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p r o d u ç ã o Lizandra de Almeida

Para contar uma

história

Trabalhando os elementos visuais para criar cenas realistas e bonitas, a equipe de arte se vale de muita pesquisa para embasar as produções de época.

Desde o ano passado, a Rede Globo vem colocando no ar uma série de bem sucedidas produções de época. Ambientadas em diversos períodos da história do Brasil, justamente às vésperas da comemoração dos 500 anos de descobrimento, essas produções precisam combinar o rigor histórico com uma estética que agrade ao público. Em qualquer que seja a produção em dramaturgia, as equipes começam a trabalhar depois de definir em conjunto a estética que vai marcar o programa. São referências de cores, iluminação, direção que norteiam todo o trabalho. A partir dessas definições, são criados os múltiplos elementos da arte. “A cor é usada como elemento dramático. Em ‘Terra nostra’, a chegada dos italianos, saudosos de casa, é escura. Quando chegam ao Brasil, a luz é mais quente, há tons de ocre e telha como no interior da Itália”, explica a diretora de arte Tiza de Oliveira. As cores ressaltam ícones que caracterizam mais os personagens.

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Meninas virginais usam tons claros, barracos de favela não têm eletrodomésticos: “Às vezes temos de fugir do real para enfatizar o que queremos. Todos os barracos hoje têm TV, mas não colocamos para valorizar o código da pobreza”, exemplifica Tiza. No caso das produções de época, porém, a realidade nem sempre é clara, mas os elementos cenográficos e de figurino estão diretamente ligados ao período histórico. “Existe a liberdade poética e o erro. Temos de criar parâmetros para não chegar a nenhum desses extremos”, ressalta Yurika Yamasaki, responsável pela arte da novela das seis “Esplendor”. “A pior coisa que podemos fazer é usar coisas que não existiam na época. A globalização hoje faz com que tenhamos acesso a comidas, frutas que não poderiam ser servidos na década de 50. Por isso, estamos muito sujeitos ao erro. E essa preocupação aumenta quando o tempo de pesquisa é reduzido, como no nosso caso.” “Temos de colocar no plano concreto as idéias do diretor. Para isso, precisamos entender como ele quer contar a história. A adoção de padrões visuais da época ajuda a dar identidade à história e facilita a interpretação dos atores”, acredita Lia Renha, diretora de arte de “A muralha” e da minissérie inédita “A invenção do Brasil” (veja box). Para Tiza de Oliveira, a arte tem

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de ajudar a criar imagens belas. “Uma coisa que aprendi com Walter Avancini foi que a realidade é diferente do realismo. Temos de procurar plasticidade, imagens bonitas. Temos de ser agradáveis ao olhar. Nosso trabalho é o meio termo entre a plasticidade e a realidade.”

sem história A minissérie “A muralha” foi uma das que mais exigiu das equipes de arte em termos de pesquisa. Tanto o local como o período em que se passa (São Paulo, no século XVII) são dos menos conhecidos dentro da história do Brasil. “Tivemos a preocupação de fazer algo muito próximo do real. Trabalhamos a ficção como se fosse documentário”, conta Lia Renha. A pesquisa se baseou, principalmente, em documentos históricos como testamentos. “Não temos muitas pesquisas sobre essa época, mas nos testamentos conseguimos resgatar alguns valores sociais e estéticos. Por exemplo: encontramos um em que o autor do testamento deixava de herança apenas uma cadeira. Quer dizer, ele não tinha mais nada em sua casa, nem mesa, nada. Só uma cadeira.”, lembra Lia. O trabalho de pesquisa nem sempre começa quando se decide fazer uma nova produção. Para Lia Renha, que é arquiteta, as referências são coletadas sempre. “Estou sempre comprando livros de arquitetura e história e às vezes é difícil saber se são pesquisas sérias, bem feitas. Também precisamos saber diferenciar.” Quando o local onde o programa será ambientado ainda diz respeito a localidades específicas, a diretora de arte costuma viajar para “sentir” os lugares. “Para fazer ‘O auto da compadecida’, fomos ao Nordeste, andamos pelo sertão. No caso de ‘Dona Flor e seus dois maridos’, passamos um tempo em Salvador, entramos nas casas, convivemos com as pessoas. E em cada lugar pesquisamos fotos de família, fotos antigas que dêem uma idéia de figurino, objetos”, explica.

Revista Tela Viva - 91 Março de 2000  

Revista Tela Viva - 91 Março de 2000

Revista Tela Viva - 91 Março de 2000  

Revista Tela Viva - 91 Março de 2000

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