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televisão, cinema e mídias eletrônicas

ano 13_#145_dezembro2004

Cinema dividido Criação do FAC rompe discurso unificado do audiovisual

Publicidade O potencial dos anúncios nas salas de exibição

Carreira Captação de som direto exige técnica e sensibilidade


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(editorial ) por André Mermelstein

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Jogo aberto

O

sonho de um setor audiovisual unificado, falando sempre em posições de consenso, em diálogo e entendimento foi bom enquanto durou. No mês de novembro as divergências entre as diferentes tendências afloraram, catalisadas pelo avanço dos debates sobre a Ancinav. Com forte apoio do maior grupo de mídia do País, representado pela Abert, a criação do Fórum do Audiovisual e do Cinema (FAC) marca a ruptura definitiva entre uma banda do setor audiovisual, sobretudo os produtores independentes, que apóia integralmente o projeto governamental de regulação do setor, e o setor mais “rico”, ou “industrial”, como se define, formado sobretudo pela Abert (acompanhada informalmente pelas outras emissoras de TV aberta), pelas distribuidoras e exibidores internacionais, que se opõem a qualquer interferência estatal extra no andamento do setor. A radicalização do discurso não ajuda ninguém. Cada lado tem suas razões, e nesse momento elas parecem bastante claras, como se vê na matéria de capa desta edição. Mas o rompimento e o fim do diálogo podem levar a uma situação (ideal para alguns) de total paralisia no avanço dos debates. É necessária a organização normativa, a revisão dos marcos regulatórios do setor de comunicação social como um todo (e do audiovisual especificamente), por conta do avanço das tecnologias e da inevitável convergência de mídias, mas também para ajustar desequilíbrios de mercado, garantir a pluralidade dos meios de informação e valorizar as iniciativas positivas dos grupos de comunicação. Acreditamos que o debate sobre a Ancinav pode ser um passo neste sentido, que certamente mostrará caminhos razoáveis a serem seguidos e caminhos equivocados a serem evitados. O que não se pode é tornar o debate opaco, camuflado em seus reais interesses ou radicalizado no discurso. No próximo ano, o projeto deve chegar ao Congresso Nacional, onde se dará a rodada final de negociações. Resta saber se prevalecerão as estratégias do jogo político ou se as posições serão claramente assumidas por cada uma das partes.

ilustração de capa: Ricardo Bardal

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(índice)

(cartas) Li hoje a matéria sobre a infraestrutura (TELA VIVA 144), ficou muito boa e tudo que dissemos foi bem retratado, parabéns. Uma correção apenas: os equipamentos importados chegam aqui custando 91,97% a mais e, para câmeras, 101,77% de acréscimo (e não 191,97% e 201,77%). Um abraço, Paulo Ribeiro, Loc.All Paulo, Obrigado pela retificação. Realmente, houve um erro de interpretação da tabela. Ela indicava o valor de 191,97%, mas este valor significava o custo total do equipamento no Brasil em relação ao original, ou seja, os 100% do original e mais 91,97% de impostos. O mesmo vale para os outros equipamentos citados na matéria.

Indústria rachada

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Criação do FAC marca o fim do discurso único no audiovisual

A redação

Amigos da Tela Viva, Sou leitora assídua da revista e tenho gostado muito das reportagens. Como trabalho como assistente de produção, gostaria de ler mais matérias sobre profissionais que são craques nessa “arte”, como a da produtora culinária Bia Brunett que saiu na última edição e achei muito interessante. Continuem assim.

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scanner figuras exibição

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publicidade

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making of artigo

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BNDES abre linha para construção de salas Cresce importância do cinema como mídia

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Regulação e regulamentação, por Marcos Bitelli

carreiras

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upgrade agenda

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A vida do técnico de som direto

Denise Valente Sales, São Paulo, SP

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( scanner ) Causar incômodo Este é o objetivo do projeto “Diesel Dreams”, da marca de roupas jovens Diesel. Trinta diretores de todo o mundo foram convidados a produzir filmes curtos a partir do tema “Sonhos”, visando explorar as camadas profundas do subconsciente humano. Os autores puderam utilizar todos os tipos de suporte. Para divulgar o projeto, a produtora brasileira Canvas 24p foi convidada a criar um filme utilizando as imagens que considerasse mais perturbadoras. O resultado foi exibido no Resfest - Festival de Cinema Digital, realizado de 8 a 14 de novembro. “Criamos uma abertura e um encerramento em computação gráfica, com o objetivo de incomodar, chamar a atenção das pessoas e despertar a atenção para o projeto”, explica o diretor Wiland Pinsdorf. Os clientes da marca terão acesso a um DVD com todos os curtas no próximo ano.

Cor e boas festas

Com cenários multicoloridos produzidos em computação gráfica, está no ar em todo o Brasil a campanha da Amil, com criação de Denise Sertã, Carla Belino e Francis Figueiredo, da Promarket do Rio de Janeiro, e produção da também carioca Proview, com direção de Duda Vaisman e trilha Prof. Pardal. O filme contou com um elenco de mais de cem pessoas e aproveita para deixar uma mensagem de fim de ano.

Renault 2005

A produtora Base Cinematográfica produziu no mês de dezembro uma campanha institucional para a Renault, que deve ter desmembramentos para varejo ao longo do próximo ano. A campanha, com cinco filmes que vão ar em janeiro, conta com testemunhais de proprietários dos automóveis da linha nacional da Renault (Scénic, Clio e Clio Sedan), contando o que acham do carro. As filmagens serão feitas na casa ou no trabalho dos clientes, para dar um ar realista. A direção é de Ana Sardinha e Iko Kasper. Além disso, a produtora fará em janeiro um banco de imagens para a Renault. Todos os modelos fabricados no Brasil serão filmados em uma estrada no Estado de São Paulo. As imagens serão utilizadas nas próximas campanhas da montadora.

Silêncio absoluto A O2 Dois Filmes assina os dois recentes filmes publicitários criados pela J. Walter Thompson de Curitiba para o HSBC. “Mudo”, dirigido por Dainara Toffoli, tem como protagonista um menino que se mantém, do começo até quase o final, em silêncio absoluto, sereno e até poético, sugerindo-se que ele seria mudo. Na verdade, o garoto resguarda a voz para cantar no Natal do Palácio Avenida, na capital paranaense. Já “Dezembro” passeia por pontos turísticos brasileiros capturados pelo olhar de Cristiano Mascaro.

Árvore da Lagoa A Yes Filmes foi a responsável pelo filme da Bradesco Seguros para divulgar a Árvore da Lagoa, no Rio de Janeiro. Com o título “Família”, o comercial, da Agência Artplan, foi ao ar no final de novembro. A direção é de Caio Abreia com fotografia de Marcelo Brasil e direção de arte de Maria Leite. 

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Ministério da Cultura divulgou no dia 15 deste mês o texto do anteprojeto que pretende criar a Ancinav já com as sugestões do comitê civil do Conselho Superior de Cinema. Esta versão poderá ou não ser aprovada pela totalidade do Conselho Superior de Cinema, em reunião que ainda está para ser marcada. Isso porque a reunião, que deveria acontecer no dia 17, foi desmarcada. Na reunião, o conselho, em sua composição completa, deliberaria sobre a proposta, preparando-a para o presidente Lula enviá-lo ao Congresso Nacional. O pedido de adiamento veio da Casa Civil, que entendeu, segundo seu subchefe de análise e acompanhamento de políticas governamentais, Luiz Alberto Santos, que o “acúmulo de tarefas e temas neste fim de ano e o encerramento das atividades no Congresso Nacional impediram a análise do texto a tempo para o encontro”. A maior parte das alterações propostas pelos membros da sociedade civil já eram conhecidas. Alguns pontos, contudo, ficam mais claros com a leitura do projeto, que está disponível no site do MinC (www. cultura.gov.br/projetoancinav). Confira as principais mudanças mais sutis, mas não menos importantes, em relação às versões anteriores: * São dadas cinco novas atribuições ao Poder Público, entre elas zelar para que a exploração de obras audiovisuais estrangeiras no Brasil resulte em recursos para o fomento da atividade audiovisual por empresas nacionais, visando equiparar as condições de competição; * O Conselho Superior do Audiovisual terá, pela redação proposta, mais força. Fica claro, por exemplo, que é apenas ele, quem formula, analisa e aprova políticas públicas e

audiovisual, videofonográfica, programação de âmbito nacional, internacional etc são definidas detalhadamente, em contraposição a uma definição bastante simples da proposta original; * Reforça-se que radiodifusão, telecomunicações e TV por assinatura têm que promover a regionalização e a cultura nacional quando explorarem atividade audiovisual; * Distribuidoras terão que ter sistema de controle; * A definição do tempo de janelas para a exibição de obras cinematográficas poderá ser atribuição da Ancinav; * Todas as produções terão que ceder cópia à Cinemateca Nacional ou ser mantida em arquivos catalogados cujas bases de dados serão cedidas à Cinemateca; * Além de TVs, DVDs e videocassetes, também monitores de computador pagarão Condecine de 2%; * Quem investir em publicidade de produções independentes não pagará Condecine; * O Funcinav terá como parte de suas receitas 1% do Fundo Nacional de Universalização das Telecomunicações (Fust); * Não há mais o compromisso de exibição de obras cinematográficas ou audiovisuais nacionais pelas TVs, mas quem tiver mais de 20% de sua programação com conteúdo deste tipo terá descontos progressivos na Condecine; * As empresas de TV por assinatura terão, agora, que seguir a um percentual a ser estabelecido de produção nacional por pacote de programação, conforme regulamento. Quem tiver mais de 50% de conteúdo deste tipo terá desconto na Condecine; * Não está mais estabelecido o percentual máximo de 1% da receita para direitos autorais sobre exibição pública para nenhuma modalidade de empresa audiovisual.

fotos: divulgação

Nova versão

Texto ainda tem que passar pelo CSC e pela Presidência antes de chegar ao Congresso Nacional.

estabelece critérios e percentuais para a aplicação de recursos; * Fica mais claro que a Ancinav será apenas uma ampliação da atual Ancine, mantido inclusive seu quadro de funcionários; * Para as empresas de TV por assinatura, uma mudança importante: em vez de regular a relação entre a produção e distribuição de conteúdos de TV paga, a Ancinav regulará a distribuição de conteúdo em TV paga, apenas, visando a competição, mas não faz mais referência aos casos em que houver controle cruzado do detentor dos meios e do produtor de conteúdo; * A Ancinav ganha, pela proposta do comitê civil do Conselho Superior de Cinema, três novas atribuições como agência, incluindo regulamentar e fiscalizar a utilização dos incentivos fiscais; * A Ancinav poderá exigir das empresas do setor audiovisual informações sobre suas atividades, mas agora há a necessidade de um decreto presidencial regulamentando isso; * Fica claro que a atividade audiovisual não se confunde com a atividade de telecomunicações; * Coloca-se claramente que videoconferências, videofone e assemelhados não serão atividades reguladas pela Ancinav; * As definições de obras cinematográfica, T e l a

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( scanner) Na estrada A AD Line realizou no último mês o Broadcast RoadShow, evento voltado para diretores e técnicos de emissoras de TV, produtoras e finalizadoras com palestras e demonstrações sobre tecnologia da informação, sistemas de arquivo digital e produtos com o Liquid 6.0, Palladiun, Vortex e Media Stream, da Pinnacle. O evento reuniu cerca de cem pessoas em São Paulo e 90 em Curitiba, e será repetido em dezembro.

DVD A Fuzo Produções é a responsável pela produção do DVD “Eletracústico”, de Gilberto Gil. Além de show gravado no Canecão, no Rio de Janeiro, o DVD traz como extra o show de Gil na sede das Organização das Nações Unidas, em Nova York, no ano passado. O DVD conta ainda com entrevista de Gilberto Gil e dos músicos que o acompanham na turnê deste show. A direção é de Bernardo Palmeiro, Gian Carlo Bellotti e Pedro Serra. A Fuzo também produziu o DVD “Oswaldo Montenegro 25 Anos de Histórias”, o primeiro DVD do cantor e compositor. O DVD traz um show exclusivo, realizado no início de setembro no Cine-teatro Dina Sfat, da Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro.

Paisagens brasileiras A mais recente peça da campanha do whisky Johnnie Walker - cujo slogan é “Keep Walking” - foi totalmente rodada no Brasil. O filme “Orquídea” mostra um pesquisador descendo as encostas das Cataratas do Iguaçu para encontrar um espécime raro de orquídea. O filme foi criado pela agência BBH, de Londres, e adaptado pela brasileira NeoGama. A adaptação para veiculação no Brasil é da Radar TV Mixer.

TV por ela mesma O canal de TV via Internet AllTV está exibindo o programa “AllTV Tevê”, que debate o universo da televisão. Com uma hora de duração, o programa é apresentado pela jornalista Daniele Monteiro e conta com a participação ao vivo dos internautas pelo chat. Na pauta estão temas como qualidade da programação, inovações tecnológicas, legislação e história da TV, com um entrevistado da área, como diretores, críticos, empresários, atores, autores, políticos, personagens da história da televisão e jornalistas. O programa vai ao ar todas as segundas-feiras, das 20h00 às 21h00, no site www.alltv.com.br.


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Foto: gerson gargalaka

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Ricardo Reis

Um pára-quedista na edição de som

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rotina de Ricardo Reis, o Chuí, há cerca de oito anos era a mesma de cerca de 350 mil brasileiros. Bancário, trabalhava no Banco Bamerindus, que depois foi comprado pelo HSBC. À noite, cursava Ciências Contábeis na Faculdade de Economia e Administração da USP. Tinha uma carreira pela frente no banco, a exemplo de muitos de seus familiares, vários deles bancários de carreira. Ao lado do trabalho e dos estudos, um hobby: a música. Tinha uma banda e tocava baixo, mas nunca pensei em trabalhar com isso. Entre os clientes do banco, estava a produtora de som Timbre, de Miriam Biderman e ... Como sempre me interessei por música, em uma das minhas férias fui até a produtora e perguntei se podia ficar lá, olhando. Queria montar um estúdio em casa, uma

coisa amadora, mas mergulhei na produtora. Comecei a fuçar nos softwares e vi que adorava aquilo. Não cansava, podia ficar 24 horas. Voltei das férias e pedi demissão. Chuí nunca mais saiu da produtora. O sócio, que atuava mais na área de jingles publicitários, deixou a sociedade. A produtora passou a se chamar Effects, e Chuí se tornou sócio de Miriam. O raciocínio lógico da contabilidade ajudou, de certa forma, mas como sempre gostei de música fui educando o ouvido. Sempre treinava para ouvir o baixo, tentava distinguir cada instrumento no meio dos outros. Mas não fazia a menor idéia de como era feita uma trilha para cinema. Não sabia que existia um trabalho tão especializado, com tantas pistas. A mixagem final de um longa chega a ter 120 canais. Uma vez decidida a mudança de profissão, Chuí começou a fazer cursos de

“fui assistir ‘Terra estrangeira’ e fiquei muito orgulhoso. depois aluguei todos os filmes nacionais disponÍveis e fiquei ouvindo.” 10

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cinema e música para cinema. No começo editava para comerciais, mas procurou fazer um pouco de cada coisa para aprender todas as etapas do processo de áudio. Fiz um pouco de som direto para ver como era, mas não gostei muito. Prefiro a edição porque envolve a criação, a união de sons harmônicos com a música e o filme. Sua ligação com o cinema também era a mesma de muitos bancários. Gostava, mas assistia mais aos blockbusters, filmes de ação. Gostava muito de clipes por causa da música. Mas quando houve a retomada do cinema e fui assistir “Terra Estrangeira”, fiquei muito orgulhoso e contente de ver o cinema voltando. Depois, quando comecei a trabalhar, aluguei todos os filmes nacionais disponíveis e fiquei ouvindo. Além de todo o aprendizado com Miriam Biderman, atualmente uma das mais importantes e premiadas técnicas de som brasileiras, Chuí também aprendeu muito com José Luiz Sasso, outra fera do som. E depois de oito anos na nova profissão, também faz parte do primeiro time de áudio para cinema. Há cinco anos a produtora praticamente só trabalha com filmes, mas não dispensa publicidade. Quando aparece é ótimo, porque a tabela é outra. Mas hoje os sistemas baratearam demais e apareceram muitas produtoras de áudio. Para cinema é preciso ser mais especia­lizado e ainda há bem pouca gente nesse mercado. O cinema exige uma qualidade mais rígida, os equipamentos precisam estar bem ajustados. No cinema o range de sons é maior, então a parte técnica exigida é mais cara. Qualquer defeito fica muito evidente. Da época do banco e da faculdade, que também foi abandonada do dia para a noite, só resta uma saudade: das férias, do décimo terceiro, dos finais de semana. Lizandra de Almeira


Mudança de casa

Andrea Nero dei­xou a fina­li­za­do­ra Cinegrafika e par­tiu para a Base Cinematográfica, dos ­sócios Ronaldo Pinheiro (à direita) e Fred Toledo (à esquerda) . Andréa atua­rá na coor­ de­na­ção do aten­di­men­to da pro­du­to­ra, que está há três anos no mer­ca­do. A pro­du­to­ra, além da publi­ci­da­de — mer­ca­do em que aten­ de clien­tes como Lowe, Renault e Nissan —, faz ­vídeos ins­ti­tu­cio­nais, para clien­tes como Bradesco, Hollywood, TV Bandeirantes e a Seguradora Vera Cruz.

V.U. Studio come­mo­ra

Reforço comer­cial

A Band tem duas novas pro­fis­sio­nais no seu qua­dro no Rio de Janeiro. Flavia Paranhos (à esquerda) assu­me a gerên­cia de con­tas da Band Rio. Com 16 anos de expe­riên­cia na Rede Globo, ela entra no lugar de Tuffy Habib, que foi pro­mo­vi­do a dire­tor comer­cial da emis­so­ra cario­ca. Jane Morgan (à direita) , que tra­ba­lhou na Editora Globo e no SBT por 12 anos, é a nova exe­cu­ti­va de con­tas dos ­canais BandSports, BandNews, BandNews RJ e Rede 21. Ela assu­me o lugar de Brenda Roque, que dei­xou a empre­sa.

Volta ao lar

fotos: divulgação

Contratação

Paola Siqueira é a nova inte­gran­te do time de dire­to­res da O2 Dois Filmes. Paola já atuou na Conspiração Filmes, onde assi­nou video­cli­pes para Marina Lima, Zélia Duncan e Nelson Gonçalvez, entre ­outros. A dire­to­ra tam­bém tra­ba­ lhou nas equi­pes da JX Plural e Dueto.

O V.U. Studio, empre­sa espe­cia­li­za­da na cria­ção e pro­du­ção de tri­lhas sono­ras, está come­mo­ran­do os resul­ta­dos obti­dos em 2004, que supe­ra­ram em 50% o fatu­ ra­men­to do ano ante­rior. Os ­irmãos Caco e Álvaro Faria acre­di­tam que o pri­mei­ro passo para esses resul­ta­dos foi a con­tra­ ta­ção de Alessandra Pais (foto) para a coor­de­na­ção de aten­di­men­to, além da con­quis­ta de con­tas impor­tan­tes no mer­ ca­do do Rio de Janeiro, que incluí­ram o aten­di­men­to a gran­des pro­du­ções da McCann-Erickson e Quê/Next.

Após oito anos, Roberto Galvão volta à Casablanca e reas­su­me a super­vi­são de efei­tos da casa. Geninho, como é conhe­ci­do no mer­ca­do, havia dei­xa­do a fina­li­za­do­ra para se dedi­car à dire­ ção de fil­mes publi­ci­tá­rios, pro­fis­são que con­ti­nua exer­cen­do na pro­du­to­ra Movi&Art. “Eu nunca real­men­te dei­xei a Casablanca. Nos anos em que esti­ve tra­ba­lhan­do fora, pas­sei mais tempo na fina­ li­za­do­ra do que em casa, já que sem­pre vim fina­li­ zar os fil­mes que diri­gi e conhe­cer os novos equi­ pa­men­tos e tec­no­lo­gias”, diz. O super­vi­sor de efei­ tos atual­men­te está mon­tan­do uma nova equi­pe para a fina­li­za­do­ra, além de bus­car e desen­vol­ver solu­ções para inte­grar os dife­ren­tes equi­pa­men­ tos e pla­ta­for­mas dis­po­ní­veis. Seu tra­ba­lho, diz, é “focar nos can­ti­nhos” para garan­tir har­mo­nia nos tra­ba­lhos que aliam multi-for­ma­tos, “do HD ao NTSC”. “Muitas vezes é impor­tan­te para nós, dire­to­res, con­tar­mos com uma reta­guar­da na equi­pe de fina­li­za­ção que este­ja aten­ta a deta­lhes que nor­mal­men­te pas­sam bati­dos duran­te o pro­ces­so e que fazem muita dife­ren­ça quan­do o filme fica pron­to para vei­cu­la­ção”, diz.

Novidades no staff

Eterno retor­no

O escri­tó­rio da Giovanni, FCB no Rio de Janeiro rea­li­zou mudan­ças em seu staff em novem­bro. Bernardo Bouças passa a fazer parte do grupo do dire­tor Gustavo Oliveira, que aten­de Rio Sul, Governo do Estado do Rio e Columbia, como assis­ten­ te de aten­di­men­to. A agên­cia tam­bém con­tra­tou o reda­tor Thiago Fernandes (foto), que tem pas­sa­gens por Fischer América, Casa da Criação e 4 x 4.

O rotei­ris­ta Rodrigo Castilho é o mais novo inte­gran­te da equi­pe da RadarTV Mixer, onde já tra­ba­lhou em pro­je­tos como TV Lokau (exi­bi­do pela Rede TV!). Castilho tra­ba­lhou, nesse ínte­rim, em pro­je­tos de docu­men­tá­ rios na Pacto Audiovisual e em cur­sos de espe­cia­li­za­ção.

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( capa )

por André Mermelstein*

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Divergência explícita Nova entidade polariza os debates sobre a criação da Ancinav e a necessidade de regulação no audiovisual.

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s diferenças entre os diversos atores que compõem o cenário audiovisual brasileiro ficaram escancaradas no final de novembro. No dia 22 aconteceu em São Paulo a primeira reunião do FAC, Fórum do Audiovisual e do Cinema, entidade que reúne 17 associações ligadas ao cinema e à TV, essencialmente a Globo (representada pela Abert e pela Globo Filmes) e os distribuidores internacionais e exibidores, mas também associações de prestadores de serviços e sindicatos.

O coordenador do Fórum, Roberto Farias, designado como porta-voz da associação, negou que a criação do FAC seja uma resposta à Ancinav, pois, segundo ele, a organização já vinha se desenhando antes mesmo do projeto do MinC. “Mas o projeto de lei será a principal frente de batalha da entidade”, ressaltou. A questão da Ancinav revela na verdade uma polarização entre o segmento que acredita que deve haver uma interferência do Estado na economia do audiovisual e os que acreditam que deve-se deixar tudo nas mãos da livre iniciativa e do mercado. Hoje, esta dicotomia traduz-se no apoio ou na 12

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rejeição ao projeto da Ancinav, que, aliás, deveria ter sido finalizado no final de dezembro para seguir ao Congresso Nacional, mas, por “problemas de agenda do governo”, segundo a Casa Civil, ficou para ser discutido em momento mais oportuno, provavelmente no início de 2005. “Achamos que o governo deve compreender e estimular o setor, sem regras e punições. Já existem órgãos e leis que fiscalizam bastante a comunicação, como o Ministério da Justiça, a Lei de Imprensa, o Estatuto do Menor etc.”, afirmou Farias. O coordenador também usou, na entrevista concedida logo após a reunião inaugural, a argumentação da liberdade de expressão na crítica ao projeto Ancinav. Mencionou repetidas vezes as expressões “censura” e “dirigismo cultural”, apontando uma suposta interferência do Estado na criação cultural contida no projeto. Quanto ao racha entre o cinema dito “industrial” e o CBC (representando os independentes), Farias disse que “o CBC se esvaziou na medida em que tomou um partido, era para ser um fórum de discussão, respeitando a opinião de todos. Apoiou a Ancinav contra grande parte das entidades que faziam parte”. O presidente do CBC, Geraldo Moraes, rechaça a afirmação. “O CBC sempre defendeu a regulação do setor, e isso está expresso nas atas de nossos congressos, aprovadas por consenso, e dos quais participaram muitos que hoje estão no FAC”, rebate. Ele discorda que tenha havido uma debandada da entidade, uma vez


isso? Mas a questão é que é a única saída, e precisa haver uma ampliação do espaço.” Governo A grande questão em relação à política audiovisual brasileira de um modo geral, e em relação à Ancinav especificamente, é se e com que força o tema chegará ao Congresso Nacional em 2005 e qual O presidente Lula apoiou publicamente o projeto do Minc até agora, será o efetivo apoio do mas falta a tramitação no Congresso. presidente da República e de sua base de apoio ao texto. O governo poucos estão dispostos a ir contra a minimiza os impactos da criação do vontade da televisão. FAC, mas sabe que as manifestações das O que tem complicado a análise emissoras de TV contra a proposta de uma do governo sobre a tramitação agência para o audiovisual terão impacto do projeto Ancinav é o fato de acentuado sobre senadores e deputados. que, ao mesmo tempo em que ele Afinal, parte significativa do Congresso enfrenta a resistência dos grupos de brasileiro é composta de radiodifusores, e comunicação, ele também a

Fronteiras demarcadas FOTOs: arquivo

TELA VIVA enviou cinco perguntas para o coordenador do FAC, Roberto Farias, e para o presidente do CBC, Geraldo Moraes. As respostas ajudam a entender os pontos em que o setor audiovisual está decididamente dividido.

Roberto Farias

Geraldo Moraes

?

É necessária uma legislação específica para regular o setor de audiovisual, além das leis já existentes?

Roberto Farias Não há absolutamente necessidade de uma super lei para isso. No caso do cinema, a legislação é satisfatória. No das televisões, principal preocupação do projeto da Ancinav, a legislação específica já existente para regular o setor audiovisual é enorme, mas acho que as pessoas ou não conhecem ou não se dão conta. As leis existentes são sábias, várias e específicas. O modelo regulatório do audiovisual brasileiro é sábio por dois motivos. Porque as leis e os órgãos de controle são especializados por temas e porque garante que a regulação e a fiscalização da atividade de comunicação social seja feita com imparcialidade e transparência. Por exemplo, para regular os direitos da T e l a

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criança e os valores da família há o Estatuto da Criança e do Adolescente. Quem fiscaliza o seu cumprimento são os juizados de menores que são muito atentos e atuantes. Para regular a imparcialidade e a legalidade em processos eleitorais, existem as leis eleitorais e quem fiscaliza é a Justiça Eleitoral. Os exemplos vão desde a Constituição Federal até portarias ministeriais e contratos de concessão e autorizações para funcionamento das TVs. Todas as decisões importantes que afetam essas empresas de telecomunicação, por exemplo, têm de ser tomadas por pelo menos dois poderes da República. Para a outorga de concessão a uma TV é preciso a autorização do Executivo e do Legislativo. Para cassar uma concessão é preciso a decisão do Executivo e do Judiciário. Pretender mudar o atual modelo

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FOTO: rubens chiri/bgpress

que apenas cinco associações do FAC saíram do Congresso (o sindicato do Rio de Janeiro, as associações dos exibidores de SP, RJ e RS e a federação dos exibidores). “Muitas entidades do FAC não são ligadas ao cinema, como a Abert ou ABTA”, explica Moraes. Para o presidente do Congresso Brasileiro de Cinema, a entidade perdeu em afiliadas, mas ganhou em coesão, em unidade interna. “Tivemos uma assembléia no final de novembro que ratificou todas as resoluções do CBC”, conta Geraldo Moraes. Moraes aponta o FAC como uma associação entre a TV e alguns produtores, distribuidores e exibidores ligados a ela. “Nesse momento, além de existir um mercado ridículo, para um filme ter bom resultado só tem uma saída: estar ligado a uma (distribuidora) ‘major’ e ter mídia na TV (Globo). É uma saída válida, quem não deseja

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( capa) uma série de pedidos destes mesmos grupos no sentido de que se estabeleçam regras para os grupos estrangeiros que exploram a atividade audiovisual no Brasil, por qualquer meio. Acredita-se dentro do governo que não haverá forma de a Ancinav ser barrada pela bancada da radiodifusão sem que fiquem evidentes as razões. Até aqui, o presidente Lula apenas manifestou apoio à Ancinav. Mas o mesmo Lula também manifestou apoio à proposta do Conselho Federal de Jornalismo, que acabou abandonado pela base governista no Congresso Nacional assim que começou a ser bombardeado pela grande imprensa e outros setores. Por outro lado, tem irritado setores do governo o fato de os grupos de comunicação se postarem de maneira dúbia em relação ao projeto. Por um lado,

parecem participar de um processo de negociação, que já resultou em diversas mudanças na proposta. Por outro, seguem dizendo por meio de suas associações que a proposta tem que ser jogada no lixo e que não deveria ir nem para o Congresso Nacional (como foi o caso da recente manifes­tação da Abert). Em relação à divisão na indústria entre os que querem e os que não querem a Ancinav, ou “entre o FAC e o CBC”, como já se ilustra, o governo não vê maiores problemas: o projeto tem argumentos que agradam um pouco a cada um dos lados. “Quem não quiser discutir o projeto perde a legitimidade para exigir outras coisas”, disse uma fonte de nível ministerial.

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regulatório brasileiro, da forma como está sendo proposto no projeto de criação da Ancinav, é uma ameaça sem precedentes à liberdade de criação e expressão. E as leis e as instâncias fiscalizadoras não só existem como funcionam na prática. Nos últimos meses três estações de televisão foram punidas e retiradas do ar por diferentes motivações e autoridades. Além de tudo isto há um poderoso controle que geralmente esquecem de mencionar, que é provavelmente o mais democrático: a escolha da população, com o uso do controle remoto, elegendo minuto a minuto o que deseja assistir. Um exemplo eloqüente é o caso de um apresentador que recentemente exibiu matéria falsa e depois disso não conseguiu recuperar os índices de audiência que o telespectador lhe confiava.

Isso afetou e vai afetar ainda mais toda a estrutura de produção e difusão em todo o mundo além de provocar desdobramentos em áreas como os direitos autorais, em franca revisão de conceitos. Tudo isso acontece num setor cuja importância econômica é cada vez maior e virou prioridade estratégica para os governos atuais em todos os continentes, em especial devido ao reagrupamento e ao fortalecimento dos conglomerados que dominam cada vez mais o setor em todo o mundo. Diante desse quadro, não regular o setor através de uma legislação específica e abrangente seria no mínimo uma irresponsabilidade.

Geraldo Moraes Todos nós sabemos que a televisão brasileira continua baseada num modelo que já tem mais de 30 anos e que as principais leis que regem o cinema são as mesmas que procuraram tirar a produção da crise pós-Collor. De lá para hoje houve algumas atualizações pontuais, enquanto o audiovisual sofreu modificações radicais e a convergência tecnológica acabou com a segmentação do setor e diversificou formatos, suportes, plataformas. Em conseqüência, a legislação existente é de modo geral insuficiente, setorial e desatualizada. Para completar, a revolução digital vai mudar tudo dentro de um ano ou dois.

RF A busca de recursos para o audiovisual sempre foi um problema. É consenso que a atividade é estratégica, mas os recursos para a cultura são ínfimos e para o audiovisual, então, é uma pobreza. Teoricamente, os recursos deveriam vir do Tesouro, já que a atividade é considerada estratégica. Como não vêm, buscam-se soluções alternativas. Extrair recursos na própria atividade sempre foi uma forma de tentar desenvolvê-la. Quando o País tinha perto de 300 milhões de espectadores/ano, a atividade era muito mais forte do que hoje e isso era aceitável. Atualmente temos apenas 120 milhões e a quantidade de cinemas caiu de 3,5 mil salas para menos de mil, e agora são 1,92 mil. Ou seja, o

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De onde devem vir os recursos para financiar a produção e a distribuição independentes de cinema e televisão?

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No olho dos outros

Ao mesmo tempo em que rejeitam interferência do Estado, emissoras apoiam restrições às teles.

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PL da Ancinav não é o único a tratar da regulamentação do audiovisual no Brasil. Uma proposta de emenda constitucional (PEC) do senador Maguito Vilela (PMDB/GO) promete movimentar os setores de comunicação e telecomunicações. Ele quer que qualquer empresa que explore conteúdos que possam ser entendidos como comunicação social esteja sujeita às mesmas regras constitucionais a que as TVs estão submetidas, inclusive a restrição de propriedade ao capital estrangeiro a 30% do capital total. A PEC, de número 55/2004, começou a tramitar no dia 10 de novembro e altera o

Artigo 222 da Constituição. Pelo projeto do senador, as empresas terão o prazo de dois anos para se adequarem ao disposto na emenda. Ele entende, na justificativa do projeto, que é necessário adaptar o texto da Constituição “às novas realidades tecnológicas que modificaram o cenário da comunicação social eletrônica” para “preservar o espírito, o conteúdo e o alcance das normas constitucionais concernentes a essa matéria, de modo a assegurar a realização de seus fins: a defesa da soberania e da identidade nacionais, bem como o desenvolvimento da cultura e proteção do patrimônio cultural brasileiros”. Segundo o senador, a Constituição

conjunto da atividade está empobrecido, não tem como abrir mão de qualquer tostão, hoje absolutamente necessário para prosseguir a sua recuperação. No Brasil a atividade cinematográfica e audiovisual já é extremamente onerada, tendo uma das maiores cargas tributárias do mundo. Nossa proposta é desonerar o setor, considerado estratégico, para fazê-lo crescer . Se a Lei 8685/93, a 9313/91 e a Condecine, mecanismos de arrecadação hoje existentes, fossem disciplinados com o objetivo de realmente desenvolver o setor, a ocupação do mercado pelo cinema brasileiro poderia estar em outro patamar. Há uma dispersão enorme e qualquer cidadão, sem formação profissional tem acesso aos recursos dessas leis. Enquanto isso, cineastas como Nelson Pereira dos Santos ficam anos sem filmar. Há recursos, mas pulverizados e mal aplicados. Nos 600 pedidos de registro na Ancine para habilitarem-se à captação de recursos incentivados, com absoluta certeza, não há 10% de verdadeiros profissionais. As leis de incentivo mudaram o panorama do cinema brasileiro, mas precisam ser aperfeiçoadas, resguardando sempre a administração dos recursos pela iniciativa privada. É preciso aproveitar a experiência acumulada, respeitar profissionais com décadas de experiência e não privilegiar apenas a renovação, sempre necessária para oxigenar a atividade, mas que não garante uma produção capaz de ocupar o mercado e competir com os filmes estrangeiros. 16

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Federal faz referência às empresas jornalísticas e aos veículos impressos de comunicação, mas concentra especial atenção nas emissoras de rádio e televisão, referidas pelo nome técnico de empresas de radiodifusão sonora e de sons e imagens. Não considera, contudo, que depois de 1988 novas tecnologias surgiram, criando-se uma defasagem normativa. “O conteúdo de comunicação social, que antes era transmitido apenas pelos tradicionais canais de rádio e televisão, pode ser veiculado, atualmente, por outros meios de distribuição, como a fibra óptica, o satélite, o cabo, as microondas, entre outros. Essa evolução tecnológica

Ainda assim, já recuperamos o posto de quinto maior país produtor de cinema do mundo, com a maior participação de filmes nacionais nas bilheterias. GM Nos países cuja produção audiovisual tem espaço no próprio mercado interno e dispõem de políticas de exportação, a base da indústria é a produção independente e os recursos vêm da própria comercialização, embora isso não dispense o fomento e a fiscalização por parte do Estado. Como no Brasil o espaço disponível para a nossa produção é irrisório nas salas de cinema e praticamente inexistente nos demais segmentos, o Estado precisa destinar recursos para que a atividade não entre em colapso. E nesse caso, é óbvio que os recursos devem vir da própria atividade e do orçamento da União, como, aliás, sempre aconteceu com os demais setores da economia.

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Deve haver alguma imposição à TV aberta para que exiba ou financie produções independentes?

RF Não. A constituição diz que a produção independente deve ser estimulada. Não pode ser uma imposição. Portanto, impor é inconstitucional. Além disso, essa imposição seria desnecessária. As TVs abertas contratam cada vez mais produções independentes. Novelas, como a encomendada à Casablanca pela Record,

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Câmara Outro projeto com conteúdo semelhante é o PL 4209/04, do deputado Luiz Piauhylino (PTB/PE),

FOTO: lúcio tavora/bgpress

deu lugar a um fenômeno conhecido como convergência das mídias: diferentes tipos de conteúdo — anteriormente veiculados apenas por imprensa escrita, rádio e TV — podem ser hoje oferecidos, em conjunto ou separadamente, por qualquer dessas plataformas tecnológicas”, diz o senador em suas justificativas. Vale notar que esse argumento é o mais comum entre representantes de empresas de televisão e parlamentares ligados à bancada da radiodifusão. Seus impactos, se o texto fosse aprovado, seriam gigantescos, pegando desde empresas de TV paga até operadores de telefonia celular, passando por provedores de Internet e outras mídias eletrônicas.

Projeto do Senador Maguito Vilela condiciona qualquer meio de comunicação às regras constitucionais.

que dispõe sobre regras de propriedade de Internet, TV por assinatura e meios eletrônicos em geral. Ele propõe, por exemplo, em seu Artigo 2º, que

o programa “A Turma do Gueto” produzido pela mesma Casablanca; o seriado “Cidade dos Homens”, o “Retrato Falado”, o “Fazendo História”, exibidos no Fantástico. Nas TVs por assinatura, vários programas estão sendo feitos com recursos dos famosos 3%, e assim por diante. Todos eles são exemplos de produção independente para a televisão. Nas novas mídias a demanda para produtos independentes é crescente.

o que hoje é regulado por vários artigos da Constituição Federal e pela legislação específica e fiscalizado e julgado em vários fóruns. Agora mesmo, há um exemplo expressivo: Zelito Vianna está produzindo e dirigindo um filme sobre Juscelino Kubitsheck. Alguns membros da família reclamaram argumentando que o filme denigre a imagem do ex-presidente. Se não houvesse acordo entre as partes, hoje, quem decidiria isso seria a Justiça. Amanhã serão três diretores da Ancinav, com base em regulamento que será elaborado por eles mesmos.

GM Mesmo nos países em que a televisão não é tão impermeável à produção independente é comum haver normas e mecanismos para isso. No caso do Brasil, em que a televisão tem como regra geral exibir produção própria ou enlatados importados, é evidente que devem existir normas legais para garantir espaço para a produção independente. O absurdo disso é imaginar que a televisão de um país só exiba e financie regularmente a produção independente se houver uma imposição legal.

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“a produção, a programação e o provimento de conteúdo nacional de comunicação social eletrônica, por qualquer meio e independentemente dos serviços de telecomunicações de que façam uso e com os quais não se confundem, somente poderão ser feitos por brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou por pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras, nas quais ao menos 70% do capital total e do capital votante deverão pertencer, direta ou indiretamente, a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos”. Diz ainda que a gestão das atividades empresariais, a responsabilidade editorial e as atividades de seleção e direção de programação são privativas do sócio ou grupo de sócios controladores brasileiros. E mais: no caso da TV por assinatura, a vedação proposta se aplica à programação e ao provimento de qualquer cconteudo

A seu ver, o anteprojeto do MinC contém elementos que podem sugerir uma restrição à liberdade de expressão?

RF Não tenho a menor dúvida. É inaceitável que se coloque sob a responsabilidade de uma única agência (cuja diretoria, composta de cinco membros, decide por maioria simples e sem direito a recursos a outras instâncias) tudo T e l a

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GM Admitir essa idéia depois que o projeto foi submetido a várias consultas e principalmente após as alterações feitas pelo Conselho Superior de Cinema é imaginar que pelo menos os membros do CSC estão coniventes com alguma trama autoritária. A verdade é que o anteprojeto abrange setores que até hoje defendem a liberalização do mercado nos segmentos que eles dominam, e por isso consideram absurda qualquer mudança nesse estado de coisas. No entanto, eles mesmos pregam a regulação dos segmentos que ainda não conseguiram controlar.

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Que mecanismos podem ser adotados para garantir uma presença maior do filme nacional nas telas brasileiras, além dos já existentes?

RF Essa discussão é boa. Em primeiro lugar, hoje em dia é preciso discutir o que é filme nacional. Na medida em que as •

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( capa) veiculado, seja nacional ou estrangeiro. O é complicado estabelecer limites, “mas os projeto tem itens absurdos. Por exemplo, radiodifusores precisam ser preservados”. diz que “é vedado o acesso à Internet senão através de empresa de provimento de acesso * Colaborou Samuel Possebon que preencha as exigências do Art. 2º desta lei e seus parágrafos”. A Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) já manifestou seu apoio à PEC do senador Maguito Vilela. No entendimento dos radiodifusores, essa é uma forma de ajustar a relação desigual que existe entre exploradores de serviços de telecomunicações e radiodifusores. A associação admite que se trata de uma postura corporativista, mas é o que se pode fazer em um ambiente em que “as teles têm tudo e as emissoras de TV, nada”, nas palavras do consultor jurídico da associação, Alexandre Jobim, reforçando posição defendida pelo presidente da Abert, José Inácio Pizani. A Abert entende que seja necessário estabelecer limites para a exploração de conteúdo por empresas estrangeiras em qualquer meio. “É uma forma de preservar o interesse e o conteúdo limite à exploração de conteúdos pelas nacional”, diz Pizani. A associação reconhece que, com teles é forma de preservar a cultura a convergência tecnológica, nacional, diz a abert.

tecnologias se aproximam, já não faz sentido falar da diferença entre filme, vídeo, gravação digital ou chips que armazenam imagens. Essas imagens são elaboradas conforme as exigências do meio a que se destinam. A televisão brasileira é a maior produtora de dramaturgia do mundo. A publicação do Guiness (Book of World Records) 2005 é um belo exemplo deste fato. Além de julgar que seria inconstitucional, não vejo nenhum sentindo em se obrigar a televisão a exibir produtos que violem a liberdade das emissoras de programar os produtos que elas julguem ser o melhor para atender às demandas da audiência. A produção audiovisual brasileira feita pela televisão tem qualidade reconhecida nacional e internacionalmente, não podendo ser enfraquecida, porque isto prejudicaria não só as TVs, mas também os profissionais do audiovisual e toda a sociedade brasileira. Quanto aos filmes, os bons profissionais não têm dificuldade em colocá-los na televisão, até porque elas precisam desses produtos.

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GM Uma resposta completa exigiria várias laudas. Em resumo, é necessário haver regras legais que permitam que o filme brasileiro tenha acesso significativo às telonas, telinhas e teles, caso contrário ele será mais uma vez expulso do seu próprio território. Vide o que aconteceu em 1990, quando a atividade foi reduzida a zero. Os mecanismos podem ser a cota de tela em outros segmentos, a viabilização de entendimentos a partir da definição de uma porcentagem mínima de espaço para a produção independente ou o incentivo às co-produções com a televisão, por exemplo. É também fundamental desenvolver programas para a ampliação do mercado e do sistema nacional de distribuição. Além disso, seria muito interessante que os setores mais resistentes pudessem entender o absurdo que é discriminar o filme brasileiro nas telas brasileiras.

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por Fernando Lauterjung*

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BNDES abre as portas para o cinema

Financiamento para aumentar o número de salas e reformar as já existentes deverá totalizar R$ 100 milhões em 2005.

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Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura lançaram no início de novembro um conjunto de condições diferenciadas para financiar a expansão e a recuperação das salas de cinema no Brasil. Já no lançamento, Ricardo Difini, presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras de Cinema (Feneec), anunciou que as empresas de exibição devem solicitar aproximadamente R$ 100 milhões em empréstimos diretamente ao BNDES em 2005. Segundo o assessor especial da Secretaria do Audiovisual, Mário Diamante, para desenvolver a linha

de apoio foram feitos estudos das linhas de crédito do BNDES, como o BNDES automático, e de todo o setor de exibição, levantando o número de telas, o público e a bilheteria arrecadada por cidade e por estado. Após várias concessões do banco quanto à sua política, foi possível chegar a um projeto final. Esse trabalho levou apenas três meses. “Alguns exibidores não acreditaram que as reuniões que tivemos para discutir o setor e as linhas de crédito tiveram resultado em tão pouco tempo”, empolga-se o assessor da SAV. Para garantir que a política de financiamento na exibição não seja momentânea, ela foi integrada às políticas operacionais do banco e o segmento de exibição de filmes foi incluído entre os setores prioritários para apoio com recursos do BNDES. Assim, o setor exibidor não terá limites orçamentários 22

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e fará parte de uma seleta lista de setores privilegiados, juntamente com a área da infra-estrutura (rodovias, ferrovias, terminais portuários, geração e transmissão de energia, petróleo, gás), da indústria, comércio e serviços (bens de capital, automação industrial, fármacos, software) e da área social (meio ambiente, educação, saúde, agricultura familiar). Concessões Nas análises realizadas, a primeira conclusão foi que a intermediação de outros bancos, com seus altos spreads (margem cobrada sobre a taxa de juros básica), inviabilizaria os empréstimos, principalmente por parte de pequenas e médias empresas. Assim, o BNDES fez sua

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primeira concessão para o setor de exibição. Isso porque o valor mínimo para pedidos de financiamento nesse programa será de R$ 1 milhão, enquanto para os outros setores da economia é de R$ 10 milhões. Os empréstimos menores que R$ 1 milhão ainda terão que ser feitos através de bancos credenciados pelo BNDES. A expectativa é que essa iniciativa facilite o acesso aos recursos do banco, estimulando principalmente os pequenos e médios empresários do setor. Entre as condições especiais que o setor terá por ser considerado estratégico está a extensão do prazo de carência dos financiamentos para até 12 meses após a implantação do projeto, o que permite ao exibidor um prazo maior para alcançar a curva de equilíbrio do investimento. A taxa de juros em operações diretas poderá variar do mínimo de 1% ao máximo de 4% ao ano, acrescido da TJLP, conforme o porte e a localização da empresa financiada. Além disso, o BNDES poderá, em caráter excepcional, financiar a aquisição de equipamentos importados, quando não houver produtos similares brasileiros. Também poderá ser financiada a reforma e modernização de equipamentos em uso. Tratase de uma concessão significativa na política do banco, que jamais financia equipamentos importados. Os importados representam cerca de 35% do custo de implantação de uma sala de cinema. É importante destacar que os empréstimos serão analisados caso

a exibição no brasil Segundo dados compilados pelo Filme B Brasil chegou a ter mais de 3,2 mil salas de cinema, em 1975, número que caiu vertiginosamente chegando a 1,3 mil em 1995. O crescimento só se mostrou expressivo já na virada do milênio, chegando às cerca de 1,9 mil salas existentes hoje. O número de salas, obviamente se reverte no número de público. Em 75, o público total de cinema no País foi de 275.380.446, contra 85 mil em 95 e 102.958.314 em 2003. Mesmo com o crescimento, o País ainda mostra uma distorção na distribuição das salas. O Estado de São Paulo concentrava em 2003 cerca de 1/3 das salas de todo o País, enquanto oito estados tinham no máximo dez salas de

cinema cada um. Nas capitais, no último ano, enquanto Porto Alegre tinha 21.945 habitantes por salas de cinema, Palmas tinha 137.355 por sala (uma única). Outro fator importante no mercado exibidor é o número de salas por complexo. Enquanto no passado a maioria dos cinemas contava com uma ou duas salas, hoje os multiplex (complexos com seis ou mais salas) representam uma grande fatia do mercado. Mesmo complexos menores, tendem a ter pelo menos quatro salas. Quanto maior o número de salas, maior o número de filmes em exibição simultaneamente e, conseqüentemente, maior o público potencial daquele complexo.

condições para a instalação de salas de cinema em localidades com população de baixo poder aquisitivo. “Nestas áreas, atingir a curva de equilíbrio do investimento é mais demorado, portanto os prazos para pagamento serão maiores”, explica Diamante. O investimento máximo do banco em cada projeto pode ser de 65% até 90% do valor total. Isso porque empresas médias e pequenas poderão receber proporções maiores do total investido. Projetos em regiões incentivadas também deverão receber investimentos maiores do banco. “Qualquer empresa exibidora poderá ter investimento do BNDES de 65% do valor do projeto. A partir daí, depende do projeto, da localidade e da empresa”, diz Diamante.

programa. Serão cerca de 350 a 400 novas salas por ano”. Partindo desta previsão, o número de salas no País deverá dobrar em cerca de seis anos (hoje há pouco mais de 1,9 mil salas). No lançamento do projeto, Adriana Rattes, sócia-diretora do Grupo Estação, afirmou que a empresa tem planos de investir R$ 60 milhões nos próximos quatro anos para a construção de 40 novas salas nas principais capitais do País. “Pretendemos pedir ao BNDES o financiamento de até um terço desse total”, informou. Atualmente, a companhia administra 22 salas no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Já neste mês de dezembro, o BNDES e a SAV fizeram uma reunião com exibidores, para explicar a linha de crédito criada para o setor. Esperavase pouco mais de 30 pessoas, mas compareceram cerca de 80. Tanto para o MinC quanto para o BNDES, o investimento no setor de exibição representa um fomento a todo o audiovisual. Ambos defendem que a exibição é a janela nobre do audiovisual e que tem repercussão nas janelas conseqüentes. “O investimento na exibição reverberará positivamente em toda cadeia produtiva”, diz Diamante.

Crescimento Como se dará o crescimento do número de salas daqui para frente ainda é uma dúvida, mas as previsões são otimistas. O assessor especial da

Exibidores prevêem que os investimentos do banco dobrem a velocidade do crescimento do número de salas no país. a caso. Além da extensão do prazo da carência do empréstimo, o prazo para o pagamento da dívida deverá variar. Estas alterações possibilitam a ampliação e desconcentração dos pontos de exibição, ao criar

Secretaria do Audiovisual aposta que a ação deverá dobrar a velocidade do crescimento do setor. O mesmo defende Difini: “Atualmente, há um aumento de 8% ao ano no número de salas. Acredito que esse percentual subirá para 16%, graças ao T e l a

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* Colaborou Fernando Paiva

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( publicidade )

por Lizandra de Almeida

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Cinema, uma mídia em crescimento

A abertura de mais salas garante o crescimento da publicidade no cinema. Com o aperfeiçoamento da exibição digital, esse veículo deve ganhar um novo impulso.

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exibição de filmes publicitários antes dos longas-metragens no cinema começou, no Brasil, na década de 60. Desde então, esse mercado teve seus altos e baixos, mas tudo indica que as novas tecnologias de exibição digitais, o aumento na quantidade de salas de exibição e a consolidação do cinema nacional darão um impulso nas receitas de exibidores e empresas que comercializam espaços publicitários nas salas de cinema. Atualmente, a maioria dos circuitos exibe a publicidade em película. Poucos ainda mantêm projetores de vídeo, que foram as vedetes da década de 80 — barateando custos e ampliando o espectro de anunciantes —,

porque a qualidade deixa a desejar e os processos de transferência de vídeo para película se tornaram de melhor qualidade. Os custos de transferência e copiagem, porém, ainda não são viáveis para pequenos anunciantes e esse fator muitas vezes restringe a quantidade de salas a ser atingida. Pensando em tornar essa mídia mais atraente, a Rain Networks está investindo em sistemas digitais de exibição. A empresa comercializa inserções publicitárias em película nas salas que administra, mas já instalou projetores em 46 salas, que exibem os comerciais em alta resolução, com qualidade que não fica a dever para a película. Além de baratear os custos por eliminar o processo de transferência e as cópias em 35 mm e de melhorar a qualidade em relação ao vídeo, a projeção digital também favorece 24

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a programação de mídia. Como tudo é transferido digitalmente a partir de uma central, não existe mídia física: os filmes são enviados a cada sala no momento de sua exibição, via satélite ou fibra óptica. Com isso, é possível programar sessões individualmente, personalizando as inserções e desenvolvendo ações mais focadas. A qualidade também é mantida: como os arquivos são virtuais, não há desgaste de cópias. De forma geral, as agências de publicidade consideram o cinema uma mídia diferenciada, com tendência a privilegiar o público jovem. Como a programação das salas é fechada semanalmente, as agências também costumam programar a exibição por semana, levando em conta a sala em si, sua localização

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as finalizadoras e laboratórios para chegar a um transfer de qualidade”, afirma Fernandes. A Promocine, a mais antiga empresa vendedora de espaços publicitários no cinema, ligada ao Grupo Severiano Ribeiro, também nunca aderiu ao vídeo e hoje ainda trabalha principalmente com película. Mas foi a primeira a instalar projetores digitais de comerciais nos cinemas da rede — atualmente são 20 salas atendidas. A expectativa é a de chegar a 60, das 207 salas do circuito. “Nem todas são consideradas comercialmente viáveis”, explica André Porto Alegre, diretor da Promocine, “e a publicidade ainda se concentra no Rio, São Paulo e Brasília”. Para ele, de todo o circuito brasileiro — que inclui 1,9 mil salas, em 7% dos municípios do País —, apenas 300 são viáveis. E, mesmo assim, apenas 50% do espaço disponível é comercializado. “Esse é um setor que pode crescer muito e para nós é muito importante, pois tem margens altas”, continua. Roberto Nascimento, acredita, porém, que a flexibilidade também permitirá que se amplie o circuito com viabilidade comercial, pois mesmo salas menores em locais mais distantes poderão receber filmes locais. Nascimento afirma ainda que até a produção de filmes publicitários pode se tornar mais rápida, barata e criativa, e com foco exclusivo nessa mídia. Isso porque o projetor digital permite até mesmo a exibição de peças em Flash, formato de animação feito em computador.

“Não queremos anunciar ofertas nem descontos, prefiro filmes institucionais.”

foto: Gerson Gargalaka

e o filme em exibição. “Não existe nenhum tipo de mensuração dos resultados dessa mídia”, afirma Flávio Resende, diretor de mídia da DPZ. “Mas tendemos a pensar nos filmes para cinema de uma forma especial, com criações que privilegiem o humor e a elegância, para não incomodar o espectador”, completa. “Sabemos que o público de cinema também inclui formadores de opinião e pessoas antenadas, críticas.” A Rain Networks, porém, desenvolveu uma tabela de preços diferenciada, que leva em conta os horários de exibição. “Nossos pacotes de tarifas têm preços especiais para a parte da tarde, para as noites e para o final de semana, levando em consideração a quantidade de pessoas nas salas”, explica Roberto Nascimento, diretor da Rain. De acordo com ele, esse sistema também pode atrair dois grupos de anunciantes que até o momento não tinham a oportunidade de anunciar no cinema: as bebidas alcoólicas, que só podem anunciar a partir das 21h30 e que, com a flexibilidade do sistema da Rain, podem programar apenas essas sessões; e o varejo dos shopping centers onde as principais redes de cinema estão instaladas. “As pessoas que vão ao cinema no shopping já têm mais predisposição a consumir. Fica fácil criar promoções específicas para cada cinema”, acredita Nascimento. As possibilidades de exibição digital são múltiplas. Em caso de veiculação para um público específico, é possível utilizar os filtros do software Kinocast, utilizado pela Rain Networks. “São filtros de compra de mídia. Por exemplo, você pode querer associar seu comercial apenas ao filme ‘Olga’. Então ele vai entrar em todas as sessões desse filme. Ou selecionar por tema, como romance ou aventura. Então há uma préclassificação do filme e as inserções serão feitas por gênero”, explica Roberto Nascimento. Valmir Fernandes, diretor da rede Cinemark — que tem a maior

Valmir Fernandes, da Cinemark

quantidade de salas do Brasil — vê com certo ceticismo o que a Rain divulga como diferencial. No Cinemark, os comerciais são todos exibidos em película e Fernandes até considera a possibilidade de exibilos em digital, ciente da qualidade do formato. Mas a flexibilidade, para ele, é relativa. “Vejo essa facilidade de forma conservadora. No Cinemark, não queremos que essa seja uma mídia de varejo. Não queremos anunciar ofertas nem desconto, preferimos filmes institucionais, porque não queremos descaracterizar a mídia”, explica. “Sempre privilegiamos a qualidade e, quando chegamos ao Brasil, em 1997, nos recusamos a exibir propagandas em vídeo. Até trabalhamos em parceria com

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avanços tecnolÓgicos Tecnologia, espaços de exibição e produção nacional forte sempre foram fatores impulsionadores das vendas de publicidade no cinema. No início, os comerciais eram veiculados em película e durante um bom tempo esta era a única opção. Na década de 60, duas empresas atuavam no setor: Cinema Publicidades e Sétima. Com o barateamento dos sistemas de vídeo e a chegada do telecine e dos equipamentos de pós-produção, que permitiram a mudança do processo de finalização dos comerciais, surgiu também o telão para exibição de comerciais em cinema. Com uma projeção de qualidade duvidosa — sem dúvida muito inferior à dos filmes em 35 mm — essa técnica rivalizava apenas com a kinescopia, um processo de transfer primitivo, que voltava o vídeo para a película, mas também com baixa qualidade. O crescimento da produção cinematográfica brasileira e o aumento da quantidade de salas, além das reformas e da vinda de redes de alta qualidade, foram simultâneos à melhoria dos processos de transferência de vídeo para película. Por isso, o mercado atualmente privilegia a exibição de comerciais em 35 mm. A projeção digital, porém, promete revolucionar o setor.

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Projetos especiais Mas quem trabalha com mídia em cinema concorda que o formato ainda tem muito a ser explorado. “As •

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( publicidade) foto: Inês Corrêa/Divulgação

agências precisam condo Shopping Dom hecer melhor os cinemas e Pedro, em Campinas, seu público, da rede Severiano para tentar desenvolver Ribeiro, conseguiu ações específicas. Recenteuma façanha: 90% mente, de seus anunciantes começamos a distribuir são locais. Mas não se ingressos grátis para os trata de um varejão. O associados do Grupo de resultado faz parte de Mídia, para tentar estimular uma campanha proesse contato”, diz André movida pela bandeira Porto Alegre. “Mais do que Visa em todas as lojas popularizar essa mídia, do Shopping. Quem é temos interesse em discutir associado à Visa tem projetos especiais, porque “Nem todas as salas são direito de participar da o cinema permite ações CineShop comercialmente viáveis. campanha interativas de ponto Visa, um programa A publicidade ainda se de venda”, faz coro de ofertas produzido concentra no Rio, São Valmir Fernandes. especialmente para As próprias empresas exibição no local. Paulo e Brasília.” André Porto Alegre, da Promocine que comercializam espaços Para o verão estão se adiantando e vem 2004-2005, a Rain oferecendo aos clientes criou o projeto “Dicas formatos diferenciados. O Kinoplex de Verão”, que consiste na inserção de

slides com informações sobre como aproveitar a estação com uma alimentação adequada e proteção. O projeto prevê a venda de cotas de patrocínio. A empresa também tem interesse em ocupar os espaços com conteúdos que não necessariamente são filmes publicitários. É o caso de uma exposição de fotos realizada este ano, com imagens de grandes fotógrafos brasileiros. Na rede Severiano Ribeiro, a tecnologia digital aliada à Internet trouxe de volta os cinejornais, mas em tempo real. “Em parceria com o portal IG, lançamos o Último Segundo no Cinema, com a exibição de notícias online em 18 salas do circuito. Com quatro atualizações diárias, as notícias prendiam a atenção do público. Comprovamos assim que o espaço do cinema pode ser de informação além de entretenimento”, diz André Porto Alegre.


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( making of )

por Lizandra de Almeida

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Técnicas de animação e CG

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este tra­di­cio­nal filme de Natal, pro­du­zi­do para um shop­ping cen­ter de São Paulo, um anji­nho de dese­nho ani­ma­do per­cor­re o shop­ ping e inte­ra­ge com os clien­tes, reve­ lan­do a deco­ra­ção e mos­tran­do os íco­nes do Natal. “Optamos por fazer o anji­nho em ani­ma­ção con­ven­cio­ nal, 2D, por­que a idéia era dar uma cara ‘Disney’ para o per­so­na­gem. Então tra­ba­lha­mos dessa forma, desen­vol­ven­do o per­so­na­gem, e pro­du­zin­do um story board bem deta­lha­do”, expli­ca o dire­tor Wiland Pinsdorf. A ani­ma­ ção foi cria­da por Haroldo Guimarães Neto, cuja pro­ du­to­ra pres­ta ser­vi­ços para a Disney. O ani­ma­dor acom­ pa­nhou as fil­ma­gens para pla­ne­jar a apli­ca­ção do per­ so­na­gem. A cena mais com­pli­ca­da foi a que mos­tra um casal se bei­jan­ do. “É como se os ato­res fos­sem se bei­jar e o anji­nho entra no meio. Então eles pre­ci­sa­vam parar e bei­

jar na posi­ção exata para que o anji­nho fosse apli­ca­do no meio”, expli­ca Wiland. Em quase todas as cenas, o cui­da­do do dire­tor se con­cen­trou prin­ci­pal­men­te na coor­de­na­ção dessa gran­de quan­ti­da­ de de ele­men­tos. “Em uma das cenas, há dez crian­ças em um car­ros­sel e elas ace­nam para o anji­nho. Em outra, o anji­ nho sai do saco do Papai Noel e per­cor­re o cor­re­dor, com mais de 50 figu­ran­tes. Nesse caso, pen­sa­mos em colo­car um cabo para a câme­ra cor­rer, como se esti­ves­se sob a pers­pec­ti­va do anjo, mas ­depois deci­di­mos usar uma grua com rodi­ nhas de avião, que tam­bém foi usada para fil­mar a facha­da.”A equi­pe ainda con­tou com o apoio de Guilherme Steager, que desen­vol­veu uma tra­qui­ta­ na para simu­lar o anji­nho se mexen­do den­tro do saco do Papai Noel. “Era uma máqui­ na que se movi­men­ta­va. E ­depois com­ple­ta­mos e apli­ ca­mos ­alguns efei­tos na com­pu­ta­ção grá­fi­ca.”

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Na cena do beijo, o anjinho precisava entrar no local exato em que as bocas dos atores se encontravam. Animação foi toda feita em 2D tradicional, para dar uma aparência “Disney” ao personagem.

ficha técnica Cliente Produto Agência Dir. de criação Criação

Central Plaza Shopping Campanha de Natal Rae MP Mauro Kelm Mauro Kelm e Alberto Lima

Produtora Canvas 24p Filmes Direção Wiland Pinsdorf Fotografia Eduardo Ruiz Animação HGN / Haroldo Guimarães Neto Efeitos Guilherme Steager mecâ­ni­cos Montagem Wiland Pinsdorf Trilha Fabulosa (Felipe Vassão) Pós-pro­du­ção Canvas 24p Finalização Gustavo Gonçalves


Viagem através dos recortes

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nova cam­pa­nha dos celu­la­ res Motorola, tem vei­cu­la­ção em diver­sos paí­ses como Rússia, África do Sul e, de acor­do com o local, é pro­ta­go­ni­za­da por per­so­na­gens dife­ren­tes. O filme mos­tra tipos cari­ca­tos, can­tan­do o jin­ gle em cená­rios pro­du­zi­dos com fotos recor­ta­das que reme­tem a ­várias par­ tes do mundo. O filme exi­giu um cas­ ting de mais de 250 pes­soas e mais de mil fotos para com­por o cená­rio. A pro­ du­to­ra fil­mou em fundo verde todas as per­so­na­gens e defi­niu ele­men­tos da dire­ção de arte, como a pale­ta de cores e o esti­lo das ima­gens de fundo. O cas­ting exigiu pes­soas que sou­ bes­sem inter­pre­tar e tam­bém can­tar. A atua­ção sobre fundo verde ­incluía can­tar o jin­gle ao vivo, para cap­ta­ção de som dire­to. “Editamos todos os per­so­na­gens com o som, em sin­cro­ nia”, expli­ca Pepeu, da Casablanca, que diri­giu os efei­tos espe­ciais e a com­po­si­ção. Em rela­ção aos cená­rios, a orien­ ta­ção era que os fun­dos tives­sem um

Cenário livre

U

m bebê corre por todos os cômo­dos da casa, de cami­se­ ti­nha e fral­da, enquan­to uma ani­ma­ção repre­sen­ta um reló­gio cor­ren­do e a tri­lha brin­ca com o som “shhh”, como se o bebê esti­ves­se fazen­do xixi. A crian­ça brin­ca por toda a casa até que cai exaus­ta. E a fral­da agüen­tou firme a cor­re­ria do dia. O desa­fio do filme era dar toda a liber­da­de para a crian­ça cor­rer e brin­car pelo cená­rio, mas de forma que a câme­ ra pudes­se acom­pa­nhá-la. A pro­du­ção optou por cons­truir todo o cená­rio em estú­dio, repro­du­zin­do os cômo­dos de uma casa e deco­ran­do com uma série de brin­que­dos. Todos os cômo­dos eram aber­tos, de modo que a câme­ra podia pas­sear e mudar de ambien­te,

cará­ter mul­ti­cul­tu­ral, glo­bal, mas sem reve­lar exa­ta­men­te os luga­res. “Não podía­mos carac­te­ri­zar ­nenhum lugar, nem havia verba para sair para fil­mar ou foto­gra­far. Então tra­ba­lha­mos com peda­ços de fotos de direi­tos ­livres esco­ lhi­das na Internet e até fotos casei­ras, das ­minhas ­férias”, diz Pepeu. Em ­alguns casos, as tex­tu­ras das fotos ser­vi­ram para a cons­tru­ção de ­outras ima­gens. Uma ponte, por exem­plo, é total­men­te vir­tual: foi cons­truí­da com ele­men­tos de ima­gens de ­outras pon­tes. Tendo todos os per­so­na­gens e todos os fun­dos em mãos, expli­ca o assis­ten­te de dire­ção Felipe Alonso, a com­po­si­ção foi orien­ta­da por cada um dos paí­ses, salien­tan­do mais um ou

outro tipo étni­co. No fim, foram pro­ du­zi­dos dez fil­mes, todos eles com os mes­mos cená­rios e modi­fi­ca­ções na tri­lha e nos per­so­na­gens.

sem­pre acom­pa­nhan­do os pas­si­nhos da crian­ça. “Em uma casa nor­mal, a câme­ra não con­se­gui­ria se movi­men­tar com a rapi­dez neces­sá­ria”, expli­ca Regina Madeira, dire­to­ra da conta. Com pla­nos mais fecha­dos e sem­pre na altu­ra da crian­ça, o filme mos­tra inclu­si­

ve a crian­ça inte­ra­gin­do com um cão labra­dor, com toda a inti­mi­da­de. Até que ador­me­ce no colo de um grande bicho de pelúcia estra­te­gi­ca­men­te colo­ca­do no chão.

ficha técnica Cliente Motorola Produto Institucional Agência Ogilvy Brasil Comunicação Dir. de criação Adriana Cury, Ana Quarto e Danilo Janjacomo Criação Rui Branquinho e Celso Alfieri Produção Film Planet Direção Flavia Moraes Fotografia Flavio Kodato Pós-produção Casablanca

ficha técnica Cliente Produto Agência Dir. de criação

Procter & Gamble Fraldas Pampers F/Nazca Saatchi&Saatchi Fábio Fernandes e Eduardo Lima

Criação

Fábio Fernandes, André Kassu e Marco Monteiro

Produção Cia. de Cinema Direção Claudio Borrelli Fotografia Ted Abel Montagem Marcelo Cavalieri Trilha Estúdio Tesis (Silvio Piesco) Pós-pro­du­ção Casablanca

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( artigo )

Marcos Alberto Sant’anna Bitelli*

m a r c o s . b i t e l l i @ b i t e l l i . c o m . b r

foto: arquivo

O modismo regulatório e as comunicações

* Marcos Alberto Sant’anna Bitelli é sócio do escritório Bitelli Advogados.

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Brasil precisou de mais de 500 anos de vida para experimentar uma condução política mais inspirada em valores sociais. Por vários anos a sociedade vem lutando contra o cerceamento das liberdades e direitos fundamentais dos cidadãos. A Constituição Federal de 1988 foi uma importante alavanca para se atingir o ápice deste ciclo, e o processo de democratização finalizou esta importante conquista. Paradoxalmente, sob a condução política mais à esquerda, toma conta do cenário nacional o questionamento sobre a “regulação” da comunicação e também do seu principal conteúdo, o audiovisual. O direito de informar e ser informado é um dos pilares da reconquista das liberdades democráticas garantidas no texto constitucional, tanto é que este proíbe a formulação pelo Congresso Nacional de qualquer lei que vise a embaraçar a informação jornalística. Todavia, estes direitos não se resumem ao acesso ao conteúdo dos noticiários, jornais e periódicos. Extrapolam-se para a acessibilidade a conteúdos informativos em sentido amplo, tais como a clareza das embalagens de produtos, bulas de remédios, ofertas publicitárias, bancos de dados privados e públicos, os livros, as obras musicais, as obras audiovisuais, respeitados os limites impostos - exclusivamente - pela própria Constituição, geralmente vinculados à proteção da honra, intimidade, privacidade, direitos de autores, a proteção da infância e da adolescência, bem como da família. Tudo isto é muito elementar não fosse a torrencial intenção de se estabelecer de atuações “regulatórias” do Estado •

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sobre os conteúdos audiovisuais, sem a devida atenção à legalidade estrita. Fala-se em “regular”, “marco regulatório” e “regulação”, sem que se tenha a adequada atenção ao significado dos termos. Legislar, regulamentar e regular Faz-se necessário conceituar alguns temas. O primeiro dele diz respeito a legislar. A função legislativa é delegada pela sociedade à sua representação política no Congresso Nacional. Ao fazer uma lei, o Poder Legislativo elege um fato social como relevante e o transforma em norma. A norma sempre definirá uma situação que “deve ser”, classificando a conduta como “proibida, permitida ou obrigatória”. Nem tudo precisa ser objeto de legislação e só a lei inova, cria ou modifica direitos e obrigações. Quando a sociedade decide legislar sobre alguma coisa não está “regulando” algo, mas sim “legislando” sobre algo. O segundo termo seria “regulamentar”. O poder regulamentar outorgado ao presidente da República diz respeito a uma função administrativa. Quem regulamenta não pode criar novidade, ampliar, alterar ou modificar o que a lei criou. O regulamento traduz para a sociedade de forma detalhada e materialmente exeqüível o que a lei, normalmente abstrata, prevê. Finalmente, a “regulação” - que difere de regulamentação e legislação - é uma diversa atividade do Estado, relacionada à


intervenção no domínio econômico. Normalmente a “regulação” é usada para serviços públicos e essenciais. O “marco regulatório”, longe de ser uma legislação livre sobre um determinado setor econômico, deve, isto sim, traduzir para este setor a aplicação firme dos princípios constitucionais. Ocorre que os Estados mais modernos, e o Brasil também, têm optado pelo sistema de agências reguladoras para exercer as novas funções estatais, mais ligadas à orientação determinante no setor público e indicativa para o privado, do que a antiga atuação direta do executivo nestas atividades. Regular a partir do conteúdo: erro estratégico Aqui reside o ponto fundamental da análise proposta. O setor de comunicação brasileiro não é sujeito ao controle estatal, apenas a radiodifusão, que é veículo e produtor de conteúdo ao mesmo tempo, o é, e sujeita constitucionalmente a regime próprio de outorgas. O setor de telecomunicação tem o controe estatal sujeito a uma agência reguladora, a Anatel, conforme programou a Constituição, e por sua vez não é produtor de conteúdo. Os setores que produzem, distribuem e exibem conteúdos audiovisuais não são sujeitos a concessões, privados que são por excelência. A radiodifusão de sons e imagens tem uma característica especial: é rede de comunicação e, portanto, infra-estrutura; ao mesmo tempo é produtora de conteúdo próprio e difusora de conteúdo independente. Ocupa, portanto, a posição das outras duas situações - da telecomunicação e do audiovisual. Estas três situações tão diversas por iniciativa do Estado estão sendo objeto de iniciativa “legislativa” convergente visando a regulação a partir do conteúdo - o audiovisual. Contudo, a sociedade não tem se mostrado interessada em “legislar” sobre conteúdo “audiovisual” com viés “regulatório”, prova é que a criação da Ancine, em 2001, ocorreu por medida

provisória jamais votada, e a proposta da Ancinav advém de iniciativa do novo governo. O Executivo tem “regulamentado” indevidamente alguns temas do audiovisual, inovando sobre a “legislação” até que consiga obter uma que o autorize a “regulamentar” a circulação destes conteúdos pelos sistemas de comunicação privada, radiodifusão e telecomunicação, a partir da linguagem do movimento cinético. Erra, contudo, ao estabelecer o viés de proteção da cultura nacional e a linguagem de conteúdo (audiovisual) como os pontos de partida da “regulação”. Isto porque: 1) A produção, distribuição e exibição audiovisual, enquanto atividade econômica, é essencialmente

Portanto não é a partir da “regulação” do audiovisual que se poderá dar concretude ao Art. 221. A própria questão da “regionalização” é tema que escapa da seara do audiovisual. 4) O laço em busca dos agentes de telecomunicação escapa também da questão “audiovisual” e invade o buraco negro constitucional da dicotomia radiodifusãotelecomunicação criada em 1988. 5) O controle da concentração econômica, da concorrência, da propriedade cruzada e da verticalização dos meios de comunicação privada, pública e telecomunicações se viabilizará através dos órgãos de proteção da concorrência existentes, sob o aspecto econômico, e de uma nova “legislação”

o executivo erra ao estabelecer o viÉS DE PROTEÇÃO DA CULTURA NACIONAL COMO O PONTO DE PARTIDA DA REGULAÇão. privada e, portanto, limitadora da atividade do Estado à função indicativa. 2) A produção de obra audiovisual, em que pese poder ser considerada como fonte de cultura nacional, não se constituirá necessariamente em patrimônio cultural brasileiro. Quem decidirá se um produto audiovisual contemporâneo integrará o patrimônio cultural brasileiro é a sociedade brasileira. A criação é ato presente, a proteção é ato do futuro que se volta para o passado relevante. A linguagem audiovisual pode propiciar lazer, entretenimento ou manifestação cultural, efeitos não necessariamente simultâneos. 3) A “regulação” da produção e programação da radiodifusão independe de se estabelecer o novíssimo “marco re-regulatório”, a “lei geral” ou a “revolução estratégica” proposta pelo governo para o “audiovisual”. Basta que se cumpra o Art. 221. No seu cumprimento, contudo, não pode o Estado agir com dirigismo ideológico, cultural ou científico.

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que tenha como suporte um novo contorno constitucional, sob o aspecto de comunicação social. Portanto, longe de se poder aqui sugerir o que e como regular nestes setores, se pode e se deve alertar que o Estado brasileiro contemporâneo está agindo de forma equivocada ao assumir uma postura paternalista, condutora, substitutiva da vontade da sociedade brasileira, no sentido de querer dizer a ela tudo o que está por se fazer, o que precisa ser feito e o que está errado no “direito de comunicação”, a partir da proteção dos “valores culturais nacionais”. Ainda que vários diagnósticos pontuais possam ser corretos, aqui ou acolá, o tratamento em bloco é equivocado, podendo levar o paciente ao coma, à imobilidade ou à falência de alguns órgãos. Nestes casos, muitas vezes para que não se cause um efeito colateral indesejado, a sociedade pode acabar por não prestigiar o médico, substituindo-o na primeira oportunidade legítima. 31


( carreira)

Audição seletiva Ter um ouvido perfeito não é a principal prerrogativa para se tornar técnico de som direto. Mas ter jogo de cintura, pique e bom senso é imprescindível.

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ara ser técnico de som direto, só não pode ser surdo. Mas é até desejável que se seja um pouco.” A afirmação de Bié Gomes, um dos mais reconhecidos técnicos brasileiros de som direto, não é brincadeira. Ele insiste: “Quem tem um ouvido muito bom ouve mais do que os outros. Com isso, acha que tudo atrapalha e acaba fazendo drama, prejudicando a filmagem, sendo chato — na opinião dos outros profissionais. O bom técnico sabe estabelecer um equilíbrio entre o sinal e o barulho.” Atividade fundamental tanto na área de publicidade quanto no cinema de documentário e ficção, a captação de som simultânea à filmagem tem como finalidade registrar os diálogos e o som ambiente, que podem servir para dois propósitos: ou para serem usados realmente como áudio do filme ou para servir de guia. De acordo com o produto e a mídia finais, mais responsabilidade pesa sobre os ombros do técnico de som direto. E além da responsabilidade, há todo o equipamento: em geral, o técnico carrega o gravador e o mixer, isso quando também não faz o trabalho de microfonista, carregando o boom — aquele suporte comprido no qual o microfone é acoplado. Os técnicos mais experientes costumam ter seu próprio equipamento. Um kit básico inclui o gravador, o mixer, um bom fone de ouvido e um kit de microfones, que inclui um microfone direcional, um hipercardióide, um dinâmico, dois de lapela com fio, dois sem fio e o boom. Mas dependendo da filmagem, um microfone basta.

“Mais importante do que ter vários tipos é saber usá-los e, principalmente, saber posicioná-los. Ter um microfonista bem treinado é até mais importante do que ter um supergravador. Porque o gravador só registra o som, é como uma tela em branco. É preciso colocar o microfone de forma que capte bem o som sem aparecer em quadro nem em reflexos”, avalia Bié. A equipe de som costuma ser formada, portanto, pelo técnico que responde pelo monitoramento da gravação e pelo microfonista. Em alguns longas-metragens, são necessários até dois assistentes e o gravador precisa ter time code, para facilitar a sincronia na montagem. 32

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Os cuidados da ficção O trabalho mais complicado, sem dúvida, é o longa-metragem de ficção. Um dos motivos, segundo Bié, é que no Brasil a maioria das produtoras faz questão de aproveitar o som direto, evitando a dublagem de diálogos. Mas as condições de trabalho oferecidas para a captação de som em geral prejudicam sua qualidade. “Sempre falo que no Brasil há muito poucos estúdios blimpados. A maioria dos estúdios não passa de um galpão adaptado. Não precisamos nem nos preocupar quando passa um avião porque ele não prejudica só o som: faz tremer até a câmera”, brinca. E se um problema prejudica a captação da imagem, então passa a ser levado a sério pela produção. “A gente tem que saber que o som é a única etapa que pode ser totalmente produzida depois da filmagem. Quando as imagens foram captadas, não dá pra mudar luz, nem figurino, não tem mágica. Mas o som pode ser totalmente construído”, afirma. É por isso que nos Estados Unidos, continua, cerca de 70% dos diálogos são dublados. “Lá eles preferem tratar o som separado da imagem e, em geral, o som direto serve apenas de guia. Em algumas situações, especialmente em planos muito abertos e ao ar livre, sabemos que o nível de ruído é alto e que, para que o diálogo seja compreendido, é preciso fazer o ator gritar. Então eles deixam para lá, o ator fala normalmente e depois é feita a dublagem”, explica. Segundo Gabriela Cunha, representante da nova geração de técnicos de som direto — e uma das

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( carreira) poucas mulheres na atividade —, os cuidados para captar o som direto. Então temos que com a pós-produção de som nos Estados conversar com o produtor e tentar prever Unidos são incomparáveis, inclusive em os problemas para ganhar tempo”, continua relação a outros países. “Na Inglaterra e na Gabriela. França também não há muita dublagem. Mas principalmente nos filmes típicos Tecnologia em evolução americanos, que são muito barulhentos, não Sempre a reboque das imagens, em há outro jeito. Então eles desenvolveram uma termos de tecnologia a evolução da área de técnica apurada, que consegue recriar todos áudio também acompanha o que a indústria os ruídos de forma realista.” estabelece como padrão para o vídeo. Para Bié, no Brasil existe um certo “medo” Atualmente, o padrão do mercado de captação de dublagem, por vários motivos: custos de de som são os gravadores DAT, com sistema estúdio e de cachê dos atores, dificuldade de de gravação digital em fita magnética. Mais agenda e até mesmo inexperiência: a pequena leves e compactos e com uma mídia menor do quantidade de longas produzidos faz com que os tradicionais gravadores de rolo Nagra, a que os atores não tenham prática. “Aqui no qualidade dos DAT sempre foi questionada. “A Brasil no máximo 20% do filme é dublado, fita é muito ruim, o DAT já resistiu mais do que mas acho que no mínimo 50% precisaria devia”, acredita Gabriela. ser dublado para que o resultado final ficasse bom. Parece que estou dando um tiro no pé ao falar isso, afinal é o meu trabalho, mas temos que fazer o som guia de qualquer forma. É uma questão de qualidade. O cinema em geral não tem música Aos poucos, a tendência é substituir ao mesmo tempo a fita DAT (acima) por gravadores em que o diálogo, e com disco rígico interno. é fundamental que o espectador consiga ouvir o que o personagem Agora, começam a chegar ao mercado os está dizendo. São planos mais longos, mais primeiros equipamentos com gravação em abertos”, comenta. disco rígido. Um dos modelos disponíveis é Para Gabriela, os documentários fabricado pela própria Nagra, indústria francesa não exigem um rigor tão grande. “No especializada em gravadores profissionais, documentário a imagem muitas vezes tem mantendo sua qualidade e facilitando muito menos importância do que o som. Então o a vida dos técnicos. “A transcrição das fitas microfone até pode aparecer. O importante magnéticas acontece em tempo real, ou seja, é não perder nada dos depoimentos, se você tiver 40 horas de gravação, vai levar 40 mesmo que haja ruído. Entendendo o que a horas para descarregar no sistema de edição pessoa fala, está valendo.” não-linear. Com a gravação em disco rígido, Até mesmo a participação do técnico é um arquivo é transferido em poucos minutos”, diferente em filmes e outros formatos. “Em explica ela. publicidade, às vezes a produção me liga à O custo do equipamento depende de noite para filmar no dia seguinte. Não tem sua complexidade e da quantidade de preparação alguma. Então a gente leva todo o dados que consegue armazenar. Alguns equipamento que pode, para não faltar nada modelos têm até quatro pistas de gravação. na hora”, diz Gabriela. Em geral, trabalham com discos de 40 Gb A preparação para o filme de ficção a 80 Gb e saída firewire. “Conseguimos começa na leitura do roteiro. Depois são gravar um longa inteiro em um disco de feitas reuniões de produção e visitas 60 Gb, com uma ou duas pistas de som. a locações. “Somos consultados pelo São oito semanas de trabalho que podem produtor para saber se dá para filmar ser transcritas em meia hora”, comemora. nesta ou naquela locação. É muito tempo Os preços, porém, ainda não são muito de filmagem, então não dá para correr o convidativos: a maioria dos modelos varia risco. Muitas vezes não é só a locação: tem entre US$ 9 mil e US$ 15 mil. figurino que faz tanto barulho que não dá T e l a

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( upgrade )

O fim da migração Avid lança novas versões de seus produtos low-end e passa a ser totalmente HD, em todas as linhas de produtos.

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Avid deve começar a distribuir ainda neste mês de dezembro dois novos equipamentos para produção em alta definição. O primeiro é o Media Composer Adrenaline HD 2.0, o primeiro da linha de software Adrenaline a trabalhar em alta definição. Além disso, a Avid lançará a placa Avid DNxcel HD, que traz algumas novas funcionalidades, como suporte a várias resoluções e formatos, inclusive o formato 10-bit Avid DNxHD. Trata-se de formato que trabalha com material 10-bit HD em tempo real em ambientes colaborativos. O Media Composer Adrenaline HD permite ainda trabalhar em tempo real com multicâmera em SD e HD, e também a misturar formatos HD, SD e DV, e diferentes resoluções na mesma timeline. Além disso, o material editado no formato 10-bit Avid DNxHD tem preview em tempo real em monitores HD. O equipamento permite ainda capturar e dar saída de sinal em qualquer formato através de uma porta HD-SDI. É possível ainda fazer um downconvert para SD em formato letterbox, anamórfico ou ainda “cropar” a imagem central. A

nova versão suporta os formatos HD 720p/59.94, 1080p/23.976, 1080p/25, 1080i/50, e 1080i/59.94, sendo que, em um upgrade previsto no próximo ano, poderá suportar ainda 720p/23.976, 1080p/24, 720p/50, e 720p/29.97. A nova versão traz ainda uma saída DVI, para monitores HD de menor custo, captura e dá saída em DVCPRO HD e DVCPRO 50 através de porta IEEE-1394, pode fazer correções RGB offline de arquivos do Avid DS Nitris, conta com o chroma keyer SpectraMatte 16-bit HD/SD e a nova arquitetura para efeitos AVX 2.0. O equipamento será lançado nos EUA por US$ 25 mil e a placa opcional Avid DNxcel custará US$ 9,995 mil. O equipamento será lançado, a princípio, para a plataforma Windows XP, sendo que a versão para a plataforma Mac está planejada para 2005. HDV O outro equipamento que deverá ser lançado pela Avid é o Xpress Pro HD, a primeira solução HD não-linear portátil da empresa. O equipamento suporta a aquisição e edição de material em DVCPRO HD; edição e renderização em Avid DNxHD, e edição multicâmera em tempo real. Além disso, um dos destaques do novo software é o suporte ao formato HDV, o que será disponibilizado em um update gratuito em meados de 2005.

Media Composer Adrenaline HD 2.0, com placa opcional que permite preview de vídeo HD em tempo real.

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O Avid Xpress Pro HD trabalha com vários formatos HD e terá upgrade para suportar HDV em 2005.

Entre as novas funcionalidades estão a captura e saída em DV50 através da porta IEEE-1394, assim como conteúdo em 24p. Outra novidade é a possibilidade de total integração com outras soluções da empresa para edição e finalização. Assim, qualquer conteúdo capturado no Media Composer Adrenaline HD ou no DS Nitris em formato Avid DNxHD, pode ser transferido para o Avid Xpress Pro HD, através de uma rede local. Isso permite também que os usuários comecem um projeto em qualquer sistema Avid e continuem o trabalho na estação portátil, para depois reenviá-lo ao sistema original. O Avid Xpress Pro HD começa a ser distribuído ainda em dezembro por US$ 1,695 mil, para sistemas Windows. O upgrade para usuários do Avid Xpress Pro custará US$ 49,95. A versão para Mac está prevista para 2005.

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( agenda ) > JANEIRO

> março

18 a 23 Fipa — Festival Internacional de Programas Audiovisuais. Biarritz, França. Tel.: (33-1) 4489-9999. E-mail: info@fipa.tm.fr. Web: www.fipa.tm.fr.

30 e 31 III Tela Viva Móvel — Encontro dos Serviços e Entretenimento Wireless. ITM Expo, São Paulo, SP. Tel.: (11) 3214-3747. E-mail: info@convergeeventos.com.br. Web: www.convergeeventos.com.br.

20 Encerram-se as inscrições brasileiras para a décima edição do É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários. O festival acontece entre 29 de março a 10 de abril em São Paulo e no Rio de Janeiro. Uma seleção de títulos do festival participará da itinerância do festival por capitais brasileiras. As inscrições podem ser feitas através do website www.etudoverdade. com.br. 20 a 30 Sundance Film Festival. Park City, EUA. Tel.: (1-801) 924-0882. E-mail: festivalregistration@sundance.org. Web: www.sundance.org. 25 a 27 NATPE 2005. Hotel Mandalay Bay Resort, Las Vegas, EUA. Tel.: (1-310) 453-4440. E-mail: exhibit@natpe.org. Web: www.natpe.org.

> FEVEREIRO 10 a 20 Festival Internacional de Berlim. Berlim, Alemanha. Tel.: (49-30) 259-200. E-mail: info@berlinale.de. Web: www.berlinale.de.

> ABRIL 9 e 10 MipDoc. Palais des Festivals, Cannes, França. Tel: (33-1) 4190-4440. E-mail: stephanie.brisson@reedmidem.com. Web: www.mipcomjunior.com. 11 a 15 MipTV/Milia. Palais des Festivals, Cannes, França. Tel.: (33-1) 4190-4567. E-mail: karine.sarfati@reedmidem.com. Web: www.miptv.com. 16 a 21 NAB 2005. Las Vegas Convention Center, Las Vegas, EUA. Tel.: (1-800) 622-3976. E-mail: exhibit@nab.org. Web: www.nabshow.com.

> MAIO 4e5 VI Fórum Brasil de Programação e Produção. ITM Expo, São Paulo, SP. Tel.: (11) 3120-2351. E-mail: info@convergeeventos.com.br. Web: www.convergeeventos.com.br. 11 a 22 Festival de Cannes. Palais des Festivals,

Cannes, França. Tel.: (33-1) 5359-6100. E-mail: festival@festival-cannes.fr. Web: www.festival-cannes.org.

> junho Guarnicê de Cine-Vídeo. São Luís, MA. Tel.: (98) 3232-3901. E-mail: dac@ufma. br. Web: www.festivalguarnice.ufma.br. Cine Ceará - Festival Nacional de Cinema e Vídeo. Fortaleza, CE. Tel.: (85) 3288-7772/ 3288-7773 / 3288-7774. E-mail: festivalcineceara@ festivalcineceara.com.br. Web: www. festivalcineceara.com.br.

> julho 8 a 17 Anima Mundi - Festival Internacional de Cinema de Animação. Rio de Janeiro, RJ. Tel.: (21) 2543-8860 / 2541-7499. E-mail: info@animamundi.com.br. Web: www.animamundi.com.br. 20 a 24 Anima Mundi - Festival Internacional de Cinema de Animação. São Paulo, SP. Tel.: (21) 2543-8860 / 2541-7499. E-mail: info@animamundi.com.br. Web: www.animamundi.com.br.

> agosto 2a4 ABTA 2005. ITM-Expo, São Paulo, SP. Tel: (11) 3120-2351. E-mail: info@convergeeventos.com.br. Web: www.convergeeventos.com.br.


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Revista Tela Viva - 145 - dezembro 2004  
Revista Tela Viva - 145 - dezembro 2004  

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