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O Corpo de Fuzileiros Navais por seu comandante

A visita do George Washington ao Brasil

Exclusivo: Voando o Poseidon

Entrevista com o Comandante da Marinha do Brasil


MB

| ENTREVISTA |

Apesar da crise: flutuar, navegar e combater O comandante da Marinha do Brasil fala à T&D

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ascido em 2 de junho de 1952, o almirante-de-esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira é natural do Rio de Janeiro e ingressou na carreira militar em 1971. Foi declarado guarda-marinha em 1974, tendo sido o terceiro colocado no curso de formação na Escola Naval. Em seus mais de 40 anos de carreira na Marinha do Brasil, o atual comandante da Marinha trilhou um caminho de desafios no Brasil e no exterior. No ambiente acadêmico, além dos cursos de carreira, exerceu a função de instrutor na Academia Naval de Annapolis, um reconhecido centro de referência de ensino militar-naval, localizada nos Estados Unidos da América, e fez o Curso de Altos Estudos Militares na Academia de Guerra Naval do Chile. O comando do aviso de instrução Aspirante Nascimento, um dos três navios que complementam, na prática, a formação do corpo de alunos da Escola Naval, e os comandos do Centro de Instrução Almirante Alexandrino, da Escola Naval e da Escola Superior de Guerra, ajudam a construir o perfil do Almirante Leal Ferreira como oficial com grande preocupação com os recursos humanos da Força e seu preparo. Na área operativa da Marinha, comandou outros dois navios, a corveta Frontin e a fragata Bosísio, tendo sido, ainda, comandante do 2º Esquadrão de Escolta e ocupado o cargo máximo da Esquadra Brasileira, como comandante-em-chefe da Esquadra. Almirante-de-Esquadra desde março de 2013, Leal Ferreira assumiu o Comando da Marinha em 6 de fevereiro deste ano. Em entrevista exclusiva à Tecnologia e Defesa, ele fala sobre a experiência do ano de 2015 e as perspectivas da Força para o próximo ano. Tecnologia & Defesa - Depois de 10 meses à frente da Marinha, como tem sido a experiência de comandar os homens do mar? Almirante-de-Esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira - Após toda a rica e inesquecível experiência profissional que já vivenciei na Força, foi muito gratificante ser escolhido para comandar a Marinha. Nesse período, venho direcionando os esforços para que, dentro das atuais restrições, a Marinha do Brasil se mantenha nas melhores condições possíveis de prontidão. A gestão financeira da Marinha tem exigido de todos austeridade e criatividade nas decisões. Nosso foco é garantir que os recursos disponíveis sejam aplicados de forma correta e


priorizando a manutenção da operatividade dos meios navais e o preparo e adestramento do pessoal. Também, venho me empenhando em tornar a Marinha do Brasil mais próxima dos cidadãos. Isso requer dedicação especial na sua atuação em águas litorâneas e interiores, no que tange à segurança do tráfego aquaviário, à prevenção da poluição hídrica e à salvaguarda da vida humana no mar. T&D - Na Zona Econômica Exclusiva brasileira há grandes fontes de riqueza. Quais as ações já desenvolvidas, em desenvolvimento e planejadas para a defesa das riquezas naturais do País no mar, com destaque para o Pré-Sal? Almirante Leal Ferreira - A Zona Econômica Exclusiva (ZEE) brasileira e a extensão da nossa Plataforma Continental tem uma área oceânica aproximada de 4,5 milhões de km², tratando-se de uma extensa área oceânica, adjacente ao território brasileiro, que corresponde a, aproximadamente, 52% da nossa área continental e a qual chamamos de “Amazônia Azul”. Devido à sua importância estratégica, às riquezas nela contidas e à imperiosa necessidade de garantir sua proteção, a Marinha do Brasil tem buscado conscientizar a sociedade sobre os seus incalculáveis bens naturais, sua biodiversidade e sua vulnerabilidade. Cabe ressaltar que, no mar, as nossas fronteiras são linhas imaginárias. Elas não existem fisicamente e o que as define é a existência de navios patrulhando-as ou realizando ações de presença. A proteção desse rico patrimônio é uma tarefa complexa. Obviamente, qualquer modelo de vigilância para a nossa “Amazônia Azul” passa, necessariamente, pelo adequado aparelhamento da Força. No Plano de Articulação e Equipamento da Marinha do Brasil (PAEMB), revisado em 2013, e elaborado em consonância com a Estratégia Nacional de Defesa (END), estão contidos os objetivos para reaparelhamento da Força no curto, médio e longo prazos.

Para balizar as diversas ações contidas nesse documento foram estabelecidos os Projetos Estratégicos da Marinha do Brasil, cada um deles com seus programas decorrentes. T&D - Quais são os principais projetos estratégicos da Marinha e dentre o que eles propõem, qual ou quais os elementos que, no campo de defesa, fariam a maior diferença operacional? Almirante Leal Ferreira - Dentre os Projetos Estratégicos estabelecidos, destaco a Recuperação da Capacidade Operacional, o Programa Nuclear da Marinha (PNM) e a Construção do Núcleo do Poder Naval. Dos programas neles contidos, para o balanceamento da Força, a prioridade maior é o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub), vindo a seguir o Programa de Construção de Corvetas Classe “Tamandaré”, que contempla a construção de quatro corvetas, a partir do aperfeiçoamento da Corveta “Barroso”, que permitirá a adição de novas funcionalidades ao projeto desse navio. T&D - Em face da crise econômica, o orçamento da pasta da Defesa em 2015 foi fortemente reduzido. O sr. poderia comentar como os cortes de recursos vem afetando a Marinha? Almirante Leal Ferreira - O orçamento da Força, previsto inicialmente na Lei Orçamentária Anual para 2015, era de cerca de R$ 3,85 bilhões para custeio e R$ 2,1 bilhões para investimentos. O corte de recursos foi no valor aproximado de R$ 2 bilhões, permanecendo disponíveis para investimentos cerca de R$ 1,3 bilhão, e, para custeio, aproximadamente, R$ 2,6 bilhões.

Em função da necessidade de ajustar os investimentos e a conta de custeio da Marinha do Brasil aos novos limites de pagamento autorizados, foi necessária a adoção de medidas de economia complementares, a fim de reduzir os custos da Força em, pelo menos, 40%. Os almirantes, dentro de suas áreas de responsabilidade, e os comandantes das organizações militares da MB possuem a prerrogativa para, entre outras medidas de economia, e em última instância, concederem eventuais licenças administrativas para seus militares e funcionários civis, com o propósito de cumprirem as metas de redução de gastos no pagamento das contas compulsórias. Essa situação, que acreditamos ser excepcional e temporária, não chegará a afetar a prontidão da Força no curto prazo, nem prejudicará os serviços prestados à população, que continuarão sendo executados sem interrupções. Após a confirmação dos cortes, os seguintes projetos foram mantidos: a) ProSub; b) Programa Nuclear da Marinha (PNM); c) Recuperação da Capacidade Operativa dos meios navais, aeronavais e de fuzileiros navais; e d) Elaboração do Projeto de Arquitetura do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz). Os contratos referentes ao PNM e ao ProSub, bem como para aquisição e manutenção de meios navais, aeronavais e de fuzileiros navais em vigor, foram mantidos. Alguns passaram por ajustes no cronograma físico-financeiro, a fim de se adequarem aos recursos orçamentários e às perspectivas de disponibilidade financeira para os anos seguintes. Quanto ao SisGAAz, em 29 de outubro último, informamos às empresas candidatas de que o Projeto foi interrompido, podendo ser retomado assim que as condições permitirem. T&D - Em relação ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos, como está o andamento? Almirante Leal Ferreira - O ProSub compreende três grandes empre-

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|ESPECIAL |

Líbano VIII

A vez da corveta Barroso 22 TECNOLOGIA & DEFESA


Fotos do autor

TrĂŞs anos depois, T&D, com o site parceiro Defesa AĂŠrea & Naval, retorna ao LĂ­bano para acompanhar o trabalho da Marinha do Brasil


| NAVIOS |

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Ilustração: Gino Marcomini

A construção de corvetas no Brasil Um grande salto tecnológico de conteúdo nacional

Fonte: Marinha do Brasil/DGPEM

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|ENTREVISTA|

Compromisso

om justiça reconhecido como uma das melhores unidades militares, não apenas do Brasil, mas de todo o continente, o Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), ainda que pesem os tempos bicudos em termos econômicos e éticos vividos pelo País, segue firme em seu caminho de uma necessária expansão e constante atualização. Com uma trajetória diária de exercícios em campo, evolução doutrinária e um histórico de marcantes participações em operações reais, como os recentes grandes eventos internacionais acontecidos no território nacional, e também atuações no exterior, o CFN continua sendo um dos exemplos de eficiência e prontificação dentro das Forças Armadas. Seu atual comandante-geral, almirante-de-esquadra (FN) Fernando Antonio de Siqueira Ribeiro, durante o ano de 2015, por diversas ocasiões recepcionou, com a tradicional fidalguia naval, a reportagem de T&D, culminando com a entrevista a seguir, traçando um panorama da atualidade e os rumos desse componente da Marinha do Brasil. Tecnologia & Defesa - O profissionalismo, o alto nível de adestramento e a modernidade dos equipamentos estão entre as características do Corpo de Fuzileiros Navais. A ativação de uma 2ª Força de Fuzileiros, em um país em constante quadro de dificuldades econômicas, não poderia prejudicar ainda mais a questão dos recursos necessários para a manutenção desse estado de proficiência? Almirante-de-Esquadra (FN) Fernando Antonio de Siqueira Ribeiro - O Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) possui mais de dois séculos de existência, tendo testemunhado, como instituição permanente que é, diversos períodos da História do Brasil, muitos deles marcados por grandes dificuldades econômicas. Ao longo do tempo, o CFN evoluiu até tornar-se uma força moderna, balanceada, profissional, de caráter anfíbio e expedicionário, de que dispõe o Brasil para a defesa de seus

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Divulgação

O comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais fala à T&D

interesses no exterior. E essa evolução só foi possível por conta da constante aderência do CFN, e de sua liderança, às necessidades e às possibilidades de nossa Nação. Dentro desse raciocínio, se enquadra a ativação da 2ª Força de Fuzileiros da Esquadra (2a FFE) no Norte/ Nordeste do Brasil. A decisão de criar esta Força não foi fruto de uma manifestação de vontade dos Fuzileiros

Navais, mas sim dos ditames estabelecidos pela Estratégia Nacional de Defesa. Cabe ressaltar que não só o efetivo estabelecimento da 2ª FFE, mas também a evolução, como um todo, para o Corpo de Fuzileiros Navais do qual o Brasil necessitará em 2030 - em termos de doutrina, organização, pessoal, ensino, material, adestramento e infraestrutura - foram minuciosamente planejados, de modo a assegurar que


e adaptação esses auspiciosos objetivos sejam verdadeiramente alcançados. Cabe ressaltar que tal planejamento traz em seu âmago a necessária flexibilidade de forma a permitir a permanente adequação aos possíveis cenários futuros, que incluem as variações de disponibilidade orçamentária e a ampliação de prazos inicialmente estabelecidos. T&D - O CFN irá contribuir para a formação da recentemente anunciada força militar brasileira permanente para atuar em atendimento a solicitações das Nações Unidas? Alte. Fernando Antonio - O Corpo de Fuzileiros Navais, como tropa de caráter expedicionário por excelência, está permanentemente em prontidão operativa, característica essa considerada extremamente importante pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em decorrência do sucesso das tropas brasileiras no Componente Militar da MINUSTAH, nosso Ministério da Defesa vem sendo, constantemente, consultado sobre o envio de contingentes brasileiros. Embora a decisão final pertença ao nível político, sempre que a consulta segue a cadeia de comando até o CFN, tem sido reafirmada nossa capacidade e disponibilidade em participar de tais operações, mantendo o compromisso com as Nações Unidas em relação ao envio de tropas para a constituição de Componentes Militares em Missões de Paz, bem como oficiais para o desempenho de tarefas de observador militar e de Estado-Maior. Cabe destacar que o “United Nations Arrangements System” (UNSAS), que regia tal compromisso, foi substituído pelo “United Nations Peacekeeping Capability Readiness System” (UNPCRS), onde os estados membros poderão informar suas capacidades disponíveis a qualquer momento, devendo reafirmar a disponibilidade de tais capacidades, periodicamente. A Marinha do Brasil (MB), no novo sistema, permanece em condições de fornecer um Batalhão de Operações de Paz e uma Unidade Médica Nível Dois. Tais compromissos são aderentes à Política Nacional de Defesa, a qual

estabelece, dentre os Objetivos Nacionais de Defesa, a contribuição para a manutenção da paz e da segurança internacionais e a ampliação da projeção do Brasil no concerto das nações. T&D - Quais são as contribuições que o Comando de Desenvolvimento Doutrinário do CFN vem trazendo para o presente e o futuro? Alte. Fernando Antonio - O Comando do Desenvolvimento Doutrinário do CFN (CDDCFN), ativado em 16 de abril de 2013, com o propósito de contribuir para a formulação, consolidação e difusão da doutrina do Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), tem prestado grande contribuição para a aquisição de conhecimentos e lições aprendidas em combate por países amigos em recentes operações reais. Presta ainda importante apoio ao Setor Operativo da Marinha do Brasil, por meio do assessoramento doutrinário em exercícios da Força de Fuzileiros da Esquadra (FFE), além de interagir na área acadêmica da MB, ao participar de atividades da Escola de Guerra Naval (EGN), do Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC) e fomentar o debate de ideias e o pensamento crítico dos Fuzileiros Navais por meio da realização de seminários e discussões doutrinárias.

Destaca-se, também, a interação do CDDCFN com organizações militares de Forças Armadas estrangeiras, tais como o “United States Marine Corps Forces South”, dos Estados Unidos da América, e com o “Development, Concepts and Doctrine Centre”, do Reino Unido. Assim, as atividades desenvolvidas pelo CDDCFN, presentes e futuras, visam contribuir para o contínuo aperfeiçoamento da doutrina dos Fuzileiros Navais, dentro de um contexto mais amplo estabelecido pelo Estado-Maior da Armada (EMA), necessária para

Fotos: Ronaldo Olive

manter sua prontidão operativa, tanto quanto possível, aderente ao “estadoda-arte”, em decorrência da aquisição de novos meios, bem como pela revisão e ou elaboração das publicações doutrinárias existentes, adequando-as às evoluções doutrinárias. Extrapolando suas tarefas atinentes ao desenvolvimento da doutrina específica de emprego de Grupamentos Operativos de Fuzileiros Navais (GptOpFuzNav), tem o CDDCFN, por intermédio do Comando-Geral do Corpo de Fuzileiros Navais (CGCFN), apresentado importantes subsídios ao EMA, ao Comando de Operações Navais (ComOpNav) e ao Ministério da Defesa (MD) relativos à formulação e revisão da documentação de mais alto nível de nossas Forças Armadas. T&D - Em que estágios se encontram os processos de transformação dos Grupamentos de Fuzileiros Navais de Belém (PA) e Ladário (MS) em Batalhões de Operações Ribeirinhas? E a criação de novos BtlInfFuzNav? Alte. Fernando Antonio - O Grupamento de Fuzileiros Navais de Belém (GptFNBe) atualmente encontra-se com suas instalações em processo de expansão, faltando a ativação de mais

uma Companhia de Fuzileiros Navais. A previsão é de que aquela unidade seja elevada à condição de Batalhão de Operações Ribeirinhas (BtlOpRib) em breve, tendo em vista que já há algum tempo o efetivo de militares naquela organização militar tem recebido acréscimos consideráveis. É importante lembrar que o GptFNBe é o responsável pela manutenção da segurança do terreno destinado à futura sede da 2ª Esquadra e da 2ª Força de Fuzileiros da Esquadra, na Ponta da Espera, em São Luís, Maranhão.

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| AVIÕES |

KC 2

O Faz Tudo da Esquadra Ex-piloto da Aviação Embarcada mostra a importância da aeronave para a Força Aeronaval Paulo Cezar de Souza Lima*

a concepção estratégica da Marinha do Brasil (MB), a existência de uma Força Naval nucleada por um navio-aeródromo é um fato. Como vetor de projeção de força e negação do uso do mar, essa concepção possui características notáveis e permite que uma Força Naval, considerando-se a “autonomia” dos seus vetores aéreos, o alcance dos seus armamentos e sensores, controle o acesso e o trânsito não só da superfície e as profundezas do oceano, como

também do espaço aéreo e terrestre de seu interesse. Essa mesma concepção estratégica é adotada por várias Marinhas como as dos Estados Unidos, Rússia, França, China, Índia, Espanha, Reino Unido, Tailândia e Itália. As aeronaves de caça e ataque, principalmente quando armadas, não possuem um grande alcance, pois seu peso máximo de decolagem é absorvido pelo armamento que transporta e limita a capacidade de levar tanques auxiliares de combustível. Além disso,

no retorno das missões, a pouca autonomia aumenta muito o risco de perdas de aeronaves e vidas se as reservas de combustível não forem suficientes para propiciar esperas longas sobre o navio-aeródromo em caso de melhores condições de pouso, meteorologia ou prontificação do deck do navio devido a alguma ocorrência ou ajuste dos sistemas de recolhimento das aeronaves, situações muito comuns de acontecer e que fazem parte da rotina das operações aeronavais. A solução para esse problema é bem conhecida por todas essas Marinhas e está na utilização de aeronaves de reabastecimento em voo para estender a autonomia e o alcance dos seus aviões de caça e ataque. No mundo moderno, não se concebe uma operação aérea em navio-aeródromo sem o serviço desses aviões. Quando as aeronaves de combate serão empregadas, as de reabastecimento são as primeiras a decolar e as últimas a pousar, o que acontece somente após o recolhimento a bordo da última aeronave caça. Tal recurso provê a possibilidade de um vetor de combate alternar um aeroporto em terra ou aguardar uma oportunidade mais segura de pouso e também permite que os caças sejam abastecidos depois da decolagem, estendendo

Aeronaves no hangar da M7 Aerospace


Fotos: Centro de Comunicação Social da Marinha

sua autonomia e aumentando o raio de ação letal. Em tempos de guerra, devido aos modernos mísseis antinavio de longo alcance e das capacidades da aviação de ataque inimiga, as operações de navios-aeródromos acontecem a distâncias significativas da costa, por isso a necessidade do emprego da uma aviação de combate capaz de atravessar longas distâncias até seus alvos em terra ou para interceptar ameaças aéreas ao grupo de batalha. Mas mesmo considerando a operação de caças a partir de bases terrestres, a capacidade de reabastecimento em voo multiplica o raio de ação. A possibilidade de uma Marinha contar com esse recurso torna-a mais eficiente no emprego dos seus vetores de ataque, produzindo uma incógnita que gera no oponente a incapacidade de prever o alcance da aviação de ataque que lhe combaterá, e isso é decisivo.

UMA SOLUÇÃO ADEQUADA À REALIDADE E NECESSIDADES O navio-aeródromo São Paulo (ex-Foch) foi adquirido da França que possuía duas unidades similares.

Este, por sua dimensão e capacidade permite a operação do A-4 Skyhawk totalmente armado e abastecido, mas é condizente com a operação das aeronaves de reabastecimento em voo utilizadas em navios maiores como o S3 Viking, os F-18 configurados para esta tarefa e os Rafale. A solução que algumas Marinhas adotam, de utilizar uma aeronave de caça ou ataque como reabastecedora, oferece a desvantagem de retirar essa aeronave da sua função principal, além de ser de operação mais cara e com menor capacidade de transferência de combustível que aquelas concebidas para transporte de carga. Também, essa solução não supre a existência de outro tipo de necessidade da operação a bordo, ou seja, a realização do transporte logístico de pessoal e material (terra-navio-terra), o Carrier Onboard Delivery (COD). É a garantia da continuidade operacional do grupo de batalha capitaneado pelo navio-aeródromo. Tal tarefa pode ser realizada por helicópteros, mas fica restrita à menor autonomia, capacidade de carga e velocidade. No caso da MB, com o São Paulo ou em operação desde bases em terra, a solução para os problemas de reabaste-

cimento em voo e de transporte logístico de material e pessoal, incluindo a evacuação aeromédica começou a ser pesquisada pela Embraer logo após a aquisição do A-4, em 1997, ainda na época do navio-aeródromo Minas Gerais. Junto aos problemas citados, envolvendo o reabastecimento em voo e transporte logístico, existe a necessidade de outro vetor, o Alerta Aéreo Antecipado (AEW). Pouco adianta a existência de aeronaves de ataque e caça, com armamentos modernos, com capacidade de receber combustível em voo e expandir seu alcance e autonomia, se a Força Tarefa fica restrita à visualização do cenário operacional pelo alcance dos radares embarcados, cegos quanto à aproximação de mísseis de cruzeiro a baixa altura ou a ataques da aviação inimiga, limitados pelas leis físicas de propagação dos sensores, com antenas situadas na superfície do planeta. Com todas essas carências, a questão assume dimensões econômicas enormes mesmo para países de economia de primeiro mundo. As Marinhas com mais recursos desenvolvem meios específicos para cada missão e, no caso do Brasil, há que se usar criatividade e experiência. Nesse sentido foram TECNOLOGIA & DEFESA 55


|EXCLUSIVO|

Exército realiza operação de combate noturno no Sul Kaiser David Konrad

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ntre os dias 5 e 8 de outubro, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada (6ª Bda Inf Bld) realizou a Operação Punhos de Aço, um exercício de conflito convencional, com emprego de blindados em formações táticas com objeto de decidir o combate para o escalão enquadrante, através de operações ofensivas. O cenário consistiu num combate inserido numa hipótese de emprego fictícia, envolvendo distensões regionais surgidas pela posse de regiões de interesse comuns. No adestramento, entre as várias atividades desenvolvidas pela 6ª Bda Inf Bld, destacaram-se a mobilização de meios e deslocamentos táticos das unidades; ocupação de zona de reunião; estabelecimentos de ligações necessárias ao combate e de reconhecimentos junto à tropa em posição que apoiaria a ultrapassagem; emissões de ordens de operações em todos os níveis; sincronização da manobra no âmbito 6ª Bda e de todos os escalões subordinados; ensaios das matrizes de sincronização; aprestamento dos meios; entrada em combate; análise pós-ação e desmobilização. Neste ano, de maneira pioneira, a “Brigada Niederauer”, com sede em Santa Maria (RS), realizou uma ultrapassagem com um subsequente ataque coordenado totalmente noturno, tendo o abandono da zona de reunião sido executado à 01:00 hora e o ataque lançado a partir de 04:00 horas, constituindo-se no primeiro ataque de blindados de uma Força-Tarefa Unidade (duas companhias) feito à noite no Exército Brasileiro. Foi no Campo de Instrução Barão de São Borja (Saicã), em Rosário do Sul, e contou com mais de 25% do efetivo total da 6ª Bda, com carros de combate Leopard 1A5, do 4º Regimento de Carros de Combate; viaturas blindadas de transporte de pessoal M113BR, do 7º e 29º Batalhão de Infantaria Blindado; obuseiros M108, do 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado; e meios de apoio do 4º Batalhão Logístico e unidades auxiliares. Estiveram presentes observadores do Exército Colombiano. Em um VBTP M113BR foi instalado o sistema DVE (Driver Vision Enhancement), que permitiu uma visão termal frontal ao motorista e ao comandante do carro, possibilitando que pudesse ser guiado no terreno acidentado sem que fosse utilizada qualquer fonte de iluminação ativa. No decorrer do exercício, enquanto a tropa progredia em direção ao objetivo, uma chuva torrencial caiu sobre a região, o que deixou

a situação mais complexa e o deslocamento dos blindados mais difícil, condição que foi importante para comprovar a necessidade e importância do sistema empregado. Ainda durante o exercício, o comandante da 6ª Bda Inf Bld, general Fábio Benvenutti Castro, teve a oportunidade de testar o Coral, que é um sistema de observação e aquisição de alvos de longo alcance, cuja utilização foi fundamental no contexto das operações noturnas ao propiciar uma consciência situacional ampliada e em tempo real do terreno, sendo fundamental para tomada de decisões táticas ao poder acompanhar o desdobramento da sua Força Tarefa, além da capacidade de localizar, identificar e designar alvos inimigos, de forma passiva, com os subsistemas de telêmetro e designador laser incorporados ao dispositivo. Esta edição, inédita, da Operação Punhos de Aço, conduzida pela brigada de maior poder de fogo do Exército Brasileiro, foi particularmente significativa para exercitar e demonstrar as novas capacidades necessárias às operações no moderno campo de batalha, onde adquirir informações precisas através de sensores optrônicos, tendo a vantagem tática de poder localizar o inimigo primeiro - e sem ser visto por ele -, mostrando que o combate, seja ele convencional ou assimétrico, pode ser decidido à noite e em qualquer condição meteorológica, pois as operações militares de hoje e muito mais as de amanhã, requerem avançados recursos tecnológicos, com comunicação e informação em tempo real, furtividade, rapidez e precisão no desfecho da ação, não importa o tipo de missão.

TECNOLOGIA & DEFESA 71


Kaiser David Konrad

| EXERCÍCIO |

O USS George Washington visita o Brasil O super navio-aeródromo nuclear participou de operações inéditas na costa brasileira Kaiser David Konrad 88 TECNOLOGIA & DEFESA


Fotos: Roberto Caiafa

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Terra

Airbus Defence & Space

A Visiona de olho na Ivan Plavetz

Airbus Defence & Space

ensoriamento remoto através de satélites é, atualmente, um instrumento de grande valor técnico, científico e estratégico em muitas áreas da atividade humana, entre elas, cartografia plana e 3D, monitoramento e proteção ambiental, prospecção de jazidas minerais, acompanhamento da evolução urbanística das cidades, inspeção e avaliação de mananciais hídricos, chegando até aos levantamentos de interesse militar (inteligência, monitoramento marítimo e mapeamento de terrenos). De olho nesse mercado, a brasileira Visiona Tecnologia Espacial acaba de lançar um projeto de prestação de serviços nessa área.

A DEMANDA A Visiona Tecnologia Espacial, uma empresa do grupo Embraer e Telebras, foi criada há três anos como integradora de satélites. Em nível mundial, como negócio, cerca de 80% dessa atividade depende e é desenvolvida com apoio governamental, sendo que no Brasil isso acontece da mesma forma. De acordo com Eduardo Bonini, seu presidente, em conversa com a reportagem de T&D, paralelamente à expectativa de oferecer soluções de construção e integração de satélites, a companhia decidiu seguir um modelo de negócio consagrado entre fabricantes espalhados ao redor do mundo. Os fabricantes de satélites também oferecem prestação de serviços usando esses veículos 82 TECNOLOGIA & DEFESA

Os SPOT 6 e 7, da Airbus Defence & Space. Satélites ópticos de alta resolução, cuja precisão alcança 1,5 metros de terreno real por pixel da imagem coletada. A imagem registrada em 2015 por eles mostra, em colorido verdadeiro, a região de Mariana (MG) por ocasião do rompimento da barragens de Fundão e Santarém


SI Imaging Services

SI Imaging Services

espaciais, sejam eles de comunicações ou de observação terrestre, entre outras aplicações. Alinhando-se a esse modelo, a Visiona optou por entrar em um negócio que não depende de projetos esporádicos como a integração. Um projeto de satélite leva ao redor de três a três anos e meio. Como a empresa precisa de fontes contínuas de renda, ela definiu o lançamento de um serviço de fornecimento e análise de imagens com o objetivo de desenvolver grandes planos para sensoriamento remoto no Brasil e países vizinhos. Para tanto, a Visiona estudou cuidadosamente a contratação de parceiros e suas respectivas constelações de satélites já em operação. A empresa já sabia que seus proprietários atuam de forma global, entretanto, conseguiu concessões para aplicações sobre solo brasileiro, latino-americano e algumas regiões da África. Para Bonini, desenvolver negócios nesses mercados dependerá da capacidade da empresa, contudo, ele considera o Brasil o grande foco desse nicho, pois as necessidades são muito maiores do que já está sendo feito no País e há boas chances de sucesso. Com base em recente estimativa divulgada por fontes governamentais, o Brasil gasta por ano cerca de R$ 100 milhões em atividades de imageamento específicas para sensoriamento remoto. A despeito do ainda baixo nível de emprego dessa ferramenta por aqui, existe um crescimento mundial de 10% ao ano correspondente ao emprego dessa tecnologia, o que demonstra o significativo potencial de mercado existente e a viabilidade de explorá-lo, estimandose que daqui a 10 anos poderá estar movimentando anualmente no País em torno de R$ 200 milhões. A Visiona, segundo Bonini, possui uma visão de mercado que prevê uma

Imagem em alta resolução de Paris, França, registrada em 2013 pelo radar SAR do satélite KOMPSAT-5 da SI Imaging Services

grande demanda por sensoriamento remoto não somente por satélites dotados de sensores ópticos, mas, também por radar. A gama de aplicações é vasta, incluindo planejamento territorial, levantamentos nos campos da energia, agrícola, agropecuária e florestal e controle de fronteiras, bem como prevenção, acompanhamento e avaliação de consequências de desastres naturais. Portanto, em função desse volume de aplicações e as dimensões do território

brasileiro, cabe o uso de uma ampla constelação de satélites de observação.

PARCERIAS E CONSTELAÇÃO Para desenvolver seu projeto, a empresa firmou acordos de distribuição de imagens com alguns dos principais operadores de satélites de observação da Terra: Grupo Airbus, a norte-americana DigitalGlobe, a japonesa Restec, e a sul-coreana SI Imaging Services. TECNOLOGIA & DEFESA 83


UNITAS

2015

LANT Durante sete intensos dias de mar, foi realizada a Operação UNITAS LANT em uma Aé-

18 helicópteros, realizaram mais de 36

com exercícios de transferência de óleo

exercícios operativos, com o propósito

no mar (TOM/RAS), “light line”, “leap

de gerar a integração e a interoperabi-

frog”, trânsito sob múltiplas ameaças,

rea Marítima de Operações (AMO)

lidade entre as Marinhas participantes,

ações com mergulhadores de combate,

compreendida entre Rio Grande (RS) e o

e observadores de Camarões, Equador,

VBSS (“Visit, Board, Search, and Seizure”),

Rio de Janeiro (RJ), denominada área

Guatemala, Honduras, Itália, Nigéria,

HVBSS (“Helicopter Visit, Board, Search,

República Dominicana e Senegal.

and Seizure”) e MIO (“Maritime Interdic-

“LINDA”, equivalente a 12 vezes o tamanho da AMO do Líbano.

A Fase Atlântica da UNITAS teve a Mari-

tion Operations”).

No período, compreendido

nha do Brasil como anfitriã e reuniu navios

Na Fase de Cenários, foi simulado um

entre 16 a 25 de novembro,17

das Marinhas do Chile, Estados Unidos,

conflito entre duas forças que reivindica-

navios, um submarino, 51

México, Peru e Reino Unido. Na Fase de

vam direitos sobre uma Zona Econômica

aeronaves de asa fixa e

Mar, as simulações de guerra contaram

Exclusiva (ZEE), que evoluiu para uma

104 TECNOLOGIA & DEFESA


escalada de tensões, com vários incidentes marítimos. Nesta fase, foi criada uma Força Tarefa Marítima em cumprimento a um mandato de defesa do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Navios: • Brasil - fragatas “Liberal” (F43, capitânia), “Constituição” (F42) e “Greenhalgh” (F46); navios-patrulha “Gurupá” (P46) e “Benevente” (P61); navio-patrulha oceânico “Apa” (P121); rebocadores de alto-mar “Almirante Guillobel” (R25) e “Tritão” (R21); e submarino “Tapajó” (S33). • Estados Unidos - navio-aeródromo nuclear “USS George Washington” (CVN 73), da “Classe Nimitz”; os destróieres “USS McFaul” (DDG 74) e “USS Chafee” (DDG 90), da “Classe Arleigh Burke”; e navio de apoio logístico “USNS Big Horn” (T-AO 198). • Chile - fragata “Almirante Riveros” (FFG 18), da “Classe Karel Doorman”.

Acima: o passadiço da Liberal em situação de “postos de combate”. Na abertura, tendo à frente o McFaul, aparecem a chilena Alte. Riveros e o mexicano Baja California. Abaixo: a fragata Constituição, seguida pela chilena Alte. Riveros

• México - navio-patrulha oceânico “ARM Baja California” (P162), da “Classe Oaxaca”.

• Peru - fragata “BAP Quiñones” (FM58), da “Classe Lupo”.

• Reino Unido - navio-tanque “RFA Gold Rover” (A271), da “Classe Rover”.

Texto/ fotos: Guilherme Wiltgen Exclusivo DAN/ T&D

TECNOLOGIA & DEFESA 105


Revista T&D nº 143  

Este é apenas um "drops" com as principais matérias da edição número 143 da revista Tecnologia & Defesa.

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