmente depois que você se acostuma com o câmbio borboleta atrás do volante. O Cinquecento encaixa-se na categoria dos carros ícone e reúne a praticidade dos compactos com tecnologias ainda distante dos carros produzidos no Brasil. Não há como negar que o modelo testado chama a atenção por onde passa. Ao pararmos em um posto de gasolina para exibir seu design, não foram poucas as pessoas que se aproximaram do carro para dar uma espiada e, de muitos modos, o design moderno remete 25


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Tecnologia ao modelo popular dos anos 50 e 60 produzidos na Itália, seja pela frente com seus faróis arredondados e seu capô curto ou pela traseira reta e angular. No painel, chama atenção o estilo retrô do velocímetro analógico que ao mesmo tempo é contagiro, e, em seu centro, o computador de bordo traz todas as informações sobre câmbio e motor em formato digital. O acabamento inclui rádio digital, botões para acionamento dos vidros elétricos e o câmbio parece integrado ao painel. É curioso perceber que a montadora manteve a funilaria em destaque no painel, outra característica do modelo original. Entre um carro ícone e um carro para ganhar as ruas das cidades brasileiras está a faixa de preços sugerida pela montadora. O modelo 500 Sport custa R$ 63.860 e sua versão Dualogic sai por R$ 65.920. Já o modelo 500 Lounge sai por R$ 67.980, o Dualogic entra no mercado a R$ 70.040.

Disponíveis no Brasil A versão Sport traz, entre outros itens, sete airbags, ar-condicionado, sistema interativo Blue&Me, computador de bordo, controle de estabilidade, hill holder (frenagem de auxílio em aclives), freios a disco nas quatro rodas com ABS (antitravamento) e EBD (distribuição de frenagem), volante em couro com comandos integrados, direção elétrica e rodas de liga leve aro 15. Já na versão Lounge, itens como ar digital, teto fixo em vidro e regulagem de altura do banco do motorista, também são itens de série. Nas variações Dualogic, mudam apenas a transmissão e o volante, que passa a ter borboletas para trocas sequenciais (que também podem ser feitas na alavanca). Para ambas versões, entre os opcionais estão teto solar elétrico, rodas de liga leve aro 16 e bancos em couro. No Brasil, a versão Sport pode ser encontrada em branco perolizado, preto, amarelo e vermelho; a Lounge tem essas e outras opções como o branco sólido, cinza e azul escuro metálico.

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Negócios

Para estender um sonho empreendedor por Lilian Cruz | Fotos: Telmo Keim

O ditado popular ‘Pai rico, filho nobre, neto pobre’ resume conflitos que podem ocorrer nas transições de gerações das empresas familiares. O diálogo é um dos atalhos para reverter essa saga As histórias de empreendedorismo têm cenas semelhantes em seus primeiros capítulos. A nova empresa nasce de um sonho desafiador, regado a empenho e suor. Com tempo e trabalho, a aspiração se solidifica, ganha corpo de negócio lucrativo e pede continuidade. Do empreendedor, anteriormente ousado e agora cansado, se aproxima a dúvida: como fazer a sucessão? Esse dilema chega a se transformar em pesadelo para precursores e herdeiros dos grupos familiares. Pesquisas internacionais revelam que somente 60% das empresas familiares, no mundo, chegam à segunda geração e destas, somente 30% alcançam a terceira.

Para a família Stanoski, a transição da liderança da empresa Stavias é um motivo de preocupação e atitude. “Atualmente, a segunda geração dirige a empresa, mas já com o preparo da terceira linhagem do sobrenome que tem raízes na Polônia. “Meu sobrinho faz faculdade de administração de empresas e já desempenha uma função operacional no grupo”, descreve Fátima Stanoski, que ao lado dos irmãos Marcus e Mônica, coordena a companhia de extração mineral, há 40 anos no mercado.

Em 40 anos, três gerações e um patrimônio. Da esquerda para a direita, o fundador Osvaldo Stanoski, debruçado no trabalho de extração mineral. Vitor Crespo Stanoski, símbolo da terceira geração, acompanha os líderes Mônica, Fátima e Marcus Stanoski à frente da Stavias.

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A empresa instalada em Rio Claro, focada nas atividades de lavra e beneficiamento de diabásio, foi fundada pelo gaúcho – já falecido – Osvaldo Stanoski. A trajetória entre o trabalho braçal e a construção de um patrimônio foi marcante para os filhos. “Meu pai se aventurou, passou madrugadas trabalhando duro. Eu e minhas duas irmãs acompanhamos seu esforço”, relembra o engenheiro civil Marcus Stanoski.

O fato de familiares da segunda geração acompanharem o sonho dos fundadores é determinante na transição da gestão. Porém, essa influência também pode ser negativa. Para a administradora de empresas, especialista em transição de gerações, Renata Bernhoeft, da Höft Consultoria Societária, muitas vezes o esforço desprendido pelos fundadores, transformam-se em fardos para os filhos e eles decidem seguir

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outros caminhos. “Pais e avós já fazem os planos da criança que ainda vai nascer e as profecias vão sendo criadas. Mas não param para questionar se é isso que as pessoas querem”, reflete Renata, coordenadora da equipe de consultores que há 30 anos lida com conflitos familiares deflagrados por transições em empresas da América Latina.

Complexidade Dificilmente o processo sucessório consegue ser tratado sob aspectos puramente lógicos e técnicos, por isso o status delicado da situação. Pontos afetivos e de relacionamento familiar geralmente influenciam na estrutura de liderança do negócio, que nem sempre trabalha com um único objetivo: a perpetuação da organização. Questões elementares, mas de respostas ambíguas, não são raras nas reuniões formais e almoços de domingo. “Não se pode usar métricas familiares para resolver trâmites empresariais. O casamento de uma herdeira, por exemplo, não credencia o marido a ganhar um cargo de liderança na empresa. Há que se perguntar: quais os critérios para o membro da família trabalhar na empresa e que tipo de profissional queremos colocar no grupo”, ressalta Renata. O exercício proposto por especialistas passa pela estruturação das decisões de transição familiar, posicionadas em três alicerces distintos: família, patrimônio e empresa. O fato de pertencer à família e corresponder ao patrimônio como herdeiro ou sócio não indica, necessariamente, que a pessoa deva agir como uma executiva e ocupar um cargo

de decisão administrativa. A vertente solitária da profissionalização através da liderança de terceiros é combatida pela especialista em transição de poderes. “Tirar a família, colocar um profissional do mercado e acreditar que tudo vai dar certo é um mito. Quem dará as diretrizes para essa pessoa? A família precisa ter um alinhamento para poder determinar as metas da empresa”, aponta Renata. Nesse organograma, a criação de Conselhos formados por membros da família pode simbolizar os “olhos do dono” em ação, contudo, o treinamento constante e de longo prazo permanece como ponto fundamental. O comportamento do empresário que corre risco, mas cria uma estrutura protegida e não envolve os filhos nas decisões, não é produtivo. Quando solicitados na transição, esses filhos podem não ter massa crítica para solução de problemas, conturbando a passagem do bastão da liderança. Planejamento e profissionalização dos envolvidos parecem ser as palavras possíveis para minimizar conflitos sucessórios. Entretanto, tudo passa pelo diálogo como instrumento essencial de compreensão mútua. Afinal, grande parte do desafio na transição das empresas familiares é colocar o interesse coletivo acima do interesse individual.

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Esportes

Tatames promissores por Gilson Santulo | Foto: Telmo Keim

Nas pernas, a técnica para os golpes da arte marcial. Na mente, o sonho de uma medalha olímpica Agilidade, equilíbrio e força ocupam o ranking das conquistas. Para alcançá-las, instrutores bradam termos como saltar, voar, combater com os pés e atacar com as mãos. No tatame do taekwondo estão em jogo a disciplina apreendida em treinos exaustivos e a perseverança da escolha por um esporte olímpico tão recente, adornado por uma história milenar. Nascido na Coreia há mais de dois mil anos, o taekwondo carrega em sua essência movimentos que imitavam os gestos dos caçadores para se defenderem

dos ataques de animais. No século VII, chefes militares adotaram a prática para melhorar o desempenho dos soldados e, a partir daí, surgiram técnicas e regras que transformaram os exercícios em arte marcial. Chegado ao Brasil por volta de 1970 e reconhecido como esporte olímpico a partir dos Jogos de Sidney, em 2000, a técnica atrai pessoas empenhadas na superação constante. Indivíduos que fazem do tombo o motivo para o recomeço de uma nova batalha. Assim é Luciene Matos, 20 anos de idade, que deixou Macaé, no Rio de Janeiro, para treinar em Rio Claro golpes do furyo, bandal e neryo tchagui, decisivos nos rounds do taekwondo. A atleta, que já praticou capoeira, futsal e até basquete, elegeu o taekwondo como seu esporte e ofício. Treinos diários, meditação constante e alimentação balanceada fazem parte das atividades de Luciene, que começa a colher frutos de sua dedicação. Nos últimos Jogos Regionais de Atibaia, a garota agarrou a medalha de prata e nos Jogos Abertos de Piracicaba, conseguiu a quarta posição no ranking na categoria até 67 kg. Luciene busca a gênese do termo taekwondo – o caminho das mãos e pés. “Treino de

Academia Olímpica de Taekwondo em Rio Claro Rua 14 entre Avenidas 25 e 27 - 19 8183.1374

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Entenda a arte coreana

segunda a sábado, de manhã e à tarde. Me espelho em profissionais consagrados da Espanha e China e, também, em minha professora Carmem Carolina, coordenadora de meus treinamentos em Rio Claro e que conquistou o oitavo lugar nas Olimpíadas de Sidney em 2000”, descreve a esportista. Com 20 anos e vestida com seu dobok, Luciene já tem nome conhecido na Confederação Brasileira de Taekwondo e na Federação Paulista do esporte. Com o apoio do Município, compete em seletivas, treina, medita e sonha com seu futuro. “As Olimpíadas de 2016 no Rio, a primeira da América do Sul, certamente será marcante. Farei tudo para estar lá”, vislumbra. Tae é pé, kwon é mão e do é caminho. Ou seja, caminho dos pés e das mãos

• Alvos

mais visados: barriga, rosto e abdome (com a mão); • Golpes proibidos: chute abaixo da cintura, chute nas costas, soco no rosto; • A cor da faixa indica o grau de desenvolvimento do aluno. A trajetória da hierarquia pode levar quatro anos: saindo da branca até alcançar a preta; • Os equipamentos de proteção têm o objetivo de evitar ferimentos em função dos golpes na cabeça, tórax, região genital e pernas.

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Esportes

Natalia Falavigna A difusão do taekwondo conta com a atuação da atleta paranaense Natalia Falavigna. Adepta do esporte desde 1998, Natália já conquistou o Campeonato Mundial em 2005 e conquistou o ápice do reconhecimento profissional para o taekwondo brasileiro quando arrebatou o Bronze nas Olimpíadas de Pequim em 2008. Confira a conversa que a Drops teve com a atleta, diretamente dos tatames de Londrina, cidade escolhida pela medalhista para treinamento e celeiro de novos talentos do esporte. Você foi medalhista de bronze em Pequim, em 2008, no taekwondo. O Rio de Janeiro será sede das Olimpíadas em 2016, qual sua expectativa para o Brasil se superar nesta modalidade e superar seus principais adversários até os Jogos no Rio de Janeiro? É preciso um bom investimento no taekwondo por meio das entidades esportivas. Temos que investir nas categorias juvenis e esse investimento terá que ser feito pensando em resultados de longo prazo. A capacidade técnica e a experiência dos treinadores serão fundamentais. Até lá, teremos oportunidades de obter bons resultados nos Jogos PanAmericanos, e com os devidos investimentos conseguir as medalhas esperadas nas competições de taekwondo em 2016. Como ganhadora da medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, qual a importância de um evento desse porte para o esporte? Uma Olimpíada no Brasil é muito importante. A gente sempre olha o quintal dos outros, mas o nosso País tem condições de sediar a edição dos Jogos Olímpicos com toda a infraestrutura necessária aos atletas. É a primeira vez que a América do Sul vai sediar evento deste porte, mas não podemos ficar apenas na expectativa. O retorno só vai aparecer, como eu disse, se

tiver toda uma preparação nas modalidades que temos chance de medalha. Tenho certeza que podemos repetir a competência mostrada nos Jogos Pan-Americanos em 2007. Porquê o taekwondo feminino está conseguindo melhores resultados do que o masculino em competições internacionais? Essa resposta não é simples. As garotas disputam com as melhores atletas do Mundo em competições internacionais, como Espanha e China, e a troca de informação, a aprendizagem no taekwondo feminino tem apresentado melhores resultados. Já os rapazes lutam mais em competições da América do Sul e em jogos Pan-Americanos. Isso mostra a importância do investimento em intercâmbios e competições com o taekwondo de outras partes do mundo. O calendário das competições no Brasil precisa melhorar sua estrutura, inclusive na busca de novos parceiros e patrocinadores? As competições de taekwondo precisam de maior divulgação, principalmente da imprensa esportiva nacional em competições federadas, como ocorre em esportes mais populares. Para isso é preciso ter uma empresa que faça parceria com as federações nesta divulgação, pois uma maior visibilidade facilitaria e atrairia novos patrocinadores. www.nataliafalavigna.com.br

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Saúde

‘Açúcar ou adoçante?’ por Lilian Cruz | Foto: Telmo Keim

A pergunta cada vez mais frequente requer certos cuidados na escolha. Afinal, os adoçantes são realmente seguros? Os adoçantes, produtos que viraram símbolo de vida light, podem esconder nas letras miúdas riscos à saúde de quem os consome em excesso. Sua ingestão abusiva, com a preocupação exclusivamente estética, estaria desconsiderando a informação sugerida nas entrelinhas dos rótulos por meio da frase padrão: “Consumir preferencialmente sob orientação de nutricionista ou médico”. Como quatro ou cinco gotas podem representar uma colher de chá de açúcar, os adoçantes são usados com o objetivo de diminuir o valor calórico dos alimentos. Tecnicamente chamados de edulcorantes, foram criados para diabéticos, pessoas com

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dieta de restrição calórica e, com o tempo, passaram a ser utilizados na fabricação de produtos classificados como light ou diet. De acordo com a nutricionista Gabriela Kaiser Fullin Castanho, formada pela Universidade Estadual de São Paulo, a escassez de estudos com os produtos aumenta a preocupação dos profissionais da saúde. “Os adoçantes são largamente utilizados e de forma indiscriminada. Em relação ao câncer, por exemplo, ainda não se chegou à conclusões definitivas”, alerta a profissional. Na lista de contraindicações já comprovadas estão riscos às funções hepáticas e tendência à hiperatividade. Para o ciclamato de sódio e a sacarina sódica estão compro-


vados mecanismos que aumentam o risco de hipertensão. Ao aspartame, consta a consequência de deflagrar crises de enxaqueca, sendo também contraindicado para portadores de fenilcetonúria (doença relacionada ao metabolismo de proteínas). Para a engenheira de alimentos Angela de Fátima Kanesaki Correia, formada pela

Universidade Federal de Viçosa e professora da Universidade Metodista de Piracicaba, a segurança na utilização dos adoçantes é garantida, desde que respeitadas as quantidades adequadas. “Há legislações brasileiras específicas para os adoçantes e os limites máximos de Ingestão Diária Aceitável (IDA) estão claramente estabelecidos”, aponta.

Crivo No mundo todo, os edulcorantes permitidos por legislação foram avaliados por órgãos oficiais internacionais como Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives – JECFA, Codex Alimentarius e órgãos da União Europeia, e todos constam na Lista Geral Harmonizada de Aditivos do Mercosul. Um fabricante de aditivos pode gastar até dois milhões de dólares na pesquisa exigida pelo JECFA. Esse comitê pode estudar exaustivamente um aditivo e chegar à conclusão de que o mesmo não é seguro para o consumidor. Geralmente, no Brasil, os fabricantes só entram com processo de aprovação para aditivo quando este já foi aprovado e está sendo usado normalmente nos

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Saúde países mais avançados do mundo. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e os Ministérios da Saúde e da Agricultura são os órgãos oficialmente responsáveis pela regularização e fiscalização destes produtos. “Considero que eles estão atuantes no sentido de aperfeiçoar as ações de controle quanto à segurança do uso dos aditivos, visando proteger a saúde da população”, complementa a professora Angela.

Vale lembrar que os edulcorantes estão presentes nos refrigerantes e alimentos com etiquetas diet e light, e o consumo destes deve ser considerado, assim como as gotinhas do cafezinho diário. Afinal, como para tudo na vida, a máxima para os adoçantes continua valendo: a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. E, na dúvida, o melhor é consultar um médico ou nutricionista.

Dose moderada A tabela descreve o edulcorante e a quantidade máxima de ingestão diária, considerando miligramas por quilo de peso corpóreo:

Origem • Sacarina – Derivado do petróleo,

está proibido no Canadá – 200 a 700 vezes mais doce que o açúcar; • Ciclamato – Derivado do

petróleo – 30 vezes mais doce que o açúcar; • Aspartame – 200 vezes mais

Sacarina

Ciclamato

doce que o açúcar; • Sucralose – Derivado do açúcar

comum – 600 a 800 vezes mais doce que o açúcar; • Estévia – natural, derivado

Aspartame

Sucralose

da planta Stevia rebaudiana, planta originária da América do Sul – 300 vezes mais doce que o açúcar. Já foi proibido nos EUA e hoje é vendido com restrições. É o adoçante mais consumido no Japão; • Acessulfame-K – Comum em

sachês de mesa e refrigerantes – 200 vezes mais doce que o açúcar; • Neotame – Adoçante mais

Estévia

Acessulfame-K

potente que existe, uso destinado às industrias – 7.000 vezes mais doce que o açúcar.

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Imagine-se em uma cidade onde não é possível se perder. Não importa em qual dos lados você está ela acaba sempre em muro. De um lado, a exploração do homem pelo homem; do outro, o inverso, uma metáfora de um processo reducionista que de tempos em tempos parece assolar a história. Nesse cenário, o homem urbano e pós-industrial aparece enclausurado na ideia de progresso que, por sinal, habita os dois lados. Nessa cidade, vida e tempo correm em sentidos contrários e isso atormenta o pensamento humano. Não, não se preocupe, nem tudo está perdido. Existe um muro que os separa e este é outra metáfora para que dois mundos possam ser declarados verdadeiros em um filme de época que culminou com a queda do Muro de Berlim, há vinte anos. No filme de Wim Wenders, de um lado 42


Cinema

O que faria você abrir mão da eternidade? por Carlos Marques

Se há vinte anos o muro de Berlim tornou-se obsoleto como símbolo da geopolítica mundial, o filme Asas do Desejo de Win Wenders continua essencial anjos noir e seus longos casacos cinza – ou seria outra cor? Não importa, anjo não vê cor, nem tem qualquer outro sentido. Seu isolamento eterno é quebrado pelos olhos das crianças, mas não de todas. Do outro, os humanos e seus afazeres. O tempo parece lhes fugir pelos dedos e, por isso, a vida parece lhes faltar sentido. Não há simetria ou verdade entre esses dois mundos que estabeleça uma razão para ambos. A única simetria possível é a existência pesar para os humanos e a eternidade para os anjos. Se os anjos se recolhem nas bibliotecas e se empoleiram em edifícios e monumentos de Berlim, os humanos ocupam as ruas e estão em constante movimento. Como humanos, as angústias e os desejos que reconhecemos em nós e que geralmente não enunciamos podem ser ouvidos por eles. Como anjos, além de

sintonizar os pensamentos dos humanos, resta-lhes apoiar as mãos nos ombros dos homens e sugerir conforto, paz e coragem nos momentos de angústia. Durante a segunda metade do século vinte, enquanto um muro representou a divisão geopolítica baseada na força da guerra, outros muros eram construídos pelo cotidiano vazio de sentido em uma cidade assediada pela vergonha e ausente de desejo. Não por acaso, o filme franco-alemão recebeu o título Asas do Desejo - Les Ales du Desir, em francês. No filme, o desejo assume ser a única possibilidade de mudança, algo que parece dar sentido à existência dos humanos e servir como ferramenta para romper a eternidade dos anjos. Em suas reflexões sem respostas, Wenders utiliza a cor para construir a passagem de um lado para outro. Enquanto narrado 43


pelo anjo Damiel (interpretado por Bruno Ganz), o filme transcorre-se em branco e preto, com pequenas cenas coloridas que enfatizam a transformação em curso. Ao se apaixonar pela trapezista de circo Marion, interpretada pela atriz Solveig Dommartin, seu anjo-da-guarda Damiel decide romper a solidão da eternidade e lançar-se em queda para se transformar em humano. Nesse ponto, o filme passa a ser colorido, de um colorido que se torna cada vez mais intenso. A ironia e genealidade do diretor levam-no a mais uma metáfora, interpretada pelo ator Peter Falk, o detetive do célebre seriado Columbo. Em Asas do Desejo, Falk in-

Para assistir Se você gosta de filmes de aventura e ação, Asas do Desejo lhe parecerá monótono. São duas horas de reflexões sobre o homem pós-moderno e suas muralhas. Embora no Brasil o filme nunca tenha entrado em circuito comercial, foi relançado em DVD pela Europa Filmes e para assistilo fica a opção de uma boa locadora. Caso contrário, uma rápida pesquisa em ‘buscadores’ da Internet e você poderá encontrá-lo em lojas eletrônicas. Nas lojas americanas.com, por exemplo, é possível adquirí-lo por R$ 29,90.

Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, Alemanha, 1987)

Direção: Wim Wenders Elenco: Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander e Peter Falk Duração: 128 minutos - Europa Filmes Anjo da Concórdia, esculpido em Pietra Santa, Itália, exposto no jardim Público Central de Rio Claro

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terpreta ele mesmo na forma de outro ‘anjo caído’, que ao perceber a transformação de Damiel, vem lhe socorrer com a amizade para lhe mostrar os pequenos prazeres dos sentidos, como segurar nas mãos uma xícara de chocolate quente em meio ao inverno gelado de Berlim. Em 1988, como cineasta, Wim Wenders afirma seu talento ao penetrar a psiquê humana, no clássico estilo do cinema europeu. Como visionário, Wenders antecipou a queda do Muro de Berlim em 1989 e, ao colocar no filme diálogos em alemão, inglês, francês, japonês e espanhol, antecipou também a globalização que se seguiu.

Foto: Telmo Keim

Cinema


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Nathália: blusa e calça Forum, sandália Santa Lolla, acessório Morana - Laura: chemisier e cinto Forum, sandália Santa Lolla Thaís: vestido Opera Rock, acessório e lenço Morana - Fred: camiseta Forum, calça e sandália Opera Rock

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Woodstock

40 anos

Se Woodstock fosse acontecer agora, como seriam os três dias de paz e música? Com essa pergunta na cabeça, montamos um editorial de moda em homenagem ao festival que revolucionou comportamentos ao se tornar símbolo de juventude e liberdade por Carlos Marques fotos Telmo Keim edição de moda Selena Escher maquiagem Cristina Maira

Seus organizadores não podiam imaginar que o festival nunca terminaria. Nem que o mundo ganharia novas cores em meio à cinzenta guerra fria depois daquele agosto de 1969, um verão que se mostrou chuvoso para o estado de Nova York. A cena começa com a partida de milhares de jovens de várias partes dos Estados Unidos em direção à fazenda Bethel, uma propriedade nos arredores da pequena cidade de Woodstock. De boca em boca, o festival se espalhara pelas universidades americanas e uma multidão logo se viu em direção a um pasto localizado a cerca de 170 km da Big Apple. O fluxo de jovens foi tão grande que o festival foi declarado livre. Quando se percebeu, mais de 400 mil pessoas de todo o país estavam dispostas a tomar chuva, dançar na lama e enfrentar filas gigantescas, mesmo depois dos enormes congestionamentos ou de terem percorrido o trajeto final a pé para três dias de comunhão, protestos e, porque não, assistir aos shows que se tornariam verdadeiros mitos. Entre eles, o do jovem


“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” Martin Luther King

Santana, da banda The Who, Joe Cocker, Joan Baez, James Joplin, Jimi Hendrix e outros. Os dias que se seguiram mostraram a capacidade de tolerância e o respeito entre aqueles que propunham amor e não guerra, a discutir os direitos dos negros e promover a participação da mulher em uma sociedade conservadora e temerosa da grande bomba. Afinal, o mundo se dividia em muros e pouco importava o lado, o que se via era uma corrida estúpida pela supremacia militar. Woodstock ecoou como um grito, um gesto de protesto contra a política do Americam Way of Life, que ao mesmo tempo impulsionava o país em direção a conquista do espaço, enviava seus jovens para a guerra. Foram três dias pela liberdade nos usos e dos costumes, pelo uso de drogas e em defesa do amor livre. Naquele momento, nada mais apropriado para pensar um mundo melhor senão uma legião de jovens dispostos a experimentar uma espécie de catarse promovida pelo respeito à condição e opção do outro. Da ideia à prática, o festival transcorreu em paz. Graças à sua capacidade de auto-organização, ‘ganhou’ a grande imprensa americana e recebeu ‘elogios’ da polícia do Estado de Nova York. Afinal, o saldo foi positivo: uma morte por overdose e dois nascimentos. No tempo, as ideias e práticas daqueles que estiveram em Woodstock se transformaram em produtos de consumo e espalharam-se pelo mundo. Certamente a música e o comportamento de grande parte dos artistas que tocaram em Woodstock tornaram-se fio condutor para que, ainda que de outras formas, essas experiências pudessem ser vividas em outras partes do mundo.


Nathรกlia: bermuda Forum, acessรณrio Morana, sandรกlia Santa Lolla Fred: camiseta Forum, bermuda e sandรกlia Opera Rock Laura: รณculos Armani, blusa e bermuda Forum

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Nathália: óculos Ray Ban, blusa Forum, sarouel Equus, sandália Santa Lolla Laura: vestido Opera Rock, sandália Santa Lolla

Fred: camiseta Forum, bermuda Opera Rock, sandália CNS

Thaís: blusa Equus, calça Forum, sandália Santa Lolla, acessórios Morana Fred: calça Opera Rock, sandália CNS

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Harold Gordon Fowler nasceu em Rosewell, Novo México, em 1950. Graduou-se pela State University of New York em 1971 e hoje é professor livre docente em Ecologia Aplicada na Unesp de Rio Claro

Que América era aquela? “A cidade de Woodstock era mais ou menos do tamanho de Analândia - SP. A notícia do festival correu pelas Universidades e, dois dias antes de começar, decidimos ir. Tinha 19 anos, fui de bicicleta com uns amigos. Cruzamos muita gente no caminho, combis e carros de várias partes do país em fila, não havia a menor estrutura por lá, muito menos para receber tanta gente jovem, cabeluda, barbuda e ‘caipira’, disposta a protestar contra a guerra do Vietnã, assustada pelo assassinato de Kennedy, motivada por Martin Luther King e pelo movimento feminista. Foram 72 horas de shows sem parar. Acho que ninguém se manteve consciente o suficiente para lembrar de todos. As pessoas que lá estavam também discutiam coisas importantes, isso quando o efeito do chá de cogumelo tinha passado. Entre uma chuva e outra, para espantar o frio, sempre tinha alguém disposto a lhe oferecer um chá quente. Creio que na época ninguém tinha dimensão do que estava acontecendo e os filmes só mostram ‘o que se quer mostrar’. Não mudamos o mundo, apenas demos um pontapé para que outras coisas acontecessem. Hoje, às vezes acordo e me pergunto onde estou? Ninguém me questiona nada e a Universidade me parece mais conservadora que a sociedade. Tenho saudades de ver os jovens questionando as coisas...”


Quermesse à brasileira Faltavam poucos dias para o começo da primavera de 1981. Combinamos de nos encontrar na estação para o expresso das oito. A noite caía rápido e a ansiedade aumentava à medida que barracas e mochilas iam se amontoando na plataforma. Éramos doze em busca de aventura e, porque não, paragens desconhecidas para quem tinha dezesseis anos.


E lá veio ele. Elétrico, mais parecia uma Maria a soltar fumaça. Quando parou, frustrou ver que aparentemente não cabia mais ninguém. Era gente por todos os lados: nos corredores, entre bancos, gente dormindo

no porta-bagagens, entre malas, sentada nas janelas, nas escadas dos vagões. Estranho perceber que bastou se aproximar de uma das portas para mãos se oferecerem a puxar a bagagem e encontrar

Laura: óculos Ray Ban, baby look e calça Opera Rock, sapato Santa Lolla, lenço Morana Fred: calça e sandália Opera Rock Thaís: blusa Equus, lenço e calça Forum, sandália Santa Lolla Nathália: blusa Equus, calça Forum, sandália Santa Lolla


Thaís: blusa Equus, calça Opera Rock, sandália Santa Lolla, acessórios Morana Laura: óculos Armani, blusa, cinto e bermuda Forum Nathália: blusa e calça Forum, sapato Santa Lolla, acessório Morana

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um lugar para nos acomodar. Começava aí uma viagem que nunca fugirá da memória. À medida que o trem se aproximava da próxima parada, era como se soubéssemos que mais pessoas subiriam, e assim foi até Bauru, interior de São Paulo. A cada parada o trem crescia. Pelo que sei, ninguém ficou de fora.

Iacanga a 50 km Na manhã do dia seguinte, entre caronas e ônibus, chegamos todos. Do alto da entrada da fazenda avistava-se o enorme palco de eucalipto. À esquerda, uma quantidade de barracas armadas em meio a outras que surgiam e acrescentavam cores ao pasto que se estendia aos olhos em tons de amarelo, qual grama seca. Hermeto Paschoal e suas panelas musicais deram início à “grande quermesse musical brasileira”. Em três dias passaram por aquele palco Raul Seixas, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Morais Moreira, A Cor do Som, Alceu Valença, Oswaldinho, 14 Bis, Tetê Espíndola e muitos outros. De forma tranquila as pessoas se conheciam e andavam por entre outras que, sentadas ou dançando, assistiam aos shows. Mesmo sem causa declarada, o festival acompanhou a distensão do regime militar. As 70 mil pessoas que se encontraram em Águas Claras em 1981 já não representavam uma ameaça subversiva. O único incidente aconteceu debaixo de um sol escaldante: o fogo escapou de uma das fogueiras, espalhou-se rapidamente pela palha seca e queimou algumas barracas. Como no trem, o que se viu foram pessoas correndo para ajudar a arrastar barracas para longe do fogo, enquanto outras corriam para apagá-lo. Em muitos sentidos, o saldo do Festival de Águas Claras também foi positivo. No tra-


Fred: calça Opera Rock Thaís: blusa Equus, calça Forum, sandália Santa Lolla Laura: óculos Ray Ban, baby look e calça Opera Rock Nathália: blusa Equus, calça Forum, sandália Santa Lolla

jeto entre as bicas de água e a lagoa, onde muita gente optou pelo nudismo na hora de tomar banho de sol, ou no caminho de volta até as barracas, o máximo que se viu foi gente de ressaca. Não se ouviu queixa de barracas roubadas ou de gente disposta à violência; pelo contrário. Se ninguém

nasceu durante o festival, uma boa quantia terá sido fruto dele. Outro festival em Águas Claras ocorreu em 1983, um ano antes do movimento das Diretas Já, que marcou o fim da ditadura no Brasil. Em 1985, foi a vez do Rock’n Rio, mas a cena era outra e outras as suas histórias.


Para saber mais • Talking Woodstock,

filme de Ang Lee narrado a partir das memórias de Elliot Tiber, um desconhecido que teve participação crucial na realização do festival, em 4 DVD’s, 2009; • Woodstock - 3 Dias de Paz, Amor e Música, de Michael Waldeigh. Documentário com 224 minutos em DVD; • Aconteceu em Woodstock, de Elliot Tiber pela editora Best Seller; • Woodstock Quarenta Anos Depois, de Peter Fornatale, uma coletânea de depoimentos, pela editora Agir; • Em 2010 deverá ser lançado um DVD do Festival de Águas Claras. Até lá, se quiser saber mais, acesse aguasclarasfestival.blogspot.com

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Thaís: óculos Ray Ban, blusa e calça Opera Rock, sandália Santa Lolla, acessório Morana

Agradecimentos Shopping Piracicaba Equus Rio Claro Jog Music Óticas Carol Natura

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O Circo Místico Não Não sei se é um truque banal Se um invisível cordão Sustenta a vida real Cordas de uma orquestra Sombras de um artista Palcos de um planeta E as dançarinas no grande final


Estética

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Estética

Com a cabeça no mundo das festas por Lilian Cruz | Fotos: Telmo Keim

Versatilidade e ousadia são apostas para as ocasiões especiais deste final de ano A folha do calendário marca dezembro. Eis o mês que as agendas entram em conflito com convites simultâneos para diferentes ocasiões. São confraternizações com os colegas do trabalho, encontros da turma, celebrações familiares e jantares românticos. Não importa o destino, todos os convites pedem uma produção especial. É o momento de listar o arsenal de festas: vestidos elegantes com sapatos de salto e acessórios no mesmo tom. E para completar o visual, estilos especiais para os cabelos. Afinal, o mês traz a formidável chance de sair da rotina impressa no restante do ano. A Drops visitou o Studio Gloss e conferiu três penteados para os eventos que disputam sua presença neste final de ano.

Trança cosmopolita Com o secador em ação, retire toda a umidade dos fios e separe a franja do comprimento. Comece a trança pelo topo da cabeça e vá interlaçando os fios. Não se preocupe com alguns fios soltos à estrutura. “O penteado é chamado sujo porque não é como a trança clássica feita em noivas. Sair do convencional é a ideia, sem perder o charme da ocasião”, descreve a cabeleireira Dani Caperucci, atenta às tendências mais badaladas do momento.

Modelo: Arieli Milani

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Estética

Modelo: Laura Rubio Claret Pereira

Fios despojados Após secar e escovar os cabelos, separe a franja do comprimento e divida o volume dos fios em mechas semelhantes. Para posicionar as mechas, imagine um triângulo de ponta-cabeça e vá seguindo suas bordas. Dê algumas torcidinhas nas mechas e prenda-as com grampos nas bases. “A fusão do moicano frontal com o preso desfiado dá um ar moderno ao penteado”, descreve o cabeleireiro Dinho Lima, que há nove anos transforma a cabeça das mulheres.

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Estética

Modelo: Maria Angélica Arnosti

Romântico casual A escova modelada deixa o cabelo com textura natural. Preserve a base lisa e, em seguida, separe mechas nos comprimentos do fio. O próprio secador é o instrumento para dar formato de cachos nos fios. Para fixar os cachos, enrole e prenda-os com grampo por cerca de 30 minutos. Depois, retire os grampos. “Outra dica é aproveitar a escova para deixar o penteado meio preso, aliando beleza à praticidade”, comenta a cabeleireira Alê Alves, expert em manobras com o secador de cabelos há cinco anos.

Agradecimentos: Studio Gloss Five Store S.A. Feet

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Regata all tim

por Lilian Cruz | Foto: Telmo Keim

A proximidade do verão evidencia a preocupação feminina com a aparência das axilas, afinal, os braços ficam à mostra com alcinhas e regatas Uma viagem internacional é a oportunidade para a quebra de alguns paradigmas. Comportamentos que antes pareciam ser indispensáveis ao cotidiano passam a ser questionados em sua essência. O porquê do beijo entre homens. O porquê do uso de determinadas vestimentas. O porquê das axilas femininas depiladas. Essa última questão vem à tona quando os termômetros começam a ultrapassar a casa dos 30 graus. Em alguns países da Europa, como a França, não é raro se deparar com mulheres que preservam os pelos embaixo dos braços. Mas no Brasil, a depilação das axilas faz parte do check-list de beleza do universo feminino. Para o dermatologista formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Marcelo Caitano, o fato de o Brasil ser um país tropical é determinante para a praxe das axilas sem pelos. “O uso de biquínis e roupas mais cavadas faz com que a depilação se torne um hábito, refletindo uma preocupação estética e até de higiene”, comenta o médico que atua em Piracicaba. Outra vertente que leva a brasileira ao hábito da depilação das axilas é apontada pelo cirurgião plástico Nelson Letízio, fundador e Secretário Geral da Sociedade Bra-

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Estética

me sileira de Laser em Medicina e Cirurgia. “As descendências italianas e portuguesas são naturalmente mais peludas que os anglossaxões, por exemplo. E a mulher brasileira traz esses reflexos da miscigenação latina”, descreve o médico. Diante da demanda, hoje não só as lâminas de barbear, pinças, navalhas, ceras e cremes depilatórios estão à disposição das mulheres. A tecnologia também é uma das opções disponíveis para que a pele das axilas fique com aparência lisa e livre de pelos, mesmo que seja por um período pré-determinado. O tratamento a laser consiste na produção de um feixe de luz altamente concentrado, que é absorvido pelo pigmento (melanina) localizado nos folículos pilosos. “A luz pene-

tra na pele sendo conduzida através do pelo, chegando ao folículo e o destruindo”, explica a dermatologista Vera Lígia Fittipaldi, especializada em dermatologia clínica e estética. Mesmo aqueles pelos que não são aniquilados, tendem a crescer mais lentamente, mais claros e mais finos. Letízio, que há oito anos trabalha com técnicas de depilação a laser completa: “Depende do pelo, da eficácia da máquina e de quem está operando o equipamento. O tipo de pele e a disponibilidade do paciente em cumprir a tabela de sessões também são fatores que devem ser considerados. Por isso usamos o termo depilação de longo prazo. Na primeira ou segunda sessão é possível reduzir cerca de 50% dos pelos”.

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Estética A dor da pele lisa Nomes específicos são mencionados nas clínicas de estética, como Alex Alexandrita, o antigo líder Light Sheer Duet®, E-max® e o inovador ND:YAG que usa cristais de neondino, impregnados com íons de yag para aplicação. Contudo, a cada nova tecnologia, o efeito dolorido parece diminuir. A dor é um sentimento difícil de ser classificado em escala. Entretanto, ela estaria diretamente ligada à sensibilidade do paciente. Cada pessoa tem um limiar de dor e quanto mais alto esse limiar, mais dor ela seria capaz de suportar. Para o dermatologista Caitano, a evolução técnica dos aparelhos possibilita um procedimento cada vez mais rápido e confortável. “Além do mais, pode ser utilizado cremes anestésicos e um resfriamento da pele com aparelhos complementares”, explica. O pelo tem três fases de crescimento, anágena, catágena e telógena e o laser só atinge o fio quando ele está adulto. Por isso,

é preciso realizar várias sessões, pois o pelo que ainda está nascendo não será atingido pelo laser nas primeiras aplicações. De acordo com Vera Fittipaldi, a depilação a laser é totalmente segura e eficaz. “Entretanto, as ressalvas na aplicação devem ser consideradas caso o paciente tenha doenças hormonais que se manifestem em qualquer fase da vida ou patologias de base hormonais, que possam interferir na eficácia do tratamento”, considera a médica.

Pelo sim, pelo não; vale saber • Quanto mais clara for a pele e mais escuro o pelo, mais satisfatório o resultado.

Entretanto, qualquer tonalidade de pele pode receber o tratamento, com a regulação adequada do nível de intensidade da luz; • A contraindicação recai sobre mulheres grávidas ou que estão amamentando. Se houver foliculite acentuada, é necessário tratá-la antes da depilação; • Para evitar manchas, aconselha-se evitar o sol no local da aplicação. Quando se trata das axilas, que é um lugar mais recluso, a recomendação é não se bronzear com os braços para cima nos dias que seguem às aplicações; • O prévio bronzeamento acentuado também é um fator limitador da aplicação do laser; • O número de sessões para o tratamento das axilas varia de quatro a seis sessões, com intervalos mínimos de quatro a seis semanas entre elas; • Pode ser necessário, após um ano do término do tratamento, uma ou duas sessões de manutenção; • Cada sessão de depilação das axilas custa, em média, de R$ 200 a R$ 350; • Várias áreas do corpo podem ser tratadas, como face, virilhas, pernas, ânus, períneo, dorso do pé e meio braço.

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Refúgios essen por Lilian Cruz e Rafael e Moraes | Fotos: Telmo Keim

Os mais arrojados projetos arquitetônicos podem ser colocados em prática em diversos tipos de ambientes, como casas amplas ou espaços diminutos. Isso não é novidade. Porém, atualmente, em todos esses projetos, os banheiros ganham cada vez mais destaque. Especialistas indicam que os investimentos destinados aos banheiros de uma casa representam cerca de 30% dos gastos de uma obra. Se no passado, o cômodo já foi considerado um ambiente estritamente

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Casa & Cia

enciais Com acessórios especiais, os banheiros passam a ser lugares únicos para o encontro consigo mesmo dentro de uma casa movimentada

funcional, agora a tendência é a transformação do espaço em um refúgio de privacidade e prazer. No movimento dessa mudança conceitual ocorre a reinvenção de acessórios que até tempos atrás eram exclusivamente úteis, mas sem atrativos adicionais. Os espelhos conquistam mais centímetros nas paredes do banheiro, muito além da altura do busto, posição tradicional. E, com eles, qualquer ambiente parece mais amplo.

Os armários, outrora necessários para acomodar toalhas e itens de higiene, ganham nova aparência. “A tendência hoje é o desaparecimento dos puxadores. Com linhas retas, os móveis de banheiro têm mais preocupação com a estética”, descreve Dalva Bonaldo, profissional que atua há mais de 15 anos em projetos de planejamento de interiores. Além dos móveis, que devem ser resistentes à umidade do local, metais, louças e acessórios também são essenciais para o aumento do conforto e estilo do refúgio. As torneiras, cada vez mais altas, emergem de cubas sobressalentes e com desenhos diferenciados. Toalheiros e papeleiras também seguem linha decorativa impressa pelos metais. Dentro dos boxes de vidro transparente, colorido ou com detalhes exclusivos, encontram-se chuveiros de luxo com sensores de movimento, controle remoto e regulagem automática de água e temperatura. Caprichos extras passíveis de caracterizar os banhos como deleites cotidianos. Entretanto, vale optar por linhas sustentáveis, que utilizam restritores de vazão de água. Nos quatro cantos do ambiente, as opções de decoração são intermináveis. Desde o clássico mármore, que confere extrema sofisticação ao espaço, até as pastilhas co-

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Casa & Cia

Mais tempo no banheiro

loridas, que podem surpreender com o uso de strass em sua composição. Não há regras e sim exercício de bom gosto na escolha das cores, que vão das gamas sóbrias, como o bege e cinza, às contraposições de tons, como o preto e o branco. 74

Hoje, o banheiro é o cenário para as mulheres comporem a maquiagem. Aos homens, cabe a tarefa rotineira de barbear-se. Para isso, bancadas com visual de prateleiras prometem organização funcional. Para proporcionar encontros simultâneos agradáveis, duas cubas não são consideradas excessos. “Há projetos que usam dois chuveiros que oferecem ao casal banhos com mais conforto”, descreve Dalva, que atualmente desenvolve planejamentos para clientes de todo o estado. Em nome deste conforto sem tempo para acabar, há quem inclua televisores, som e iluminação dimerizada no ambiente. Itens que corroboram a ideia de que aquele momento é de um refúgio íntimo, mas sem se desconectar com a tecnologia disponível.


É bom saber • Quando for planejar a obra, reserve um

espaço adequado para a construção e pense na funcionalidade do banheiro atrelado às possibilidades de conforto. O mínimo recomendado é 4 metros quadrados; • Eletroeletrônicos e madeiras presentes no banheiro devem ser resistentes à umidade. Mesmo feitos de materiais específicos, o melhor é instalá-los o mais longe possível do box; • Saias grandes – com mais de 15 cm de altura – estão na moda dos projetos contemporâneos. A vantagem é funcional: escondem o sifão; • Gavetas rasas organizam melhor a maquiagem; • Para auxiliar na maquiagem, invista em iluminação quente e fria no espelho. Assim, a imagem fica com um tom mais natural; • Quanto menores os banheiros, mais intensa a iluminação. Abuse de cores claras em banheiros pequenos. Um tom só nas paredes e no teto aumenta o ambiente, assim como os espelhos; • Para otimizar espaços, use portas de correr; Para ampliá-los vá de espelhos; • A preocupação com o meio ambiente também é a tendência do momento. Portanto, opte por linhas de economizadores sustentáveis disponíveis nos catálogos das principais marcas de metais.

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Turismo

Luzes saúdam 2010 em Copacabana por Lilian Cruz e Daniel Marcolino | Fotos: Telmo Keim, divulgação

Um dos cartões postais mais famosos do Brasil se ilumina com a queima de fogos e festas exclusivas da virada do ano

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Três, dois, um. Êxtase. O novo ano realmente parece aportar em terra firme quando quem o espera está com os pés fincados na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. É no céu da Cidade Maravilhosa que ocorre o show pirotécnico mais famoso do Brasil para deslumbramento de turistas do mundo inteiro. Aproximadamente dois milhões de pessoas, todos os anos, se unem pelo espírito no Reveillon do Rio. Saúdam-se, mesmo que desconhecidas, e caminham em direção à praia na celebração do término de um ciclo. Cada uma em seu ritual particular e, a maioria, com garrafas de champagne e flores à tira colo. Em simultaneidade com a queima de fogos, artistas brasileiros se apresentam em palcos temáticos com objetivo de integrar o público com o show pirotécnico. À frente do tradicional hotel Copacabana Palace é instalado o palco mais disputado da noite e conta com sotaques de diversas regiões do Brasil e o som de múltiplos idiomas. Nesta despedida de 2009, o evento promete ser memorável. Com a seleção do tema “Revoluções” – inspirado nos desejos de Ano Novo (paz, amor, saúde, prosperidade e felicidade) – a exibição pirotécnica terá duração de 15 minutos, e será dividida em 11 partes. Imerso na escalada de luzes, cenas alusivas às Olimpíadas de 2016. A finalização do espetáculo ocorre com a fantástica “Dança das Estrelas”, que condensa pirotecnia de alta tecnologia e movimentos ágeis, capazes de formar figuras no céu. Para evitar acidentes, as balsas com os explosivos ficarão posicionadas entre 200 e 350 metros da arrebenta- Carina Bensuaski Quilici e sua ção das ondas. irmã Carolina a bordo do navio Transatlânticos também debruçam suas âncoras no mar de Island Scape atracado em Copacabana e desfrutam de visão privilegiada dos estouros dos Copacabana, no fogos de artifício. Para a publicitária Carina Bensuaski Quilici, Reveillon de 2008 77


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Turismo passar o Reveillon a bordo de um navio, bem em frente à praia carioca, foi uma experiência incrível. “Escutar aquele barulho estrondoso e toda aquela gente dizendo Feliz Ano Novo, cada um na sua língua, é demais. Pode parecer um tanto redundante, mas realmente, é um grande espetáculo”, relembra. No desembarque do novo ano, acordar no Rio de Janeiro vai além das esperanças renovadas. É a ocasião perfeita para preencher os olhos com as belezas dos mosaicos de paisagens, distribuídas entre o mar e as montanhas. É alegrar-se com a gentileza típica do carioca; se deixar levar sob a cadência dos Arcos da Lapa e, do cume do Pão de Açúcar, ver a cidade descortinada. Momento oportuno para ir ao Corcovado e, aos pés do Cristo Redentor, tecer as preces para os próximos dias que virão.

Fator segurança Quando o roteiro inclui o Rio de Janeiro como destino, a preocupação com a segurança pública certamente visita a mente de vários turistas. Afinal, a mídia nacional divulga dia sim, outro também, crimes ocorridos nas planícies e morros da cidade. A jornalista Ana Leone

Paiva contesta a visão de violência generalizada no Rio. “Morei em Copacabana durante cinco anos e posso assegurar que não vi e nem ouvi nenhum tiro, nenhuma bala perdida. Existe a violência que é própria de uma cidade grande e é lógico que nas favelas a falta de segurança é eminente. Porém, pode-se ir ao Rio sem ir às favelas”, aponta a jornalista que hoje vive em Santa Bárbara d’Oeste. Outros pontos fortes se sobressaem na classificação de Ana Leone para a Cidade Maravilhosa: “Prefiro divulgar o Rio por toda sua beleza natural e seu movimento cultural muito ativo. Não posso esquecer da hospitalidade do carioca, que me surpreende e encanta até hoje”.

Credenciais Para turistas que preferem celebrações mais reservadas, as festas nos hotéis estrelados da Princesinha do Mar são as alternativas. Com preços individuais, as festas e jantares são oferecidos até para quem não está hospedado no hotel. Além de requin-

Os olhares se voltam para Copacabana e Ana Leone Paiva afirma que sentiu-se parte do cenário aplaudido pelo mundo todo

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Turismo tados cardápios no Jantar de Reveillon, a música ao vivo invade a madrugada. A decoração especial tem a intenção de remeter turistas às reflexões típicas da data. Ceia no Pestana Atlântica O último jantar de 2009, servido no Restaurante Cais da Ribeira, conta com Open Bar whisky 8 anos e espumante nacional. Música ambiente das 20h30 às 01h30. Valor varanda por pessoa: R$ 650 + 10%. A badalada Festa do Pestana acontece na cobertura do hotel, com Open Bar whisky 12 anos e espumante importado, ao som de música eletrônica. As mesas no Solarium têm o valor por pessoa de R$ 1.950 + 10%. Mais informações pelo telefone 0800-0266-332 e www.pestana.com Copacabana Palace, o palco principal O hotel mais conhecido do Rio de Janeiro realiza as tradicionais celebrações do Reveillon nos Salões Nobres – Golden Room e Frontais – a partir das 20h, com buffet elabo-

rado pelo chef Executivo Francesco Carli pelo preço de R$ 1.400 por pessoa. Os restaurantes Cipriani e Pérgula (anexos ao hotel) também oferecem ceias especiais com o preço de R$ 1.200 por pessoa. Reservas 0800-0211533 – www.copacabanapalace.com.br Luxo e Moët Chandon no Sofitel Copacabana Com a vista para a praia de Copacabana e para o Pão de Açúcar, o Sofitel Rio oferece alta gastronomia no restaurante francês Le Pré Catelan, eleito pela revista Hotels Magazine um dos dez melhores restaurantes de hotel do mundo. O menu, servido das 21h às 3h, oferece terrine de froie gras com crocante de avelã caramelizado. Música ambiente e várias opções de bebidas como whisky 12 anos, vinhos franceses e champagne Moët Chandon estão inclusos no preço de R$ 980 por pessoa. Reservas 21 2525.1235 e www.sofitel.com Mais informações no site oficial www.rio.rj.gov.br

Inaugurado em 1923 pela família Guinle, o Copacabana Palace é considerado uma marca da influência da arquitetura francesa no Brasil

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Gastronomia

Para surpreender até Noel Texto: Rafael Moraes | Fotos: Telmo Keim

A Drops visitou a chef Patrícia Fontana no Grande Hotel Águas de São Pedro para sugerir uma ceia autêntica para este Natal A construção imponente de 1940 exibe arquitetura refinada em estilo art déco. O ambiente exige requinte e boa cozinha. O intuito de conhecer o restaurante Águas do Engenho, localizado no interior do hotel, foi buscar nas receitas da chef Patrícia Fontana inspiração para elaborar uma Ceia de Natal diferente e encontrar na alta gastronomia uma releitura dos pratos natalinos. Formada no curso de Cozinheiro Chefe Internacional, pelo Senac São Paulo em 1999, a chef Patrícia Fontana foi convidada

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para reformular a cozinha do Grande Hotel e mudar o conceito de gastronomia com a escolha de pratos mais contemporâneos. Dinâmica e enérgica, a chef preparou três pratos para comporem uma ceia de Natal para quem gosta de receber elogios.


Salada de bacalhau

| 6 porções |

Ingredientes •

1 kg de bacalhau cozido e desfiado

300 g de pimentão vermelho julienne 200 g de azeitonas pretas em tiras • 1 l de leite • Salsa picada • 200 ml azeite de laranja • •

Modo de preparo: 1 Colocar o bacalhau para dessalgar na geladeira de um dia para o outro trocando a água no mínimo 4 vezes; 2 Cozinhe o bacalhau no leite com um pouco de água por 30 minutos; 3 Depois de frio, retire os espinhos e desfie o bacalhau; 4 Doure o pimentão no azeite e refogue rapidamente o bacalhau já desfiado; 5 Misture com a azeitona preta, acrescente a salsa picada e o manjericão, regue com azeite para finalizar.

Velhos ingredientes, novos sabores Para brincar com texturas, Patrícia serviu de entrada uma Salada de Bacalhau muito bem executada. Em meio às lascas do peixe, pimentão e azeitonas portuguesas aliam-se ao manjericão acrescido de um fio de azeite de laranja, muito aromático e saboroso. O azeite de laranja cria um contraste com o sal do bacalhau e se alia à textura da massa philo, fina, delicada e muito crocante. Para completar sabores, Los Cardos Chardonnay 2008, um vinho branco argentino fresco, cítrico e mineral, casa perfeitamente com o sabor do azeite e do peixe. Após uma entrada refrescante e de sabores marcantes, o prato principal conquista pelo aroma singular e pela apresentação. Um perfumado Purê de Castanhas Portuguesas com Molho de Especiarias acompanha a Codorna Recheada com farofa de frutas secas e maçã assada com canela, páprica e pimenta. Uma combinação de extrema suavidade. Para combinar com todos os sabores do prato e do Molho de Especiarias, feito com

nós moscada, cardamomo, canela e pimenta cayenne, a sugestão do sommelier do Grande Hotel, Moises Lacerda, é o Glaetzer “Wallace” Shiraz – Grenache, um vinho tinto feito das uvas shiraz e grenache, de uma profunda cor púrpura, muito harmonioso e de taninos redondos.

Doçuras natalinas Para finalizar esse verdadeiro banquete, Patrícia inova ao criar uma combinação de Rabanada de Brioche com Compota de Morango e sorvete de creme. O sabor adocicado e a maciez do brioche unem-se ao método tradicional de se fazer a rabanada: mergulhar no leite, polvilhar com canela e açúcar, passar no ovo e fritar até dourar. Para a combinação da chef Patricia, o Saint Clair Doctor’s Creek Late Harvest, safra 2006, é o indicado. Com sua cor dourada e seu aroma doce com nuances de mel, damasco e laranjas, é uma bebida de textura longa e aveludada, atributos essenciais para um bom vinho branco doce. 83


Codorna recheada com castanhas ao molho de especiarias | 4 porções | Ingredientes •

4 codornas

Para o recheio: • 300 g de castanha portuguesa • 100 g de farofa de pão • Raspas de casca de 1 laranja • 100 ml de azeite extra virgem Para o molho: • 200 g de manteiga • Sal e pimenta do reino • Tomilho • Louro • Alecrim • 1 colher de chá de açúcar

Modo de preparo: Recheio 1 Pique as castanhas grosseiramente. Misture com farofa de pão, as raspas de laranja, o azeite, tempere com sal à gosto e reserve; Molho 2 Coloque a manteiga, tomilho, louro e alecrim (pouco alecrim por ser forte) numa panela e deixe reduzir por 30 minutos; 3 Reserve aquecido; Codorna 4 Tempere as codornas com sal e pimenta do reino, coloque o recheio. Coloque as codornas recheadas em uma assadeira e regue com generosa quantidade de molho; 5 Coloque no forno a 180 graus por 20 minutos, retire e sirva.

Rabanada de brioche | 6 porções | com calda de morango Ingredientes Calda de morango • 100 ml de água • 100 g de açúcar • 20 morangos picados Rabanadas • 300 g de brioche • 100 ml de leite • 1 colher (sopa) de açúcar • 1 colher (chá) de canela em pó • 2 ovos batidos • Óleo (para fritar)

Modo de preparo Calda de morango 1 Em uma panela, misture a água com o açúcar e os morangos. Leve ao fogo, deixe levantar fervura, coe e reserve; Rabanada 2 Corte o brioche em retângulos e mergulhe no leite condensado misturado com um pouco de leite integral; 3 Escorra bem e polvilhe um pouco de canela em pó; 4 Passe no ovo batido e frite em óleo quente até dourar; 5 Tire do fogo. Escorra bem, retirando o excesso de gordura. Sirva em um prato com a calda de morango, decore com morangos inteiros e hortelã.

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Enogastronomia

Robert Parker Jr. por Hugo Baungartner e Marcelo Picka

Mais uma viagem, desta vez Espanha. O propósito era o congresso Wine Future na cidade de Logroño, região da Rioja. Resolvemos voar alguns dias antes e calmamente ir de Madrid até lá. O mês de novembro na Espanha é daqueles frios, porém um dia ou outro amanhecia um pouco mais quente. Cansados, fomos direto a Aranda de Duero. Uma cidade pequena, mas muito próximo da nossa primeira visita a Bodega Valduero, na região da Ribera del Duero. No outro dia chegamos pontualmente e começamos nossa pequena viagem dentro da vinícola. Duas irmãs estão no comando, sendo que uma na administração e outra nos vinhos, sendo a própria enóloga. A bodega estava passando por reformas para a construção de um novo galpão de armazenagem e uma belíssima sala de degustação que deve ser finalizada ainda no inverno. Para se chegar à sala, entra-se pelo novo galpão e, por dentro da montanha, sobe-se bem sutilmente uma rampa até chegar no meio da sala de degustação, no alto de uma montanha com uma vista belíssima. Um almoço estava preparado na antiga sede a 3 quilômetros da atual bodega. Mais de cinquenta mil garrafas em estoque e uma linda sala com fotos antigas. Comemos morcillas e um saboroso cordeiro. A harmonização não poderia ser outra: tempranillo. Tomamos o Crianza, o Reserva e o Reserva Especial 8 anos. Todos maravilhosos, mas ressalto o 8 anos, com taninos redondos e macios. No dia seguinte fomos direto a Haro, na região da Rioja. O caminho é deslumbrante. A passagem de Ribera del Duero para Rioja 86

é nítida. Na primeira temos uma vegetação bem seca e com pouquíssimas plantas. Já a segunda é totalmente diferente. Vegetação intensa e verde. A moderníssima vinícola de Benjamim Romeo foi nossa próxima visita. Sua gama de vinhos é bastante pontuada pelo crítico norte-americano Robert Parker Jr. O Contador é seu vinho top. A safra 2005 recebeu 100 pontos do crítico. Para a nossa surpresa, eles começaram a fazer um vinho barato chamado A Mi Manera, sem madeira e sem pretensão internacional. Tanto é verdade que o vinho está sendo vendido no mercado nacional a 6 euros. Garantimos a nossa garrafa. Os testes que Benjamin vem


fazendo são vários, desde o uso da madeira acácia até carvalho chinês. O tão esperado congresso chegou. Chegamos em Logroño bem cedo e fomos direto ao Rioja Forum. Várias palestra e discussões estavam agendadas. Jancis Robinson, Steven Spurrier, Mel Dick, Miguel Torres, Gary Vaynerchuk, José Peñin, Paul Pontallier, Kevin Zraly e outros tantos estavam lá com toda a imprensa especializada, donos de vinícolas, enófilos, sommeliers e importadores para discutir o futuro do mercado do vinho. Muito se falou, mas para resumir, podemos citar a educação como o grande divisor de águas para a indústria. Devemos desmistificar o vinho e passar sua cultura adiante da forma mais natural possível. Vocês já devem estar se perguntando, mas por que razão o título da coluna é Robert Parker Jr. Só pelos pontos dados ao Contador? Não! Uma degustação com ele estava no cronograma. Considerado a

pessoa mais influente no mundo do vinho, Parker voou até Logroño para o evento. 500 pessoas, 10.000 taças, 600 garrafas de vinho e a disputa por um lugar perto dele era nítida. O tema escolhido foi Grenache, 20 vinhos a serem degustados sendo 7 franceses, 7 espanhóis, 2 norte-americanos e 4 australianos. Parker fez comentários sobre todos e foi bastante simpático. Já participamos de muitas degustações, mas pela primeira vez o palestrante era mais importante que os vinhos. Feliz Natal e ótimo 2010!

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Contraponto

Pesquisitices por Jorge Forbes

É preocupante escutar em um congresso recentemente patrocinado pela principal universidade da América Latina, a USP, um bem apresentado pesquisador das neurociências dizer algo mais ou menos assim: - “Finalmente a ciência vai trazer as respostas ao mundo sobre as quais filósofos nunca conseguiram se entender, a saber: onde se localiza no cérebro o amor, a inveja, o ciúme, o gosto, e, em decorrência, poder intervir farmacologicamente sobre eles, trazendo o alívio que a Filosofia e a Psicanálise nunca foram capazes de oferecer, apesar do tempo que a ciência lhes deixou para tanto”. As mil e duzentas pessoas ali presentes, a maioria jovens recém formados nas áreas biológicas, acharam tudo natural, da mesma forma que Vinícius dizia que acabamos por achar Herodes natural. Um médico, diretor de pesquisas de um laboratório farmacêutico, ao ouvir essa boa nova, animadíssimo, deixou escapar: - “É isso mesmo, nós, por exemplo, em pouco tempo estaremos prontos para lançar um remédio específico para o Id”. Foi apartado simpaticamente por um psicanalista que lhe propôs batizar o novo medicamento de “Idi-ota”, na certeza do seu sucesso. Estudos dessa espécie, se assim merecem ser chamados, pululam em reconhecidos centros de pesquisa do mundo ocidental, generosamente pagos por instituições governamentais de fomento à pesquisa. É o povo pagando pelo velho sonho da felicidade encapsulada e recebendo de presente o pesadelo reducionista do apagamento da subjetividade humana. A epidemia dessas pesquisas esquisitas, 90

que de tantas já merecem um diagnóstico, proponho PESQUISITICES, se explica pelo desbussolamento humano na era da globalização. No mundo anterior - chamado de moderno, ou industrial - o laço social, ou seja, os modos de comportamento das pessoas, eram gerenciados por padrões verticais de identidade: na família, o pai; no trabalho, o chefe; na sociedade civil, a pátria. No mundo atual, a ligação entre as pessoas se horizontalizou; os padrões não são mais unitários, mas múltiplos, o que aumenta muito a responsabilidade de cada um frente às suas escolhas. E isso angustia, daí a ânsia de que algum estudo empírico restabeleça a ordem vertical perdida e assegure o sucesso a quem disciplinadamente seguir o que lhe for prescrito “cientificamente”. Pesquisar, no sentido de certas pesquisas empíricas, quer dizer encontrar a cifra que represente cada uma das experiências que se quer estudar. Nesse caso, só se pode pesquisar o que for passível de ser filtrado pela palavra. Parte-se necessariamente do princípio de que tudo pode ser nomeado, e aí reside o engano. O mais essencial da experiência humana não tem nome, nem nunca terá, o que explica a característica básica dos homens: a criatividade. É paradoxalmente obscurantista a ciência que não vê o invisível do desejo e acaba promovendo o ridículo em nome de uma segurança enganosa. Jorge Forbes é psicanalista e médico-psiquiatra. Preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana e dirige a Clínica de Psicanálise do Genoma Humano da USP


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TELMO KEIM  

FASHION ,ART,PORTRAITS

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