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televisão, cinema e mídias eletrônicas

ano 16_#168_jan/fev2007

crescimento em foco

No comando da Ancine, Manoel Rangel conta como pretende atuar para expandir o mercado do audiovisual

produçÃO

Desenvolvimento das produtoras em 2007 passa pela diversificação

Radiodifusão

Os caminhos para resolver o impasse das outorgas de rádio e TV


N達o disponivel


Foto: marcelo kahn

(editorial ) Diretor e Editor Diretor Editorial Diretor Editorial Diretor Comercial Diretor Financeiro Diretor de Marketing Gerente de Marketing e Circulação Administração

Editora de Programação e Conteúdo Editor Tela Viva News Redação Sucursal Brasília Arte

Depar­ta­men­to Comer­cial Webmaster Central de Assinaturas

Rubens Glasberg André Mermelstein Samuel Possebon Manoel Fernandez Otavio Jardanovski Leonardo Pinto Silva Gislaine Gaspar Vilma Pereira (Gerente), Gilberto Taques (Assistente Financeiro)

Edianez Parente Fernando Lauterjung Daniele Frederico, Lizandra de Almeida (Colaboradora) Carlos Eduardo Zanatta (Chefe da Sucursal) Carlos Edmur Cason (Edi­ção de Arte) Debora Harue Torigoe (Assistente) Rubens Jar­dim (Pro­du­ção Grá­fi­ca) Geral­do José Noguei­ra (Edi­to­ra­ção Ele­trô­ni­ca) Iva­ne­ti Longo (Assis­ten­te) Marcelo Pressi 0800 0145022 das 9 às 19 horas de segunda a sexta-feira

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André Mermelstein

a n d r e @ c o n v e r g e c o m . c o m . b r

Convergir é preciso

A

partir deste mês, a editora que publica TELA VIVA passa a ter uma nova identidade corporativa. A Editora Glasberg e a Converge Eventos, empresa coligada que organiza nossas feiras e seminários, passam a compor uma única entidade, a Converge Comunicações. Com isso, queremos mostrar a nossos leitores, anunciantes e demais parceiros que somos muito mais que uma editora de revistas e sites. E reafirmar que nossa atuação estende-se por todos os segmentos do mercado convergente de telecom, mídia e informática. A Converge Comunicações edita hoje três revistas impressas (TELA VIVA, TELETIME e TI INSIDE), quatro boletins eletrônicos diários (TELA VIVA NEWS, PAY-TV NEWS, TELETIME NEWS e TI INSIDE ONLINE), anuários, pôsteres e suplementos temáticos especiais, como o GUIA TELA VIVA, o ANUÁRIO PAYTV e o ATLAS BRASILEIRO DE TELECOMUNICAÇÕES. Na área de eventos, organiza as feiras e congressos mais importantes dos setores de mídia, TI e telecom, como a ABTA 2007, o Forum Brasil - Mercado Internacional de Televisão, o Tela Viva Móvel, os seminários Políticas de Telecomunicações, Seminário Internacional de Satélites, Web 2.0, Forum SOA, IPTV, Forum Acel e muitos outros. São mais de 18 eventos anuais, que fazem parte da agenda dos líderes desses setores. Nossa sinalização ao público é de que não é mais possível olhar para um desses segmentos isoladamente. Os mundos do audiovisual e da tecnologia da informação já se encontraram nos equipamentos e no workflow da produção digital. Telecom e mídia convergem a passos largos, com a TV digital, a entrada das teles na TV por assinatura, o avanço da tecnologia celular e as possibilidades que a banda larga abre para a difusão de conteúdos. É esta convergência que queremos explicitar cada vez mais, trazendo informação de cada uma destas áreas para o centro do debate. E faremos isto de todas as formas possíveis, seja com revistas, sites ou eventos presenciais. A comunidade que usa a Converge Comunicações como sua fonte de informação e análise, e também para divulgar seus produtos, serviços e marcas, sabe que pode contar com nossos 15 anos de credibilidade para se guiar nesta nova trilha, na qual todos os caminhos se intersectam.

capa: foto de nando neves

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Ano16 _168_ jan-fev/07

(índice ) Ancine

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À frente da agência, Manoel Rangel quer corrigir distorções e promover o crescimento

Scanner

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Figuras

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Radiodifusão

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TV digital

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No Ar

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Audiência

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Mercado internacional

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Programação

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Após 18 anos, Congresso não conseguiu melhorar processo de outorgas

Prazo para início das transmissões digitais pode ser curto

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41

Banda larga e vídeo por IP são temas principais no RealScreen Summit

Mercado mundial busca roteiros para adaptação na Natpe

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(cartas)

Making of

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Produção

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Artigo

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Após ano irregular, produtoras esperam crescimento em 2007

online Diariamente leio as notícias do Tela Viva News (www.telaviva.com.br) e gostaria de parabenizá-los pelos trabalhos de atualização dos profissionais e interessados no mercado de telecomunicações. O conteúdo desenvolvido por vocês é muito objetivo, atual, eficiente e sempre muito presente. Estou muito satisfeito como leitor.

Tecnologia

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Upgrade

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Um abraço, Vagner Concon, Nextv, Valinhos, SP.

Agenda

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A aposta em educação do canal Futura

Sony e Grass Valley disputam mercado de cinema digital

Tela Viva edita as cartas recebidas, para adequá-las a este espaço, procurando manter a máxima fidelidade ao seu conteúdo. Envie suas críticas, comentários e sugestões para cartas.telaviva@

Acompanhe as notícias mais recentes do mercado

telavivanews www.telaviva.com.br 

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( scanner ) fotos: divulgaçÃO

Conteúdo adulto concentrado A Globosat Programadora e a Playboy TV América Latina fecharam um acordo para a criação da Playboy do Brasil Entretenimento. Inicialmente, a joint venture ficará responsável pelos canais de televisão das duas empresas no segmento adulto: os canais à la carte Sexy Hot, For Man (Globosat), Playboy TV, Playboy TV Movies, G Channel, Vênus, Vênus XXL, Private, Spice Digital Networks, Fresh!, Shorteez, Xcess (Playboy TV América Latina), e o website do Sexy Hot (Globosat). As empresas prometem criar novos produtos apostando no incentivo à produção brasileira e na utilização das opções oferecidas pela Playboy América Latina.

Novo endereço

“Grey’s Anatomy”

A Cultura Marcas está de casa nova. A área de licenciamentos da Fundação Padre Anchieta mudouse, em dezembro, para um escritório na avenida Brigadeiro Faria Lima, no Jardim Paulistano, em São Paulo. A Cultura Marcas é responsável pelo licenciamento das marcas, personagens e conteúdos da TV Cultura e da TV Rá Tim Bum.

Estréias esperadas O canal Sony, que adia a estréia das novas temporadas de suas séries consagradas e as apresenta no início do ano, com o objetivo de evitar a repetição de episódios, estreou em fevereiro a terceira temporada das séries de sucesso “Grey’s Anatomy”, “Medium” e “Desperate Housewives”. Além dessas, o canal apresenta a sexta temporada do reality show “American Idol” e a sétima temporada de “Celebrity Poker Showdown”, que conta, em seu primeiro episódio, com os atores que interpretam os maridos e namorados das protagonistas da série “Desperate Housewives”. As novidades ficam por conta da série de ficção “The Game”, sobre as “Marias Chuteiras” do futebol americano; e o novo reality show “Who Wants To Be a Super Hero?”, criado pelo fundador da Marvel Comics, Stan Lee. Neste programa, os inventores de super-heróis terão seus poderes postos à prova, e o vencedor protagonizará um filme e uma história em quadrinhos. Além das séries, o Sony apresenta no dia 11 de fevereiro, às 23h, ao vivo, a entrega do 49° Grammy Awards. A reprise legendada será exibida no dia 15, às 21h30.

Em dois formatos A entrevista com o repórter Arthur Veríssimo para a revista Trip ganhou uma versão em vídeo. O bate-papo da seção “Páginas Negras”, que é capa da revista de janeiro, pode ser conferido no site www.revistatrip.com.br. O conteúdo foi dividido em pílulas de um a três minutos, resultando em 12 pequenos filmes, disponibilizados semanalmente no site. A segmentação teve como objetivo tornar o conteúdo mais atrativo para a Internet. O vídeo foi gravado pela Maria Bonita Coisas, nova divisão da produtora Maria Bonita Filmes para a produção de programas de TV, seriados, documentários, novelas para celular, peças para Internet, eventos, longa metragem e shows. A divisão deve ser lançada oficialmente em março.

AXN A série “Law & Order: Criminal Intent”, exibida até então pelo canal Sony passa a ser exibido agora no AXN. Além dessa, outras seis séries estrearam suas novas temporadas no AXN em fevereiro: “Las Vegas”, “CSI: Miami” (com episódio de estréia filmado no Rio de Janeiro), “Criminal Minds”, “CSI: NY”, “NCIS”, e o reality show “The Amazing Race”. 

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Amigos digeríveis Com situações bem-humoradas, o filme criado pela NBS e produzido pela Cia de Cinema mostra como o medicamento Eparema age de forma dupla, no fígado e na digestão, transformando os “vilões da má digestão” em grandes amigos. O comercial mostra três histórias: em uma, um rapaz corre na praia para pegar no colo uma pessoa fantasiada de coxinha; em outra, uma moça se diverte no parque de diversões com uma pessoa vestida de cachorroquente; e por último, um outro rapaz oferece flores e enche de beijos alguém fantasiado de pizza em casa. O filme, que estréia na TV em fevereiro, teve criação de Pedro Feyer e André Lima e direção de Rodolfo Vanni.

Romance restaurado O longa-metragem “A Moreninha”, baseado no romance de Joaquim Manuel de Macedo, ganhou uma versão HD-DVD. O filme, produzido há 36 anos, foi restaurado em trabalho coordenado pela Casablanca Filmes, que garante que o material ganhou qualidade superior à original. O conteúdo foi lançado no Brasil em HD-DVD no dia 6 de fevereiro, antes mesmo dos players da nova mídia começarem a ser vendidos por aqui.

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De malas prontas para o Canadá Jonas Brandão (SP) e Diego Stoliar (RJ) foram os brasileiros selecionados para participar do Estágio para Animação Hot House 4, que terá início no mês de março, com duração de 120 dias, no National Film Board (NFB), em Montreal, no Canadá. A seleção ficou a cargo do Centro Técnico do Audiovisual da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (CTAv/SAV) e do NFB, com o apoio do Consulado Geral do Canadá, em São Paulo, e da Associação Brasileira de Cinema e Animação (ABCA).

Do varejo ao serviço militar A Inutilia Truncat 3D (IT 3D) tem realizado trabalhos para os mais diferentes segmentos. Em janeiro foi lançado o novo filme das Casas Bahia criado pela Y&R com cenários desenvolvidos pela IT 3D. A ação para divulgar a nova oferta de computadores pessoais da loja, voltada para o público jovem, teve direção de criação de Roberto Cardoso Jr. O filme foi dirigido por Luiz Felippe Cavalcanti. O diretor também foi responsável pelo novo filme do Ministério da Defesa. Criado pela Lew,Lara, o comercial parece um game, e chama os jovens para o Serviço Militar. As cenas ilustram situações operacionais e sociais das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica), com produção em computação gráfica 3D. A direção de criação é de Jacques Lewkowicz, Marco Versolato e André Laurentino.

Parceria para filmes digitais A produtora carioca Pax Filmes, criada com o objetivo de realizar filmes de baixo orçamento em suporte digital, conquistou uma parceria importante em janeiro: os primeiros quatro projetos a serem produzidos pela Pax terão distribuição da Riofilme. A parceira adianta à produtora o montante relativo à distribuição, que deve somar ao menos R$ 200 mil. O valor coincide com o orçamento dos filmes, que é de R$ 50 mil por projeto. A Riofilme ficará res­ponsável pela dis­tribuição dos filmes para cinema, home video e televisão. Os quatro longasmetragens serão produ­zidos durante o ano de 2007, com entrega da primeira obra prevista para agosto. O objetivo da Pax é proPassos, Leandro Firmino da Hora duzir até o final de 2008 dez Alceu e Paulo Pons, sócios naPax Filmes projetos de baixo orçamento, apenas por meio de patrocínio — sem a ajuda de leis de incentivo. Para isso, a produtora tem buscado a aquisição de equipamentos e a participação de novos talentos na produção. A Pax Filmes é coordenada pelos sócios Paulo Pons, Leandro Firmino da Hora e Alceu Passos.

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Heróis do Universal O Universal Channel estréia em 2 de março um horário novo em sua programação para uma das estréias mais importantes deste semestre no gênero, o seriado “Heroes” (grande sucesso da rede aberta NBC, nos EUA). A atração será exibida às 21h, “empurrando” o filme de longa-metragem deste dia para as 22h. A primeira temporada da série tem 24 episódios, divididos em duas mini-temporadas, e o Universal Channel exibirá todos. Nem mesmo o fato de a TV Record ter garantido a exibição de “Heroes” para a TV aberta com uma janela de apenas três meses - a emissora poderá incluir o seriado em sua grade a partir de junho - preocupa a direção do Universal Channel. “Isso não é necessariamente ruim, pois há uma ‘retroalimentação’; o público que fica sabendo na TV aberta quer ver antes e vai para a TV por assinatura”, diz o diretor do Universal, Paulo Barata. Além da estréia de “Heroes”, o canal promove algumas mudanças na sua grade a partir de março. Entre as novidades, estão a redução de infomerciais e a redução da faixa de vídeos policiais nas tardes de domingo - com inclusão de um bloco de séries como “Law & Order” no horário.

Menos dias para o cinema nacional O número de dias para a exibição de obras cinematográficas brasileiras no ano de 2007 nas salas de cinema, espaços ou locais de exibição pública comercial — número conhecido como cota de tela — é um pouco menor em relação a 2006. Este ano, os exibidores estão obrigados a destinar, no mínimo, 28 dias de suas telas a, pelo menos, dois filmes de longametragem nacionais. Em 2006, assim como em 2005, a cota mínima era de 35 dias. O decreto, assinado no dia 28 de dezembro pelo presidente Lula e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, também determina que o número de dias aumente gradualmente conforme o número de salas no complexo, chegando a 644 dias no total em complexos com 20 salas, com pelo menos 11 títulos nacionais diferentes. Complexos com mais de 20 salas, deverão somar mais sete dias na cota para cada sala extra.

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( scanner ) fotos: divulgaçÃO

Novo comercial sobre o velho

VH1, nos pacotes Silver e Gold.

A Pirelli investe em canais de exibição de vídeos gratuitos para a sua nova campanha referente à promoção “Troque o Velho pelo Novo”. Entrou no ar em janeiro no You Tube uma ação viral criada pela A1 Brasil com produção da 5inco Imagem e Comunicação, no qual uma mulher aparece em trajes e poses insinuantes, explicando como o borracheiro suprimiu as falhas do “velho”.

Pirelli: campanha online.

Documentários para guardar Os 16 documentários produzidos nas duas primeiras edições do Programa de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro (DocTV) estão disponíveis em DVD. As produções podem ser compradas individualmente ou em caixas, no site www.culturamarcas.com.br. O programa está em sua terceira edição e os diretores selecionados já estão produzindo os seus documentários. Com os títulos das três edições, o DocTV irá viabilizar um total de 100 produções.

Controle da vida Para reforçar o conceito de que com a Claro as pessoas podem ter a vida em suas mãos, a operadora lançou em janeiro a sua nova campanha institucional de verão, com criação da Almap BBDO. Com produção da Margarida Flores e Filmes e direção de Pedro Becker, o filme mostra cenas de pessoas utilizando o dedo indicador para acionar situações do dia-a-dia. O filme, em versão de um minuto e duas versões de 30 segundos, tem veiculação na TV aberta e por assinatura e em cinema. A trilha sonora do comercial está disponível para download gratuito no site da Claro.

Apresentação que merece registro O show dos Mutantes realizado no dia 25 de janeiro, na comemoração do aniversário da cidade de São Paulo, foi gravado pela produtora Zulu Filmes, com direção de Hugo Prata. A idéia é transformar as imagens do show, que aconteceu em frente ao Museu do Ipiranga, em um especial de TV, a ser negociado. Há vídeos das músicas “Balada do Louco” e “Ando Meio Desligado” disponíveis no YouTube. Os Mutantes estiveram longe dos palcos brasileiros por quase 30 anos, e esse foi o primeiro show realizado desde então. Antes de São Paulo, a banda realizou um show em Londres, no Barbican Center, também gravado pela Zulu Filmes. O show londrino e um documentário da banda compõem um DVD, lançado em dezembro de 2006. 

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Mais música pop na Net A primeira novidade na programação da Net Serviços em 2007 é a entrada do canal pop VH1, da Viacom Networks do Brasil na plataforma digital da operadora. O VH1 substitui no line-up da Net Serviços o canal derivado VH1 Soul, e estará disponível nos pacotes digitais Silver e Gold. O VH1, canal de música, entretenimento e cultura pop e voltado ao público a partir dos 25 anos, foca sua grade nas celebridades do show biz, dos anos 70 a 90. A Viacom divulgou em dezembro que sua grade ganharia uma maior parcela de programação musical, por meio de videoclipes — por dia, são 14 horas ao longo da programação, inclusive madrugada. A entrada do VH1 faz parte da estratégia da operadora para valorizar o produto Net Digital, que, no balanço do terceiro trimestre de 2006 da Net Serviços, contava com 136 mil assinantes. Publicidade O VH1 nasceu com “feed” exclusivo para o Brasil, o que lhe garante uma programação diferenciada do canal internacional na América Latina e também inserções de publicidade para o País.

Show dos Mutantes ganhará especial para a TV

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fotos: divulgaçÃO

( scanner ) Mistérios em Curitiba O filme “Misteryos”, dos diretores Pedro Merege e Beto Carminatti, acabou de ser rodado em Curitiba em fevereiro, com um diferencial: a utilização das lentes anamórficas da Panavision. O filme, orçado em R$ 2 milhões, recebeu um prêmio de R$ 1 milhão no Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo do Paraná, além de contar com o apoio dos comerciantes locais para a sua realização. O roteiro, baseado nos cinco contos do livro “O Mez da Grippe”, de Valêncio Xavier, narra o desaparecimento de uma jovem exatamente no mesmo instante em que o homem pisava na Lua pela primeira vez, em 1969. Com este pano de fundo, retrata o clima marginal de Curitiba do final dos anos 60. A produção é da WG7BR e da ArteLux.

Mais brasileiro

Programação nacional O cinema brasileiro conta agora com um novo projeto para a exibição de recentes produções nacionais e filmes históricos em circuitos não-comerciais. Trata-se da Programadora Brasil, projeto de difusão do cinema nacional criado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura em parceria com a Cinemateca Brasileira e o Centro Técnico Audiovisual, que atenderá a cineclubes, pontos de cultura, escolas e universidades públicas e privadas, entre outras instituições. A Programadora Brasil, que será dirigida por Leopoldo Nunes, diretor da Ancine, conta, em um primeiro momento, com uma seleção de 126 títulos, abrangendo nove décadas da produção nacional. Os filmes, disponibilizados em DVDs, estão organizados em 38 programas temáticos e direcionados a públicos variados. Com um investimento de R$ 1,2 milhão para as fases de implantação e lançamento e um orçamento previsto de R$ 1,5 milhão para 2007, a Programadora Brasil visa um trabalho permanente, com lançamentos regulares de novos programas. Os DVDs são disponibilizados unitariamente, pelo valor de R$ 25; em pacotes de três DVDs, custando R$ 70; sete DVDs, por R$ 130; ou 38 DVDs, por R$ 600. Os circuitos não-comerciais devem se cadastrar através do site www.programadorabrasil.org.br tendo uma pessoa jurídica vinculada. O projeto inclui também a publicação de uma revista, que acompanha os DVDs (nos quais estão incluídos extras e encartes informativos) e a manutenção de um site na Internet.

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Com o objetivo de “abrasileirar” a programação do canal, a ESPN anunciou em janeiro que terá pela primeira vez programas produzidos totalmente no Brasil — a ESPN Brasil, criada em 1995, por sua vez, sempre contou com produção nacional. Em fevereiro estréiam cinco novos programas de entrevistas e debates, produzidos na sede do canal em São Paulo. Uma das grandes novidades é o programa diário sobre esportes radicais, o “Planeta EXPN”, que terá 20 minutos e será exibido primeiramente na Internet, sendo reprisado na TV apenas no dia seguinte. O programa poderá ser visto ao vivo ou baixado para um iPod ou outro dispositivo de vídeo. O jornalista Juca Kfouri ganha um programa de entrevistas, o “Juca Entrevista”, que vai ao ar às terças, quintas e sábados. Também às quintas, o “Fora de Jogo” debaterá o futebol internacional. Às segundas, “É Rapidinho”, um novo

Equipe do “É Rapidinho”

programa de debates, traz um formato diferenciado: os comentaristas terão poucos segundos para abordar cada assunto. Finalmente, às sextas, o programa “The Book is on the Table” abordará os esportes norte-americanos, como o baseball e o futebol americano, com explicações das regras para os fãs brasileiros. Além dos novos programas, as transmissões esportivas também ganham mais horários para comentários, antes e no intervalo dos jogos, com os programas “Abre o Jogo” e “Jornal do Intervalo”.

Estrutura da TV da Gente encolhe A TV da Gente, canal criado pelo cantor e apresentador Netinho de Paula, está desmontando toda sua a estrutura de produção própria em São Paulo. Desde dezembro, a emissora, que ocupa o canal 24 de UHF, pertencente ao Grupo Abril, vem dispensando sua equipe produtora na cidade, onde ainda mantém sua direção. A emissora estava sendo transmitida em São Paulo no horário da madrugada, o que inviabiliza sua estratégia comercial - o canal é gratuito e depende de venda de publicidade para se pagar. Agora a TV da Gente parte para a terceirização de produção nas demais cidades onde há distribuição e boa aceitação por parte da audiência. O canal de Salvador/BA, onde ocupa o canal 57 UHF, passa a ser o seu grande pólo de produção. Na capital baiana já há programas produzidos e com comercialização de publicidade. O canal, irradiado de uma geradora educativa cearense, é retransmitido em faixas de UHF em nove cidades do País e em países como Moçambique e na Costa Leste dos Estados Unidos.

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30 anos de espera Após mais de trinta anos engavetado, o filme independente “Geração Bendita”, proibido pela ditadura militar nos anos 70, finalmente está ao alcance do público. O produtor, Carlos Doady, depois de anos à procura dos negativos, conseguiu digitalizar o material e lançou o filme em DVD. Realizado em 1971, com a direção de Carlos Bini, “Geração Bendita” contava uma “Geração Bendita” trajetória hippie. O filme foi proibido pela censura no mesmo ano e os produtores foram presos. Em 73, com a ajuda de um censor, os rea­ lizadores conse­guiram refilmar as cenas que haviam sido cortadas da primeira versão e aprovar o filme. Após cinco dias da estréia em São Paulo, as cinco cópias disponíveis foram apreendidas pela Polícia Federal, e o filme ficou desaparecido até 2004. Foi neste ano que Doady recuperou os negativos, que se encontravam no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A partir do material, a Casablanca digitalizou e limpou o som do filme, que agora está disponível em DVD. “Geração Bendita” também ganhou legendas em sete línguas: português, espanhol, italiano, francês, inglês, alemão e japonês. O volume de trabalho proporcionado pelo filme resultou na criação da produtora Light & Dreams. Pelo site da produtora (www. eissoaibicho.com.br) é possível comprar uma cópia do DVD.

Primogênito de Pelotas Intriga e traição são os ingredientes principais do filme “Alta Ansiedade”, primeiro longa-metragem totalmente produzido na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul. O filme foi realizado com recursos da Associação Pelotense do Cinema Independente (Cinepel), e dirigido por José Antonio Mattos, “Alta presidente da associação. As filmagens Ansiedade” demoraram cerca de um ano para serem finalizadas, já que contaram com cerca de 20 profissionais, que intercalavam a produção com as suas atividades regulares. A idéia agora é disponibilizar o filme em DVD nas locadoras de Pelotas. Mattos acredita que o filme possa ajudar a divulgar a cidade, além de incentivar os cineastas da região, já que a Universidade Federal passa a ter, a partir deste ano, um curso superior de cinema. Festival regional A Cinepel tem outros planos relacionados ao incentivo à realização de filmes em Pelotas. Seus representantes planejam para agosto ou setembro um festival de curtas metragens focado em filmes produzidos por alunos das escolas de ensino médio da região, particulares ou públicas. A equipe da Cinepel fica encarregada de oferecer oficinas e o suporte técnico necessário para a realização dos filmes. Aos alunos caberá a produção de roteiro e a atuação.

Novidades do fundo do baú O programa infantil “Baú de Histórias”, da TV Rá Tim Bum, ganhou uma segunda temporada, com 13 episódios. Com novo formato, o programa dirigido por Mário Sérgio Cardoso passa a dar enfoque especial, a cada episódio, à cultura de um país, seus costumes e manifestações culturais. Os personagens conversam com um especialista no assunto, que explica o modo de vida de cada povo. Alguns dos temas a serem abordados são: ópera, música espanhola, capoeira e gaita de fole.


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Muito além do casting Foto: divulgação

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e em algumas regiões do Brasil os profissionais do audiovisual se tornam superespecializados, em outras ainda se mantêm a diversidade e o ecletismo. Belém tem uma forte tradição nas artes do espetáculo e vem aumentando sua participação no cinema brasileiro. Hoje, atende uma grande quantidade de produções de fora e por isso seus profissionais têm a oportunidade de trabalhar com grandes equipes estrangeiras, com produções nacionais e com o teatro. Ator, produtor de casting, diretor de vez em quando. Claudio Barros tem formação de ator e foi um dos fundadores do Grupo Cuíra do Pará, que integra até hoje e que há 25 anos atua no estado, não só apresentando espetáculos mas também oferecendo oficinas e realizando pesquisas. A entrada de Claudio na área de audiovisual começou na década de 1980. Fiz um teste para uma produção americana filmada aqui. Meu primeiro set foi na pele de um seminarista que corria atrás do menino selvagem, protagonista da fita. Foi o suficiente pra ficar apaixonado por aquilo tudo. Anos

claudio barros fazia os personagens americanos. Foram nove meses de puro aprendizado. Depois desse filme é que realmente iniciei minha pequena história cinematográfica. Já trabalhei como assistente da Fátima Toledo em outro filme, fiz outros cinco longas, alguma publicidade e mais seis curtas produzidos aqui em Belém. Como produtor de casting, foi responsável pelos longas “Tainá” 1 e 2, além de vários filmes estrangeiros. Quando chega alguma produção cinematográfica, quase sempre procuram tipos físicos com traços da região

“em uma seleção para atrizes índias, a primeira menina da fila era uma loira de olhos claros.” depois, foi um tipo de “faz-tudo” no filme “Brincando nos Campos do Senhor”, de Hector Babenco. Na verdade, fiz o filme porque a Fátima Toledo [preparadora de atores] quis. Nos testes de elenco, ela percebeu meu envolvimento e me aproveitou como stand-in dos atores americanos. Como eles não ensaiavam com antecedência, eu

amazônica. Nesse contexto, vale tudo. Trabalhamos com atores e não-atores, dependendo do diretor. No filme “La Gran Final”, do diretor espanhol Gerardo Olivares, trabalhei com índios mesmo, sem nenhum ator. No projeto “Tainá” 1 e 2, nosso trabalho foi desafiador e exigiu uma busca mais complicada. Durante seis meses visitamos várias comunidades e pequenas cidades da região Amazônica 12

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fazendo uma busca silenciosa e delicada. Eunice Baía (“Tainá” 1 e 2 e “Amazônia”) e Arilene Rodrigues (“Tainá 2”) surgiram nesse processo. Uma história engraçada aconteceu durante a seleção das atrizes mirins. A equipe buscava uma atriz para viver a Catiti, personagem do segundo filme, e a procura era por uma atriz com traços indígenas. Resolvemos, na volta de uma das viagens do interior, fazer dois dias de testes em Belém. Chegamos bem cedo e já encontramos uma fila enorme. A primeira da fila era uma menina linda, loira, de olhos claros e pele bem branquinha. Não entendemos nada. A mãe desesperada foi logo dizendo que tinha viajado sete horas de ônibus para chegar e ser a primeira da fila. Que se fosse necessário a filha pintava os cabelos e ela mesma comprava as lentes de contato para escurecer os olhos da criança. Mas pediu pelo amor de Deus que não a deixássemos voltar sem fazer este teste. Foi difícil, acabamos fazendo o teste e desejamos boa sorte e feliz viagem de retorno. No segundo semestre de 2006, Claudio enfrentou seu mais recente desafio no casting cinematográfico, no filme “Andar as Vozes”, da cineasta Eliane Caffé, rodado em Belém e outras cidades do Pará. Montamos várias frentes de busca, selecionando elenco em todas as cidades. Ao todo foram selecionados 46 atores e mais de mil figurantes. Cada produção estabelece uma linha de trabalho e uma lógica de raciocínio, especifica daquele roteiro. Única. Nosso trabalho é descobrir um formato de busca que resolva o problema. O bom é que nunca repete. (Lizandra de Almeida)

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Fotos: divulgação

Reconhecimento internacional O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho foi homenageado durante a 36ª edição do Festival Internacional de Roterdã, na Holanda, que aconteceu entre os dias 24 de janeiro e 4 de fevereiro. O programa “Short Features Filmmaker Focus”, dedicado a realizadores do futuro, apresentou cinco filmes de curta-metragem realizados por Kleber Mendonça Filho ao longo dos últimos dez anos, que contabilizam 64 prêmios nacionais e internacionais. São eles: “Enjaulado”, “A Menina do Algodão”, “Vinil Verde”, “Eletrodoméstica”, e “Noite de Sexta Manhã de Sábado”. O programa também homenageou a dupla inglesa Desperate Optimists (Joe Lawlor e Christine Molloy), de Liverpool, e a alemã Jeanne Faust, de Hamburgo. Além da apresentação dos filmes, a sessão inclui uma discussão sobre os filmes e as influências importantes para o realizador.

Dupla função Gilson Roberto Granzier foi eleito novo diretor de relações com investidores da Vivax, em substituição a Carlos Eduardo Norbert. O novo diretor de relações com investidores já atuava na companhia como diretor financeiro desde 2005 e agora passa a acumular as duas funções.

Novo diretor A Companhia de Cinema tem um novo diretor de cena em seu elenco: Sergio Glasberg. O diretor atuou durante dez anos como montador, sendo responsável por finalizar filmes de grandes campanhas para anunciantes como General Motors, Johnson & Johnson, Gessy Lever, Fiat e Nestlé. Em três anos como diretor de cena, Glasberg contabiliza filmes para agências como W/Brasil, Age, Eugenio, Loducca e Z+.

Planos para o atendimento Como parte do planejamento de novos negócios para 2007, a produtora VCA Filmes contratou Laura Visconti para a área de atendimento. Laura chega à produtora após atuar na Sentimental Filme e na RN Comunicação Total.

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FotoS: divulgação

( figuras) Novo grupo

Atendimento reforçado

3 O crescimento da 1 QG Propaganda em 2006, com a conquista de sete novas contas, 2 levou a agência a montar um segundo grupo de contas no departamento de criação, em São Paulo, de responsabilidade de Sérgio Lopes (2), sócio e VP de criação da agência. Marcello Droopy (1) é o novo diretor de criação do grupo dos clientes Dicico, Cacau Show, Mapfre Seguros e Hipercard, enquanto o grupo Fininvest, Hopi Hari, POP e Droga Raia, fica a cargo de Paulo André Bione (3), diretor de criação da QG há três anos. No escritório em Porto Alegre, Hugo Novaes chega para dividir a direção de criação, no time que atende os clientes Hipermercados Big, Elegê, Josapar e Ipiranga.

Wander Damiani, ex-RTVC da Publicis, e Renata Pimenta, que atuou durante três anos como assistente de direção, foram contratados pela Sentimental Filme. O objetivo da produtora é reforçar o time do novo departamento de atendimento.

De saída José Paulo de Freitas, diretor da Net Serviços, deixou o cargo de presidente do Sindicato das Empresas de TV por Assinatura (Seta), em função, segundo o executivo, de incompatibilidade de agendas. José Paulo renunciou também à vice-presidência da Febratel.

Gerentes de vendas

Daniel Djahjah

André Meirelles

De olho na programação

O departamento de Negócios Internacionais da TV Globo tem um novo gerente de vendas para as Américas. Daniel Djahjah será o responsável pela gestão estratégica da região, com atribuições como a negociação de conteúdo e a administração da carteira de clientes. Djahjah trabalhou como gestor de vendas internacionais na Net Rio, Telemar e Silimed. Enquanto isso, André Meirelles foi promovido ao cargo de gerente de vendas dos países da Europa, Oriente Médio e África. Meirelles chegou à Globo em 2005 como executivo de vendas. Os dois profissionais se reportam diretamente ao diretor de vendas do departamento de Negócios Internacionais da TV Globo, Raphael Corrêa Netto.

A Discovery Networks Latin America/US Hispanic (DNLA/USH) anunciou Vicky Zambrano como nova diretora de programação do canal People+Arts. Ela será responsável por dirigir as iniciativas de programação do People+Arts, com a identificação e aquisição de novos programas para a região, e a administração da grade de programação e das estratégias do canal. Zambrano chega à Discovery depois de trabalhar na HBO Latin American Networks, onde foi diretora de aquisição de programação e planejamento estratégico.

Renovação de pessoal A Datamídia,FCBi 3 2 começou o ano com contratações. A ex-Fá1 brica Daniela Duarte (1) chega para reforçar o planejamento, no cargo de gerente de projetos. O departamento de criação recebe Patrícia Tanaka (4), ex-Fórum Access, e Cléber Zerrenner (3), ex-Urbana, como diretores de arte na área de Web. Débora Damasceno (2) é a nova assistente do departamento financeiro. No Rio de Janeiro, a agência conta agora com Gilberto Couto como gerente de projetos, no atendimento à Coca-Cola. Gilberto passou por empresas como IBM, Infoglobo e Skop Sprinklers.

Produtora para documentários Krishna Mahon chega à Grifa Mixer para assumir o cargo de produtora executiva. A profissional chega à produtora após uma atuação de seis anos na Discovery Networks, com atuação na produção de arte — com 24 Promax Awards em seu currículo — e no departamento de produção original. Além da Discovery, Krishna também passou pela Rede Minas, como repórter, e realizou curtas-metragens.

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Contratação para 2007

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A Estação 8 contratou, no final de 2006, a produtora Daniella Lago (1) para a gerência de atendimento. Ela chega para reforçar os trabalhos de prospecção e para dar andamento aos atuais clientes da casa. Daniella tem passagens pela Africa, Y&R e Artplan, como produtora de RTVC, e pela Tec Cine, Art & Luz, Script e Jere Filmes, onde foi responsável pelo atendimento. A produtora ainda reforça o Núcleo de Desenvolvimento de Projetos e Conteúdos Diferenciados em 2007 com a contratação da roteirista e jornalista Beth Ritto (2) , a cineasta Andrea Pasquini (3) e o consultor jurídico Fábio Figueiredo (4) , especializado em leis de incentivo e projetos culturais. Beth Britto também representará a Estação 8 no Rio de Janeiro.

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N達o disponivel


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Samuel Possebon, do Rio de Janeiro

s a m u c a @ c o n v e r g e c o m . c o m . b r

Na onda desenvolvimentista fotos: nando neves

Em entrevista exclusiva, Manoel Rangel conta como pretende conduzir a Ancine frente aos desafios (e muitas oportunidades) gerados pelo novo ambiente do audiovisual.

Manoel Rangel, presidente da Ancine

M

anoel Rangel, o novo presidente da Ancine, foi um dos persona­ gens mais ativos na política audiovisual do primeiro governo Lula. Agora ele assume o comando da agência que ele mesmo, ao lado do Ministério da Cultura, um dia propôs reformar, tranformando-a em Ancinav. Um registro histórico precisa ser feito: bem antes da discussão da An­cinav, a Ancine esteve ameaçada de morte. Havia, dentro do governo, a avaliação de que ela seria “desne­ cessária”. Rangel atuou ativamente para que o governo Lula revertesse essa percepção e mantivesse esse instrumento de regulação do mercado audiovisual, e teve sucesso. Quem acompanha o discurso de Manoel Rangel desde o começo do governo Lula percebe que existe coerência, mesmo quando suas ações tomam rumos diferentes. Ele 16

sempre falou em desenvolvimento da indústria, e esse discurso é claramente percebido nessa entrevista. O que parece ser diferente são os mecanismos propostos para atingir esse fim. Por esta entrevista, percebese que a Ancine deve ser ativa em ações de fomento, mas também com forte ação reguladora. Manoel Rangel não está (como esteve um dia) preocupado em mudar os grandes marcos regulatórios do setor, nem em reformar a Ancine. Mas deve usar todas as ferramentas que a lei deu à agência para corrigir as distorções que ele diagnostica no setor audiovisual. TELA VIVA - A orientação política para a Ancine deveria vir do Conselho Superior de Cinema, que anda meio apagado desde a discussão da Ancinav. De onde vem, hoje, a orientação política para os trabalhos da agência? MANOEL RANGEL - A Ancine •

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opera com autonomia em seu colegiado e tem recebido essa orientação do Poder Executivo no que diz respeito às políticas do audiovisual. Evidentemente, a agência procurou se articular com a política formulada pelo Ministério da Cultura e pelo Governo Federal. Quem dá essa diretriz, em nome do governo, é o ministro Gilberto Gil. Aspiramos que o Conselho Superior de Cinema volte a ter pleno funcionamento, sei que existe movimento nesse sentido no MinC e na Casa Civil para nomeação dos novos conselheiros. Certamente ele trará uma visão privilegiada, mais abrangente, para a formulação da política e exame desta política, cuja competência é do MinC, cabendo à Ancine a sua execução da melhor forma possível. Acho que o conselho se somará ao trabalho da Ancine. Ele somará na capacidade de interlocução e preparará ações

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nos aspectos que exijam negocia­ ção e melhor mediação. Mas este instrumento não substitui os gru­pos de pressão individuais, as enti­dades. Há um conjunto de media­ções maior que tem que ser feito. O que se pode esperar da Ancine na sua gestão? Uma agência mais reguladora, mais fomentadora ou mais fiscalizadora? Qual a deficiência a ser atendida? A natureza principal é a de regulação. Essa função é desempe­ nhada contando com um braço de fomento e um de desenvolvimento. A fiscalização é decorrência das outras competências. Não podemos nos dar ao direito de escolher um só eixo. Nos últimos cinco anos a agência se instalou, criou seu corpo técnico, permanente e qualificado. Nos próximos anos, teremos que lidar com a realidade de um mercado que possui muitas distorções, altamente concentrado, e o nosso desafio passa a ser enfrentar esse mercado com foco no crescimento. O mercado de cinema e audiovisual é pequeno e insuficiente para todos. Nosso esforço precisa ser no alargamento deste mercado e a correção das distorções. Por isso, teremos de lançar mão de instrumentos de regulação, como um sistema de recolhimento de informações dos agentes econômicos. Precisamos conhecer mais e melhor o mercado de DVD, TV por assinatura, outras e novas plataformas, de forma que isso embase as ações da agência para equilibrar e desenvolver o funcionamento do mercado. Que distorções são essas a que você se refere? Vemos que ainda há poucas salas de exibição, o que mostra imenso potencial de expansão. Há déficit de salas nos municípios, há uma relação ruim de espectadores por salas, há poucas distribuidoras brasileiras e distribuidoras pouco capitalizadas, poucas programadoras nacionais para a TV paga, pouco conteúdo nacional sendo veiculado, pouco filme T e l a

nacional e produção independente na televisão aberta... Por isso a ênfase será na expansão do mercado. E isso terá que ser acompanhado de um esforço regulatório.

Quando você fala em expansão dos mercados e cita todos esses problemas, significa que não haverá prioridade de áreas de atuação? Por exemplo, a prioridade que a Ancine sempre deu ao filme médio? Todas as áreas estão no nosso mapa. A agência terá o seu foco no conjunto da produção, com cinemato­ grafia de A a Z, que dialogue com o público, seja ele de 50 mil ou cinco milhões de espectadores. Uma cine­matografia precisa de todos os públicos, formatos e temáticas. O mesmo vale para a produção para TV, e é isso que a produção indepen­ dente pode oferecer de melhor para a TV paga e aberta. A produção inde­pendente pode agregar muito mais inovação e criatividade, pela sua característica mais livre. Quem vai escolher o que assistir é o mercado. Outra coisa é a necessidade de mecanismos específicos para cada nicho de produção. São precisos mecanismos para obras de renovação estética e de linguagem, e para obras de alta comunicação com o público.

São distorções que transcendem a questão do cinema. Você encara a Ancine como uma agência de audiovisual? A MP 2.228 de 2001 constituiu a Ancine assim. Constituiu a An­cine como uma Agência Nacional do Cine­ma e de toda a circulação de cinema e obras audiovisuais nas diversas platafor­mas. Nossa atuação é dentro destas competências. Então o que falta para ser Ancinav? Na discussão sobre a Ancinav havia uma ambição maior de retrabalhar as ba­ses da comunicação social eletrônica no Brasil e do compartilhamento das respon­ sabilidades entre Ancine e Anatel e entre MinC e Ministério das Comunicações. Quando eu digo que a Ancine já tem essas competências, me refiro basicamente à capacidade da agência de ter o acompa­ nhamento e fiscalização do conjunto do mercado de circulação de obras

“Nosso desafio é enfrentar este mercado cheio de distorções com foco no crescimento.” audiovisuais. Somos nós, por exemplo, que fazemos o recolhimento da Condecine, que é uma taxa obrigatória para que uma obra estrangeira ou brasileira seja veiculada em qualquer plataforma, de forma gratuita ou não. Todos têm que registrar essas obras, temos o direito de recolher informações de praticamente todos os segmentos do mercado, exceto da TV aberta. A decisão do presidente de desmem­ brar essa discussão em janeiro de 2005 e dar continuidade a ela de outra maneira baseou-se no raciocínio de que deveríamos ter, precedendo à criação de um órgão, uma Lei de Comunicação Social Eletrônica. Abriu-se essa discussão dando continui­ dade ao reforço da capacidade da Ancine para desenvolver a política nacional cinema e do audiovisual internamente e também para o mercado externo. A Lei 11.437 deu um grande passo nessa direção, dando as bases de um novo ciclo de crescimento. Vi v a

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O cinema brasileiro tem uma forte deficiência no que está no meio do caminho, entre esses dois extremos. É o mesmo raciocínio que se faz no mercado de distribuição, onde há parcelas altamente rentáveis e outras medianamente rentáveis, e aquelas com baixa rentabilidade. Não se pode abrir mão de nenhuma delas. É uma equação econômica que tem que ser olhada tendo ao lado uma equação cultural. Esses dois aspectos não podem se anular. Alargar o mercado urgentemente é uma premissa para as duas equações se resolverem. Isso é uma preocupação da Ancine ou da política atual? O discurso da Ancine é fortemente econômico, porque essa é a função dela. Quando me refiro a essa dimensão cultural, ela está posta •

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( capa) O mesmo se aplica à Anatel e ao departamento de Classificação Etária do Ministério da Justiça. No caso da Anatel, é uma agência irmã da Ancine pela realidade tecnológica. Então, acho que cada um dos órgãos opera por conta própria e conversando mais e mais, sem centralização e com coordenação.

“Não existe dicotomia entre economia e cultura, e esse é um pensamento novo, surgido na gestão gilberto gil.”

atribuições da Secretaria do Audiovisual do MinC. O que eu quero ressaltar é que não existe dicotomia entre economia e cultura, e esse é um pensamento novo, que eu imagino que tenha surgido na gestão do ministro Gilberto Gil como vetor do trabalho do MinC. Passa também pela dimensão da cidadania e da dimensão simbólica. Isso é que nos dará uma política nacional de cultura eficiente.

que eu falei. No programa de financiamento à TV digital, que é um programa que atende às empresas que querem se digitalizar, há estímulos para a produção independente. O mesmo pode ser visto nos programas da Apex. O Itamaraty montou uma divisão de audiovisual lá dentro, o que também é inédito, sinalizando para uma outra postura na ação internacional. O papel da Ancine ao encarar a regulação e a ocupação do mercado é também o de exercer alguma coordenação dessas diferentes iniciativas do governo. O importante é que todas estas ações estejam articuladas.

O problema é que tratando da questão audiovisual sob todos os aspectos, outros agentes como BNDES, Anatel, Ministério da Justiça, tudo isso precisa fazer parte. Não é uma situação complicada? É saudável que isso esteja sendo tratado em diferentes esferas, sobretudo porque o Estado brasileiro tem vários e bons instrumentos que precisam ser utilizados por diversos setores da economia. A questão é que historicamente a Cultura não era trabalhada na sua dimensão econômica. Isso veio com o ministro Gil. Trabalhamos com o BNDES, de forma articulada, como parte de uma política pública. Eles criaram o departamento de economia da cultura, que é uma inovação no Brasil. Esperamos que isso contamine o setor financeiro em geral. Isso é parte do esforço de expansão de 18

Esses exemplos são muito mais ligados ao fomento. Mas no caso da regulação, os papéis se sobrepõem, como acontece com Anatel, Cade, Ministério da Justiça. Essa fragmentação deve permanecer ou é preciso orquestrar esse trabalho? Não há nenhuma pretensão de que a Ancine coordene essas outras atividades ou mesmo as orquestre. Com BNDES, Itamaraty, Apex, o que fazemos é muito mais trabalhar em sintonia, e acho que a mesma coisa já acontece e vai se aprofundar com outros órgãos. A Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE) do Ministério da Fazenda acompanhou passo a passo o trabalho da Lei 11.437, pensaram sobre a matéria e trouxeram opiniões, influenciando nosso trabalho. •

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O MinC tem uma preocupação muito relevante que é o incentivo à chamada “cultura digital”, que é revolucionária e inovadora, mas, ao mesmo tempo, transgressora em relação a regras hoje estabelecidas. E isso se manifesta sobretudo na questão dos direitos de proprie­dade intelectual, na difusão digital, que muitas vezes esbarra na questão da pirataria. Como a Ancine lida com essa questão? O MinC tem múltiplas funções, e uma delas é alargar os horizontes do pensamento e da reflexão, procurando entender o que virá no futuro e o que está acontecendo no presente, e isso é feito de forma democrática, abrindo espaço inclusive para o que é controvertido. À Ancine compete a obediência aos marcos legais. A pirataria representa no ambiente do cinema e do audiovisual a perda de capacidade econômica, a desorganização do mercado, a perda de eficiência e capacidade de competição. No limite, leva ao desaparecimento de um mercado. Foi o que aconteceu com o mercado de locação na América Latina, exceto no Brasil. Aqui ele ainda é forte e presente em 65% dos municípios, sendo o maior faturamento dos filmes no nosso mercado interno. Esse segmento sofre brutalmente com a pirataria. O Ministério da Cultura não endossa, obviamente, a pirataria. O conceito de cultura digital não abarca a máfia de operações industriais de venda de produtos que pertencem a terceiros, de forma criminosa, com exploração de mão-de-obra barata... Mas que tem consumo e, portanto, atende a uma demanda.

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Não existe uma demanda da sociedade pela pirataria. Esse tipo de coisa é uma desestruturação do mercado, não o atendimento de uma demanda. O que existe, é claro, são aspectos culturais, aspectos de esclarecimento público, e também questões de custos, que são elevados na nossa indústria, excluindo boa parte da população. Por isso que quando falamos em alargar o mercado, estamos pensando em construir um forte mercado de consumo de massas. Isso significa que precisaremos de CDs e DVDs a preços muito mais baixos do que os de hoje, para que possam ser comprados pelas pessoas. Será necessário estimular e fomentar esses setores, com ações como o programa de Cultura do Trabalhador do MinC, que instituirá o “ticket cultura”, um benefício que poderá ser trocados por peças de teatro, cinema, aluguel

de DVDs, compra de livros, CDs etc. As obras audiovisuais que são assistidas pelos brasileiros ou distribuídas pelos brasileiros via YouTube, por exemplo, não são registradas na Ancine, nem recolhem Condecine. É uma subversão trazida pela “cultura digital”. Como vocês se preparam para lidar com isso? Certamente não será proibindo o YouTube, que é um fenômeno contemporâneo que está na proa de novas possibilidades. Mas ali existe uma relação de mútua doação, não envolve trocas comerciais. A atividade autoral, pessoal, festas de casamento, batizados, isso tudo não é um objeto de preocupação da Ancine... Entre os vídeos mais assistidos do YouTube estão os produzidos pela CBS, ABC, grandes estúdios de cinema, e que ali são distribuídos sem controle. O conceito da Condecine implica o

acompanhamento e controle dos segmentos de mercado. Portanto, o que está implícito é a exploração comercial. Enquanto não houver exploração comercial, tudo bem. Quando houver, teremos que ter os meios de garantir que isso seja feito dentro das regras estabelecidas. Esse é o x da questão, que é o mesmo da pirataria. A preocupação que existe é a exploração comercial de obras cujos direitos pertencem a terceiros. A preocupação não é com a música ou o filme que você pegou de um amigo, um para um. O problema é a escala comercial, é ganhar dinheiro com a propriedade do outro... Se ninguém está ganhando, o que há é a livre circulação de informação, de idéias, de cultura. Só que também ai alguém está deixando ganhar. Como é que vocês estão se preparando para isso? Já há

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( capa) “é preciso garantir que as produtoras independentes tenham maioria nos direitos patrimoniais das obras.”

os parâmetros da produção. Invariavelmente, aqui ou qualquer lugar do mundo, quem coloca o di­nheiro e faz a operação de distribuição é quem condi­ciona que produto tem interesse e condiciona o desenvolvimento do projeto. É assim que funciona com o Artigo 39, com o Artigo 3º e não será diferente com o 3º A. A experiência que temos com o Artigo 39 é positiva e não há relatos de problemas graves. O que ouvimos é que as produtoras têm alto grau de autonomia, mas isso, é claro, depois de um acerto sobre o produto final. O que temos que observar em todos os casos, sobretudo na futura regulamen­tação do artigo 3º A, é que não se desvir­tue a finalidade de atender a produtora independente. É preciso garantir que as produtoras independentes tenham maio­ria nos direitos patrimoniais das obras e que se convertam em capital efetivo a ser explorado. É importante também que essas produtoras tenham a possibilidade de explorar as obras em outros mercados além do Brasil. Não se pode permitir que o produtor independente seja só um prestador de serviços terceirizado. O Estado é quem permitiu que uma determinada empresa administrasse um recurso, mas a natureza segue sendo pública. Esse modelo é bom porque permite maior eficiência, menor burocracia, permite melhor adequação das necessidades. O melhor modelo é o de regular abusos. E o fundo setorial, como será regulamentado?

há hoje empresas de celular e portais de Internet explorando conteúdos audiovisuais. Essas empresas sabem que devem Condecine, e seus advogados estão bem informados sobre isso. A Ancine tem se preparado para acompanhar a obrigatoriedade do registro dessas obras, mas ainda não iniciamos uma operação direta junto às empresas. Até o final do ano co­ meçaremos operações. Como somos um órgão novo, pequeno, tivemos que priorizar algumas ações antes, sobretudo nos segmentos tradicio­ nais. Mas faremos isso nas outras mídias até o final do ano. Como você vê os mecanismos de incentivos como o Artigo 39 da MP 2.228 e o Artigo 3º A da nova Lei do Audiovisual, em que o contribuinte é quem decide sobre a aplicação dos recursos? E como resolver o problema de que muitas vezes o produtor perde capacidade de decidir sobre sua própria obra? A nossa indústria de audiovisual tem a característica de que quem põe o dinheiro e faz a difusão é quem decide em grande medida 20

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Vem no âmbito das demais regulamentações que estão sendo preparadas, como a do 3ºA, 1ºA e outras que estão por vir e colocadas na Lei 11.437. O fundo setorial passa por um arranjo complexo delicado, que é a construção do comitê gestor, preparar os agentes financeiros que serão operadores, definir os programas com base nos quais os recursos serão concedidos. O fundo foi concebido para dar maior flexibilidade de investimento e permitir investimentos dirigidos. O desafio principal é trabalhar financiamento, participação acionária em empresas do setor e fomentar a associação a projetos e programas, visando retorno de capital e eventualmente reforçando as linhas de apoio direto. Haverá investimentos a fundo perdido também? É um fundo cujo vetor principal é desenvolvimento, e sendo assim não terá dificuldade de operar com recursos não reembolsáveis quando esta for a necessidade detectada. Mas ele deverá primar pelos investimentos reembolsáveis. Devemos levar uns seis meses nesse processo. Como será o comitê gestor? Será uma instituição gerenciadora do montante do fundo, mas não operador. Ele será essencialmente governo, com representação do setor, mas ainda não está definido qual o peso de cada um. E o problema histórico da integração da produção audiovisual independente e do cinema com a TV aberta. Como isso pode ser corrigido? A TV digital é que resolverá isso? Há várias formas. A que olhamos agora é o caminho do estímulo a esta integração e vamos operar o aprofundamento dessas relações com mecanismos como o artigo 3ºA, que abriga as programadoras, as TVs abertas, que dá mais recurso aos canais internacionais. A linha de financiamento do BNDES para TV digi­

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tal tem o mesmo perfil, assim como o Procult. A diretriz política é a do estí­ mulo. As TVs foram muito receptivas em relação à proposta do artigo 3ºA e acredito que no futuro teremos mais braços de operação no cinema como a Globo Filmes, o que contribuirá para a integração. Ao lado disso, há a TV digital, que abre a oportunidade rica de um conjunto de novos canais. As redes públicas também trarão essas oportunidades, e o Fórum Naci­ onal de TVs Públicas é uma iniciativa inédita nesta direção. Tudo isso refor­ çará a associação entre cinema e TV e entre TV e produção independente. Em 2006 houve uma queda de 3% no número de tickets de cinema vendidos, sendo de 12% entre os filmes nacionais. Por outro lado, um recorde de mais de 70 lançamentos brasileiros. Qual o diagnóstico? Houve mais lançamentos não só de filmes nacionais, mas também de filmes estrangeiros, e isso tem que ser olhado. No caso dos filmes brasileiros o crescimento no número de lançamen­tos coincide com um momento em que mais filmes ficaram prontos. Há mais filmes sendo produzidos e ficando prontos ano a ano. Em termos de market share, está consolidado um patamar de mais de 10%, e crescendo. Não conto 2003, que foi um ano atípico (o market share dos filmes nacionais superou 20%). Os dois dados, portanto, indicam crescimento do cinema nacional. Mas o que condiciona é a capacidade de consumo, ou seja, custo do ingresso. E a renda dos exibidores cresceu mesmo com a retração da venda de tickets, o que só se explica pelo aumento de preços. Outro fator é a característica da safra, e isso depende de filmes que geram demanda e que despertam as pessoas para o cinema. Pela quantidade de filmes estrangeiros lançados, vê-se que nem os títulos estrangeiros nem os brasileiros tiveram um bom momento em 2006. Em 2003 foi muito parecido, só que com um desempenho excepcional do filme brasileiro à época. E também não T e l a

posso descartar a hipótese de que a queda do mercado de cinema corresponda a uma certa tendência derivada da expansão do mercado de DVDs. Esse mercado está se expandindo muito.

aportar. Levaremos uma reflexão sobre as relações entre cinema, produção independente e televisão, das relações entre as cabeças de rede e suas afiliadas, sobre a necessidade de mais conteúdo brasileiro em todas as plataformas. Mas aprendi e estou convicto de que a construção de uma Lei de Comunicação compete à sociedade brasileira antes de tudo. A aspiração virá da sociedade. Todos os agentes econômicos e toda a sociedade civil precisam estar convencidos disso. Uma vez construído este amplo entendimento, caberá ao Congresso fazer a pactuação. Meu sentimento é que todos já querem enfrentar esse debate. Meu sentimento é que as TVs precisam de uma Lei de Comunicação Social Eletrônica urgentemente, as teles também, para definir seu papel no ambiente convergente. Parece, então, que o momento chegou, mas não sei se cabe ao governo apresentar algo pronto. É preciso pedir aos setores que apresentem seus planos e nos digam como encaram e vêem o ambiente da comunicação no Brasil e o que esperam. O governo mediará e arbitrará o passo inicial que será levado ao Congresso.

Há levantamentos sobre esses dados? Como está o cinema brasileiro no mercado de home-video? Essa é a nossa tarefa para o primeiro semestre deste ano. Temos que ter esses dados do mercado de DVD. Temos acesso inequívoco a esse mercado depois da Lei 11.437, inclusive com a possibilidade de instalar um sistema de receitas dentro das replicadoras e distribuidoras. O que temos hoje são os grandes números, mas não o market share dos brasileiros, os títulos. Não sabemos se existe uma relação entre o que faz sucesso na sala e o que sai em DVD. O que não teremos é o levantamento do mercado de locação, porque é mais complexo. Mas nos aproximaremos. Depois da Lei 11.437, existe mais alguma medida que a Ancine precise e que dependa de lei ou mudança profunda no marco regulatório? Acho que eu tenho instrumentos suficientes para navegar por um bom tempo agora com a nova lei e com a MP 2.228/01. Não estou preocupado com a revisão dos marcos do setor do cinema e do audiovisual. As tarefas estão colocadas e há um programa a cumprir. Meu desafio é a regulamentação plena de tudo. É claro que se for aberto o debate da Lei de Comunicação Social, e se formos convidados a compor este debate, teremos muito o que

“Não estou preocupado com a revisão dos marcos do setor do cinema e do audiovisual. as tarefas estão colocadas e há um programa a cumprir.” Vi v a

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( radiodifusão)

Carlos Eduardo Zanatta, de Brasília

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O imbróglio das concessões Após 18 anos de ineficiência, os poderes Executivo e Legislativo e os radiodifusores começam a questionar e discutir o papel do Congresso na concessão e renovação de outorgas de rádio e televisão.

O

texto constitucional que obriga a passagem pelo Congresso Nacional das outorgas e renovações de emissoras de rádio e televisão, colocado na Constituição Federal em 1988, atingiu a maioridade em 2006. Desde a criação da regra não se conseguiu fazer com que estes processos andassem rapidamente. Ao contrário, está cada vez pior. O que era para ser um aval da sociedade brasileira (amplamente representada no Congresso Nacional) à prerrogativa que o Poder Executivo tem de determinar quem pode e quem não pode fazer rádio e 22

televisão no Brasil, acabou sendo um tormento tanto para radiodifusores sérios quanto para deputados idem. Em 1990, a comissão técnica que deveria fazer a análise das mensagens baixou uma resolução (a 01/90) para orientar os deputados relatores. Eram tantas as exigências, que os processos se transformaram em calhamaços. A resolução determinava, por exemplo, que o processo fosse instruído com documentos puramente formais ou que já eram exigidos pelo Ministério das Comunicações, como: requerimento da concessionária, parecer da Secretaria de Comunicações, laudos de vistoria técnica (para as renovações), documentação dos cotistas, certidões negativas de •

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órgãos fiscais e previdenciários (com validade curta), além da exposição de motivos do ministro que o encaminhava. E mais: a lista de todos os empregados da emissora com a designação de seus cargos, a programação semanal com diversas especificações e as manifestações de apoio ou de contestação à renovação da concessão apresentadas em qualquer instância durante o processo. Para as novas outorgas havia 17 itens de exigência. Em 1999, a Comissão reformou a resolução, acrescentando algumas exigências e retirando outras, como por exemplo, o recebimento das manifestações de apoio ou restrição

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Hélio Costa: ministro é favorável a um sistema de audiências públicas coordenadas pelo Congresso no local das operações.

foto: Itamar Ro-

às renovações e a descrição da programação veiculada. A novidade é que no texto da resolução a Comissão estabeleceu que o processo já viesse do Minicom instruído com a totalidade dos documentos. Esta determinação não funcionou totalmente, porque os atrasos e a perda de validade das certidões eram constantes, por demora na tramitação. Vale lembrar que, uma vez aprovado na Câmara, o processo ainda vai para o Senado para que seja apreciado na Comissão de Educação da casa, onde está em vigor uma regra de 1992, praticamente igual à que a Câmara fez em 90. Burocracia Concretamente, a tramitação das outorgas no Congresso tornouse uma fonte de problemas para os radiodifusores que tratam seu negócio com seriedade; um jeitinho dos “picaretas” empurrarem sua incompetência e ilegalidade com a barriga; e uma fonte de prestígio para os deputados interessados em relatar processos “atendendo a pedidos”. Consultores que trabalham representando os radiodifusores junto à Comissão da Câmara no encaminhamento dos processos são unânimes em avaliar que a situação é caótica. Por razões profissionais, nenhum deles quer ser identificado, mas os depoimentos são contundentes: “sei de gente que não tem o menor interesse em atender às exigências da Câmara, até para evitar a atualização dos impostos, que eles não pagam mesmo”, diz uma fonte. “O problema são os deputados que pegam o projeto para relatar e ficam aguardando a presença dos interessados para pressioná-los. Não sei de algum que tenha pedido dinheiro para os meus clientes, mas eu não vou duvidar se alguém disser que conhece algum caso”, revela um consultor. “Tem proprietário que arrendou a rádio (o que é absolutamente proibido pela lei) e não se empenha em renovar

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ministro das Comunicações, que vinha sistematicamente recusando o convite para comparecer à Comissão e discutir as possíveis mudanças de procedimento. Os deputados rejeitaram todas as 83 outorgas que estavam na pauta daquela sessão, boa parte de rádios comunitárias, argumentando que os documentos encaminhados pelo Ministério das Comunicações não permitiam “atestar a regularidade fiscal e judicial da emissora na data de apreciação do Ato pelo Congresso Nacional”. Qual a razão para a recusa do ministro em comparecer à Comissão da Câmara? Ainda mais quando se considera que Hélio Costa é um político experiente, senador, deputado federal por dois mandatos, um deles como constituinte, e também presidente da Comissão de Educação do Senado, por onde também passam as mensagens de outorga e renovação de emissoras de radiodifusão. “Não fui porque não ia à Câmara para dizer aos deputados que a culpa era deles e que eles estavam dando o encaminhamento errado para os processos”, observa o ministro. Hélio Costa lembra que no caso das 225 outorgas que estavam paralisadas na Comissão, de acordo com a resolução 1/99 (que está em vigor), quando faltam documentos para instruir os processos, a Comissão deve dar 90 dias para que o interessado resolva o problema. Caso isso não aconteça, o processo deve ser devolvido ao Minicom: “não aconteceu nada disso”, afirma Costa. “A Comissão não esperou os 90 dias para que a documentação fosse completada e também não devolveu a mensagem ao ministério. Por isso pedi ao presidente Lula que as solicitasse de volta, para que os problemas fossem resolvidos no ministério”, completou.

a outorga. O negócio dele é chegar lá e pegar o dinheiro do arrendamento. Quem alugou é que se vire para conseguir a documentação”. Normalmente os deputados encomendam um parecer burocrático à consultoria da casa, assinam e pronto. A bancada do PT, e mais recentemente os representantes do PSOL, vêm se abstendo nas votações relativas às emissoras comerciais, fazendo questão de declarar sua inconformidade com o processo. Imbróglio Em junho de 2006, a retirada pelo presidente da República de 225 mensagens de renovação de outorga que tramitavam na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados ampliou a discussão sobre o tema. Um mês antes, o presidente da Comissão, deputado Vic Pires Franco (PFL/PA), havia tomado para si a prerrogativa de relatar estes processos “parados”; deu um derradeiro ultimato aos radiodifusores em falta e ameaçou rejeitá-los em bloco. Tudo isso com apoio quase unânime da Comissão. Uma segunda “encrenca” aconteceu na última reunião da Comissão no ano passado, quando os cinco deputados presentes resolveram fazer uma traquinagem para chamar a atenção do Vi v a

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( radiodifusão) fotoS: Divulgação

Cavalcante, da Abert: evitar a criação de um “novo monstro”, que aumente a burocracia.

Em relação à rejeição das matérias na última reunião da legislatura, o ministro considera que foi uma inconseqüência da Comissão: “vou igualmente pedir ao presidente Lula que solicite ao Congresso a devolução daquelas mensagens. Será o único jeito de evitar um constrangimento maior ainda para a própria Câmara, que teria que realizar votação nominal de todos os processos no plenário”. O ministro critica ainda a falta de respeito do Congresso aos prazos previstos na própria Constituição: “o não cumprimento destes prazos provoca a perda de validade da documentação exigindo dos responsáveis mais trabalho para cumprir as exigências”, observa. Além disso, os “prazos deveriam bloquear a pauta das duas casas, caso não sejam cumpridos”, completa. O ministro é favorável à instalação de um sistema de audiências públicas coordenadas pelo Congresso Nacional a serem realizadas no local onde opera a emissora para verificar a implicação social da renovação destes poderosos veículos de comunicação social. “Não tenho clareza de como é que funcionaria, mas tenho certeza de que seria muito útil”, afirma. Na verdade, a tramitação das outorgas (novas ou renovadas) no Congresso Nacional transformou-se numa atividade puramente burocrática e formal, até porque a regra constitucional, que exige a maioria de dois quintos em votação nominal no Congresso Nacional para rejeitar

uma nova outorga ou uma renovação, é quase uma impossibilidade. Ou seja, os radiodifusores sabem que esta encenação toda não é pra valer. Tanto isso é verdade que, dos tais 225 processos, pelo menos 150 deles já deveriam ter sido renovados pela segunda vez. Competência partilhada Na opinião da advogada Luciana Raso Sardinha, ex-funcionária do Minicom e atual professora na Escola de Contas do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, autora do livro “Radiodifusão: controle social e estatal sobre suas outorgas”, resultado de sua dissertação de mestrado junto à Universidade Federal de Minas Gerais, “o que se constata é que as renovações das concessões e permissões têm se processado como meros atos burocráticos, sem qualquer análise, crítica ou sugestão sobre o real desempenho da emissora. Ou seja, na há qualquer verificação de cumprimento dos princípios estatuídos pelo constituinte no capítulo referente à Comunicação Social, especialmente os artigos 220 e 221”. Por esta razão, Luciana sugere em sua dissertação que em relação às renovações seria razoável que a sociedade, “talvez

por meio de seus representantes no Poder Legislativo, se manifestasse sobre a utilização dos veículos de comunicação, a fim de contribuir para melhor verificação da produção e da programação das emissoras e de cobrar das prestadoras do serviços a efetivação dos princípios constitucionais”. A determinação constitucional para que as outorgas, mesmo sendo dadas pelo Poder Executivo, fossem confirmadas pelo Poder Legislativo, nos obriga a pensar na necessidade de distinguir as funções entre os dois poderes. O Poder Executivo poderia cuidar dos aspectos jurídicos da entidade prestadora do serviço (legalidade, obrigações fiscais de todos os níveis, trabalhistas e previdenciárias), e técnicos, relativos ao uso do canal designado (freqüência, potência, interferências etc.). Além disso, ainda caberiam ao Executivo outras questões que possam ser avaliadas de maneira objetiva, como as regras para o controle da sociedade (inclusive capital estrangeiro), a exigência de veiculação de 5% do tempo como

A determinação constitucional para que as outorgas, mesmo sendo dadas pelo Poder Executivo, fossem confirmadas pelo Poder Legislativo, nos obriga a pensar na necessidade de distinguir as funções entre os dois poderes. 24

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serviço noticioso, o limite de 25% para a veiculação de publicidade, a participação nas redes obrigatórias, transmissão de “A Voz do Brasil”, entre outras, assim como as regras de regionalização da produção quando estas existirem. Ao Congresso Nacional, como entidade plural onde estão representados todos os partidos e, conseqüentemente, as diferentes posições políticas e ideológicas, caberia a avaliação subjetiva e política da outorga. As outorgas seriam apreciadas em uma comissão mista com a única função de analisálas com poder terminativo. Esta comissão teria a obrigação de abrir consultas ou audiências públicas em relação aos processos de renovação das outorgas de forma que toda a sociedade pudesse se manifestar. Na opinião do advogado, ex-funcionário do Minicom e atual consultor para serviços de radiodifusão Mário César Degrázia Barbosa, como o estabelecimento das características do processo de tramitação é uma prerrogativa da Comissão Técnica na Câmara e no Senado, estas comissões poderiam determinar ritos diferentes para apreciação de emissoras com características diferentes. Uma pequena FM do interior ou uma OM local de baixa potência, assim como as rádios comunitárias, devem ter uma tramitação simplificada, “talvez apenas com obrigação de avisos públicos veiculados pela própria emissora solicitando manifestações à sociedade”. Já em relação às geradoras de televisão e especialmente as emissoras que criam redes, poderia-se exigir audiências públicas nas localidades ou estados onde operam. Um outro critério que poderia ser usado alternadamente refere-se ao tamanho da população atingida pelas emissoras. O assunto é complexo, mas a margem de manobra no processo de tramitação das outorgas e renovações para atender aos T e l a

princípios estabelecidos na Constituição é igualmente amplo. Para a implantação de um sistema como este, pelo menos por enquanto, não seriam necessárias alterações na legislação, mas apenas nas resoluções da CCTCI e da Comissão de Educação do Senado ou da nova Comissão de Ciência e Tecnologia e Comunicação que está sendo proposta naquela Casa ainda para esta legislatura.

emissoras, por qualquer razão. “E como é que vamos ouvir a maioria sempre silenciosa que não se manifesta nunca e que pelo fato de não estar se manifestando, em princípio, parece concordar com a manutenção da situação, ou seja, com a renovação da outorga?” Por esta razão, o executivo considera que esta discussão deva ser feita com bastante cuidado para evitar a criação de “um novo monstro” que dificultaria ainda mais os processos de renovação. O diretor executivo da Abert avalia ainda que muitos pontos precisam ser rediscutidos em relação à legislação de radiodifusão. Por exemplo: com o aumento das possibilidades de exploração do espectro, inclusive com a digitalização tanto da televisão quanto do rádio, não teria mais sentido a regra que obriga a

Radiodifusores Rodolfo Machado Moura, assessor jurídico da Abert, concorda em parte com a visão de Degrázia. Para ele, o Congresso Nacional deveria avaliar apenas as outorgas que tivessem algum significado nacional, e não qualquer emissora de rádio do interior. A forma como a renovação é feita aumenta em muito o gasto da máquina pública e as despesas do radiodifusor. “O Congresso Nacional tem mais o que fazer além de ficar fazendo renovação de emissoras

O assunto é complexo, mas a margem de manobra no processo de tramitação das outorgas e renovações para atender aos princípios estabelecidos na Constituição é igualmente amplo. de rádio”, afirma Rodolfo Moura. Mas em relação à avaliação do conteúdo, o consultor da Abert considera que esta deva ser feita por técnicos sem nenhuma ingerência política. Para o diretor executivo da Abert, Flávio Cavalcante Júnior, não há dúvida de que o processo de tramitação das outorgas e renovações deva mudar. Também não há dúvida de que repetir no Congresso o que é pedido pelo Ministério das Comunicações é uma perda de tempo e de esforço que precisa ser urgentemente eliminada. O que a Abert ainda não discutiu é qual seria a função específica do Congresso Nacional como um poder plural nos processos de outorga e renovação. Confrontado com a idéia de realizar audiências públicas em que seriam apreciadas as manifestações políticas oriundas dos segmentos da sociedade interessados no processo, Flávio Cavalcante demonstrou preocupação com a manifestação exclusiva de minorias contrárias às Vi v a

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veiculação de 5% do tempo de serviço noticioso. “E se a rádio for exclusivamente musical?”, pergunta. Também não teria sentido penalizar um radiodifusor que utilize seu canal exclusivamente para vender produtos, fazer leilões, porque estaria ultrapassando o percentual de 25% de publicidade. “Com a ampliação das possibilidades de uso do espectro, a radiodifusão comporta todos estes tipos de canais tanto no rádio como na televisão”, considera Cavalcante Júnior. Uma outra grande preocupação da Abert é com o processo de renovação das rádios comunitárias: “vai ser o caos”, prevê Flávio Cavalcante, “as comunitárias não têm relação com a Abert, mas o dispêndio de energia por parte das autoridades dos dois poderes para realizar as renovações a contento deverá sim, afetar a tramitação dos processos das emissoras comerciais”, afirmou. •

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( tv digital )

Tão perto, tão longe A conclusão das especificações da TV digital indica que de fato haverá inovações brasileiras no sistema a ser adotado por aqui. O problema é o prazo para acabar tudo: vence em dezembro, mas a estrada ainda é longa.

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podem ser chamadas de brasileiras. A principal dela é a incorporação da tecnologia de compressão H.264 ao sistema japonês (que é baseado no MPEG-2). Não há nada de brasileiro no H.264 (ou MPEG-4), a não ser a iniciativa de colocá-lo em um padrão de TV digital aberta, já que hoje essa tecnologia é para lá de conhecida no universo da IPTV, da Internet, dos DVDs de alta definição etc. Esperam-se mais algumas inovações nacionais na parte de gerenciamento de direitos digitais (DRM, ou Digital Rights Management), área em que um padrão nacional está sendo desenvolvido pela indústria. O ponto mais “explosivo” das especificações até aqui tem sido a questão do middleware. Existe um compromisso assegurado nas especificações e garantido pelo governo de que o middleware, que é a camada de software responsável pelas aplicações que poderão ser vistas na TV digital (equivalente ao sistema operacional em um computador), será o Ginga, tecnologia genuinamente nacional. Mas o motivo de desconfiança de boa parte da comunidade acadêmica e da indústria de software brasileira é que não há o FotoS: divulgação

xiste uma data para que a TV digital terrestre brasileira entre no ar: é 3 de dezembro de 2007, prazo final para que a cidade de São Paulo comece a ser atendida comercialmente pelo serviço. Mas apenas há um mês foi possível dizer, com algum grau de certeza, que o sistema de TV digital que será usado no dia 3 de dezembro será, efetivamente, algo que possa ser chamado de brasileiro. A indicação só veio no dia 17 de janeiro, quando o conjunto das principais especificações do sistema foi entregue ao Comitê de Desenvolvimento da TV Digital, um organismo composto por vários ministros e que decide, em última instância, como serão as coisas nesse setor. Nesse conjunto de especificações está a garantia, dada pelos radiodifusores e fornecedores e endossada pelo governo, de que o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), ou melhor, o International System for Digital Television (ISDTV, que é a sigla que mundialmente deve identificar o sistema brasileiro) trará algumas inovações em relação ao padrão japonês. É verdade que nem todas as inovações

“As decisões finais continuam sendo do comitê de desenvolvimento”. André Barbosa, da Casa Civil

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compromisso de que o Ginga esteja na primeira caixa de TV digital a ser vendida, assim como há para o H.264. “De fato, o middleware Ginga ainda precisa ser mais testado antes de ser implementado, mas ele é a única opção possível. Não há a menor chance de que se adote algum outro middleware. E essa história de que a radiodifusão não quer o middleware nacional é lorota. A radiodifusão quer o middleware nacional, só que ele ainda tem que passar por uma fase de desenvolvimentos”, diz Roberto Franco, coordenador do Fórum de TV Digital (organismo que cuida das especificações), presidente da Sociedade de Engenharia de TV (SET) e diretor do SBT. Há muita desconfiança de que a indústria e os radiodifusores, em cima da hora, mudem o rumo e resolvam optar por outro middleware, o que acabaria com o único traço genuinamente nacional do sistema brasileiro de TV digital. E o principal motivo da desconfiança é que as especificações prevêem que algumas caixas poderão ser lançadas sem middleware algum, o que as tornaria meros sintonizadores, sem nenhuma capacidade de processamento de algum outro tipo de informação que não fossem os bits do sinal de TV. Elas não teriam guia de programação, não teriam informações adicionais e, muito menos, interatividade. “Pode até ser que algum fabricante, este ano, lance alguma caixa

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muito simples, sem middleware. Mas isso é contra a própria lógica da indústria e do consumidor. A inovação faz parte do negócio e qualquer inovação passará por um middleware, que não será outro que não o Ginga. É um medo que se tem hoje, mas que não será nem lembrado no ano que vem”, diz Moris Arditti, vice-presidente da Gradiente. Arditti lembra ainda que a indústria de eletroeletrônicos sempre vai querer oferecer mais para o usuário, para adicionar valor ao produto. “Mesmo as caixas integradas, que servirão tanto para TV digital quanto para TV por assinatura, estão no nosso horizonte, porque é assim que essa indústria funciona. E não dá para fazer nenhuma inovação sem o middleware” “O que nem todo o mundo ainda entendeu é que, apesar de o Fórum da TV Digital ser o organismo técnico responsável pelas especificações e pela condução do dia-a-dia referente ao sistema brasileiro, as decisões finais continuam sendo do Comitê de Desenvolvimento, que é composto por ministros de Estado. E o Comitê determinou o uso do middleware nacional”, explica André Barbosa, assessor especial da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) para o assunto e um dos integrantes do governo que há mais tempo acompanha o trabalho de desenvolvimento do SBTVD, ou ISDTV. Muita responsabilidade Com esta afirmação, Barbosa responde também a uma crítica que está no ar, que é o fato de que uma imensa parcela de responsabilidade foi colocada nas mãos de um Fórum dominado por radiodifusores e representantes da indústria, com pouca representação da academia e nenhuma representação da sociedade civil. “Hoje, a esfera de

tantos setores quanto foi possível e que, se atendeu aos pleitos da radiodifusão, é porque ela é que seria mais afetada pelas decisões.

“A radiodifusão quer o middleware nacional.” Roberto Franco, da Set

Gargalos Outra crítica de Schröder é que se prometeu durante o processo de negociação um salto na política industrial brasileira, o que não está sendo visto até aqui. Augusto Gadelha, secretário de política de informática do Ministério de Ciência e Tecnologia, também reconhece que no processo de negociação para a TV digital acreditou-se muito que o Brasil poderia dar um salto qualitativo em sua política de semicondutores. “Mas a verdade é que todo o processo de diálogo com os japoneses mostrou que se queremos ter uma indústria de semicondutores forte, precisamos resolver muitos outros gargalos existentes. A logística de uma indústria de semicondutores é muito complicada, e acho que só agora nos demos conta que o país precisa ser melhor preparado para isso”. Roberto Pinto Martins, secretário de telecomunicações do Ministério das Comunicações, vai na mesma linha. “Se o país quer ter uma indústria de semicondutores forte, precisa resolver uma série de questões. Por exemplo, não dá para ter histórico de greves na alfândega, greve em porto, desmoronamento em estrada, mudança na política tributária ou qualquer coisa que possa ter impacto sobre a produção de uma indústria dessas, caso contrário simplesmente não se atrai investimentos”. A verdade é que quando os japoneses sentaram à mesa para discutir as tais “condições” em que o Brasil adotaria a modulação do padrão japonês, eles sabiam de tudo isso. Caso emblemático foi o encontro do governo com representantes da Toshiba, uma das candidatas a instalar

decisão sobre a TV digital tornou-se exclusivamente técnica, sem nenhuma interlocução política, e a sociedade não tem diálogo nesse espaço”, critica Celso Augusto Schröder, coordenador geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), referindo-se ao Fórum da TV Digital. “Da forma como a questão é conduzida, o debate técnico está determinando as políticas, e os interesses comerciais se sobrepõem ao interesse público”, diz Schröder. A crítica do FNDC e de outras entidades de democratização das comunicações é, na verdade, decorrência da forma como o processo de escolha do sistema de TV digital se definiu. O ministro Hélio Costa é o principal alvo dos ataques, justamente por ter sido o primeiro a bancar a escolha do padrão japonês como base para o sistema brasileiro e de ter dado prioridade a uma interlocução com o setor de televisão. Membros do próprio governo reconhecem que essa postura de Costa atrapalhou nas negociações. “Todo mundo sabia que tecnicamente o padrão japonês era o melhor, mas em uma negociação, não se coloca isso na mesa. Com a postura do ministro Hélio Costa, eles (os japoneses) tinham pouca ou nenhuma disposição de negociar nada, porque sabiam que não perderiam a disputa”, diz uma fonte de dentro do governo que acompanhou as negociações de perto. Hélio Costa, em diversas ocasiões, se defendeu desta crítica, alegando que ouviu

“Agora nos demos conta que o país não está preparado para a indústria de semicondutores.” Roberto Pinto Martins, do Minicom

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( tv digital ) Foto: divulgação

“Principal desafio será na área de conteúdos e aplicativos.”

uma fábrica de chips no Brasil. Ao ouvirem que o país capacita pouco mais de 3 mil engenheiros por ano, dos quais apenas entre 200 e 300 para eletrônica (a maior parte em engenharia civil), e menos de 150 para semicondutores, os japoneses riram. O total de engenheiros formados no Brasil não seria suficiente nem para a demanda anual de uma fábrica da Toshiba. Se a história (confirmada por três interlocutores) foi apenas um jogo de cena ou não, não se sabe. Mas o fato é que há uma grande diferença entre o discurso entusiasmado em relação ao que viria a ser a indústria de semicondutores no Brasil antes da escolha do padrão e o discurso que se vê agora. “O país não tem como pegar, imediatamente, essa onda da TV digital. Muito pode ser feito agora na parte de projetos dos chips, e isso está acontecendo. Mas em termos industriais, nós precisamos nos capacitar para pegar as próximas ondas, que são os chips para a quarta geração de serviços móveis e a fabricação de displays de alta tecnologia”, diz André Barbosa. Segundo Jackson Sossa, diretor da Telavo, a indústria brasileira de transmissores está trabalhando no projeto dos chips que serão utilizados no Brasil. “E pretendemos também trabalhar no projeto dos chips de recepção, já incorporando o MPEG4”, comemora. A Telavo está nesse projeto com o Ceitec. A TV digital teria sido, então, um catalisador dessas mudanças necessárias? Barbosa acredita que sim, assim como Augusto Gadelha. Ambos comemoram o fato de os japoneses terem, depois de muita briga política, aberto as patentes e códigos do ISDB para que a indústria brasileira pudesse trabalhar. “Acredito que o principal desafio do Brasil em termos de desenvolvimento tecnológico será 30

Augusto Gadelha, do MCT

na área de conteúdos e aplicações para TV digital. Nessa direção ainda estamos nos mexendo lentamente”, reconhece Gadelha. “Aí existe uma oportunidade que ainda precisa ser melhor explorada. Acredito que isso acontecerá na medida em que esses problemas iniciais de especificação estiverem resolvidos”, diz Barbosa. Nessa primeira fase do desenvolvimento do sistema brasileiro, também foram aprendidas muitas lições no que diz respeito ao esforço de pesquisa e desenvolvimento. É inegável que houve um movimento acadêmico de inovação tecnológica inédito, que produziu em um prazo curto uma grande quantidade de informações sobre TV digital, ainda que nem todas tenham sido utilizadas no sistema final adotado. O problema é que logo depois da definição pela modulação do padrão japonês e a decisão

A crítica do FNDC e de outras entidades de democratização das comunicações é, na verdade, decorrência da forma como o processo de escolha do sistema de TV digital se definiu

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de incorporar algumas inovações, as pesquisas no Brasil praticamente pararam e boa parte do esforço foi desmobilizado. Isso significa perder pesquisadores, perder o interesse dos estudantes, desmontar laboratórios e outros graves pecados quando se fala em desenvolvimento tecnológico. “Os recursos do Funttel pararam de abastecer as instituições. De fato, houve um excesso de burocracia na Finep, que não liberou os recursos a tempo, mas também é verdade que muitas das universidades não conseguiram apresentar projetos exeqüíveis, e por isso ficaram sem dinheiro”, diz uma fonte graduada do governo. Ao que tudo indica, esse problema já está se normalizando, mas fica a dúvida sobre se o governo conseguirá manter um esforço contínuo de financiamento a pesquisas, sem as quais o país não assumirá nenhuma posição de destaque no desenvolvimento tecnológico. Pouco tempo Outro problema da implantação da TV digital é o cronograma até que as transmissões comerciais se iniciem em São Paulo. Para Moris Arditti, da Gradiente, tudo o que tinha que ser feito levou mais tempo do que o esperado. “Existe esse prazo do dia 3 de dezembro e o prazo é muito curto para fazer tudo, mas existe um compromisso e teremos que cumprilo. Até junho ou julho, temos que ter os equipamentos em protótipo. Isso é urgente. Mas haveria muito mais a ser feito, e não temos condições de fazer tudo o que seria importante”, reconhece. Por exemplo, diz ele, levar o sistema brasileiro para fora do país, o que daria uma escala que a indústria vê com muito interesse. “Estamos fazendo um esforço muito grande de mostrar aos demais países da América Latina que há uma quarta opção na mesa, e eles estão ouvindo. Foi assim com a Argentina e com o Chile, que se dispuseram a considerar o padrão brasileiro em suas decisões. O problema é que até aqui eram apenas

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apresentações teóricas. Só agora, com tudo especificado, teremos efetivamente o que mostrar”, diz André Barbosa. “A difusão do padrão para a América Latina é fundamental, mas é muito complicado fazer isso agora, dado o nosso cronograma”, diz Roberto Franco, do Fórum da TV Digital. De qualquer maneira, a primeira “aparição” internacional do ISDTV será em abril durante a NAB, em Las Vegas, quando o padrão será apresentado ao mundo. Paralelamente, o governo trabalha em formas de financiar a migração da TV digital, o que será um problema para a maior parte dos pequenos e médios radiodifusores brasileiros, e mesmo alguns grandes. Algumas medidas, já anunciadas, foram as incluídas no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), como o programa de estímulo à

pesquisa e desenvolvimento e produção dos equipamentos aplicados à TV digital, exceto os set-top boxes, que contarão com os incentivos da Zona Franca de Manaus. De acordo com a proposta, as empresas que aderirem ao programa serão beneficiadas com a redução total das alíquotas do IPI, do PIS, da Cofins e da Cide incidentes sobre a venda de transmissores, bem como sobre a aquisição de bens de capital e as transferências para aquisição de tecnologia e software. Ainda não anunciada formalmente, mas prometida,

“A indústria vai sempre querer oferecer mais ao usuário.” Moris Arditti, da Gradiente

está uma linha de financiamento do BNDES. Na verdade, são dois programas: um para os fabricantes de equipamentos (para investimentos na produção e inovação tecnológica) e outro para os radiodifusores (para aquisição de equipamentos e também para a produção). Segundo fontes próximas ao BNDES, são programas na linha daqueles que o BNDES já oferece para outras áreas. “O bicho estranho nesses programas é só o mecanismo de garantias para a produção de conteúdo, que não é algo muito tradicional do banco”. Na verdade, a inovação vai além, na medida em que as condições de captação para a produção ficam melhores caso haja a contratação

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( tv digital ) melhores caso haja a contratação de um produtor independente. A ajuda do BNDES é bem vinda pelos radiodifusores, mas muita gente ainda é cética em relação ao que de fato acontecerá. “A verdade é que o mercado de radiodifusão ainda precisa se ajustar e muito para atender às condições mínimas do BNDES. No mínimo um balanço auditado e uma estrutura de gestão transparente são exigidas, sem falar nas garantias, e poucos são os radiodifusores que têm isso no Brasil”, diz a mesma fonte.

A ajuda do BNDES é bem vinda pelos radiodifusores, mas muita gente ainda é cética em relação ao que de fato acontecerá. A verdade é que o mercado de radiodifusão ainda precisa se ajustar e muito para atender às condições mínimas do BNDES

Falta o modelo (ainda) Mas ainda que o projeto da TV digital brasileira esteja, aparentemente, em um rumo sem volta, há algumas questões de fundo que ainda não chegaram perto de uma solução. A mais evidente é a própria configuração do modelo que será adotado. O decreto 5.820/06 não fala sobre o modelo. Não diz que ele incluirá multiprogramação, mas também não diz que não incluirá. “A questão é cinzenta porque, na verdade, não existe um novo serviço de TV digital, mas sim o serviço de radiodifusão, que passará a ter a tecnologia digital. Então, valem as regras da radiodifusão, que não prevê multiprogramação. Mas agora a tecnologia permite isso. Os radiodifusores não acham que seja apropriado, porque o mercado não comportaria. Mas se for do interesse do país esse modelo, para viabilizar redes públicas, por exemplo, a multiprogramação terá que ser feita”, diz Roberto Franco, do Fórum da TV Digital. “Acho que o decreto foi sábio ao não tratar do assunto, porque é um tema que merece discussão”. O discurso de Roberto Franco é oposto ao das entidades representativas da sociedade civil. “Ao se tomar uma decisão sobre Foto: hermínio nunes/divulgação

a TV digital sem pensar em toda a cadeia, sem considerar outros fatores além dos interesses dos radiodifusores, o governo criou um problema. Ficou faltando a definição do modelo”, diz Schröder, do FNDC. Ele acredita que ainda é possível fazer novas escolhas que amenizarão o problema. “O fato é que as escolhas, até aqui, não privilegiaram nenhuma mudança mais ampla”, diz. “Essa foi a marca do primeiro governo Lula no campo das comunicações. No segundo mandato, há uma chance de que se faça diferente, até porque a democratização dos meios de comunicação é um compromisso do plano de governo”. O FNDC aposta em uma grande Conferência Nacional de Comunicação que aponte para as novas possibilidades que poderiam ser trabalhadas daqui em

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“As escolhas até aqui não privilegiaram nenhuma mudança mais ampla.”

diante nas políticas de comunicação, inclusive no que se refere à TV digital. “A começar com o debate sobre uma legislação moderna para esse novo ambiente, que exige um novo modelo”. Para André Barbosa, da Casa Civil, existe um trabalho muito importante que ainda precisa ser feito que é a definição dos canais de uso público. “São pelo menos quatro canais digitais, o que não é pouca coisa. E isso pode ser ampliado, porque em alguns locais há espaço”, explica. “É um trabalho que depende do Fórum da TV Pública, que está fazendo um belo diagnóstico e, chegando a uma proposta exeqüível, será endossada pelo governo, sem dúvida”. Barbosa revela que existe a possibilidade, inclusive, que essa mudança na radiodifusão pública atinja também o mundo analógico. “Temos que lembrar que o próprio decreto prevê que para cada conteúdo digital é preciso haver, por um tempo, um correspondente analógico. Não se poderá fazer isso para todos os canais públicos digitais, mas para parte desse conteúdo teremos que dar uma solução”. Ele aponta ainda para a necessidade de uma portaria definindo a questão do operador de rede que servirá para o sistema público de radiodifusão digital e também da multiprogramação, o que ainda está sendo elaborado. Mas está claro que nada do que diz respeito à TV digital precisará aguardar um debate sobre a Lei de Comunicação Social, por exemplo. “Apenas questões mais amplas dependeriam de uma nova lei”, avalia Barbosa. O trabalho do Fórum da TV Pública está em desenvolvimento, com a conclusão dos relatórios de diagnóstico dos oito grupos de trabalho em janeiro. Algumas definições são aguardadas para março. Na próxima edição de Tela Viva, o trabalho do Fórum da TV Pública será aprofundado, contemplando já essas futuras definições.

Celso Shröder, do FNDC

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(samuel possebon)


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Edianez Parente

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FOtoS: divulgação

São Paulo/Sexo.com na HBO É da Gullane Filmes a minissérie em pré-produção “São Paulo/Sexo.com”, que a produtora faz para a HBO Latin América e que tem a direção assinada pelo cineasta Karim Aïnouz (de “Céu de Suely” e “Madame Satã”). Eis a sinopse da historia: Alice, de 25 anos, deixa Palmas/ TO, para vir a São Paulo receber uma pequena herança que lhe é deixada pelo pai. Na cidade, novos amigos e experiências a esperam. Ainda não há data de estréia desta produção que é a primeira obra de ficção para o HBO feita em São Paulo e, até aqui, o maior orçamento em produções da programadora, com mais de R$ 6 milhões viabilizados via art. 39 da Ancine. “A Era do Gelo 2”

“Eu não dou entrevista. Na verdade, eu só falo com a Veja. Tenho exclusividade com a revista Veja”.

Infantis “A Era do Gelo 2” e “Garfield” integram a nova leva de filmes que a Record comprou dos estúdios Fox. É a mesma fornecedora dos fomatos “Trading Spouses” (“Troca de Família”) e “The Simple Life”, também adquiridos pela emissora. A Fox tem ainda um novo formato no mercado, “Bouncers”, sobre o trabalho dos seguranças, os chamados “leões de chácara”.

Silvio Santos, dono do SBT, em janeiro em Las Vegas/EUA

É quanto a marca Cartoon Network movimenta em vendas no varejo, por meio de licenciamento de propriedades queridas do público infanto-juvenil, como “Meninas Superpoderosas”, “Hi Hi Pufi Ami Yumi” e “KND — A Turma do Bairro”. Com a volta às aulas, tais personagens estampam uma série de produtos escolares, como cadernos, pastas, lancheiras etc. A representação do Cartoon neste segmento é da Redibra.

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Chega de Jack Bauer às segundasfeiras. O astro de “24 Horas” volta à ação na sexta temporada do seriado no Canal Fox, só que agora ocupando as noites de terça-feira. Diferentemente das demais temporadas, esta sexta edição do seriado não vai mais “brigar” com a exibição de “Lost”, no AXN. “24 Horas” chega em abril, para a faixa das 22h das terças. “Lost”, continua nas segundas no AXN, às 21h, a partir de 5 de março.

A TV Record, que em Portugal está aberta no satélite e também figura no line-up de operações de TV a cabo - em abril de 2006, tomou o lugar do GNT na TV Cabo -, cada vez mais tem produções locais naquele país. São programas de comportamento, jornalismo, debates. O próximo passo é uma minissérie semanal, que também será exibida no sinal internacional do canal nos demais países da Europa e África.

“Hi Hi Pufi Ami Yumi”

“24 Horas” às terças

Record produz em Portugal

R$ 300 milhões

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Kiefer Sutherland em “24”.

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A&E e Biography Channel

Canais com maior distribuição na TV paga brasileira

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O A&E está bombando. Nos Estados Unidos, o canal, que está no cabo básico, comprou da HBO norte-americana os direitos para re-exibir as temporadas do seriado “Família Soprano”. O custo: US$ 2,5 milhões por capítulo. O A&E ainda não informa se a negociação vai ser estendida para o canal também na América Latina. No Brasil, na TV aberta o seriado é do SBT, que já exibiu algumas temporadas. E por falar em A&E, “Biography”, uma das faixas mais interessantes da grade, virou canal “per si”, o Biography Channel, onde as verdadeiras celebridades são retratadas. A Telefonica, no Chile, já carrega este novo canal, que é mais um do portfólio da HBO Latin America. Quando chegar por aqui, trará blocos com atrações como: “Bio Rock”, “Gente de Poder”, “Divinas”, “Vidas que Mudaram o Mundo” e “Crônicas de Amor”, entre outras.

Fonte: PTS 119 — jan/07 — dados fornecidos pelos canais em set/06

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Você sabia que:

n A Band oferece conteúdos de interatividade nas suas vendas internacionais? São referentes a seus próprios produtos, como “Paixões Proibidas” e a novelinha nacional “Floribella”. oA TV Record comprou “Zorro”, da Sony? Trata-se de uma produção sobre o herói mascarado feita nos EUA em formato de telenovela, mas que tem tudo para ser exibida como uma minissérie pelo canal.

O grupo Skank, atração do projeto.

n Um comercial de 30 segundos no intervalo do Super Bowl saiu por US$ 2,6 milhões? Os anunciantes criaram campanhas específicas para a ocasião.

Canto Pro Mar Os shows de música jovem que acontecem neste verão no novíssimo Hotel Sofitel Jequitimar, que Silvio Santos inaugurou na praia de Pernambuco, Guarujá, devem virar especial de TV e também gerar DVD. E pouca gente sabe que a organização dos shows tem por trás o publicitário Nizan Guanaes. A arena do hotel de Silvio Santos recebeu grupos como O Rappa, Jota Quest, Charlie Brow, Skank, Detonautas e CPM 22 — todos eles ícones da música jovem brasileira.

oSegue nos planos da HBO do Brasil fazer junto à produtora O2 uma seqüência para o premiado “Os Filhos do Carnaval”? O desafio agora é montar um roteiro que justifique a ausência do patriarca da história, vivido com esmero pelo falecido Jece Valadão. n Alunos da Universidade Anhembi Morumbi vão criar, junto ao Instituto Vera, os “social drops” dos canais Sony, AXN e Animax? Serão “pílulas” para os intervalos de programação, que abordam temas relativos à responsabilidade social.

De cinema

O elenco de “Donas de Casa...” para Colômbia e Equador.

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Fábio Barreto é o nome mais cotado para dirigir a versão nacional de “Desperate Housewives”, ou “Donas de Casa Desesperadas”, da Buena Vista Intl. É na mesma Rede TV!, para a qual ele dirigiria uma minissérie, anunciada no ano passado e que não vingou, baseada na vida do Marechal Rondon. Na foto, o elenco da versão do seriado que foi rodada na Argentina para exibição em emissoras da Colômbia e Equador.

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m novembro de 2006, entre os indivíduos com 18 anos ou mais com TV por assinatura (Universo: Grande São Paulo, Grande Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e Distrito Federal = 4,3 milhões de indivíduos), os canais de maior alcance diário médio foram: TNT, Multishow, SporTV, Globonews e Universal Channel - os últimos quatro, todos da programadora Globosat; o TNT pertence à Turner do Brasil. No mês em referência, os canais de TV por assinatura aferidos pelo Ibope Mídia apresentaram um alcance diário médio de 53,8%, ou 2,3 milhões de pessoas por dia, atingindo um tempo médio diário de audiência de duas horas e 16 minutos. Já entre o público de 4 a 17 anos com TV por assinatura, os canais Cartoon Network, Nickelodeon e Multishow foram os que apresentaram

Fotos: divulgação

(audiência - TV paga) Globosat é maioria entre os cinco mais de novembro

asdadasd

O filme “Mestre dos Mares”, com Russel Crowne, atração de novembro na TNT.

o melhor alcance diário médio no mês. No levantamento considerando o total de indivíduos nesta faixa etária com TV por assinatura (nas mesmas praças citadas acima, num universo de 964 mil indivíduos),

estes canais tiveram um alcance diário médio de 58,6%, ou 565 mil pessoas por dia. O tempo médio diário de audiência da garotada foi de duas horas e 13 minutos.

alcance e tempo médio diário 

Total canais pagos TNT Multishow SporTV GloboNews Universal Channel Discovery Warner Channel AXN Cartoon Network Fox Sony National Geographic Telecine Premium GNT SporTV 2 Telecine Pipoca People + Arts HBO Nickelodeon Discovery Kids

De 4 a 17 anos* 

(Das 6h às 5h59)

Alcance (%) Indivíduos (mil) Tempo Médio 53,8 2.342 2:16:16 14,9 647 0:31:21 11,5 500 0:18:13 10,8 469 0:38:59 10,7 468 0:28:31 10,3 448 0:27:54 10,1 441 0:23:09 10,0 433 0:29:43 9,5 415 0:23:27 8,7 379 0:36:41 8,5 372 0:18:58 8,3 361 0:21:45 8,1 353 0:20:42 7,4 324 0:30:04 7,2 314 0:18:46 6,8 296 0:17:05 6,6 288 0:37:38 6,4 280 0:19:06 6,1 264 0:27:10 6,0 260 0:25:48 5,5 237 0:44:21

Total canais pagos Cartoon Network Nickelodeon Multishow Discovery Kids Disney Channel TNT Jetix SporTV Discovery Fox Warner Channel Telecine Premium Universal Channel Boomerang AXN Telecine Pipoca SporTV 2 ESPN Globo News

*Universo 4.354.700 indivíduos

*Universo 964.000 mil indivíduos

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(Das 6h às 5h59)

Alcance (%) Indivíduos (mil) Tempo Médio 58,6 565 2:13:49 24,2 233 0:53:36 17,3 167 0:39:35 13,9 134 0:26:58 13,4 130 0:56:14 12,1 117 0:59:41 11,4 110 0:28:10 9,3 90 0:48:52 8,0 77 0:26:12 7,0 67 0:18:38 6,9 67 0:18:46 6,7 65 0:33:39 6,7 65 0:30:05 5,8 56 0:21:52 5,5 53 0:30:55 5,5 53 0:18:32 5,2 50 0:30:21 5,2 50 0:14:14 5,0 48 0:17:16 4,8 46 0:13:11

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Fonte: Ibope Telereport - Tabela Minuto a Minuto - Nov/06

Acima de 18 anos*


Discovery Channel entra nos top 5 em dezembro

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m dezembro de 2006, a relação dos canais da TV por assinatura que tiveram o maior alcance médio diário entre o público acima de 18 anos sofreu uma leve alteração em relação ao mês anterior. No último mês do ano, TNT, Multishow, GloboNews, Discovery e Universal Channel foram os cinco primeiros colocados. À diferença do mês imediatamente anterior, e por conta do final de temporadas do futebol, o canal SporTV saiu do topo dos cinco mais, deixando o terceiro lugar à Globonews e colocando um novo integrante, o Discovery Channel, na quarta colocação. O Universal Channel repete a quinta posição nos top 5. O levantamento do Ibope Mídia considera o público com 18 anos

de audiência de duas horas e 15 minutos. Já entre o chamado público infantojuvenil, cuja faixa vai dos 4 aos 17 anos, os canais mais assistidos da TV por assinatura neste mês marcado pelo início das férias de final de ano foram: Cartoon Network, Nickelodeon e Multishow, seguidos por Discovery Kids e Disney Channel; ou seja: exatamente o mesmo top 5 do mês anterior, novembro. O levantamento, feito nas mesmas praças citadas acima, considera um total de 984 mil indivíduos nesta faixa etária. Tais canais tiveram um alcance diário médio de 54,3%, ou 534 mil pessoas/dia, e um tempo médio diário de audiência de duas horas e 24 minutos.

“Krakatoa”, atração de dezembro de 2006 no Discovery Channel.

ou mais nas seguintes praças: Grande São Paulo, Grande Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e Brasília (universo = 4,3 milhões de indivíduos). Tais canais apresentaram um alcance diário médio de 50,8%, ou 2,2 milhões de pessoas por dia, e um tempo médio diário

(EDIANEZ PARENTE)

alcance e tempo médio diário 

Total canais pagos TNT Multishow Globo News Discovery Universal Channel Warner Channel Fox AXN SporTV Cartoon Network Sony National Geographic Telecine Premium Telecine Pipoca GNT HBO People + Arts Nickelodeon Telecine Action SporTV 2

De 4 a 17 anos* 

(Das 6h às 5h59)

Alcance (%) Indivíduos (mil) Tempo Médio 50,8 2.201 2:15:39 14,3 618 0:28:21 10,5 454 0:18:29 9,8 425 0:29:52 9,7 422 0:23:29 9,4 407 0:27:19 9,2 399 0:27:36 8,9 386 0:22:13 8,4 365 0:24:02 8,4 365 0:31:56 8,1 351 0:34:42 7,8 340 0:24:22 7,6 328 0:20:25 7,4 320 0:28:22 7,0 303 0:32:56 6,5 282 0:18:29 6,0 260 0:27:04 5,9 256 0:20:03 5,9 254 0:26:38 5,6 241 0:28:22 5,5 236 0:15:53

*Universo 4.334.400 indivíduos

Total canais pagos Cartoon Network Nickelodeon Multishow Discovery Kids Disney Channel TNT Jetix Fox Warner Channel SporTV Discovery Telecine Pipoca Telecine Premium Boomerang Universal Channel Sony People + Arts HBO AXN ESPN *Universo 984.400 mil indivíduos

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(Das 6h às 5h59)

Alcance (%) Indivíduos (mil) Tempo Médio 54,3 534 2:24:06 22,6 223 0:53:52 15,7 155 0:42:36 13,6 134 0:24:32 12,1 119 0:48:40 11,5 113 1:01:35 11,5 113 0:27:23 8,9 87 0:54:34 7,3 72 0:24:47 7,1 70 0:25:46 6,6 65 0:28:19 6,4 63 0:17:30 6,3 62 0:34:46 6,1 60 0:31:10 6,0 59 0:22:53 5,5 54 0:18:53 5,2 51 0:15:11 5,0 50 0:18:49 4,9 49 0:24:39 4,9 48 0:14:39 4,8 47 0:15:43

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Fonte: Ibope Telereport - Tabela Minuto a Minuto - Dez/2006

Acima de 18 anos*


( mercado internacional)

André Mermelstein, de Washington

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We Tube fotos: tela viva

Produtores de não-ficção reunidos no RealScreen Summit só querem discutir um assunto: como aproveitar as oportunidades de mercado criadas com a disseminação da banda larga e do vídeo por IP.

Jordan Hoffner (Google), Joe Gillespie (Cnet) e Miguel Monteverde (AOL).

P

ara os produtores, uma nova janela de exibição, cujo modelo de negócio ainda está sendo definido. Para os canais, uma ferramenta de propagação da programação e também um potencial concorrente. Por qualquer ângulo que se olhe, a constatação geral é de que a banda larga, cada vez mais disseminada, veio para mudar, e muito, o ambiente de negócios em produção audiovisual. Este foi o debate que tomou conta da nona edição do RealScreen Summit, encontro anual de produtores e canais de não-ficção, gênero que inclui principalmente documentários, mas também reality shows e outras formas de entretenimento factual. O evento aconteceu entre os dias 29 e 31 de janeiro em Washington DC, EUA. Em um painel que reuniu especialistas de empresas como Google, Cnet, AOL e o Media Lab do Massachussets Institute of 38

Technology (MIT), a primeira constatação foi de que a chamada nova mídia (referindo-se basicamente à transmissão de vídeo em banda larga) ainda está em seus primórdios. Segundo Miguel Monteverde, diretor executivo de programação da America OnLine (AOL), os primeiros dez anos do vídeo na Internet foram um treino para o que está começando a se desenvolver. “Só agora a banda larga está atingindo massa crítica para realizar este potencial”, disse. Andrew Lippman, pesquisador sênior do MIT, concordou, mas lembrou que “sempre estaremos no começo”, pois não se pode prever o alcance das tecnologias. “Quando o telégrafo surgiu, apareceram milhares de aplicações inimagináveis. As pessoas até se casavam por telegrafia, e isso era considerado o máximo da tecnologia”, lembrou. Cauda longa Para Lippman, o fenômeno que acontece hoje é o fato da audiência passar a controlar sua programação, o que é um desafio para os produtores de conteúdo, •

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que têm que correr atrás do público. Seu conselho aos produtores é para que pensem grande, considerando todas as possibilidades de exploração de um produto no “long tail”, expressão em voga que indica que as plataformas hoje estendem-se de grandes produções de massa, com milhares de espectadores, até produtos de nicho, com públicos mais selecionados. O debate é se os produtos de nicho têm condição de se sustentar. Joe Gillespie, da Cnet, contou que tentou em uma ocasião criar um canal de TV para falar de tecnologia, o TechTV, mas não conseguiu alavancar o projeto. “O broadcast não combina com produtos de nicho, mas a Internet abre um caminho, há demanda. Além disse, tem a vantagem de criar uma experiência melhor ao usuário, que pode interagir mais”, disse. Lippman, do MIT, acredita, no entanto, que para ter sucesso o produto tem que “subir” na cauda, ou seja, ser cada vez menos de nicho e buscar as grandes audiências. “O site número um de venda de livros (nos EUA) é a Amazon, mas ninguém conhece o número dois, e o mesmo vale para sites de busca e outros”, afirmou. “O produtor que não subir a cauda vai acabar concorrendo com quem produz conteúdo de graça”, concluiu. A grande questão ainda não resolvida é a do modelo de negócio, sobretudo para os produtores independentes. O modelo, comum nos EUA e na Europa, no qual um broadcaster entra como financiador da produção para depois exibi-la não se aplica na web. “Na Internet, a remuneração é baseada na

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performance, diferentemente da TV. O produtor é que tem que promover o conteúdo”, disse Jordan Hoffner, do Google. Os representantes de portais que participaram do debate foram unânimes ao dizer que não pagarão adiantado pelos conteúdos. E mesmo os produtos de sucesso terão um alcance limitado, pela própria dispersão das mídias. “Ainda existirão hits, mas nada como a final do seriado MASH nos EUA nos anos 70. Foi um sucesso, mas na época só havia três canais de TV e mais nenhuma opção”, lembrou Miguel Monteverde. Programadores insones Em outro painel, desta vez com representantes dos canais de TV, a pergunta do moderador foi “o que te deixa acordado à noite”, ou seja, o que mais preocupa os programadores. Para Ed Hersch, da CourtTV, o temor é que aconteça com a TV o que aconteceu com a Tower Records, grande varejista de CDs nos EUA que acabou quebrando pela mudança radical na forma de distribuição de música surgida com a Internet. Greg Moyer, da Voom TV, disse temer que os canais não sejam mais necessários, que a personalização total dos conteúdos acabe com os paradigmas atuais de empacotamento. Brooke Bailey Johnson, presidente da Food Network, disse ter pesadelos

Charles Maday, do History Channel, e Brooke Johnson, da Food Network.

com a competição com a banda larga quando o dispositivo de saída for a TV, e não mais o computador. “Para a nova geração, o Apple TV será televisão”, disse. Ela ressalta que o importante é manter o conceito das marcas. “Quem tem uma marca forte está garantido, pois elas englobam um conceito e podem ser aplicadas a todas as plataformas”, afirmou. Moyer lembrou que a Internet também pode ser uma importante ferramenta de marketing para os canais, como já vem sendo utilizada, com estratégias virais de propagação e criação de comunidades em torno de certos conteúdos. Um pouco mais otimista, Charles Maday, do History Channel, acredita que o modelo atual vai continuar por muito tempo porque tem uma boa estrutura de financiamento, que permite a criação de conteúdos high-end. “Os nichos não têm

modelo econômico, só comportam produções baratas, ou UGC (user generated content, ou conteúdos gerados pelos usuários, como o modelo do YouTube)”, afirmou. Ele acredita que o modelo de publicidade atual ainda resistirá, mas que os canais têm que olhar para onde caminha o mercado. “Para onde os publicitários forem, este é o caminho”, completou. Uma curiosidade: o conteúdo gerado por usuários é motivo de muita gozação entre os executivos de TV, gerando expressões como “looser generated content” (conteúdo produzido por perdedores) ou “user generated crap” (porcaria produzida por usuários). Prospecção Debates a parte, o RealScreen

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( mercado internacional) continua sendo um espaço no qual produtores se encontram para negociar co-produções e também têm oportunidade de apresentar seus projetos às redes de TV, sobretudo dos EUA e Europa. Do Brasil participaram seis empresas: Dharma Filmes (Brasília), TVI (Florianópolis), Grifa Mixer, Canal Azul, NSet e Labo Cine (São Paulo). O objetivo principal era contactar parceiros para coproduzir ou canais de TV interessados em investir nos projetos. A ABPI-TV (Associação Brasileira dos Produtores Independentes para Televisão) foi uma das patrocinadoras do evento, como parte de seu projeto de exportação do audiovisual brasileiro para televisão. Mesmo obtendo grande receptividade, o Brasil ainda representa muito pouco deste mercado não-ficcional. A América

Lippman, do MIT: objetivo das produções é subir na escala do “long tail”.

Latina não é vista como foco prioritário para a realização de co-produções internacionais, segundo Carl Hall,

da Parthenon Entertainment, que apresentou a master class “International Co-Production” durante o RealScreen Summit. Segundo Hall, os melhores países para os produtores e canais dos EUA buscarem parceiros são a Alemanha, a França, o Japão e a Inglaterra. Isto porque, além de serem grandes mercados consumidores, estes países têm fundos que investem em co-produções internacionais, e as emissoras de TV participam ativamente do processo, garantindo financiamento e distribuição. Hall explicou a uma platéia formada basicamente por produtores dos EUA que na América Latina as emissoras de TV competem com as produtoras, pois fazem seu próprio conteúdo, e não há mecanismos de financiamento para projetos internacionais.

EVENTO REÚNE BRASILEIROS E CANADENsES

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o final de janeiro, São Paulo recebeu mais de 40 produtores, canais e autoridades canadenses para o 2º Encontro de Co-Produção Brasil-canadá, promovido em conjunto pelo Consulado Geral do Canadá em São Paulo, ABPI-TV e Cinema do Brasil. O evento teve um dia de seminários nos quais se debateram temas relativos aos mecanismos de co-produção existentes nos dois países (que têm um acordo, assinado no ano passado), seguido por um dia de reuniões individuais e dois dias de networking em um hotel no litoral paulista. O Canadá vem se destacando como um dos principais parceiros do Brasil em co-produção. Hoje há cerca de 30 projetos em andamento, em diferentes estágios, como o longa “Ensaio Sobre a Cegueira”, dirigido por Fernando Meirelles, da O2 Filmes, e “Rainforest Gold”, co-produção da Grifa mixer com o National Film Board e a Discovery Canada. Foram levantados aproximadamente CAD$ 65 milhões em possibilidades de negócios. A primeira produção beneficiada pelo recente acordo de coprodução teve seu acordo assinado em dezembro de 2006. Trata-se de “Citizen Dancer - Streets of Encounter”, da Bossa Nova Films, de São Paulo, e da Productions Espace Vert X Inc. & Stormy Nights Productions II Inc, do Canadá. O documentário conta a trajetória de um grupo de 42 jovens da periferia de São Paulo que trabalha com o coreógrafo Ivaldo Bertazzo, um dos mais prestigiados do país.

Fernando Dias (ABPI-TV), João Sayad (Sec. Est. de Cultura - SP), José Roberto Sadek (Sec. Mun. de Cultura de São Paulo), Mario Borghnet (MinC), Leopoldo Nunes (Ancine) e André Sturm (Cinema do Brasil/ Sicesp).

Ivaldo trabalha com estes meninos desde maio de 2003 e juntos já produziram os espetáculos “Samwaad” e “Milágrimas” e realizaram apresentações em Paris (França) e em Haia (Holanda). A versão canadense do documentário será exibida no Canadá na TV 5 nos próximos meses. A versão brasileira está em fase de finalização e negociação para exibição em TV também nos próximos meses, segundo a Bossa Nova.

“Citizen Dancer”: primeira co-produção beneficiada pelo novo acordo.

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( programação)

Edianez Parente, de Las Vegas

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Emissoras não abrem mão de suas novelas

Natpe mostra que mercado mundial busca roteiros para adaptação, mas redes brasileiras não querem desvalorizar seu melhor produto.

TV aberta As novelas brasileiras já ganharam o mundo, mas ainda querem o paraíso. Mesmo já tendo obtido sucesso com uma versão local para um texto latino com a telenovela “Ugly Betty” (atração da rede ABC, baseado em “Beth, a Feia”, texto colombiano da RCN), a TV norte-americana não se rende facilmente ao atual maior produto nacional para exportação no T e l a

Raphael Corrêa Neto, diretor de vendas da Globo Intl.: competitividade no mercado vem aumentando.

fotos: Divulgação

A

s redes abertas brasileiras batalham a venda de seus produtos no mercado externo — e as telenovelas de Globo, Record e Bandeirantes ainda são o principal conteúdo. As grande produtoras internacionais, por sua vez, tratam de estender-se para Brasil e América Latina, de olho em novos mercados, mas também em busca de oportunidades de geração de novas programações por aqui. E as produtoras brasileiras independentes, por sua vez, decidiram não aparecer nos mercados para produtos prontos: ainda sem um amplo portfólio de conteúdos “ready to sell”, ou prontos para exportação, buscam participar de eventos onde possam iniciar acordos de co-produção. Em resumo, este é o cenário desenhado para o mercado brasileiro no primeiro grande evento de programação de TV deste ano, a Natpe’07 (National Association of Television Programming Executives), que aconteceu em janeiro em Las Vegas, Estados Unidos.

segmento audiovisual. Não compra o original nacional na íntegra e resiste às ofertas de venda de formato e assessoria de produção, tal como a Globo quer vender. Interesse há em textos para adaptação, mas isto não serve para as redes brasileiras, que estariam matando seu próprio negócio caso aceitassem simplesmente vender os seus roteiros. Assim, o “business” ainda consiste na venda tradicional para os demais países — e a Natpe se apresenta como um ponto de encontro das Américas. A Record vende neste ano principalmente suas telenovelas: “Scars” (o título para o mercado internacional de “Cidadão Brasileiro”), “Savage” (“Bicho do Mato”) e as novíssimas “Opposite Lives” (“Vidas Opostas”) e a juvenil “What’s Up?” (“Alta Estação”). Mas a emissora, que esteve com estande na Natpe, não pretende atender à demanda do mercado e vender roteiros de suas telenovelas.

Delmar de Andrade, diretor de vendas internacionais da emissora, explica que a Record tem sido muito assediada para o fornecimento de scripts; no entanto, para ele, este tipo de negociação tem de ser muito bem estudada. “Não podemos prejudicar a venda do nosso próprio produto, seria como fazer `fogo amigo’”, diz. Além das telenovelas, a Record oferece ao mercado internacional também suas produções documentais. Na feira, a divisão internacional da Globo levou pela primeira vez ao mercado norte e latino-americano suas séries especiais como “Cidades

Audiência de comerciais agita mercado A Nielsen Media Research anunciou na Natpe seu calendário para o início da nova ferramenta de medição de audiência dos comerciais de TV. O instituto atualizou seu software voltado a medir a programação a cada minuto, incluindo os comerciais e também os programas assistidos por meio de DVR (digital video recorder), num prazo de até sete dias. Em abril, o instituto disponibilizará esta medição aos clientes. Dados da Nielsen dão conta de que, entre os clientes com DVR de 18 a 49 anos, 45% dos programas exibidos no horário nobre pelos broadcasters são assistidos no horário original de exibição; no cabo, o índice é de 53%. A partir de maio, a Nielsen disponibilizará a leitura padrão da medição da audiência de programas e comerciais no horário real de exibição e no DVR em cinco tempos diferentes: no mesmo dia, após um dia, após dois dias, após três dias e após sete dias. De acordo com a Nielsen, as medições de todos os programas, exibidos de maio a agosto por todas as redes abertas, retransmissoras e canais a cabo, estarão disponíveis aos clientes sem cobrança adicional.

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( programação ) Cena de “Bicho do Mato”, “Savage” para o mercado internacional, da Rede Record.

que a emissora está desenvolvendo mais produtos baseados em suas novelas, formatos para co-produções, mas ainda não revela nenhuma parceria nesta área. Para ele, o fato de o roteiro latino de “Betty, a Feia” ter atingido sucesso nos EUA e no Globo de Ouro é muito bom para o gênero, mas a oferta da emissora no mercado não é de roteiros para “remakes” em outros países, mas sim um modelo baseado em sistema de co-produção.

dos Homens”, “Carandiru - a série”, e “Hoje é Dia de Maria”. Também foram lançadas cinco novelas aos atuais e novos clientes: “Belíssima”, “Snakes & Lizards” (“Cobras e Lagartos”), “Soul Mate” (“Alma Gêmea”), “Like a Wave” (“Como uma Onda”) e “Student’s Heart” (“Coração de Estudante”) como opções para programação aos seus clientes ao longo de 2007. Ricardo Scalamandré, diretor geral da divisão internacional, diz

Novos clientes Raphael Corrêa Neto, diretor de vendas internacionais da Globo, lembra que a concorrência e a competitividade no mercado internacional vêm

Produtoras internacionais fincam pé no Brasil Além da Buena Vista, que estabelece laços de co-produção com a Rede TV!, também as gigantes da produção européia abriram os olhos para o Brasil. BBC e Granada são as primeiras a abrirem sucursais em território nacional, com vistas à venda de produtos e também desenvolvimento de produções. A BBC Worldwide já tem endereço próprio e inaugura ainda neste primeiro trimestre seu escritório de produção em São Paulo, no bairro de Pinheiros. A idéia é ter ali, além de um centro para vendas de programação, um pólo com vistas à produção e co-produções locais, feitas principalmente com emissoras brasileiras de TV, além de produtoras independentes, e levá-las também para os demais países da América Latina. O escritório local estará a cargo de José Luis Sanchez, vice-presidente regional para a América Latina da BBC Worldwide - braço comercial da BBC britânica. Sanchez vê com muito otimismo a abertura do escritório brasileiro, para ele o grande mercado da região e onde a programadora tem feito crescentes negociações. “Queremos trabalhar com documentários, formatos, programas roteirizados e tudo o mais”, disse o executivo. Ele afirma estar em processo de formação da equipe que atuará localmente.

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A parte de produção estará sob a alçada de Paul Telegdy, vice-presidente de produção e programação da BBC Worldwide na América Latina e Estados Unidos. “Também poderemos criar localmente formatos para levar para os demais países”, explicou Jose Sanchez. Na Natpe 2007, a BBC Worldwide anunciou a venda de um pacote de documentários para a Globo. Também a Granada International, uma das principais produtoras de conteúdo do Reino Unido e grande concorrente da própria BBC na área de produção, abriu um escritório no Rio de Janeiro dedicado aos mercados brasileiro e latino-americano. O escritório local está a cargo do brasileiro Flávio Medeiros. Durante a Natpe, a Granada anunciou um acordo com os canais da HBO Latin América, para um pacote de programação. Alguns títulos de sucesso da Granada são o reality show “Hell’s Kitchen” (em cartaz no Brasil no canal GNT) e o programa “Sobrevivi” (Discovery Channel). A produtora vislumbra num futuro próximo também ter produções e co-produções no Brasil e América Latina, para o mercado local e internacional, tendo como ponto de partida a base local.

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aumentando. Segundo ele, a emissora tem que atrair clientes além dos tradicionais broadcasters internacionais, com uma perspectiva multimídia, ou seja, envolvendo programadores de TV a cabo, distribuidores de home-video entre outros possíveis clientes. “Estamos levando a marca Globo para além da telenovela”. Exemplo disto, segundo ele, foi a venda dos seriados “Cidade dos Homens” para o canal Fox na Itália e para o canal a cabo Sundance nos Estados Unidos. No total, “Cidade dos Homens” foi para mais de 60 países. Também o Cosmopolitan TV, canal feminino distribuído pela Pramer na América Latina, acaba de comprar a novela “O Clone” para sua grade. De acordo com Raphael Neto, os canais básicos da TV paga, como os de documentários, estão em conversações com a emissora para levar seus produtos, o que só pode ocorrer nos mercados fora do Brasil. No País, os produtos já têm destino natural na TV por assinatura: os canais da Globosat. Mesmo sem ocupar espaço físico na feira de Las Vegas, a Band esteve no evento oferecendo o portfólio de produtos da emissora para o mercado internacional. Entre eles, destaque para a atual novela “Paixões Proibidas”, uma co-produção com a RTP portuguesa. Em dramaturgia, ainda, a emissora vende a versão nacional de “Floribella”, as já clássicas “Os Imigrantes” e “Meu Pé de Laranja Lima”, entre outras. Na área de shows, destaque para o pacote de documentários de Chico Buarque, num especial com 12 episódios contendo amplo material de acervo da Band. Paralelamente, a Band avança nas negociações para lançar seu canal internacional. A Rede TV! segue firme na absorção de produtos de sucesso do mercado internacional Estão agendadas para abril o início das filmagens da versão brasileira do seriado da ABC/Disney “Desperate

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Housewives” (“Donas de Casa Desesperadas”). E, entre março e abril, também está previsto o início do reality show “The Amazing Race - A Corrida Milionária”, ambos produzidos pela Rede TV! a partir dos direitos negociados junto à Walt Disney TV International para a América Latina. “Donas de Casa Desesperadas”, que será rodado nos arredores de Buenos Aires, onde foi construída a cidade cenográfica em que se passa a trama, já ganhou versões para Argentina, Equador e Colômbia. De acordo como Leonardo Aranguibel, diretor de produção da Disney TV Latin America, a versão argentina apresentou altos índices de audiência. A produtora da atração é a Pol-ka, mas a Rede TV! escalará um diretor brasileiro. Já a versão local de “The Amazing Race - A Corrida Milionária” (reality show exibido

“Paixões Proibidas”, co-produção entre a Rede Bandeirantes e a RTP, de Portugal.

no Brasil pelo canal AXN) abrirá inscrições para competidores brasileiros. O modelo prevê 11 duplas num desafio que percorrerá boa parte do território brasileiro. O próprio criador da atração, Bertrand Van Munster, participou do projeto para o Brasil. A produtora responsável pelo reality show é a Hispaniola, de Belo Horizonte e a atração terá apresentador brasileiro. Pelos lados do SBT, que continua a comprar telenovelas da Televisa e a produzir por aqui textos originais da emissora mexicana, também a opção

tem sido a compra de formatos bem-sucedidos. A segunda edição do game show “Topa ou Não Topa”, atração da Endemol Globo, foi fechada pelo próprio Silvio Santos na Natpe. O empresário e apresentador foi à feira para negociar programas e conversar com os fornecedores.

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Preenchendo o vazio interior

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fotos: divulgação

ma idéia simples, realizada com efeitos especiais simples. Neste filme produzido para a rede de lanchonetes Bob’s, um garoto sente um “vazio interior” representado por um verdadeiro buraco no peito, em forma de cone. Quando ele joga pingue-pongue, a bolinha o atravessa. Quando passa, dá para ver a menina que ele paquera do outro lado. O menino continua incompleto até chegar a uma loja do Bob’s e conhecer o novo produto, um sorvete de casquinha com Ovomaltine — que preenche exatamente o buraco cônico de seu peito. “O efeito em si não foi difícil de resolver”, explica Alexandre Cruz, um dos diretores do filme. “Na noite em que entrou o orçamento, fiz um teste em mim mesmo. Colei um papel em mim e com uma câmera mini-DV, na própria produtora, fiz o recorte em chroma. Os desafios estavam mesmo no acabamento do buraco.” Esse tipo de efeito, conta Alexandre, ganhou o Oscar de efeitos especiais em 1992, no filme “A morte lhe cai bem”, com Goldie Hawn e Meryl Streep. “Só que lá a Goldie Hawn levava um tiro e suas vísceras ficavam para fora. Agora, não podia ser nojento. Então, quanto menos lógico e realista, mais difícil de convencer. Tínhamos que fazer um acabamento que não chamasse a atenção.” “Fizemos vários testes, mas no fim optamos por fazer um buraco em 3D, criado no próprio Inferno. Pensamos em uma opção de desenho animado, mas a opção escolhida foi o revestimento interno com a própria cor da camiseta”, diz Pepeu Sorrentino, responsável pelos efeitos 3D na Casablanca. “Inicialmente fizemos testes com o sorvete bem detalhado, incluindo até o tubete,

mas depois decidimos simplificar para não entregar de cara o final.” A cena mais complicada foi a final, quando o garoto se vira até que o buraco encaixe direitinho no cascão que está no banner em frente à loja do Bob’s. “Filmamos o poster verde com pontos de tracking e usamos a arte do próprio banner em layers para reposicionar o sorvete no buraco. Se fizéssemos ao vivo, teríamos que fazer o acerto na base da tentativa e erro. Logo percebemos que o motion tracking 3D tradicional já seria suficiente para resolver o problema”, conta Pepeu. Antes de filmar, explica Alexandre, foram feitos alguns testes com o garoto, usando uma projeção simples. Uma surpresa na hora da filmagem foi que o garoto escolhido era muito mais magro do que se imaginava. “Selecionamos a roupa e as camisetas ficavam enormes”, conta Oscar Rodrigues Alves, sócio e co-diretor do filme com Alexandre. Como o filme foi realizado entre o Natal e o Ano Novo, muitos profissionais que costumam trabalhar com a dupla de diretores estava de férias. “Tivemos de montar uma nova equipe, o que também acabou trazendo um frescor para o filme”, diz Oscar. ficha técnica

Para criar o vazio em forma de sorvete no personagem, foi feito um buraco em 3D no Inferno.

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Produto Cliente Agência Criação Produtora Direção Direção de fotografia Dir. de arte Montagem Trilha Pós-produção e efeitos

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Cascão de Ovomaltine Bob’s NBS Marcelo Noronha Nuclear Audiovideoatividade Oscar Rodrigues Alves e Alexandre Cruz Fê Oliveira Lica Grinstein Caio Cobra Menina Casablanca


Daqui não saio

Parte mais difícil do trabalho foi simular a resistência dos bonecos em deixar o carro após o passeio.

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a linha de montagem da Renault, o novo modelo de carro entra em teste. Braços mecânicos colocam a mala no porta-malas, a bicicleta em cima do carro, e uma família de bonecos completa a simulação. A vista lateral do carro mostra uma projeção de fundo, que reproduz um trajeto por uma estrada sinuosa, cheia de árvores, num dia ensolarado. A música começa e com ela o teste do novo carro. De dentro do que seria a fábrica, a cena muda para o ar livre, demonstrando o desempenho do carro na estrada. Segundos depois, a família de bonecos está de volta ao cenário inicial e os braços mecânicos começam a tentar tirá-los do carro — tentar, porque agora eles gostaram tanto do passeio que se recusam a sair. Inicialmente, o filme seria feito dentro da própria fábrica, mas por sugestão da produtora, as cenas foram captadas em estúdio. Isso facilitou o trabalho, mas todas as referências foram tiradas da própria fábrica. Os braços mecânicos foram criados em 3D, a partir de uma série de pesquisas da equipe de efeitos. As cenas internas foram filmadas no estúdio da produtora, em Porto Alegre, e as externas no Túnel Verde, na estrada que segue para o litoral gaúcho. O trabalho de composição foi T e l a

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intenso, com a aplicação das cenas do painel por trás do carro, a transição da roda girando no estúdio para a externa e o movimento da esteira do estúdio e das rodas. Reflexos e partes do carro também foram reconstruídos em 3D. Na cena final, em que a família de bonecos resiste a sair do carro, houve um grande trabalho de rotoscopia. Na verdade, pessoas vestidas de azul puxavam os bonecos para fora, enquanto outras pessoas também de azul seguravam, para criar a resistência dos personagens e simular o trabalho dos braços mecânicos. Depois, tudo isso foi apagado e os pedaços necessários foram reconstruídos ou reaplicados na pós-produção. fichatécnica Produto Cliente Agência Dir. de criação Produtora Direção Dir. de fotografia Trilha Pós-prod. e efeitos

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Megane Grand Tour Renault Lowe Edgard Gianesi Zeppelin Filmes Rodrigo Pesavento Júnior Voicez Tribbo Digital

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( produção)

O fim da especialização

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“Crescemos onde agregamos, não na área de propagranda em si.”

no de Copa do Mundo e eleições, 2006 foi afetado, na área de produção de comerciais, justamente por esses dois eventos. No primeiro semestre, as metas foram atingidas e os resultados foram bastante interessantes, dando um respiro depois de um 2005 de aperto geral. Mas com a saída do Brasil da Copa do Mundo, os investimentos publicitários esfriaram e o ano fechou com crescimento, mas em níveis módicos. As produtoras que antes viviam só da publicidade, porém, estão partindo cada vez mais para a diversificação. E quem conseguiu ampliar seu foco e oferecer ao mercado novos conteúdos — para outras mídias, como televisão, celular etc. — ampliou suas margens nessas áreas. De uma forma geral, o mercado se adequa aos novos formatos digitais e aposta muitas fichas no entretenimento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Academia de Filmes, de São Paulo, que se transformou em holding em maio de 2006, agregando a produtora de eventos e exposições Base 7 e criando a Margarida Filmes, que assumiu toda a área de publicidade para que a Academia se dedicasse a programas de televisão e longasmetragens, entre outros projetos. “Crescemos onde agregamos, não na área de propaganda em si. Quer dizer, crescemos porque 46

fotoS: Divulgação

As produtoras tiveram um ano de 2006 irregular, e esperam um 2007 de mais tranqüilidade e faturamento maior. Mas uma coisa é certa: o mercado publicitário não é mais suficiente para atender às expectativas de crescimento. A ordem agora é diversificar.

Paulo Schmidt, do Grupo Academia.

trouxemos novos sócios e novos diretores, então proporcionalmente houve crescimento, mas não de volume. Se tivéssemos mantido nosso formato inicial, teríamos empatado. Com as novas áreas, nosso crescimento em 2006 foi de 12,29%. Nossa estimativa para 2007 é de 20%, incluindo todos os novos segmentos”, afirma o produtor Paulo Schmidt, sócio do grupo. A Zeppelin Filmes, de Porto Alegre, teve um crescimento expressivo, na casa dos 20%, e também atribui isso, entre outros fatores, à ampliação de seu quadro de diretores. Abocanhando vários prêmios nacionais e internacionais, a produtora gaúcha vem aumentando sua fatia na produção publicitária, e constituiu um núcleo de novas mídias em abril de 2006, voltado para novos formatos de comunicação dentro da publicidade. “Essa diversificação deve contribuir para melhorar nosso desempenho em 2007, porque

“A diversificação deve contribuir para melhorar nosso desempenho em 2007.” Breno Castro, da Zeppelin •

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essa convergência vai se tornar cada vez mais indispensável diante das necessidades atuais de crossmedia. Agora há propaganda viral, jogos, advertainment, webtv, conteúdo para Internet e ponto de venda, enfim, já estamos adaptados para produzir todos esses materiais”, explica o diretor de atendimento da produtora, Breno Castro. Sentimental Filme e Maria Bonita, ambas de São Paulo, também viraram o ano apostando em projetos de diversificação. Nos nomes dos novos núcleos, a irreverência e a amplitude de ação almejada: Sentimental e Tal e Maria Bonita Coisas, respectivamente. “Estamos pensando em mídias digitais, vídeo. A Sentimental tem cinco anos e sempre nos dedicamos à publicidade, mas agora queremos abrir novos horizontes”, afirma o sócio Marcos Araújo. Entre outros projetos, a produtora já assinou a co-produção do longa “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia, e está produzindo algumas séries para o canal GNT — um dos maiores consumidores atuais de produções independentes. A Maria Bonita segue a mesma trilha — criou um pool de empresas e profissionais que vão da organização de eventos à produção de longas e DVDs — para diversificar sua área de atuação e compensar o ano passado, que esteve bem aquém das expectativas do sócio Dudu Venturi. “Tínhamos projetado um crescimento de 20%, mas chegou no máximo a 5%.

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Parece que passamos o ano inteiro com uma bola de ferro no pé. Os problemas na política seguraram um pouco os investimentos e as eleições roubam espaço demais na grade”. O crescimento, porém, foi suficiente para que a produtora investisse nas novas áreas que devem reforçar o faturamento de 2007. A produtora já está trabalhando na adaptação do livro “Natimorto”, de Lourenço Mutarelli, para o longa-metragem, uma coprodução com a RT Features, que será dirigido por Paulo Machline. “Também estamos produzindo vários pilotos de séries para a TV. Em vez de levarmos a idéia, já estamos apresentando um primeiro episódio.” A produtora carioca Youle Filmes fez uma tentativa de se aproximar do mercado publicitário em 2006, mas não viu resultados. Trabalhando há 16 anos com programas de TV, DVDs e vídeos institucionais, a produtora contratou um diretor e um atendimento especializados. “O mercado publicitário está muito concentrado em São Paulo. Para nós, que não trabalhamos muito com agências, o ano passado foi bom, até porque fizemos campanha política”, avalia o sócio Nadym de Cassar Netto. Para 2007, a expectativa é a de finalizar dois documentários cujas imagens já estão praticamente captadas. “Acompanhamos a Volvo Ocean Race, uma competição de vela ao redor do mundo e também fizemos um trabalho sobre os 100 anos do cinema brasileiro”. No grupo Mixer, a avaliação de 2006 é bem mais positiva. Segundo o sócio e diretor João Daniel Tikhomiroff, a área publicitária foi excelente, apresentando um crescimento de 60% em relação a 2005. Na área de produção para a TV, a série “Motherns”, exibida no GNT, também é considerada um sucesso. “É a primeira série dramática produzida para o GNT e já renovamos por mais dois anos, com T e l a

“Tínhamos projetado um crescimento de 20%, mas chegou no máximo a 5%.”

diminuir. O aumento na área de publicidade, explica, foi princi­ palmente no setor de serviços. Na Sentimental Filme, porém, um contrato com a rede de lojas Leroy Merlin reforçou essa área. Apesar das queixas, a expectativa para 2007 é positiva e as produtoras já estão fazendo investimentos. Para atender a Leroy Merlin e também os novos projetos de convergência, a Sentimental investiu cerca de R$ 500 mil em novos equipamentos de edição e finalização. A Academia de Filmes, por sua vez, está reunindo todas as suas áreas em um novo prédio na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, que terá 12 mil metros quadrados. Com alguns contratos de co-produção firmados com a Rede Globo, vai entrar forte na produção de longas. Com quatro longas de ficção em pré-produção, a Mixer vai ampliar ainda mais seu espectro em 2007 com a inauguração de uma área de desenho animado, a RDigital Mixer. “Já estamos preparando o primeiro longa-metragem, que é uma coprodução internacional.” Na Zeppelin Filmes, a produção de curtas e longas de ficção e documentário também faz parte da rotina, além de DVDs dos próprios filmes e de espetáculos. A idéia, em 2007, é consolidar no mercado publicitário os novos diretores lançados — como Zaracla, Marcelo Nunes, Rapha Coutinho e Diego de Godoy — buscando projetos com melhor valor agregado, além de continuar a produzir para o cinema. A produtora também investiu em equipamentos de edição e finalização, concentrados na filial de São Paulo, além de um sistema de transmissão via satélite em tempo real e novas máquinas para montagem..

Dudu Venturini, da Maria Bonita

novos anunciantes. Foi um case da produtora, porque conseguimos inclusive incluir formatos diferenciados de propaganda, que não são merchandisings explícitos, em situações dramáticas”. A área de TV da produtora, informa João Daniel, cresceu 50%. Crise na produção internacional Apesar de todo o otimismo, a Mixer viu seu mercado internacional se reduzir bastante em 2006. “Tivemos um ótimo desempenho em co-produções para a Grifa, nossa parceira na área de documentários, mas as produções internacionais de propaganda caíram muito”, afirma. Esse decréscimo aconteceu principalmente nos serviços de produção, ou seja, nos contratos por parte de produtoras estrangeiras para filmagens no Brasil. No caso dos filmes dirigidos por diretores da Mixer, contratados diretamente por agências internacionais, o nível se manteve. O grande vilão dessa área é a vizinha Argentina. Com um câmbio mais favorável e uma boa infra-estrutura de produção, o país foi a vedete da área de production services em 2007. Outro setor que sofreu redução em 2006 foi o de varejo, segundo João Daniel. A Mixer, que também tem uma área especializada nisso, viu seu faturamento

“Tivemos um ótimo desenpenho em co-produções de documentários, mas as produções internacionais de propaganda caíram.” João Daniel Tikhomiroff, da Mixer Vi v a

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(Lizandra de Almeida)

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( artigo )

Lúcia Araujo*

l u c i a @ f r m . o r g . b r

foto: divulgação

Canal Futura: dez anos de uma experiência inédita

*Diretora geral do canal Futura.

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E

femérides são, em geral, uma boa desculpa e uma grande oportunidade de fechar para balanço, revisitar a história, e calibrar as forças para o primeiro dia do resto de nossas vidas. Neste ano em que completa dez anos, o Canal Futura tem resultados para comemorar mas deseja, sobretudo, compartilhar uma experiência de televisão inédita, que consegue escapar da armadilha que historicamente aprisiona a visão do que se entende por uma TV pública (em geral, sinônimo de TV estatal, ainda que com programas meritoriamente voltados para o interesse do público). E que não sucumbe à crítica paralisante que antagoniza, de forma superficial e simplista, a TV comercial da chamada TV educativa. Talvez, a maior contribuição do Futura nesses dez anos tenha sido provar que é viável, saudável e sustentável construir um modelo de televisão capaz de unir o público e o privado, e de se comprometer concretamente com as causas que são relevantes em toda a sociedade. Ou seja, mais do que um canal privado e não comercial de interesse público, o Futura se coloca hoje como um exemplo daquilo que os experts internacionais (da ONU, do Banco Mundial, da Rockfeller Foundation, só para citar alguns) chamam de comunicação para o desenvolvimento, ou comunicação para a mudança social. É o reconhecimento formal de que a comunicação é vital (e, em geral, subutilizada) para a efetividade dos processos de desenvolvimento humano e social. De acordo com o documento final do Primeiro Congresso Mundial sobre Comunicação para o T e l a

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Desenvolvimento - realizado no final do ano em Roma, numa iniciativa da FAO, Banco Mundial e Communication Initiative - as estratégias bem sucedidas de superação da pobreza passam por modelos de comunicação que envolvem ”diálogo, debate e participação; compartilhamento de conhecimento e de informação; identificação das necessidades de desenvolvimento; a avaliação do ambiente sócio-político; valorização dos contextos culturais; construção de mútuo entendimento; ação cooperativa e fortalecimento dos agentes e das capacidades de cada local”. Dentro desse conceito, que ganha força junto às agências de desenvolvimento, projetos como o Criança Esperança, o merchandising social nas novelas,da Rede Globo, as séries de dramaturgia “Soul City” exibidas na SABC (South African Broadcasting Corporation), a ANDI (Agência Nacional dos Direitos da Infância) e o Futura, entre outras experiências internacionais, representam esse tipo de contribuição. Aposta em educação Criado pela Fundação Roberto Marinho em setembro de 1997, o Futura nasceu sintonizado com aquilo que filósofos alemães chamam de “Zeitgeist”, o espírito do nosso tempo: a certeza de que educação é insumo básico na sociedade contemporânea e deve ser prioridade estruturante da agenda do País e de todos nós que estamos dentro ou fora da escola. Uma certeza que

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impulsionou, a partir dessa mesma época, as grandes empresas a investirem na educação, na saúde, na preservação do meio ambiente. E que motivou 13 empresas pioneiras* a apostarem no poder da televisão, através do Futura, para potencializar ações educativas. Hoje o Futura alcança mais de 60 milhões de brasileiros, através de diferentes ambientes de distribuição: dos mais ortodoxos, como a banda C (parabólicas), TV por assinatura, e emissoras UHF e VHF ligadas a instituições de ensino; aos mais heterodoxos, como as barcas de Niterói ou os trens das ferrovias Carajás e Vitória-Minas. Do ar para a terra, o canal foi destinado desde o berço a ir além da tela da TV, com a criação da Mobilização Comunitária, responsável por capacitar instituições sociais a usarem os programas em seus projetos junto às comunidades, em diferentes partes do Brasil. Assim, em uma década, o Futura se relacionou diretamente com dois milhões de pessoas e capacitou mais de 400 mil educadores de 12 mil instituições, entre escolas, hospitais, presídios, creches, empresas. Além dessa rede de beneficiados diretos, nos últimos dez anos, o Futura somou aos seus parceiros mantenedores centenas de outros parceiros e agentes sociais e se articulou com a que é provavelmente a maior rede social do país. São ONGs, universidades, movimentos sociais, agências nacionais e internacionais que utilizam e ajudam a criar os programas do canal e cuja contribuição se tornou inseparável do nosso DNA. Eles são os pilares interiores, que sustentam nossa face exterior, aquela que mostramos na tela, em nossos programas, na linguagem audiovisual, nas causas que defendemos. A face estética de nossa ética plural, T e l a

cooperativa, solidária. Tudo isso seria mero discurso se não tivéssemos aprendido que, para refletir essa construção, o canal teria que repensar totalmente o modo de fazer televisão. Como, afinal, poderíamos de fato incorporar as visões, os objetivos, o jeito de ser e de pensar de tantos parceiros e a nossa própria experiência de estar com a mão na temperatura da realidade (através da Mobilização Comunitária), sem abrir mão da qualidade artística e televisiva de que somos herdeiros? Como criar programas atraentes, garantindo o lugar que o talento precisa ter, com um orçamento

diferentes (como a série “A Cor da Cultura”) e outros, como o “Em Comum”, co-produzido com a ONG Afroreggae. De uma certa maneira, ao fazer TV, nos educamos também para mediar conflitos. É nas comunidades que o Futura assiste TV e discute seus programas com o público, e é das comunidades que chegam algumas das mais inovadoras contribuições à linguagem de nossos programas. Através das oficinas de vídeo e protagonismo do Geração Futura, capacitamos mais de 250 jovens de comunidades pobres do país, que hoje formam uma verdadeira rede de interlocução, além de produzirem campanhas e conteúdos para programas como “Ao Ponto”, apresentado por Jairo Bouer, e mais recentemente, animações que serão exibidas como “plim-plim” de introdução dos intervalos da Rede Globo. Experiências como essas mostram claramente que há vida possível para a televisão educativa fora das verbas publicitárias da TV, desde que ela esteja disposta a não reproduzir o modelo de produção e de pensamento (grandes estúdios, estruturas, equipes internas), compatível com a receita de uma TV comercial. Ao contrário do que sustenta esse tipo de “razão indolente”, a trajetória do Futura demonstra que o segredo da originalidade na TV pública pode estar muito mais no processo do que no cheque com que pagamos o produto. No mínimo, ter a coragem de produzir diferente não deixa de ser também uma maneira de nos educarmos para a gestão do dinheiro destinado ao interesse público, seja ele de origem estatal ou privada, como, aliás, é o caso do Canal Futura. * São parceiros do Futura: CNI, CNT, CNN/Turner, Fundação Vale do Rio Doce, Fundação Bradesco, Fundação Itaú Social, Fiesp, Firjan, Gerdau, Rede Globo, Schering do Brasil, Sebrae e Votorantim.

É nas comunidades que o Futura assiste TV e discute seus programas com o público, e é das comunidades que chegam algumas das mais inovadoras contribuições à linguagem de nossos programas.

que é menor que o de qualquer televisão estatal e que deve viabilizar, além da programação, todas as nossas ações sociais? Concluímos que a primeira obrigação de um canal que se diz educativo é a de se educar. Educar-se para seu público, educar-se para seu país e para as complexidades da vida e do mundo de hoje, educar-se para trabalhar em cooperação com seus parceiros. Ou seja, deslocar o olhar de nós para os outros, ouvir a chamada “prosa do mundo”. Nessa trajetória, tivemos que reinventar os processos de produção tradicionais em que fomos formados para conseguir incorporar a contribuição de tantos outros co-autores (ONGs, parceiros mantenedores, produtoras independentes, acadêmicos). Temos exemplos de programas em que participaram mais de 50 instituições Vi v a

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( tecnologia )

Fernando Lauterjung, de Burbank*

f e r n a n d o @ c o n v e r g e c o m . c o m . b r

Mercado amadurecido A câmera de cinema digital Viper, da Grass Valley, começa a morder mercado da linha CineAlta, da Sony. Como resposta, a fabricante japonesa promete um novo modelo para este ano.

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Fotos: divulgação

cinematografia digital, no que se refere à etapa da produção, está em um estágio bem avançado nos Estados Unidos. Lá, há uma corrida dos fabricantes nos bastidores para conquistar maior mercado. Corrida que, por enquanto, tem a Sony na frente, com sua F900 CineAlta, mas que vem perdendo mercado para a Viper, da Grass Valley. Não se trata de disputar para conseguir emplacar mais produções, mas de emplacar mais produções de destaque. Segundo Rob Willox, diretor de marketing para produtos profissionais de criação de conteúdo da Sony, 90% das séries exibidas no horário nobre dos Estados Unidos são produzidas com a CineAlta (nos Estados Unidos as principais séries de TV eram feitas em película, tendo migrado agora para o cinema digital). Por outro lado, o “modelo de produção” usado na Viper é o assunto da moda em Burbank, na Califórnia, cidade onde está sediada a maioria das empresas de tecnologia e serviços de Hollywood. A explosão na produção com câmeras digitais aconteceu depois do lançamento dos modelos atuais de câmeras no mercado, o que leva a crer que os grandes responsáveis foram os fabricantes de lentes prime, que passaram a oferecer modelos específicos para as câmeras digitais. Segundo Amnon Band, da BandPro, as lentes Zeiss lançadas para cinematografia digital há cinco anos já contam mais de 1,3 mil modelos em uso ao redor do mundo. Vale destacar, a produção de cinema digital não se resume à produção em

Sony lança a F23, que deve disputar mercado com a Viper, da Grass Valley.

alta-definição. As câmeras dedicadas à sétima arte contam com definição superior às câmeras de produção em HD para TV, captam em 24p e trabalham com lentes “prime”. O laboratório Fotokem, um dos mais avançados em termos tecnológicos, diz que 70% das produções para cinema finalizadas em 2006 foram captadas com a Viper. Em 2005, os números não eram muito diferentes, mas quem ocupava a liderança, pelo menos neste laboratório, era a Sony. Como explicar essa mudança, já que nem Grass Valley nem Sony lançaram novos modelos? A explicação de um dos profissionais de laboratório, dada em off, é que “alguém lançou uma produção que chamou a atenção de outros diretores, levando as locadoras a oferecer serviços com a Viper”. A locadora The Camera House é bom exemplo. Passou a trabalhar com câmeras •

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Viper, oferecendo todo um workflow fundamental para quem opta pela câmera. O workflow conta com servidores, que acompanham as câmeras para produção em estúdio e produção em locação externa que não exija muita mobilidade. Além disso, o pacote Venom, formado por magazines de memória em estado sólido acoplados à câmera, permite gravar cenas que exijam maior mobilidade. Aposta alta A Sony, correndo atrás do prejuízo, lançou um novo modelo este ano, a F23, que deve ser disponibilizado ainda no primeiro semestre. Para tais equipamentos, o custo de pesquisa e desenvolvimento é amortizado em longo prazo. A CineAlta F900, por exemplo, está

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no mercado há seis anos, e deve continuar sendo produzida por mais alguns anos. Portanto, é de se esperar que o novo modelo da Sony traga inovações para competir com os outros fabricantes por, no mínimo, mais meia década. Quanto ao preço, diz-se apenas que o valor da diária para locação deve ser semelhante ao da Viper, mais cara que a F900. A comparação se deve ao fato de que a grande maioria dos clientes é formada por locadoras de câmeras. O novo modelo usa três CCDs de 2,2 Mb, com 2/3 de polegada de área, varredura progressiva e conversor A/D de 14-bit. O sistema suportará os formatos 1080/23.98P, 24P, 25P, 29.97P, 50P, 59.94P, 50i e 59.94i. O gravador digital 4:4:4 SRW-1 poderá ser acoplado sobre ou atrás da câmera, sem a necessidade do uso de cabos, embora seja possível usar

“Em cinco anos, vendemos 1,3 mil unidades das lentes Digiprime e Digizoom, da Zeiss.” Amnon Band, da BandPro

cabos dual-link para conectar o gravador, deixando a câmera mais leve. O gravador SRW também permite gravar com velocidades variáveis, de um a 30 frames por segundo com gravação 4:4:4 ou de um a 60 frames por segundo a 4:2:2. A câmera será ainda compatível com

uma série de acessórios para câmeras de filme e contará ainda com “painel assistente”, um controle remoto que permite realizar algumas operações básicas da câmera e do VTR, como gravar, parar, alterar o frame rate e o ângulo de abertura. Amnon Band, da BandPro, uma das maiores autorizadas da Sony para produtos de cinema digital, que conta com unidades nos Estados Unidos, Alemanha, Israel e prepara um novo escritório em Miami para atender o mercado latino-americano, diz que espera entregar 50 F23 no mercado em um prazo de nove meses após a disponibilidade do equipamento. * O jornalista viajou a convite da BandPro.

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( upgrade ) Chegou o Blu-ray fotos: Divulgação

Melhorias em time vencedor

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câmera LDK 4000, da Grass Valley, lançada em 2005, ganhou uma nova versão. O equipamento, que conquistou mercado principalmente entre produtoras e emissoras de pequeno e médio porte ao redor do mundo, se destaca por ter apenas um formato de captação HD, que pode ser 1080i ou 720p, conforme o modelo escolhido. Esta característica fez com que o custo do equipamento fosse mais baixo, sem trazer nenhum prejuízo àqueles que trabalham com apenas um formato HD. O novo modelo, chamado LDK 4000 mk II, agora conta com conversão de sinal A/D de 14-bit, além de outras melhorias no processamento de sinal importadas do modelo multi-formato LDK 8000. Tanto no modelo 1080i quanto no 720p, a câmera pode operar em 50 Hz ou 59.94 Hz.

Primeiro produto consumer da linha conta com até 50 GB de capacidade por disco.

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Sony lançou seu primeiro equipamento consumer com tecnologia Blu-ray para o mercado brasileiro. Trata-se da unidade óptica interna para computadores BWU-100. O equipamento grava discos, lê filmes comerciais no formato Blu-ray Disc e armazena dados em quantidade muito superior em relação aos atuais formatos de mídia óptica. Com formato idêntico ao de um DVD, a nova mídia tem capacidade de armazenamento cinco vezes maior que a dos discos tradicionais: até 25 GB em um disco de camada simples e 50 GB em um disco de camada dupla. Com preço sugerido de R$ 2.999,00, o modelo BWU-100A grava até quatro horas de imagens em alta definição, ou mais de 20 horas no formato atual de standard definition. As mídias BD -R/ -RE podem ser reproduzidas em drives ópticos para PCs e notebooks, aparelhos Blu-ray domésticos e consoles Playstation 3.

Novo chip Outra novidade anunciada pela empresa é um novo chip de captura de imagens. O Xensium é um sensor CMOS com resolução de 2,4 milhões de pixels. Além de contar com baixo consumo de energia e nível de ruído inferior ao dos sensores CCD e CMOS atuais, o novo chip pode “ler” os pixels em qualquer ordem, o que significa que pode captar nativamente com varredura progressiva ou entrelaçada. Trata-se de uma mudança significativa na área de desenvolvimento da empresa, que, até agora, não usava sensores CMOS em suas câmeras. O chip será usado, a princípio, nas camcorders da linha Infinity, mas deve virar padrão nas câmeras da empresa no futuro.

Estação remota

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Matrox lançou no final de janeiro a nova unidade de gráficos remotos Extio F1220. Trata-se de uma “extensão” através de fibra óptica para conectar um ou dois monitores, áudio, duas portas IEEE 1394 e até seis dispositivos USB a uma distância de até 250 metros do computador. Ao separar o usuário do computador, o equipamento Extio permite usar a estação consegue eliminar o ruído e o longe dos transtornos do hardware calor gerado pelo computador na ilha de edição. Além disso, permite que todas as estações da produtora/finalizadora fiquem instaladas em uma única sala, com refrigeração apropriada e de mais fácil acesso por parte da equipe de manutenção. O equipamento exige a instalação de uma placa PCI ou PCI Express no computador. A unidade remota conta com 128 MB de memória gráfica, conector para fibra óptica Dual-LC, quatro entradas para monitor (duas DVI-I e duas VGA) capazes de suportar até dois monitores com resolução de até 1920 x 1200 pixels, hardware integrado de áudio com conectores óptico e analógico.

LDK 4000 mk II: melhorias importadas de modelo superior

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N達o disponivel


( agenda ) FEVEREIRO 6 a 18 Mostra do Filme Livre (MFL), Rio de Janeiro, RJ. Tel.: (21) 2539-7016. E-mail: contato@mostradofilmelivre.com. Web: www.mostradofilmelivre.com 8 a 18 Festival Internacional de Berlim, Berlim, Alemanha. Tel.: (49-30) 259-200. E-mail: info@berlinale.de. Web: www.berlinale.de 27 e 28 Encontro Anual de TV Digital, São Paulo, SP. Tel.: (11) 3017-6808. E-mail: ibc@ibcbrasil.com.br. Web: www.ibcbrasil.com.br/tvdigital 27 a 1°/3 Andina Link 2007, Cartagena, Colômbia. Tel.: (571) 482-1717. E-mail: andina@andinalink.com. Web: www.andinalink.com 28 Encerramento do prazo de inscrições para o 9º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, Belo Horizonte, MG. Tel.: (31) 3291-0524. Web: www.festivaldecurtasbh.com.br 28 a 1°/3 1ª Conferência WEB 2.0,

São Paulo, SP. Tel.: (11) 3120-2351. E-mail: info@convergecom.com.br. Web: www.convergecom.com.br

MARÇO 2 a 8 4° Festival de Cinema de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP. Tel: (16) 3625-3600. E-mail: festival@ saopaulofilmcommission.com.br. Web: www.saopaulofilmcommission.com.br 23 a 1°/4 É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários, São Paulo e Rio de Janeiro, com itinerâncias em Brasília e Campinas (SP). Tel.: (11) 3064-7617. E-mail: info@ etudoverdade.com.br. Web: www.itsalltrue.com.br 31 Encerramento do prazo de inscrições para o Guarnicê de Cine-Vídeo, São Luís, MA. Tel.: (98) 3231-2887. E-mail: euclidesbmn@yahoo.com.br.

ABRIL

Não deixe a falta de informação acabar com seu humor.

14 a 19 (conferências) e 16 a 19 (exibição) NAB 2007. Las Vegas Convention Center, Las Vegas, EUA. Tel.: (1-202) 595-2052. E-mail: register@nab.org. Web: www.nabshow.com 14 e 15 MipDoc. Noga Hilton, Cannes, França. Tel.: (33-1) 4190-4580. E-mail: justask@reedmidem.com. Web: www.mipdoc.com 16 a 20 MipTV/Milia. Palais des Festivals, Cannes, França. Tel.: (33-1) 4190-4580. E-mail: justask@reedmidem.com. Web: www.miptv.com 20 e 29 Hot Docs Canadian International Documentary Festival, Toronto, Canadá. Tel.: (416) 203-2155. Web: www.hotdocs.ca

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Revista Tela Viva 168 - Jan/fev 2007  

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