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11a edição | 2o Semestre 2016

Cinco brasileiros espalhados pelo mundo compartilham suas vivências e opiniões sobre temas polêmicos como a crise migratória, o fechamento de fronteiras e a xenofobia. Vamos levar essa discussão para dentro de casa?


CULTIVAR A PRÁTICA DA LEITURA HOJE É SEMEAR UM FUTURO REPLETO DE VALORES. A FTD Educação e o Integra Confessionais estão juntos na missão de cultivar a prática da leitura nas escolas e casas, ao lado de professores e familiares dos alunos, para semear em cada jovem valores essenciais para a construção de um cidadão transformador do seu futuro e da sociedade ao seu redor.

Para Ensino Fundamental I e II

PARA O ALUNO

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Às vésperas de completar 200 anos de presença mundial e há 116 anos presente no Rio Grande do Sul, a atuação dos Colégios e das Unidades Sociais da Rede Marista se dá, atu-

Presidente da Rede Marista Ir. Inácio Nestor Etges

almente, em 13 cidades gaúchas e em Brasília. São 26 Colégios e nove Centros Sociais, que atendem, diariamente, mais de 20 mil crianças, jovens e adultos.

COLÉGIOS Colégio Marista Aparecida colegiomarista.org.br/aparecida | 54 3449 2600

Colégio Marista São Luís colegiomarista.org.br/saoluis | 51 3713 8500

Colégio Marista Assunção colegiomarista.org.br/assuncao | 51 3086 2100

Colégio Marista São Marcelino Champagnat colegiomarista.org.br/ejachampagnat | 51 3584 8000

Colégio Marista Champagnat colegiomarista.org.br/champagnat | 51 3320 6200

Colégio Marista São Pedro colegiomarista.org.br/saopedro | 51 3290 8500

Colégio Marista Conceição colegiomarista.org.br/conceicao | 54 3316 2700

Colégio Marista Vettorello colegiomarista.org.br/ejavettorello | 51 3086 2100

Elder Filippe

Colégio Marista Graças colegiomarista.org.br/gracas | 51 3492 5500

Escola Marista Santa Marta colegiomarista.org.br/santamarta | 55 3211 5200

Coordenador de Comunicação e Marketing

Colégio Marista Ipanema colegiomarista.org.br/ipanema | 51 3086 2200

Vice-Presidente da Rede Marista Ir. Deivis Fischer COLÉGIOS E UNIDADES SOCIAIS Superintendente Executivo Rogério Anele Coordenador Jurídico

Tiago Rigo Gerente Educacional Ir. Manuir Mentges Gerente Social Ir. Luciano Barrachini Supervisão Editorial Katiana Ribeiro e Reinaldo Fontes Conselho Editorial Luciano Centenaro, Patricia Saldanha e Sílvia Medeiros

Colégio Marista Irmão Jaime Biazus colegiomarista.org.br/jaimebiazus | 51 3086 2300 Colégio Marista João Paulo II colegiomarista.org.br/joaopauloii | 61 3426 4600 Colégio Marista Maria Imaculada colegiomarista.org.br/imaculada | 54 3278 6100 Colégio Marista Medianeira colegiomarista.org.br/medianeira | 54 3520 2400 Colégio Marista Pio XII colegiomarista.org.br/pioxii | 51 3584 8000 Colégio Marista Roque colegiomarista.org.br/roque | 51 3724 8100 Colégio Marista Rosário colegiomarista.org.br/rosario | 51 3284 1200

Sede Marista R. Ir. José Otão, 11 - Bonfim - Porto Alegre/RS CEP: 90035-060 Tel.: 51 3314-0300 / 0800 541 1200

colegiomarista.org.br socialmarista.org.br

Colégio Marista Sant’Ana colegiomarista.org.br/santana | 55 3412 4288 Colégio Marista Santa Maria colegiomarista.org.br/santamaria | 55 3220 6300

ESCOLAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL Marista Aparecida das Águas Marista Menino Jesus Marista Renascer Marista Tia Jussara colegiomarista.org.br

CENTROS SOCIAIS Marista Aparecida das Águas Marista Boa Esperança Marista da Juventude Marista de Inclusão Digital (Cmid) Marista Ir. Antônio Bortolini Marista Mario Quintana Marista de Porto Alegre (Cesmar) Marista Santa Isabel Marista Santa Marta socialmarista.org.br

Colégio Marista Santo Ângelo colegiomarista.org.br/santoangelo | 55 3931 3000

POLO MARISTA

Colégio Marista São Francisco colegiomarista.org.br/saofrancisco | 53 3234 4100

Polo Marista de Formação Tecnológica socialmarista.org.br

11a Edição | 2o Semestre 2016 PERIODICIDADE Semestral

REVISÃO Lumos Soluções Editoriais EDIÇÃO

PROJETO GRÁFICO Estúdio Sem Dublê | semduble.com

Redação: Michele Bravos Edição de arte: Julyana Werneck

ILUSTRAÇÃO DA CAPA Julyana Werneck

Supervisão editorial: Maria Fernanda Rocha Envie comentários, críticas e sugestões sobre a revista para o e-mail faleconosco@maristas.org.br

© Todos os direitos reservados. Todas as opiniões são de responsabilidade dos respectivos autores.

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índice capa

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Com a crise migratória atual, os discursos xenofóbicos e a intolerância ao outro, o direito de ir e vir fica em xeque. Confira nesta reportagem a opinião de especialistas e qual a visão de brasileiros que há muito tempo romperam as fronteiras locais e vivem como cidadãos do mundo.

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O superintendente dos Colégios e Unidades Sociais, Rogério Anele, destaca o bicentenário do Instituto Marista e os principais assuntos da revista.

Dia a dia

Entrevista

Olhar

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Se você já deixou de elogiar por achar que assim seu filho ou filha ficaria arrogante, nós vamos mostrar a você justamente o contrário.

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Ser pai nunca foi fácil. Ser pai em 2016, menos ainda. Confira, na entrevista exclusiva com Marcos Piangers, as aventuras da paternidade nos dias atuais.

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Curiosidade

Solidariedade

Como fazer

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Expectativa x realidade. Está na hora de retomar alguns hábitos para o desenvolvimento saudável dos filhos.

Saiba como foi o Startup Weekend Comunidades, evento de empreendedorismo e inovação realizado pelo Centro Social Marista de Porto Alegre.

Começa na infância o aprendizado da tolerância. Descubra com especialistas e pais como isso é possível.

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Diversão

Essência

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Confira algumas dicas sugeridas por Monica Bertoni, assessora da área de Matemática dos Colégios Maristas, para tornar a aprendizagem mais leve e divertida.

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O medo está instalado na sociedade. A melhor maneira de lidar com ele é enfrentá-lo quando aparecer. Vamos refletir sobre isso?

Que tal fazer da sua casa um laboratório de ciências? Aprenda duas experiências científicas para realizar junto com as crianças e os adolescentes.

Ir. Alfredo Crestani mostra que pais e educadores podem incentivar a generosidade nas crianças.


Rumo a um novo começo Estamos prestes a celebrar 200 anos de fundação do Instituto Marista. Em 2 de janeiro de 1817, Marcelino Champagnat deu início à missão de promover uma educação evangelizadora capaz de transformar a vida de crianças e jovens. Tudo começou em uma pequena casa no interior da França, com espírito de família e simplicidade. Hoje, seguimos cultivando esses valores, e a nossa presença se estende a mais de 80 países pelos cinco continentes. Além de um marco para nossa história, completar dois séculos de atuação no mundo nos leva a refletir sobre um dos grandes sonhos de nosso fundador: construir uma sociedade mais justa e fraterna. À luz do exemplo de nossa Boa-Mãe, somos chamados a ter um olhar sensível sobre as diferentes realidades com que nos deparamos. Somos chamados a olhar para um horizonte mais amplo e admirar a chegada de um novo tempo. Somos chamados a cuidar da vida, a cuidar da nossa família e da nossa casa. E a nossa casa não é apenas o lugar onde moramos, é também a instituição que nos orgulhamos de fazer parte, o nosso bairro, o nosso estado, o nosso país, enfim, o mundo que nos rodeia. É hora de olhar com gratidão o passado, com os pés no presente, para abrir os caminhos do futuro com esperança. Sabemos que muitas são as adversidades e intempéries vivenciadas nos dias de hoje. Uma delas afeta diretamente ao nosso direito de ir e vir. Segundo a Organização das Nações Unidas, completou-se, em 2016, cinco anos da maior crise migratória já vivida desde a 2a Guerra Mundial. Lamentavelmente, diversas esferas da

sociedade têm sido atingidas: da escola do bairro que agora precisa de uma professora que fale francês para ensinar as crianças da Síria a um replanejamento do orçamento da nação. No micro e no macro contexto, o cotidiano de todos passa por mudanças e, por isso, faz-se necessário pensar sobre novos caminhos que possam levar à construção de um mundo melhor, como sempre almejou Champagnat. Para expandirmos nossos horizontes, a reportagem de capa desta edição da revista Em Família aborda esse cenário atual, pela perspectiva de cinco brasileiros que vivem em outros países (Quênia, Jordânia, Taiwan, França e Estados Unidos). No diálogo com essas realidades, especialistas também trazem as suas contribuições. Ainda nessa busca por tolerância, trazemos uma matéria com o relato de uma família sobre como os pais podem despertar, de forma prática, esse posicionamento desde a infância em seus filhos. Além disso, apresentamos um artigo sobre como a generosidade pode se tornar uma prática das crianças, escrito pelo Irmão Alfredo Crestani. Em controvérsia com a tolerância e a generosidade está a arrogância, assunto abordado na matéria Elogie! Sem medo e com sinceridade. Nesse texto, você encontrará especialistas que apoiam as palavras de afirmação como uma forma de gerar autoestima e autoconfiança nos filhos. Mais sobre essa proximidade entre gerações, você confere na entrevista com o comunicador Marcos Piangers, autor do livro O papai é pop, que apresenta uma perspectiva focada na figura do pai no contexto familiar. Piangers fala

dos desafios da paternidade em 2016 e como homens que não foram educados para ser pai podem o ser. Esta edição da revista Em Família representa, novamente, um convite à reflexão sobre temas cada vez mais presentes no nosso cotidiano. Nesse sentido, família e escola devem atuar juntas para ampliar o diálogo e o aprofundamento da educação de nossos estudantes e educandos. É esse trabalho que nos move e nos faz seguir adiante com a missão do nosso fundador, São Marcelino Champagnat! Uma boa leitura a todos!

À luz do exemplo de nossa Boa-Mãe, somos chamados a ter um olhar sensível sobre as diferentes realidades com que nos deparamos. © Foto: Divulgação / Comunicação e Marketing

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Rogério Anele Superintendente dos Colégios e Unidades Sociais da Rede Marista

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dia a dia

Elogie!

Palavras de afirmação e elogios devem fazer parte da rotina familiar como forma de amar e criar um ambiente seguro para o desenvolvimento das crianças.

© Foto: Acervo pessoal

Por Michele Bravos

Para Adriana Castro, não existe fórmula certa para os elogios, mas essa deve ser uma prática diária e muito sincera. Na foto, Adriana, o esposo Adriano e os filhos João Gabriel, Marina e o pequeno Luiz Miguel, estudantes do Colégio Marista João Paulo II, de Brasília (DF).

Sem medo e com sinceridade

Se você já deixou de elogiar o seu filho por achar que assim ele se tornaria arrogante, está na hora de substituir algumas crenças falsas sobre as palavras de afirmação – aquelas frases positivas, que declaram as potencialidades de alguém. Para o antropólogo Gary Chapman, especialista em relações familiares e autor do best-seller As cinco linguagens do amor, afirmar quem o outro é, principalmente quando esse outro é seu filho ou sua filha, é uma forma poderosa de demonstrar amor, gerando segurança nas crianças. Por exemplo, quando se afirma o que elas representam para a família ou quando se reforça as suas características positivas. Em seu livro As cinco linguagens do amor para crianças (uma versão pensada para os filhos), no qual é coautor com Ross Campbell, ele conta vários relatos de aconselhamentos em que o “problema” do desânimo ou distanciamento do filho era o fato de a criança se sentir amada com palavras de afirmação, porém, por não recebê-las dos pais, sentia-se rejeitada. “Pais podem reter palavras de afirmação pensando em evitar a arrogância nos filhos – uma vez que, certamente, humildade é preferível à arrogância –, mas existe um meio-termo entre o exagero e a escassez”.

O que conta é reconhecer o valor que eles (os filhos) têm de forma sincera e verdadeira. Adriana Castro

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Na busca por esse equilíbrio é preciso estar ciente de que não existe medida ou fórmula certa para os elogios. Para a psicóloga Carolina Lisboa, professora e pesquisadora da PUCRS e consultora em escolas, “a melhor educação é a que mescla exigência com elogio. A mesma proporção”. A psicóloga alerta que tanto o exagero como a ausência de elogios são prejudiciais. “A falta de reforços positivos leva à baixa autoestima, o que poderá trazer consequências negativas nos relacionamentos interpessoais e até no desempenho escolar, por exemplo. No entanto, o excesso pode gerar uma dependência emocional, uma pessoa que viverá constantemente em busca de aprovação”. O antropólogo Gary Chapman sugere que os pais elogiem seus filhos todos os dias, mas não todos os minutos de cada dia. Para Adriana Castro, mãe de três estudantes do Colégio Marista João Paulo II, de Brasília (DF), elogiar significa contribuir para a segurança e a autoestima dos filhos, por isso não hesita em fazê-lo. “Os elogios devem ser verdadeiros e acontecer nos momentos em que sentirmos essa necessidade”, diz.

Leia trechos do livro As cinco linguagens do amor para crianças aqui: migre.me/uPoVm

ELOGIAR COM SINCERIDADE Mais importante do que elogiar é elogiar com sinceridade, como aponta a psicóloga Carolina Lisboa. “Se você não acredita no que vai exaltar, não fale. As crianças notam quando não é verdadeiro e isso é um tiro no pé, gerando desconfiança ao invés de segurança”. Ela complementa que, por vezes, os pais tentam compensar com um elogio um sentimento de pena que tiveram diante de alguma situação, mas isso não é adequado. “O elogio passa a ser associado a algo negativo, pois a criança tem consciência de que certos comportamentos não são passíveis de elogio”. O exercício do elogio sincero serve também para momentos em que, aparentemente, não se tem o que valorizar. Chapman desafia os pais a encontrarem uma palavra de afirmação diante de um erro. Para esse momento, é preciso jogar fora as lentes da piedade e revestir os olhos com sinceridade, procurando um tesouro. “Valorizar os filhos quando eles são bem-sucedidos é fácil. 'Bom trabalho', 'Você conseguiu', 'Você é tão inteligente'. Mas nós podemos e devemos buscar oportunidades de elogiar ou encorajar mesmo quando eles cometem um erro. Por exemplo, se uma criança quer se servir de uma bebida e ela pode tentar sozinha, nós podemos supervisioná-la e ajudá-la. Quando espirrar um pouco de bebida para fora do copo, podemos dizer 'Você quase conseguiu' ou 'Nós podemos limpar isso juntos'. Isso é um encorajamento. Nós não estamos bravos e acreditamos naquele filho. Essa é a mensagem transmitida quando respondida assim”. Tanto o reconhecimento de uma atitude como uma característica pessoal podem ser elogiados. “Isso é um ponto importante para nós, pais: comunicar de formas tão diferentes quanto for possível que realmente nos importamos com nossas crianças, que acreditamos que elas são capazes, que

sabemos que não são perfeitas mas têm muito a oferecer”, diz Chapman. Para Adriana, os dois tipos de elogios são igualmente importantes. “Quando os esforços são elogiados, estamos valorizando a capacidade de vencer obstáculos, ao passo que quando elogiamos alguma característica pessoal está se validando quem os filhos são. O que conta é reconhecer o valor que eles têm de forma sincera e verdadeira”. Chapmam lembra que, em última análise, a criança não vai se lembrar de todas as palavras positivas ditas a ela (se foi valorizando o esforço ou uma característica), mas ficará em seu subconsciente um senso de que, não importa o que aconteça, os pais se importam verdadeiramente com ela. Logo, segundo o antropólogo, a mensagem é: pais, relaxem e elogiem sinceramente seus filhos. “Vocês não precisam ser perfeitos, nem falar palavras perfeitas no tempo perfeito. É mais importante que, como pais, nós comuniquemos às crianças, constante e claramente, que elas têm valor, não importa o que aconteça, perdendo ou ganhando”.

Se você não acredita no que vai exaltar, não fale. As crianças notam quando não é verdadeiro e isso é um tiro no pé, gerando desconfiança ao invés de segurança. Carolina Lisboa Psicóloga

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capa

mos r e d n e t n Para e tões, s e u q s a s es leiros i s a r b o c cin s pelo o d a h l a p es que se e o d n u m idadãos c m a r e d consi rão os e s s , i a i a r b ó o t l a éria, t migrmigra tória, g a m a CriseCrise t s de de guias ne amentoento fechfecham opõe r . . p . a e i s b o e f u o q fronte xen xenofobia... iras,iras, ir os e d d n frontEeonde o a t i p e x r e i de direito d o a o cafica amos V . e s e d t E ondireefivir?pOrinprincíp o n i o p í c io de horiz O ssão u c s i d ? o a r ir e vir?respei s t ououtro? levar es to aoao casa? e respeito d o r t n para de

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© Ilustração: Freepik

Paula Fiuza, Homero Aziz, Mariana Oliveira, Wagner Vila e Mariana Gebran. Cinco brasileiros que há anos transcenderam as fronteiras nacionais (alguns deles já tendo vivido em mais de um país) e que se consideram cidadãos globais. Cada um com a sua definição desse termo, mas com um ponto em comum: a capacidade de ver com amplitude as diferentes culturas do mundo, respeitando cada uma e permitindo se conectar e se identificar com elas. Pela perspectiva desses brasileiros, que hoje estão em outros territórios (América do Norte, Oriente Médio, Europa, Ásia e África), inicia-se aqui, uma jornada para se tentar compreender as diversidades globais de pensamentos e ações.

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Com a crise migratória atual e as posturas protecionistas dos Estados Unidos e alguns países da Europa sobre o ingresso de estrangeiros – em especial refugiados –, os holofotes se encontram sobre a discussão do direito de ir e vir, garantido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, portanto, aplicável a todos os habitantes do mundo. Esse grande caos migratório ganhou mais notoriedade na mídia nos últimos cinco anos, desde o início dos conflitos envolvendo o grupo radical Estado Islâmico, a Síria e o Iraque. O Brasil, apesar da distância, passou a receber imigrantes provenientes desse conflito – algo novo para o País. E, na mesma época, o Brasil, também passou a ser o destino de muitos haitianos (que fugiam de uma crise social


e econômica agravada pelo terremoto que abalou o país em 2010). Mas Wagner Vila lembra que esse caos mundial já existia muito antes, só não era amplamente divulgado como agora. Ele se recorda das situações de deslocamentos forçados entre os países africanos, por exemplo. “Quando morei na África, o país que nos recebeu tinha acabado de sair de uma guerra civil de 32 anos. Muita gente fugiu para outros países e, quando a guerra acabou, as Nações Unidas começaram a trazer de volta milhares de pessoas para seu país natal. Vi caminhões chegando com centenas de refugiados. Muitos deles não tinham nem mesmo lugar pra morar. Mas estavam de volta a sua terra. Há dois lados da moeda. Um lado é o de quem é refugiado. São pessoas! Em certos casos, uma ajuda rápida e urgente se faz necessária, mas, em outros casos, é preciso uma ajuda mais pensada e cautelosa para que os resultados de longo prazo sejam bons para eles mesmos. Do outro lado, está quem recebe o refugiado. Não importa se o país receptor é forte ou fraco economicamente, a verdade é que quem recebe sempre tem receios. Por exemplo: quais são as consequências de os recebermos? Se quisermos tratar bem uma pessoa temos que estar dispostos a ir além do que pensamos que podemos ir, humanamente falando”. Para Paula Fiuza, organizadora de eventos, que está morando há quatro anos nos Estados Unidos, percebe-se que o discurso do candidato à presidência Donald Trump, na verdade, reflete o que muitos no país pensam, mas ainda não haviam declarado. Por isso ele encontra tantos adeptos. “Há vários fatores que contribuem para a popularidade dele, mas sem dúvida o principal é sua oratória: ele anuncia

o que muitas pessoas pensam e já pensavam, mas não tinham coragem de assumir. O discurso preconceituoso e intolerante está sendo baseado em sentimentos, na tentativa de convencer os eleitores pelas emoções, e não por fatos. ‘As pessoas se sentem ameaçadas por imigrantes’, ‘As pessoas sentem que a economia está ruim’, mesmo quando os dados apontam o contrário”. Pelas ruas de Paris, onde vive a analista de segurança financeira Mariana Oliveira, o sentimento de insegurança e de necessidade de proteção nacional é constante, principalmente com os recentes ataques terroristas à França. “Quando questiono meus vizinhos ou colegas de trabalho sobre como era Paris antigamente, eles contam, incrédulos, como a cidade mudou, para pior, nos últimos vinte anos. Culpa dos imigrantes ou não, em alguns momentos, eles são associados a essa mudança negativa”. Vale lembrar que a França se encontra, assim como os Estados Unidos, em uma crise com os imigrantes há anos – tanto com os do continente africano quanto com os de países árabes. Demonstrações de preconceito, tendo como respaldo a manutenção da ordem pública, são frequentes no território francês. As notícias mais recentes mostram a proibição do burkini (vestimenta usada pelas mulheres muçulmanas para irem à praia) por motivos de segurança. Para Mariana Oliveira, além de cobrar dos Estados posturas adequadas com relação aos imigrantes, é preciso também certa disposição daqueles que chegam a um novo país para se adaptar às novas realidades. “Desde pequena me ensinaram que, quando vamos à casa de alguém, devemos respeitar as regras daquela casa. Por mais que eu tivesse muita intimidade,

O amor ao próximo também nos leva a ser realistas com os fatos ao nosso redor. Se quisermos tratar bem uma pessoa temos que estar dispostos a ir além do que pensamos que podemos ir, humanamente falando. Wagner Vila Missionário

isso não me dava o direito de mudar a rotina de quem morava lá, de impor novos hábitos. Nesses anos que estou ‘na casa de outras pessoas’, morando na França, me policio para continuar tendo o mesmo respeito. Minha cultura, meus hábitos e meu modo de ser são adaptados ao máximo para que eu consiga viver em harmonia com os locais e com outros expatriados que também adotaram a França como casa. Acho que um dos motivos que levam pessoas como Donald Trump e Marine Le Pen (líder da Frente Nacional, partido de extrema direita na França) a ganhar tanta popularidade é justamente algumas pessoas começarem a ficar fartas de se sentirem invadidas em sua própria casa”.

FRONTEIRAS FECHADAS Se por um lado existe um pensamento atual que valoriza conhecer outros territórios e culturas, sendo facilitado pelos meios de transporte, pelas novas formas de acomodação e as infinitas maneiras de se viabilizar

Quem de fato tem o direito de ir e vir quando as possibilidades de transporte

ainda não oferecem preços acessíveis a todos? 9


capa

Os anos mudam, mas as causas migratórias não.

Pense numa pessoa próxima que migrou recentemente. O que a levou a fazer isso?

isso economicamente, por outro as fronteiras se encontram mais fechadas do que antes. De acordo com o doutor em Direito José Gediel, coordenador do projeto Hospitalidades, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), reconhecido pelas Nações Unidas pela efetividade no trabalho com imigrantes e refugiados, a ideia de um mundo atual de trânsito mais livre é ilusória: “Nunca estivemos tão fechados. As fronteiras estão mais guardadas e intransponíveis do que antes”. A professora de Direito Internacional Carolina Claro, da Universidade de Brasília (UnB), e também consultora em legislação e políticas migratórias, explica que essa superproteção das fronteiras ou mesmo o fechamento delas não soluciona nada. “Essas medidas não diminuem o fluxo, mas aumentam a imigração de ‘indocumentados’, o que fomenta a imigração ilegal, como o financiamento de ‘coiotes’. É um equívoco pensar que medidas de impedimento de entrada de estrangeiros estarão protegendo o país”. Para o missionário Wagner Vila, que vive em Taiwan, é preciso haver um equilíbrio pautado no amor ao próximo e pensando no bem coletivo – não só de quem vem, mas dos cidadãos locais também. “Para quem deveríamos abrir as portas e para quem não deveríamos? Eu não convido todos os que eu conheço para virem a minha casa. Minha casa é minha casa. Temos as nossas razões para receber ou não pessoas. Contudo, isso não pode ser tornar uma coisa engessada que me atrapalhe ao praticar os princípios de generosidade, hospitalidade e de amor ao próximo. Já recebi gente que não conhecia em minha casa, inclusive um refugiado do genocídio que aconteceu no Burundi, África. Mas também já tive que dizer não para pessoas que conheço por razões diversas. Acredito que como nação precisamos, sim, ser cuidado-

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sos com nossas fronteiras, mas sem perder a misericórdia”. Em verdade, qualquer cidadão deveria ser considerado um cidadão do mundo, com possibilidades reais de ir e vir pelas nações, como afirma Sérgio Nunes, coordenador de Igualdade Étnica e Racial da Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos do Rio Grande do Sul. José Gediel lembra, porém, que esse conceito, de forma efetiva, é quase impossível de se realizar: “A ideia de cidadania do mundo é incompatível com o conceito de Estado Nacional que vigora hoje”.

Culpa dos imigrantes ou não, em alguns momentos, eles são associados a essa mudança negativa.

Nome: Paula Fiuza Nacionalidade: Brasileira Idade: 28 anos Ofício: Organizadora de eventos Vive em: Estados Unidos País do coração: Brasil “Cidadão global é alguém com uma visão ampla de mundo, que consegue absorver culturas variadas e conceitos diferentes, que pertence a vários lugares e enxerga o contexto global justamente desta maneira – global”.

França Estados Unidos

Mariana Oliveira Analista de segurança financeira

Nome: Mariana Gebran Nacionalidade: Brasileira Idade: 30 anos Ofício: Psicóloga Vive em: Quênia País do coração: Djibouti [pequeno país no Nordeste da África] “Uma pessoa que consegue dialogar com outras culturas é um cidadão do mundo, alguém que aprende a respeitar e a entender que existem diferentes formas de viver, de se vestir e de se expressar no mundo todo. Eu amo o Brasil e acredito que sempre chamarei o Brasil de casa. Mas o Djibouti, no ‘chifre’ da África, tornou-se o meu país do coração. Não apenas o país conquistou esse lugar, mas as pessoas que vivem lá também”.


Cidadãos globais

Para exemplificar, Gediel cita o próprio cenário brasileiro: “Nosso País viveu uma ditadura de 25 anos, em que um estrangeiro podia ser visto como um perigo, trazendo uma imagem ruim para o país. Naquela época, só os Estados Unidos eram bem-vindos. Ou seja, a postura de hoje é decorrente da história. Ainda existe uma ideia de necessidade de proteção do Estado”. Por isso, para se falar em cidadania global, é preciso conhecer e aceitar a história de cada local, entendendo suas limitações, assim como exercitar mais a tolerância e a empatia com aquele que é estrangeiro. “Um imigrante europeu e um africano devem ser vistos de maneira igual, pelo olhar da migração. Ambos são imigrantes, com as suas particularidades culturais. É preciso se colocar no lugar do outro e se perguntar como você gostaria de ser tratado no mundo”, diz Sérgio Nunes.

Nome: Homero Aziz Nacionalidade: Brasileiro Idade: 30 anos Ofício: Diretor de uma organização de ajuda humanitária no Oriente Médio Vive em: Jordânia País do coração: Colômbia “Após ter conhecido 25 países diferentes, da Colômbia até a Coreia do Norte, ter feito mais de trinta viagens para fora do Brasil e morar há mais de dois anos no Oriente Médio no meio de refugiados, convivendo diariamente com muitas nacionalidades diferentes, às vezes, em uma hora, usando quatro idiomas, sim, me considero um cidadão global”.

Nome: Mariana Oliveira Nacionalidade: Brasileira Idade: 28 anos Ofício: Analista de segurança financeira Vive em: França País do coração: Brasil

© Foto: Divulgação

“Se do sofá da sua casa você teve interesse em saber o que se passa na Síria ou por que na ilha de Páscoa tem aquelas estátuas viradas para o mar, bom, então, você é um cidadão do mundo”. Jordânia Taiwan

Nome: Wagner Vila Nacionalidade: Brasileiro Idade: 46 anos Ofício: Missionário Vive em: Taiwan País do coração: Brasil “A meu ver, um cidadão do mundo é uma pessoa que tem habilidades e qualidades para se ver e ver outros povos e suas culturas com olhos de um aprendiz, e que, ao mesmo tempo, não negocia valores. Eu sou cristão e há princípios que são inegociáveis. Um cidadão do mundo participa da vida diária da comunidade onde está inserido, respeita as leis e valores da cultura onde está sem quebrar os princípios nos quais crê. Um cidadão do mundo se preocupa em trazer melhorias para a comunidade que o recebe. Ele aprende a língua do povo o melhor que pode. Se diverte, come, sente a tristeza do povo”.

© Fotos: Acervo pessoal

Quênia

TURISMO DE EMPATIA Se você nunca praticou esse tipo de turismo, está na hora de colocá-lo em prática. A ideia é conhecer lugares novos por meio de vivências com pessoas nativas, experimentando comida típica e seguindo o ritmo local, por exemplo. A jornalista Talita Ribeiro cunhou o termo “turismo de empatia”, lançando um livro homônimo sobre sua viagem para a Jordânia e o Iraque em tempos de guerra. O livro é um convite para olhar as pessoas nos olhos e descobrir o quanto de identificação há em histórias aparentemente distantes. Conheça a página do projeto:

facebook.com/turismodeempatia

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PARA SE PENSAR Em seu livro A ralé brasileira, o sociólogo Jessé Souza trata da identidade nacional e da importância de se conhecer as estruturas de um país para compreendê-lo e pensar em soluções. Ele afirma também que o mundo se transforma quando as pessoas se dispõem a pensar. Pensar além do que se pensava minutos antes já é um ato de transformação.

AVERSÃO AO OUTRO O medo e o preconceito gerados pelo desconhecido são os principais fatores que fomentam a aversão ao estrangeiro, na opinião de Homero Aziz. Ele trabalha, atualmente, em uma base humanitária na Jordânia, na acolhida de refugiados sírios e iraquianos, de onde faz uma leitura crítica sobre essa questão. “A mídia instiga o medo no público através de uma associação errada dos refugiados com o terrorismo, a violência e a guerra. Muitos acabam, então, por pensar que juntamente com os refugiados virão todos os problemas que eles enfrentaram em seus países de origem, o que não faz sentido. Também, de uma maneira geral, as pessoas avaliam a situação sem conhecer bem todos os aspectos e, principalmente, sem humanizar a crise. Refugiados são pessoas normais como a gente, mas que perderam tudo por causa de tantos fatores difíceis e traumáticos”. Do ponto de vista de quem é imigrante em outro país, Paula Fiuza afirma que já sofreu preconceito nos Estados Unidos por ser brasileira. “Es-

tima-se que 60 mil brasileiros vivam em Orlando, então existe uma ideia de ‘invasão brasileira’. E, como nem todas as pessoas se comportam da melhor maneira – e todos tendem a se lembrar dos piores comportamentos em vez das experiências agradáveis –, existe, sim, um estereótipo. Às vezes, sinto uma pressão de me desculpar pelo meu País, por quem somos, mas não é bem por aí, né?”

Uma pessoa que tem ódio e aversão de um imigrante precisa entender que situações de adversidade, sejam elas econômicas, políticas, que levam a um deslocamento, atingem pessoas e não números. Mariana Gebran Psicóloga Para Mariana Gebran, que já morou no Djibouti e, atualmente, vive no Quênia, ambos no continente africano, ela entende que para pôr um fim nos discursos de ódio motivados, muitas vezes, por medo, é preciso olhar para além dos números da migração e enxergar seres humanos. “Uma pessoa que tem ódio e aversão de um imigrante precisa entender que situações de adversidade, sejam elas econômicas, políticas, que levam a um deslocamento, atingem pessoas e não números. No caso da guerra, o conflito mata pessoas, seres humanos. A cada bom-

ba, cada barco que afunda cheio de imigrantes, são milhares de histórias, sonhos, dores, alegrias, lágrimas e sorrisos que desaparecem. Olhar além da cor, da religião e do país de origem, enxergar pessoas, vidas e sonhos é uma atividade fundamental para que a aversão e o ódio de imigrantes não tomem conta da nossa sociedade”. © Foto: Acervo pessoal

© Foto: Divulgação

capa

Mariana Gebran em intervenção no Djibouti.

MUDANÇA DE MENTALIDADE “Eles estão roubando os nossos empregos” – esta é a frase do senso comum para justificar por que os estrangeiros são malvistos no mundo e no Brasil. Os cinco cidadãos globais desta matéria afirmam que esse também é o discurso presente nas regiões em que vivem. (Vale lembrar que de modo algum existe justificativa para posturas de exclusão, ódio ou preconceito.) Para Sérgio Nunes, é preciso mais esclarecimento para a população. “Precisamos trabalhar formas de informar os cidadãos sobre quem são os estrangeiros que estão chegando a determinado país. No caso do Brasil, por pior que esteja a nossa situação econômica, eles não estão roubando empregos. Pelo contrário, eles estão ocupando vagas que os brasileiros já não queriam mais. É preciso desmistificar isso”. Homero Aziz percebe, pela proximidade com refugiados, que realmente existe um mito em torno da capacidade ou do potencial dessas

Quais são os seus medos com relação a esse assunto? Qual o fundamento deles? 12


pessoas. “Existem centenas de milhares de refugiados altamente capacitados em suas áreas profissionais, algo que quase nunca é levado em consideração. Se, assim como o Canadá e a Austrália, nosso país olhasse a crise por esse lado, talvez pudéssemos usar a oportunidade que temos de receber refugiados para crescer em diferentes áreas nas quais esses profissionais poderiam atuar”. Diante de um cenário que ainda envolve desinformação por parte da população e estratégias efetivas de acolhida por parte do governo, a consultora Carolina Claro entende a necessidade de maior planejamento para receber os estrangeiros no Brasil, em especial, os refugiados, que possuem uma condição diferente dos demais imigrantes. Na opinião de Mariana Oliveira, um questionamento que deve ser feito pelos governos e pela sociedade civil é: “O imigrante será inserido no dia a dia ou ficará às margens da sociedade?”. Para Wagner Vila, o País precisa refletir sobre o assunto para não as-

sumir, facilmente, uma postura assistencialista, que nega a autonomia do imigrante. “Um ‘sim’ sem planejamento pode gerar problemas, como o assistencialismo. Ou seja, não ajudamos as pessoas a se desenvolverem. À primeira vista, receber refugiados é um ato de ajuda urgente e específica. Mas, numa segunda fase, isso pode se tornar paternalismo se a estrutura não ajudar essas pessoas a se desenvolverem no novo país”. Como lembra Sérgio Nunes, quem dá suporte para todo esse novo contexto migratório que o Brasil tem vivido são as pastorais, as ONGs e a sociedade civil. Tanto ele quanto Carolina Claro identificam que é preciso haver mais articulação desses segmentos com o governo, principalmente para não reduzir a situação à assistência sem medidas efetivas de inserção. José Gediel comenta que essa deve ser uma postura de todos e que cabe à sociedade civil também se perguntar sobre a temática, na busca por soluções e atitudes que contribuam para melhor acolher os imigrantes – em especial os refugiados.

INICIATIVAS MARISTAS Estes dois projetos são possibilidades para promover uma aproximação entre culturas diferentes e gerar empatia:

© Foto: Divulgação

Que tal se conectar mais com culturas diferentes? REFÚGIO DE HOSPITALIDADE O livro Refúgio e hospitalidade, organizado por José Gediel e Gabriel Godoy, relata experiências bem-sucedidas de acolhida de refugiados e portadores de visto humanitário no Brasil. A ideia é promover a disseminação dessas iniciativas e também fomentar o surgimento de outras. Disponível on-line: migre.me/uQQXc

A mídia instiga o medo no público através de uma associação errada dos refugiados com o terrorismo, a violência e a guerra. Homero Aziz Diretor de uma organização de ajuda humanitária no Oriente Médio

Vozes do Mundo Não existe melhor forma de gerar empatia entre pessoas do que promover um encontro entre elas. Sendo assim, o projeto Vozes do Mundo, idealizado pela professora de Geografia Francielle Maffini, do Colégio Marista Santa Maria, em Santa Maria (RS), propõe um diálogo entre os estudantes do 9o ano EF e um cidadão nativo do continente que estão estudando. No último semestre, o professor Paulino Varela Tavares, natural de Cabo Verde, doutor em Economia pela UFRGS, falou sobre o continente africano. Ele abordou a política, a cultura, a educação, a economia, os conflitos étnicos, entre outras características que definem a região. Os próximos continentes abordados serão Ásia, Oceania e Europa.

Português para estrangeiros A língua é uma das principais formas de se sentir acolhido em um lugar. Por isso, o Colégio Marista São Francisco, no Rio Grande (RS), incentiva os estudantes a participarem de um projeto de ensino de português para senegaleses, por meio da Pastoral do Migrante. Falando a língua do novo país, o estrangeiro é empoderado e retoma a sua autonomia, o que é fundamental para o seu bem-estar pessoal e convivência na nova nação.

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© Fotos: Gisele Sauer

entrevista

Aprendendo

com aos filhos ser A incompreensão entre pais e filhos é um problema antigo, que passa de geração para geração, mas a solução está na disposição para ser pai. Você sabe ser um? Em entrevista exclusiva para a revista Em Família, Marcos Piangers, pai da Anita e da Aurora, e também autor dos livros O papai é pop e O papai é pop 2, fala sobre o desafio de ser pai em um mundo em que os homens não são “treinados” para isso.

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pai Por Michele Bravos

Os homens A gente não é “treinado” para ser sabem ser pai. Mas vivemos uma reconfiguração pais? familiar. No momento em que a mu-

lher começa a trabalhar mais, o homem tem um espaço para preencher no seio familiar e, consequentemente, está descobrindo o romantismo e a beleza da paternidade.


Que tijolos sustentam o muro que separa pais de filhos?

A gente saiu de uma geração que não falava eu te amo, que não abraçava, que não era muito carinhosa. E aí a gente tem um ponto bem importante. Um dos tijolos que separam pais e filhos é o “não treinamento” de pais. O homem não é treinado para cuidar de criança. Ele não brinca com boneca. Ele não é incentivado pelos pais a estar pensando o tempo todo numa família. Ao contrário da mulher. Desde pequenininha, ela escuta que vai se casar, que um dia vai ter seus filhos, que um dia vai ter uma casa. O menino, não. Ele é treinado para ser “pegador”, para se distanciar de relacionamentos mais íntimos, mais sensíveis. Acho que isso acaba gerando pais que muitas vezes não sabem como se aproximar dos filhos.

Qual a sua interpretação sobre a crise de incompreensão entre pais e filhos?

Eu acho que existe um abismo geracional. Na verdade, sempre existiu. Acredito que a gente tem essa dificuldade de perceber nos jovens aquilo que a gente já foi, e os jovens, evidentemente, têm uma dificuldade de perceber que os pais já foram jovens. Os pais, por terem vivido muitas experiências, sabem mais do que os filhos em alguns aspectos. Eu acredito, sim, que a gente vive uma crise de incompreensão, mas ela é habitual. A tecnologia também tem aumentado a dificuldade de comunicação entre pais e filhos.

Como vencer essa incompreensão?

Acho que a forma de vencer essa dificuldade de comunicação é passando tempo junto. Tendo tempo de qualidade e, se possível, com tempo privado. Só você e o seu filho ou filha. O que eu faço lá em casa é, uma vez por semana, tentar almoçar com a minha filha mais velha, só nós dois. É um tempo em que a mais nova não está interrompendo e a minha esposa não está ali, podendo inibir uma determinada conversa. Então, acho legal quando temos um tempo só para nós. Espero que isso dure para sempre e que nos mantenha com laços muito próximos para o resto da minha vida.

De que forma você acha que a tecnologia tem atrapalhado essa relação?

No momento em que meu filho sabe mais de tecnologia do que eu, eu me sinto acuado e compelido a não discutir com ele. A gente saiu daquela geração em que só se aprendia com os pais e estamos vivendo uma geração em que os filhos também ensinam aos pais. Percebo que isso deixa alguns pais encabulados de conversar e se relacionar. Além disso, uma geração que está o tempo todo olhando para uma tela é distante. A tela nos distancia. Eu tenho convicção de que a tela nos deixa mais distantes e mais cínicos muitas vezes. A gente fala nas redes sociais coisas que não falaríamos olhando nos olhos. A gente é mais malvado nas redes sociais. E isso é preocupante. Isso é ter em mente também que a tecnologia sempre moldou o comportamento humano, historicamente falando. E que as redes sociais e os smartphones estão, sim, mudando a forma como a gente se comporta e como as futuras gerações vão se comportar. Mais uma vez, a solução para isso é a mesma já dita antes: passar algum tempo com o seu filho. Pode parecer complicado, mas é a única forma de você romper esse muro. Sem computador, nem smartphone no meio. Sem estar lendo um e-mail ou uma mensagem durante o tempo com seu filho. Essa é a coisa mais importante. Você que permanece diante de uma tela, fazendo outras atividades, na companhia do seu filho, só está tornando esse muro ainda mais alto e gerando motivo de distanciamento.

Marcos Piangers afirma que passar tempo com os filhos é a solução para a crise de incompreensão entre gerações.

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entrevista O que suas filhas lhe ensinaram sobre isso?

Uma vez, em casa, eu estava respondendo o e-mail profissional, enquanto a minha filha estava me chamando. Até que ela se colocou debaixo do meu celular e falou: "Pai, para você olhar para mim só eu ficando atrás do seu celular". Isso foi um recado para me dizer que a tela estava nos distanciando. Eu até posso levar trabalho para casa, mas esse trabalho vai ser feito depois que elas forem dormir.

Você acha que a raiz da rebeldia dos filhos pode estar no distanciamento e no orgulho dos pais?

A rebeldia dos filhos é algo inato. Sempre que a gente começa a descobrir algumas coisas também passa a confrontar tudo aquilo que os nossos pais dizem. A fase da juventude é uma fase de tentar encontrar quem a gente é. A gente passa a infância e a adolescência tentando se encontrar como pessoa. Acho que o melhor que um pai pode fazer é ajudar o filho nessa descoberta, não tendo preconceito com a nova geração e seus discursos, sendo capaz de entender o mundo da perspectiva do filho e conversar sobre todos os assuntos: drogas, sexo, liberdade, todos os tabus. Só assim podemos criar laços de intimidade, de confidência. Vem vindo aí uma geração que não é nada orgulhosa, que não está preocupada com hierarquia, nem com dinheiro. É uma geração muito idealista que está mais comprometida em cooperar e compartilhar do que com ter poder, como gerações do passado.

Diante de pais inatingíveis, qual deve ser a postura dos filhos, na sua opinião?

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É muito difícil um filho arrumar uma situação de distância. Cabe sempre ao pai resolver essa questão. É muito importante que o pai faça uma reflexão e perceba se não está sendo duro demais e se isso não está criando uma distância entre eles, ou se ele não está falhando em impor limites. Porque isso também pode distanciar. A capacidade que um pai tem de perceber qual é a hora de dizer não é o que faz dele um bom pai. É muito difícil um filho, que percebe o pai como uma pessoa distante, conseguir arrumar isso. Um pai que é inatingível com o tempo vai ficando cada vez mais orgulhoso.

Você já pediu perdão para suas filhas por ter feito algo que as tenha magoado?

Claro! O tempo todo. Uma vez, a gente estava na cozinha fazendo um bolo e eu estava tirando um monte de fotos, achando que aquela era uma atitude muito legal. Então minha filha falou para mim: "Pai, vamos tirar menos fotos e viver mais a vida!". Isso foi um ensinamento para eu parar de querer abastecer o monstro das redes sociais e tentar viver de fato a vida que estou vivendo ao lado dela, sem tirar fotos, mas tentando guardar na lembrança e na alma os momentos lindos que a gente vive juntos. Eu acho fantástico pais admitirem seus erros para os filhos, reconhecendo que falharam. Se o pai puder fazer isso sistematicamente, será cada vez mais fácil e vai deixar o filho mais próximo. É um milagre!

Em uma de suas palestras, você afirmou que não cresceu na presença do seu pai e que isso foi um grande motivador para você querer ser um paizão. O que aconteceu no seu caminho que o fez ter essa postura?

Teria sido um motivador ainda maior se eu tivesse tido um grande pai. Eu seria um pai melhor, mais treinado, com alguém que tivesse me ensinado a ser pai. Eu errei muito por não ter sido treinado. Eu quebrei um ciclo com muito esforço, com o auxílio da minha mãe, da minha mulher e das minhas filhas. Mudei meu jeito de ver as coisas, de pensar e de me comportar. Preparar um ser humano para ser melhor é sempre trabalhoso. Quebrar um ciclo é uma decisão difícil e desgastante, mas é libertador e fundamental. Quando um ciclo se quebra, você transforma a sua descendência em uma descendência melhor.

A gente saiu daquela geração em que só se aprendia com os pais e estamos vivendo uma geração em que os filhos também ensinam aos pais. Percebo que isso deixa alguns pais encabulados de conversar e se relacionar.


EXPEDIENTE COLÉGIO MARISTA ROQUE R. Saldanha Marinho, 563 Cachoeira do Sul - RS Fone: 51 3724-8100 roque@maristas.org.br DIRETOR David Hatsek VICE-DIRETOR Samir Elias Miguel COMUNICAÇÃO E MARKETING Juliana Spilimbergo JORNALISTA RESPONSÁVEL Tiago Rigo (MTB 13919)

Ensino Fundamental em movimento

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Saiba mais sobre as adaptações e propostas curriculares que ocorreram na implementação do 9o ano do Ensino Fundamental.

Com a palavra

Educação Infantil

Caleidoscópio

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Ponto de vista

Gente nossa

Ensino Médio

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Direção destaca a relevância dos conteúdos abordados na revista feita para as famílias maristas.

Entenda como a força da imagem contribui para o aprendizado infantil e para a leitura do mundo.

EI EF EM

Cobertura dos principais projetos e atividades desenvolvidos no segundo semestre letivo.

Gabriel Sousa Schlottfeldt, estudante do 3o ano EM opina sobre as consequências das manifestações e movimentos populares.

O ex-aluno Angelo Bonini lembra dos tempos de Colégio e fala sobre sua profissão de fotógrafo e modelo.

Conheça alguns projetos que proporcionam efetiva preparação para a prova do Enem.

Diz aí

Em foco

Construir conhecimentos

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Saiba como nossos estudantes se preparam para o Enem.

A partir do tema Seu olhar sobre a escola, estudantes registram a própria percepção sobre o cotidiano escolar.

Confira iniciativas que ajudam a transformar a realidade.


Com a palavra

B

oas práticas que mudam o mundo

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Colégio Marista Roque

Há 87 anos, assumimos um compromisso conjunto com as famílias que confiam a nós a educação de seus filhos. Afinal, nossa proposta valoriza o cuidado, a humanização e o desenvolvimento pedagógico dos estudantes.

David Hatsek Diretor do Colégio Marista Roque

© Foto: Acervo do Colégio

Há 87 anos, assumimos um compromisso conjunto com as famílias que confiam a nós a educação de seus filhos. Afinal, nossa proposta valoriza o cuidado, a humanização e o desenvolvimento pedagógico dos estudantes. E essa esfera de acolhimento é o que torna a educação marista diferente, enriquecendo nossas práticas educacionais com uma didática aberta, diversa e pluralista. Quando andamos pelos corredores do Colégio, somos brindados por boas práticas que comprovam tal afirmação. Nas páginas desta edição da revista Em Família, daremos alguns exemplos. Na seção da Educação Infantil, mostraremos as experiências qualificadas e diversificadas referentes à leitura e à interpretação de imagens nas mais diferentes plataformas. Na sequência, a pauta do Ensino Fundamental relata as perspectivas da implantação do 9o ano e do Ensino Médio nos ganhos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Os estudantes do EM também contam como se preparam para o exame, criado há quase 20 anos, na seção Diz aí. Opinião também encontramos na coluna Ponto de vista, que traz o texto do estudante do 3o ano EM Gabriel Sousa Schlottfeldt sobre as consequências das manifestações e movimentos populares. Resgatamos ainda na seção Gente nossa a história do ex-aluno Angelo Bonini, que hoje estampa as campanhas publicitárias de marcas renomadas como C&A, Gang e Youcom. Apaixonado pela fotografia, o estudante da área descobriu também o talento como modelo e conta o que projeta para o futuro. Atividades marcantes do semestre também são expostas em fotos nas editorias Caleidoscópio e Em foco. Para finalizar esse bloco da revista, contamos o que nossos estudantes fazem para mudar o mundo, mostrando como a educação integral marista influencia a formação de crianças e jovens para que sejam agentes de sua aprendizagem em um espaço de excelência acadêmica e de formação humana. Boa leitura!


A força da imagem

Educação Infantil

para o aprendizado © Foto: Acervo do Colégio

As imagens são fundamentais no processo de encantamento e aprendizagem.

A cada página virada de um livro, o leitor viaja por um mundo de sonhos e fantasia. Para as crianças, principalmente as que ainda estão na fase de alfabetização, a presença da imagem é fundamental no processo de descoberta, encantamento e aprendizagem. As narrativas visuais, também presentes nas artes, como o cinema e a pintura, são apropriadas pelos pequenos a partir da ressignificação e atribuição de sentidos. Esses repertórios são usados como recursos de compreensão e leitura de mundo. Diante dessas premissas, a escola deve estar atenta para proporcionar experiências qualificadas e diversificadas referentes à leitura e à interpretação das imagens que ilustram livros, revistas, jornais, entre outros materiais gráficos, bem como em relação à apreciação de produções audiovisuais e de artes em geral. De acordo com a coordenadora da Educação Infantil e dos Anos Iniciais, Jaqueline de Freitas Quandt, além dos recursos citados, toda a organização do trabalho escolar se dá a partir de 'mapas mentais', que são ferramentas que enriquecem a

aprendizagem. “O mapa mental é como um diagrama, teia, ou fluxograma, que tem uma palavra-chave, o tema. Utilizamos, então, uma imagem bem significativa que representa esse tema, inclusive fotos da rotina de sala de aula. Essa teia é desenvolvida do centro para fora. As crianças participam desse planejamento junto com as educadoras realizando as conexões por meio das imagens. Essa teia pode ser construída e reconstruída sempre que as crianças e a professora desejarem, à medida que explicam suas ideias, pensamentos e conceitos adquiridos”, explica.

NARRATIVAS VISUAIS TRABALHADAS NO DIA A DIA No Marista Roque, o primeiro contato com a literatura infantil começa na Classe Bebê, a partir dos dois anos, quando a criança passa a ter proximidade com o mundo letrado e visual ao ouvir histórias, ao manusear livros, ao fazer uso do papel e lápis, realizando os primeiros registros gráficos e consolidando as primeiras tentativas de escrita. Essa etapa perpassa toda a

Educação Infantil através da ludicidade e da brincadeira. Para que isso aconteça, são criadas situações em que crianças e educadores explorem as relações da linguagem escrita e visual com a organização do mundo em que vivem. Dentre as atividades desenvolvidas para aguçar a interpretação das imagens, estão releituras de obrasprimas de artistas como Monet, Van Gogh e Tarsila do Amaral. Uma das ações do projeto Bichinhos do Jardim, do nível 2, estimula, por exemplo, que as crianças vislumbrem os detalhes da obra Jardim das águas e a reproduzam conforme o seu olhar. “É fundamental respeitarmos a infância com todas as suas características dando ênfase à sensibilidade do professor na condução desse processo, oferecendo um olhar atento, comprometido, cuidadoso com a aprendizagem das crianças e promotor de suas potencialidades. Nossas ações diárias de contato com a leitura, linguagem escrita de forma lúdica e significativa para a criança embasam o seu desenvolvimento da linguagem oral e escrita”, enfatiza.

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Caleidoscópio EI

2016

© Fotos: Acervo do Colégio

Por meio da Robótica, a tecnologia é inserida no cotidiano dos estudantes, dinamizando o jeito de aprender. Uma das atividades propostas foi a coleta seletiva de lixo com robôs.

Momentos de formação ensinam às crianças o poder da oração e as despertam para a responsabilidade consigo e com o outro.

REFLEXÃO

NA PRÁTICA A mesa luminosa feita com materiais recicláveis permite que as crianças do nível 2 explorem diferentes elementos da natureza de maneira sensorial.

Crianças do nível 3 aprendem as letras por meio de jogo de bingo dentro do projeto O Mundo Encantado das Letras.

As visitas ao bosque silvestre desenvolvem nas crianças a importância da preservação, conscientização e valorização do meio ambiente.

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Brincadeiras ao ar livre possibilitam que os estudantes interajam e se desenvolvam de forma sadia.

A apresentação das crianças na Festa Junina mostrou ao público as principais características culturais do evento.

Durante a Feira do livro, diversas atividades foram realizadas, entre elas a contação de histórias com Valquíria Cardoso, que também cantou, tocou e dançou com as crianças.

ACONTECEU

INTEGRAÇÃO

Dona Carochinha, personagem interpretada pela bibliotecária Dirce Nöller, fez a entrega dos primeiros cadernos quadriculados à turma no nível 3, dando início ao projeto Mundo Encantado das Letras.

Uma praia sensorial foi montada na sala do nível 3 com elementos de diferentes formas, cores e texturas representando o mar. A atividade integra projeto sobre o tema.

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© Foto: Acervo do Colégio

Ponto de vista

Por um futuro

Por Gabriel Sousa Schlottfeldt, 3o ano EM

mais justo

Manifestações e movimentos populares foram várias vezes formas eficientes para garantir mudanças na sociedade. Hoje em dia, em vários países, como no Brasil, o direito de se manifestar é inegável e não pode ser desrespeitado. Com o passar dos anos, o que tem mudado são os agentes da ação, abrangendo muitos jovens e estudantes. Tal fato pode ser visto com olhos esperançosos, podendo ser o início de uma sociedade mais comprometida, desde que haja tolerância quanto a diversas opiniões. A atual realidade demonstra que os jovens têm estado cientes das questões sociais do país e que o gosto por mudança é bem afiado nessa nova geração. Mesmo que não gostem de política ou que não tenham muito conhecimento de seus processos, muitos jovens descobriram a importância dela para a sociedade. Por isso têm saído para as ruas em busca da resolução de problemas iniciados por gerações anteriores, chamando muita atenção, como foi o caso da manifestação estudantil pelo salário dos professores no Rio Grande do Sul. De repente, a geração

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que virá será mais cuidadosa com o meio político do país. Se essa realidade consciente dos jovens se concretizar, as reivindicações populares terão peso muito mais significativo, já que a nova geração conta com o surgimento e uma facilidade no uso de novas tecnologias que proporcionam mais possibilidades de comunicação entre as pessoas. Porém, é necessário tomar muito cuidado com isso, pois esses meios podem abusar da euforia e da ingenuidade dos jovens e influenciá-los, tirando seu caráter crítico e transformando-os em extremistas ou alienados. Diante dos vários problemas enfrentados no mundo, principalmente no Brasil, é possível ter uma esperança nos jovens. É preciso olhar atentamente para essas questões, para que seja trabalhada corretamente a formação dessa juventude, dando-lhes tolerância, consciência, persuasão e personalidade. O mais importante, no entanto, é o conhecimento, pois na busca de um mundo melhor é necessário conhecer os erros do passado para não cometê-los no futuro.

Se essa realidade consciente dos jovens se concretizar, as reivindicações populares terão peso muito mais significativo, já que a nova geração conta com o surgimento e uma facilidade no uso de novas tecnologias que proporcionam mais possibilidades de comunicação entre as pessoas.


Novas perspectivas

Ensino Fundamental

com o 9 ano EF o

Educacional, bem como o diálogo efetivo com todos os Colégios para a implantação do 9o ano EF. Foram analisadas todas as implicações e necessidades, resultando em materiais de apoio, momentos de formação para os educadores, entre outras iniciativas desenvolvidas conforme a realidade de cada Colégio.

NOVOS RUMOS, NOVOS DESAFIOS Com a implementação do 9o ano EF, realizada de forma gradativa ao longo dos últimos oito anos, o Marista Roque consolida conhecimentos e habilidades indispensáveis à nova etapa, o Ensino Médio. O trabalho por áreas do conhecimento, através da metodologia de sequências didáticas, que podem ser entendidas como um conjunto de atividades ligadas entre si, planejadas para ensinar um conteúdo por etapas, ampliou as práticas em projetos como o Curtas Literários nas Linguagens, Rio Jacuí nas Ciências da Natureza, e diversas ações explorando

desde o teatro, a dança, a música até as artes plásticas no componente de Artes. Com as teias do conhecimento, estruturadas pelos educadores para dar conexão aos conteúdos, foi facilitada a inter-relação das competências e habilidades trabalhadas. De acordo com a coordenadora pedagógica dos Anos Finais e Ensino Médio, Maria Liz Lopes, mesmo com a divisão das Ciências da Natureza no 9o ano EF em Química, Física e Biologia, os professores estão realizando um trabalho de parceria, proporcionando unidade dos conhecimentos e habilidades para melhorar o entendimento do estudante: aulas de laboratório com práticas dos três componentes curriculares, bem como relatórios e provas. Esse trabalho, explica Maria Liz, “faz parte de uma elaboração e produção coletivas, escritas e executadas a muitas mãos, mentes e corações, com profundo respeito às experiências e trajetórias de cada estudante, (res)significando sua aprendizagem a cada nova conquista.” © Foto: Acervo do Colégio

Em 2008, o Ministério da Educação determinou a ampliação do Ensino fundamental para nove anos. Segundo os documentos e a legislação vigente, tal mudança foi estabelecida a fim de garantir uma educação de qualidade e uma estrutura curricular nesse ciclo, oportunizando mais possibilidades de aprendizagem aos estudantes. Isso gerou um movimento no cenário educacional brasileiro que desencadeou debates e exigiu reflexões da escola contemporânea. Sabe-se que ampliar o tempo escolar requer repensar o currículo e sua estrutura, partindo do pressuposto de que todos aprendem em tempos e em ritmos diferentes. Além disso, é preciso levar em consideração que o último ano do Ensino Fundamental representa uma etapa significativa para o estudante consolidar as competências e aprendizagens construídas até a chegada ao Ensino Médio. Mobilizada nesse sentido, a Rede Marista promoveu a articulação entre as áreas Pedagógica e de Gestão Aulas de laboratório com práticas nos três componentes integram o currículo.

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Caleidoscópio EF Representante do setor de vigilância epidemiológica da prefeitura, Andréa Santos visitou as turmas dos Anos Iniciais para dar orientações sobre como prevenir a gripe.

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© Fotos: Acervo do Colégio

Para aprender sobre o processo de fermentação, os estudantes cozinharam pães com o auxílio da professora Rosinele Perez.

No Laboratório de Química e Biologia, os estudantes relacionam teoria e prática através de experiências, como a realizada pelo 9o ano EF sobre filtragem da água.

NA PRÁTICA

CONQUISTA

PREVENÇÃO

As turmas dos Anos Iniciais participaram de gincanas e atividades elaboradas pelo 7o ano EF para ampliar os conhecimentos sobre sustentabilidade.

Integrantes das oficinas de Robótica conquistaram duas vagas na final da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), além de prêmios extras na etapa estadual da competição.

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Dentro do projeto Folclore, os estudantes das turmas de 3o ano EF foram incentivados a fabricar e brincar com brinquedos antigos, como cinco marias, peteca e pé de lata.

Grupo de estudantes da turma 181 fundou a Cooperativa Escolar Marista Roque (Coopemar), que tem como objetivo auxiliar na formação de futuros gestores e líderes e contribuir no desenvolvimento de cidadãos que respeitam os princípios do cooperativismo.

CULTURA

DESENVOLVIMENTO

No Dia do Índio, a turma do Turno Integral ampliou seus conhecimentos sobre a cultura e, na hora do lanche, compôs o cardápio com comidas típicas, como milho e amendoim.

O xadrez contribui com o desenvolvimento intelectual e pessoal dos estudantes.

Estudantes dos 4o anos EF leram e encenaram as histórias de Monteiro Lobato.

Colégio Marista Roque

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Click Click Foram as lições de vida que aprendeu no Colégio que auxiliaram Angelo Bonini a projetar a carreira de fotógrafo com a certeza de que o mais importante é fazer o que se gosta. Com 19 anos, o acadêmico de fotografia atua como fotógrafo independente e da agência Premier Models, trabalho que lhe rendeu a oportunidade de explorar também seu talento como modelo. Atualmente, o ex-aluno marista estampa as campanhas publicitárias de marcas como C&A, Gang e Youcom. “No Colégio, aprendi a ser mais responsável pelas minhas atitudes, a compreender que trarão consequências positivas ou negativas e que devo estar preparado para lidar com elas”, lembra. Quando foi convidado pela agência para trabalhar como modelo, Angelo chegou a hesitar, mas foi com confiança para os testes e agora colhe os frutos do trabalho. “É muito gratificante ver o resultado final de toda uma produção e estar dentro desse meio me fez conhecer vários diretores de arte, fotógrafos e cineastas, os quais sempre admirei e com quem não imaginava que um dia chegaria a ter contato de uma forma tão direta.” Dos tempos de Colégio, recorda ainda da acolhida de professores, funcionários e amigos. “Eu me sentia muito em casa. Sempre podia contar ou até mesmo desabafar sobre inseguranças, nervosismos e problemas com a Maria Liz Lopes (coordenadora pedagógica) e Magda Bonini (orientadora educacional) que eram como mães para mim”, completa.

OS RUMOS DA PROFISSÃO Antes de se encontrar na profissão, Angelo conta que enfrentou as dúvidas típicas da fase de transição do Colégio para a universidade. “A maioria das pessoas para quem eu contava que queria fazer Fotografia, por ser uma área totalmente diferente do convencional, me olhava de um jeito curioso e até preconceituoso. Isso fez com que eu chegasse a ter vergonha de falar o que queria cursar. Meu primeiro vestibular foi para a Universidade de Santa Maria (UFSM) e optei por Publicidade e Propaganda, mas, conquistando a bolsa integral na Ulbra de Canoas, em Fotografia, optei por fazer lá. No fundo, estou bem melhor focando no que eu realmente quero do que em algo totalmente amplo”, explica. Engana-se quem pensa que Angelo pretende parar por aí. Envolvido em uma exposição de fotografias com um trabalho autoral em um evento de música, o Origens Gathering, em São Francisco de Paula, ele vislumbra ainda bolsas para estudar cinema e fotografia fora do país e em está em processo para atuar como modelo no exterior.

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Colégio Marista Roque

Ex-aluno do Marista Roque, Angelo Bonini estampa campanhas publicitárias de marcas como C&A, Angelo Bonini tem planos Gang e Youcom de exercer a profissão de fotógrafo e modelo fora do País.

© Foto: Acervo pessoal

Gente nossa

Sobre a escolha profissional, ele dá a dica. “As pessoas têm a visão de que se deve fazer faculdade visando a alguma profissão que dentro do mercado apresenta falta de profissionais qualificados, com a meta de fazer concurso público. Não que seja uma visão errada, mas é uma forma muito pequena e imatura de se pensar. Há espaço para todo tipo de profissão e o quanto se ganha vai depender muito de diversas variáveis. Por isso, temos que seguir adiante e fazer o que realmente amamos fazer, correr atrás para fazer o melhor possível e estar abertos para agarrar as oportunidades que surgirem. Poder pagar as contas fazendo algo que você realmente gosta traz um sentimento de gratificação imensurável.”

No Colégio, aprendi a ser mais responsável pelas minhas atitudes, a compreender que trarão consequências positivas ou negativas e que devo estar preparado para lidar com elas.


Os caminhos

Ensino Médio

abertos pelo Enem ção do exame, o Enem segue atuando como indicador das aprendizagens construídas na Educação Básica. Além disso, possibilita ainda uma oportunidade de ingresso em universidades no exterior. Desde 2014, instituições de Portugal firmaram acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) para usar a nota do Enem no processo de seleção, entre as quais estão as universidades de Coimbra (UC), Algarve (Ualg) e Porto (UP).

PREPARAÇÃO INTENSIFICADA Frente à relevância do Enem, o Marista Roque desenvolve projeto que proporciona aos estudantes atividades de preparação para a prova. Os conteúdos são trabalhados de forma interdisciplinar, contando com materiais didáticos da Editora FTD com a compilação de todas as provas anteriores do exame e o Enem comentado. Além disso, semanalmente, as turmas recebem propostas de temas para a elaboração e posterior correção de redações. Entre as ações preparatórias ainda estão as aulas de profes-

sores de cursinhos da região sobre as quatro áreas do conhecimento, simulados e orientação vocacional. De forma complementar a esse trabalho, os educadores contam com o acesso ao Módulo Enem do Tuneduc, serviço de análise de dados que permite projetar soluções de eficácia para as decisões pedagógicas e estratégicas do Colégio. A professora de Filosofia e Sociologia Mônica Saldanha Dalcol, por exemplo, trabalhou as questões do Enem desde o início do ano letivo. “Na reta final da preparação, demos ênfase na revisão dos conteúdos mais cobrados nas últimas provas. Além disso, procurei estimular os estudantes para que também tivessem um olhar apurado para as duas disciplinas, já que, desde 2008, quando foi sancionada a lei que torna obrigatório o ensino de Sociologia e Filosofia nas escolas, o Enem passou a mudar o perfil das provas de humanas, dando maior relevância para essas duas disciplinas, procurando manter uma relação dialógica entre as teorias filosóficas, sociológicas e os problemas da atualidade”, ressalta. © Foto: Acervo do Colégio

Criado há quase 20 anos, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) cresceu em importância e abrangência. Atualmente, representa uma das principais portas de entrada no Ensino Superior no Brasil. Em relação ao currículo, a famosa “decoreba” perdeu espaço a partir do momento em que o Enem passou a trabalhar as quatro áreas do conhecimento (Matemática e suas Tecnologias; Ciências Humanas e suas Tecnologias; Ciências da Natureza e suas Tecnologias; e Linguagens, Códigos e suas Tecnologias). As provas exigem do estudante mais análise e raciocínio lógico do que informação bruta a ser memorizada. Sob essa perspectiva, o jovem deve dominar linguagens, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema, construir argumentação e elaborar propostas de intervenção solidária na sociedade. Isso abre caminho para as escolas desenvolverem o conteúdo de forma contextualizada e interdisciplinar, estabelecendo ligações entre aquilo que se estuda e nosso cotidiano. Apesar de já ter sido alvo de críticas devido a problemas na aplicaOs conteúdos são trabalhados de forma interdisciplinar com materiais didáticos da Editora FTD.

Colégio Marista Roque

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Caleidoscópio EM O professor de Biologia, Amilto Dalcin, e o de Química, José Francisco Zavaglia Marques, uniram os conteúdos dos componentes para aula prática sobre a produção de cana-de-açúcar e produtos derivados.

2016

Tradicional evento realizado pela Liga Estudantil Gonçalvense (LEG), a Gincana Champagnat envolveu provas como um quiz sobre a vida do fundador da Rede Marista.

O projeto Porto Belo é uma iniciativa interdisciplinar que possibilita o estudo da flora, fauna e geografia do município de Porto Belo, situado no litoral de Santa Catarina.

LIGA ESTUDANTIL

NA PRÁTICA

A LEG trouxe o comunicador Nairo Orlandi para interagir com as turmas no recreio do Dia do Estudante.

© Fotos: Acervo do Colégio

A prática da solidariedade é incentivada com a Campanha do Agasalho, promovida pela Pastoral Juvenil Marista (APM) em parceria com a LEG, que este ano arrecadou 1,4 mil peças de roupas e calçados para doação.

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Colégio Marista Roque


Momentos de formação auxiliam os estudantes do 3o ano EM a refletir sobre seu papel no mundo e promove a evangelização e formação por meio da convivência, da consciência crítica, da solidariedade e da espiritualidade marista.

Estudantes do 2o ano EM aproveitaram o Dia Mundial de Higienização das Mãos, celebrado em 5 de maio, para conscientizar a comunidade educativa sobre o tema.

CONSCIENTIZAÇÃO

ACONTECEU

Turmas do 3o ano EM foram desafiadas por José Francisco Zavaglia Marques, professor de Química, a debater situações-problema envolvendo conteúdos do componente curricular em um júri simulado.

Estudantes do Terceirão se caracterizaram para homenagear as diferentes profissões em alusão ao Dia do Trabalhador.

Durante a Feira do livro, estudantes participaram de palestra com o homenageado do evento, o jornalista e escritor Carlos Dornelles.

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Diz aí

Como

você

?

ALEXANDER ROMÃO V. MORINÉLLI 3o ano EM

BIBIANA SILVEIRA SCHLABITZ 3o ano EM

LAUREN LONGHI DA SILVA 3o ano EM

“Temos que ter em mente que cada um tem um jeito de aprender e devemos ter cuidado para encontrar o nosso jeito. Procurei várias formas para absorver melhor o conteúdo e estar preparado para o dia da prova. Então, escolhi uma hora do dia em que não sou interrompido e me dedico exclusivamente a fazer questões de outras edições do Enem.”

“Sigo como eixo principal o conteúdo aprendido em sala de aula durante o Ensino Médio, porque é inevitável que vejamos os mesmos conteúdos tanto na matriz curricular escolar quanto na linha pré-vestibular. Além disso, busco o auxílio dos professores para o esclarecimento de todas as dúvidas, bem como livros com o ponto de vista de autores usados como referência na realização das questões do Enem.”

“Eu me preparo para o Enem através de estudos diários. Procuro revisar os conteúdos abordados em sala de aula, assisto a videoaulas, faço anotações de dicas importantes e utilizo os materiais de apoio Enem comentado e Todo Enem. Também procuro acompanhar os telejornais para estar atualizada.”

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Colégio Marista Roque

© Fotos: Acervo do Colégio

se prepara para o Enem


1... 2... click!

Em foco

A partir do tema Seu olhar sobre a escola, estudantes registraram, por meio da fotografia, a própria percepção sobre o cotidiano escolar

“Nos últimos anos, a infraestrutura do Colégio evoluiu com a construção da quadra coberta.”

“O trabalho sobre as diferenças dos modelos atômicos na aula de Química envolveu a representação dos mesmos com comida.”

MARCELO GUIDOTI DE OLIVEIRA FILHO 2o ano EM

GABRYELLA M. PICCOLLOTTO 9o ano EF “A passagem das estações é visível no pátio do Colégio.”

KALIU PEDROSO NUNES 9o ano EF

“As formações no Recanto são muito divertidas, ainda mais com sol, ceú azul e lanche.”

MANUELA PEDROTI COSTALUNGA 2o ano EF

“O Dia do Estudante foi cheio de atrações, com direito a slackline.”

MARIANA MARCUZZO MOTTA BRENDA BILLMANN o o 2 ano EM 2 ano EM

Colégio Marista Roque

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Construir conhecimentos

Fique por dentro!

Conheça iniciativas que ajudam a transformar a realidade CORAÇÕES SOLIDÁRIOS As estudantes Júlia Fagundes da Luz e Emanuelle da Cunha Moreira fazem sua parte para mudar o mundo com o projeto Corações Solidários, desenvolvido no Lar Transitório de Cachoeira do Sul em parceria com a Pastoral Juvenil Marista (PJM) e o Conselho de Mães. A atividade integra o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do Ensino Médio da dupla e consiste em visitas quinzenais ao local. Lá são realizadas dinâmicas pedagógicas e lúdicas a fim de melhorar o desempenho escolar e minimizar as lacunas afetivas e promover a integração social de crianças e jovens entre 6 e 15 anos que se encontram na instituição.

HISTÓRIAS DO ENRIQUE

COOPERATIVISMO

Com apenas 6 anos, Enrique Rehbein Dutra já levou muita gente ao mundo da imaginação por meio da contação de histórias. Sua primeira experiência foi com apenas 2 anos e 4 meses na Feira do Livro de Cachoeira do Sul. Desde então, o pequeno tem na bagagem a participação em eventos de escolas do município e na Feira do Livro do Colégio. Com o auxílio da mãe, Tainara Aued Rehbein, cada apresentação ganha um toque especial, com materiais preparados para ilustrar as temáticas dos livros.

INTERACT CLUB Lições de solidariedade e trabalho em grupo são apenas alguns dos legados da participação das estudantes Cássia Vargas da Roza e Luiza Zavareze Anillo (a segunda e a quarta da esquerda para a direita, respectivamente) e no Interact Club, programa do Rotary que consiste em clubes de serviços humanitários para jovens de 12 a 18 anos. Entre as atividades desenvolvidas estão visitas a asilos e hospitais, bem como a arrecadação de alimentos, e de materiais de higiene e escolares para famílias carentes. Dinâmicas e reuniões também são organizadas para garantir o crescimento e a união do grupo, “o que é essencial para que continuemos com o voluntariado de forma agradável e com a cooperação dos membros”, resume Cássia.

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Colégio Marista Roque

© Fotos: Acervo do Colégio

Os princípios do cooperativismo estão presentes no dia a dia de um grupo de estudantes da turma 181. No início de agosto, eles fundaram a Cooperativa Escolar Marista Roque (Coopemar), a primeira da modalidade da área de atuação da Sicredi Centro Leste, que apoiou a implantação do projeto. A assembleia de fundação foi toda realizada nos moldes das assembleias das cooperativas tradicionais e conduzida pela turma, que debateu e votou a aprovação do estatuto e apresentou as propostas de trabalho ao público presente. O principal objetivo da atividade é contribuir na formação de futuros gestores e líderes de comunidade e no desenvolvimento de cidadãos mais solidários.


o o d n a t n e r f n E

olhar

O D E M

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Por Christian Haag Kristens*

de sobrevivência. Em termos evolutivos, medo de riscos à nossa vida ou integridade física auxiliou a tomar comportamentos no sentido de evitar situações potencialmente perigosas e aumentar as chances de sobreviver. Isso quer dizer que eu, você, todos nós, temos potencial para sentir medo. Na verdade, há diferenças importantes entre os indivíduos em relação a quanto medo cada um sente. E há mesmo algumas pessoas que não sentem medo, pois apresentam prejuízos em estruturas cerebrais onde o medo é processado. Não apenas nós, seres humanos, sentimos medo. Essa emoção está presente em muitas espécies, por conta de sua importância adaptativa para a sobrevivência. Na nossa vida e mesmo na de outros primatas não humanos, há medos que são mais comuns: de cobras, aranhas ou de organismos que representaram ameaças à sobrevivência ao longo da evolução. Por outro lado, existem medos que não são decorrentes do processo evolutivo, mas aprendidos no dia a dia.

© Ilustração: Shutterstock

O medo, sendo uma emoção básica ou primária, é experienciado por todos. A resposta de medo surge da percepção da iminência de perigo ou ameaça, a si ou a outros. Essa resposta varia e em diferentes graus pode levar a comportamentos como confrontação (ou luta), fuga ou mesmo congelamento e paralisia. Em muitos contextos, essas são estratégias humanas para se adaptar a uma situação. No entanto, diferentes fatores podem conduzir a pessoa desenvolver comportamentos que trazem prejuízo a si próprio e aos demais. Não apenas aprendemos a ter medo, mas também aprendemos a responder ao medo – com maior ou menor grau de sucesso. Este artigo vai explorar algumas das causas do medo, suas consequências e também formas mais satisfatórias de lidar com essa emoção. Por que temos medo? Medo, como outras emoções, evoluiu através de seleção natural para resolver problemas

A melhor forma de combatê-lo é reconhecendo a sua causa e encará-lo quando ele surgir


ir ao colégio) ou mesmo gostaria de fazer (ir a uma festa). Em um contexto no qual somos continuamente punidos frente ao erro, o medo de errar pode ser incrivelmente paralisante.

Ao evitarmos a situação que nos produz medo, experimentamos um alívio temporário do desconforto, mas não resolvemos o problema. […] Portanto, a regra de ouro para superar o medo é: enfrentar.

E o que fazer? Quando o medo se torna um problema – por exemplo, em uma situação de medo irracional ou exagerado –, o melhor a fazer é lutar contra a “evitação” e enfrentar o medo. Ao evitarmos a situação que nos produz medo, experimentamos um alívio temporário do desconforto, mas não resolvemos o problema. E ainda por cima acabamos por reforçar a ideia de que não somos capazes ou não temos recursos suficientes para lidar com a ameaça. Portanto, a regra de ouro para superar o medo é: enfrentar. Outras atitudes podem ser úteis: 1) reconhecer a fonte ou a origem do medo; 2) reconhecer os pensamentos, as coisas que você diz para si mesmo (nossos diálogos internos) e agravam ou mesmo produzem o medo; 3) exagerar intencionalmente as consequências (o

que, realisticamente, de pior poderia acontecer se...); 4) procure produzir uma imagem mental mais positiva (visualize você ainda sentindo medo, mas respondendo ao medo de uma forma mais adequada); 5) converse com um amigo sobre as coisas que lhe causam medo; 6) enfrente o medo se expondo de forma gradual à situação temida. Lembre-se, todos nós temos medo. Eu tenho medo. Meu filho, hoje com 5 anos, possui e verbaliza medos próprios para a idade. Não me recordo onde escutei isso, mas com frequência digo para o meu filho, quando ele me chama e diz que está com medo: “Filho, não tem problema ter medo. Todo mundo tem medo. O que importa não é o medo que se tem, mas o que a gente faz com o medo que se tem. Pega minha mão e vamos lá ver juntos o que está te causando medo”. Como mencionei, a evolução nos dotou com a capacidade para sentirmos a emoção de medo. Cada um, ao longo da sua vida, vai aprender do que ter medo. Mas também podemos aprender sobre como enfrentar melhor aquilo que tememos. © Foto: Ascom PUCRS

A aprendizagem responde por grande parte dos medos que adquirimos ao longo da infância, adolescência e mesmo na vida adulta. Essa aprendizagem pode ser consequência de uma experiência direta (por exemplo, quando alguém aponta uma arma e nos ameaça gritando que vai disparar) ou mesmo de uma forma não direta (por exemplo, quando vemos isso ocorrer com outra pessoa). São todas formas diferentes de aprendizagem. Claro que existem medos mais racionais e, em certo grau, necessários, e medos mais irracionais, que provocam mais sofrimento. Por exemplo, quando aprendemos a ter medo de andar de elevador (algo irracional – pois o elevador não é uma ameaça), isso pode motivar um sofrimento tão grande a ponto de se tornar uma doença – uma fobia. Temos medo não apenas de algo que ocorre no presente, mas também do que pensamos e esperamos em relação ao futuro. Por exemplo, eu posso ter medo de fracassar em alguma apresentação de trabalho em sala de aula (medo ou ansiedade de desempenho) ou mesmo medo de tentar conversar com alguma menina e ser ignorado (medo de rejeição social, que pode ser agravado se esse fato for presenciado por outros colegas). Ansiedade é uma forma ou manifestação de medo, geralmente relacionada ao pensamento sobre uma ameaça ou uma consequência indesejável de algo que poderá ocorrer no futuro. Os efeitos do medo (ou da ansiedade) são bastante reais e podem mesmo afetar sua vida acadêmica (dificuldades de concentração e foco, hipervigilância, estado de alerta constante), sua vida social e familiar, suas atividades de lazer. De fato, em algumas situações, estados mais duradouros de medo podem afetar toda a sua vida, levando-o a um estado de “evitação” e paralisia, impedindo-o de fazer as coisas que você precisa (por exemplo,

Christian Haag Kristensen Doutor em Psicologia, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS.

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Hábitos saudáveis

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Além de ser convidativas, as cores simbolizam os nutrientes diferentes de cada tipo de alimento. Por isso, incentivar a criança a fazer um prato colorido combinando vegetais com uma fonte de proteína ou um cereal (como o arroz, por exemplo) é benéfico. De acordo com o guia alimentar do Ministério da Saúde, alimentação saudável é aquela, entre outros pontos, que "valoriza a variedade, as preparações alimentares usadas tradicionalmente, é harmônica em quantidade e qualidade e é naturalmente colorida". Nesse guia, é possível fazer um teste para saber como andam os hábitos alimentares; e se eles estiverem desregulados há várias dicas para serem seguidas. Dê uma olhada na diferença:

Prato colorido x Prato monocromático ● IDEAL Macarrão integral com molho de tomate e manjericão, peixe grelhado, salada com alface, cenoura ralada e pepino. REALIDADE Comidas industrializadas e fast-food (salgadinhos de pacote, batata frita, pizza congelada).

O macarrão integral dá energia para o corpo e, por ser menos processado, ajuda no funcionamento intestinal, uma vez que contém fibras. O peixe é uma proteína, entendida como um nutriente construtor, ou seja, irá contribuir para a formação saudável dos tecidos do corpo. A salada contém minerais importantes para o corpo, com destaque para a cenoura, que tem vitamina A, famosa por fazer bem para a visão, por ter uma atuação específica na retina. Já as comidas industrializadas e de fast-food fornecem calorias vazias, sem nutrientes para o corpo. Um programa que vale a pena conferir e que oferece várias dicas de alimentação saudável para as crianças é Socorro! Meu filho come mal, do canal GNT, com a nutricionista Gabriela Kapim. FONTES: • Alimentos, nutrição e dietoterapia, de L. Kathleen Mahan e Sylvia Escott-Stump. • Técnica dietética: seleção e preparo de alimentos, de Lieselotte Ornellas. • Guia alimentar do Ministério da Saúde: goo.gl/SscfMT • Socorro! Meu filho come mal: goo.gl/Olteu6

© Foto: Freepik

Por Michele Bravos

PRATO COLORIDO

© Foto: Shutterstock

Alguns hábitos mudam com o tempo, com as gerações, mas alguns devem permanecer. Crianças que crescem em um ambiente de hábitos saudáveis se desenvolvem melhor em vários aspectos, não só biológicos, como interpessoais e cognitivos. A seguir, listamos dois hábitos saudáveis que nunca estão ultrapassados. Que tal retomá-los com os pequenos?

são sempre atuais


DORMIR O SUFICIENTE Com a rotina atual e os atrativos tecnólogicos que fazem qualquer um – crianças e adultos – perder a hora, é preciso que os pais também revejam sua rotina em casa para incentivar as crianças e adolescentes a dormirem o suficiente para seu descanso e desenvolvimento adequado. De acordo com estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em média as crianças e adolescentes entre 3 e 14 anos têm dormido menos do que o necessário.

Dormir o suficiente x Dormir pouco● IDEAL De 10 horas e 30 minutos a 11 horas por noite.

© Foto: Bigstock

REALIDADE De 8 a 10 horas

© Foto: Shutterstock

Esse tempo reduzido de sono pode trazer malefícios, como afetar o crescimento, uma vez que o hormônio do crescimento está ligado ao sono, influenciar na capacidade de aprendizado e até interferir nas relações interpessoais, por conta de uma irritabilidade maior. Para a enfermeira e pesquisadora Rosa Mendes, da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, é preciso também considerar o ritmo biológico de cada criança. Algumas apresentam hábitos mais matutinos, sendo difícil ir dormir mais tarde; e outras cultivam hábitos mais vespertinos, indo naturalmente dormir mais tarde. De acordo com seus estudos, isso deve ser levado em consideração no momento de escolher o horário em que a criança irá à escola, pois isso influenciará na quantidade de horas que ela dormirá e, consequentemente, no seu desempenho escolar. FONTES: • Revista Neurociências, da Unifesp: goo.gl/rbhAp4 • Revista de Enfermagem, da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra: goo.gl/8XPFAL

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solidariedade

Juntos pela criação pela criação de de soluções inovadoras

Realizado em 150 países, o Startup Weekend reúne pessoas interessadas em pensar e desenvolver ideias que transformem uma determinada realidade Diariamente, lidamos com problemas que nos levam a pensar em soluções práticas. É claro que muitas ideias acabam sendo engavetadas e esquecidas, mas, por vezes, algumas saem do papel e ganham o mundo. Prova disso são as grandes empresas que surgiram no cenário contemporâneo baseadas no modelo de startup, como Google e Netflix. Mas, afinal, o que é startup? Em tradução livre do Inglês para a língua portuguesa, significa a ação ou processo de definição de algo em movimento. Segundo especialistas das áreas de economia e finanças, o termo começou a ser difundido nos Estados Unidos durante a chamada bolha da internet, entre 1996 e 2001. O seu significado remetia a um grupo de pessoas trabalhando com uma

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Mais de 50 horas de construção coletiva e integração.

ideia diferente que, aparentemente, poderia render dinheiro. Além disso, iniciar uma empresa sempre foi chamado de startup. A partir desses conceitos, é possível compreender a proposta do Startup Weekend, promovido pela ONG norte-americana UP Global. O principal objetivo é proporcionar eventos de empreendedorismo prático, por meio dos quais são fomentadas ideias de inovação. Desde sua criação, em 2007, já foi realizado em 150 países e trouxe à tona projetos altamente reconhecidos. Um deles é o aplicativo Easy Taxi, cuja ideia nasceu em 2011, durante o Startup Weekend Rio. A metodologia tem caráter colaborativo e voluntário, com duração média de 54 horas. Durante um fim de semana, pessoas previamente inscritas formam grupos para pensar em resoluções que atendam a um contexto específico.

EMPREENDEDORISMO A SERVIÇO DA COMUNIDADE Em setembro, o Centro Social Marista de Porto Alegre (Cesmar) sediou a sexta edição do evento em Porto Alegre. O Startup Weekend Comunidades, promovido em parceria com a PUCRS e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-RS), buscou soluções de negócios para o bairro Mario Quintana, na Zona Norte da capital gaúcha. Mais de 100 pessoas estavam envolvidas na maratona de negócios, entre participantes, mentores e palestrantes inspiradores. “Incentivar o empreendedorismo é fomentar o trabalho, a criatividade e a inovação. Quando estamos inseridos em contextos de vulnerabilidade social, essa ferramenta educativa se torna ainda mais poderosa”, ressalta o Ir. Luciano Barrachini, gerente das Unidades Sociais da Rede Marista.


O DIA D O momento mais esperado do Startup Weekend Comunidades – Porto Alegre chegou com o último dia do evento: as apresentações dos sete grupos participantes e a escolha dos vencedores. A banca avaliadora, formada por convidados externos, teve a tarefa de selecionar os três primeiros colocados. Os mentores ainda tiveram a missão de escolher o grupo que foi Zero to Hero, ou seja, o que mais cresceu ao longo da maratona. Veja quais foram as ideias: PROTEPEK: Telhas que resistem à chuva de granizo. SOCIAL: Aplicativo para coletar denúncias e ajudar a resolver os problemas da comunidade. CULT: Dispositivo para ajudar os produtores de eventos da comunidade a ter melhores canais e estratégias de marketing. GAME EMPREGO: Aplicativo para facilitar a inserção do jovem no mercado de trabalho. MÍDIA DI VILA: Mídia independente e plural para divulgar os artistas da comunidade, que não têm espaço na mídia tradicional. EASY TARGET: Dispositivo para ajudar os pequenos negócios da comunidade a ter mais visibilidade. CESTA VIVA ORGÂNICOS: Incentivar a comunidade do bairro Mario Quintana a melhorar a sua alimentação e gerar renda por meio da agricultura urbana.

© Fotos: Acervo da Gerência Social

No primeiro dia do evento, os empresários Elaine Deboni e Cristiano Bronzatto relataram as suas experiências empreendedoras para o público. Em seguida, os participantes foram incentivados a pensar em resoluções para os anseios e necessidades dos moradores locais. As ideias foram compartilhadas e, posteriormente, votadas. Cada participante tinha direito a três votos. No fim da noite, os sete projetos que mais receberam votos foram os selecionados para a maratona e os participantes escolheram o time no qual iriam trabalhar nos próximos dois dias. Com o apoio e a expertise de dez mentores voluntários, os times se dedicaram, já no início do segundo dia, ao processo de criação e estruturação de seu negócio. Utilizando metodologias práticas para a elaboração de projetos, os grupos começaram a organizar a sua empresa, elencando prioridades e estabelecendo diretrizes. Os mentores também mergulharam em cada iniciativa, dando apoio técnico e moral para os times e os projetos. Na parte da tarde, os participantes saíram para visitar moradores da comunidade e ver se a solução que eles haviam pensado para o bairro tinha, de fato, relevância para os principais interessados. Após testarem as suas ideias, eles retornaram ao Cesmar com novos desafios.

CONFIRA A OPINIÃO DE QUEM PARTICIPOU “O Startup Weekends Comunidades – Porto Alegre foi o espaço para colocar as problemáticas sociais em primeiro plano. Os próprios moradores do Mario Quintana trouxeram soluções, inovando, empreendendo, aprendendo, sendo escritores de suas próprias histórias.” Ricardo Brodt Leistner, educador “O evento promoveu o engajamento na busca de transformar nossas ideias em produtos e formar empreendimento. Também representou um espaço para educandos e educadores trabalharem juntos de forma horizontal. Que sejam realizados no Cesmar muitas atividades como essa, que nos impulsiona a desenvolver novos conhecimentos e habilidades.” Felipe Santos da Silva, educador “O evento foi excelente e proporcionou a criação de grandes ideias. Interessante o foco para comunidades, estimulando o desenvolvimento das cidades.” Kevyn Raphael Xavier de Souza, educador

VENCEDORES DO STARTUP WEEKEND COMUNIDADES – PORTO ALEGRE De 16 a 18 de setembro: Cesta Viva Orgânicos foi o grande vencedor do Startup Weekend e passa, agora, a fazer parte dos projetos da Incubadora Social da PUCRS. Em segundo lugar ficou o Mídia Di Vila e em terceiro, Protepek. Ambos receberão mentoria também da universidade. A menção honrosa ficou para o Cult. Além da premiação, o grande resultado do evento foi a disseminação da cultura do empreendedorismo na comunidade do bairro Mario Quintana.

Mentores de diferentes áreas deram apoio técnico aos participantes.

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© Foto: Virgínia Reginato

como fazer

Geraldo e Ana Cristina, pais de Beatriz, acreditam que a melhor forma de ensinar tolerância é com atitudes.

Tolerância também é assunto de criança Ensinando tolerância, na prática, em um mundo com tantas diferenças Por Michele Bravos

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Verdadeiro ou falso? O Brasil é um país muito amigável e sem preconceitos. Nos últimos anos, com o grande fluxo migratório para o país e as divergências políticas mais acaloradas, tem se descoberto um Brasil mais intolerante do que se imaginava. Por isso, para a psicóloga Fabrícia Borges, professora da Universidade de Brasília (UnB), a promoção da convivência em espaços diferentes e com pessoas diversas deve ser incentivada desde a infância. "As crianças não têm preconceitos. Elas têm condições de gerenciar a convivência com o diferente melhor do que os adultos", afirma. Em muitas situações, a estudante Beatriz Maneira, 11 anos, do 6o ano do Ensino Fundamental do Colégio Marista Maria Imaculada, em Canela (RS), considera-se uma menina tolerante. "Procuro enfrentar o momento com tranquilidade, observando o que melhor posso fazer ou como me comportar", diz. Ela afirma que é na escola onde mais exerce a tolerância. "Lá existem conflitos e diferenças, então se faz necessário praticar sempre a tolerância". A orientadora educacional Adriana Pizetta, do Marista Maria Imaculada, afirma que desde a Educação Infantil os estudantes podem ser estimulados a uma autoavaliação para que percebam nas suas atitudes

momentos de intolerância. "Propiciamos momentos de formação individual e coletivo que permitem a problematização por meio de casos fictícios e reais. Ao ocorrer um episódio, procuramos questionar os estudantes sobre formas de se chegar a um acordo, valorizando as potencialidades do jovem para superar a intolerância e favorecer o protagonismo. Afinal de contas, ao lidar com as diferenças, podemos aprender muito e amadurecer". Fabrícia ressalta que a forma como pais e professores acolhem o diferente é determinante para o comportamento das crianças: "Eles não precisam falar palavras explícitas, só a forma como tratam o diferente já é suficiente para transmitir uma mensagem positiva ou negativa para as crianças". As grandes intolerâncias cometidas hoje podem ser decorrentes de pequenas atitudes comportamentais, vividas na infância, que manifestavam a inflexibilidade com o diferente. Por isso, é importante que pais e professores estejam atentos, não só às suas falas, mas ao seu modo de agir também. Para o pai de Beatriz, Geraldo Maneira, a tolerância deve ser estimulada por meio de ações e exemplos. "De nada adianta propor ensinamentos se não justificamos com atos aquilo que defendemos", conclui.


PAÍS INTOLERANTE De acordo com Fabrícia, o brasileiro é, sim, um povo mais egoísta, que luta em benefício próprio. "Basta vermos a questão da corrupção, que é um indício do quanto não pensamos no bem coletivo". Para ela, a intolerância é uma marca do povo brasileiro, atrelada à história do País. Sendo assim, para se falar de tolerância por parte dos brasileiros em 2016, será preciso voltar lá atrás, na época do Descobrimento. Segundo Fabrícia, não é possível esquecer as marcas que um país sofre, pois isso reflete nas atitudes e no comportamento dos seus cidadãos. "A forma como o Brasil foi colonizado implantou um estigma de baixa autoestima na população. Considerando isso, o brasileiro vive uma ansiedade por ter que parecer superior aos outros, o tempo todo. É uma ansiedade por reconhecimento, por afirmação". Ela sugere que é essa luta por reconhecimento que leva a posturas inflexíveis. Geraldo, pai de Beatriz, acredita que é preciso haver um esclarecimento entre o que é ser tolerante e o que é ser conivente com más práticas: "Devemos exercer uma tolerância ativa e consciente, limitando-a aos compromissos que devemos ter como cidadãos, pessoas cumpridoras de seus deveres e seu compromisso com a comunidade. Se aceitarmos passivamente, passaremos a ser coniventes com as más práticas".

EXPRESSANDO IDEIAS Tais discursos intolerantes têm sido mais evidentes devido à facilidade com que as informações se propagam. Não necessariamente as pessoas estão mais intolerantes, mas as expressões disso estão mais evidentes. "Tenho a impressão de que as pessoas estão se sentindo mais livres para expressar o que pensam", diz a psicóloga. Ela comenta que as redes sociais sustentam um distanciamento seguro para emitir opiniões intolerantes.

O desenvolvimento de posicionamentos mais tolerantes pode ser promovido nos núcleos primários de sociabilização: casa e escola. Fabrícia acredita em uma relação cúmplice entre família e instituição de ensino. Adriana reforça que a escola precisa analisar e problematizar situações de intolerância, visando à reflexão de atitudes corriqueiras entre os estudantes e também situações apresentadas nas mídias ou que fazem parte da história da sociedade. "Trabalhamos muito com a reflexão por meio de diversas propostas: desde a prevenção até a resolução de possíveis conflitos". O pai de Beatriz lembra a importância de os pais estarem presentes no cotidiano dos filhos para orientá-los sobre o que é certo e errado, para assim poderem agir de forma tolerante. "Na atualidade, as crianças ficam muito expostas a tudo. Por isso, fazemos questão de, prioritariamente, estar presentes na formação e no dia a dia da Bia, para que possamos, nesse processo, fortalecer bons hábitos e ajudá-la na definição de seus conceitos e personalidade". "Devemos riscar a frase 'Eu não posso falar sobre isso'. Todos podem falar sobre tudo, só que a partir de pontos de vista diferentes. O que é muito importante", diz Fabrícia. Isso significa que não cabe apenas à escola falar sobre gênero, por exemplo. Isso deve ser abordado em casa também. Ouvindo percepções diferentes sobre um mesmo assunto é que se pode contribuir para a formação de um cidadão e de uma cidadã mais tolerantes.

Devemos exercer uma tolerância ativa e consciente, limitando-a aos compromissos que devemos ter como cidadãos, pessoas cumpridoras de seus deveres e compromisso com a comunidade.

TOLERÂNCIA NA PRÁTICA A revista Em Família, com a contribuição da orientadora educacional Adriana Pizetta, do Colégio Marista Maria Imaculada, listou algumas práticas que podem ser aplicadas no dia a dia da família e que contribuem para o exercício da tolerância: 1 escutar atentamente; 2 estimular o contato pessoal sem intermédio das redes sociais; 3 incentivar a expressão e valorização das emoções; 4 promover a empatia, destacando a capacidade de se colocar no lugar do outro; 5 manter um clima harmonioso no ambiente de convívio, estruturando rotina, disciplina e limites.

Indicações Livro A sabedoria dos monges na arte de liderar pessoas O autor Anselm Grün fala sobre liderança nos dias de hoje e como um líder deve promover o crescimento daqueles que lidera, valorizando as pessoas e suas particularidades. O livro também aborda a necessidade de auto-observação, sugerindo que o autoconhecimento levará a uma liderança saudável.

Filme Um sonho possível Um filme sobre a quebra de preconceitos mostrada por meio da relação entre uma família branca milionária e um jovem negro do subúrbio.

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compartilhar Confira nesta edição algumas dicas sugeridas por Monica Bertoni dos Santos, assessora da área de Matemática dos Colégios Maristas, para tornar a aprendizagem mais leve e divertida METRO CÚBICO

POLIEDROS DE PLATÃO

TORRE DE HANÓI

UMA VISITA AO MUSEU O Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS oferece um setor exclusivo de Matemática, repleto de atrações para jogar, observar, interagir e aprender muito. Um dos experimentos é a torre de Hanói, um jogo antigo com cinco discos de raios diferentes e três pinos iguais. Ele possibilita elaborar fórmulas de funções exponenciais para calcular o número mínimo de movimentos necessários para passar todos os discos de um pino para outro com qualquer número de discos. Também permite aplicações de progressão geométrica. Outro objeto de estudo é o metro cúbico, que constitui um cubo maciço e um cubo vazado de 1 metro de aresta (1 m3). Assim, pode-se ter uma ideia muito precisa do espaço ocupado por 1 m3 e entender que equivale a 1.000 litros, compreendendo melhor essa unidade de medida de volume. Pendurados no teto do Museu, cinco grandes sólidos com faces iguais representam os poliedros de Platão, que possibilitam a construção de diferentes poliedros a partir de suas planificações. Assim, as crianças fazem suas próprias descobertas sobre os conceitos da Geometria.

PARA ASSISTIR E APRENDER Disponível em DVD e no YouTube, Donald no país da matemágica é garantia de diversão e aprendizado em família. O Pato Donald, com seu jeito divertido e sua voz característica, nos faz entrar no mundo mágico da Geometria, abordando-a em diferentes contextos e nos fazendo compreender que a Matemática está presente no mundo e na vida – nas coisas da natureza e nas criadas pelo homem. Também há outros vídeos que nos divertem e nos ensinam a apreciar a Matemática, como: A história dos números, A história do número 1: como tudo começou, Turma do Pateta: gênio da matemática e Matemágicas.

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JOGOS E BRINCADEIRAS Pode-se desenvolver o raciocínio lógico, usar estratégias, tomar decisões e aprender conceitos e procedimentos matemáticos de maneira lúdica, tanto no ambiente escolar quanto no ambiente familiar, utilizando jogos e brincadeiras. Pular corda, brincar de esconde-esconde, jogar bolinhas de gude e pular amarelinha são exemplos de brincadeiras infantis que desenvolvem habilidades matemáticas. Os jogos também propiciam o aprendizado, a atenção e a sociabilidade, como o tangran, os blocos lógicos, o xadrez, a torre de Hanói, o resta um, o sudoku, os jogos com tabuleiros (numéricos ou não), labirintos, trilhas e dominós.

LEITURAS PARA TODOS OS GOSTOS Há exemplos de bibliografia que trazem uma visão diferenciada da Matemática, com uma linguagem acessível para pessoas de todas as idades. É uma literatura que desvenda os mistérios dessa área do conhecimento, proporcionando o entendimento de que ela está presente de forma integral na nossa rotina. Nos livros de Malba Tahan, como O homem que calculava e As maravilhas da matemática, estão reunidos pequenos episódios, dados históricos, problemas pitorescos, definições e outros temas ligados ao mundo da Matemática. Outra recomendação é o livro interdisciplinar Rápido e devagar: duas formas de pensar, de Daniel Kahneman, que aborda diversos temas das ciências humanas. Para os pequenos, a indicação é o Almanaque Ruth Rocha, que contém várias histórias, brincadeiras, piadas, adivinhações, poemas e brinquedos para construir com as crianças, além de muitas outras surpresas.

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diversão

Brincando de

Uma experiência científica pode ser uma brincadeira que produz conhecimento. A professora Lisandra Amaral, assessora da área de Ciências da Natureza dos Colégios Maristas, sugere que esse momento de diversão também seja usado para instigar as crianças a serem questionadoras e investigativas.

Por meio da ludicidade, existe a possibilidade de se oportunizar situações que serão um meio para a construção do conhecimento.

FLORES AZUIS

Ela afirma que, mesmo em uma brincadeira, é possível encontrar conhecimento científico, tendo em mente os princípios da observação, do levantamento de hipóteses e das comparações. Lisandra reforça que as atividades lúdicas podem ser intencionais, levando a criança a pensar além da diversão e a chegar a ideias mais concretas sobre determinado assunto.

A seguir, duas brincadeiras científicas para pensar com a criançada.

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AREIA MOVEDIÇA


SER CIENTISTA!

Que tal passar um tempo com os filhos realizando algumas experiências científicas? Por Michele Bravos

É possível criar flores de cores diferentes do habitual, como azul, verde, roxa, apenas dando água para elas! A ideia aqui é fazer uma flor azul. Quando ela for colocada em um vaso com água, ela irá absorver o líquido para sobreviver. A água absorvida chegará até as suas pétalas, modificando a sua cor. Se na água houver corante azul, por exemplo, por um processo natural de nutrição da planta – como já explicado –, as pétalas também ficarão azuis.

Você vai precisar de: • • • •

1 VASO COM ÁGUA 1 ROSA BRANCA 1 ALICATE CORANTE

Como fazer: Encha o vaso de água e misture o corante. Quanto mais corante você colocar, mais forte ficará a cor das pétalas. Coloque a flor branca dentro do vaso. Espere 24 horas e pronto! Você criou uma flor azul! A opção escolhida aqui foi a rosa branca. Caso escolha outra flor, o tempo de mudança de cor pode ser outro. Isso faz parte da experiência.

DICA DA PROFESSORA Vamos ampliar o nosso conhecimento e fazer com outras flores? Será que acontece o mesmo? E se fizermos com flores coloridas? A partir de quantas horas as pétalas começam a ficar coloridas?

Você vai precisar de: • • • •

1 BACIA 500 g DE AMIDO DE MILHO APROXIMADAMENTE, 2 XÍCARAS DE ÁGUA CORANTE (opcional)

Como fazer: Coloque na bacia o amido de milho, a água e o corante. A quantidade de corante depende da tonalidade que se pretende dar à mistura. Mexa até estar homogênea. A mistura deve ficar consistente, mas não sólida. Se for preciso, coloque um pouco mais de água para acertar o ponto. Agora, coloque as pontas dos dedos, lentamente, sobre a superfície. Você vai sentir sua mão afundando e as pontas dos seus dedos tocarão a base da bacia. Tente retirar os dedos, você vai sentir uma resistência, uma força puxando para baixo. No entanto, se você bater os dedos bem rápido na superfície, ela ficará dura como se fosse um chão. Sua mão não afundará!

DICA DA PROFESSORA Que tal testar essa experiência com objetos diferentes? Vamos descobrir quais objetos flutuam e quais afundam. Por que isso acontece?

© Fotos: Michele Bravos

A areia movediça não é uma invenção dos filmes, nem só uma proposta para esta brincadeira científica. Ela existe de verdade. O estado de areia movediça pode acontecer em qualquer lugar que possua areia e água. A água quando ocupa os espaços entre as partículas de areia pode fazer com que a mistura tenha sua viscosidade alterada, fazendo com que elementos possam ser "sugados" para dentro do solo arenoso, de acordo com a pressão exercida sobre ele. Neste experimento, será possível ver e sentir esse princípio.

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© Foto: Acervo Rede Marista

essência

Ir. Alfredo Crestani Assessor da Direção do Colégio Marista Graças

Como estimular

a generosidade nas crianças

© Foto: Freepik

A generosidade é uma dimensão humana que provém do afeto. Ser generoso é ser afetivo; é a disposição interior de ser sensível com as pessoas no ambiente em que vive. A afetividade da pessoa estrutura-se a partir do processo de “dar e receber”. Inicialmente, devido a sua fragilidade física, a criança mais recebe do que dá. Porém, a partir dos estímulos maternos, exercita-se a dar um sorriso, a desferir um olhar atento e penetrante, a ensaiar um balbuciar de sons ainda pouco inteligíveis. Pais e educadores podem estimular a criança à generosidade, falando-lhe sempre com voz afetiva, branda e manifestando proximidade e ternura. Assim, chega o momento em que insistências e recomendações passam a ter valor. Esse proceder do adulto toca o coração da criança, move seus sentimentos e, por imitação, ela tende à reciprocidade. Até esse momento, quase tudo se passa mais em nível não verbal. Porém, a partir do gradativo domínio verbal, a criança vai crescendo na compreensão e as palavras-estímulos-recomendações dos adultos criam nela efeitos mais significativos. Os gestos e as palavras envoltas em ternura convidam a criança a uma maior compreensão do outro e aos primeiros ensaios de empatia. Colocando-se na situação do outro, torna-se capaz de dar um passo que vai além do receber, crescendo na doação pessoal e sentindo a alegria de fazer bem ao próximo. É o processo da generosidade que se instala

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e gradativamente se desenvolve mais ou menos, segundo os estímulos recebidos. A generosidade nada mais é do que esse processo que se torna um hábito nos adultos bem-educados. Todavia, não se pode perder a consciência de que a propensão natural da criança é de ser egocêntrica, pois ainda está fortemente marcada pelo princípio do prazer. Entretanto, o senso educativo dos adultos, a gradativa insistência e apresentação de valores propicia-lhe progredir no caminho da generosidade e da doação de si, preparando-se para a vida adulta. O que não pode faltar-lhe são os estímulos multifacetados que a abrem para o mundo das necessidades do outro. Esse é o itinerário percorrido por quem aspira tornar-se capaz de gestos e de conduta generosa que fazem bem e alegram as pessoas.

A generosidade nada mais é do que esse processo que se torna um hábito nos adultos bem-educados.


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