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televisão, cinema e mídias eletrônicas

ano 13_#142_setembro2004

debate aberto

Gilberto Gil fala da Ancinav, das críticas, e explica seu projeto para a era da convergência

Produção O novo momento do cinema de animação no Brasil

Mercado Operadoras de celular investem em conteúdos de vídeo


N達o disponivel


(editorial ) por André Mermelstein

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Sandra Regina da Silva Fernando Lauterjung Edianez Parente e Lizandra de Almeida (Colaboradora) Carlos Eduardo Zanatta (Chefe da Sucursal) Clau­dia G.I.P. (Edi­ção de Arte) Carlos Edmur Cason (Projeto Gráfico, Arte) Rubens Jar­dim (Pro­du­ção Grá­fi­ca) Geral­do José Noguei­ra (Edi­to­ra­ção Ele­trô­ni­ca) Almir Lopes (Geren­te), Iva­ne­ti Longo (Assis­ten­te) Marcelo Pressi Claudia G.I.P. 0800 145022 das 9 às 19 horas de segunda a sexta-feira

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Tempo de mudanças

É

com muito orgulho que apresentamos aos leitores este novo projeto da revista TELA VIVA. Ao elaborá-lo, discutimos em várias reuniões a quem a revista deveria se dirigir, se deveríamos nos especializar mais em televisão aberta, ou tratar apenas de cinema, quem sabe falar só de tecnologia... No final, a conclusão foi de que deveríamos manter a amplitude de temas que sempre caracterizou a revista. Afinal, os fatos indicam que a convergência de conteúdos e plataformas está mesmo se tornando uma realidade. Como poderíamos falar de TV sem falar em cinema, em Internet? Por que abordar cada plataforma separadamente, se a tendência regulatória é de que se junte tudo sob o mesmo guarda-chuva legal? E o que dizer das multiprodutoras que vêm surgindo, empresas fortes, que entendem que é compatível e economicamente interessante produzir ao mesmo tempo cinema, publicidade, televisão, Internet, DVD, conteúdo para celular e o que mais aparecer? Esta postura já está evidenciada nesta edição. A começar pela entrevista exclusiva do ministro Gilberto Gil, concedida a nossa equipe de Brasília. O ministro comenta as críticas feitas ao projeto de regulamentação do audiovisual, e vai além, expondo sua visão sobre a era da convergência das comunicações e da concentração da mídia. A revista traz também matéria sobre o cinema de animação, o mercado de produção para telefonia celular e os lançamentos da Broadcast & Cable 2004, além de um artigo sobre o sistema brasileiro de TV digital terrestre. Não é mais possível à TV aberta ficar alheia ao que acontece com o cinema e a produção independente, e vice-versa. Igualmente, a TV por assinatura já percebeu que faz parte de um universo maior, que é o da produção e distribuição de conteúdo audiovisual. É isso, então, o que somos, e é assim que nos definimos: uma publicação voltada a todos os profissionais que produzem e distribuem conteúdo audiovisual, em todas as suas vertentes. E para garantir que estejamos sempre presentes junto a este público altamente qualificado, nossa circulação passa a ser auditada pelo IVC. É o nosso compromisso com o leitor e com o anunciante.

Foto de capa: Eugênio novaes

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(índice)

O ministro e o projeto

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Gilberto Gil fala sobre a Ancinav e explica como será o debate a partir de agora 24

scanner figuras produção As novas perspectivas para a animação nacional mercado Quem está produzindo para o celular making of artigo Ricardo Benetton explica a metodologia do SBTVD evento Os debates e as novidades da Broadcast & Cable 2004 upgrade agenda

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(cartas) A partir de outubro, esta seção será dedicada à publicação de comentários, observações, críticas e sugestões de nossos leitores. Escreva para TELA VIVA, queremos saber o que você faz e o que você pensa. Mande seu e-mail para cartas@telaviva.com.br.

Acompanhe as notícias mais recentes do mercado

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) Projeções otimistas

A Dalsa, fabricante da primeira câmera de cinema digital a trabalhar com CCDs de 35 mm, exibiu no Festival Internacional de Efeitos de Toronto, no Canadá, clipes do curta-metragem “Le Gant/The Glove”. Trata-se da primeira produção capturada com a câmera Origin. O filme foi captado simultaneamente com duas câmeras, posicionadas lado a lado, a digital e uma 35 mm. Assim, foi possível que os participantes do festival vissem a fidelidade da câmera, como latitude de exposição e fidelidade de cor. A câmera da Dalsa pode trabalhar com as lentes tradicionais de cinema, de 35 mm, e conta com viewfinder reflex. O equipamento conta com saída digital 4K e a maior latitude de exposição entre as câmeras de cinema digital.

Foto: Divulgação

Estréia do 35 mm digital

O mercado de comunicações deverá crescer 4,5% ao ano no Brasil, nos próximos cinco anos. A informação faz parte de um estudo apresentado pela consultoria Pyramid Research durante o seminário Satélites 2004, promovido pela Converge Eventos em São Paulo. Entre 2004 e 2009 os segmentos deste mercado que apresentarão maior crescimento devem ser os de Internet em banda larga e TV por assinatura, com índices de 22,5% e 9,4%, respec­tivamente. A expectativa é de que até 2009 o Brasil alcance 5 milhões de assinantes de banda larga, com mais de 80% dos acessos via ADSL. A telefonia móvel deverá crescer 6,6% no período, com a penetração passando de 35% em 2004 para 39% em 2009. Já a telefonia fixa e o mercado de Internet em banda estreita terão crescimento inex­ pressivo, com índices de 1,4% e 1,9%, respectivamente. Isso fará com que aumente a diferença entre as penetrações da telefonia fixa e da móvel em 2009 para 26%, quando a penetração da telefonia celular será mais que o dobro da fixa - 46% da móvel ante 20% da fixa.

Ancinav agita o audiovisual e o cenário político O projeto da Ancinav, que entrou oficialmente em consulta pública no dia 11 de agosto e deve permanecer em consulta até o final de setembro, vem gerando polêmica em quase todos os setores envolvidos no texto e até mesmo no governo.

P

aulo Lustosa, secretário executivo do Ministério das Comunicações, durante a feira da ABTA, que aconteceu em agosto, em São Paulo, disse que “na nossa área, nós vimos algumas coisas que interferem e não poderíamos aceitar, como interferência sobre a Lei Geral de Telecomunicações”. Já o presidente da Anatel, Pedro Ziller, também na ABTA 2004, não se mostra preocupado com a perspectiva da criação da Ancinav, mesmo que ela regule também a transmissão de conteúdos por empresas de telecomunicações. Além da defesa da Anatel, um dos mais próximos assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

assegurou ao noticiário TELA VIVA NEWS que o ministro Gilberto Gil “tem todo o apoio do governo” para prosseguir no projeto que cria a Ancinav. “É para discutir mais, mas não é para parar de forma alguma”, acrescentou a fonte. O senador Osmar Dias (PDT/PR), presidente da Comissão de Educação e da Subcomissão de Cinema e Comunicação do Senado, bateu duro contra a proposta de projeto de lei em discurso no Senado. Osmar Dias disse aos senadores que se não fosse o esforço da Comissão, a proposta de criação da Ancinav teria sido encaminhada por medida provisória. Setores envolvidos Apesar de ter recebido o apoio de várias entidades de produtores de cinema



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e TV, o MinC foi duramente criticado por setores envolvidos no projeto de lei. Um dos setores mais críticos às propostas é o de exibidores. Em nota oficial, as associações de exibidores repudiaram “o brutal aumento de carga tributária, insuportável para o setor de exibição”, alegando que a taxação sobre o número de cópias de lançamentos prejudicará a distribuição e, por conseqüência, os exibidores. A Abert, Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, também se manifestou sobre o projeto do governo. A associação se coloca em posição “contrária a qualquer iniciativa que venha representar embaraço


30 anos no cinema

Reestruturação é “para breve”

Foto: ARQUIVO

A Raiz Produções, produtora criada por João Batista de Andrade e Assunção Hernandes (foto), está comemorando 30 anos. Entre os longas produzidos pela casa estão “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral; “O Homem que Virou Suco”, de João Batista de Andrade; e “Perfume de Gardênia”, de Guilherme de Almeida Prado. A Raiz se prepara agora para o lançamento de todo o seu acervo, em DVD. O primeiro a ser lançado é a mais recente realização da produtora, “De Passagem”, de Ricardo Elias. Em parceria com a Videofilmes, estará disponível para locação a partir do final de outubro e terá, além do filme, entrevistas com a equipe e ainda imagens de bastidores. O segundo longa a ser comercializado em DVD será “Uma Vida em Segredo”, de Suzana Amaral , dessa vez, com a Europa Filmes. Os lançamentos acontecerão mês a mês e contemplarão também os documentários realizados por Batista de Andrade para a televisão, como “Caso Norte”, “Tribunal Bertha Lutz” e “Wilsinho Galiléia”.

Ancinav teria um novo conselho diretor, Ainda na ABTA, o assessor nem que a Ancine será extinta. Pela especial do Ministério da nova redação, a diretoria Cultura, Manoel da Ancine, assim como seu Rangel, arrematou quadro de pessoal, serão a polêmica parte da nova Ancinav. lembrando que Além disso, o MinC retirou o debate está em do texto alguns artigos consulta pública, que davam à nova agência e que “é parte de algum poder de ação no uma discussão campo concorrencial na que vem desde o radiodifusão. governo Fernando Entretanto, não houve, Henrique”, na nova versão, nenhuma que todos os alteração nos artigos que setores serão tratavam da questão de invariavelmente programação de TV por ouvidos e que assinatura. Também não quem decidirá se mexeu na possibilidade Manoel Rangel, assessor espe- como e se alguma de a Ancinav assumir parte cial do Ministério da Cultura agência será criada das funções da Anatel em é o Congresso relação Nacional. “Entendemos que à TV paga. Tampouco houve alterações existe a necessidade de uma na idéia de obrigar os programadores proposta como essa, que há uma internacionais a reservarem 6%, demanda social ampla e nunca ante os 3% atuais, em cima das nos furtaremos ao debate nem remessas ao exterior. deixaremos de ouvir ninguém”. Foto: ARQUIVO

ou interferência estatal na criação artístico-cultural e nas liberdades de expressão e editorial”. O Ecad também se sentiu ameaçado pela proposta. Segundo Glória Braga, superintendente geral do órgão arrecadador, a proposta do MinC é completamente inconstitucional. “Direitos autorais são uma questão de direito privado, e a Constituição garante ao autor o poder de decidir sobre a forma de arrecadar os direitos sobre sua obra “, diz. Após todas as críticas, o Ministério da Cultura voltou atrás em alguns pontos do projeto. Em primeiro lugar, se um dia houve alguma intenção do MinC de acabar com a Ancine e colocar em seu lugar uma Ancinav, aparentemente isso não deve mais acontecer. A segunda versão do projeto não tem mais nenhum dos artigos e incisos que anteriormente diziam que a

A previsão inicial para o anúncio formal da reestruturação da dívida da Globopar era para julho, depois ficou para agosto e agora a expectativa é “para breve”. A informação de fontes próximas à negociação continua a mesma: já foram concluídos os entendimentos com os credores sobre as cláusulas financeiras e as garantias. O acordo geral prevê basicamente um alongamento da dívida de aproximadamente US$ 1,5 bilhão, sem grande deságio e pouca queda de juros. Há outras propostas para quem quer receber mais cedo e, nesses casos, obviamente o deságio será maior. O que está retardando o anúncio do acordo são os pormenores da redação dos documentos. Depois do anúncio do acordo haverá ainda um prazo até o fim do ano para a troca dos papéis da dívida da Globopar, como no caso da Net Serviços. Ao mesmo tempo em que trará os termos de sua renegociação, o grupo Globo deve revelar também o acerto societário com a News Corp e com a Liberty Media em relação à Sky.

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Prêmio ambiental

várias parcerias entre organizações não-governamentais, universidades, pesquisadores, institutos nacionais e internacionais e comunidades que desenvolvem trabalhos pioneiros com o objetivo de combater a fragmentação e restabelecer o fluxo natural do ecossistema. A GW venceu pela segunda vez o concurso, sendo que o prêmio foi justamente a realização deste segundo documentário. O documentário tem criação e argumento de Danilo Palasio, consultoria de Liana John, roteiro e direção de Fausto Fass, direção musical do maestro Nelson Ayres, narração de Paulo Goulart e direção de arte de Guto Lacaz.

O documentário “Bioconexão - A Vida em Fragmentos”, produzido pela GW Comunicação, ganhou o primeiro lugar no Prêmio de Reportagem sobre a Bioversidade da Mata Atlântica, promovido pela Aliança para a Conservação da Mata Atlântica, a Federação Internacional de Jornalistas Ambientais (IFEJ), sediada em Paris, e o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ), de Washington. O documentário vencedor registra exemplos de

Fotos: Divulgação

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Marketing de relacionamento

Rafael Pitangui, recebendo o prêmio. Da esquerda para a direita: Sergio Horovitz/Proview, Rico/MPV7, Paulo Rufino/Studio Alfa, Mauro Risch/Artephoto e Marcio Padilha/Zuêra.

Repetindo o que foi feito no primeiro semestre, cinco empresas cariocas fornecedoras de serviços na área de comunicação realizaram um sorteio que premiou dez clientes com viagens de seis dias a Fernando de Noronha. A promoção foi realizada pelas empresas Mauro Hisch Artephoto, MPV7 Serigrafia, Proview, Studio Alfa e Zuêra, que já tinham levado seus clientes a Cannes. Os autores da promoção comemoram o sucesso: seu faturamento no período da promoção aumentou 21%. O sorteio aconteceu no restaurante Severyna no dia 30 de agosto e os premiados foram: Fábio Marinho (OPM Oficina de Propaganda e Marketing), Clarice Dubin (Comunicação Contemporânea), Rafael Pitangui (Script), Flavio Collela (J.W. Thompson), Ricardo Bezerra Ramos (McCann Erickson - SP), Nereu Marinho da Costa (MPM), Victor Nicolato (DNA Propaganda), Daniel Fagundes (Artplan), Norma Lima (Next) e Adriana Leal (Casa & Video).

Jogos tupiniquins O Ministério da Cultura lançou no final de agosto o concurso de Jogos Eletrônicos Brasileiros. O concurso faz parte da política de diversidade da produção de conteúdos nacionais e é uma parceria do MinC com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e com o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI). O concurso abre a possibilidade de profissionais brasileiros exercitarem seus talentos no próprio país, na criação de jogos eletrônicos para computador, console, celulares e outras mídias. Num investimento de R$ 240 mil,o Concurso de Jogos Eletrônicos, será realizado em duas etapas. A primeira delas é a Seleção de Idéias Originais de Jogos Brasileiros, da qual pode participar qualquer pessoa, especialista ou usuário - com entrega de certificados aos vencedores. A segunda é o Fomento ao Desenvolvimento de Projetos e Demos Jogáveis, que reserva recursos de R$ 30 mil por projeto baseado nas idéias vencedoras da primeira etapa. Mais informações e inscrições no site www.cultura.gov.br/jogosbr.



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( scanner ) HBO quer diversificar as produtoras parceiras no Brasil Luis F. Peraza, VP senior de aquisição de programação e produção original da HBO Latin America Group, conta como tem sido o processo de escolha das produtoras com a qual a programadora está trabalhando e como pretende atuar daqui pra frente. Peraza veio ao Brasil no início de agosto para o lançamento da mega-produção argentina “Epitáfios”, uma co-produção entre a HBO e a Pol-Ka. O valor da produção portenha não foi revelado, mas certamente é menor do que o das minisséries nacionais “Mandrake” e “Carnaval”, produzidos respectivamente pela Conspiração e pela O2 através do artigo 39 da Lei 2228/2002. Por que vocês escolheram Conspiração e O2 para as estréias de minisséries brasileiras? Nossa estrutura é muito pequena e precisamos de parceiros com a possibilidade de gerar projetos integrais. Obviamente isso pode limitar um pouco o acesso dos produtores menores. Agora, optamos por exemplo, pela Conspiração, que tem infra-estrutura, gente criativa, que conhece o negócio.

Foto: Divulgação

É possível haver projetos menores no futuro? Acho que para nós foi uma aquisição estratégica: para entrar, tinha de ser com força, dada a importância da marca HBO.

obviamente muito focalizada na TV Globo, que tem um mercado muito grande e recursos para financiar produções num nível muito além do que se vê nos demais países da América Latina. A publicidade brasileira é de reconhecida qualidade e foi a “primeira olhada” que eu tive das empresas; foi assim que eu cheguei à Conspiração: através do trabalho da publicidade. Já o cinema é uma indústria mais jovem, está em crescimento. Para um país tão grande como o Brasil, há poucos filmes, mas há bons filmes. Gosto muito do novo cinema brasileiro, há grandes diretores, e agora estou tentando conhecê-los, entrando em contato para eventualmente eles poderem integrar os nossos projetos.

A idéia é diversificar, não ficando só com os mesmos? Exatamente. Porque o talento também é diversificado, está em todos os lados. Mas temos de começar por um. Luis Peraza, da HBO Como são os projetos que chegam até vocês: já viabilizados ou em busca de aportes da HBO? Agora é que há oportunidade de financiamento. O que acontecia até aqui é que eu mesmo estava indo atrás dos diretores. Nos últimos meses, os produtores começaram a nos contatar e a maioria é de São Paulo e Rio. Já temos coisas interessantes.

A produção brasileira pode entrar nos canais HBO fora da América Latina? É muito difícil. O mercado americano é complicado porque a audiência não está acostumada a ver coisas não feitas no nível local, em inglês etc. E isso nem tem a ver com a qualidade. Na Europa e Ásia, o que mais interessa é o conteúdo de Hollywood. Mas nossa aspiração é que o produto final de qualidade venha a ter uma oportunidade de produção em nível internacional. As co-produções são negociadas para as demais janelas? Possivelmente serão negociadas. Temos parceria na produção, somos sócios nos direitos e se houver oportunidade comercial, pode sim. E a oportunidade existe: a HBO vende os DVDs da “Família Soprano” etc. Mas não é um mercado ainda tão importante assim na América Latina.

Haverá outros formatos, além de ficção? Queremos musicais, documentários; temos vários projetos. Qual a sua impressão da produção audiovisual nacional? O que você conhece? A produção de televisão aqui é

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Olimpíadas na Band

A Digital 21 foi a responsável pela criação e desenvolvimento das vinhetas de abertura das Olimpíadas 2004 na TV Bandeirantes. O filme, inspirado na Grécia Antiga foi feito todo em pós-produção. A única parte filmada foi a do atleta correndo, captado em HDTV. A Digital 21 trabalhou nesse projeto durante dois meses, com 15 artistas desde, desenhistas conceituais até professores de educação física para orientação do ator.

Jogo da paz, na telona O amistoso realizado dia 18 de agosto no Haiti, entre a seleção brasileira e a seleção local, é o pano de fundo para o documentário “O dia em que o Brasil esteve aqui”, co-produção da Traffic Marketing Esportivo com a Prodigo Filmes. Ocorrido em Porto Príncipe, a capital mais pobre das Américas, o jogo mesclou futebol e política, esporte e guerra. A direção é de Caito Ortiz em dupla com o cineasta João Dornellas. A equipe da Prodigo documentou os dias que precederam o evento e as expectativas, que levaram o povo a uma trégua depois de 20 anos de guerra civil, e também por um período após o jogo. A parceria com a Traffic foi estratégica, pois a empresa não só tem afinidade com o projeto como cedeu as imagens do jogo para uso no documentário. A Traffic participará da comercialização do filme e vê no projeto uma possibilidade de ampliar sua área de atuação.


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Foto: Gerson gargalaka

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clóvis “veneno”

Hiperatividade de câmera

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s possibilidades de trabalho em produção são tantas que muitas vezes as pessoas precisam experi­mentar até encontrar a atividade que realmente gostam. Foi o que aconteceu com Clovis Henrique Manzalli, mais conhecido como Clovis “Veneno”, que hoje é operador de câmera e principalmente de steadycam. No caso dele, a experimen­ tação começou antes de chegar ao audiovisual. Queria fazer arquitetura, mas acabei entrando em artes plásticas.

Foi fazendo edição que Veneno começou a se incomodar com o que chama de falta de movimentos de câmera. Editava e via sempre aquela câmera parada, nenhum ângulo diferente. Minha pesquisa começou daí, e um dia, assistindo à cerimônia do Oscar, vi que um dos prêmios técnicos tinha ido para o steadycam do filme “O Iluminado”. Então percebi que ali tinha alguma coisa diferente e comecei a estudar. Isso aconteceu há cerca de dez anos e fez com que Veneno trocasse a

Em geral, ele atua mais em publi­ cidade, mas já fez alguns longas. A vinda de produtoras estrangeiras para filmar no Brasil tem aberto a possibilidade de travar contato com equipes maiores e exercitar um pouco mais essa versati­lidade. Recentemente, trabalhei num filme com holandeses, com três uni­dades de câmera. Quando o diretor viu que eu tinha habilidade para fazer o foco na mão, me pediu para fazer a terceira unidade. O bom é que os diretores estrangeiros não se preo­cupam com o negativo e orientam você com a câmera rodando. A gente aprende muito com eles - não a técni­ca, mas a forma de olhar. Eles olham para as coisas de um jeito muito diferente. Em seu trabalho com steadycam, que não é feito por muitas pessoas no Brasil, acabou treinando muita gente. Mas acredita que está faltando uma mulher nesse mercado. Como as câmeras ficaram mais leves, hoje há muita assistente de câmera. Para ser operador de steady é preciso saber os movimentos básicos. Na verdade, o steady tem três eixos, por isso é mais complicado. E também exige do físico, porque você se veste para carregar todo aquele peso, a resistência tem de ser alta. Acredito que as mulheres também possam operar. A maioria dos grandes operadores tem mais ou menos o meu físico: magros, não muito altos, mas resistentes. O físico e a concentração são funda­ mentais. Por isso, dizem que o tai-chichuan é a atividade mais indicada para quem opera câmera. Mas sou hiperativo, não consigo fazer. Brinco muito, mas

“Brinco muito, mas na hora me concentro e coloco todo o foco naquele momento.” ilha pela câmera. Fiz um curso com um mexicano da Cinema Prods, do pessoal que inventou o steadycam, depois na Argentina e fui conhecer a escola deles em Los Angeles. Em sua carreira como operador de câmera, procurou fazer de tudo. Além do steady, faz câmera na mão, mergulho, direção de fotografia em segunda unidade, fotografia aérea. Por isso, prefere se definir como cinematographer, um diretor de fotografia que opera câmera. Fico pensando se quero ser diretor de fotografia. Acho que sim, pelo cachê, mas não pela responsabilidade...

Nessa época, pensei em ser diretor de arte. Até que um amigo me convidou para fazer um trabalho em um dos últimos longas da Boca, e fui para a praia operar um boom. Pouco tempo depois, o mesmo amigo soube de uma vaga de editor na Escola de Comunicações e Artes da USP. Eu era bem novo, tinha praticamente a mesma idade dos alunos de Rádio e TV. Fiquei oito anos como editor, mas tinha muitos interesses e sempre dava um chapéu no trabalho. Aproveitei muito, porque não acabei minha faculdade mas cursava as disciplinas de Rádio e TV.

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na hora entro na maior concentração e coloco todo o foco naquele momento. Quando termina, estou exausto. O alto custo dos equipamentos impede que os operadores tenham seu próprio suporte para steadycam. São quase US$ 100 mil de investimento. Às vezes a gente tem que correr na praia, ou no campo. No dia seguinte, o colete ainda está suado da última pessoa que usou. Por isso seria bom ter o próprio equipamento. Mas é uma responsabilidade enorme. Não é todo mundo que anda com um apartamento nos Jardins amarrado no corpo...


Fotos: divulgaçÃo

que estão abrindo as portas para entrar no mercado. Os universitários irão trabalhar e aprender em período integral, nos setores de atendimento, computação gráfica, produção, finalização e administrativo da Mixer. São eles Thais Possatti, estudante de cinema da Faap; Felipe Solari (Rádio e TV - Faap); Tiago Popovici Berbare (Propaganda e Marketing - ESPM); Camila Loyolla (Rádio e TV - Faap).

anunciada ao mercado em festa no dia 26 de agosto, em São Paulo.

Equipe de criação

A Fischer América reforçou sua equipe de criação com três novos profissionais, contratados em agosto. Jáder Rossetto vem da Toró para assumir a vice-presidência de criação da equipe que também é formada pelos diretores de criação Pedro Cappeletti e Flavio Casarotti, ambos vindos da DM9DDB.

Curta o Creative Commons Atendimento reforçado

O atendimento da Giovanni, FCB do Rio de Janeiro recebeu o reforço de Vanessa Maciel. Ela será assistente de atendimento do grupo do diretor Álvaro Figueiredo, para clientes como Ceras Johnson e blah!

Completando a dupla Fábio Rodrigues está a um ano e meio em São Paulo - onde trabalhou na África e na Age - e agora assume a criação ao lado do redator Guigo Oliva, na Talent. No Rio, ele passou pela Fischer, Young, Carioca e G/Staff.

Novo diretor

Rodrigo Lewkowicz deixou a Cinema Centro para integrar a equipe de diretores da Produtora Associados. A novidade foi

O coordenador da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas, Ronaldo Lemos, teve seu primeiro curta, “Anna Lívia”, escolhido para participar do Festival de Curta-Metragens de SP. A novidade é que o filme é um dos primeiros no País licenciado pelo Creative Commons, o que permite que a obra seja reproduzida e distribuída pela Internet ou até mesmo sejam utilizados trechos na criação de outras obras. Ronaldo Lemos é também coordenador do projeto Creative Commons no Brasil. O filme, realizado no formato 16 mm, traz a história de um casal que acaba de se separar com elementos inspirados no universo do escritor irlandês James Joyce.

Publicitário na música

Johnny Araújo foi o único diretor publicitário indicado na categoria melhor direção de videoclipe no Video Music Brasil 2004, da MTV. O diretor da produtora JX Plural, vencedor da categoria em 2003, foi indicado com “Loadeando”, do rapper Marcelo D2. O videoclipe também concorre nas categorias melhor videoclipe do ano, melhor videoclipe de rap, melhor fotografia e melhor videoclipe segundo a audiência.

Sangue novo

A produtora paulistana Mixer promoveu no mês de agosto um processo de seleção de estagiários. Inscreveram-se 164 estudantes para as vagas de seis meses de experiência na produtora. Foram escolhidos apenas quatro alunos

Cem filmes em 6 meses

A pós-produtora Tribbo Post foi criada em janeiro de 2004 por um grupo de artistas de computação gráfica que deixou a Casablanca Finish. A equipe, comandada pelo supervisor de efeitos Reinaldo “Binho” Pina, que se associou aos amigos André Pulcino (diretor de atendimento), Diego Morone (Flame artist), Guido Gallo (diretor técnico), Luiz Adriano (supervisor de 3D), Ricardo “Zy” (3D artist) e Rodrigo Pina (Smoke artist), comemora a realização de mais de cem trabalhos nesse primeiro semestre de atuação. Entre os clientes estão produtoras como Cia. de Cinema, Jodaf, S Filmes, Gorila Filmes, Maria Bonita, Sentimental Filmes, Made to Create e agências como Leo Burnett, Almap BBDO, W/Brasil e J.W Thompson, entre outras. A empresa, instalada no bairro de Vila Olímpia, em SP, conta com estrutura completa de 3D e estações de composição com um Flame e um Smoke HD.

Da esq. para a dir. Rodrigo Pina, Binho, Ricardo Zy, Lucas Rigolli, André Pulcino, Luiz Adriano, Filipe Lopes, Guido Gallo, Diego Morone

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por Carlos Eduardo Zanatta e Samuel Possebon, de Brasília z a n a t t a @ p a y t v . c o m . b r

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“O projeto é da sociedade” O ministro Gilberto Gil sai em defesa do projeto da Ancinav, diz que continuará tentando viabilizá-lo e que a proposta está colocada para ser discutida Foto: Eug  NIO NOVAES

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proposta de criação de uma Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) veio a público este mês e deve permanecer em discussão pelo menos até o início de outubro. Nesse período, o governo foi chamado de stalinista, autoritário, xenófobo, intervencionista e mais uma lista de adjetivos. O Ministério da Cultura logo se apressou em tirar do texto do projeto qualquer frase que pudesse dar esse entendimento, mas manteve a estrutura e a concepção original: criar um conjunto de regras comuns para cinema, televisão, home-vídeo, e qualquer outra forma de exploração da atividade audiovisual, inclusive pelos serviços de telecomunicações. Na história recente do Brasil, é a primeira vez que abertamente o governo defende essa proposta. Até agora recuou pouco, e em temas superficiais. E, como mostra a entrevista a seguir, concedida a TELA VIVA em pleno 7 de setembro em Brasília, não deve haver recuo maior tão cedo. A proposta vai ao Congresso Nacional, diz o ministro Gilberto Gil, onde se tornará lei. Gil entende que a convergência de tecnologias e serviços e o desenvolvimento de novas formas de exploração do audiovisual, aliados à importância econômica do setor, são razões suficientes para que haja uma regulação mais ampla e uma agência específica. Entende que o papel de um árbitro é essencial nesse momento, pois


há uma “demanda social” por isso. Confira a seguir a entrevista exclusiva com Gilberto Gil. Tela Viva - O senhor está mais aliviado com a forma com que o projeto da Ancinav está sendo discutido agora? Gilberto Gil - Não estamos mais aliviados, estamos tranqüilos, continuando nosso trabalho... O MinC parecia incomodado com o teor das críticas que se centraram em aspectos ditos cerceadores da liberdade... É isso. Estamos agora menos atarefados com a defesa dos ataques, que na verdade diminuíram, porque a munição dos que nos atacam, com todos aqueles adjetivos, diminui. Agora a discussão está chegando a um leito mais substantivo. As pessoas começaram a ler o projeto e entendê-lo. Ainda esta semana houve uma discussão com o setor de televisão e pelo menos uma das emissoras entendia que uma das medidas taxava a televisão, quando na verdade, estamos taxando a publicidade veiculada na TV. Estamos numa fase em que as pessoas estão lendo o texto, cotejando-o com a compreensão comum sobre estes problemas. Eu tenho dito que a Ancinav não é uma proposta do governo. É uma proposta de governo interpretando uma demanda da sociedade. A Ancinav não estava prevista no programa do governo Lula? Não. Mas a idéia da Ancinav já existia quando a Ancine foi criada. Todos os agentes envolvidos na comunicação social no Brasil já vinham discutindo isso: uma agência para regular o setor inteiro, eu me lembro muito bem.

do crescimento. O audiovisual é um dos setores da economia.

Porque a necessidade de uma agência para o audiovisual? Não poderia ser uma atribuição do MinC? Porque este é o mecanismo que se adotou. As agências são hoje, no mundo, o modo específico de fazer a intermediação Estado-sociedade.

Mas a TV alega que vem funcionando muito bem sem marco regulatório. Com auto-regulamentação... é o argumento deles. Eles dizem Mas por que razão o audiovisual assim: não precisa ter cota de tela merece uma agência e a música, por porque nós da televisão temos exemplo, não? uma regra para atender o cinema Isso se deve à complexidade da nacional, ou o modo de tratar o atividade, e do envolvimento de muitos cinema estrangeiro. Tudo bem, eu agentes. E também na dimensão até compreendo. Mas eu pergunto: econômica do setor, que implicam relações a auto-regulação é suficiente e está assimétricas. Relações que se tornam dando conta? Está atendendo à ainda mais complexas com a questão da emergência dos independentes, dos convergência dos meios. Também deve setores que estão surgindo agora ser considerada a concentração do setor na economia? Está atendendo ao em mãos de poucas empresas. Veja bem, surgimento de um alinhamento das este setor é auto-regulado e depende grandes empresas, que são em cada dos acordos de cavalheiros existentes vez menor número e assumindo entre as partes e o governo e entre as o comando do setor inteiro, partes e a sociedade, o alinhando telefonia, cidadão, o consumidor. cinema, televisão, sistema “Um setor com Estas relações tamanha dimensão editorial? Um setor com envolvem, além das pode ficar sujeito à tamanha dimensão pode dimensões econômicas, sujeito à autoauto-regulação, a um ficar uma dimensão de regulação, a um jogo jogo onde não haja onde não haja árbitro? Em cidadania que precisa árbitro? É isso ser devidamente qualquer jogo, as partes que está sendo equacionada. acabam entendendo proposto, um árbitro que é melhor ter um para garantir O discurso contrário árbitro, uma instância a observação da TV é o de estar que estabeleça as regras prestando um serviço comuns, pactuadas, dessas regras” gratuito ao país, e por isso entendidas por todos não haveria necessidade de regulação. como necessárias e suficientes. É Falando como cidadão, e não como isso que está sendo proposto: um ministro ou como alguém que deve árbitro para garantir a observação entender desta complexidade: em dessas regras no tempo e no espaço qualquer setor há uma demanda por e garanta, mais ainda, a possibilidade regulação. As telecomunicações, por de modificação dessas regras exemplo, sempre exigem um marco quando isso for demandado. regulatório mais consolidado, regras estáveis, para garantir os investimentos. O MinC está trabalhando em Os analistas econômicos estão sempre cima de regras aos conteúdos. preconizando o aperfeiçoamento do Qual é a possibilidade de casar isso marco regulatório nos vários setores da com a regulamentação dos meios atividade econômica. Tudo isso como também? pressuposto para o desenvolvimento e Isso vai depender exatamente do para os investimentos, e para a estabilidade sucesso dos primeiros estágios

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( capa ) dos empreendimento. Estamos transformando uma agência que foi feita para o cinema para que ela possa abranger o audiovisual. Depois disso é que se estabelece o patamar para uma lei geral. É preciso aprontar e entregar os instrumentos à sociedade para que ela possa avançar nessa consolidação.

as televisões foram consultadas, eu pessoalmente me reuni com empresários da televisão e da telefonia. Está sendo construído a diversas mãos. Mas há setores que fazem um pouco de jogo de cena. Cada setor quer a regulação para o outro e não a regulação para si próprio. Por exemplo, no documento “Conteúdo Brasil”, entregue pela Globo e mais uma lista de signatários ao presidente Lula. Lá havia a proposta de regulação para as telecomunicações. Pois é. É o que eu digo: ninguém inventou isso. Não há voluntarismo do governo. Para usar uma expressão que é muito conhecida do povo brasileiro, ninguém está “cagando regra”. Isso não é uma diarréia regulatória do governo. É a demanda do setor.

Durante o bombardeio inicial, tentou-se colocar o projeto como sendo de sua equipe, deixando o ministro de fora. De quem é este projeto, afinal: da sua equipe, seu, ou do governo como um todo? Este projeto é da sociedade. Quando começamos a fazer, os cineastas foram consultados, os produtores foram consultados,

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E como se explica esta reação inicial? A mídia não está pronta para discutir a própria mídia? É um pouco isso. Eles não estão acostumados a serem discutidos, a ter seus “modus operandi” trazido a público, ao confronto, ao cotejo com os “modus operandi” dos outros, dos setores contíguos, faceados. Eles têm cada vez mais obrigações de relacionamento. É fruto da complexidade. São todas dificuldades nascidas da complexidade. A complexidade é o nome do jogo. Complexidade quer dizer complicação. E se agrava com a convergência de meios... É o que eu digo, e não precisa ser expert nisso não. O ministro não é

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( capa ) expert nessa área, mas é interprete do jogo das especializações. Como membro do governo, o ministro tem que colocar em perspectiva a interpretação deste conjunto de interesses, com seus conflitos e com suas necessidades de pactuação. Há necessidade de criar um pacto nessa área e o governo entende isso. Qual é o pacto? É o setor que vai pactuar. De que é feito este pacto? A primeira minuta é uma tentativa de interpretação, “o governo entendeu assim, desta forma, a necessidade e a demanda é essa. É isso mesmo?” Então coloca-se para a sociedade para que ela se manifeste. Este pacto será submetido ao Conselho Superior de Cinema, ao Congresso Nacional, onde haverá o debate, e daí ela vai se tornar uma “ Não se trata de meio ambiente, da cultura, lei. É assim que eu vejo regular a liberdade do comércio. Por que existe o papel do governo. de expressão. um árbitro no comércio e É regular os meios na indústria? O senhor através dos quais As críticas ao projeto da entende que existe circula o resultado Ancinav talvez venham do concentração na mídia desta liberdade. fato de que a comunicação brasileira? Até para garantir nunca foi objeto de regulação A concentração que todos tenham no Brasil, então? da mídia é mundial. esta liberdade.” É isso. Não é específico do Brasil. É aquilo que o Mas também porque é complicado Benjamin Barber entende como falar em regular coisas que envolvem a “infotenimento”. Está tudo fundido: liberdade de expressão... a informática e todos os meios Mas não se trata de regular a liberdade digitais. As telecomunicações e de expressão. É regular os meios através todos os setores que a formam, e o dos quais circula o resultado desta entretenimento, a informação. liberdade. Até para garantir que todos tenham esta liberdade. Eu não quero Convergência se confunde entender mais do que ninguém sobre isso, com concentração em alguns eu entendo que tem aí um governo, e o momentos. Esta concentração deve papel deste governo é arbitral. ser motivo de preocupação para o governo? Que tipo de “compromisso” o senhor Se não nos preocuparmos, não imagina que a televisão poderá firmar há porque ser governo. O Estado em relação à produção independente, à é isso. É a instância arbitral das produção regional, como está no projeto relações na sociedade, em todos da Ancinav? os sentidos. Daí a administração da Eles dizem: “deixa que a gente se justiça, da educação, da saúde, do

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entende, o governo não precisa determinar a regra, deixa que nós estabelecemos esta regra”. E nós dizemos: então, digam publicamente qual é o resultado do entendimento para que isso se torne uma regra e fique claro publicamente. Em outros casos, o governo está entendendo que já pode superar estas regras. O Estado tem, por definição, a espada na mão. O Estado tem poder coercitivo. É o “monopólio da força”, como se diz nos estudos políticos. Os pactos que são feitos com a espada na mesa tendem a ter mais condições de serem respeitados e cumpridos. É por isso que o Estado está entrando, para garantir a cada parte que todos possam ir em frente. Mas o pacto é democrático.Um dos temores que se tem é que, de posse de instrumentos poderosos, possa haver algum desvio por parte do Estado. Se é um Estado democrático, não há o que temer. Por que ter medo da democracia e ficar insistindo na utopia do fundamentalismo do mercado? A história mostra que os “pactos sem espada” não são suficientes. É para isso que estamos aqui. Se a gente está interpretando mal a história, que nos provem que estamos interpretando mal. A gente está vendo em todo o mundo um movimento de restaurar o papel do Estado depois da onda de fundamentalismo de mercado dos últimos anos. A dificuldade é que não pode ser uma coisa só. Se fosse só o Estado centralizador, tudo bem. Se fosse só o mercado, estaria lá o mercado. Cada um com sua bagunça ou com sua ordem. Mas as duas coisas têm que conviver, e aí se torna complexo. Como é que se faz para equilibrar dois pratos de uma balança? São duas lógicas, dois interesses. Isso tudo é muito complicado. Interessante é observar que tudo surgiu a partir do cinema... Por que o cinema é o objeto central desta discussão? O cinema é a imagem social. Foi

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( capa ) o cinema que começou isso. Mesmo com toda a concentração dos A televisão é um cinema, de incentivos fiscais em determinadas regiões certa forma. A própria produção e com a forte influência das equipes de cinematográfica continua sendo marketing das empresas sobre o destino o elemento fundador da imagem deste incentivo? e da circulação da Há distorções, nada é imagem. A imagem perfeito, mas vamos manter “Vamos manter o sistema de incentivos até o no telefone celular o sistema de momento em que o cinema continuará sendo incentivos até possa se sustentar sozinho e cinema em sua origem. o momento em estes possam desaparecer. As novas tecnologias que o cinema Muita gente argumenta que não renunciam o possa se passado. O cinema nós deveríamos transformar a sustentar vai vir com o renúncia fiscal em fundo. É uma audiovisual sempre. sozinho e estes questão de opção.

possam

Ainda que hoje a Os fundos sempre correm desaparecer. ” televisão tenha um o risco de ir parar na Fazenda, alcance muito maior que sofrerem contingenciamentos... o cinema? Sim, mas o que é novela? A novela é cinema, o princípio é o mesmo. Mas os grandes filmes continuam a ter seu lugar. Há a televisão, avassaladora, as redes internacionais, nacionais e locais importantíssimas, e tem os grandes filmes, que varrem o mundo. No Brasil pelo menos, o cinema sempre sobreviveu com os mecanismos de subsídios, enquanto a televisão não... Não é correto, pois a televisão tem os componentes da concessão e do uso do espectro, que também é um patrimônio público. Por que o governo simplesmente não dá dinheiro para a indústria audiovisual em vez de tirar recursos da indústria para colocar nela própria? E os incentivos, devem ser mantidos? O governo não dá dinheiro porque não tem. Sobre os mecanismos de renúncia, são exigência do próprio setor. O setor pede para que não se toque nos incentivos porque eles têm sido positivos.

Pode-se criar fundos blindados em lei. Quase todos são, e não resolve nada, cai na mão do Ministério da Fazenda. O ideal é um sistema misto, onde se tem um pouco de cada coisa. São os que melhor atendem à complexidade do problema e é o que temos hoje. É só aperfeiçoar e não perder a visão do momento, porque há momentos é que é preciso fortalecer os fundos e outros

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momentos em que se deve fortalecer a renúncia fiscal. O importante é não perder o dinamismo. O modelo que veio com a Ancine parece que tem dado resultados positivos, pelos números divulgados. Por que o MinC resolveu “aumentar o termostato” com a Ancinav, aumentando as taxações? Será que vai esquentar demais mesmo? Ou já temos condições de receber uma temperatura um pouco mais alta? O ministério avalia que o mercado está pronto para receber esta “temperatura mais alta”? A gente interpreta que há esta demanda. A gente interpreta que isto é uma voz que vem de lá. O mercado está funcionando bem, mas precisa de ajustes. Por exemplo, os independentes todos que estão chegando por aí e que não têm espaço para produzir. Vocês colocaram um personagem novo na história: as empresas de telecomunicações... Nós não. São eles que estão se colocando. Eu participei de um encontro dessa indústria na Bahia e coloquei como é que o setor de telecomunicações deve ser articulado aos outros setores. Vocês vêem as empresas de telecomunicações da mesma forma que vêem a TV ou os distribuidores de cinema, então? É. Com a diferença que eles vão chegar no mercado com a individualização, com a capacidade de customização. Agora, por exemplo, está posta para os compositores a questão do ringtone, que é uma coisa que não existia há um ano. E agora vão usar os originais dos autores (truetones). Agora mesmo, a minha gravadora sugeriu que eu cedesse os direitos para que

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( capa ) eles comercializassem as minhas músicas para celular. O que acontece com o seu trabalho e o dos artistas em geral com a cultura digital? Vou fazer uma banda e dar o nome de Banda Larga. “Gilberto Gil e sua Banda Larga”, só para ilustrar todo este universo que estas possibilidades digitais oferecem. Só que essas possibilidades que surgem precisam ter uma viabilização econômica. Na verdade isso foi o resultado pela demanda de recursos tecnológicos. A indústria foi criando a demanda por outros produtos. É a ideologia de “horizontalização” absoluta de acesso, e por outro

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lado há a ideologia do lucro. Há um conflito básico entre estas duas coisas. Essa universalização não caminha na mesma velocidade do modelo de negócios. E aí aparecem as soluções de força do tipo “manda prender as velhinhas americanas que baixam Doris Day da Internet”, ou os garotos do CineFalcatrua no Espírito Santo, que foram lacrados. São ações meramente coercitivas que não vão resolver.

não fazer. Dizer que isso é complexo demais e que é impossível atuar, pra mim não vale. Temos que equilibrar os lados da balança. E são muitos lados, não só dois. Daí a necessidade da arbitragem, e não o arbítrio. A arbitragem é o arbítrio compartilhado, pactuado, consensuado. Este é o papel do governo.

O senhor, como músico, viveu a realidade de ter seu produto copiado na Internet. Agora, como agente público, tem que encontrar uma forma de lidar com a realidade digital. Como conciliar as coisas? A conciliação tem que ser proposta. Não importa saber se é possível. Se é possível, isso não se sabe. O possível é o que se tenta, é o que se torna. Não dá para usar o argumento da impossibilidade para

Em “Tempo Rei”, o senhor diz : “não me iludo, tudo permanecerá do jeito que tem sido, trans­correndo, transformando”. Qual é a sua expectativa em relação ao projeto da Ancinav? É isso mesmo. É o Tempo Rei que vai resolver. Nós somos os agentes do tempo.

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( produção)

por Lizandra de Almeida

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Negócio de gente grande Animação não é mais coisa de criança. E com o barateamento da tecnologia, tornou-se uma atividade acessível a um número maior de pessoas.

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IMAGENS: Divulgação

animação conquistou o público, como provam sucessos como “Shrek”. Mas nao é só na audiência que este mercado virou coisa de gente grande. O resultado financeiro é igualmente respeitável. No Brasil, a produção de animação basicamente se divide entre os curtas e os filmes publicitários. Pouquíssimos longasmetragens de animação foram finalizados e exibidos, em geral frutos da dedicação de pequenos grupos. Um grupo de animadores independentes, porém, começou a se organizar para reverter esse quadro, fundando em junho do ano passado a Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA). A fundação da ABCA reflete o crescimento da produção nacional. Prova disso é a quantidade de inscrições de curtas brasileiros em festivais especializados, como o Anima Mundi. “Em 2004 foram inscritos cerca de 300 filmes, contra 200 em 2003”, explica Arnaldo Galvão, diretor da associação. A intenção é ampliar e diversificar os formatos, promovendo a profissionalização do setor. “Não acho que a animação brasileira seja a melhor do mundo, mas temos bons profissionais e, comercialmente, é um formato mais viável do que o curta-metragem”, acredita o animador Victor Hugo Borges. Uma das medidas adotadas pela ABCA é o mapeamento do cinema de animação brasileiro, em parceria com o Fundo Nacional de

Cultura e com o Dieese. Em um ano de atuação, a ABCA conquistou o reconhecimento do MinC, tornandose interlocutora do setor para o governo e garantindo a publicação dos três primeiros editais de concursos específicos para o formato. Os valores ultrapassam R$ 1 milhão e se dividem em dez prêmios de R$ 60 mil para curtasmetragens, três prêmios de R$ 100 mil para projetos de desenvolvimento do roteiro e pré-produção de longa-metragem e um prêmio para a produção de 20 filmes de um minuto de temática infantil, em parceria com a TVE, no valor de R$ 200 mil. Heróis da MTV Em paralelo aos primeiros editais, alguns projetos começam a demonstrar o potencial de mercado da animação brasileira. A experiência mais recente de seriado animado exibido pela televisão é a “Mega Liga de VJs Paladinos”, da MTV,

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“Desirella”, de Carlos Eduardo Nogueira

cujos resultados estão superando as expectativas da emissora. Segundo o diretor de programação, Zico Góes, “o projeto está valendo a pena em todos os sentidos, de audiência a publicidade”. O programa tem episódios semanais com duração de 30 minutos e exibe aventuras dos VJs da emissora, transformados em super-heróis. Cada um com seu superpoder, os VJs Paladinos falam a língua da audiência jovem do canal. A emissora já exibia, no programa de João Gordo, animações caseiras, que encontravam o grande


público pela primeira vez. Mas o ilustrador Marco Antonio Pavão decidiu criar algo especialmente para o programa. O vídeo mostrava os apresentadores João Gordo e Ferrugem, caracterizados como superheróis, enfrentando o vilão Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Havaí. O desenho seduziu a emissora, que bancou o projeto. Pavão foi contratado e produziu sozinho 11 episódios de dois minutos, que apresentam cada um dos VJs. Serviu para testar a técnica, um misto de desenho animado 2D com Flash, e para dar início ao seriado em si. O projeto ganhou um roteirista, mas a arte continuou toda feita por Pavão. A edição e as trilhas são feitas por pessoas da emissora, que acumulam funções. Agora com um assistente, ele prepara a segunda temporada e trabalha no primeiro longa-metragem da trupe, com lançamento previsto para 2005. O trabalho é pesado, mas Pavão agarrou a oportunidade com unhas e dentes. “Quando mandei o piloto, pensei no máximo em produzir algumas vinhetas. É claro que o trabalho é grande, cada episódio tem mais de 80 ilustrações, mas o mercado é tão inexistente que quem abraça não quer mais soltar”, comenta.

gente querendo trabalhar com isso”, afirma Arnaldo Galvão, que começou a produzir animações na década de 80, depois de ter passado pelo cartoon. Sua experiência vai desde os estúdios de Mauricio de Sousa, “onde havia uma equipe grande, uma primeira experiência industrial, que produzia um longa por ano”, até os programas “Castelo Rá-Tim-Bum” e “GlubGlub”, da TV Cultura, com muitas passagens pela publicidade. Recentemente, Arnaldo emplacou prêmios em festivais, com o curta “Almas em Chamas”, produzido em parceria com o escritor e roteirista Flavio de Souza. Esse também é o objetivo de produtoras como Trattoria e Cinema Animadores, que estão participando dos editais e vêem no entretenimento uma alternativa rentável para complementar sua atuação em publicidade. Segundo Eitan Rosenthal, diretor de atendimento da Trattoria, a empresa foi contemplada em um edital recente do MinC que premiou roteiros de curtas infantis com temática brasileira. Dos vinte selecionados, quatro foram animações. “Nosso filme, ‘Curupira’, mistura imagens ao vivo e animação 3D. Recebemos um prêmio de R$ 60 mil mas estamos bancando outros R$ 40 mil com recursos próprios. Acreditamos nisso Tecnologia e mão-de-obra como uma vitrine do formato, e estamos Com uma equipe tão reduzida, não há investindo para explorar as possibilidades como não viabilizar custos. Sem contar que da animação”, diz Eitan. o uso do Flash facilita muito o trabalho. No “Acreditamos muito na produção caso da animação, a evolução tecnológica independente de conteúdo para a TV. Sem foi fundamental para que as técnicas - sejam contar que o mercado de entretenimento elas o desenho convencional, 2D, ou a está crescendo cada vez mais, enquanto o computação gráfica, 3D - se tornassem de publicidade está diminuindo. E a área acessíveis a um número maior de de animação ainda consegue gerar pessoas e permitisse experimentações muitos empregos. O valor agregado antes inviáveis. “Uma série exige é enorme e o retorno é rápido. Seria muito investimento, mas a TV excelente que a política de emprego precisa de conteúdo e as técnicas do país levasse isso em conta. Ainda novas estão conseguindo baratear é um processo bastante artesanal e os custos”, acredita a existe uma falta enorme de mãoprodutora Mayra Lucas. de-obra”, argumenta. “A animação “Os equipamentos convencional se desenvolveu muito estão mais acessíveis e o em países como Índia e Coréia audiovisual é uma forma de porque conseguiram formar expressão que interessa a mão-de-obra em quantidade muita gente. Existem cada e assim baratearam os custos. vez mais ferramentas e muita Seria preciso formar gente aqui “Mega Liga”, da MTV T ela V iva

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( produção) também, para desenvolver o mercado”, acrescenta Mayra Lucas. Mercado externo A Trattoria prepara alguns projetos e tenta também captar recursos na iniciativa privada. Silvia Prado, da Cinema Animadores, por sua vez, está preparando diversos projetos para os editais, mas enxerga no mercado externo a possibilidade de co-produções e distribuição de seus filmes. “Quando abri a produtora, há seis anos, já tinha em mente trabalhar com novos talentos e novas linguagens, e também a possibilidade de produzir entretenimento. Comecei então a me preparar, fazendo cursos de formação executiva. Fiquei sócia da ABPI-TV e agora estamos nos capacitando para buscar recursos no mercado externo”, diz Silvia. Entre os projetos, está o seriado

“Time Master”, série de ficção científica e aventura, que conta a história de dois cientistas que inventaram uma tecnologia que permite voltar no tempo. Um dos cientistas é japonês, outro russo. Traído pelo companheiro, o japonês volta para se vingar, com uma aparência mais jovem. Idealizado por Ricardo Giassetti, roteirista de quadrinhos, o filme aposta nessa trama universal e no mundo globalizado para fechar co-produções. A série também é toda aberta a merchandisings. A produtora vai apresentar ainda um seriado protagonizado por um indiozinho ianomâmi em busca de sua identidade e uma série de vinhetas de um minuto e meio, com minibiografias de personagens brasileiros e latino-americanos. “Esse último visa o público infanto-juvenil e um deles já foi exibido na TV Cultura. Mas acreditamos que seja um produto para toda a América Latina”, afirma Silvia.

“Time Masters”, da Cinema Animadores

Novos traços na animação brasileira

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ma nova safra de animadores se prepara para mostrar seu traço. Reunidos na ABCA, sempre tiveram pretensões co­merciais, mas acreditam que o talento e o trabalho autoral são o trunfo da animação brasileira. Por enquanto, a maioria tem atividades paralelas. Carlos Eduardo Nogueira é formado em artes plásticas e dá aulas de design na Faculdade Senac . Autor de curtas em 3D, Carlos Eduardo trabalha com cores e roteiros fortes, usando recursos da computação gráfica que fogem do fotorrealismo. “Minha inspiração vem mais das artes plásticas do que do cinema. Então reparo muito nos ‘furos’ de roteiro. Também me preocupo em usar os recursos da com­putação para fugir dos T ela V iva

enquadra-mentos tradicionais, sem querer reproduzir o que poderia ser feito de outra forma”, comenta. Seu último trabalho, “Desirella”, conta a história de uma mulher de idade que descobre a fonte da juventude. O vídeo foi premiado pelo projeto Petrobras Digital e recebeu o prêmio especial do júri no último Festival de Gramado. Entre seus próximos projetos, estão o longa-metragem “Rex” e o curta “Iansã”, em 35 mm. No momento, trabalha no curta “Historietas Assombradas para Crianças Mal-criadas”, de Victor Hugo Borges, premiado no edital de curtas infantis. Victor Hugo, tam­bém artista plástico, tem um traço peculiar, com referências de Tim Burton e John Lester s et 2 0 0 4

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( produção)

“Historietas Assombradas...”, de Victor Hugo Borges

e temática fantástica. Ele e Carlos Eduardo estão trabalhando com a técnica cell shade, que mistura animação convencional e 3D para criar um efeito de papel recortado, com contornos marcados e imagens chapadas. O filme também terá cenas em stop motion. A experiência de Victor Hugo com animação começou aos 15 anos, quando ganhou uma câmera. Mas foi no trabalho de conclusão de curso da faculdade que produziu o primeiro curta, “Claustro”. Em seguida vieram “Des Fantastic Sucric” e “El Château”, produzidos artesanalmente e premiados em vários festivais. Victor Hugo trabalha como ilustrador e dá aulas. Dono de um traço e de roteiros irreverentes, Alê McHaddo também é professor do Senac e tem uma empresa que desenvolve jogos e CD-ROMs para empresas, que continuam sendo seu principal filão. “A animação está crescendo, mas está longe de ser fonte de renda autoral. O engraçado é que a TV investe em salários milionários para apresentadores, e não passa pela cabeça de ninguém investir em novas séries de animação”, comenta. Também formado em artes plásticas, Alê começou a trabalhar na HGN, que produzia para a Disney. Saiu, fundou sua empresa e aproveitou o boom da internet para vender jogos e livros animados. Em 2002, ganhou o Prêmio Estímulo e produziu “A Lasanha Assassina”, um curta debochado, narrado por Zé do Caixão. Sua técnica é a animação convencional, 2D, presente também em “O Fantasma da Ópera”, seu trabalho mais recente. Seu próximo projeto vai misturar captação ao vivo e desenhos animados. T ela V iva

Leonardo Cadaval, autor do premiado “Terminal”, cursou arquitetura e começou a trabalhar com animação na Escola Politécnica da USP. a universidade permitiu o primeiro contato com a computação gráfica, técnica que utiliza hoje em seu trabalho. Mesclando referências de urbanismo ,que vêm do curso de arqui­ tetura, e o uso da computação gráfica em grafismos e ângulos inusitados de câmera, seus filmes têm uma linguagem marcante. Em sua carreira, se divide em temporadas em produtoras publicitárias e na dedicação aos projetos pessoais de curtas-metragens, e mais recentemente também começou a dar aulas. “Até há alguns anos, havia muito essa dicotomia: a animação autoral não tinha mercado e viceversa. Acho que mudou bastante, a resis­ tência está caindo. Nosso grande desafio é fazer com que a animação autoral exista como mercado. E a gente só consegue se desenvolver fazendo bastante. Também não dá para viver na base do edital. A briga é para que isso deixe de ser um hobby e sinô­nimo de trabalho solitário de madrugada”, argumenta. Afastado das produtoras comerciais, ele prepara seu próximo curta, que explora as maneiras como a natureza foi sobreposta pelas cidades. Para o animador Alê Abreu, que está produzindo seu primeiro longa-metragem - “Garoto Cósmico” -, o ideal de montar um estúdio e viabilizar projetos próprios come­ ça a tomar forma. A partir de um patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura, ele já reuniu uma pequena equipe e teve tempo de se dedicar ao roteiro do filme. “Meu objetivo é criar um estúdio capaz de produzir um filme atrás do outro, sem deixar que a qualidade autoral se perca nos próprios métodos de produção. O teor dos nossos filmes não pode ficar reduzido a uma relação de oferta e procura. Roteiros saídos de forminhas, com estratégias de marketing e personagens perfeitos para o licenciamento da indústria de bonecos fofinhos não são meu objetivo. Acho que podemos criar uma estética brasileira, sem cair nos vícios da linguagem dos grandes estúdios, que ditam um padrão estético universal”, afirma. s et 2 0 0 4

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( mercado )

por Fernando Paiva, do Rio de Janeiro

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Operadoras de telefonia celular começam a buscar conteúdo exclusivo para a plataforma. O mercado é promissor, mas vai exigir especialização dos produtores

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á muito tempo o celular deixou de ser usado apenas como um telefone. Primeiro vieram as mensagens de texto, depois os joguinhos coloridos. O próximo passo é transformar o aparelho em uma mini televisão, o que abre um novo mercado para produtoras de audiovisual. “Acreditamos que o celular será um dispositivo central de entretenimento quando o usuário estiver fora de casa. Ele vai congregar MP3 player, videofone, câmera digital etc”, prevê Marcelo Costa, diretor de tecnologia da Takenet, provedora brasileira de conteúdo para telefonia celular. No Brasil, já estão surgindo as primeiras oportunidades. Desde abril a Oi oferece para seus usuários o “Mundo Oi”, um serviço de download de vídeos. O preço para o consumidor final é de R$ 1,99 por download e a receita é dividida com os provedores de conteúdo. Por enquanto, o serviço é limitado ao celular Motorola C 355, o que representa uma base de 200 mil pessoas. Esse aparelho utiliza uma tecnologia de vídeo desenvolvida pela empresa japonesa Nancy. Em breve, o serviço será disponibilizado para aqueles terminais capazes de ler vídeos em MPEG-4, o que irá aumentar significativamente o público do “Mundo Oi”. O serviço registra aproximadamente 100 mil downloads por mês. A Vivo também oferece serviços de vídeo. Um dos que apresenta melhor resultado é o TV Terra. A

cobrança é feita por meio de assinatura mensal de R$ 9,99, faturada na conta de telefone. Quem paga ganha acesso a 50 vídeos atualizados semanalmente de quatro canais: esportes, notícias, música e “The Girl”. Lançado em fevereiro, o TV Terra na Vivo ultrapassou a marca de 6 mil assinantes nos primeiros quatro meses de operação. O resultado está bem acima das expectativas iniciais do portal, que esperava conquistar 3 mil assinantes em 12 meses. “Agora, acredito que teremos 15 mil usuários do TV Terra no celular até o fim deste ano”, prevê Fabiano Ferreira, diretor de produtos do Terra. A TIM, por sua vez, está prestes a lançar um serviço de streaming de vídeo. A operadora negocia com diversos canais de TV aberta e por assinatura para incluí-los na programação. A empresa admite já ter fechado alguns contratos, mas não revela nomes antes de lançar o serviço. O “Mobile TV”, como deve se chamar, transmitirá em baixa resolução via streaming para celulares com tela colorida a programação de canais de TV em tempo real. Testes com a CNN

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Internacional já foram apresentados no Brasil. Na Itália, os usuários da TIM têm 14 canais à disposição. O preço do serviço é de Ä 0,40 por minuto de transmissão. O modelo de cobrança para o Brasil não necessariamente será o mesmo - estuda-se cobrar uma mensalidade. A Claro também estuda o lançamento de serviços de vídeo. O mais provável é que a operadora trabalhe com um portfolio “a la carte”, como a Oi, e não por meio de assinatura mensal, pois a maioria dos seus usuários têm planos pré-pagos. Nova linguagem Quem já produz vídeos para telefonia celular alerta: trata-se de uma nova linguagem, diferente da TV, do cinema e da Internet. Em primeiro

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lugar, há uma série de limitações impostas pelo suporte em si. As telas são pequenas e a resolução é baixa - os celulares mais antigos trabalham com 4 mil cores. A taxa de quadros por segundo (fps) varia entre 8 e 15. “Os movimentos precisam ser lentos; os planos, fechados; e as imagens, bem contrastadas”, recomenda Gustavo Pains, videomaker da Takenet. No caso do download de vídeos há mais um obstáculo: o tempo de duração da peça. A memória dos aparelhos celulares atualmente não permite o armazena­mento de muitos vídeos. Por isso, as operadoras recomendam que cada um tenha aproximadamente 40 segundos de duração. Com um tempo tão curto, é preciso ser muito criativo, objetivo e sintético para transmitir uma mensagem. “Nesse aspecto, a linguagem do vídeo no celular se aproxima àquela dos comerciais de TV e dos videoclips”, compara Marcio Tonelli, sócio diretor da LiveMedia, produtora de Campinas.

Foto: ARQUIVO

( mercado ) “Acreditamos que o celular será um dispositivo central de entretenimento quando o usuário estiver fora de casa.”

Marcelo Costa, da Takenet

Apesar de todas as diferenças de linguagem, o mais comum, por enquanto, ainda é a adaptação para o celular de conteúdos originalmente produzidos para a TV ou para a Internet, como os canais BandNews e BandSports, que têm vídeos no “Mundo Oi”. A tendência, entretanto, é de que cresça significativamente o interesse por conteúdos exclusivos, produzidos especialmente para celulares. Essa é a opinião de Nilo Peçanha, sócio e diretor da produtora carioca SK8. Sua empresa iniciou a parceria com o “Mundo Oi” oferecendo conteúdo adaptado de outras mídias. Primeiro foram trechos do antigo programa de TV “Oi Radical”, que foi transmitido durante dois anos pela TV Record, até junho passado. Em seguida, fechou contrato com três grandes distribuidoras de cinema - PlayArte, Lumière e Imagem - para adaptar seus trailers para o celular. Apesar de os trailers serem o segundo conteúdo mais popular

no “Mundo Oi”, com cerca de 15 mil downloads mensais, perdendo apenas para o conteúdo erótico da revista Sexy, Peçanha aposta na produção própria. “Com o aparecimento de terminais com porta USB as pessoas vão transferir as imagens do computador para o celular. O conteúdo adaptado será banalizado. Para não morrer na praia é importante ter vídeos novos e exclusivos”, analisa. Peçanha não perdeu tempo. Contratou três ilustradores e criou a primeira série de animação brasileira produzida especialmente para celular. Ela se chama “Fight This” e tem a estética de um mangá, história em quadrinhos japonesa. Um episódio novo é disponi-bilizado a cada semana. A história segue como se fosse uma novela. Para conquistar audiência, a série tem uma página na Internet (www.fightthis.com. br) na qual é possível conhecer os personagens, seus perfis psicológicos etc. O desenho é hoje o terceiro conteúdo mais popular do “Mundo Oi”, com uma média de 5 mil downloads por mês. “Hoje, os downloads de vídeos já pagam as nossas despesas”, afirma Peçanha. Entusiasmada com o sucesso, a SK8 lançou “Jack Sonhador”, o

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( mercado ) desenho de um menino que está sempre dormindo e tendo sonhos bizarros. Seu formato é de sitcom, ou seja, cada episódio contém uma história completa. E a SK8 ainda prepara os lançamentos de outras duas séries, sobre um menino eternamente apaixonado e outra sobre uma menina-robô. A LiveMedia também aposta em conteúdo próprio e exclusivo para o celular. A empresa quer filmar um seriado voltado para

o público juvenil. Os personagens serão estudantes universitários. O projeto está na fase de elaboração dos roteiros. A gravação será feita em mini DV. Enquanto isso, a LiveMedia produz pequenos vídeos eróticos para celular, que serão vendidos através da integradora Fun Generation. Exportação O mercado não se limita às fronteiras do nosso País. A Takenet aposta na exportação de vídeos para operadoras de outros continentes. A companhia firmou

Seminário discute conteúdo móvel

TELA VIVA promove nos dias 29 e 30 de setembro o segundo seminário “Tela Viva Móvel: encontro de serviços e entretenimento wireless”. No evento serão apresentados e debatidos os modelos de negócios, as tecnologias e as empresas que vêm fazendo acontecer o boom da produção de conteúdo móvel. Informações: info@convergeeventos.com.br ou (11) 3120-2351.

parceria com a japonesa Nancy para a distribuição de seus vídeos no Japão e na China. Em seu catálogo, a Takenet tem 70 vídeos para celular, divididos nas categorias: paisagens brasileiras, festas brasileiras e beleza brasileira (vídeos com modelos). “A idéia é fornecer conteúdo que as opera-doras asiáticas não tenham”, explica Costa, da Takenet. Para o mercado nacional, a Takenet lançará parte da série “Beleza brasileira” e vídeos de humor com a dupla Caju e Totonho. As filmagens com os humoristas estão sendo feitas em um pequeno estúdio montado dentro da empresa. A Takenet está em negociação com as principais operadoras brasileiras e seus vídeos devem ser disponibilizados por aqui em breve.


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) Fotos: Divulgação

Mugidos eletrônicos

Para fazer as vaquinhas conversarem, a opção foi recriar as cabeças em computação...

..de forma que os animais tivessem tanto movimentos de cabeça quanto o sincronismo labial.

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uas vacas malhadas conversam sobre estilos musicais. Uma gosta de trance, a outra de drum’n’bass. No meio da conversa, bebem Toddy. Até que chega uma outra vaca, totalmente por fora, cantando um bolerão. É quando uma das vacas dá a dica: “Toma um Toddy, vai”. O novo posicionamento da marca, voltado para o público jovem, vai continuar tendo como protagonistas as simpáticas e antenadas bovinas e um novo filme já está em produção. Para fazer as duas vacas conversarem sobre música eletrônica, a equipe da finalizadora Tribbo tinha quatro opções: fazer a vaca toda em computação gráfica; filmar a

No resultado final, os bovinos parecem estar conversando sobre música, enquanto desfrutam do produto anunciado.

vaca e criar em computação só a boca; usar o corpo da vaca real e criar toda a cabeça em 3D ou fazer só um morphe da boca real da vaca. A opção foi por uma solução intermediária entre técnica e prazo. “Fazer a vaca toda em computação era inviável por causa do prazo e do custo. Usar só o morphe na boca era a solução mais rápida e barata, mas o resultado não seria tão legal em

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termos de sincronia labial. Fazer só a boca em computação exigiria que a vaca real movimentasse a cabeça da forma correta e isso complicaria a filmagem. Então preferimos usar o corpo da vaca e modelar a cabeça, podendo criar os movimentos de cabeça e a sincronia labial com mais liberdade”, explica o diretor de efeitos especiais Luiz Adriano. A equipe de 3D então modelou uma cabeça para as três vacas, alterando as texturas, manchas, cor e tamanho do focinho. Para criar a sincronia labial, a locução real foi usada como referência. “Gravamos os locutores interpretando o texto, de frente, olhando para a câmera. Tivemos então a referência dos movimentos do rosto, dos lábios, do queixo. Tentamos pegar os trejeitos para usar a atuação do locutor nas vacas”, continua. As filmagens aconteceram numa fazenda no interior de São Paulo e tudo foi rodado ao vivo, sem a necessidade de fundo de recorte. “Usamos apenas máscaras”, diz Luiz Adriano.

ficha técnica Cliente Pepsico do Brasil Produto Toddy Agência Almap/BBDO Dir. de Criação Tales Bahu e Rodrigo de Almeida Criação José Luiz Martins e André Faria Produtora Jodaf Direção João Daniel Tikhomiroff Fotografia Leonardo Crescenti Montagem Toni Tyger e Chaya Trilha Tentáculo Finalização Tribbo Post


Multidão dentária

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um clima de filme de terror, uma dentadura pula para fora do copo e sai batendo os dentes pela rua. Dezenas de milhares de dentaduras a acompanham e todas vão abrindo e fechando até chegar ao caminhão de entregas do chocolate Snickers, mostrando que nada nem ninguém resiste à guloseima. As cenas do filme mostram as dentaduras pulando por ruas e avenidas, em perseguição ao caminhão. Cada uma faz um movimento diferente e este foi o

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desafio da equipe de produção. “Nossa grande dificuldade foi imaginar como animar infinitas dentaduras, cada uma com comportamento próprio. Para não ter de fazer uma por uma, usamos um plug-in do Maya que cria um comportamento de multidão. Assim, fizemos um modelo 3D da dentadura e geramos um boneco que foi exportado para o Maya. Na programação, criamos a seguinte rotina: cada vez que uma dentadura se aproxima da outra, ela tenta se afastar. É como se fosse uma inteligência artificial, um robozinho, que responde a determinados comandos:

Cliente Masterfoods Produto Snickers Agência Almap/BBDO Dir. de Criação Giba Lages e Cássio Zanata Produtora Trattoria Direção Guilherme Ramalho e Renato Amoroso Fotografia Marcelo Durst Montagem Guilherme Ramalho Trilha Tentáculo Finalização e 3D Equipe Trattoria

você estabelece os parâmetros e cada modelo é replicado aleatoriamente de acordo com essa rotina”, explica o diretor Guilherme Ramalho.

Mídia dirigida

comerciais e um promo para divulgar o seriado. O seriado de animação está inserido em um programa maior, de uma hora e meia, formado por vários programetes. A empresa instalou DVDs em 1.800 consultórios em todo o Brasil e está fazendo uma campanha para estimular as recepcionistas a exibir o programa. Haverá visitas surpresa, e quem estiver exibindo o programa receberá pontuação e prêmios.

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rês garotas entre 24 e 33 anos são as protagonistas de uma nova campanha de pílulas anticoncepcionais, que será exibida exclusivamente em consultórios de ginecologistas. Devido às restrições legais às propagandas de medicamentos, a Organon optou por esse novo canal de comunicação. Mas mesmo para exibição em um circuito restrito, os “policies” são rigorosos. O nome do produto, por exemplo, nunca é citado. A idéia, então, foi discutir os problemas e efeitos das pílulas para três mulheres diferentes, criadas em desenho animado pela equipe da Cinema Animadores. No programa piloto, de três minutos, são apresentadas as protagonistas

- mulheres modernas, que trabalham e têm suas dúvidas e convicções. “O roteiro dos programas também ficou a cargo da produtora. Optamos pelo testemunhal para que as espectadoras pudessem conhecer as personagens. E usamos uma linguagem de cartoon, moderna e adulta, com cenários e estética elaborados, para chegar ao público-alvo, pois precisávamos da experiência de alguém que tivesse a linguagem concisa dos quadrinhos”, explica Silvia Prado, sócia da Cinema Animadores. O projeto prevê um novo episódio a cada quatro meses, além de dois T ela V iva

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ficha técnica Cliente Agência Criação Produtora Direção Trilha sonora

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Organon Rapp Collins Janina Bitencourt e Ana Azzar Cinema Animadores Flávio Del Carlo Lua Nova


( artigo )

por Ricardo Benetton*

Introdução da TV digital terrestre no Brasil:

Foto: Divulgação

o processo de análise

* Ricardo Benetton é gerente de inovação do CPqD, órgão que coordena o projeto de desenvolvimento do Sistema Brasileiro de TV Digital.

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projeto do Sistema Brasileiro de TV Digital foi instituído com o propósito de analisar as alternativas de exploração e implantação propícias ao advento da televisão digital terrestre no País. A abordagem analítica que conduzirá à definição e implementação de tal sistema encontra-se estruturada em três fases: apoio à decisão, desenvolvimento industrial e implantação. A primeira fase trata da análise e proposição de um Modelo de Referência, que deverá incluir a forma de exploração e o plano de implantação do sistema digital. A forma de exploração abrange os modelos de serviços e de negócio, bem como a definição dos sistemas tecnológicos subjacentes. A segunda fase deve dar seqüência ao desenvolvimento das tecnologias e serviços considerados relevantes e que foram objeto de escolha no Modelo de Referência. A última fase culmina com a efetiva implementação das tecnologias e serviços desenvolvidos na fase anterior, de acordo com o plano de implantação. A elaboração do Modelo de Referência deve partir de modelos já existentes, buscando aperfeiçoá-los ou adaptá-los em função das finalidades e condicionantes estabelecidas no Decreto 4.901. Tal modelo poderá sugerir o desenvolvimento de um sistema próprio de transmissão digital, desde que observado o propósito de não despender recursos em soluções com pouco impacto nos objetivos centrais do projeto. As questões em torno da introdução da TV digital não são de natureza

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estritamente tecnológica, posto que se trata de uma nova plataforma de comunicação, cujos impactos ainda são desconhecidos. Tal dificuldade é ampliada pelo elevado número de agentes envolvidos, requerendo a coadunação de interesses nem sempre convergentes. Nesse sentido, torna-se fundamental a adoção de uma abordagem analítica que possibilite uma visão integrada e holística da questão, contemplando o dinamismo e a complexidade inerente à digitalização de um setor como o de radiodifusão televisiva. A construção do Modelo de Referência é portanto conduzida numa seqüência de três etapas: (i) levantamento de dados e elaboração e análise de cenários; (ii) proposição de alternativas de modelos de exploração e implantação da TV digital terrestre no Brasil; e (iii) análises de viabilidade e dos riscos que as alternativas em questão podem proporcionar aos atores envolvidos no processo. Na primeira etapa é traçado um mapa das condições que circunscrevem o ambiente de análise, estruturado em três dimensões. Na dimensão socioeconômica, essas condições correspondem aos cenários macroeconômicos de longo prazo e ao mapeamento da demanda e da oferta associadas à nova mídia. A oferta é analisada com base na cadeia de valor do setor - da

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( artigo)

produção à recepção de conteúdo. A identificação e classificação dos riscos e demanda é caracterizada a partir de oportunidades associados às alternativas dados primários quantitativos, levantados de modelos. Com base nessa classificação, junto aos cidadãos. será possível apontar o Modelo de A dimensão tecnológica consiste de Referência que mais atende aos critérios um panorama das principais alternativas de flexibilidade e sustentabilidade. de modelos de serviços e de negócio, Esses critérios traduzem o grau de bem como dos sistemas tecnológicos facilidade e de sensibilidade com que o que os habilitam. A dimensão políticomodelo se adapta a mudanças de rumo, regulatória abarca a análise das políticas respectivamente, sejam elas provocadas industriais e do panorama por fatores externos ou regulatório vigentes. A flexibilidade por iniciativa dos atores Na segunda etapa deve conduzir a envolvidos. Por um lado, a são elaborados alguns um baixo custo flexibilidade deve conduzir a conjuntos de modelos do terminal um baixo custo do terminal de exploração e de de recepção, de recepção, respeitando as implantação que serão respeitando condições socioeconômicas selecionados para as condições da população e a evolução do compor o Modelo de socioeconômicas perfil dos usuários brasileiros. Referência. Esses modelos da população Por outro lado, a flexibilidade correspondem às e a evolução do deve fomentar a produção de alternativas levantadas no perfil dos usuários conteúdo, estimular o parque panorama da dimensão brasileiros industrial e permitir que as tecnológica - ordenadas emissoras escolham modelos conforme os cenários de cadeia de valor de negócio aderentes a suas estratégias. delineados no mapeamento da oferta - e Todavia, a proposição de um Modelo às alternativas de transição analógicode Referência é dependente do caminho digital. percorrido, cuja escolha só será possível Na última etapa, a análise de com o aprendizado adquirido ao longo viabilidade dessas alternativas é do próprio processo analítico. Quanto conduzida sob as perspectivas dos às finalidades últimas, é esperado que múltiplos agentes que compõem a o novo sistema estimule o setor e traga cadeia de valor do setor, cujas variáveisbenefícios concretos para a sociedade, chave têm seu desempenho avaliado proporcionado a universalização do por simulação. As informações assim acesso e criando um ambiente favorável obtidas constituem insumos para a à educação e à cidadania.

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( evento )

por Fernando Lauterjung

f e r n a n d o @ t e l a v i v a . c o m . b r com André Mermelstein e Samuel Possebon

TV aberta ainda espera o mundo digital Broadcast & Cable 2004 reúne radiodifusores para debater tecnologias, questões regulatórias e mercadológicas. A feira de equipamentos demonstrou ainda os mais novos lançamentos para as áreas de produção e radiodifusão.

A

manifestar descontentamento com o fato de as duas principais instâncias decisórias do Sistema Brasileiro de TV Digital só terem membros do governo. “As emissoras de TV estão representadas apenas no Comitê Consultivo, e não sabemos ainda qual será o papel desse comitê”. As emissoras de TV reclamam que já houve atraso demasiado na escolha do padrão brasileiro. “Há seis anos, quando as primeiras transmissões digitais foram feitas em caráter de teste, a TV aberta tinha tudo para ditar a tecnologia e os modelos de negócios. Hoje, outras tecnologias estão se digitalizando livremente, como é o caso da TV por assinatura e das telecomunicações. Mas a TV aberta ainda está amarrada a uma decisão que não sabemos quando virá”, diz Franco. No estande da SET na feira, os engenheiros faziam demonstrações de transmissão e recepção de TV digital ao vivo, tentando defender o modelo de negócios e o padrão apregoado por eles desde os famosos testes de grupo SET/ Abert. A demonstração, não por acaso, destacava a impossibilidade de se usar o sinal da televisão como um meio de conexão à Internet. “É impossível que todos os espectadores de televisão possam navegar livremente pela Internet”, disse Roberto Franco, explicando que não há banda suficiente para transmitir um número ilimitado de páginas ou e-mails pelo sinal usado pelas emissoras de TV. Por isso, no modelo

conteceu entre os dias 25 e 27 de agosto, em São Paulo, a feira de tecnologia para o mercado de radiodifusão e produção Broadcast & Cable, como sempre acompanhada do Congreso da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão). Além dos lançamentos de produtos, o evento contou com alguns debates acalorados entre os radiodifusores e com presença do governo. A abertura do congresso serviu para mostrar como o governo caminha em uma direção e os engenheiros de TV (e naturalmente as emissoras) vão em um outro sentido no que tange a TV digital. Mauro Oliveira, secretário de telecomunicações do Ministério das Comunicações, ressaltou a importância do trabalho que está sendo realizado com o objetivo de chegar a um Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD). “Queremos chegar em 10 de março de 2005 com um modelo de referência, algo que nos permita dizer com segurança qual o melhor caminho a seguir. O SBTVD que o Brasil pretende desenvolver privilegiará a promoção da inclusão digital”. Não é a mesma posição da SET. Roberto Franco, presidente da entidade, entende que a definição do modelo a ser explorado no Brasil não cabe ao Estado, mas sim à própria sociedade. “Quem vai decidir o que será a TV digital é o público”. A SET não deixa de

TV no celular em demonstração na feira: SET acha que já se perdeu muito tempo na definição do padrão.

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mostrado no estande da sociedade, o set-top box que recebia e decodificava o sinal de TV digital contava com uma entrada de telefone, para que o espectador possa se conectar à Internet. Além da possibilidade de carregar sinais da web, a demonstração da SET incluía a recepção móvel, através de um protótipo de telefone celular da Nec que conta com um receptor de sinais de televisão. A transmissão móvel é uma das exigências dos radiodifusores em relação à TV digital. Eles querem que, com o advento da TV digital, as empresas fabricantes de celular incluam em seus aparelhos chips sintonizadores das frequências de UHF. Com isso, as TVs ampliariam significativamente o potencial de audiência e poderiam explorar melhor os atributos de mobilidade e portabilidade. Acontece que as operadoras de celular não gostam desse modelo. Entendem que, por serem elas que subsidiam os aparelhos, o ideal é que o vídeo seja transmitido pela própria rede das celulares, em streaming, gerando, portanto, tráfego. A briga é grande e promete esquentar daqui para frente. Ao que parece, os radiodifusores, justamente por terem ficados “amarrados” a uma decisão que “não se sabe quando virá” acabaram sendo ultrapassados pelas empresas de telecomunicações. Em painel do Congresso da Set, a Nokia afirmou que não tem intenção de fabricar handsets com receptores de TV digital terrestre embutidos. Na visão da empresa, o serviço de vídeo pelo celular será transmitido em streaming. No mesmo painel, Roberto Franco disse que o modelo da TV aberta é diferente do celular, pois não há cobrança de airtime. “Para o

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(evento)

Fotos: Gerson gargalaka e divulgação (nexio)

serviço existir, a recepção deve ser gratuita. Na hora em que o usuário acionar algum serviço interativo, ou partir da TV para um portal de Internet, por exemplo, aí sim ele usará a rede móvel, gerando receita para a operadora”, afirmou. Ancinav Outro tema que pautou o congresso foi a proposta do Ministério da Cultura de criar uma Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual. Uma questão colocada foi sobre a necessidade ou não de um marco regulatório único para o audiovisual nacional. Ficou claro, nesse ponto, que há visões divergentes. Antônio Athayde, superintendente comercial do SBT, lembrou que é difícil ter um mercado audiovisual sem um conjunto de regras para o setor que permita

todo que está sendo discutido é sem sentido. Não cabe ao governo decidir que cinema será feito no Brasil”. Carlos Eduardo Rodrigues (Cadu), diretor executivo da Globo Filmes, compartilha dessa visão. “O nosso marco regulatório, que já existe e está funcionando, é a MP 2.228-01. Ele pode ser aperfeiçoado”. Em relação à competição com as empresas de telecomunicações e grandes grupos de comunicação internacional, Cadu afirmou que o importante é que as as regras sejam equilibradas. “Não é certo que empresas de telecomunicações participem de um mercado para o qual não estão devidamente licenciadas e também é preciso ver que muitos estúdios internacionais têm benefícios que as empresas nacionais não têm”, diz. Já o presidente da SET ressaltou que a proposta do governo cria uma agência com grandes poderes e que, por sua vez, tem o poder de decisão na mão de cinco

inacabada do Proxy Cutter, uma ferramenta de edição simplificada que permitirá ao próprio jornalista fazer uma pré-edição, ou um primeiro corte, do material, baixando arquivos proxy em seu desktop e exportando uma EDL para o servidor. Como opção de armazenamento (storage), a Sony colocou um sistema Petasite robotizado, com capacidade de 108 Tb (terabytes), expansível para até 1,5 Pb (petabyte). Uma opção de mais baixo custo é a library AIT3, com 16 fitas de 100 Gb. No estande, um dos destaques da Sony este ano é a câmera HDC X300, com três CCD de 1/2”, que grava em alta definição no formato HD e sai por aproximadamente US$ 14 mil FOB, sem lente. Outra novidade, também anunciada na NAB deste ano e trazida agora ao Brasil é o switcher MFS 2000, pré configurado em 1 ME ou 1,5 ME. A vantagem do equipamento é que

Sony: newsroom completa no padrão DVCam. A configuração básica do sistema sai a partir de US$ 90 mil FOB, incluindo duas ilhas, servidor com 200 horas on line a 25 Mbps, armazenamento AIT e acessórios.

HDTV LDK 6000, da Thomson. Trabalha com qualquer formato HD, incluindo as variantes no frame rate. Por contar com três CCDs de 9,2 milhões de pixels cada, pode captar nas diferentes resoluções HD nativamente, sem nenhum tipo de adaptação digital. O equipamento pode ter conexão Triax ou óptica.

A Panasonic apresentou pela primeira vez no Brasil a câmera AJ-SPX800, baseada na tecnologia P2. O equipamento, que custa US$ 19,5 mil FOB, conta com cinco slots para cartões PCMCIA, com até 4 Gb de gravação. Na capacidade máxima, é possível gravar até 90 minutos em padrão DVCPro 25, ou 45 em DVCPro 50.

membros de um colegiado que votam por maioria simples. “Ou seja, três pessoas decidirão o futuro do audiovisual brasileiro”. Para Roberto Franco, o modelo privado de TV aberta no Brasil deu certo e o modelo de cinema também. “O que o governo deveria pensar é em uma forma de incentivar a rede pública e estatal”. Para ele, as regras, mais uma vez, devem vir da sociedade, e não do Estado. Nenhum membro do governo participou do debate de abertura do congresso.

estabilidade e segurança, mas ressaltou que esse marco regulatório precisa ser discutido por quem é do ramo. “Existem características do negócio, aspectos da realidade que não podem ser decididos apenas por quem caiu de para-quedas”. Diler Trindade, produtor de cinema, foi mais contundente. “Não há a menor necessidade de gastar energia com isso. O Brasil tem uma série de problemas muito mais sérios”, ponderou. “O modelo que existe está funcionando e precisa, talvez, apenas de um pouco de incentivo em relação às salas de exibição, que são poucas. O resto

Vitrine A Sony montou em seu lounge na feira uma newsroom de baixo custo completa (foto). Entre as novidades, uma versão ainda

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o upgrade da versão SD para HD pode ser feito apenas por software. Também está sendo apresentada a versão 7 do Xpri, que traz mais efeitos e agora trabalha também com o sistema XDCam, de discos ópticos. A Thomson levou para o seu estande a câmera HDTV LDK 6000 (foto). A empresa demonstrou ainda encoders e decoders MPEG-2 da linha Vibe, que trabalha em redes IP. A linha, que está sendo testada no Brasil para trafegar vídeo sobre IP em redes de telefonia fixa, ganhará na IBC deste ano uma versão que trabalha com compactação MPEG-4.

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(evento) Uma novidade que a empresa mostrou pela primeira vez no Brasil foi a linha de roteadores Concerto, que podem ter entre 32 e 64 entradas e saídas. A Ross apresentou pela primeira vez no País as novas matrizes Talia, com controle através de rede, com interface web, além da linha Sinergy, de switchers (foto). Outra novidade

Brasil novos módulos da linha Gear Lite MD, como amplificadores e conversores. Até o tradicional ponto eletrônico evoluiu para o mundo digital. A Teleponto apresentava na Broadcast & Cable 2004 o ponto Microear, da Phonak. O diferencial está na transmissão digital em VHF, que garante grande qualidade e confiabilidade, e o cristal substituível. A unidade sai por volta de US$ 2,1 mil. A empresa também trouxe o rádio BTR 800, da Radiocom, um intercom digital full duplex com 32 canalizações de freqüência e dois canais de comunicação em UHF. O equipamento vem com quatro belt packs, também full duplex e digitais, e pode ser interligado a uma linha externa. O preço para venda é em torno de US$ 10 mil, mas o sistema também está disponível para locação. O destaque no estande da Debetec foi a lente Canon HDxs, com zoom de 40 vezes e estabilizador de imagem. A Tacnet apresentou na Broadcast & Cable equipamentos de sua representada Snell & Wilcox. O destaque no estande foi a ferramenta para restauração de sinais de vídeo Archangel. Podendo trabalhar com vídeo telecinado ou não, a ferramenta permite corrigir simultaneamente, e em tempo real, ruído, sujeira, riscos, instabilidade, drop out e flicker. Outro equipamento apresentado foi o Ukon, uma plataforma universal de conversão de formatos desenhada para utilização de produção em TV e ambientes de pós-produção onde as imagens precisam ser convertidas entre os diversos formatos SD e HD. Já o TBS180AV - Frame Synchronizer/TBC, também mostrado pela Tacnet, é um sincronizador de time code capaz de operar com sinais de entrada e

Sinergy 100, da Ross, que agora traz mais efeitos. O novo software permite o controle de VT e mixer de áudio externo. A configuração básica sai a partir de US$ 15 mil, com 16 entradas, 1 M/E e três keyers. A versão HD utiliza exatamente o mesmo painel, o que representa um custo a menos na hora do upgrade.

é o Overdrive v. 1.0, software de controle de switcher por touch screen, que automatiza diversas funções dentro da operação de uma emissora. A empresa também lança neste segundo semestre no

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saída multi-padrão (vídeo SDI digital e analógico e áudio AES e digital). Entre as novidades demonstradas pela Magics estava o Toaster Flex. Trata-se de uma estação de edição com redundância de fonte e discos hotswap (o hard disk pode ser trocado com o computador em funcionamento). Baseado em Windows, a estação edita vídeo multiformato em tempo real e sem compressão, podendo renderizar

A ADLine apresentou uma mini-emissora baseada em Avid. O ambiente é administrado pelo Avid Unit Media Manager. O controle da entrada de material se dá pelo Capture Manager e a edição é feita no News Cutter. No I-News faz-se a edição de scripts e, finalmente, o Avid Controller faz o play-out do material através do Air Speed (foto).

o material em segundo plano. Entre as funções estão controle de sincronismo de áudio analógico e digital, correção de cor YUV, calibração automática de câmeras e de cor, chroma e luma key em tempo-real, streaming de vídeo para Internet e mixer de áudio. O equipamento vem com entradas e saídas em vários padrões analógicos e digitais e pode controlar o VTR. Outra novidade apresentada pela empresa foi o Magics Storage


Raid. Trata-se de um raid de discos para substituir o uso de fitas ou DVDs. Com capacidade de armazenamento para até 160 horas de vídeo DVCam ou 800 horas de vídeo MPEG-2 com qualidade DVD, o equipamento vem com um catalogador de imagens e conta com proteção continuar funcionando caso um dos discos falhe.

O servidor da linha Nexio, da Leitch, trabalha com vídeo analógico ou digital em alta definição, suportando os formatos de áudio AES, MPEG Layer II e Dolby AC-3 e analógico. O servidor pode ser usado para distribuição IP, por cabo, terrestre ou por satélite.

A Leitch mostrou no evento a nova versão do Velocity HD. Trata-se de um editor não-linear que trabalhar com vídeo em alta definição. Com performance para editar conteúdo HD em tempo real, o VelocityHD conta com o novo hardware Altitude, que permite executar, em resolução final, dois streams HD, com transições e efeitos em tempo real. A solução HD da Leitch permite ainda dar saída em um monitor HD enquanto realiza as transições e efeitos. O hardware Altitude suporta os formatos 1080i, 1080p e 720p em todos os frame rates, com gravação e reprodução com compressão e sem compressão. Outro equipamento demons­ trado foi o servidor Nexio (foto). Brasil Os fabricantes nacionais também marcaram presença na feira. A Floripa Tecnologia lançou a mesa de controle mestre digital Lumyon, inteiramente desenvolvida pela empresa catarinense (foto). A Floripa também demonstrou na feira um sistema de cenário virtual que dispensa o uso de tracking na câmera, pois o movimento do apresentador é simulado por software. Na realidade, a câmera fica parada e o apresentador é inserido

como um objeto 3D no cenário, que acompanha então o movimento (virtual) da câmera. Outro destaque da empresa na feira foi o encoder MGW 2000, da Optibase, para MPEG-1 e MPEG-2. Foi apresentado acompanhado pelo decoder Animo, um set-top box pouco maior que um Palm. O set-top permite navegação pela web e vem com um teclado wireless. Como aceita sistemas de acesso condicional e apresenta vídeos de qualidade boa a taxas de transmissão não muito elevadas (3 a 4 Mbps), pode ser considerado uma solução para serviços de video-on-demand sobre redes de dados (como ADSL). Já a também catarinense 4S mostrou seu sistema de produção tapeless X-edit. Trata-se de um pacote de ilhas em um ambiente de rede Gigabit Ethernet que permite fazer a ingestão de material quase simultaneamente à edição. São estações de edição não-linear integradas a um exibidor e a um servidor de armazenamento central baseado em sistema operacional Linux. A edição é feita pelo X-Edit, que usa uma rede dupla gravando sempre em alta (MPEG-2, DV ou DV 25) e baixa definição (MPEG-4). Com ele é possível editar o material em baixa definição, gerando uma lista de edição que já edita também, automaticamente, o material em alta definição. É possível ainda usar ilhas off-line do X-Edit e salvar o timeline, para que o trabalho seja feito automaticamente quando o material for incluído na rede. A Mattedi mostrou na feira seu mais novo lançamento, o teleprompter TP-

LCD/M. O equipamento é formado por um monitor colorido de cristal líquido de 15”, coluna pneumática com dolly e chassi com adaptador para qualquer modelo de câmera. A fabricante nacional estava vendendo ainda, com desconto na feira, o tripé Mini SH II. Com um tripé em duralumínio anodizado, o equipamento conta com cabeça hidráulica, base em meia esfera,

Lumyon, da Floripa: 16 entradas SDI, saída de programa, preset e dois buses auxiliares. Pode receber uma placa adicional de efeitos e mais três entradas de layers de inserção. Na parte de áudio, trabalha com placa analógica e digital. Conta com 16 entradas e mais três para áudio auxiliar, em três canais: R, L e SAP. É possível fazer ajustes independentes para cada entrada.

engate rápido, nível bolha e etrela de solo escamoteável. O equpamento é feito sob medida para câmeras Mini-DV e pode contar com “rodinhas” dolly e estojo para transporte.

Nova diretoria

Foi eleita durante o Congresso da SET a nova diretoria da sociedade. Não houve nenhuma mudança radical, uma vez que Roberto Franco, diretor de engenharia do SBT, foi o candidato para a re-eleição à presidência em chapa única. A novidade é que a SET passa a ter uma diretoria de cinema digital e um conselho de ex-presidentes da associação. Veja a diretoria completa: Presidente - Roberto Franco; Vice-presidente - Liliana Nakonechnyj; Diretora editorial - Valderez Donzelli; Vice-diretor editorial - Helio Ferreira; Diretor de ensino - Gummar Bedobk Jr.; Vice-diretor de ensino - Eduardo Bicudo; Diretor de eventos - Fernando Pelégio; Vice-diretor de eventos - Leonardo Scheiner; Diretor de marketing - Claudio Younis; Vice-diretor de marketing - Kanato Yoshida; Diretor de cinema digital - Celso Araujo; Vice-diretor de cinema digital - Alex Pimentel; Diretor de Internet - Antonio Maia; Vice-diretor de Internet - Luis Cássio Godoy; Diretor de produção - Nelson Faria Jr; Vice-diretor de produção - Fred Litowsky; Diretor de rádio - Ronald Barbosa; Vice-diretor de rádio - Djalma Ferreira; Diretor de tecnologia - Olímpio Franco;

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Vice-diretor de tecnologia - Antonio Leonel; Diretor de telecom - Manuel Almeida; Vice-diretor de telecom - Francisco Perrota; Diretor de TV aberta - Fernando Bittencourt; Vice-diretor de TV aberta - José Munhoz; Diretor de TVA - Antonio João; Vice-diretor de TVA - Sundeep Jinsi; Diretor industrial - Carlos Capellão; Vice-diretor industrial - Carlos Goya; Diretor Centro-Oeste - Wanderley Schmaltz; Vice-diretor Centro-Oeste - Toshiniro Kanegae; Diretor nordeste - José Augusto; Vice-diretor Nordeste - Antônio Paoli; Diretor Norte - Nivelle Daou; Vice-diretor Norte - Dennis Corrêa; Diretor Sudeste - Paulo Canno; Vice-diretor Sudeste - Getúlio Malafaia; Diretor Sul - Fernando Ferreira; Vice-diretor Sul - Caio Augusto Klein.

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( upgrade )

por Fernando Lauterjung

f e r n a n d o @ t e l a v i v a . c o m . b r

Tudo novo de novo

A

lém da redução nos preços das soluções de finalização, um outro fenômeno se mostrou comum nesta área. O prazo entre os lançamentos de novas versões está cada vez mais curto. Muitas vezes, os softwares ganham novas versões a cada ano. Isso não significa que, com a atualização, os usuários tenham de gastar a fortuna que estavam acostumados antes da queda dos preços, já que a atualização geralmente tem um custo menor. Além disso, as novas versões só são lançadas quando têm atrativos suficientes para justificar a atualização. Seguindo essa tendência, a Discreet anunciou as novas versões dos seus sistemas de composição, efeitos visuais e pós-produção Inferno 6, Flame 9 e Flint 9. A empresa apresentou os sistemas na Siggraph, no último mês de agosto em Los Angeles. As três soluções da Discreet contam agora com novas funções para criação, incluindo uma ferramenta de distorção e transformação seqüencial (morphing) baseada em curvas, o que proporciona maior controle sobre o efeito. Outra novidade é que os softwares agora trabalham com 3D Look-Up-Table (LUT), uma ferramenta para a visualização exata das cores. Usada para mostrar como será a imagem digital quando impressa em filme e projetada no cinema, a função 3D LUT permite que os editores façam correções de cores com maior precisão. Já o 3D Tracker, que analisa um clipe e seleciona pontos para centralização da imagem e para dar maior estabilidade à “câmera”, foi melhorado e automatizado, podendo agora

Imagens: divulgaçÃO

Discreet renova a sua linha de composição e pós-produção, lançando software de diferentes custos e para diferentes plataformas.

Inferno 6, Flame 9, e Flint 9: novas ferramentas como distorção e morphing baseado em curvas...

...e correção de cores baseada em tecnologia LUT (Look-Up-Table), para visualização mais exata.

processar os resultados em segundo plano. Essa função só não está disponível no Flint. Uma novidade que deve melhorar muito o fluxo de trabalho com os softwares de composição é o Clip History. A ferramenta permite que os artistas vejam cada passo da construção de um determinado clipe e modifiquem rapidamente qualquer parâmetro. A função Clip History conta ainda com ferramentas de fluxo de trabalho colaborativo, incluindo arquivo de acesso livre, possibilidade de acrescentar notas esquemáticas e suporte para o formato de arquivo Adobe PSD em camadas. Já o editor de Batch das novas versões da Discreet permite agora maior integração entre o fluxo de trabalho dos compositores e o editor de filmes. Com a ferramenta, vários usuários podem aplicar efeitos diretamente aos segmentos de um

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mesmo filme e ver o resultado no contexto do filme. O topo de linha da Discreet, o Inferno 6, que trabalha com resolução independente, estará disponível apenas para o sistema SGI Onyx 350, baseado em plataforma Unix. Já o Flame 9 rodará em estação Silicon Graphics Tezro. O Flint 9 estará disponível para a estação IBM IntelliStation Z Pro, baseada em processador Intel e operando em Linux. Para garantir a qualidade de imagem, a Discreet trabalhou em conjunto com a NVIDIA, para desenvolver drivers Linux para o Flint 9. O hardware gráfico que será usado é a placa NVIDIA Quadro FX 3000G. A Discreet promete o lançamento do Inferno 6, do Flame 9 e do Flint 9 para o último trimestre deste ano.


Fotos: gerson gargalaka

Visão superior A DMS lançou um sistema integrado de grua com cabeça eletrônica pan/tilt. Baseado em uma grua de 3,7 m de compri­mento, o sistema conta com um aparelho eletrônico desenvolvido pela própria DMS capaz de con­trolar a câmera e a cabeça elétrica instalada na ponta da grua. Os controles de pan/tilt são feitos através de pequeno joystick, insta­lado na manopla esquerda do aparelho. É possível regular a sensibilidade do joystick através de dois potenciômetros (um para o movimento pan e outro para o tilt). Na manopla direita estão os controles de zoom e de foco da câmera. O jogo completo, que custa R$ 15 mil, pesa 25 kg e pode ser desmontado guardado em duas mochilas de 1,5 m de comprimento.

Cabeça e módulo de comando: controle de sensibilidade

Chip mais barato A Ikegami demonstrou na Broascast & Cable, no estande da Phase, um protótipo de câmera com tecnologia de captura de imagens mais barata, mas com alta qualidade. Baseada no corpo da HDL-40, uma câmera de alta definição de corpo compacto, o protótipo usa chips CMOS para fazer a captação de imagens, ao invés dos tradicionais CCDs. A diferença é que o custo de fabricação de chips CMOS é muito mais baixo. O equipamento tem separação de cor por prisma para captura em três chips, exatamente como nas câmeras com três CCDs. A câmera, que deve ser lançada comercialmente em aproxima­damente um ano, captura imagens em qualquer formato e frame rate HD. Além disso, apresenta níveis de ruído de branco e smear bastante baixos.


( agenda ) > SETEMBRO 29 e 30 Serviços móveis II Tela Viva Móvel. ITM Expo, São Paulo, SP. O evento discute as novas possibilidades para produtores de conteúdo no mercado telefonia móvel. Mais informações pelo telefone (11) 3120-2351, pelo e-mail info@ convergeeventos.com.br ou no site www.convergeeventos. com.br.

> OUTUBRO 4a8 MipCom 2004 Palais des Festivals, Cannes, França. Tel.: (33-1) 4190-4567. karine. safarti@reedmidem.com. www. mipcom.com.

22 a 4/11 XXIIX Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. info@mostra.org. www.mostra. org.

> NOVEMBRO 22 a 28 IX Festival Nacional de Vídeo - A Imagem em 5 Minutos. Salvador, BA. Tel. (71) 328-8100 dimas@funceb.ba.gov.br. www.5minutos.ba.gov.br. 23 a 30 37º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Tel: (61) 325-7777, 325-6212 festbrasilia@sc.brte.com.br e cinema@ sc.brte.com.br. www.sc.df.gov.br. Festival do Minuto. São Paulo, SP. Prazo de Inscrição: 30 de outubro

1minuto@uol.com.br. www.uol. com.br/minuto. Concurso de roteiros A Brasileira Filmes, da diretora Bia Flecha e da produtora executiva Magda Barbieri, está promovendo em parceria com a Associação Cultural Kinoforum o 1º Concurso de Roteiros para Criativos Publicitários. O concurso vai premiar dez roteiros a serem produzidos em 16 mm. A participação é aberta a criativos atuantes no Brasil e os roteiros devem seguir o tema “Sou brasileiro”. A duração é de três minutos e os roteiros devem ser enviados com pseudônimo para criecurta@ brasileirafilmes.art.br. As inscrições serão aceitas até 15 de dezembro.


N達o disponivel


N達o disponivel

Revista Tela Viva - 142 - Setembro 2004  
Revista Tela Viva - 142 - Setembro 2004  

Revista Tela Viva - 142 - Setembro 2004

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