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edição 22 | junho de 2013

Médicos estrangeiros: Marco Da Ros conta o que você ainda não sabe páginas 4 e 5

Reportagem: Educação Popular em saúde na prática. É possível? páginas 8 e 9

Conheça o projeto de Educação Popular “Revolução dos Baldinhos” páginas 6 e 7


destaques

Instrumento de autoavaliação está disponível para as equipes

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m junho começa a etapa de Desenvolvimento do Programa de Melhoria do Acesso e da Qualidade (PMAQ), logo após a conclusão da fase de Contratualização e Recontratualização, que termina no dia 14. O Desenvolvimento inclui a autoavaliação, com o preenchimento do instrumento de Autoavaliação para Melhoria do Acesso e da Qualidade de Atenção Básica (AMAQ), e as ações de Educação Permanente e apoio institucional, para as quais vocês podem contar com a Gerência de Coordenação da Atenção Básica e com o Telessaúde SC. O AMAQ de 2013 está disponível, com cadernos voltados para a

Equipe de Saúde da Família e para a Equipe de Saúde Bucal. Acesse o instrumento em: http://migre.me/ eRdf2. Os cadernos para o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) e para o Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) devem ser divulgados em junho. Sobre a importância das novas etapas do PMAQ, Eduardo Alves Melo, coordenador Geral de Gestão da Atenção Básica do Ministério da Saúde, afirma: “sabemos que o desafio de qualificar e manter viva a Atenção Básica é algo permanente e que depende muito do que acontece em cada município, em cada unidade, bem como das possibilidades de apoio e coopera-

ção que as equipes e gestores municipais recebem. Esperamos que inovações nas práticas de cuidado, gestão, participação e educação aconteçam ou ganhem mais visibilidade e que várias ofertas de apoio e colaboração estejam disponíveis ou sejam construídas, para diminuir o isolamento que muitos profissionais e gestores sentem”. A fase de Desenvolvimento vai até o final de agosto e em setembro começa a Avaliação Externa. Você encontra mais informações sobre como fazer a Contratualização na webconferência sobre o assunto chamada “PMAQ”, do dia 15/05, disponível no site do Telessaúde, o telessaude.sc.gov.br.

Premiação Encontro de Saúde da Família

Telessaúde

A participação no Telessaúde SC será premiada com R$ 5 mil no VI Encontro Estadual de Saúde da Família. O evento é organizado pela Gerência de Coordenação da Atenção Básica (GEABS) e acontecerá em novembro de 2013, em Florianópolis, momento em que as equipes receberão o prêmio. A melhor participação por Equipe de Saúde da Família (no período de maio a setembro de 2013) de cada macrorregião, será a vencedora. Para concorrer, é necessário ter uma participação mínima, que consiste em: uma webconferência mensal pela Equipe de Saúde da Família; um workshop mensal por médicos, enfermeiros e dentistas da Equipe de Saúde da Família; e duas teleconsultorias (clínica ou de processo de trabalho, on-line ou off-line) mensais, por médicos, enfermeiros ou dentistas da Equipe de Saúde da Família. Os critérios de desempate são: maior número total de teleconsultorias de maio a setembro de 2013 e maior participação no Telessaúde SC durante 2012. Você pode acessar o edital completo em: http:// migre.me/eywNR Disponível pelo link: http://capu.pl/node/271?page=3

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Participem!

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cotidiano

Protagonismo Juvenil: um caminho para a educação dos jovens em saúde Uma aula um pouco diferente: os próprios estudantes foram os responsáveis por conduzir a construção do conhecimento com seus colegas. Foi o que aconteceu em 2011 no Instituto Estadual de Educação (IEE), maior escola da rede pública de Santa Catarina, em Florianópolis. A ideia surgiu depois que um professor de biologia promoveu uma atividade em que duas equipes de alunos elaboravam perguntas e respostas sobre sexualidade segura. Com esse material em mãos, uma estudante ficou responsável por apresentar o resultado da atividade em uma vivência. “A direção viu essa experiência e pediu para que as adolescentes a replicassem. Assim, a oficina de duas aulas foi repetida em vinte turmas por três jovens protagonistas”, explica a assistente técnico-pedagógica do IEE Sandra Dartora. Esse é um exemplo de como a capacitação de adolescentes educadores entre pares tem se mostrado uma alternativa eficiente no trabalho com temas tabus. Essa forma de atuação também é valida para os profissionais de saúde, que, segundo a coordenadora estadual do Programa Saúde na Escola, Jane Laner Cardoso, também têm dificuldades ao tocar nesses temas, às vezes levantando demandas que não são o que realmente interessam aos adolescentes, com uma abordagem equivocada. Jane também destaca que o protagonismo e o ativismo juvenil estão entre as estratégias mais eficientes para trabalhar as duas ações prioritárias do PSE para adolescentes: saúde sexual, junho 2013 edição 22

reprodutiva, e abordagem das doenças sexualmente transmissíveis; e controle ao uso e abuso de drogas. Para Sandra, que também é coordenadora do Nepre (Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às violências na Escola) no IEE, a eficácia dos jovens multiplicadores está ligada à construção de um projeto de vida para o adolescente. “Eles fazem algo por eles e pelos colegas, se sentem importantes assim. É uma espécie de objetivo e perspectivas.” Um desses projetos foi o de Ingrid Sant’Ana, estudante do IEE e integrante do grupo de protagonismo Identidades, que em 2012 elaborou atividades voltadas a temas como família, identidade,

“A eficácia dos jovens multiplicadores está ligada à construção de um projeto de vida” sexualidade, drogas e violência. Para a jovem de 15 anos, participar dessas ações foi algo inspirador: “hoje sou mais responsável, trabalho melhor em equipe, consigo lidar melhor com pessoas mais velhas e mais novas, trabalhando com vários temas e diferentes pontos de vista”. Ingrid acredita que o adolescente chama mais a atenção quando é ele quem fala para os seus colegas, facilitando o diálogo e a aprendizagem. A coordenadora Sandra acrescenta dizendo que um jovem troca conhecimento com outro de forma simples, cla-

Fonte: IEE

Uma abordagem diferente para trabalhar conscientização sobre saúde com adolescentes

Atividade sobre sexualidade feita em 2011

ra e objetiva, na sua linguagem e gírias próprias, sem preconceitos. O primeiro passo para a formação de protagonistas é lançar a ideia aos adolescentes, convidá-los a se capacitar. O papel dos profissionais, segundo Sandra, é oferecer suporte para essa capacitação: incentivar, dar base teórica aos assuntos que eles elegem para discussão. “Você ouve o jovem, a experiência de suas vivências com os pares, depois agrega o seu conhecimento científico, formatando oficinas de capacitação para eles”, explica Sandra. A coordenadora também lembra que é importante motivar e deixar que os jovens busquem sua própria fórmula, permitindo fluir sua criatividade, para que se sintam seguros e autônomos, “senão não é protagonismo, é alguém falando por você”, completa. Na saúde, a formação de jovens multiplicadores é uma ação prevista pelo PSE. Aos profissionais das unidades interessados em trabalhar com essa formação, é necessário procurar uma escola parceira, identificar os jovens que exercem liderança e capacitá-los. “Essa experiência ainda está começando a ser construída na saúde, mas tem um grande potencial”, garante Jane. telessaúde informa

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entrevista

Mitos e receios sobre a vinda de médicos estrangeiros ao Brasil Marco Aurelio Da Ros, médico sanitarista e professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina, posiciona-se com relação à polêmica do “Programa mais médicos para o Brasil”, que deve ser assinado em junho pela presidenta Dilma Rousseff O governo brasileiro anunciou a intenção de trazer seis mil médicos estrangeiros - cubanos, mas também espanhóis e portugueses -, para atuar na Estratégia de Saúde da Família nos municípios onde há carência desses profissionais (interior e periferia). Um dos principais argumentos contra a iniciativa é de que o país não precisa de médicos. Isso é verdade, nós não precisamos de médicos? Marco Da Ros - Precisamos e precisamos muito. O Brasil tem hoje 1,8 médicos por mil habitantes, o que significa uma defasagem de 168 mil médicos novos para chegar ao número preconizado como ideal, que é o da Alemanha [3,5/ mil hab]. E há uma má distribuição. Nós temos regiões em que o número já está igual ao que se quer, como a cidade de São Paulo e o estado do Rio de Janeiro. Mas mesmo a periferia desses lugares é desassistida. Então nós temos áreas totalmente descobertas: 13 estados têm menos de um médico por mil habitantes e outros seis tem um. Isso corresponde a 20 milhões de brasileiros que não têm nenhuma assistência médica. São pessoas que moram em cidades do interior, na Amazônia, no Nordeste e mesmo em periferias de cidades grandes. Uma desculpa que eu tenho ouvido de alguns médicos é que não tem infraestrutura nessas cidades, mas que tipo de infraestrutura? Ah, não tem shopping, não tem cinema, como eu vou educar meus filhos? Então

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vamos dizer pra esses 20 milhões de brasileiros que quando tiver shopping lá, os médicos irão. Qual é o padrão de atenção médica que se pretende para esse país? Então faltam médicos, existe uma má distribuição e há também uma questão de formação desses médicos? Eles se formam e estão preparados para trabalhar na saúde da família? Marco Da Ros - Não, esse é justamente o X da questão e que não está sendo discutido. Há faculdades privadas de péssima qualidade no Brasil. Por um lado, temos um modelo de formação privatista, e por outro lado há uma questão epistemológica, de como se forja o estilo de pensamento de um médico. Nós copiamos, infelizmente, o modelo norte-americano do século XX, o flexneriano. Esse modelo vem embutido na lógica do capitalismo, ou seja, a doença passou a ser objeto de lucro. A doença como objeto de lucro vai usar o hospital, o medicamento, o exame e o seguro saúde, são

os quatro pés que a gente chama de complexo médico industrial. Esse complexo se instalou no Brasil com o golpe militar. Depois de 21 anos, terminou a ditadura, nós fizemos o SUS e a faculdade continua forjando os médicos do jeito norte-americano de pensar. Mas no interior da Amazônia isso fica complicado: não se sabe mais fazer uma medicina pública com exame físico, que precise de boa semiologia, eles sabem é fazer exames pedidos em laboratórios e esses exames não estão disponíveis lá. A gente tem estatísticas mostrando que um médico geral, um médico de família formado, consegue resolver 90% dos problemas. Bom, uns 10% ele vai ter que encaminhar. Então nós podemos minimizar pelo menos 90% dos problemas fazendo uma boa clínica, que os estudantes de medicina não estão sabendo fazer mais, o modelo de formação deles tem sido outro. Outro argumento forte contra a vinda dos médicos estrangeiros se refere à formação, que é a validação do diploma dos estrangeiros. O Revalida, exame que avalia os diplomas, aprovou no ano passado 8,7% do total dos diplomas que foram avaliados e, de 182 médicos cubanos inscritos, 20 foram aprovados, o que corresponde a quase 11%. Em Portugal, na última avaliação, 60 médicos cubanos prestaram o exame e 44 foram aprovados, o que significa 73,3. Por que a edição 22 junho 2013


entrevista

avaliação brasileira tem sido tão rígida e tem reprovado tantos médicos? Marco Da Ros - Eu me lembro das primeiras provas do Revalida. Não se queria que os médicos estrangeiros validassem o diploma, aí, convidavam-se alguns professores que faziam a prova o mais difícil possível. As provas do Revalida não assustam tanto os médicos cubanos, o percentual que reprova é menor dos cubanos que dos outros. Eles normalmente têm uma formação maior, porque eles têm os seis anos de medicina e mais dois anos de medicina de família. E a pergunta que a gente fazia era: por que não se aplica também a mesma prova para os médicos das redes privadas? E aí respondiam: ah, aí não pode, aí é sacanagem. Sacanagem é a gente formar esses médicos e fingir que eles são bons. Temos bons médicos, mas a proposta das universidades é de formação do especialista do dedo mindinho do pé direito. Quanto mais especializado, mais se tem a fantasia de ser um bom médico. E esse médico que faz especialidade e fica na cidade grande vai trabalhar com convênio de plano de saúde e vai ganhar muito menos do que ganharia no interior. Então, o problema não é salarial. Eles se sentem inseguros em trabalhar num lugar que não tenha toda infraestrutura moderna do modelo norte-americano, que é como eles aprenderam medicina. Aí nós vamos precisar de gente que saiba trabalhar no interior.

altos, na Inglaterra quase 40% e em Portugal mais de 10%. Mas no Brasil é menor que 1%. Então, é só uma reserva de mercado? Por que existe esse medo todo? Marco Da Ros - É engraçado que a xenofobia veio em cima dos médicos cubanos. O “Programa mais médicos para o Brasil” prevê também mais residências em medicina de família, abertura de faculdades no interior, então tem um monte de coisas que está se

“Nós precisamos resolver um problema de saúde. A categoria médica deu resposta?”

fazendo. Um dos programas é a vinda de médicos do exterior, nunca se pensou que eles fossem revalidar para ficar aqui o tempo todo. Os cubanos não querem ser médicos brasileiros, não querem trabalhar um tempo na Amazônia para depois vir para a cidade grande, esse é o sonho do brasileiro. Os médicos cubanos que viriam para cá seriam médicos com experiência internacional, com residência em medicina de família, com mestrado, inclusive. O problema é a crise europeia. Os médicos espanhóis e portugueses querem vir para ganhar dinheiro no Brasil. Nós temos que tomar alguma providência, vai ter que ser provisório. E qual é a solução que o CFM [Conselho Federal de Medicina] ou as categorias Países com sistemas de saúde médicas dão pra isso? Então, é hireconhecidos como Portugal e pócrita essa discussão, e eu sinto Inglaterra têm índices de mé- um cheiro do tempo da Ditadura dicos estrangeiros em atuação Militar. Eu vi e-mails de médicos junho 2013 edição 22

do partido democratas que diziam que temos que prender as pessoas que apoiarem. Outros médicos da sociedade brasileira de medicina de família dizendo que “são agentes castristas que vêm doutrinar a população brasileira, para ensinar marxismo para eles”. Nós estamos tentando, pelo menos nos últimos 10 anos, tudo para que os médicos vão para o interior: mudança de currículo, criamos o Telessaúde, os UnaSus, bolsa pra médico que vai para o interior, ampliamos o salário, o Provab, e nós não conseguimos porque os médicos brasileiros não querem ir. Então, “médicos cubanos: sim!”, “médicos estrangeiros: sim!”. Isso como solução paliativa, pois nós vamos precisar resolver isso em médio prazo. É uma solução paliativa, mas o que está se fazendo na base realmente? Marco Da Ros - Com o financiamento que se tem hoje não se consegue sustentar um sistema universal, então vai se fazer um sistema meia boca. Nós precisamos de orçamento, nós precisamos de gestores capacitados. Além de um problema de gestão, nós temos um problema de financiamento e um ideológico, de formação. Nós temos um quarto problema: na constituição está previsto o controle social do SUS, se nós tivéssemos o controle social eficiente, nós poderíamos reverter as três coisas. O médico cubano, o médico estrangeiro no Brasil, com diploma provisório, significa que nós ganhamos tempo e assistência a essa população desassistida, enquanto a gente monta uma proposta definitiva, senão é só paliativa. telessaúde informa

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A revolução que mudou uma comunidade “Eu sou gaúcha, teve a Revolução Farroupilha, por que não fazer a Revolução dos Baldinhos?” Foi assim que Rose Helena Oliveira Rodrigues, a Lene, nomeou o projeto iniciado por ela há cinco anos na comunidade Monte Cristo, em Florianópolis. A revolução dos Baldinhos surgiu para acabar com a epidemia de ratos no lugar e também para dar oportunidade de trabalho aos moradores. Após cursos de capacitação com o agrônomo e coordenador do projeto, Marcos de Abreu, Lene teve a ideia de trabalhar com compostagem. Para isso, orienta e conscientiza as pessoas a separarem em uma bombona - antes baldinhos - os resíduos orgânicos que podem ser aproveitados. Além da ajuda dos moradores, ela recebe coletas de material entregues pela Companhia Melhoramentos da Capital (Comcap), empresa responsável pela coleta de resíduos sólidos e limpeza pública de Florianópolis.

Dia a dia do projeto: Segunda e Quinta: Lene vai às casas dos moradores para fazer uma conscientização e fiscalização, além de sensibilizá-los a separarem o lixo; Terça e Sexta: É dia da coleta dos resíduos orgânicos das bombonas da comunidade e da Comcap; Quarta: Acontece uma capacitação pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), através de cursos e reuniões. Visitamos o projeto na terça-feira, dia da coleta. Confira o processo passo a passo: Após a entrega do material pela Comcap (1) e do recolhimento das bombonas na comunidade, os resíduos são depositados em um espaço já preparado (2 e 3). Depois de misturado (4), o material é coberto com palha e lascas (raspas) de madeira, o cepilho (5, 6 e 7). Enquanto isso, as bombonas são lavadas para serem entregues novamente à comunidade (8). Após três meses, o material se decompõe e vira adubo orgânico, que é distribuído para os moradores do Monte Cristo. Essa prática já é feita há cinco anos e, por isso, tem estrutura e organização. Mas vocês também podem começar a separar os resíduos orgânicos nas suas cidades.

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“A partir de hoje vocês vão mudar o jeito de usar o lixo.” Com esse objetivo, Lene começou a conscientização e sensibilização nas casas dos moradores da comunidade. Hoje, o projeto tem a participação de 250 famílias e oito pessoas trabalham na cooperativa.

“Mudou a minha vida em muita coisa. Eu voltei a estudar, estou fazendo o primeiro e o segundo ano. Através do projeto eu vi também a limpeza da comunidade, o reconhecimento das famílias ao enxergarem a melhoria do ambiente, a autoestima dos meninos que eu consegui resgatar do crime e a oportunidade dada para as pessoas trabalharem. Muita coisa boa”, conta Lene (fotos ao lado).

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reportagem

“A gente não quer só comida” A referência à música do Titãs “Comida” traz a reflexão sobre a Educação Popular em saúde. Como construir uma nova realidade social a partir das necessidades da sua comunidade?

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m 2013, Santa Catarina deixou de ser livre da dengue. Antes, tínhamos apenas casos de transmissão isolada e contraídos fora do estado, mas agora a situação é outra: só neste ano (até o fechamento desta edição do Telessaúde Informa), tivemos 808 suspeitas de dengue e 223 casos confirmados - 300% a mais do que no ano passado. Isso quer dizer que agora o vírus circula no estado, o que aumenta o número de focos e o risco de trasmissão da doença. A Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE) é a responsável técnica pelo programa de controle da dengue em Santa Catarina e está implementando ações à rotina de prevenção, como o reforço de pessoal e outras iniciativas intersetoriais, com organizações de fora da área da saúde, como a educação, o planejamento urbano e outras. “Tornar a situação

Voluntário Lucas despeja resíduo coletado

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pública é fundamental para que ela seja assumida por todos. A população é estimulada a fazer seu papel, cada um no seu espaço, e os profissionais de saúde precisam ser agentes nesse momento: o médico, quando atende, deve aproveitar para orientar, assim como os agentes comunitários de saúde nas visitas, e nas salas de

“A Educação Popular não se faz ‘para’ o povo, mas se faz ‘com’ o povo” espera das unidades também se pode trabalhar com informações”, propõe Suzana Zeccer, gerente de vigilância de zoonoses da DIVE. Essa forma corresponsável de abordar a dengue pode ser vista a partir do conceito da educação popular em saúde. Para Paulo Freire, professor que na década de 50 desenvolveu a educação popular (veja mais sobre o assunto no box), é a partir da vivência de experiências significativas que se transforma o contexto, produzindo conhecimento e cultura. Essas dimensões da educação popular em saúde são abordadas na Política Nacional de Educação Popular (PNEP), instituída em julho de 2012. A PNEP foi criada com base na crença de que o desafio de mudar o modelo de atenção à saúde ainda existe. Parte da ideia de que, apesar de haver políticas públicas de saúde voltadas à valorização de princípios como equidade, participação e humanização, ainda vi-

vemos um conceito de saúde biomédico, em que as as pessoas são vistas como simples portadoras de doenças e por isso precisam de muitos exames e medicamentos. Assim, a PNEP aponta a educação popular como elemento que contribui para a superação desses desafios: “a Educação Popular em Saúde tem construído sua singularidade a partir da contraposição aos saberes e práticas autoritárias, distantes da realidade social e orientadas por uma cultura medicalizante imposta à população”. Parece difícil de compreender? Sim, realmente é, principalmente porque, em princípio, é bastante teórico. Então, façamos como Paulo Freire, partamos do contexto prático para chegarmos ao teórico. Contexto prático Há cerca de cinco anos, a comunidade Monte Cristo, em Florianópolis, enfrentou uma epidemia de ratos que ocasionou doenças e mortes. Para reverter a situação, moradores, responsáveis pela Unidade Básica de Saúde, líderes comunitários e o Centro de Estudos de Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro) se mobilizaram. Eles notaram que a separação de resíduos orgânicos para compostagem - trabalho que já era realizado em escolas da região - retirava da rua restos de comida e não alimentava os ratos. A partir da constatação, algumas famílias começaram a separar o lixo orgânico em pequenos recipientes (os baldinhos), que eram coletados, e os resíduos transformados em edição 22 junho 2013


reportagem composto orgânico, que depois de três meses estava pronto para ser usado. Então, as famílias retiravam o composto e usavam para plantar suas próprias ervas e verduras em casa. Hoje, eles coletam 15 toneladas de resíduos orgânicos por mês, iniciativa que atinge 250 famílias. O problema inicial dos ratos foi resolvido, a produção de alimentos aumentou muito na região, as ruas estão mais limpas e até a criminalidade diminuiu (veja a reportagem fotográfica nas páginas anteriores). Essa experiência é exemplo da mudança concreta de um contexto, uma mentalidade, a partir do enfrentamento de uma situação concreta, de vivência. “A Educação Popular não se faz ‘para’ o povo, ao contrário, se faz ‘com’ o povo, tem como ponto de partida o processo pedagógico, o saber desenvolvido no trabalho, na vida social e na luta pela sobrevivência e procura incorporar os modos de sentir, pensar e agir dos grupos populares, configurando-se assim, como referencial básico para gestão participativa em saúde“, diz o texto da PNEP. Etel Matielo, nutricionista e mestre em Saúde Pública, completa que a educação popular está relacionada aos movimentos populares, processo em que existe igualdade entre educador e educando: ambos aprendem e ensinam. “As ações na unidade não dão conta de resolver os problemas de saúde das pessoas, existe a questão social e a percepção da realidade de cada um, e a educação popular trabalha com a ideia de olhar nossa realidade a partir desse viés, e a partir disso construir uma nova realidade”. Em Itajaí, a equipe Praia Brava sentiu necessidade de trabalhar junho 2013 edição 22

O projeto “Revolução dos Baldinhos” mudou a realidade da comunidade Monte Cristo com o trabalho desenvolvido pelos moradores e voluntários

algumas questões com a prática de educação popular. A equipe está junta há 10 anos, mas apenas há cinco convive com os profissionais do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) e desde então surgiram divergências quanto ao entendimento de saúde. A médica da unidade, Samara Graf do Prado, conduziu o processo que começou com entrevistas abertas sobre a concepção de saúde de cada profissional, e culminou em uma oficina em que grupos criaram categorias analíticas sobre saúde a partir das entrevistas. Depois, eles conseguiram sintetizar, problematizar e pensar no que poderia ser melhorado e como fazê-lo. “Já começamos a ter alguns resultados no trabalho: um grupo de patologias crônicas deixou de ter o foco na prevenção e os participantes já sugeriram temas como a autonomia do sujeito. A população também tem voz ativa para pedir o que quer“, relata Samara. “Não há um único jeito de fazer, é mais um movimento e uma articulação de movimentos e práticas do que teorização”, completa Etel.

Evolução histórica do conceito A Educação Popular foi construída a partir de experiências entre intelectuais e classes populares, nas décadas de 50 e 60, como a alfabetização de jovens e adultos camponeses. No final da década de 60, Paulo Freire publica a obra “Pedagogia do Oprimido”. Durante a Ditadura Militar, a Educação Popular foi assumindo o sentido de resistência ao regime. É nesse período que se começa a pensar na Educação Popular em saúde, no contexto da inacessibilidade das camadas populares aos precários serviços públicos. O conceito também se fez presente em todo movimento político da Reforma Sanitária, que culminou na criação do SUS, em 1988. Com a redemocratização, a Educação Popular ganha dinâmica própria em espaços privilegiados como universidades, serviços de saúde e movimentos sociais populares. Acesse a Política Nacional de Educação Popular em Saúde em: http://migre.me/eMDeG telessaúde informa

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teleconsultoria de processo de trabalho

Saúde do homem na ESF Horizonte

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equipe Horizonte do município de Cocal do Sul buscou as teleconsultorias para desenvolver ações voltadas à Saúde do Homem (item 4.25 do PMAQ). O problema relatado pela equipe foi de que os homens, entre 20 e 59 anos, não procuravam a UBS para consultas individuais ou atividades coletivas, visando a prevenção de agravos e morbidades. A teleconsultora Cláudia Carraro orientou as ACS, inicialmente, a convidarem os homens a ir conhecer a UBS Horizonte e os serviços que estavam à disposição. Cada ACS oferecia 10 convites nominais, sendo cinco para o período da manhã e cinco à tarde. O dia destinado para a Saúde do Homem acontece uma vez por semana e consiste em uma consulta de enfermagem, para verificar os sinais vitais e as medidas antropométricas, uma mini-palestra temática (na sala de espera), uma consulta médica e uma odontológica. Além disso, agenda-se o retorno para 15 dias a fim de dar continuidade nos cuidados propostos pela equipe, segundo Rosimari Citadin. Pelo sucesso alcançado em 2012, já que os homens compareciam em peso às consultas agendadas, a equipe decidiu dar continuidade a estas atividades específicas na Saúde do Homem no ESF Horizonte em 2013. Segundo Janaina Crepaldi (ACS), o projeto trouxe resultados positivos e está na “boca dos homens” nos locais nos quais eles se encontram, como nos bares. Eles agora pergun-

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A ESF de Horizonte criou o dia para a Saúde do Homem com a ajuda da teleconsultora

Os homens reconheceram a importância da ação e participam das atividades da unidade

tam quando e como podem participar das atividades oferecidas. Além disso, estão empenhados e participando das atividades da Saúde do Homem, pois reconheceram que se trata de uma ação que os ajuda a cuidar da própria saúde. Integrantes da ESF Horizonte de Cocal do Sul: Maria Luiza Consoni (odonto), Maria Aparecida de Moraes, Mariele Polita (téc. odonto), Mislene Zeferino (téc. enfermagem), Rosimari Citadin, Mônica de

Eles têm direito à consulta odontológica

Barros (odonto), Cleo Gama Pinheiro (médico), Marlei Mendes, Janaina Crepaldi, Paula Evangelista, Maria Aparecida Graciano e Zenir Zugnali (ACS). edição 22 junho 2013


teleconsultoria clínica

Pergunta destaque do mês: uso da insulina

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uais são as complicações do uso de insulina? O efeito adverso mais comum da insulina é a hipoglicemia. Sua detecção deve ser feita aos primeiros sintomas (sudorese, taquicardia, tremores, dormência na língua), e o tratamento instalado imediatamente (1). O paciente deve ser previamente orientado sobre a ocorrência da hipoglicemia, os cuidados que pode e deve ter, e sobre a necessidade de procura por apoio da equipe. Outro efeito indesejável é a lipodistrofia, prevenível e tratável com cuidados especiais. As lipodistrofias ocorrem nos locais de aplicação da insulina e podem ser hipertróficas (massas ou nódulos subcutâneos, detectados facilmente por meio de palpação) ou atróficas (depressões visualizadas com uma simples inspeção da pele). A hipertrofia decorre de injeções repetidas no mesmo local. A profilaxia e o tratamento consistem na rotatividade dos sítios de injeção. A lipoatrofia se relaciona às impurezas da insulina, sendo tratada com injeção de insulina altamente purificada na área atrófica. Para a detecção precoce dessas reações adversas, recomenda-se realizar inspeção e palpação das áreas de administração de insulina (1). Técnica correta para aplicação de insulina: A insulina deve ser aplicada no tecido subcutâneo, com agulha de comprimento adequado. Os locais indicados são: face anterior e posterior do braço, abdô-

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men, face anterior da coxa e su- pois o ato de esfregar pode auperior do glúteo. O rodízio nos mentar a velocidade de absorlocais de aplicação se torna im- ção da insulina, gerando risco de portante para prevenir danos. É hipoglicemia (2). recomendado que se utilize um Evidências e Referências: local para o rodízio antes de ini- Profissional solicitante: Enferciar a aplicação da insulina em meiro um local diferente. Por exem- Teleconsultor: Equipe Telessaúplo o abdômen, respeitando a de SC distância de 3 cm do umbigo, e Bibliografia selecionada: evitando a variabilidade da ab- 1. Duncan BB, Schmidt MI, Giusorção de insulina (2). Ou seja, gliani ERJ. Medicina ambulatorial: fazer o rodízio primeiro em toda condutas de atenção primária a área do abdômen para depois baseadas em evidências. 3a ed. seguir para a outra área de apli- Porto Alegre: Artmed; 2004. Cacação. pitulo 69, pag.685. A velocidade de absorção da 2. Brasil, Ministério da Saúde. insulina depende do local de Nota técnica 24/2012. Disponível aplicação (abdômen>braços> em: http://portalsaude.saude. pernas>glúteo). Ao selecionar gov.br/portalsaude/arquivos/ um local é importante considerar pdf/2013/Mar/13/insulinaaspara atividade física, pois esta pode teNovorapid.pdf. levar ao aumento da absorção de Locais de aplicação da insulina para o insulina. Deve-se rodízio de aplicação: planejar o rodízio nos locais de aplicação de acordo com as atividades que a pessoa realiza durante o dia, evitando um membro que o paciente vá utilizar no trabalho, para a aplicação no momento anterior ao mesmo. Quando a injeção for muito dolorosa ou voltar sangue após a aplicação, o portador de diabetes deve pressionar o local de cinco Fonte: Brasil, Ministério da Saúde, Departamento de Ata oito segundos, enção Básica. Caderno de Atenção Básica nº16 – Diabetes sem esfregá-lo, mellitus. Brasília, 2006. telessaúde informa

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Eventos

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Se você tem interesse no debate sobre a construção e gestão do SUS, o 2º Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão em Saúde vai analisar os rumos da saúde no Brasil, articular conhecimentos científicos com a formulação de políticas e elaborar propostas com ações coletivas. O evento só ocorre em outubro, mas os trabalhos podem ser inscritos até o dia 17 deste mês. A tabela de preços de inscrições tem valores bem diferenciados para quem o fizer até o dia 31 de julho. Quando? De 01/10 a 03/10 de 2013 Onde: Minascentro/BH Mais informações: http://www.politicaemsaude.com.br

Filmes

WALL-E (2008)

Saneamento Básico (2007)

Filme de animação que conta a história de um robô chamado WALL-E, criado para limpar a Terra coberta por lixo em um futuro distante. Ele se apaixona por um outro robô chamado EVA, e a segue para o espaço em uma aventura que irá mudar seu destino e o destino da humanidade. Traz uma crítica à sociedade, sua forma de organização, valores e hábitos.

Os moradores da fictícia vila Linha Cristal se reúnem para tomar providências a respeito da construção de uma fossa para o tratamento do esgoto. Para receberem o dinheiro disponível pela prefeitura, elaboram um filme, mesmo sem terem experiência. Através do humor, faz uma reflexão sobre a participação da sociedade nas questões de política e de comunidade.

Livros Melhorar a qualidade do atendimento aos usuários do sistema, formar e qualificar mais médicos e outros profissionais da saúde e combater o desperdício de recursos e aprimorar a gestão. Esses são os compromissos estabelecidos pelo Ministério da Saúde para o cidadão. A publicação “Ministério da Saúde e Municípios” apresenta às cidades as principais ações em execução no SUS a fim de alcançar seus objetivos. Dividida em três seções - tempo de saúde, cuidado especial e gestão - a revista aborda a diminuição da espera para o atendimento no SUS, o acesso à saúde ao público mais carente e em situação de risco, além da otimização de recursos para evitar desperdícios e dar maior controle e transparência aos gastos com saúde. A publicação está disponível no link: http://189.28.128.178/sage/apresentacoes/arquivos/revista_ms_e_municipios_2013.pdf

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edição edição 20 22 abril junho2013 2013


agenda

Programação de webs de Junho

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Situação Epidemiológica da dengue em Santa Catarina - 15h Palestrante: Suzana Zeccer / Gerente de Vigilância e Zoonoses da Diretoria de Vigilância Epidemiológica Resumo: Aborda o tema “dengue” e o papel da equipe de Saúde da Família e outros profissionais da saúde na prevenção da dengue com controle do vetor (A. aegypti), bem como situação epidemiológica de Santa Catarina.

19/06

Adesão ao Programa Saúde na Escola - 15h Palestrante: Jane Laner Cardoso / Coordenadora Estadual do Programa Saúde na Escola Resumo: Será apresentada a importância da adesão dos municípios ao Programa Saúde na Escola (PSE). Serão abordados o processo de ação, as ações a serem desenvolvidas pelas equipes de Saúde da Família e considerações à respeito do registro das ações no sistema e-SUS.

20/06 - enfermeiros

12/06

Plano de Ação Regional da Rede Cegonha 15h Palestrante: Carmem Delziovo / GEABS Resumo: Nesta webconferência será discutido o Plano de Ação Regional da Rede Cegonha que está em construção nas 13 regiões de saúde de Santa Catarina que ainda não aderiram a esta rede.

26/06

Suplementação de Vitamina A – Uma estratégia da ação Brasil Carinhoso - 15h Palestrante: Silvana Helena de Oliveira Crippa / GEABS Resumo: Será abordada a importância da Vitamina A no crescimento e desenvolvimento da criança nos primeiros anos de vida, a necessidade de suplementação e a gestão do Programa Nacional de Suplementação da Vitamina A nos municípios prioritários do Plano Brasil Sem Miséria em SC.

WORKSHOP

Cuidado de feridas - 16h Palestrante: Sandra Joseane F. Garcia / Enfermeira obstetra

27/06 - médicos

Problemas de coluna - 16h Palestrante: Alexandre Borges Fortes / Médico de Família e Comunidade

Vídeo em parceria com Telessaúde SC vence mostra nacional O vídeo “Fitoterapia: reconhecendo plantas medicinais” ganhou o primeiro lugar na mostra de vídeos do 12º Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, que aconteceu no final de semana do dia 01/06 em Belém (PA). Ele foi criado com o apoio técnico da teleconsultora Gisele Damian Antonio e produzido pela estagiária de jornalismo Thaine Teixeira Machado, ambas do Telessaúde SC. O vídeo apresenta o curso “Fitoterapia: Reconhecendo as Plantas Medicinais”, promovido pela Comissão de Práticas Integrativas e Complementares da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis em parceria com o Horto Didático de Plantas Medicinais da UFSC e com o Telessaúde SC. Para assistir ao vídeo, acesse: http://migre.me/eS028 Expediente: Jornalista Responsável: Marina Veshagem Texto, redação, diagramação e edição: Marina Veshagem, Thaine Teixeira e Camila Peixer Design e iIustração: Vanessa de Luca Orientação: Luise Lüdke, Luana Gabriele Nilson e Thaís Titon de Souza Reportagem fotográfica: Thaine Teixeira e Camila Peixer Revisão: Camila Peixer

junho 2013 edição 22

telessaúde informa

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Telessaúde Informa junho de 2013  

Publicação do Telessaúde de SC de junho está disponível! Confira entrevista sobre a vinda de médicos estrangeiros, reportagem sobre educação...

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